domingo, 24 de novembro de 2013

Especiais, Scott Westerfeld


Opinião: Ok, definitivamente posso definir a minha relação com o Scott Westerfeld e os seus livros como uma relação bastante atribulada. Porque adoro os livros da trilogia Leviathan, e em geral admiro os conceitos e os temas que ele apresenta, mas depois às vezes é tão fraquinho a desenvolver a história e a transmitir algo com ela (again, a trilogia Leviathan parece-me ser a excepção, talvez por serem os livros mais recentes dele), que fico extremamente frustrada com o resultado final.

Neste terceiro livro da saga Uglies - e tecnicamente o último da história de Tally Youngblood - a protagonista vê-se novamente numa posição diferente, com uma mentalidade diferente. E se bem que tenha sido muito interessante vê-la funcionar no modo "Especial", também me custou ler algumas das coisas que ela pensava, nomeadamente a superioridade em relação aos não-Especiais, como o Zane. As cenas com eles foram tão tristes.

Também tive alguma dificuldade com os Cortadores, o grupo em que Tally e Shay se inserem. Pensei que uma parte de ser Especial já era ter uma cabeça relativamente livre de influências, ou "borbulhante", usando uma expressão do livro. Mas depois descubro que este grupo de Especiais usa a auto-mutilação como forma de atingir o estado "borbulhante" ou "glacial". E enquanto que no livro anterior este tipo de comportamento auto-destrutivo era mais ou menos posto a uma luz negativa, aqui parece ser mais glorificado, e isso não está certo.

Apreciei a repetição do desenvolvimento de enredo, há uma certa ressonância no modo como a Tally começa a história numa dada posição, depois mostrando-se insatisfeita com essa posição e de certo modo ultrapassando as limitações da mesma. Mas não sinto que a Tally tenha realmente ultrapassado o ser Especial no fim do livro, tornando-se algo mais. Tem alguns momentos redentores, mas não sei se vejo uma evolução coerente que justifique o final que ela tem.

Sobre os personagens secundários, continuo a ficar algo furiosa cada vez que a Shay me aparece à frente. É que eu gostava dela e do que representava para a Tally (uma melhor amiga). Contudo, a relação delas danificou-se tanto que sempre que a Shay aparece é para recriminar e cobrar situações passadas à Tally, e o disco começou a tornar-se riscado de tanto repetido.

Gostei do que aconteceu à Dra. Cable, porque foi uma reviravolta bastante inesperada e merecida. E sobre os rapazes da narrativa, também não fiquei contente. O David praticamente não aparece neste nem no livro anterior, e no entanto acaba por ter mais preponderância em determinado momento do que as aparições dele o sugeriam. O Zane simplesmente é engolido pela narrativa e certas cenas com ele deviam transmitir mais emoção do que realmente transmitem. Mas isso é um problema do autor mesmo.

Acho ainda que o autor andou um bocado perdido em relação ao que queria mesmo que fosse a crítica central dos livros. Temos durante grande parte dos livros o dedo apontado à obsessão da sociedade pela beleza e pela perfeição, e ao controlo da sociedade através desta questão. Mas depois o fim vai numa direcção completamente diferente, com um tom mais ecologista e preocupado com a interacção do Homem com a Natureza... o que foi bastante inesperado.

Quero dizer, há nos livros uma crítica implícita à nossa sociedade, à sua dependência do petróleo e ao mal que fazemos ao planeta, através das menções ao passado desta sociedade. Só que são menções passageiras, e pouco significativas para o enredo dos três livros. Por isso, não faz muito sentido que este assunto se torne no ponto central da narrativa, e é o que o final faz dele.

Também há o problema de o fim não ser exactamente um fim. A história simplesmente... morre. Aceitaria um final aberto, mas até os finais abertos dão uma sensação de encerramento à narrativa. O que não acontece aqui. A história é interrompida e pronto. A mudança neste mundo fica a meio, o que seria bom, se me lembrasse do fim do Reached da Ally Condie, mas lembrou-me mesmo foi o fim do Requiem da Lauren Oliver, e esse foi horrível, mesmo, na questão de parar in media res.

Enfim, eu gosto mesmo de sofrer, por isso ainda tenciono ler o Extras, uma espécie de complemento à trilogia principal. Já tenho o livro, por isso é razoável que lhe dê uma oportunidade. E suponho que vai ser refrescante não ter de aturar novamente os mesmos personagens. O que, agora que penso nisso, não é coisa muito abonatória de se dizer, mas hoje não me sinto propriamente caridosa.

