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quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Their Fractured Light, Amie Kaufman, Meagan Spooner

Sinopse

Opinião: Ah, comecei o ano dominada por uma sensação, uma vontade, parecidas com o que me fez ler o Boundless da Cynthia Hand o mês passado: queria terminar mais uma série. Contudo, a minha reacção durante e após a leitura não podia ter sido mais diferente; não tive dificuldade nenhuma em voltar a mergulhar no mundo desta trilogia, e o livro não teve problema algum em cativar-me. Até posso dizer que deixou um pequeno vazio no lugar onde roubou um canto do meu coração. Fiquei curiosamente ligada a ele, tanto pela nostalgia dos livros anteriores e de rever os seus protagonistas, como pela história destes dois protagonistas.

A Sofia Quinn já nos foi apresentada no livro anterior. Veio de Avon e passou um longo ano a melhorar as suas capacidades e aprender novos truques; a Sofia é brilhante a ler pessoas e a enganá-las e manipulá-las conforme o seu interesse. Para ela, e com ela, é bastante difícil saber o que é verdadeiro, real, e o que é a pessoa construída para apresentar aos outros. É o conflito principal interno dela.

O Gideon também já é nosso conhecido. É o Knave of Hearts, um hacker que ajudou a Lilac e o Tarver no segundo livro. A sua motivação para ser o que é hoje vem de uma tragédia pessoal familiar; fez algumas coisas menos ortodoxas na perseguição de justiça para essa situação, mas vai compreender que os fins nem sempre justificam os meios. O seu conflito vem dessas acções e do impacto que tiveram em outrém.

Ambos juntam-se porque têm um alvo em comum: LaRoux, o homem à frente duma corporação multimilionária, cujas acções ao longo do ano têm feito tantas vítimas e inimigos. A Sofia e o Gideon são apenas mais dois, e o início do livro passa precisamente por se tentarem infiltrar na sede das Indústrias LaRoux para obterem uma forma de encontrar justiça e/ou vingança. Só que a coisa não corre assim tão bem, e acabam a juntar-se para sair dali e fugirem à perseguição de que são algo pela corporação.

E pronto, não sei se sei explicar porquê mas fiquei incrivelmente cativada pela história deles. São obrigados a trabalhar juntos por força das circunstâncias, já que nenhum é muito bom a confiar em ninguém. Mas os pequenos momentos de vulnerabilidade que se permitem são tudo: acho que me fizeram torcer mais por eles. Custava-me horrores quando a Sofia tentava repor a sua pessoa invulnerável e manipuladora, ou quando o Gideon falhava em compreender o que tinha feito, e pior, não ter sido honesto mal pôde quando compreendeu.

Contudo, foi delicioso de ler por causa disso. Dois personagens a resistir porque têm coisas a fazer e têm que ser feitas. Consigo respeitar isso. E ainda assim, partia-se-me o coração ver a Sofia pensar em trocar-lhe as voltas, usá-lo como forma de voltar a ter os pés assentes no chão depois de perder tudo; ou de ter vontade de gritar com ele por não estar a entender o mal que tinha feito.

Ainda mais para a frente, antes do clímax do enredo, eles têm um momento perfeito, adorável, delicioso, de partir o coração. É escrito duma forma emocional e incrivelmente credível no que toca ao percurso emocional deles; ainda não estavam completamente preparados.

E depois o final vem mesmo a calhar, finalmente a compreensão do que lhes escapava, de que há outra maneira de fazer as coisas. E isso permite-lhes permitirem-se ficar juntos, se assim o desejarem e se as circunstâncias deixarem. Não sei, há qualquer coisa neste percurso que me caiu no goto e se mostrou particularmente realista para mim. Não sei explicar o quê. (E só tenho pena de não terem mais tempo de antena e poderem explorar este aspecto.)

A primeira parte do livro é muito sobre a Sofia, o Gideon e a Sofia e o Gideon, mas também sobre avançar o enredo particular do livro, e talvez um bocadinho do enredo geral da trilogia; mas a segunda parte é dedicada largamente a fechar com chave de ouro este último.

Tudo o que queríamos saber é respondido, a mitologia destas criaturas que têm vindo a permear todos os livros é francamente explorada. Esta segunda parte está recheada de surpresas quanto a elas e quanto à maneira como a narrativa evolui, mas diverti-me deveras a acompanhá-la. Gostei de explorar estes aspectos. (E de ler as páginas entre capítulos, da perspectiva das criaturas. Muito esclarecedora, e algo impressionante e assustadora.)

