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terça-feira, 27 de junho de 2017

Isto Acaba Aqui, Colleen Hoover


Opinião: Portanto, mais um para a minha história dos Altos e Baixos Com a Colleen Hoover. Neste caso, orgulho-me de dizer que é um alto. Muito alto. Emocionalmente, criativamente, tecnicamente, é o livro mais complexo e mais completo que lhe vi. Tem um par de coisas que gostava de ver mais desenvolvidas, mas é extraordinário na maneira como dá nuance a uma situação que tão frequentemente é (erradamente) simplificada.

Estava aqui a perguntar-me... é suposto fazermos caixinha acerca do que o livro é? Porque a sinopse original é muito vaga, sim - enquanto que a portuguesa é bastante óbvia -, e de qualquer modo, acho que eu já sabia do que tratava só de ler opiniões por aí. E de qualquer modo não acredito que se ganhe nada por ser uma surpresa. (Até é interessante o leitor ir com os seus preconceitos para a leitura, para os ver desafiados.)

Lily é uma jovem que acabou de se mudar para Boston, para recomeçar a vida. A vida familiar não era de sonho, e a morte recente do pai tornou mais presentes memórias passadas. Um dia, sentada num telhado dum prédio, a pensar, Lily cruza-se com um jovem neurocirurgião, Ryle, que à primeira vista aparenta estar a descontar um mau dia numas cadeiras, que pobrezinhas, não lhe fizeram mal nenhum.

Ryle é encantador e misterioso, e Lily faz clique com ele. Um momento partilhado faz com que seis meses depois, com uma ajudinha da serendipidade, se cruzem novamente e decidam encetar uma relação. É intenso, é emocionante, e absorvente.

A parte interessante de ver a sua relação desenvolver-se, no entanto, é poder fazê-lo de fora. Desde o início que Ryle mostra alguns sinais alarmantes no que toca à sua personalidade - a sua cena inicial podia ser desculpável, qualquer pessoa tem momentos de frustração... mas pareceu-me que ele tinha demasiado gosto em deixar a Lily pendente com a sua coisa de não ter relações mas andar sempre atrás dela, tipo abelha em torno do mel. Há certas atitudes meio controladoras que ele tem no início da sua relação, que são preocupantes para quem vê de fora - mas que facilmente passam ao lado para quem está enlevado, nos píncaros da paixão.

E é esse, creio eu, precisamente o objectivo, o argumento do livro. (O que a autora estaria a tentar mostrar, quero eu dizer.) É muito fácil julgarmos de fora. ("Porque é que ela continua com ele?") Vejamos a Lily, que teve um exemplo muito claro em casa do que não é uma relação amorosa estável e saudável em casa... ela conhece os sinais. E mesmo assim cai na armadilha. O amor faz-nos coisas estranhas. Coloca-nos umas palas nos olhos que nos deixa cegos a muito, e oferece-nos uns óculos de lentes cor-de-rosa que nos fazem teimar em ver sempre o melhor.

Gosto de ver a Colleen pôr as coisas nestes termos. Todos podemos cair na armadilha. Todos podemos decidir perdoar e perdoar até a situação se tornar incomportável. Mas só nós podemos reconhecer o ciclo vicioso e quebrá-lo.

Outras duas coisas que achei interessante de ver: como a Lily entende melhor a mãe depois de passar por tudo isto. Há um respeito extraordinário pela senhora, e uma cena no fim com ela é bem tocante. E como toda a situação é descrita com nuance: entendemos porque o Ryle reage como reage, mas isso nunca é uma desculpa para o seu comportamento, que é descrito de forma muito clara como errado. E quando a Lily entende que não pode tolerar mais a situação, porque o amor não é suficiente e tem a quem dar um melhor exemplo que recebeu da mãe... não há desculpas. Há um entendimento que nada é simples, que haverá sempre ali uma ligação, mas que isso não justifica tudo o resto.

Gostava ainda de fazer uma menção à Lily... fora desta situação, ela tem um sonho, e segue-o. E é bem-sucedida a fazê-lo. Nada é mais inspirador que isso. E outra menção aos personagens secundários... adorei a Alyssa e o marido, tão amorosos e engraçados.

(E já agora, aiaiai, a Colleen e a sua paixão por nomes estranhos. Ryle, Alyssa, Rylee, Atlas... a sério? As pessoas na vida real não se chamam assim.)

