Mostrar mensagens com a etiqueta Laini Taylor. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Laini Taylor. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Strange the Dreamer, Laini Taylor


Opinião: Arghhh eu aqui há tanto tempo à espera dum livro da Laini Taylor e ela faz-me isto! Sinto-me enganada! Indignada! Furiosa!

... ok, estou a ser dramática simplesmente pelo objectivo de o ser. Mas a verdade é que mal posso acreditar neste livro e na maneira como terminou. É a coisa mais insatisfatória e cliffhangeresca que já vi. (No bom sentido, claro.) Ai... há autoras que têm mesmo prazer em torturar-nos, diria eu. Ou como dizia em conversa há uns dias, essas autoras bebem lágrimas de leitores e alimentam-se das suas esperanças devastadas. (As trolls.)

O que posso eu dizer mais? É Laini Taylor. Quem não leu, devia ganhar juízo e ler. Quem leu e não gostou, não é agora que vai gostar, suponho. Quem leu gostou, está à espera do quê? Porque ela continua a fazer aquela coisa maravilhosa em que combina uma escrita fantasiosa e um storytelling encantador, numa combinação mágica digna de conto de fadas.

A diferença para os contos de fadas, que são primordiais e arquetípicos, é que a autora é uma brilhante observadora e descritora da natureza humana; entende perfeitamente aquilo que faz de nós o que somos, como portamos o bem e o mal em nós, e como as circunstâncias condicionam isso mesmo.

Isso relaciona-se com o conflito no centro da narrativa: a cidade mencionada na sinopse está no centro de um conflito entre, erm, tipos de pessoas, digamos assim. E é esse conflito que ditou os acontecimentos misteriosos aludidos na sinopse; como essas coisas se deram, no entanto... bem, a piada é ler e descobrir.

E pronto, a autora consegue facilmente envolver-nos na narrativa com a sua capacidade extraordinária em que usa uma linguagem onírica e mágica e extravagante, sem nunca ser exagerada ou melosa. Diria que ela é enganadoramente simples: se eu explicasse a alguém o enredo, pareceria óbvio... mas ao ler tem tantas facetas e pequenos detalhes fabulosos; quase que usa arquétipos e ideias-base, mas depois desconstrói-os e subverte-os, e assim consegue surpreender-nos.

O worldbuilding é fascinante: adoro o cuidado com que a biblioteca é descrita, o refúgio mágico que parece ser para o Lazlo; e depois adorei conhecer Weep, a cidade verdadeira, e Unseen City, a cidade dos sonhos. Existem duas versões de si, e cada uma merece ser conhecida. Além disso, está presente também no enredo algo sobre os sonhos e a sua textura, e essa exploração é outra coisa digna de nota.

Quanto a personagens: o par de protagonistas é adorável. O Lazlo é uma coisinha preciosa, sonhador, tímido, simples, talvez um pouco injustiçado. No entanto, um momento de coragem permite-lhe alcançar o seu sonho, e oh céus, que bela aventura o espera. A Sarai, bem, é melhor conhecê-la. Mas está circunscrita às expectativas e preconceitos dos outros, e isso é verdadeiramente trágico. A sua posição única tornou-a verdadeiramente empática, apesar de ter razões para o ódio.

Os dois juntos, bem... se fosse outra autora, eu teria arrancado os cabelos. A Laini safa-se. O que acontece encaixa bem com o tipo de história e escrita. Porque honestamente, estes dois tecnicamente ainda não se conheceram no mundo real e já estão todos lamechas um com o outro, e eu a revirar os olhinhos do alto da minha idade mais velha. É um pouco exasperante, mas amoroso, suponho. Como disse, encaixa com a Laini e o tipo de situação em que estão, que pressiona o decorrer dos acontecimentos. Além disso, eles são novos e inexperientes, o que leva a um imediatismo que acaba por ser cativante, apesar de tudo.

Outros personagens: gostei de conhecer as pessoas que rodeiam a Sarai. São miúdos bem queridos e gostava que tivessem tido outra vida. (A Minya não. Essa pode morrer. Ugh. Detesto personagens como a Minya. Fundamentalistas e imutáveis. Não são antagonistas interessantes. Até podem ser desafiantes para os protagonistas, mas não podem evoluir, e isso irrita-me. Mas adoro odiá-los.) Também gostei de conhecer a Calixte, miúda intrépida e desbocada, e os que rodeiam Eril-Fane, que são um símbolo do que a cidade conheceu por 200 anos. Conhecer a sua história trágica é de partir o coração.