Título original: Specials (2006)

Páginas: 288

Editora: Vogais

Tradução: Catarina Gomes

sábado, 23 de novembro de 2013

Poison Dance, Livia Blackburne


My thoughts: Poison Dance is a prequel novella for Midnight Thief, the author's YA debut scheduled for July 2014. It tells the story of James, an assassin working for the Assassin's Guild who finds himself wanting the leave the Guild, and Thalia, a dancer who can facilitate the means to his departure, if only he helps her on a mission of vengeance.

I'm a big fan of high/epic fantasy, so I was definitely intrigued with Midnight Thief's premise. And Poison Dance was the perfect way of quenching my thirst, yet having me yearning for more. James and Thalia are such interesting characters, and I was engaged in their tale.

James is an assassin for hire, but as the Guild's leadership changes, he finds that he isn't very eager to work for the new leader, and makes plans to leave the city. His backstory, his motives to become an assassin, his group of friends and his cool-headed, clever personality helped to flesh out his character and made me want to get to know him better. It's pretty obvious who he is, reading Midnight Thief's description, and Poison Dance was a good way to understand how he came to be in that position.

Thalia, though, was the star of the story for me. Driven by revenge, she mourns the loss of a loved one. She is focused on one purpose only: she wants a chance to get close to her mark, and she asks James for help in order to achieve it. Her story broke my heart, and made me wish for a different ending than the one I suspected was coming. I admired her stubborness and her drive to achieve her goal, and I kind of wanted more scenes with her and James, because their relationship was just full of possibilities.

The only problem I had with this novella is one I personally have with many short stories and novellas: I wanted more. It's hard to walk the fine line between captivating the reader's attention and keeping the story short, but I think the author did a decent job in that aspect, though.

What I missed the most was a bit more of worldbuilding. There are only a few things about the Assassin's Guild and how the city works, and it wasn't enough for me to get a good mental picture of this world. But I understand worldbuilding is the hardest part to introduce in a short story, so I'll just wait for Midnight Thief to get my fix.

The secondary characters were developed sufficiently to get me invested and keep the story going, and I would like to meet again James' friends in the sequel. The writing was good enough to keep me engaged, but I'll defer to Midnight Thief to give me a, say, better picture of it.

The ending, well, wasn't really a surprise for me, since everything pointed towards it, but I don't think that that was the point... it was, though, emotionally poignant, and knowing what would happen didn't soften the blow for me. I did want to see James's reaction better explored, to painstaking detail even. (What can I say, I like to suffer with the characters.)

Long story short (ha!), Poison Dance was an interesting prequel, one that kept my interest and introduced me satisfyingly to this world. I loved to meet the characters, and I was left begging for more. I will be eagerly anticipating Midnight Thief's release.

I received an electronic review copy from the author in exchange for an honest opinion of the book. This has in no way affected my thoughts on the book.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Picture Puzzle #69


O Picture Puzzle é um jogo de imagens, que funciona como um meme e é postado todas as semanas à quarta-feira. Aproveito para vos convidar a juntar à diversão, tanto a tentar adivinhar como a fazer um post com puzzles da vossa autoria. Deixem as vossas hipóteses nos comentários, e se quiserem experimentar mais alguns puzzles, consultem a rubrica nos seguintes blogues: Chaise Longue.

Como funciona?
  • Escolher um livro;
  • Arranjar imagens que representem as palavras do título (geralmente uma imagem por palavra, ignorando partículas como ‘o/a’, ‘os/as’, ‘de’, ‘por’, ‘em’, etc.);
  • Fazer um post e convidar o pessoal a tentar adivinhar de que livro se trata;
  • Podem ser fornecidas pistas se estiver a ser muito difícil de acertar no título, mas usá-las ou não fica inteiramente ao critério do autor do puzzle;
  • Notem que as imagens não têm de representar as palavras do título no sentido literal.

Na semana passada ninguém acertou no puzzle #2, por isso ei-lo de volta, com mais umas pistas.

Puzzle #1
Pista: título clássico em português.

Puzzle #2
Pista: título YA histórico em inglês; autora debutante; a história passa-se em 1918, na altura da Gripe Espanhola.

Divirtam-se!

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Colecção Super-Heróis DC Comics - Volumes 15, 16 e 17

A premissa da história é muito interessante. Os vilões, Lex Luthor e Joker, mudam de cidade, o que força os respectivos super-heróis a fazê-lo. (E não, os vilões não o fazem por acordo mútuo, como é sugerido na sinopse. Na minha opinião, ambos não podiam desprezar-se mais.)

No entanto, acho que a premissa foi mal aproveitada. Para quem muda de cidade para enfrentar os respectivos vilões, o Super-Homem e o Batman passam muito pouco tempo a enfrentá-los, de facto. Podia-se ter explorado melhor esta troca de papéis, e na minha opinião isso resultava melhor se o Batman tivesse ficado em Gotham, a enfrentar o Lex Luthor, e se o Super-Homem tivesse ficado em Metrópolis, a enfrentar o Joker. Talvez pudessem ter aprendido algo um sobre o outro, ao enfrentar o vilão do outro.