Também adorei a segunda parte por uma razão: a Lilac e o Tarver, e a Lee o Flynn aparecem! E bem! Foi tão excitante rever personagens de que gostei tanto. E dei-me conta duma coisa: não há livros suficientes a mostrar o depois de um casal se juntar. Eles a serem carinhosos um com o outro aos pares foi incrivelmente fofo, raios.

E pronto, adorei que os protagonistas dos três livros se juntassem para resolver a trapalhada que se andava a desfazer desde o primeiro livro. Algo de horrível acontece a meio da sua demanda, e é tão difícil manter a coragem e o espírito depois de uma tragédia tão grande (tanto a parte pessoal como a parte externa da mesma). Mas eles mantêm-se fortes, e conseguem juntos algo extraordinário que acredito que não conseguiriam separados.

Sim, aquele final matou-me da melhor maneira. A tortura foi enorme, pensar que as coisas iam correr assim. Mas suponho que posso dizer que obtive a minha satisfação na melhor maneira possível. O último capítulo é uma espécie de epílogo que deixa passar um pouco de tempo, o suficiente para vermos a reconstrução. E dá-nos uma notícia brutal que me deixou felicíssima de maneira parva, porque mostra um pouquinho do futuro de alguns dos personagens, e é glorioso.

E pronto, agora estou para aqui a fazer o luto desta série, com umas saudades enormes. Nem consigo acreditar que me tenha caído tão bem, especialmente este último livro, lido tão distante dos anteriores. Estou a ver que estão a aparecer umas séries giras passadas no espaço e/ou no futuro da humanidade, e estou a gostar de ver. Sei que vou ficar tristíssima quando terminar a série do Illuminae este ano, e ambas até partilham um autor (a Amie), portanto... vou torcer para que alguém continue a escrever séries do género? Ambas têm uma premissa e um tom que se coadunam, e gostava mesmo de ler mais. Muito mais.

Páginas: 432

Editora: Disney Hyperion

sábado, 26 de novembro de 2016

Gemina, Amie Kaufman, Jay Kristoff


Opinião: Ah, estava tão preocupada. Sem razão nenhuma, mas pronto. That's how I roll. Tinha uma secreta ou não tão secreta esperança que me divertisse tanto como com o primeiro livro, mas pronto, também estava nervosa acerca de a fórmula perder o seu encanto, ou de não gostar tanto de acompanhar personagens diferentes. Bah, que tonta, não é?

Neste segundo livro, os seus acontecimentos seguem mais ou menos a partir do fim do Illuminae, fazendo dele tanto uma sequela como um companion - este último é porque não segue os mesmo personagens ou até directamente o mesmo enredo, o primeiro porque continua um arco de história maior que acredito que vai seguir para o terceiro livro.

A acção decorre na estação espacial Heimdall, um local mencionado várias vezes no primeiro livro e que era visto como um potencial porto de abrigo. É que a Heimdall gere um wormhole, modo de viagem para naves chegarem rapidamente a outros pontos daquela zona do universo, ou até ao local central de administração da sociedade que vemos nos livros. E é por essas razões que a Heimdall se vê então envolvida na guerra intercorporações que ditou os acontecimentos do Illuminae.

No centro disto tudo estão dois jovens que residem na estação. A Hanna Donnelly, filha do comandante da estação, aparentemente mimada, rica e protegida. No entanto, a Hanna foi treinada por um pai militar. É excelente em autodefesa, e passavam os serões em jogos de estratégia. O melhor de tudo neste livro foi mesmo a Hanna. Uma caixinha de surpresas, uma miúda capaz de muito mais do que aparenta.

E adoro a sua apresentação no início: rapidamente afasta a potencial etiqueta de "certinha e menina do papá" - a Hanna está a tentar comprar uma substância alteradora de sobriedade. Uma droga, basicamente, com a diferença que esta não parece ter adição como desvantagem, e por isso também não terá estigma associado. E também acho bastante interessante a Hanna ter um namorado, e eles serem fofos juntos, mas não parecerem particularmente amorosos ou carinhosos juntos. Talvez seja porque rapidamente a acção principal entra em cena, mas achei a relação deles mais física que outra coisa. E bem, depois ela tem um fim bastante justificado, por isso eu tinha razão em não torcer por eles.