A mensagem da história é curiosamente relevante nos dias que correm. Uma mensagem sobre opressão e desumanização do "inimigo", sobre os actos terríveis que se cometem depois de ultrapassado um certo ponto de pressão... sobre as diferenças que nos separam e aproximam, sobre preconceito aprendido e internalizado e como é difícil descartá-lo, e sobre como é fácil violência alimentar violência. Difícil é ultrapassar uma vida inteira a aprender a linguagem do ódio.

Há algumas pequenas reviravoltas na história... mas digamos que começo a conhecer como a autora "funciona". Ela faz um comentário de passagem à página 200 que fez clique para mim e adivinhei o que ela tinha preparado para nós umas 250 páginas depois. Não estragou o meu gosto pela leitura. Pelo contrário, diverti-me a ver como as coisas iam parar àquele ponto. Houve espaço para o inesperado, ainda assim.

O final... oh, o final. É de partir o coração. É torturoso, é quase incredível. Mal consigo imaginar como ela vai descalçar a bota. É frustrante. e enervante. Tudo isto no bom sentido, claro. Mas toda eu comicho só de pensar em esperar um ano ou mais para saber o que vai acontecer a seguir.

Páginas: 544

Editora: Little, Brown (Hachette)

domingo, 3 de maio de 2015

A Quimera de Praga, Laini Taylor


Opinião: Raramente faço releituras completas ou sequer compro um livro mais que uma vez, a não ser que seja um grande favorito. (Culpado principal: Orgulho e Preconceito e outros livros da Jane Austen.) Tendo em conta que adorei o Daughter of Smoke and Bone, alías, a trilogia completa, e sou fã incondicional da Laini Taylor, achei que valia a pena dar a oportunidade à tradução portuguesa, nem quer seja para ver como estava.

E basicamente apaixonei-me novamente pela história. A Laini tem uma escrita tão rica, e uma construção de mundos fascinante, e o enredo evolui duma maneira que mesmo sabendo como termina, ainda assim conseguiu cativar-me.

Mais, consegui encontrar novas coisas para gostar e apreciar. Consegui, agora que sei quais as revelações que estão mais para a frente, entender certas referências, compreender melhor os personagens e suas motivações. Dá para entender muito melhor o caminho do Akiva até aqui, perceber a aproximação da Karou e dele neste livro, e até as acções dela aqui, e para a frente.

Um personagem pelo qual desenvolvi uma admiração ainda maior é o Brimstone, especialmente pela natureza do seu trabalho e pelos sacrifícios que exige. Tudo o que ele tem de suportar fazer, porque acredita na causa, enquanto gostaria que tudo fosse diferente, que o seu mundo fosse melhor, mas não lhe permite. E mais, é verdadeiramente trágico que não se permita mostrar afecto pela Karou, e que se separem do modo que separam, zangados, porque nenhum merece, especialmente porque o seu laço é bem mais forte do que aparenta.

Toda a história tem uma atmosfera mágica, daquela que nos faz acreditar em destino e magia e no fantástico à vista do real. A história dos protagonistas é verdadeiramente apaixonante e encantadora, e adorei voltar a segui-los. O elenco de personagens secundários é fantástico, dá imenso gozo acompanhá-los. (Destaque para a Zuzana, pela sua personalidade e pelas suas falas divertidíssimas.)

Acho que não tenho queixas da tradução, com uma excepção: há uma fala da Zuzana quando conhece o Akiva que no original está no infinitivo, mas que a tradutora decide traduzir para um tempo verbal do indicativo, atribuindo a acção à Zuzana, quando a acção devia ser mais geral. O problema é que a fala é hilariante no original, mas em português soa mal, pelas circunstâncias recentes da Zuzana. Parece-me que não dava trabalho nenhum manter o tempo verbal como estava, mas enfim, os nossos tradutores gostam de inventar um bocado...