Uma última menção para o Atlas. Não bastava ter um tema inspirador, era preciso dois. Atrevo-me a dizer que a Colleen foi demasiado ambiciosa. Gosto muito que ela tenha abordado a história do Atlas. Chama a atenção para uma situação por que demasiada gente passa, e que é tão fácil se perderem nos meandros do sistema...

Pergunto-me no entanto se não daria para escrever um segundo livro com a sua história. o que ele andou a fazer quando se separou da Lily, e acho que faria mais sentido nesse volume eles se reconectarem a sério.

Uma menção para a tradução, e não é das melhores... não aprecio quando os tradutores deixam que a cultura popular lhes passe ao lado e façam algumas asneiras a lidar com as menções a ela. Exemplo: traduz-se SpongeBob (o que me parece desnecessário), mas depois não se traduz Dory (há muitas menções a À Procura de Nemo) por Dóri, que é como a personagem é conhecida em Portugal. Entre outras coisas... enfim.

Título original: It Ends With Us (2016)

Páginas: 336

Editora: Topseller

Tradução: Dina Antunes

terça-feira, 11 de outubro de 2016

9 de Novembro, Colleen Hoover


Opinião: É assim, isto não pode ser. Eu passei a minha última opinião sobre um livro da Colleen a malhar nele e a queixar-me dos "truques" e "bengalas" que ela usa quando escreve. E depois vou ler outro livro dela, e até tem essas coisas de que me queixei. E acabo a gostar. Muito. E relutantemente. Eu sei. Eu também estou a abanar a minha cabeça face à minha inconstância.

Pronto, vamos focar-nos primeiro nas coisas ligeiramente irritantes (irritantes neste momento porque começa a parecer que ela não sabe escrever um livro sem elas) que ela passa a vida a fazer. A premissa louca. Fui a primeira a torcer o nariz a ela, céptica, porque já demasiados filmes e livros fizeram coisas parecidas. Tanto na parte de "reencontro ano após ano" como "livro dentro de livro".

E mesmo assim, resulta. Sei lá eu como, que reviro os olhos a instalove e conexões instantâneas e gente a suspirar uma pela outra após aproximadamente cinco minutos de tempo em conjunto. Mas a maneira como a Colleen escreve a situação em que os personagens principais se conhecem e aproximam, e combinam voltar a encontrar no futuro... bem, encheu-me as medidas. Intelectualmente, depois de ler, sei que a Fallon e o Ben passaram demasiado pouco tempo juntos para ser real.

Contudo, no livro, soou real. A Colleen escreve emoção reconhecidamente como as melhores, e conseguiu que a ligação entre os dois fosse credível, que eu pudesse acreditar que as coisas se passassem assim e torcesse pelos personagens. Dizem as coisas certas, e a emoção está lá.

Bem, e quanto à típica "reviravolta que mostra que os personagens têm uma ligação escondida"? Errr não foi assim tão difícil de adivinhar. A história não é assim tão complexa, e quando já sabemos que a Colleen faz *sempre* esse tipo de coisas... estranhamente, não me incomodou. Deu uma dimensão diferente à coisa, até mais complexidade à história. Estava curiosa para ver a história por trás dessa "ligação". Ajuda termos o ponto de vista dos dois personagens, que mostra que são genuínos na ligação que vemos desenvolver, mesmo que um deles esconda coisas.

Quanto à "protagonista coitadinha (e inexperiente)": entre as personagens femininas da Colleen, não é a pior. Claro que preferia que ela parasse de as escrever. Mas a Fallon faz algum sentido como personagem. Tendo passado pelo que ela passou, nas circunstâncias que eram, as suas inseguranças fazem muito sentido, ainda que sejam algo exasperantes de ler. Mas o ser humano é sempre muito irracional no que toca a inseguranças, por isso não lhe posso levar a mal.

E a modos que gosto do percurso dela. O modo como ganha confiança e evolui ao longo da narrativa. É um pouco frágil que isso aconteça em parte por causa de um rapaz, mas as inseguranças dela têm a ver com beleza exterior, e por isso ela precisava mesmo que alguém beijasse o chão que ela pisa durante cinco minutos para ver que sim, é uma pessoa fantástica, que se lixem as cicatrizes.