Já o Nik Malikov nem sequer é um residente registado da estação. Cresceu e faz parte da máfia - que não podemos dizer que é russa, porque neste mundo as nacionalidades já não são como as conhecemos, mas é uma evolução da mesma. Está na estação para ajudar o tio a conduzir negócios mais ou menos ilegais (e para fugir ao passado, mas isso é parte da história). O Nik conhece a Hanna porque é a pessoa que lhe vai vender a "substância" (eles flirtam um bocado, mas são apenas conhecidos), e é isso que os salva na parte inicial da acção. Além disso, gostei do Nik porque ele parece mais do que é. Quase que se vê que ele está a tentar demasiado ser o membro da máfia que é suposto ser, e gosto que também seja uma caixa de surpresas.

O acontecimento motor que garante que tudo vai mudar é a chegada de uma equipa de elite especializada em exterminação e recuperação e obtenção de... coisas. Foi enviada pela corporação que provocou os acontecimentos no Illuminae, para prevenir que os sobreviventes do primeiro livro consigam ajuda. E têm carta branca para destruir a Heimdall e todos nela para obter os seus objectivos. É claro que vai tudo para o inferno. E como a lei de Murphy é a lei de Murphy, tudo o que pode correr mal neste cenário, vai correr mal.

Diria que a evolução do enredo neste livro tem algumas semelhanças com o anterior, como se ambos tivessem um "esquema" geral: há um elemento antagonista principal e deliberado, e um antagonista secundário, que se manifesta duma maneira quase incontrolável e mais insidiosa que o principal. Além disso, os personagens têm de navegar uma série de "missões" ao longo da história (faz-me pensar num jogo de consola). Para além disso, diria que cada uma é a sua própria história, distinta e única à sua maneira.

Gosto das pequenas ligações que este livro tem com o Illuminae, como personagens relacionados presentes nos dois; e o facto de quem sobreviver ao primeiro livro, vai seguramente aparecer neste. Nem sequer é um spoiler; as coisas não seriam interessantes se as duas narrativas não se interceptassem, portanto é claro que ia acontecer.

Outras coisas de que gostei: personagens secundários como a Ella, uma miúda com uma deficiência física que é essencial na narrativa da Hanna e do Nik. A Ella é tão fofa e tão durona, uma verdadeira aranha a criar a sua teia para apanhar as moscas. Absolutamente odiei e adorei o antagonista secundário, porque me lembrou das aulas de Parasitologia, e tendo eu tirado um curso na área de saúde, é dessas que me lembro como arrepiantes, com a ideia de parasitas a inflitrar-se na nossa pele e bichos microscópicos mas com coisas que pareciam dentes feiosos. Ugh.

Gostei da parte final. Sabendo nós que um wormhole faz parte da equação é claro que se espera que os autores façam alguma coisa gira com ele. Aquilo que eles fizeram? Para já, foi surpreendente, mesmo estando eu à espera que acontecesse algo, não pensei que fosse isso. Depois, foi tão fixe, tão estranho mas bem esgalhado, toda a noção de coisas paralelas e como resolveu o final para os personagens. Muito bom.

E pronto, estou muito curiosa para o que vem a seguir. Cada livro é, na sua essência, sobre a força e engenho da humanidade, a sua vontade e capacidade de sobrevivência, mas a trilogia no seu todo é sobre vencer os maus, na forma de uma corporação intergalática que destruiu as vidas dos nossos protagonistas como as conheciam.

Quero muito ver como termina porque agora que já conheço o formato, quero ver a evolução natural dos primeiros dois livros para o terceiro. E quero ver o futuro, quero saber o que acontece no seguimento dos relatórios que vemos no início e fim deste livro. Estou tão curiosa que podia morrer de curiosidade.

Por fim, dois destaques: a maneira como os autores nos imergem na cultura vigente, apresentando coisas que nos são familiares e estranhas ao mesmo tempo. Como a subvocalização, que cria chats entre as pessoas na Heimdall, mas em que o emissor não tem de escrever. Ou a noção dum vírus que obriga a passar uma música dum certo artista sempre que a estação tem algo sonoro a passar. É claro que neste futuro as corporações musicais usam vírus para promover as suas músicas. É genial. (Além disso, a música em questão cria momentos hilariantes no livro.)

O segundo destaque é para o design do livro. Brilhante, fantástico, até me dá uma coisa só de contemplar o trabalho necessário para isto. Os chats, as pretensas entradas na Unipedia, as formas imaginativas usadas para descrever certos momentos na acção (os autores ainda se divertem com a coisa; em momentos em que morrem figurantes ficcionais, eles usam o nome de autores amigos no diagrama).

