sábado, 30 de abril de 2016

Este mês em leituras: Abril 2016

Ah, gostei bastante deste mês de leituras, sinto-me tão satisfeita com ele. Fico com a sensação de que li muitas e boas e variadas coisas este mês. É uma boa sensação para se ter.

Livros lidos


Opiniões no blogue


Os livros que marcaram o mês

Perdida, Carina Rissi - não é nada de especial, mas é um livro giro, que dá uns momentos bem-passados, e cuja premissa me caiu no goto;
A Study in Charlotte, Brittany Cavallaro - aqui foram os personagens que me agradaram muito, gostei mesmo de como a autora os caracterizou, e gostei de algumas coisas que ela fez com o enredo e o mundo apresentado;
Because of Miss Bridgerton, Julia Quinn - é Julia Quinn, como não gostar... não é brilhante, mas é muito divertido, e o início duma nova série dela com muito para dar, espero;
A Abadia de Northanger, Jane Austen - foi uma releitura muito bem-vinda, porque me fez ver a história e a sua protagonista sob um novo prisma - adorei a Catherine;
The Serpent King, Jeff Zentner - acabou por se revelar um livro fascinante, com uma descrição do Sul americano cativante, uma bela caracterização dos seus personagens, e uma apresentação muito interessante da religião e de como influencia a vida numa pequena cidade.

Outras coisas no blogue


Aquisições

As aquisições literárias do mês. À esquerda, ao alto, os livros da colecção Super-Heróis DC. Depois, dois livros que adquiri com dinheiro em cartão, o Perdida e o Tu, Eu e Todo o Tempo do Mundo. Já o da Jane Austen comprei por impulso e por curiosidade, porque queria pegar num desta colecção dos clássicos.

Entre os livros deitados, lá em cima, mandei vir a edição em papel do The Proposal, apesar de já ter lido, porque prefiro ter uma versão em papel, como já tenho de todos os outros livros da Meg que li. Encomendei também o novo lançamento da Julia Quinn, claro, e os livros da Meg Cabot para o desafio da autora.

O Something Strange and Deadly foi uma oferta, uma provavelmente demasiado bem escolhida, porque esta autora é parceira de escrita da Sarah J. Mass, e eu gosto muito da Sarah, mas cheira-me que ambas têm um gosto especial em torturar os seus leitores.

Estava muito curiosa acerca do A Study in Charlotte, por isso claro que tinha de vir cá parar; já o The Winner's Kiss, claro que lhe tinha de pôr as mãos em cima, é o último da trilogia. Agora falta ganhar coragem para lhe pegar, que imagino que a autora tenha também reservadas algumas torturas especiais para nós. Seria muito típico.

Por fim, decidi adquirir os livros da colecção de ficção científica do Público. No conjunto, fazem uma lombada bem gira; faltam dois, e estou curiosa para ver o que falta.

A ler brevemente

Tenciono ler os lançamentos de Maio das autoras que sigo, como a Jennifer L. Armentrout, a Sarah J. Maas, a Meg Cabot (este lançamento, e mais um livro para o desafio), e a antologia editada pela Stephanie Perkins, que parece adorável.

Dos livros que ficaram para trás, quero ver se ganho coragem para o Something Strange and Deadly e para o The Winner's Kiss. E para o Tu, Eu e Todo o Tempo do Mundo; já li que a autora escreve coisas emocionais e tortuosas, por isso... parece tanto drama no mesmo mês, céus. Não sei se aguentaria.

Fora isso, quero continuar a explorar as colecções de BD que estou a fazer. Aqui vemos os livros dos Super-Heróis DC.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Owlcrate número quatro e cinco: duas caixas no mesmo mês

Como eu temia, a caixa chegou na semana em que estava de férias. A minha sorte foi que a senhora porteira do prédio ficou com a caixa quando o carteiro a trouxe. God bless her, quando apanha o carteiro com coisas para mim acaba por recebê-las, poupando-me uma viagem aos Correios.

A piada da coisa, que reparei quando abri a caixa: a declaração para a alfândega desta vez não menciona "livro", mas sim "merchandising". E provavelmente por isso, foi a primeira vez que a caixa foi aberta na alfândega. Vinha uma fita adesiva larga colada por cima da original. Acho que acharam que devia ser contrabando (ehehe), ou seja electrónica ou DVDs ou assim, e quando viram o que era, acharam que não valia a pena.

Como só voltei depois do mês começar, acabei por deixar juntar o post com a caixa deste mês; mas quanto a essa, já lá vamos. Vejamos primeiro a caixa de Março.

O livro do mês, The Serpent King, de Jeff Zentner. Estava com um pouco de receio de o ler, por causa de algumas opiniões menos boas, mas acabou por ser uma surpresa simpática. Ao lado, o cartão de apresentação da caixa.

O outro lado do cartão de apresentação (adoro-os, e adoro o seu design). À direita, um pequeno livro de exercícios de escrita curtos, 642 Tiny Things to Write About. Tem um ar super fofo.

Um cartão com uma citação do livro, e uma carta do autor sobre o livro, para os assinantes da caixa de subscrição, como é habitual.

Uns crachás livrescos, da Bookworm Boutique; umas meias de livros censurados/banidos - uma delas com os títulos, outra com os títulos censurados - da Out of Print Clothing; e uma caneta-pena simplesmente adorável da Kikkerland.

E em seguida vem a caixa de Abril, que muito me impressionou. Desta vez tentaram fazer o mesmo que em Fevereiro, mandar a encomenda uma semana antes das domésticas, e funcionou. Chegou mais ou menos ao mesmo tempo que as encomendas estavam a chegar aos subscritores nos EUA, ou seja, consegui nem sequer ser semi-spoilada, o que veio a tornar-se bem raro. Foi mesmo bem feito, desta vez.

O livro do mês é Flawed, da Cecilia Ahern. Tornei-me bastante boa a ter uma boa ideia sobre o livro que vem na caixa, a partir das pistas que vão sendo dadas; no entanto, esta surpreendeu-me. Tinha excluído a Cecelia Ahern porque achei que era demasiado conhecida. Aparentemente isso aplica-se aqui em Portugal, em que ela tem um batalhão de livros publicados, mas não lá fora.

À direita em cima, uma base para copos com uma citação da série Shatter Me, creio que desenhada pela Evie Bookish; por baixo, um caderninho alusivo a 1984, de George Orwell, pela Manuscript (morria se o do Orgulho e Preconceito me viesse para às mãos). Mas este do 1984 é também muito bem-vindo.

À esquerda em cima, o cartão de apresentação da caixa; em baixo, uma tatuagem temporária alusiva ao Flawed, e um íman alusivo aos Jogos da Fome, pela Property of the HalfBloodPrints. À esquerda, um cartão com uma citação do livro The Star-Touched Queen, de Roshani Chokshi. Não diz quem criou, mas parece totalmente uma coisa da Evie Bookish.