E de qualquer modo, como ela não vê o Ben durante o ano é mais como se os momentos com ele fossem momentos para lhe alimentar a confiança, que depois assentam durante o ano e tomam raízes, levando-a a expor-se mais e fazer coisas que a desafiem.

E enfim. Claro que achei que era uma parvoíce eles concordarem em só se verem uma vez por ano durante cinco anos, e não se procurarem nem manterem contacto. No início faz algo sentido, e até explica a intensidade da ligação. Queremos o que não podemos ter. Mas depois, quando eles se começam a envolver mesmo a fundo, é mais difícil de justificar a separação e continuar a ter os encontros ano após ano. Algumas separações são mais dramáticas por causa disso. Uma delas roça o ridículo na racionalização que um dos personagens faz, mas as outras fazem ao menos sentido dentro das circunstâncias.

Quanto ao Ben... é um pouco complicado. Sinto-me manipulada. É claro que eu sabia que ele andava a esconder algo desde o início, e não era bonito. E sabendo da verdade, no final do livro, algumas acções dele são questionáveis. Mas pronto, ajuda muito que tenhamos o POV dele. Dá para perceber que é genuíno no interesse pela Fallon, ainda que o cruzamento dos seus caminhos não tenha sido acidental. E enfim, ela escreve o Ben demasiado perfeito. É um pouco difícil resistir a tanta dedicação quando ele diz as coisas certas.

O enredo de um livro dentro de um livro é certamente interessante, e aqui ajuda a entregar a reviravolta da coisa. Ou as duas reviravoltas, diria. Na maior parte, a Colleen usa isso e o facto de o Ben ser escritor para brincar um bocadinho com os clichés de romances (irónico, tendo em conta que ela se apoia fortemente nos seus próprios clichés), e é engraçado, mas às vezes é algo indulgente com as piadas internas. Nem sempre tem piada, Colleen. Às vezes a análise que fazes é demasiado, ou demasiado pouco, autoconsciente.

Pontos bónus (ou não, porque não tenho saudades nenhumas), os protagonistas de Amor Cruel aparecem, felizes da vida, claro. O Ian que era amigo do Miles? É o irmão mais velho do Ben.

E pronto. Esta é a história de como mesmo estando ciente das fragilidades e clichés duma autora, ela ainda assim me dá a volta e faz gostar do seu livro. Como disse, isto foi um percurso percorrido muito relutantemente. Não se pode confiar em mim quanto a esta autora. Que diabos, eu não posso confiar nela. De certeza que o próximo me vai dar cabo da paciência. Estou de respiração suspensa, só da antecipação. (Ou não.)

Título original: November 9 (2015)

Páginas: 320

Editora: Topseller

Tradução: Dinis Pires

domingo, 4 de setembro de 2016

Confesso, Colleen Hoover


Opinião: Ah, este livro não foi nada mau, e já fico muito contente por isso. Prefiro não reviver a desgraça que foi o Amor Cruel. Este, muito melhor. Uma boa leitura. Nada que me entre para os favoritos de sempre, mas bastante bom, de qualquer modo. No entanto, o seu maior feito, na verdade, é fazer-me compreender porque é que eu e a Colleen não fazemos "clique", e porque provavelmente nunca faremos.

A premissa deste livro são as confissões. O protagonista masculino, Owen, é um pintor com uma galeria que abre uma vez por mês com os quadros que produz. Owen inspira-se com as confissões que lhe deixam anonimamente numa caixa. Podem ser coisas boas, más, horríveis, inspiradoras.

O tema das confissões é transposto para a vida dos nossos protagonistas. No caso do Owen, ele é bastante bem resolvido, o que é, honestamente, refrescante, especialmente porque estamos a falar da Colleen. Os problemas dele vêm da sua família e da relação que tem com eles, e do que é capaz de fazer por eles. E é daí que vem a sua confissão principal.

No caso da Auburn, conhecemo-la num prólogo que se passa alguns anos antes. A Auburn está a despedir-se do namorado na altura, Adam. O Adam está a morrer com cancro e não há nada a fazer. E ela tem de voltar a casa, às aulas, ou os seus pais terão problemas. A despedida é obviamente emocional, e soou-me fantasticamente. A autora sabe como começar um livro logo a abrir, e a emoção soou-me real.