Adorei neste livro a lista de pessoas na equipa táctica que invade a Heimdall; deu uma cara às pessoas e deu mais impacto quando lhes vemos acontecer coisas. E adorei que quando alguns morressem, a lista aparecesse actualizada, com cruzes a riscá-los da equipa. Só me queixo de a lista não aparecer actualizada no fim, com os verdadeiros e pretensos sobreviventes. E por fim, diverti-me tanto com o diário da Hanna, que desenha para contar a sua vida, e tem observações fascinantes. E bónus, é desenhado pela Marie Lu, outra autora que aprecio. Uma bela e simpática surpresa.

Páginas: 672

Editora: Alfred A. Knopf Books (Penguin Random House)

domingo, 11 de setembro de 2016

Illuminae, Amie Kaufman, Jay Kristoff


Opinião: Que bela surpresa. Digo isto frequentemente, eu sei, mas quando um livro tem uma premissa tão incomum como esta, é difícil saber o que esperar. Suponho que sendo assim qualquer coisa que apresentasse seria uma surpresa?

De qualquer modo, tenho a sensação que quaisquer sinopses ou opiniões que tenha lido não me deram uma ideia clara do livro. Sim, os protagonistas eram um casal de namorados e terminaram no dia anterior a tudo o que conheciam ir para o inferno. Mas isso rapidamente se torna menos importante no meio da luta pela sobrevivência.

O resto da sinopse que vemos no Goodreads (link ali em cima) é mais certeira, mas mesmo assim, não dá nem uma ideia próxima do quão excitante foi estar no meio da acção, com tudo a correr mal e os personagens principais a lugar pela vida, não só sua, mas dos que os rodeiam.

E a piada da coisa? Tecnicamente, na cronologia, há pedaços de tempo longos em que não acontece nada de especial aos personagens. Mas quando a coisa arranca, raios, que só pára no fim. E mesmo assim...

Acho que não estou a ser muito coerente. O que é adequado, a narrativa também não é direitinha, mas uma colagem de informação... e tenho a dizer que adoro a premissa, em ambos os seus aspectos. Gosto do aspecto de ficção científica, corporações gananciosas em guerra, personagens inocentes apanhados no meio, naves espaciais em fuga, inteligências artificiais a perder o rumo, pragas malucas e terror no espaço. Os autores conseguem conjugar uma série de coisas fixes e criar um todo absurdamente fascinante. Não devia funcionar tão bem, mas funciona.

E gostei mesmo de ver a história contada em mensagens instantâneas, relatórios, transcrições de comunicações, e outras formas únicas de descrever o que estava a acontecer na acção. Curiosamente, achei que a caracterização ia pecar um pouco por isto, mas os autores conseguiram dar uma personalidade aos personagens, não só à Kady e ao Ezra, mas também aos secundários (incluindo um muito... especial).

Ao ver como a história está tão bem contada, tão coerente, sendo contada assim em fragmentos, faz-me respeitar este pessoal. Porque só consigo imaginar o quão difícil deve ser saber a história que se quer contar, e decidir que tipo de formato vai ser usado em cada bocadinho, e criar algo que tenha um mínimo sentido a partir de pedaços. O nível de organização para conseguir fazer tudo funcionar? Impressionante. Muito impressionante. Especialmente pela variedade de informação que acaba por ser usada para avançar a narrativa.

Acho que não há muito mais a dizer sem eu spoilar a coisa toda, mas tenho a dizer, foi um livro que se devorou enquanto o diabo esfrega o olho. É claro que o formato único se lê muito mais rapidamente que um livro em prosa "normal". Mas também tem a ver com o quão fascinante se torna seguir a vida da Kady e do Ezra e das naves Hypatia e Alexander enquanto fogem e lutam pela sua vida.

O ritmo da narrativa é extraordinário nesse aspecto. Até me dá pena que o segundo livro da trilogia não siga os mesmo personagens. Mas também estou curiosa. Gemina deverá seguir uma estação espacial, Heimdall, que é importante para os personagens deste livro. E os acontecimentos de ambos deverão ser mais ou menos coincidentes a nível cronológico.

Portanto, parece-me que o que vamos seguir é uma outra faceta da guerra espacial que se está a estabelecer entre duas enormes corporações. E os pobres humanos (e não só, aparentemente) que se vêm no meio desta. Temos alguns fios de enredo a ser explorados no arco de história da trilogia, e um dos personagens do Illuminae está relacionado o mesmo, por isso estou curiosa para ver como isso vai voltar a aparecer.

Uma nota final ainda para como os autores conseguem fazer reflectir nalguns aspectos importantes desta sociedade, em que a tecnologia está tão avançada e o mundo para os seres humanos mudou tanto. Há toda a questão das corporações, e viagens no espaço por wormholes, e experiências científicas que expandem para além do pretendido pelos seus criadores.