Em cima à esquerda está o outro lado do cartão de apresentação. Por baixo, uma carta da autora, como é habitual. À direita em cima, um mini-poster do Flawed, e em baixo uma pulseira alusiva aos Jogos da Fome do The Geeky Cauldron, e uma espécie de autocolante vinílico alusivo ao Maze Runner, da Shailey Ann Designs.

Esta caixa não foi aberta na alfândega, desta vez, mas a declaração para a alfândega também era mais específica e dizia que tinha um livro, uma base para copos, uma impressão, ... (Não, literalmente na declaração diz isto, e tem umas reticências a seguir - uma espaço tão grande para declarar o tipo de produtos na encomenda, e não deixam meter mais texto?)

É claro que não podia ser uma encomenda sem haver algum drama; neste caso, no dia em que houve supostamente uma tentativa de entrega, éramos duas pessoas em casa, e ninguém tocou à porta. Eu bem sei que a campainha está velha e ouve-se mal, mas duas pessoas? Ainda por cima eu pareço o cão de Pavlov quando estou para receber uma encomenda, qualquer som deixa-me alerta.

E depois o carteiro nem sequer pôs o aviso logo, só pôs no dia seguinte, mas com as datas como se tivesse posto o aviso nesse dia. Grrr. Eu nem me importo de ter de levantar as encomendas nos Correios, mas detesto estas trocas e baldrocas em relação a como o serviço devia funcionar.

Ah... enfim. Algo que tenho apreciado neste serviço de subscrição é que nenhuma caixa tem sido igual ou parecida; os itens que não são livros têm sempre sido de tipos distintos, com objectivos variados e estilos de todo o tipo. Nunca tem sido aborrecido. Gosto disso.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Meg Cabot: Runaway, Jinx


Páginas: 320 / 288

Editora: Point / HarperTeen

Sobre o Runaway: eh, podia ser melhor. Como tinha dito o mês passado, gostei imenso da premissa destes livros, e na sua maioria até a trabalham bem... mas dei-me conta que preferia que certos detalhes fossem mais desenvolvidos.

A caracterização de personagens está algo fraquinha - a Emerson devia ser esta pessoa mesmo inteligente, assim como o Christopher, mas levam tanto tempo a perceber o que o Stark está a tramar! Céus, que nervos.

E depois mete uma coisa na cabeça, e tira conclusões precipitadas, e passa o tempo a repetir-nos isso. Ela e o Christopher zangam-se no início, e a Em pensa que eles "acabaram", apesar de nunca terem sido oficialmente namorados, e passa o resto do livro a martelar-nos isso na cabeça. Ugh. Que falta de maturidade. Gosto das minhas heroínas mais razoáveis. Ter 16 anos não é ser idiota.

O enredo também se arrasta muito, sem objectivo bem definido. Primeiro estão todos fechados na casa com o Brandon, e a razão para ficarem ali parece-me fraca... depois andam a correr como galinhas a tentar derrotar o Stark... mas levam imenso tempo a percebê-lo, o que irrita imenso.

Coisas que gostei: já disse a premissa. A maior parte dos personagens, aqueles que não me irritam. A Frida é adorável, o Gabriel também, assim que entra na equipa anti-Stark. A Lulu é tão engraçada, e gosto de vê-la com o Steven, apesar de desejar que eles tivessem mais tempo de antena. A outra Nikki é bastante engraçada, também, mas merecia mais tempo de antena.

Gostei imenso de ver o Stark derrotado, e a maneira como eles o fizeram foi explosiva, teria sido tão excitante de ver ao vivo... acho que só gostava que o livro fosse mais longo e explorasse melhor os personagens, por exemplo.

Sobre o Jinx, bem, acho o Jinx super divertido. Funciona muito melhor como um livro curto que o anterior. A Jean veio para Nova Iorque viver com os tios, para fugir a algo complicado que lhe aconteceu em casa, e é quase como uma história da Cinderela.

Em casa vivia uma vida bastante simples, com montes de irmãos, e em Nova Iorque está com os tios, que têm dinheiro e vivem uma vida abastada. Vivem numa casa brownstone, um sonho, e depressa fazem a Jinx fazer-se sentir bem-vinda. Os primos pequenos são adoráveis, a Jinx adora-os, e dá-se mesmo bem com a au pair, a Petra.

Só que a prima mais velha, Tory, tem um comportamento terrível, sendo egoísta, manipuladora e drama queen. Melhor: acha-se uma bruxa. Literalmente. Acha que tem magia, herdada de uma antepassada delas, que foi queimada por ser bruxa.

Onde o livro faz um excelente trabalho é a criar essa dualidade, e a torná-la credível. Entre o sobrenatural e as circunstâncias da vida. A própria Jinx pergunta-se se não terá poderes, por ter tentado fazer um "feitiço" no passado, e as coisas terem corrido terrivelmente mal.

Contudo, isso é só o panorama para a parte verdadeiramente importante: a trajectória de crescimento da Jean. Ela vem do campo, uma menina simples, com um óptimo fundo moral e uma certa firmeza de espírito, e com o decorrer dos acontecimentos ganha confiança em si própria, tornando-se uma jovem mulher corajosa.

Como disse, gosto imenso do tom e do panorama do livro, a questão da magia, que tem mais charme precisamente por ficar no ar; e gosto mesmo da família dos tios, que é tão fofa e unida. (Bem, talvez não a Tory.) Gosto dos amigos que a Jinx faz na escola; mas acho ainda mais piada ao Zach, que está claramente embeiçado pela rapariga, e ela não topa nada, tão totó. São bem giros juntos.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Uma imagem vale mil palavras: The Huntsman - Winter's War (2016)

Bolas, ao ver isto dei-me conta que não me lembro de muito do filme anterior. O que não é de espantar, porque não foi particularmente memorável, mas acho que foi minimamente divertido, se bem me lembro, e deva jeito eu ter uma base melhor para isto. Ou talvez a falta de memória seja uma benção neste caso.

De qualquer modo, parece-me que ambos os filmes têm algo em comum. Não são obras primas; dum certo prisma, não são exactamente sequer aquilo a que se chama bons filmes. Não que me importe; desde que me divirta, já fico contente por ver um filme de fantasia no grande ecrã.

Em certo ponto, este filme é capaz de ser melhor. Não se leva tão a sério, o que quer dizer que está mais confortável a fazer a sua coisa, e por isso sai-se melhor a fazê-lo. Quanto à questão prequela vs. sequela que tanto me intrigava antes de o ver (sobre qual seria a sua natureza), o filme faz batota.

É que é ambos. De certo modo, até é um retcon, uma reinterpretação e reorganização da continuidade do primeiro filme. A primeira parte apresenta a antagonista, Freya, irmã da já nossa conhecida Ravenna, descobrimos o que a torna na antagonista, conhecemos o conflito principal do filme, conhecemos os protagonistas.

E depois, saltamos sete anos no tempo, para chegar à parte da sequela. A Branca de Neve e o Caçador encaixa no meio deste. Eh. Não consigo decidir se é genial ou não. Consequências disto: bem, hão de haver algumas inconsistências. Mas o resultado final da duologia é pelo menos mais... er, forte? O conceito é um pouco estranho, mas acabei por gostar.