No presente, a Auburn veio viver para o Texas, onde a ex-sogrinha (Lydia) e o irmão do antigo namorado (Trey) vivem, por razões que não entendemos logo. Tenta adaptar-se, mas não gosta particulamente de estar ali. E estes familiares que não são bem familiares dela tratam-na de forma desconcertante e absurda, por razões que ainda não compreendemos.

E pronto, aqui está o cerne do meu problema com a Colleen. A primeira parte é que temos mais uma heroína capacho. A Auburn tem uma excelente razão para deixar que lhe façam as coisas que lhe fazem. Contudo, raramente vejo revolta, só resignação. E como é uma situação nova, estranha, ainda mais me surpreende que ela não se mostre mais chocada. Só no final é que ganha tomates e dá a volta ao tratamento que recebe (e duma forma brilhante, diga-se), mas é demasiado tarde para eu poder respeitá-la completamente.

A segunda parte do meu problema com a autora, e a parte principal... é o drama. Digamos que ela a criar os problemas dos personagens dela, às vezes (errr, na verdade é praticamente sempre), vai um bocadinho longe demais. E passamos do drama para o exagero. E foi o que senti com a revelação da situação da Auburn:  pensei "a sério Colleen? tinhas mesmo de ir por aí?". É que num golpe conseguiu diminuir a Auburn e fazer dela uma coitadinha. Não gostei particularmente.

A situação em si é interessante, e revelada doutra maneira dava muito sumo. A maneira como foi revelada diz-me que a autora gosta de ir para o melodrama e para a lágrima fácil. Não me identifico com isso. Em comparação, o último que li da Jennifer L. Armentrout lida com temas igualmente complicados e pesados, mas nunca senti isto. As emoções soaram-me reais, credíveis. E ela nunca escreve para a choradeira (leia-se: à Nicholas Sparks).

A terceira parte do problema? Oh Colleen, pára-me lá com duas coisas: a) insta-qualquer coisa. Se pensarmos bem, a Auburn e o Owen passam tão pouco tempo juntos, e de repente já estão obcecados um com o outro. E a piada da coisa é que a Colleen escreve emoção bastante bem, e os momentos de ligação deles são extraordinários, e soam-me na maioria reais. Mas depois começo a pensar no pouco tempo que passaram realmente, e tenho dificuldade em acreditar na coisa.

E b) ai por amor da santa, esta coisa do "destino" que ela gosta tanto de fazer está a ficar velha, e eu até nem li tantos dos seus livros. Um livro em que os personagens se conheceram no passado, e um deles não se dá conta, é giro. Mais que um, começa a ser cliché. Ou a soar não tão imaginativo assim.

Enfim. O verdadeiro drama disto tudo é que a Colleen escreve muito bem, e tem umas ideias fantásticas (adoro a premissa das pinturas, incluídas no livro, e das confissões). Acho que apenas de vez em quando fica demasiado enamorada delas e exagera um pouco. E é com esse género de coisa que eu não vou à bola.

O que é que isto quer dizer? Bem, tenciono continuar a lê-la. Como disse, ela é bastante boa escritora. Apenas vou pegar num livro dela com as expectativas ajustadas. Provavelmente não vou amar (não como o Um Caso Perdido, que era o meu primeiro dela e era novidade para mim), e vou mentalizar-me para o melodrama. Com isso em mente, suspeito que sobreviverei.

Título original: Confess (2015)

Páginas: 256

Editora: Topseller (grupo 20|20)

Tradução: Diogo Montenegro

terça-feira, 14 de julho de 2015

Amor Cruel, Colleen Hoover


Opinião: Colleen Hoover, minha cara, por favor, pára de me torturar. E não, esta frase nem sequer é no bom sentido. (Bem, maioritariamente não é no bom sentido.) É que escreves bastante bem, bem o suficiente para me cativar e arrebatar e arrastar ao longo das tuas páginas sem que eu dê por isso, e as tuas histórias são interessantes e cheias de reviravoltas, e os teus personagens têm (maioritariamente) um quê de real e relacionável, e eu embalo na história, e parece tudo bonito e perfeito.

MAS... e tudo tem um mas... as tuas histórias têm situações problemáticas, e não acho que lides bem com elas, e quanto mais penso nelas mais as detesto, e mais furiosa fico com o livro, e pronto, estão contentes, Dona Colleen e Senhor Cérebro da p7, acabaram de me estragar mais uma leitura perfeitamente decente.