Contudo, em muitos aspectos fundamentais a humanidade é a mesma. A luta pela sobrevivência, a capacidade de fazer o bem pelos outros, a coragem nas pequenas e grandes coisas. A ganância, a capacidade de deixar o medo fazer coisas impensáveis. E no meio disto tudo, os autores ainda introduzem uma questão sobre autonomia de inteligências artificiais e o quanto têm uma personalidade, o quão têm um módico de... humanidade. Realmente interessante, ver como isso se desenrola.

Uma outra nota para a edição. Visualmente e graficamente é fantástica, o hardcover é lindo, e adoro como evoca o formato original da narrativa, e como está produzido no interior, sempre uma delícia de acompanhar. A minha única queixa tem a ver com o peso do livro. Esteve uns meses na prateleira, ao alto, e devido ao peso, descaía. E a penúltima página está muito frágil na encadernação. Bastava um puxãozito para aquilo se partir e rasgar.

Sei que será preciso um bom papel para imprimir a tinta num livro que não é só texto, mas também elementos gráficos; contudo, não seria possível fazer algo como no Winter, da Marissa Meyer, que tem mais 200 páginas que o anterior da respectiva série, mas tem a mesma largura, porque foi usado um papel mais fino? Não queria nada que este livro se estragasse só porque está na prateleira, que até é o habitat habitual dele.

Páginas: 608

Editora: Alfred A. Knopf Books (Random House)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

This Shattered World, Amie Kaufman, Meagan Spooner


Opinião: Estou a gostar muito do que estas autoras estão a fazer com esta série, este mundo, e as sucessivas histórias que nos apresentam. Os livros da série Starbound passam-se num futuro em que a humanidade está num ponto de terraformação e colonização de planetas pelo universo fora. Aqueles que conseguiram passar pelo processo com sucesso passam a pertencer ao Conselho Galáctico.

No entanto, ambas as histórias que pude ler até agora focam-se no que acontece quando esse processo corre mal: no caso do primeiro livro, o planeta em que a Lilac e o Tarver se despenham passou pela terraformação com sucesso, mas não é habitado e contém fauna e flora pouco usuais. Neste segundo livro, Avon tem colonos, mas nunca conseguiu terminar a terraformação - os céus estão cobertos de nuvens permanentemente, o que impede luz solar directa, com efeitos graves no ecossistema do planeta, já que boa parte do planeta é coberto de pântanos bastante difíceis de navegar.

Ambas as situações estão ligadas, pois a sua causa é a mesma; e isso foi fascinante de observar - como uma mesma coisa levou a efeitos diferentes, como um elemento estranho introduzido nos dois planetas, submetido a pressões diferentes, levou aos problemas que podemos observar. E mais, é assustador pensar que tudo isto se deve apenas à ganância e ambição de uma pessoa, e pensar na extensão a que essa pessoa está disposta a levar as coisas para atingir um fim específico.

A noção de derrotar alguém com este perfil é opressora, e tanto a Lilac e o Tarver, como os protagonistas deste livro, a Lee e o Flynn, deram apenas um passo na direcção correcta, que no fim de contas pode não servir para nada. Tenho esperança que no último livro esta pessoa e os seus objectivos nefastos possam ser travados, mas também estou consciente de quão difícil vai ser.

Convém mencionar que apesar de terem pontos em comum, a históra contada nos dois livros é muito diferente, e louvo as autoras por mudarem de registo e apresentarem uma coisa distinta. A história da Lilac e do Tarver, por exemplo, era uma de sobrevivência, tendo-se despenhado sozinhos num ambiente hostil, sem hipótese de um resgate imediato.

Já a história da Lee e do Flynn é quase como um Romeu e Julieta no meio de uma guerra aberta. A Lee pertence ao exército, destacado para manter a paz em Avon. Quase todos os soldados aguentam apenas um mês ou dois antes de o planeta os enlouquecer e serem dominados pela Fúria, que os leva a cometer actos de loucura. A Lee não. Conseguiu escapar à Fúria, e está em Avon há muito mais tempo.

O Flynn pertence aos colonos rebeldes e revoltados por o seu planeta nunca ter evoluído como lhes haviam prometido, e que tentaram uma revolução há cerca de dez anos, prontamente esmagada. Entre os rebeldes executados contava-se a irmã mais velha de Flynn, líder da revolta. O que faz com que o Flynn procure desesperadamente uma forma de salvar o planeta, ao resolver o que impede que se termine a terraformação, e salvar os seus, ao impedir uma guerra aberta com os militares.