Inconscistência número um: tudo o que me lembro do personagem do Caçador no primeiro filme é que era deprimido e deprimente, provavelmente por causa do seu passado. Aqui? Bem, o Chris Hemsworth canaliza o Thor Feliz da Vida, o que acaba por ser bastante mais divertido. É uma mistura de convencido, e irritante, demasiado optimista, mas bem disposto e animado, o que pode-se dizer que é um melhoramento. O Chris-Thor-Feliz é bem melhor que o Zangado.

Também podemos dizer que é uma inconsistência não haver menção da Freya no primeiro filme, mas ela ainda não havia sido inventada, por isso vamos deixar isto nas mãos do retcon e ficar satisfeitos com isso.

Eu até gostei da Freya, e do que ela representava. O contraponto que era no início à Ravenna, a desilusão que encontrou, as acções que toma. Fascinou-me a criação do seu reino no Norte, e como todas aquelas crianças encontram o seu mundo destruído às mãos dela para serem raptadas para o seu exército. É uma base fantástica para a história, e que até merecia ser melhor explorada.

Outra coisa que gostei bastante: a história acaba por ser uma espécie de herdeira natural do conto da Rainha das Neves. Acho que já toda a gente me ouviu/viu/leu lamuriar o suficiente sobre como detesto mesmo que associem o Frozen ao conto, porque aquilo tem tanto a ver como o branco tem a ver com o preto...

Portanto, vou só dizer que é bom ver algo que tem mais a ver com uma história que tanto aprecio. Os paralelos não são literais, mas a rainha gelada em ambos está a tentar congelar e controlar os sentimentos de outros, e tenta manipular o coração e visão das pessoas para o obter. Só por usar o mesmo tema já tem o meu voto.

O sentido de humor é maioritariamente hilariante. Os anões dão uma necessária e providencial piada à coisa. Acho que toda a gente na minha sessão morria a rir cada que vez que os anões e as anãs se punham a discutir. O humor é às vezes um bocadinho palerma e cliché, mas como não esperava uma obra prima nem nada de novo, fiquei satisfeita.

Queria muito falar sobre a Sara, que é a tal personagem que tinha sido mencionada de passagem como a mulher do Caçador... bem, não tinha imaginado nada disto. Não quero elaborar muito, porque revelar o papel da Sara é parte da piada... mas, vá lá, façam uma série de filmes só para ela. A dar porrada a toda a gente. Nunca tinha pensado na Jessica Chastain como uma personagem de acção, mas funciona. E gosto de como a Sara tem noção do tempo que passou, do que aconteceu desde então, e de como ela tem direito a fazer as suas escolhas.

Gostava que tivessem explorado melhor a relação fraternal da Freya e da Ravenna. De certo modo, é o que guia o enredo, e por isso fortalecer esse aspecto fortaleceria a história. A rivalidade potencial daria sumo à coisa.

Coisas estranhas: mas porque é que insistimos no sotaque? Caramba, é altamente distractivo. Num mundo de fantasia não há sotaque escocês, ou lá o que era. Além disso, é giro rever boa parte do elenco principal do original (o Sam Clafflin estava adorável), mas precisávamos de ser mesquinhos e cortar inteiramente a Kristen Stewart por questões pessoais? Ugh. A única coisa que vemos da personagem dela é as costas. Parece parvo. Tecnicamente, é ela que interage inicialmente com o espelho, e lança a demanda do Caçador.

Coisas mesmo boas: o design, o visual. Caramba, os vestidos são novamente extraorinários, detalhados, lindos, um colírio para os olhos. Os efeitos do espelho, fantásticos, As "armas" da Ravenna, uau. Até ouro e alcatrão fazem parecer excitante. Gelo em todo o lado. Já falei dos vestidos bonitos?

Oh, well. Diverti-me e é o que interessa. Se começar a escavar é claro que começo a encontrar buracos. Mas agora não me apetece partir a cabeça a pensar nisso. Vou só deixar que realmente saí surpreendida da coisa. Não estava à espera de nada de especial, e por isso tudo o que vem à rede é ganho.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Northanger Abbey, Jane Austen


Opinião: Oh, bolas, agora mal consigo acreditar em como este livro não é mais apreciado. Eu própria li o livro pela primeira vez há 6 anos, e que diferença isso faz. Não lhe dei o devido crédito na altura; com um bocadinho mais de maturidade e de experiência literária, posso apreciar muito mais o que tenho nas mãos.

A questão que é mais fácil de destacar primeiramente é a sátira aos romances góticos muito em voga na época em que Jane Austen escrevia, e o quão ela parece estar a divertir-se com isso. A sério, o livro é escrito com um narrador bastante omnisciente e que "fala" connosco, sempre fazendo piadinhas ao estilo de história parodiado. Como a Catherine não é o tipo de heroína certo, como a sua vida teria sido se fosse a protagonista desse tipo de livro, como num livro gótico isto e aquilo aconteceria... oh, simplesmente impagável.

A outra coisa que gostava de destacar, e que merece mesmo: a própria protagonista, a Catherine. Oh, é fácil descartar a Catherine como uma tolinha. Mais trabalhoso, mas infinitamente mais recompensador, é mergulhar na caracterização que a Jane faz dela.

Ora vejamos: a autora diz-nos logo que a Catherine não é material de protagonista. Não é bonita - o que aqui leio como não sendo bonita pelos padrões de época, já que é descrita como esguia, pálida e com traços pronunciados. O que me soa a que ela seria uma modelo nos dias de hoje, mas posso ser eu a projectar, e vale o que vale.

A Catherine é ingénua, e inexperiente. Ela vive numa terra pequena, mas numa família numerosa, rodeada de irmãos. Não foi obrigada a estudar, se não estivesse para aí virada. O que significa que nunca foi estimulada, social e intelectualmente.

O que soa a como se fosse uma tonta, é verdade. Grande parte das interacções sociais que ela tem com os outros personagens acabam por ter uma segunda camada, e como a Catherine é inexperiente, ela não se apercebe da mesma - como os Thorpe, volúveis interesseiros escondidos sob a ilusão da amizade.

O contraponto é que isto não quer dizer que a Catherine seja burra ou desinteressada. Quando finalmente ganha alguma experiência social, ela percebe melhor os motivos e acções dos Thorpe; e ao conviver com os Tilney, começa a sentir-se mais à vontade na sua pele. Melhor, a convivência com os Tilney fá-la querer ser mais instruída, e interessar-se por coisas que não lhe captavam a atenção até então.

São muito bons sinais que vemos, de uma miúda a evoluir para mulher. Isto podia ser quase uma história YA, se pensarmos bem nisso. Ainda mais, ela tem um bom fundo, e gosto bastante desta parte da sua personalidade - a Catheine tem um clérigo como pai, e tem provavelmente por causa disso um bom sentido moral. E por mais convincentes que tentem ser com ela, e por mais peer pressure sobre ela que haja, ela é firme nos seus princípios. Há que louvar isso.