A grande situação problemática deste livro: o Miles. Oh, a história dele é interessante, e trágica, e a maneira como a Colleen a conta, com os capítulos do Miles a serem em flashback, é cativante o suficiente. Contudo, bolas, o Miles do presente é um idiota (para não usar epítetos piores), e não me parece que se redima a suficiente para merecer que eu goste dele.

Primeiro: um rapaz de 24 anos que ficou emocionalmente (e sexualmente) preso nos 18 NÃO é sexy. Nadinha. Tenham lá paciência. Depois: ele porta-se de maneira tão estúpida com a Tate, e tem consciência disso, e pede desculpa, mas o problema é que à segunda, e terceira, e quarta vez, continua a portar-se como um estúpido.

Se pede desculpas é porque está minimamente emocionalmente envolvido, o suficiente para lamentar magoar a Tate, mas isso implica evitar voltar a magoá-la, o que ele não faz. (E nem é por causa do acordo deles. Podia manter-se emocionalmente afastado, e ser uma pessoa decente e não magoá-la. Mas não consegue evitar ser horrível com ela. Isso é simplesmente ser má pessoa.)

Mais: não conseguimos ver o suficiente da evolução emocional dele no presente para acreditar bem na sua mudança de sentimentos. Se eu franzir e esforçar bem os olhos consigo, lá bem no fundo, ver vislumbres de que o seu coração está comprometido, e que pode estar a mudar de ideias. Mas é isso. Sou eu a esforçar-me muito para ver coisas que podem não estar lá. A narração no presente é da Tate, e claro que estamos reduzidos ao que ela vê, mas creio que a autora podia ser mais e menos subtil ao mesmo tempo e plantar melhor as suas pistas.

Por fim: mas ele acha que pode trancar o coração e sentir só com a cabeça? Oh, céus, que perspectiva tão infantil e ingénua. Isto é mesmo um homem de 24 anos? Não parece. Porque o que é mais irritante é ver esses vislumbres de que falei, e vê-lo insistir na mesma atitude casmurra, de não querer sentir emoções, qual pessoa que bate com a cabeça contra a parede na esperança de atravessá-la.

Não digo que a caracterização dele não faça sentido em certos pontos, mas depois há outros em que podia ser bem melhor. Não vou pedir capítulos no ponto de vista dele do presente, fiz isso com o Hopeless acerca do Holder e arrependi-me porque achei o Holder tão aborrecido e repetitivo e choninhas no Losing Hope. Mas podíamos ter uma evolução dele para melhor mais profunda e mais bem explorada. Ser traumatizadinho não é desculpa para se ser má pessoa.

Agora a Tate. Eu gosto dela, é uma rapariga independente a esforçar-se para avançar profissionalmente e academicamente. E respeito-a o suficiente por se meter com o Miles consciente de que aquilo vai dar asneira, porque ao menos sabe isso, o que já é um passo à frente da maior parte das heroínas neste tipo de história.

Só que também tenho alguma dificuldade em respeitá-la por estar a insistir em cavar o buraco quando sabe que será a sua sepultura. No seu primeiro encontro, o Miles é tudo menos charmoso, um parvo autêntico, e o que é que ela está a pensar um bocado depois "ai ele é tão giro, apetece-me saltar-lhe para cima". *facepalm*

Acho que também tenho alguns problemas com eles como casal, porque ali não vi, ou li, grande química. A primeira cena de sexo deles é francamente aborrecida. Além disso, sinto que falta uma série de cenas que sirvam de ligação e que construam a relação deles, cenas mundanas (não relacionadas com o todo o sexo que é suposto terem) só com os dois que mostrem porque é que estão a mudar de perspectiva, porque é que se estão a aproximar. Temos poucas cenas disso, muitas de sexo, muitas com outros personagens, e muitas que não fazem nada para avançar a relação.

Há uma série de personagens secundários nos quais fiquei interessada, pelas cenas que li com eles, pelos seus comentários, pelos seus perfis. O Comandante, que é totalmente adorável. O Corbin, o irmão da Tate, e o Ian, o amigo do Miles, têm potencial. E a Rachel, que no meio disto tudo é a verdadeira heroína da história. Porque esta mulher teve a coragem de fazer paz com uma tragédia pessoal e continuar a viver, recusando-se a ser derrotada. Não podíamos ter contado a história dela em vez desta?