De qualquer modo, é um livro que recomendaria sem reservas, adoro a história e a autora, e a edição é bastante boa. (Não era muito fã da capa, mas entranhou-se-me.) Suspeito que possa não ir ao encontro dos gostos de toda a gente, mas acho que é daquelas histórias a que vale a pena dar oportunidade, porque a recompensa é demasiado grande para não arriscar. É um bom livro para se sair da zona de conforto.

Título original: Daughter of Smoke and Bone (2011)

Páginas: 376

Editora: Porto Editora

Tradução: Elsa T.S. Vieira

sábado, 22 de novembro de 2014

My True Love Gave to Me, antologia editada por Stephanie Perkins


Opinião: My True Love Gave to Me é uma antologia de contos com tema festivo, subordinando-se à época natalícia e de Ano Novo para apresentar uma dúzia de histórias escritas pelo mesmo número de autores, sendo que a totalidade das histórias se encaixa na faixa etária YA (e todos os autores me parecem publicar maioritariamente YA, também).

Em jeito de visão geral, é um bom conjunto de histórias, que me agradou imenso. Os nomes dos autores são em grande parte meus conhecidos e por isso já me sinto confortável com a sua escrita e o seu estilo narrativo - se bem que não será essa a razão principal para eu ter gostado dos contos ou não, já que gostei de contos de autores para mim desconhecidos, por exemplo.

Fiquei surpreendida com o tom ligeiramente mágico de alguns contos. Não é que não o esperasse de alguém como a Laini Taylor; mas o meu primeiro conto "mágico" da antologia foi o da Kelly Link, uma autora que não conhecia, e não sei bem porquê, não me identifiquei com a maneira como a história foi contada. Também o segundo conto "mágico", o da Jenny Han, me soou um pouco estranho, talvez inacabado, mas fiquei curiosa por ler mais coisas dela.

Por outro lado, fiquei a conhecer a voz de novos autores, e gostei muito daquilo que li do Matt de la Peña, da Myra McEntire, e até da Holly Black ou do David Levithan. Cada um deu uma perspectiva única à sua história, e isso contribuiu para manter o meu interesse no conto.

Das autoras que já conhecia, adorei reler a Rainbow Rowell, a Stephanie Perkins, a Gayle Forman, a Kiersten White, a Ally Carter, e a Laini Taylor. Qualquer uma destas senhoras é capaz de escrever uma boa história, e apreciei acompanhá-las, encontrando novas histórias e um estilo já conhecido e confortável.

Midnights de Rainbow Rowell é uma história adorável sobre dois amigos, um rapaz e uma rapariga, que se juntam nas passagens de ano em 4 anos sucessivos. Gostei do formato (ano após ano), que permitiu ver a evolução da relação deles, e foi deliciosamente frustrante esperar que pelo menos um deles se apercebesse do que tinham.

The Lady and the Fox de Kelly Link foi uma história que tive dificuldade em acompanhar. Não sei se por causa do tom ou da escrita. A ideia é interessante, um ser mágico que ano após ano aparece a uma família, preso a uma figura misteriosa, mas o tom não encaixa propriamente com o tema natalício, e a premissa precisava de ser melhor desenvolvida para funcionar.

Angels in the Snow de Matt de la Peña foi uma boa surpresa. Gostei da voz que o autor deu ao protagonista, pois senti-a muito credível, e era possível acreditar nas dificuldades e tristezas que carregava. Além disso, a história pega num tema apropriado à época, com duas pessoas que nunca se cruzariam a aproximarem-se graças à mesma.

Polaris is Where You'll Find Me de Jenny Han é uma história estranha. Fez-me confusão pegar-se nos habitantes do Polo Norte, torná-los reais, e ainda criar uma protagonista humana que cresceu educada pelo Pai Natal e rodeada de elfos. A história pareceu-me inacabada, por deixar uma situação em suspenso, mas também foi isso que me intrigou.

It's a Yuletide Miracle, Charlie Brown de Stephanie Perkins conta com dois protagonistas encantadores, e com uma química bem credível, mesmo ao jeito da autora. Gostei muito da exploração do passado dos protagonistas e como isso faz deles o que são. Cada um tem as suas particularidades, mas fazem um belo casal, e acreditei na sua aproximação.