Até na questão das leituras góticas ela cresce um pouco. A Jane diverte-se imenso, no meio do sarcasmo, a dizer como os críticos descartam o romance, não o considerando uma leitura séria e digna de atenção. Um pouco como hoje, se formos ver bem, com o romance ou outros géneros considerados "indignos". Heh. Bom ver que não evoluímos nada em 200 anos.

Bem; onde eu queria chegar é que a autora escreve de modo a satirizar essa ideia e nunca suportá-la. Não são os romances que são um perigo para a Catherine. É ela própria e a sua imaginação hiperactiva. Não há nada de errado em ler e mergulhar numa história e vivê-la; há em não separar ficção da realidade, em projectar uma na outra, o que a Catherine na sua jovem inexperiência faz; mas quando compreende os seus erros, arrepende-se profundamente de ter deixando a imaginação ir tão longe.

Portanto, sim, a Catherine é uma miúda normal, duma família nem pobre nem rica, apenas autossuficiente e capaz de lhe dar um dote. Não tem a maturidade duma Anne nem a inteligência duma Elizabeth, a temperança duma Elinor, a constância duma Fanny ou a sociabilidade duma Emma. Não é particularmente heroinesca, e ainda assim faz uma protagonista cativante. É refrescante a sua ingenuidade, e fascinante ver a sua evolução nas páginas.

Título original: Northanger Abbey (1818)

Páginas: 240

Editora: Relógio D'Água

Tradução: Madalena Donas-Botto

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Curtas: Graphic Novels da Marvel, vols. 6 a 8

Supremos: Super-Humanos, Mark Millar, Bryan Hitch
Eu creio que isto já deve ter sido publicado em Portugal, e eu quase de certeza que já li. Não me lembro da maioria da história, mas lembro bem da recta final, da conversa do Tony com o Thor e o Capitão, da sua revelação, e do conflito do Hank Pym e da Vespa. Uma boa descrição do livro, mesmo. As partes de acção/porrada não são particularmente memoráveis, o resto é que é interessante.

Bem, suponho que poderia apreciar isto melhor se não fosse essencialmente um reboot, e se eu fosse audiência para histórias de origem. Em parte a sensação é been there, done that. Por outro lado, as ideias base por trás da coisa são minimamente interessantes, o que contrabalançou isso.

Acho piada à ideia de fazer dos Vingadores Supremos umas celebridades usadas politicamente, dá, na sua origem, uma dependência da equipa ao panorama político e à opinião pública. Também me interessou a maneira como são apresentados: o Capitão a rever as pessoas do seu passado, o Thor um hippie anti-capitalista e anti-corporativista, a Vespa, o Gigante e o Bruce Banner a trabalhar num projecto para recriar o Super-Soldado. (Bastante divertido: toda a gente a gozar sobre quem faria deles num filme, anos antes dos filmes Marvel

Do que eu não gosto: ver, pela milionésima vez, o quanto ninguém sabe lidar com o Bruce Banner. É sempre a mesma coisa, em todo o lado. Sim, o tipo é responsável pela existência do Hulk. Mas a melhor maneira de lidar com ele é desprezando-o? Gozando com ele? Fazendo-o sentir pequenino a cada passo, como se não pudesse contribuir para o objectivo da equipa? Bem, se acham mesmo isso, é bem feita que ele depois se passe e tenham de lidar com o Hulk.

Ugh. Ainda não li uma história que me agradasse realmente com o Hulk. Bem, talvez o Hulk: Cinzento. Corrijamos isso para uma história que lide bem com o equilíbrio entre os dois lados do personagem. Ou temos histórias que metam o Hulk a destruir tudo no seu caminho, ou histórias só com o Bruce, nada de Hulk. Céus, não há por aí uma história que mostre realmente a angústia que é ser um cérebro sem controlo sobre a besta interior?

Guerra Secreta, Brian Michael Bendis, Gabriele Dell'Otto
Bem, quando o Nick Fury fica paranóico e amedrontado, o homem vai mesmo até às últimas consequências. Nesta história de espionagem e traição, um grupo de super-heróis da Marvel descobre a sua participação numa revolução política, involuntariamente esquecida; participação essa que os coloca agora em perigo.

Gostei muito do tom do livro, mistério e espionagem e paranóia misturados. A primeira parte do livro monta muito bem a intriga e o suspense, e permite fazer virar as páginas vorazmente; e tem momentos engraçados, ainda assim - o Wolverine no avião, por exemplo.

A segunda parte é um pouco mais fraca; há demasiada exposição. É-nos dito o que aconteceu, em vez de revelado, e é tudo tão dado de colo que é algo aborrecido, quando a história até ali era bem interessante.

A verdadeira estrela do livro, no entanto, é a arte. Linda, linda, fascinante. Adoro estilos assim, como se o trabalho artístico fosse uma pintura.

Demolidor: Diabo da Guarda, Kevin Smith, Joe Quesada
Ok, este deixou-me dividida. O Demolidor parece ser um personagem complexo, complicado, a tender para dramático, mesmo; e nesse aspecto a história encaixa com ele. Os acontecimentos trágicos, a crise de fé, a montanha-russa emocional: nisto os autores acertaram, apanharam e desenvolveram elementos do personagem que fazem parte dele, encaixam na sua história e personalidade.

Os dilemas religiosos e morais que se põem ao Matt são interessantes de acompanhar, assim como a angústia, o drama, a dúvida. Podia ser exasperante com qualquer outro, mas com este personagem funciona. A fasquia é alta, e uma série de coisas das quais não se tem retorno acontecem, e são em parte fascinantes pelo que provocam na história. (Em parte são parvas, mas já lá vamos.)

Contudo, há qualquer coisa na construção da história que me parece fraquita, a maneira como o enredo evolui, toda a coisa convoluta de gente diferente vir dizer que um bebé é o salvador ou o anticristo. Epá, é uma coisa que mostra uma certa inteligência do vilão, que percebeu o que move o Matt, mas a maneira como é apresentada é desnecessariamente enrolada, e não faz bem o equilíbrio entre sobrenatural e psicológico.

Há outros elementos que também enfraquecem a história; a revelação é surpreendente e desapontadoramente mundana, depois de tanto elemento místico, e a revelação do vilão é mesmo info-dump até ao fim. Também não sou fã da situação com o Foggy, muito menos a da Karen, que dá cabo da rapariga duma maneira... antes sequer da sua participação na história terminar.

A arte é deveres cartoonesca, abonecada, o que não incomoda e até é giro, em partes... as cores e o traço enchem o olho. Mas depois há partes em que é... exagerada? Principalmente nas caras, que pareciam quase caricaturas.

domingo, 17 de abril de 2016

A Study in Charlotte, Brittany Cavallaro


Opinião: Nesta versão/adaptação Sherlockiana, a premissa é que os personagens existiram mesmo, os livros foram escritos mesmo pelo Dr. Watson (acho que o Doyle foi o "editor" dele), e tiveram ambos descendentes, e as famílias sobreviveram até hoje, mantendo (eu diria até cultivando) os traços dos dois personagens icónicos.