Enfim. Quanto mais leio Colleen Hoover, mais confusa fico. Gosto genuinamente de ler os seus livros, e divirto-me a lê-los, passo um bom bocado, e gosto de como constrói as suas histórias e até dos traços que dá aos personagens. No entanto, algo falha na execução, e quanto mais penso no livro depois de o ter lido, mais me irrita com os problemas que demonstra.

É engraçado, porque eu adorei o Hopeless, e encontro-lhe umas poucas falhas (melhor, gosto dele apesar das falhas), mas ainda assim lembro-me que achei que precisava de mais trabalho de edição. É precisamente o que encontrei neste: com alguém a obrigar a Colleen a pensar no sentido que a história e os personagens têm de fazer, isto seria francamente melhor. Eu consigo vislumbrar um livro melhor, mais bem feito, que seria brilhante com os pedaços que já gosto nele e com aqueles que precisa de melhorar, e sei que há uma história melhor à espera de sair desta escultura em bruto.

P.S.: não sei se gosto deste título. Amor Cruel soa-me a um tipo de relação que nada tem a ver com a descrita no livro. O Miles não é cruel, apenas insensato e pouco ponderado. E quanto ao passado, bem, já não é amor, pois não? O título aponta mais para o presente. Talvez Amor Sombrio? Melhor ainda, Feio Amor. Sei que é literal, mas também é simbólico, e lembra-me o dito popular de que quem feio ama bonito lhe parece, o que é bastante adequado à atitude da Tate ao longo do livro.

P.S.II: não sou fã da tradução. Não consigo apontar exemplos específicos, mas de vez em quando soava-me mal, como quando se tenta traduzir literalmente, em vez de figurativamente, algo que só faz sentido em inglês.

P.S.III: a capa no entanto é brutal e brilhante. Faz um sentido perfeito com uma cena crucial do livro. É até arrepiante.

Título original: Ugly Love (2014)

Páginas: 288

Editora: Topseller (20|20)

Tradução: Duarte Sousa Tavares

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Uma Nova Esperança, Colleen Hoover


Opinião: Estava um pouco na dúvida acerca desta leitura. Gostei muito do primeiro livro, Um Caso Perdido, achei-o bem bom, tão absorvente, e questionava-me se este livro seria digno da fasquia que estava bem elevada. Por outro lado, desconfio por defeito de livros cuja premissa seja recontar uma história que já foi contada, mas noutra perspectiva, porque nem sempre a sua utilidade é clara ou sequer presente.

E sou capaz de acabar por gostar de um livro que faça isso. Por exemplo, temos o Trust in Me, da J. Lynn/Jennifer L. Armentrout, que reconta o Wait for You, e que se revelou uma boa surpresa, porque a voz do Cam era cativante e capaz de suportar a narrativa; e o próprio livro fazia um bom trabalho em não se limitar a recontar a mesma história, mas a complementá-la.

Em comparação, acho que Uma Nova Esperança falha bastante em ambos os aspectos. Primeiro porque o livro é exaustivo a recontar os eventos de Um Caso Perdido, revendo cena após cena, sem lhes acrescentar propriamente nada de novo. E como o mistério já foi revelado, acaba por perder a piada ao ler mais do mesmo.

Há pequenas coisas que são uma adição, e dou graças por elas, porque geralmente são muito divertidas, mas tenho pena que não tenham mais tempo de antena. Adorei o Daniel, porque era tão engraçado, e diz aquilo que todos gostaríamos de dizer. Gostei de ver bocadinhos com o Breckin, um personagem secundário que já era favorito anteriormente (e gostei de ver esclarecida a questão do e-reader).

Daquilo que há de novo, está centrado no início do livro, narrando o que aconteceu com a Less, e a reacção do Holder a estes eventos, o que foi comovente, mas também um pouco cansativo, por causa da voz dele, com a qual tive alguns problemas (já falamos disso). Achei interessante saber que a Less e a mãe deles sabiam uma certa informação privilegiada e que a mantiveram resguardada.

Sobre a voz do Holder, bem... não me parece forte o suficiente para carregar a história aos ombros. É interessante ver alguns dos momentos mais "estranhos" dele no livro anterior e ver a sua perspectiva, porque explica pelo menos as suas atitudes; mas também não era nada que eu não tivesse já deduzido na altura.