Algo interessante de acompanhar com estes dois personagens é a sua evolução, e o modo como o seu passado influencia a sua necessidade de salvar Avon e os seus habitantes da guerra e destruição de que estão tão próximos. Das motivações do Flynn já falei no parágrafo anterior, mas as da Lee ainda são mais complexas.

E gostei tanto da Lee por isso. Ela viveu num planeta que exibiu no passado os mesmo fenómenos que Avon e o planeta-sem-nome-da-Lilac-e-do-Tarver - um planeta cuja história não terminou bem, o que alimentou a sua determinação em juntar-se ao exército e manter a paz noutros locais. A Lee pegou na sua história trágica e tentou marcar a diferença no mundo, mas quando ambas as partes estão tão determinadas em matar-se uma à outra, é tão difícil manter a cabeça fria e manter a paz.

É por isso que os dois funcionam tão bem como par. São pessoas bastante diferentes, em termos de cultura e princípios e experiências de vida, mas o objectivo comum junta-os contra o mundo, mesmo quando é extremamente perigoso fazê-lo, sob pena de serem acusados de traição pelos seus. Passam juntos por uma série de situações pesadas e complicadas, que podiam quebrar qualquer um, mas reagem duma maneira extraordinária, e persistem, mesmo de coração quebrado ou aterrorizados, mesmo recusando-se o que mais desejam.

Falta-me mencionar uma aparição muito importante, a participação especial dos meus queridos Lilac e Tarver. O Tarver foi capitão da Lee no passado, e no meio de toda a esquisitice que está a acontecer em Avon, a Lee confia nele o suficiente para pedir ajuda. Instinto que se vem a revelar certeiro, porque a Lilac e o Tarver têm definitivamente experiência com o tipo de coisa que tem ocorrido em Avon, e podem dar a sua, hmm, opinião informada.

Foi muito bom revê-los, ver como estão a lidar com os constrangimentos da sua vida, com o que lhes aconteceu no primeiro livro. E perceber que ambos se revelam uma caixinha de surpresas para os protagonistas deste livro - a Lilac especialmente, que saudades tenho dela -, o que é sinal de que estão a fazer bem o seu trabalho.

Sobre o final, bem, estas autoras são umas torturadoras. Novamente fazem uma coisa a um dos protagonistas que me faz ficar a roer as unhas... eu sei que a parada está alta, mas bolas. Fico algo frustrada por os protagonistas não terem conseguido dar um golpe fatal ao vilão, mas fico satisfeita por terem consiguido algo mais importante, proteger o seu planeta de acontecer o que aconteceu no primeiro livro. Acredito que a partir daqui Avon tem finalmente uma hipótese e ainda bem.

Sobre o próximo livro, raios, mal posso esperar. Tinha uma ideia de quem iam ser os protagonistas pela sua intervenção neste livro - e pela sinopse do terceiro livro, acertei, assim como acertei o local onde as coisas se vão passar (esta não era muito difícil). Tudo o que peço é que o vilão leve o que merece, não é muito. E que os protagonistas dos livros anteriores - este e o These Broken Stars - façam uma aparição, porque merecem ajudar a derrotar o vilão também, depois do que passaram.

Páginas: 400

Editora: Disney Hyperion

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Curtas: Eleanor & Park, This Night So Dark

Eleanor & Park, Rainbow Rowell
Vai ser um comentário curto, porque esta foi uma releitura, e para a parte de babar para o livro vou colocar aqui apenas o link para a minha opinião original, que se mantém. Apenas vou dizer que é um livro que vale a pena ler e dar uma oportunidade, porque é uma história bem gira sobre o primeiro amor, e os seus altos e baixos, e a Rainbow escreve duma maneira muito realista e verdadeira.

Quanto à edição em português, posso dizer que fiquei satisfeita. Não dei com erros de revisão, e não tenho queixas de maior da tradução. (Há o uso de uma ou outra palavras que me parecem ser mais antiquadas, mas suspeito que possa ser a maneira de a tradutora transmitir que a história se passa nos anos 80? De qualquer modo, não me incomodou para além da estranheza inicial.)

Como comentário final à releitura, tenho a dizer que foi capaz de me cativar como se fosse a primeira vez. Encantei-me e sofri novamente com Eleanor e Park, indignei-me com a vida familiar da Eleanor e adorei conhecer os pais de Park. Um testamento a quanto gostei do livro e da autora.