O Jamie (ele prefere James, mas enfim, ninguém lhe dá ouvidos) Watson ganhou uma bolsa de râguebi para uma escola-internato americana, onde coincidentalmente estuda a Charlotte Holmes. Ora ambos são alguns dos elementos mais jovens de cada família, mas nunca se cruzaram, e da parte do Jamie (o narrador), a curiosidade é muita.

Oh, e quando os dois se cruzam, é fantástico de ver. O Jamie é puramente rapaz adolescente, com um ligeiro problema de deixar a raiva vir-lhe à flor da pele, talvez demasiado emocional para o seu próprio bem. E quando apanha um colega a dizer coisas menos próprias da Charlotte, dispara uns murros. (Mesmo sem a conhecer, o que é em parte porque o Jamie já tem um fascínio por ela, mas também porque tem uma imagem mental dela que não corresponde à verdade.)

O melhor de tudo é que a Charlotte os descarta aos dois na mesma cena, pondo-os no mesmo saco. A melhor introdução que podíamos ter. Só que, entretanto, o rapaz morre, e por causa desta altercação, a Charlotte e o Jamie são os principais suspeitos; o que os junta para desvendar o mistério e limpar o seu nome.

É claro que o livro é muito mais que isto, mas revelar mais faria a história perder a piada. Vou dizer que grande parte do interesse se prende com a relação dos dois personagens principais. Começam com uma posição algo contrária, e juntam-se pela necessidade, mas rapidamente estão a colaborar na investigação, quase como iguais. Não totalmente, porque a Charlotte tem alguns problemas em confiar, mas perto o suficiente.

Contudo, há uma cumplicidade crescente, e gosto bastante disso, a sensação de que não os acompanhamos a todos os momentos, mas eles se vão aproximando mesmo quando não estamos a ver. Nem todos os autores são bons a desenvolver uma relação entre dois personagens por trás das cortinas, sem ter de mostrar todos os momentos, mas a Brittany consegue fazê-lo. A certo ponto ambos estão a resmungar um com o outro como um casal que está junto há muito tempo, e é adorável.

Achei bastante interessantes as personalidades de cada um; o Jamie, como disse, é tão tipicamente rapaz adolescente, com um controlo ténue sobre as suas emoções. É muito interessante como ele é o emotivo do par, sendo rapaz, virando os papéis de género do avesso. E ainda assim, prova-se um parceiro valoroso, um bom oposto para a Charlotte. Gosto de ver que se preocupa com ela, e que tenta fazê-la afastar-se dos comportamentos destrutivos dela.

A Charlotte, bem, é mais difícil de gostar, o que é inteiramente o propósito. Não me consegui impedir de o fazer, de qualquer modo, desde a primeira cena dela. Há muito que ela retém do seu antepassado, coisas boas e más, mas é a sua própria pessoa, com a sua própria maneira de lidar com as coisas. Acho a sua perspectiva cativante.

O mais interessante acerca dela é a pesada herança familiar. É como se o papel dos antepassados de cada família os fizesse sentir obrigados a comportar-se dessa maneira. Também há Moriartys, e esses sempre funcionaram à margem da lei. Os Holmes estimulam o abandonar das emoções, o foco na lógica, na dedução, e treinam os seus desde novos, aparentemente.

A Charlotte foi educada assim, o que é capaz de ter dado cabo dela, em parte. A pressão para viver sob os padrões da família leva a que tenha alguns comportamentos destrutivos, e assuma um feitio difícil, o que combinado com ser ainda jovem, uma adolescente com tudo o que isso implica em termos de comportamento, e ter passado por coisas complicadas, não ajuda nada.

Gostava de destacar o Milo, o irmão mais velho da Charlotte, porque achei bastante piada à relação deles. Há uma certa competição nas deduções, mas também um ligeiro paternalismo derivado do Milo ser mais velho; e o Milo é bastante um Mycroft moderno, com uma empresa de segurança privada, sendo sugerido que trabalha em inteligência com agências governamentais.

O enredo foca-se no desenvolvimento da relação Jamie-Charlotte, no crescente entendimento deles sobre a personalidade do outro, mas também tem um mistério no seu centro. (Dois, aliás. O mistério de Charlotte Holmes, que o Jamie quer desvendar, é um deles.) Há um assassino que recria as mortes de As Aventuras de Sherlock Holmes como um desafio para os dois; e não é totalmente surpreendente ou cheio de reviravoltas, mas é-o o suficiente.

Houve surpresas suficientes para me manter interessada e comprometida com o desenrolar dos acontecimentos. Há um sadismo por trás dos actos do culpado, e uma razão para o fazer, e até vários cozinheiros a fazer o bolo, se assim posso dizer.

Há um fecho, mas também uma promessa de mais, e isso deixa-me extremamente curiosa acerca do que se reserva para a Charlotte e o Jamie. Eles têm o meu interesse, e gosto da história, do conceito e dos personagens, por isso vai-me ser custoso esperar algo como um ano para poder ler mais.

Páginas: 336

Editora: Katherine Tegen Books (HarperCollins)

sábado, 16 de abril de 2016

Because of Miss Bridgerton, Julia Quinn


Opinião: Ah, que saudades que eu tinha da Julia Quinn. Muitas mesmo. Há tanto tempo que não a lia. Minha culpa, inteiramente, porque quando andava a ler os Bridgertons a série Smythe-Smith estava a sair, e eu achei melhor esperar para ler quando todos os livros tivessem saído, só que distraio-me facilmente, e deixei passar, e agora estou arrependida, raios. Agora até queria ler mais coisas dela. Talvez faça um desafio Julia Quinn, quando acabar com a Meg Cabot. Que ainda vai demorar um bocadinho, de qualquer modo... hmmm.

Bem, voltando a este livro: a premissa é acompanhar a família Bridgerton uma geração antes daquela que conhecemos e adoramos; a protagonista é Billie (Sybilla, na verdade, que é um nome curioso, mas não admira que ela prefira Billie) Bridgerton, que é irmã do Edmund, o pai dos Bridgertons que já conhecemos, mas que tragicamente não chegámos a conhecer (ao pai, quero dizer).

O protagonista é George Rokesby, primogénito e herdeiro da sua família. Os Rokesby vivem perto da casa de família dos Bridgerton, e as duas famílias são bastante próximas, amigas há muito tempo. Os filhos de uma e outra família cresceram juntos, criando uma cumplicidade evidente.

Bem... talvez não para a Billie e o George. Eles estão mais habituados a discutir e implicar um com o outro do que a ser amigos, na verdade. E é por isso que no início da história, quando a Billie se vê num apuro, fica desanimada por ser o George a pessoa no lugar de a ajudar.

Mas isto é Julia Quinn, e a situação fica caricata, e eles são obrigados a passar algum tempo juntos. E isso é o início de começarem a olhar um para o outro com outros olhos, o que é sempre divertido num livro da Julia. A química e o humor estão lá, e ambos são adoráveis juntos, e tão giros de acompanhar.