Your Temporary Santa de David Levithan consegue sugerir muito com pouco, e apresentar uma história fofinha - o protagonista veste-se de Pai Natal para permitir a uma menininha continuar a acreditar no mesmo. Pontos bónus por apresentar um casal gay naturalmente. O fim parece um pouco fraco, mas apreciei vislumbrar as dúvidas do protagonista.

Krampuslauf de Holly Black funcionou bem para mim, pois mantém a aparência de realismo, só sugerindo o mágico, e revelando-o mais no fim. Acabou por ser interessante pela determinação da protagonista e pelas peripécias que ocorrem. A narração é singular - no início nem dá para perceber de que sexo é a personagem principal, e o seu nome só é mencionado no fim.

What the Hell Have You Done, Sophie Roth? de Gayle Forman é curiosamente nada dramático. Consegue apresentar os problemas da protagonista, fazer perceber onde ela tinha razão e onde podia melhorar. Gosto da voz sarcástica dela. É engraçado, porque apresenta a questão da discriminação dum novo ponto de vista, virando a posição dos dois personagens principais.

Beer Buckets and Baby Jesus de Myra McEntire tem um tom tão, tão divertido. O personagem principal é um ensarilhado e admite-o sem pedir desculpas. Dá para vislumbrar como é que a vida fez dele o que é, e as peripécias da história levam-no a desejar ser uma melhor pessoa, e a esforçar-se nesse sentido. Alguns personagens secundários surpreendem, no bom sentido.

Welcome to Christmas, CA de Kiersten White tem o bom humor da autora na sua concepção, mas também consegue desenhar um bom retrato do mundo interior da protagonista, do que a frustra e daquilo que falha em ver. Numa lição natalícia, acaba por apreciar melhor o que tem e aproveitar o que vem ao seu encontro. E a noção duma vila natalícia é hilariante.

Star of Bethlehem de Ally Carter tem uma premissa que roça o difícil de acreditar, mas que a autora faz resultar, tal como nos seus livros de Gallagher. A protagonista precisava de um bocadinho de paz, de encontrar um refúgio, e a família que a acolhe é fantástica nesse aspecto. Consegue ainda esboçar os problemas que afligem alguns personagens em poucas palavras.

The Girl Who Woke the Dreamer de Laini Taylor era o único conto que eu à partida tinha a certeza que ia ser bom, porque tudo o que sai da cabeça da Laini é fascinante e cativante. Sem entrar em muitos detalhes, a personagem principal tem uma vida complicada, num local que já de si é duro, e num momento de desespero pelo futuro incerto, inicia uma coisa mais fantástica e maravilhosa que alguma vez podia imaginar. Com o toque de magia habitual, a autora faz duma história simples uma bela aventura.

Páginas: 336

Editora: St. Martin's Press (MacMillan)

domingo, 3 de agosto de 2014

Dreams of Gods and Monsters, Laini Taylor


Opinião: Este é o ponto em que sinto que tenho de fazer um pré-aviso: a Laini Taylor perfila-se para ser uma daquelas autoras que eu sei que nunca me vai desapontar, faça o que fizer. Se qualquer outro autor tivesse feito um par de coisas que ela fez neste livro, as lamúrias não teriam fim, acreditem (ainda me estou a queixar do Requiem, um ano depois, e apesar de até ter sido caridosa na minha opinião, quanto mais penso naquele fim, mais lixada fico). Mas a Laini Taylor tem uma maneira positivamente enfeitiçadora de escrever, e de me envolver nas suas histórias, e eu leio os seus livros completamente enlevada, e no fim até canto aos céus, ou uivo à lua, o quão fantásticos os seus livros são.

Tem sido uma longa e dura viagem, desde Daughter of Smoke and Bone, em que descobrimos um mundo paralelo, com duas raças em guerra, e dois sonhadores que se atreveram a desejar um mundo melhor. Um subterfúgio singular permite aos nossos personagens conseguir uma mudança, ou pelo menos umas tréguas temporárias, em face de um inimigo comum. Mas o medo e o ódio enraízados durante 1000 anos são difíceis de largar, o que dificulta o trabalho em comum de dois exércitos tão diferentes. E foram tão fascinantes de ler, estas cenas, em que se dava um passo à frente para recuar dois, e vice-versa. Não é fácil, juntar serafins e chimaeras, ainda mais quando a situação em questão é uma pálida reflexão daquela que a Karou e o Akiva tinham sonhado. Mas é um passo na direcção certa, e com muitas tentativas e uma boa dose de esperança, as coisas encaminham-se.