This Night So Dark, Amie Kaufman, Meagan Spooner
Esta é uma curta história que recapta o protagonista masculino de These Broken Stars, o Tarver, e que reconta na perspectiva dele um evento aludido nesse livro, a maneira como ganhou a sua promoção militar, que curiosamente o colocou no local e momento certos para estar no centro dos acontecimentos de These Broken Stars.

O melhor da história? Tem uma grande ligação com os acontecimentos do primeiro livro da trilogia, mesmo decorrendo antes deste livro. Alguma tecnologia que vemos no planeta em que o Tarver e a Lilac se despenham está em This Night So Dark a ser estudada num laboratório a modos que secreto, num outro planeta, e o Tarver está de patrulha quando se vê envolvido num assalto que mercenários interessados nessa tecnologia fazem ao laboratório.

É fascinante ver como as pessoas envolvidas em ambos os eventos são, como direi, ah sim, mal puro. Aquilo que estão a tentar fazer, e os métodos que usam para fazê-lo, bem, são arrepiantes. Devo dizer que espero que o Tarver perceba a sorte que tem por não só lhes ter lixado os planos e sobrevivido a eles, como tem uma sorte macaca por o ter conseguido duas vezes. Não me parece que tenha acontecido com muita gente neste universo.

O outro ponto que queria destacar é o relato, bem ao estilo do primeiro livro - capítulos com narração da história principal, intercalados com um diálogo que nos mostra que o Tarver está a contar a história a alguém; neste caso a Lilac, aparentemente numa noite depois de ele ter um pesadelo com a situação. Fico tão feliz só de pensar neles os dois juntinhos, a ter uma vida em comum, especialmente depois dos eventos de These Broken Stars. Pontos bónus por as autoras terem conseguido sugerir isso tão bem em tão poucas palavras.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

These Broken Stars, Amie Kaufman, Meagan Spooner


Opinião: Que desgraça, este livro foi o primeiro que li em 2014 e só agora estou a escrever a minha opinião. Mas tenho uma boa razão para isso, tenho andado distraída e ocupada com outras coisas, e quero mesmo escrever uma opinião em condições, que faça jus ao livro, e isso pede tempo e dedicação. Vamos lá ver se consigo fazer alguma coisa de jeito.

These Broken Stars é uma pequena caixinha de surpresas de bombons - começamos por comer só um, mas depois são tão bons que quando damos por nós lá se foi a caixa inteira. (Ups.) O livro tem imensas facetas, algumas que pareceria que não têm ligação possível, mas as autoras fazem um trabalho fantástico em juntar tudo sem parecer que temos ali um patchwork mal costurado de vários tecidos diferentes.

Gostei imenso da junção de vários tipos de história num. Primeiro começamos com a premissa "Titanic no espaço" - e eu era um pouco céptica em relação à parte do Titanic antes de ler, mas sim, muita coisa no início me recordou do Titanic, e o melhor é que é uma referência que ficou bem ancorada, e funciona mesmo bem dentro deste mundo. A Lilac e o Tarver vêm de lados opostos da escala social, e a tensão daí derivada é muito interessante. Por outro lado, aprecio a referência mitológica feita com o nome da nave - Icarus. É um nome mitológico (como o Titanic também o é), e fala-nos de hubris e de uma nave grandiosa construída com a arrogância do Homem (bem, de um homem, o Sr. LaRoux) que acaba por ser castigada pelos deuses e arrancada dos céus (ou do mar, no caso do Titanic).

Depois a história agarra noutro tipo de enredo para continuar - uma combinação de uma história survivalista, com alguns pós de exploração de um local inóspito, e uma boa dose de romance. A Lilac e o Tarver, os protagonistas, são os únicos sobreviventes após o despenhamento da Icarus, e o resto da história segue-os enquanto tentam sobreviver ao planeta onde aterraram, tentam encontrar uma maneira de voltar para casa, e tentam descobrir os mistérios deste planeta. Adorei conhecer melhor o planeta e perceber, juntamente com os protagonistas, que raios se passa com este planeta, terraformado e pronto para receber colonos, mas sem ninguém à vista. Onde os sussurros no vento quase nos fazem pensar que estamos loucos.

É claro que um enredo que junta duas pessoas sozinhas no meio de nenhures vai sem dúvida dar algum destaque ao evoluir da sua relação. E foi uma coisa que me deu gosto acompanhar. A Lilac e o Tarver começam a sua relação com o pé esquerdo, para o qual contribuem alguns preconceitos acerca das suas posições na sociedade... e no entanto, é isso que é cativante. Vê-los perder os preconceitos e chegarem a um entendimento mútuo. São duas pessoas muito diferentes que descobrem que têm algo em comum  - e não, não é só estarem presos num planeta inóspito: ambos são definidos pela sua posição social e acções, e a ambos é concedida uma liberdade inesperada ao encontrarem-se neste planeta. Deu-me prazer torcer pelos dois e como eles, quase desejei que não pudessem voltar para a civilização, que acaba por ser uma ameaça ao que construíram entre os dois durante a estada no planeta.