Gostei bastante também de acompanhar ambas as famílias, conhecê-las melhor. Da parte dos irmãos da Billie, conhecemos a Georgiana, 14 anos, creio eu, recatada por causa de doença, mas uma flor à espera de desabrochar (é melhor que ela tenha um livro). Faltaram os irmãos rapazes, incluindo o Edmund, que estão na escola.

Do lado dos Rokesby, há um rapaz na escola, como os irmãos da Billie, o Edward, que está no exército, presentemente em território americano, e o Andrew, na Marinha, mas de momento em casa a recuperar de um ferimento. Achei a personalidade dele muito engraçada. Fora isso, devo destacar as mães da Billie e do George, particularmente da mãe dele, que teve uma mãozinha no desfecho. A senhora é engenhosa.

Nem tudo são rosas, no entanto. Fiquei com a sensação que a Julia estava um pouco nervosa por voltar a este mundo. O livro tem algumas falhas no ritmo do enredo, principalmente na primeira parte; na segunda, ela ganha confiança e as coisas correm melhor. No entanto, ainda encontrei coisas suficientes da Julia que conheço para não sair particularmente incomodada com isto.

E gosto muito desta ideia de ter toda uma família de Bridgertons antes dos Bridgerton, mas faz-me um bocadinho de espécie não vermos ninguém desta geração nos outros livros. Nem um filho deles, um primo dos outros Bridgerton? É claro que isso acontece porque os outros livros foram escritos primeiro, mas esta questão sublinha a falta de família alargada nos mesmos.

Tenho algumas dúvidas quanto ao uso do desaparecimento em acção do Edward, que precipita a parte final do livro. Achei que soaria mal ter um final feliz no meio disso. A Julia fá-lo funcionar, na maior parte, mas faz-me espécie o destino dele ficar em suspenso. Talvez o próximo livro pudesse ser dele, apesar de não ser um Bridgerton? Depois do que aconteceu, imagino que mereça.

A questão do serviço prestado pelo Edward e o Andrew, e a frustração que o George sente por não poder fazê-lo, sendo o primogénito, lembra-me uma coisa que preciso de destacar. É interessante, este ponto, porque o serviço militar nesta época (1770 e tais) é bastante mais importante na sociedade inglesa, pelo ambiente político. Na época dos Bridgertons, a coisa estava mais estável, suponho, e não é tanto uma questão.

Bem, agora estou brutalmente curiosa para ver o que vem a seguir. Os Rokesbys-Bridgertons certamente têm o meu interesse e atenção, e agora que voltei a pegar na Julia, e voltei a passar um bom bocado, não me apetecia esperar nada um ano. Pois, eu bem tinha razão em esperar para ler, da outra vez.

P.S.: Quase me esquecia do jogo de Pall Mall! Parece que esta geração gosta também de o jogar, e a Billie e o Andrew são certamente tão implacáveis como os outros Bridgertons que conhecemos, particularmente a Kate e o Anthony.

Páginas: 384

Editora: Piatkus

domingo, 10 de abril de 2016

The Love that Split the World, Emily Henry


Opinião: Este é um livro que se esgueira de mansinho. A sinopse foi bem escrita, de certo modo, porque não dá para perceber bem o que temos nas mãos - algo que normalmente eu detestaria, mas aqui, é muito adequado. Saber demais estragaria as surpresas que contém, e por isso esgueira-se de mansinho, revelando-se aos poucos, e acaba por ficar entranhado, ao ponto de o final, ainda que em aberto, seja inteiramente satisfatório e recompensador.

A Natalie Cleary é uma jovem que foi adoptada muito nova, praticamente depois de nascer. É Nativa Americana, adoptada por uma família branca. Está a terminar a escola secundária, e vai para a universidade de Brown no Outono. Mal pode esperar, sair da cidade de Union, mudar o cenário, encontrar-se a si própria.

E é aí que a Emily Henry escreve genialmente. A caracterização psicológica da Natalie é fantástica. A Natalie é inteligente, introspectiva. Comete erros, é insegura, debate-se com os dois mundos a que pertence. Ama a família, mas por vezes sente-se como não pertencendo, como se os sinais exteriores de que não é igual à sua família a destacassem, e não no bom sentido.

E isto está no centro do enredo, é aquilo que guia as acções da Natalie, e a autora não trata o leitor como burro, é uma caracterização complexa, com camadas, encaixada no seu lugar na família, entre os que a amam, e na sua herança e a relação que tem com ela, curiosa mas temerosa de procurar a sua mãe biológica e descobrir que não era desejada.

Isto é o que faz este livro ter um tom mais de história contemporânea. O quão enraizado está na vida real. Contudo, tem elementos de ficção científica. The Love that Split the World é um título que é quase literal. Há universos paralelos, e tecnicamente viagens no tempo (há cronologias não lineares, o que justifica a comparação a A Mulher do Viajante do Tempo), e a maneira como tudo se revela é deliciosa. É relativamente fácil de adivinhar previamente as reviravoltas, mas a maneira como são reveladas encaixa bem na história, dão-se no momento adequado para fazer avançar o enredo, portanto não me desapontaram.

Parte da viagem de descoberta passa por um romance. É um pouco repentino, um pouco rápido, mas a maneira como acontece, a maneira como as circunstâncias o encaixam acabam por torná-lo suficientemente credível. O Beau é fofinho, à sua maneira, e consigo perceber porque a Natalie se encanta por ele, destino à parte. Tem problemas, mas é gentil e metido consigo. Passou a vida a ver algo inexplicável a acontecer, e não enlouqueceu, tornando-o resistente. A comparação a Friday Night Lights fez-me pensar nele como um Tim Riggins, até porque as suas biografias têm pontos em comum.

Gostei mesmo de ver a Natalie a investigar, investida em perceber o mistério da sua Grandmother, o ser que a visitou durante anos, a contar-lhe histórias. Gostei de a ver trabalhar com a Alice, e gostei de ver que a narrativa ali por bocados nos faz questionar se isto é um caso sobrenatural ou psicológico, questionar se tudo está na cabeça da Natalie. Como disse, a caracterização está soberba, a parte psicológica incluída.

O elenco de personagens secundários é fantástico, cativante, muito bem caracterizado apenas com umas pinceladas. Ninguém é herói ou vilão, apenas pessoas a viver a sua vida. Adorei a Megan e a relação de melhores amigas que ela e a Natalie têm. Gostei de conhecer o Matt, o ex-namorado, de perceber o quão complicado ainda é com eles, e de quão auto-conhecimento revela o facto da Natalie ter acabado com ele quando o fez.

Gostei imenso dos irmãos da Natalie, e os vislumbres que temos deles. Quem me dera conhecê-los melhor. Gostei dos pais da Natalie, preocupados, mas confiantes na filha e na sua capacidade de tomar decisões. O pai da Natalie era especialmente perceptivo, e a mãe talvez um bocadinho intensa, mas preocupada.