Tem sido tortuoso, seguir e torcer pela Karou e pelo Akiva, e nem aqui a autora nos torna as coisas fáceis. A difícil união entre exércitos só os recorda de tudo o que os separa, e também aqui cada passo na direcção certa é doce e delicioso, mas custoso de alcançar. A tensão entre os dois está ao rubro, mas como lembra a Zuzana, são como dois ímanes a tentar manter-se separados. Não resulta muito bem. E aprendem uma lição importante, que é a de não deixarem que as desilusões, os recuos no seu projecto os separem, porque juntos são capazes de levar o seu sonho mais longe.

Diverte-me ver como a minha percepção dos dois mudou. A Karou era literalmente esperança, mas é a mais pessimista, a mais cuidadosa com essa esperança, a mais pronta a ver os problemas à distância. Já o Akiva, que tinha tanta pinta de meditabundo no primeiro livro, revela-se estranhamente optimista. Mesmo quando tudo é incerto, ou quando não parece haver esperança para ele e para a Karou, ele continua a acreditar, a sonhar com isso. É mais uma das pequenas coisas que os torna um par perfeito, as diferenças que os separam bem como aquilo que têm em comum, e a autora conseguiu contar uma bela e épica história de amor, e conseguiu pôr esta leitora completamente investida nessa história.

O elenco de personagens secundários é brilhante, fantabulástico, qualquer coisa do outro mundo. Não há ninguém que eu não queira arrancar do livro para dar um abraço. A Zuzana e o Mik, meros humanos, conseguem o extraordinário feito de mesmo assim pertencer a este mundo de anjos e demónios, e as suas cenas estão recheadas de leveza e humor sem serem supérfluas. A Liraz, querida Liraz, a maior resmungona e durona de sempre, e é tão bom vê-la revelar-se perante os nossos olhos, mostrar que é mais do que isso. A pobre da rapariga é invadida por um caso sério de "emoções", e aprende a levar as coisas duma maneira mais ponderada, e a transformação operada é algo que merece ser visto. (Gostava que um certo personagem estivesse presente para ver tal transformação. Iria ficar orgulhoso.)

O Ziri, que valoroso sacrifício, tentando não se perder na natureza de outrém. Houve ali um par de momentos em que me fez ficar a roer as unhas, pois a sua história é uma de incerteza, e o seu papel no desenrolar das coisas vai ficar escondido, sob pena de emperigar a revolução que se opera em Eretz. Mas é dos personagens mais importantes da história, e fico contente por não se perder na dureza da guerra. E tantos outros, de um lado e de outro, marcam a história... sinto que devo fazer uma menção à Esther, retorcida aliada que leva a sua paga, e ao Razgut, que afinal tem uma importância maior no grande esquema das coisas do que seria aparente.

Duas adições à história são bem-vindas, mas pecam por só aparecerem neste livro. Os Stelians e a Eliza. Dos primeiros já ouvimos falar, mas a Eliza é completamente nova. As suas cenas são intrigantes, mostrando a perspectiva humana sobre a "invasão" do Jael e da sua hoste celestial... e esta parte do livro é interessantíssima, porque levanta questões importantes sobre religião e crença, e sobre discriminação e conflito religiosos, e não só.

Contudo, a Eliza também traz a apresentação de um aspecto completamente novo, ainda que não completamente inesperado. Sempre esteve implícito que há mais neste universo que as duas faces da moeda que a Terra e Eretz são... e a verdade é inspirada. Liga todas as pequenas coisas que nos podemos ter perguntado acerca de Eretz, explica implicitamente os conflitos, a origem dos serafins e dos Stelians, e o papel dos mesmos no seu mundo... e de certo modo, sugere uma possível origem para algumas crenças e religiões na Terra. É fascinante.

Esta verdade, que liga a Eliza, os Stelians, Eretz e a Terra e o resto do Universo é algo que, como disse atrás, só peca por ser apresentada agora, neste livro, e completamente revelada a menos de 100 páginas do fim. É uma ideia tão fabulosa, que muda completamente a perspectiva sobre o conflito em Eretz e o âmbito dos problemas que os protagonistas têm e terão de enfrentar, que merece bastantes mais livros para ser desenvolvida. (Algo que não será completamente inocente da parte da autora, imagino... apesar de este ser o final da trilogia, e não haver notícia de mais livros passados neste mundo.)