Além disso, achei-o por vezes mesmo irritante. Aquela necessidade patológica de se culpabilizar por todos os males do mundo! Credo, tanta auto-flagelação. A Sky cai para o lado, ele acha que é culpa dele. A Sky sente-se mal, a culpa é dele. A Sky espirra, a culpa também é dele. Ugh, que nervos. Eu consigo compreender como as circunstâncias o fizeram interiorizar a culpa, depois do que aconteceu quando ele era pequeno, e não digo que não seja realista, mas é enervante.

De qualquer modo, questiono se o percurso dele com a culpa que sente seria mesmo assim. Aquilo que aconteceu, aconteceu quando era muito novo, e apesar de ser uma situação marcante, pergunto-me se o tempo e a memória não a teriam modificado, condicionado. Ele parece recordar tudo e mais alguma coisa com tanta clareza, mas quando temos aquela idade pouco fica na memória, e muito disso possivelmente é modificado pelo decorrer do tempo e o surgimento da maturidade, que permite interpretar as coisas de modo diferente, e assim modificar a cena de que nos recordamos. Por isso, fará isto sentido? Tanta culpa, pura, não destilada? Parecia que tinha acontecido ontem, e não treze anos antes.

Fora isso, também não apreciei a voz dele no percurso do luto, porque há soluços na cronologia da narrativa, e as reacções dele não me pareceram mudar com o tempo e os saltos temporais. Não achei razoável que ele "reconhecesse" a Hope, passados treze anos, porque as pessoas mudam muito nesse tempo, e porque lá está, a memória não seria assim tão perfeita e cristalina.

Não gostei que ele achasse que tinha o direito de interferir ou modificar a vida dos outros, nomeadamente das mulheres da vida dele, escondendo-lhes coisas, só porque achava que "estava a protegê-las". A Less merecia saber do namorado, e fazer o que bem achasse por causa disso (viu-se que a solução do Holder foi um tiro no pé, e aí merece sentir toda a culpa do mundo), e a Sky merecia saber a verdade, e não descobrir num momento traumático.

Também não lhe achei piada por aí além como rapaz e namorado, porque parecia que não vivia para mais nada senão para a rapariga. Aliás, toda a narração é quase assim. Parece que o Holder não tem mais nada na vida senão a Sky e obcecar com a tragédia de treze anos antes. Ele não tem vida?

Em suma, gostei muito do primeiro livro, achei fascinante a Sky e a sua (falta de) reacção, porque fazia muito sentido com o percurso dela, e conseguiu manter-me interessada, ainda mais com um mistério a resolver.

Por outro lado, aqui, senti que fosse mais do mesmo, o Holder não fez nada por mim como personagem, a sua voz irritou-me, impedindo que tirasse gozo da leitura, ou sequer emoção dela, como esperava que acontecesse. Passei o tempo todo a questionar a narrativa em vez de me deixar levar, como no primeiro livro, e isso não é bom sinal. Preferia mesmo não ter lido isto. (Bem, talvez só as partes do Daniel, ou os pequenos pormenores que adicionam de facto algo à história.)

Título original: Losing Hope (2013)

Páginas: 304

Editora: Topseller (20|20)

Tradução: Ângelo Santana

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Um Caso Perdido, Colleen Hoover


Opinião: Quase que sinto que devia fazer duas opiniões para este livro. A narração divide-se em duas partes que se complementam bastante bem, construindo um todo completamente devorável, mas ambas as partes têm um tom algo diferente, o que é surpreendente quando penso que ambas fazem parte da mesma história e que ambas contribuíram para o gozo que tirei da leitura.

A primeira parte - e vou ignorar o excerto que é inserido no início e que faz parte dum capítulo mais para a frente no livro, porque foi completamente inútil, não serviu para me atiçar a curiosidade, só me fez soltar um WTF? - apresenta-nos Sky Davis, uma jovem que até agora teve aulas em casa, numa existência algo reclusiva, sem acesso a tecnologias. Mas Sky cresceu feliz e passa parte do seu tempo com Six, a sua melhor amiga.

Sky convenceu finalmente a mãe, Karen, a fazer o 12º ano na escola secundária, para estar mais tempo com a Six, conviver com jovens da sua idade e fazer algumas actividades extracurriculares, mas Six troca-lhe as voltas e vai fazer um intercâmbio para Itália. Sky não se acobarda e continua determinada a ir para a escola, nem imaginando a reviravolta que a sua vida vai dar.