Quanto ao final, e não quero revelar demais... o final foi intenso. A Natalie descobre uma série de coisas sobre si própria, e sobre o que se estava a passar, e tem de tomar algumas decisões difíceis. Percebo porque é que ela sentiu que não tinha alternativa, apesar de não concordar exactamente, mas gosto que ela tenha tentado ainda assim tomar um caminho diferente, mudar as coisas.

No fim de contas agiu como eu teria agido, se estivesse no lugar dela, e assim acredito que tomou a melhor opção, a que lhe poderia dar o melhor final. A autora deixa tudo muito em aberto, deixa-nos decidir o que realmente aconteceu, mas a maneira como o escreve aponta para um desfecho em particular, e é um que me agrada. Há alguma espiritualidade salpicada pela narrativa, e isso tem uma relação como modo como o final se desenrola e é relatado, e gosto disso, é adequado.

A única coisa que me inquieta no final é eu não saber o depois. Como as coisas se desenrolam agora, como a natureza de ficção científica e fantasia da história guia esse depois. Quero muito saber sobre o depois, como tudo (ou nada) muda. O fim aberto é extremamente adequado, a vida real é assim, não fecha capítulos e histórias de forma bonitinha. Mas mata-me não ter o definitivo nas mãos, apenas o nim, o talvez, a possibilidade infinita, sem fim.

Deixa-me mesmo inquieta. E mesmo assim, adorei a leitura, a história encantou-me, a maneira como se desenrola é linda, é complexa, é inteligente, e a Emily Henry escreve bem, cativou-me. Gostava muito de ler o que quer que ela tenha na manga a seguir.

Páginas: 400

Editora: Razorbill (Penguin Random House)

sábado, 9 de abril de 2016

Perdida, Carina Rissi


Opinião: Há autores que têm queda para, mesmo na sua primeira inexperiente tentativa, captar a atenção do seu público alvo, por serem eles próprios leitores entusiásticos, com os seus interesses que transbordam para a página, e que se alinham com os interesses dos seus leitores.

Neste caso, a Carina Rissi e eu falamos a mesma linguagem: Jane Austen e romances históricos do século XIX com uma pitada de conto de fadas. É meio caminho andado para o meu coração. Há uns anos vi uma série que adorei, Lost in Austen, sobre uma fã da Jane do século XXI que troca de lugar com a Lizzie Bennet, e acaba nos braços do Mr. Darcy, apesar dos seus modos estranhos e história que não pode partilhar. Sempre quis ler um livro que fosse assim parecido.

Pois bem, as linhas gerais da história convergem. A Sofia é uma jovem do século XXI, descrente do amor, amante de Jane Austen, muito dependente da sua tecnologia, que deixa o telemóvel cair na sanita (palerma). Ao tentar comprar outro, uma misteriosa mulher vende-lhe um aparelho que não funciona como outro telemóvel qualquer: Sofia é transportada para o século XIX e acaba a fazer amizade com uma família da zona, enquanto tenta descobrir como voltar.

É claro que a primeira pessoa que a Sofia encontra depois de aterrar no passado é um cavalheiro, Ian Clarke, que fica alternadamente escandalizado e fascinado com a pessoa dela, os seus modos, e a maneira como parece estar quase despida (leia-se: usa uma mini-saia). O choque de culturas não é o suficiente para separar estes dois, que se começam a aproximar, apesar das suas diferenças.

Boa parte da piada do livro é mesmo o choque de culturas, principalmente para a Sofia. Foi hilariante vê-la descobrir aos poucos as partes menos glamorosas da época, como a roupa apertada e cheia de camadas, as crinolinas e os espartilhos, e a... casinha, fora de casa, onde o papel de papel higiénico era assumido por folhas... de alface.

Por outro lado, também é bastante divertido ver os habitantes do século XIX, especialmente o Ian, ficarem abismados com o comportamento da Sofia. A sua recusa em usar crinolinas ou espartilhos, o uso de ténis, os modos demasiado expeditos para uma jovem que devia ser recatada, a maneira como fala livremente de assuntos que uma mulher não devia falar... pobre Ian, lentamente habitua-se a ficar escandalizado pelas coisas que a Sofia diz. E faz. Atrevo-me a dizer que a certa altura ele já prefere ficar escandalizado mesmo.

Por falar no par principal, achei-os adoráveis juntos. O romance foi bastante fofinho e quando começou a dominar a narrativa até me surpreendeu, porque a autora soube imprimir à história uma certa intensidade que era precisa para sublinhar a questão dos amantes separados pelo tempo, destinados a ficar juntos.

Há pequenos momentos dos personagens secundários que deu para apreciá-los, e só deu vontade de os conhecer melhor, de os ter durante mais bocadinhos. Há alguma caracterização subtil, o que aprecio, e gostei imenso da Teodora, por exemplo; mas também da Elisa, do Gomes, da Madalena, do Storm, da Nina...

Pontos negativos: se estou a ver bem no Goodreads, este é o primeiro livro da autora, e nota-se. Falta-lhe alguma maturidade na escrita. Ela escreve, por exemplo, a Sofia demasiado exagerada para sublinhar a diferença dela das pessoas do século XIX, chegando a tornar-se descabida ou rude até para padrões do XXI, o que faz parecer a Sofia uma tolinha.

Para isso (a Sofia feita tola) também contribui uma certa falta de pesquisa, ou falta de ser coerente. A Sofia gosta de Jane Austen e supostamente conhece bem a época, mas depois chega ao século XIX e comporta-se como uma ignorante em relação aos modos e costumes da época. Ou mesmo quando percebe que as pessoas não se comportam como ela, não tenta ajustar as suas expectativas ou comportamento, mesmo sabendo que pode embaraçar os amigos que fez.

Depois denota-se que o livro precisava de um bocadinho de proofreading, de pesquisa mesmo. Há uma parte em que se fala de móveis vitorianos; pois bem, em 1830 a Rainha Victoria ainda não tinha começado a reinar sequer, por isso o nome da época com o nome dela não se devia usar. Ainda não havia o conceito de algo ter aspecto vitoriano.

Por outro lado, além da situação geral da cultura e comportamentos e costumes em que a Sofia tropeça a cada momento, não há assim tantos elementos históricos usados para contextualizar: nenhuma menção directa a isto passar-se no Brasil, nada de menções políticas; e bem sei que a autora neste seu mundo ficcional não queria dar tempo de antena à escravidão, uma questão tão vergonhosa, mas fingir que não existiu até soa pior, parece que lhe retira a importância que devia ter.

Defeitos à parte, acabei por me afeiçoar bastante ao livro, curiosamente. A história é devorável, a protagonista é superdivertida e com uma perspectiva engraçada e interessante, e o romance é bastante cativante, deixando uma pessoa a torcer pelo casal principal como se não houvesse amanhã. O fim é bastante satisfatório, mas sei que há sequelas, o que me deixa imensamente curiosa para saber o que contêm.