A única coisa de que me queixo nesta revelação é mesmo o ser mostrada no final. Estava eu a 30 páginas do fim e a soar as estopinhas, a pensar "mas quando é que ela vai resolver isto???" (ingénua), para depois me aperceber que não ia resolver aquilo. O que é aceitável. A história principal da trilogia foi resolvida. Mas esta é uma nova demanda apresentada aos personagens, e uma demanda exige ser levada a cabo, de preferência num meio em que eu possa saber o que acontece nela.

Enfim, a comparação ali no início com a Lauren Oliver e o seu Requiem não é completamente inocente. Enquanto que o Requiem teve um fim muito aberto, sem qualquer fecho, sem closure... a Laini Taylor consegue escrever um fim igualmente aberto (a demanda é apresentada, mas é uma história para outro dia), enquanto que dá fecho aos fios narrativos que dominaram a trilogia, e de modo totalmente satisfatório. As coisas não ficaram resolvidas, porque a devastação em Eretz é demasiado grande para ser resolvida num passe de magia, mas estão a encaminhar-se. É um bom sinal.

Este não é, como a própria autora o diz, um final feliz (happy ending), mas um meio feliz (happy middle). Porque a história destes personagens não acabou, continua, mesmo que não esteja ali presente num livro para a lermos; e numa narrativa com tanto sofrimento, a felicidade conseguida é mais doce por isso. Nada foi fácil, e nada o será, mas os pequenos momentos de felicidade roubados são por isso bem mais merecidos.

Páginas: 624

Editora: Hodder & Stoughton

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Night of Cake and Puppets, Laini Taylor


Opinião: Sou uma fã incondicional da Zuzana, a melhor amiga da Karou - a Karou é a protagonista da trilogia Daughter of Smoke and Bone da autora -, e esta é uma novela complementar à história principal, que relata a maneira como a Zuzana e o Mik se aproximaram. Por isso, é uma novela que adorei ler, primeiro pelos protagonistas, e depois porque não deve nada a qualquer outra coisa que tenha lido da autora, sendo igualmente um magnífico livro.

Estes acontecimentos decorrem a meio do Daughter of Smoke and Bone, e são mencionados no segundo livro, Days of Blood of Starlight, por isso deixa-me contente poder ler o que realmente se passou. Sabia que a Zuzana tinha concebido um mapa do tesouro para o Mik, em que o tesouro era ela, mas é outra coisa vê-lo retratado pelos dois.

Gosto tanto da ideia da Zuzana da caça ao tesouro, e do modo como ela a executou, com um toque de magia e excentricidade. É uma ideia brilhante e giríssima. E gosto tanto, tanto, da voz narrativa da Zuzana. Começa com uns toques de arrepiante, o que é muito adequado, e tem um grande peso da personalidade gigante e directa e segura dela, mas também mostra uma certa vulnerabilidade e insegurança, ao suspirar pelo Mik de longe, sem coragem para avançar. Contudo, num rasgo de arrojo, decide dar o primeiro passo e criar esta maneira tão imaginativa de encantar o rapaz.

Já o Mik, o outro narrador, é completamente adorável. Também ele se sentia inseguro, também sem coragem para avançar, fascinado pela Zuzana mas intimidado pela sua personalidade maior do que a vida. E a sua narração é mais delicada e discreta, mas igualmente cativante. Gosto como ele conseguiu dar um pouco dele mesmo à caça ao tesouro, e surpreender a Zuzana. Foi um bom momento que levou à cena final, uma das minhas favoritas.

Como mencionei inicialmente, é um livro tão satisfatório como os outros da autora, mais longos, com a sua capacidade narrativa impressionante e a sua escrita lírica lindíssima, e os seus sempre fascinantes personagens.