Por falar nos protagonistas... gostei mesmo deles. A Lilac é uma miúda mimada, a filha do homem mais rico do universo, mas também sabe navegar os mares tempestuosos da sua sociedade com uma maturidade impressionante. É tão casmurra e orgulhosa (a insistência dela em caminhar pelo planeta fora com aqueles sapatos horrendos e o vestido lindíssimo mas pouco prático é divertida), mas é muito corajosa e resistente. O Tarver já tem as ferramentas (tanto físicas como psicológicas) para sobreviver num ambiente destes, mas a Lilac não. É um testamento à sua personalidade forte que continuasse a caminhar e não se enroscasse num canto para morrer.

O Tarver é um personagem giro. Mais calado e com uma veia artística, muito paciente (ele teve que arrastar uma herdeira de saltos altos pela selva, vamos dar-lhe algum crédito), algo estóico. Ao início fica fascinado pela Lilac e interessa-se genuinamente por ela, mas a maneira como ela lhe responde abafa-lhe o interesse e leva-o a exasperar-se com ela. É o Tarver o responsável pela sobrevivência dos dois, porque a sua formação assim o permite, mas curiosamente é a Lilac a responsável em primeiro lugar por estarem os dois vivos e abandonados no planeta.

E à medida que a história evolui a Lilac acaba por se sentir mais à vontade no planeta e torna-se tão responsável pela sobrevivência dos dois como o Tarver. Gosto disso, que não se estabeleça um desequilíbrio na sua relação, porque é um aspecto importante da mesma, que os preconceitos e aparentes superioridades ou inferioridades sejam postos de lado e que os dois sejam parceiros iguais.

Gostei muito da escrita. Nunca se nota que foi escrito por duas pessoas, o que é um bom sinal - de que o seu trabalho se complementa. O estilo resultante agradou-me, é um tipo de escrita bonito. E apreciei o enquadramento que as autoras dão à narrativa: entre capítulos temos excertos de uma entrevista ao Tarver, presumivelmente após os eventos ocorridos no planeta, feita por uma entidade desconhecida. E torna-se fascinante perceber as discrepâncias entre o que acontece e o que o Tarver conta, o que subentende que algo de errado se passou entre os dois momentos... deixou-me com ainda mais vontade de continuar a ler.

Quanto ao planeta e ao seu mistério... muito intrigante. Havia algo de errado com aquele local, desde o início que era óbvio. E fiquei mesmo empenhada em perceber o que se estava a passar. Há um certo twist ali mais para o fim que me deixou abismada, traumatizada, e pronta a arrancar cabelos, um pouco à semelhança de um dos personagens... mas depois as coisas dão ainda mais uma reviravolta, que me deixou completamente assombrada. Reagi um pouco como o Tarver, primeiro desconfiada, depois uma crente... As ramificações e consequências do que estava a acontecer eram um pouco perturbadoras, mas também me deixaram curiosa em perceber como as autoras iam resolver a situação. (Posso dizer que fiquei satisfeita com a solução dada e o seu resultado.)

Um ponto que tenho mesmo de mencionar é o fim... sei que as autoras têm uma trilogia planeada, e que cada livro se foca num casal diferente, e por isso a história da Lilac e do Tarver fica aqui fechada (e bem fechada). Contudo, não deixo de ficar com vontade de ver como será a reintrodução à sociedade depois do que aconteceu. Adorava que as autoras escrevessem umas cenas bónus para mostrar isso. (Ou, sei lá, mostrar um bocadinho disso no livro seguinte.)

O outro aspecto do fim que quero mencionar é o pai da Lilac, o Sr. LaRoux. Um homem arrepiante (mas ele quer que a filha viva fechada numa gaiola? para não falar do que estava a acontecer no planeta...), e aparentemente o vilão não só deste livro mas também dos seguintes (a publicidade da trilogia fala de três histórias, mas um inimigo). E eu estou muitíssimo curiosa em ver o que as autoras têm em mente para a evolução da trilogia, e para o papel deste homem na mesma. Depois do que vi li aqui, tenho muito boas expectativas acerca destas autoras e desta trilogia.

Páginas: 384

Editora: Disney Hyperion