A adaptação em si pareceu-me bastante boa, sei que se não tivesse havido eu teria parado quando primeiro tropeçasse e esbarrasse em calão brasileiro; mas ocasionalmente o calão era demais, o que me faz perguntar se a culpa era da autora ou se o problema é do adaptador. Ocasionalmente, uma ou outra frase soavam meio estranhas, mas fora isso, leitura fantástica.

Páginas: 352

Editora: Topseller

Adaptação: Joaquim E. Oliveira

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Curtas BD: Super-Heróis DC, vols. 5 a 8

Arqueiro Verde: Ano Um, Andy Diggle, Jock
Este livro funciona como história de origem do personagem; Oliver Oueen é um menino rico e aborrecido que numa viagem pelo hemisfério Sul, naufraga e vai parar a uma ilha deserta. Lá, aprende a sobreviver pela lei do arco; só que a ilha não é assim tão deserta, sendo usada para produção de heroína, e o confronto com os produtores não é pacífico...

Isto provavelmente era um pouco mais impressionante se eu não tivesse já visto a série de TV, cuja premissa claramente se baseia neste livro. Os detalhes são diferentes, é certo, mas os contornos das histórias são semelhantes o suficiente para não me soar a novidade, o que estraga um pouco a piada.

De qualquer modo, deixando isso de parte, a história é mesmo interessante, é sempre fascinante ver um tipo com o feitio do Oliver ultrapassá-lo e torna-se alguém melhor através da adversidade. O Oliver passa metade do tempo com fome ou doente, ou pedrado para curar a doença, e a outra metade a disparar o arco em todas as direcções.

Acho que exageraram só um nadinha nas adversidades, porque a certa altura parecia que ele tinha sobrevivido demasiado, demasiado facilmente, e já estava a ficar saturada de o homem parecer um coitadinho. Ele ajudar a outra a dar à luz sem perceber nada do assunto foi o cúmulo, sinceramente. Ugh. Por outro lado, acabei a gostar da arte, bastante dinâmica, e as cores agradaram-me.

Aquaman: O Abismo, Geoff Johns, Ivan Reis, Joe Prado
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Acho que nunca tinha lido algo com o Aquaman, só o conhecia de passagem, o que até é estranho para alguém que é suposto pertencer à Liga da Justiça; aparentemente o seu estatuto menos abençoado é mesmo a base para este relançamento do personagem, o que até se torna bem engraçado de acompanhar - adorei o humor à base de o Aquaman não ser um herói "respeitado".

Gostava até que o passado dele fosse um pouco mais explorado; ele é meio Atlante, meio terrestre, herdeiro do trono, e sabemos que não tenciona assumi-lo, mas porquê? É claro que se compreende porque ele quer ficar em terra, a ajudar quem pode, mesmo sendo gozado - é isso que faz dele um herói. E descobrimos algumas coisas sobre o passado dele, sim, principalmente sobre a relação dele com o pai, mas às vezes parece que a acção afoga (piadinha muito propositada) a caracterização.

Fiquei a gostar muito da Mera, que quer apoiar o Arthur, mas não compreende exactamente o que o move a ajudar gente que goza com ele; gostei da sua adaptação a terra firme, a sua confusão com os costumes e feitios terrestres; e gostei principalmente que com ela não há paninhos quentes, e que facilmente pode nocautear um rufia só porque sim.

Super-Homem & Batman: Antologia, Joe Kelly, Brad Meltzer, Neal Adams, Curt Swan, Jeff Lemire
Uma antologia de histórias que juntam os dois personagens titulares, e como todas as antologias, tenta ser representativa, o que cumpre assim-assim, mas também é irregular no que toca à qualidade.

As primeiras histórias são dos anos 50-60, e como tal, são bem ao estilo da época, com umas premissas algo doidas e estranhas, mas que a história nos leva a aceitar por aqueles momentos. A primeira história é o primeiro encontro dos personagens, com reviravoltas a jeito, e uma colaboração entre os dois personagens.

Há uma história que é uma espécie de revisão dos melhores momentos da Liga da Justiça, narrada pelo Super-Homem, pelo Batman e pela Wonder Woman, e gosto da ideia, ter uma série de referências a momentos-chave dos personagens e da Liga; mas provavelmente podia aproveitar melhor a história se conhecesse os momentos em si.

Há uma história meio doida que reintroduz o Átomo ao universo New 52, e é claro que há diminuições e aumentos de tamanhos, e o Batman tem uma civilização minúscula alojada no cérebro, e o Super-Homem e o Dr. Ray Palmer têm de ir resolver o assunto, e o Batman mesmo quando devia estar a sangrar do cérebro ou algo do género consegue dar porrada a um tipo. Estranhamente, é divertida.

A minha história favorita é a penúltima, uma que reconta o primeiro encontro do Bruce e do Clark. Ainda é num cruzeiro, mas oh céus, é hilariante! A antipatia mútua entre os dois, as picardias, as piadinhas que mandam um ao outro (atirava-me para o chão cada vez que o Bruce chamava pacóvio ao Clark)!

E mesmo quando descobrem as identidades secretas um do outro a diversão não pára. O cruzeiro está a entrar no Triângulo das Bermudas, e então uma loucura interdimensional acontece, e os vilões do Sindicato do Crime da Terra-3 caem-lhes em cima, quase literalmente, e os nossos heróis têm de se confrontar com os seus eus vilões da outra dimensão.

O melhor é que nesta dimensão o Deathstroke foi contratado para matar o Bruce, e na outra a versão do mesmo foi contratada para protegê-lo, e a versão do Deathstroke da Terra-3 é curiosamente parecido com o Deadpool - é feita ênfase nisso, mesmo -, e isto é tão meta (o Deadpool foi claramente inspirado no Deathstroke), que é hilariante.

A história final é uma curtinha, sobre um encontro entre o Bruce e o Clark nas suas infâncias que podia ter acontecido. Gosto, porque conta tanto, contém tanto, em duas páginas apenas.

Isto... é muito estranho. É bom, de certo modo, a um nível intelectual, mas não tirei nenhum gozo da leitura. Talvez pudesse aproveitar um pouco mais se conhecesse mais os personagens, ou estivesse mais familiarizada com isto? Não sei. O único que conheço mesmo é o Darkseid, e é mais de nome que outra coisa. É isto que acontece quando não conheço muito bem a DC e me atiram de pára-quedas em cenas destas.

Como disse, não é que a nível intelectual não aprecie a coisa. Aprecio o trabalho intenso que este tipo de coisa pedia, sendo produzida apenas por uma pessoa; aprecio a imaginação brutal envolvida, porque tem uma certa riqueza mitológica que está a pedir para ser explorada.

Contudo... o desenvolvimento de personagens e enredo não é grande coisa. Não há nada que prenda à história, falta-lhe aquele quê que embale e faça virar páginas. Talvez não ajude a selecção de números soltos das várias revistas envolvidas - apesar de eu apreciar a tentativa de apresentarem uma certa narrativa coerente, e de tentarem dar um gostinho do mundo criado. Enfim... acho que nunca me senti tão insatisfeita com um livro deste tipo de colecções, é desconcertante.