Páginas: 80

Editora: Hodder & Stoughton

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Era uma vez...: Days of Blood and Starlight, Laini Taylor


Opinião: Vou fazer esta opinião em jeito de nova rubrica, uma em que recapturo um livro que já li há algum tempo e que, por uma razão ou outra, não cheguei a comentar aqui no blogue, o que não é muito comum, mas acontece. No caso presente, Days of Blood and Starlight de Laini Taylor. Li-o há qualquer coisa como ano e meio, na altura em que fiz uma pausa aqui no blogue - houve um ou outro livro dessa época que ficou por opinar, e curiosamente até foram dos bons. Mas ainda tenho as notas que fiz acerca do livro na altura, e voltei a folheá-lo para rever os pontos e as partes importantes, e sendo assim sinto-me apta a fazer uma opinião em condições, que o livro merece.

Acho que a primeira coisa que tenho a dizer é que a autora nunca vai pelo caminho mais óbvio. Já não me recordo o que pensei que ela ia fazer quando terminei o primeiro livro, Daughter of Smoke and Bone, mas de certeza que não era isto. A sua imaginação e o modo como tece a narrativa é qualquer coisa de fabuloso, e usando uma prosa lírica e lindíssima, consegue fazer com que nada na história pareça supérfluo; e melhor ainda, consegue transmitir coisas e temas profundos e emocionais e que dão que pensar e que me deixam maravilhada com o modo como ela consegue construir uma tapeçaria tão bem feita e tão harmoniosa.

Focando-me na protagonista, Karou, é quase doloroso pensar no percurso dela durante a história, porque está carregado de culpa, grande parte dela infundada, mas que a leva a, digamos, vender a alma ao Diabo e fazer coisas que podem não ir propriamente de encontro ao seu código moral - e a Karou fá-las na mesma, em jeito de penitência por se ter atrevido a sonhar com um mundo diferente, quem sabe melhor que o que conhece. O seu envolvimento com os chimaera é um pormenor muito interessante da narrativa, mas ao mesmo tempo é manchado pela manipulação de um determinado personagem. Contudo, a Karou percebe que tem de lutar para que ela e os seus possam escolher um caminho diferente daquele em que estão presentemente, e também esse esforço leva a decisões difíceis e dilemas espinhosos.

Quanto ao Akiva, está por sua vez a tentar também libertar os seus, apenas num sentido diferente, mais literal. Os "anjos" (uso esta palavra entre aspas porque são anjos em aparência, mas não anjos como os conhecemos, na concepção biblíca) são um povo guerreiro, e estão em guerra há séculos com os chimaera, todavia começam a ver-se as fendas numa muralha bem construída. Há quem questione a necessidade da brutalidade da guerra, e Akiva e os seus companheiros têm nas mãos a oportunidade para mudar as coisas, aqui também com uma certa intervenção e manipulação de personagens manhosos. E também aqui o caminho está ladrilhado com perda. Mas fico contente pelo novo caminho que os Misbegotten tentam escolher.

Creio que o que mais aprecio na história é as perguntas que a autora levanta. Como manter-se bom e justo em tempos difíceis. Como resistir à violência e à sede de vingança se é tudo o que se conhece no momento. Como evitar resvalar para a selvajaria, quando toda a esperança parece perdida. Como ganhar coragem para questionar tudo, e procurar uma alternativa. E sobretudo, como aceitar de novo a esperança quando ela parecera impossível de alcançar, quando já nem se conhece o significado da palavra.

Uma pequena grande (acho que não posso dizer pequena, que a Zuzana zanga-se) menção para a Zuzana e o Mik, que são os melhores amigos que uma heroína podia ter. São um casal absolutamente adorável, com uma química giríssima, e uns diálogos fantásticos, e até hilariantes, no caso da Zuzana. E apesar do perigo, não deixam de procurar e apoiar a Karou. São uma pequena (ups) grande lufada de ar fresco entre os chimaera, uma muito necessária. E ainda uma menção para o Ziri, um chimaera que se torna muito importante no caminho da Karou, um jovem tremendamente corajoso e com estômago para suportar fazer uma coisa terrível.

Em suma, a Laini Taylor é uma escritora fabulosa, e creio que tudo o que sai da pena computador dela é positivamente genial. Tem tudo a seu favor: uma escrita bela, um worldbuilding interessante, e uma capacidade deslumbrante para apresentar uma boa história.