Entra em cena Dean Holder, um rapaz misterioso que a atrai muito, mas que lhe envia sinais mistos, e que desafia Sky como ela nunca tinha sido desafiada. E, pronto, esta parte dos inícios românticos do par é assim para o cliché. A Sky nunca se sentiu assim, ele é tão giro e misterioso e perigoso, uuhhh que bom.

Honestamente, ele emite uma vibe um bocado esquisita em certos momentos. Mais à frente vemos que há uma explicação razoável para o comportamento dele, mas a sério, a autora precisava de levar certas cenas e reacções a certos extremos? Podia perfeitamente atenuado a coisa e ainda assim dar pistas para a segunda parte da narrativa - aqui o problema, parece-me, é mais edição do que outra coisa.

Outra coisa singular é a declaração de Sky que, sim, se envolve com rapazes, mas nunca chegam a vias de facto, porque, não, ela não é uma galdéria. Vou dar-lhe um desconto, porque acho que isto é mais a Sky em modo auto-depreciativo a papaguear o que o resto da sociedade nos quer fazer acreditar... no entanto, preferia que a autora escolhesse outros modos de mostrar a auto-depreciação, porque a coisa é ambígua e não se percebe se está a validar esta falácia ou não. Vou também atribuir o problema a má edição, porque alguém com dois dedos de testa que fosse beta-reader dizia-lhe que isto era uma parvoíce. (O livro foi auto-publicado, originalmente.)

A piada da coisa é que... apesar dos clichés e dos revirares de olhos, o raio do livro devora-se enquanto o diabo esfrega o olho. Passei o último Domingo agarrada a ele, a virar páginas, a dizer para mim própria que tinha de continuar a ler, porque precisava mesmo de ver o que ia acontecer a seguir. A escrita da Colleen Hoover prende uma pessoa, e ela tem um modo de criar personagens vívidos e singulares, com pequenas características únicas. E apesar do início da relação da Sky e do Holder me fazer torcer o nariz, o resto foi absolutamente delicioso de seguir. A química está lá, as cenas íntimas são intensas, e dei por mim a torcer para que estes dois palermas se entendessem.

A segunda parte da narrativa é bem mais séria, e foi a minha favorita por causa disso. (Bem, está empatada com o desenvolver da relação da Sky e do Holder, suponho, que quando passou a parte inicial até foi bem divertida.) Não me posso alongar, porque parte da piada é descobrir aos poucos as coisas com os personagens... desconfiei quase desde o início qual era a "revelação" que vinha aí, mas isso não me estragou o gozo que tirei da leitura.

Posso dizer que gostei muito da descrição da situação e das repercussões que teve nos envolvidos. Achei realista e fez sentido com algumas singularidades dos personagens, para além de haver uma espécie de ressonância dos acontecimentos que acaba por ligar toda a gente mais do que se pensaria. E gosto que a autora tenha mostrado as nuances da situação, especialmente no fim. As coisas não são a preto e branco, e gostei de acompanhar o dilema moral apresentado com aquela situação final.

O elenco de personagens secundários traz algumas personalidades interessantes. A Karen, que é uma mulher mais forte e reservada do que se pensaria, mas que parece ter tido um percurso de vida interessante e duríssimo. A Six, que é uma doida no melhor dos sentidos, muito divertida, e uma óptima amiga para a Sky; e que mesmo não estando presente fisicamente, mantém a sua presença em espírito de modo muito resoluto. E o Breckin, que é o melhor tipo de nerd (livros), e o melhor tipo de amigo (oferece um e-reader à Sky, coisa que ela nem sabia bem o que era, graças a viver numa casa livre de tecnologia, mas na qual fica rapidamente viciada). Gostava que o Breckin tivesse um livro para ele. Sei que a Six teve direito a uma novela, por isso não é demais esperar pelo mesmo.

Acho que posso terminar dizendo que não era bem a história que estava à espera, mas que foi uma bela surpresa. Foi uma leitura mais leve e mais pesada do que pensava que ia ser, equilibrando os seus dois aspectos duma boa maneira. Posso dizer que a escrita da autora pegou em mim e arrastou-me ao longo de todo o livro, só me deixando respirar quando terminei; e fiquei com vontade de ler mais qualquer coisa dela.

Título original: Hopeless (2012)

Páginas: 352

Editora: Topseller

Tradução: Priscila Catão