Páginas: 528


Editora: Hodder & Stoughton


Lido em: Novembro de 2012

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Lips Touch, Three Times, Laini Taylor


Opinião: Ah, estava com tantas, tantas saudades da escrita maravilhosa da Laini Taylor, que quando li este um mês (o que faltava para o Days of Blood and Starlight sair) parecia uma eternidade! E pronto, ler este livro foi o mais próximo que podia estar desse acontecimento. A autora tem uma escrita maravilhosa, poética, imaginativa que nunca deixa de me maravilhar, e este livro confirma que a Laini Taylor consegue escrever uma história espectacular em narrativas mais curtas, subordinadas ao tema "primeiro beijo".

O primeiro conto, Goblin Fruit, foi aquele de que gostei menos. É fantástico a descrever uma faceta adolescente, de desejos e paixões, mas achei a personagem principal uma tolinha, já que depois de todos os avisos, foi cair na armadilha para a qual foi avisada.

O segundo conto, Spicy Little Curses Such as These, é completamente a cara desta escritora. Maldições, magia, e corações partidos. Lembrou-me do Daughter of Smoke and Bone, em certa medida, pelos temas, mas acaba bem melhor. Gostei da concepção da maldição e do que vinculava os personagens a fazer. Muito doce.

O terceiro conto, Hatchling, é fabulosamente soberbo. Com 100 páginas podia saber a pouco, mas é tão completo e tão bonito. Adorei o conceito, a história em torno dos Druj, o modo como a narrativa se tece em torno dos personagens, até a melancolia pelo que os Druj perderam. Também me lembrou do Daughter of Smoke and Bone, mas mais na execução. Não que as histórias sejam parecidas, mas a autora tem uma maneira singular de criar histórias, e isso transparece no que escreve.

Páginas: 288

Editora: Arthur A. Levine Books (Scholastic)

domingo, 13 de novembro de 2011

Daughter of Smoke and Bone, Laini Taylor

I'm submitting this book to the 2011 Debut Author Challenge, hosted by The Story Siren.


Review: This book kind of hijacked my weekend, and I loved every minute of it! Laini Taylor had me enraptured with her writing and I suddenly developed an urge to read anything she's written (which isn't much, as of now). Besides, the story was great and I kept turning the pages, eager to find out what was going to happen next.

Karou is a girl with two lives. One where she is an art student in Prague, with a best friend and boy trouble. Another where she was created by a strange being, Brimstone, a chimaera - a being created of many animal parts. Karou doesn't know who she is, who were her parents, or why she sometimes fells so incomplete. She is, however, an errand girl for Brimstone, buying teeth all over the world for him. For what, she doesn't know. But then Brimstone's portals are marked all over the world, and soon Karou finds herself alone, trying to figure out the mystery of herself.

This book starts in a way, and one would never guess, in a million years, how it ended. It was such a wonderful and unexpected ride to follow Karou and to understand who she was, and what exactly had happened in the past. She and Akiva (the male MC) have many more things in common that I would have thought at first and I was heartbroken at their story.

Karou is an interesting character, but one I'd like to further meet, as she had to, say, divide the stage with someone on this book. Akiva, however, ends up much more fleshed out as a character, and we get to see what makes him who he is and why he made some choices.

The story was so captivating that I devoured the book in a day. Laini Taylor wrote in a way that you can't help but wonder what's really going on, and her writing is wonderful. The world created is amazing, and the way she spun some overused mythology (angelic and demonic), creating some mythology of her own, is just plain awesome.

The supporting characters are so captivating as well. Zuzana, for instance, is Karou's best friend and, albeit small, is quite the bulldozer, personality-wise. And she is so, so, funny. I loved her reaction when first meeting Akiva. And her remarks throughout her conversation with him, where Karou had to play translator between them.

Brimstone is another character I grew fond of. He was a bit of a mystery to me in the first three quarters of the book, but as I read the last quarter, and realized what he did for a living, and what he did for Karou, I just adored him. I hope I get to see more of him.

The ending was distressful and sad for me. Laini Taylor, you tell me this tragic, tragic story, and then you leave me hanging like that? I've finished reading this book at 3 A.M. this morning, and I'm already missing it. Oh dear, I'm really curious as to where this will go next, but I have to wait a whole YEAR? Besides that tiny detail, I would really, really recommend this. It's like a bright comet crossing the dark night sky - it doesn't show up very often, but it's gorgeous and different.

Pages: 432

Publisher: Hodder & Stoughton UK