Para além disso, acho que a história está desnecessariamente ocupada com o enredo do orfanato, que quase parece não ter nada a ver com o da troca de vilões. Preferia que a história se tivesse dedicado a um ou ao outro, porque da maneira que está não permitiu o desenvolvimento adequado de ambos.

Por outro lado, adorei a arte. É tão colorida e tem um ar tão... cartoonesco. O desenhador é muito detalhado e é uma delícia observar o que se passa no fundo das vinhetas. E as panorâmicas iniciais das cidades são tão interessantes visualmente, e com um contraste tão giro. O que me lembra, gostei bastante da dualidade na evolução das sequências com o Super-Homem e com o Batman, que se espelham.

Batwoman: Elegia, Greg Rucka, J.H. Williams III
Nunca tinha ouvido falar da Batwoman até há bem pouco tempo, e pensei brevemente que se estava a falar da Barbara Gordon, até me lembrar que essa assumia o papel de Batgirl. A personagem não é exactamente das heroínas mais conhecidas e destacadas... e por isso entrei na leitura sem expectativas nenhumas.

A primeira história do volume não é nada de especial, graças ao facto da antagonista não ser caracterizada em condições, a não ser no que concerne directamente a protagonista. Porque fora isso, a vilã é apenas estranha e vaga e impenetrável. O que é que ela quer? Não faço ideia. Qual é o trauma dela? Também não sei. O que lhe fizeram no passado? É apenas sugerido, e mal. Eh, tenho de lhe dar crédito, usa umas roupas giras. (Hahaha.)

Já a protagonista, a Kate Kane, é uma personagem fascinante, e muito melhor caracterizada. Os flashbacks que vemos na segunda história pintam muito bem o seu passado, composto de alguns momentos tristes e trágicos. Acho a sua relação com o pai muito interessante. O modo como ele a apoiou quando lhe deu na telha virar vigilante, como a preparou, e como na actualidade a ajuda nas suas missões.

Visualmente, este livro é uma delícia para os olhos. E tenho a dizer que estou apaixonada pelo cabelo vermelho da Kate/Batwoman. Agora a sério, gostei muito de observar as duplas páginas, e o trabalho de vinhetas pouco comum. É engraçado reparar na divisão entre a vida da Kate como Kate Kane e a vida dela como Batwoman a nível gráfico. E muito elementos nas partes da Batwoman têm um aspecto fabuloso, não só pelo cabelo vistoso, como pelo aspecto dinâmico que é dado às sequências de acção com as opções pouco habituais do desenhador.

Lanterna Verde: Origem Secreta, Geoff Johns, Ivan Reis
Acho que nunca tinha percebido muito bem o Lanterna Verde. O seu poder é daqueles tão vagos, que pode ser versátil e ao mesmo tempo difícil de compreender. Além disso, não conhecia suficientemente bm o personagem. Coisa que este volume ajudou a resolver. Como recontar das origens de um super-herói, é bastante satisfatório.

Há muitos pontos de interesse na história de Hal Jordan. A morte trágica do pai é um ponto de viragem, e o modo como ele se planta no local de recrutamento da Força Aérea mal faz 18 anos é comovente. O problema é que o rapaz é ensarilhado, e daquelas personagens a que apetece dar um pontapé por ser incapaz de ganhar juízo, para no segundo a seguir dar uma vontade de lhe dar um abraço por causa de tudo o que lhe acontece.

Gostei de conhecer a sede do Corpo dos Lanternas Verdes, e de conhecer os diferentes seres que o incorporam. A mitologia inerente até me parece cativante, e agora fiquei sedenta de mais pormenores. Ao que sei, o Sinestro é um vilão das histórias deste personagem, por isso estou curiosa em saber como passa de mentor para inimigo.

A história, já o disse, é bem interessante de seguir, e ajuda a compreender melhor o tipo de personagem que Hal Jordan é. A única coisa de que me ressinto é o ver que há pequenos detalhes da história que são apresentados e não são resolvidos, tendo em vista serem abordados em números posteriores do título. Não gosto muito, porque estraga a ideia de história auto-contida... mas assim são os comics.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A Quinta dos Animais, George Orwell


Opinião: Que livro delicioso de ler. Em A Quinta dos Animais, George Orwell apresenta uma história, uma espécie de fábula que usa a sua estrutura enganadoramente simples para uma crítica social profunda sobre a Revolução Russa de 1917 e a instalação do regime estalinista. E apesar de curta, encontrei tanto nestas 160 páginas, que fiquei fascinada com a riqueza da história.

Não vou resumir a história. Parte da piada é descobri-la e compreender os paralelismos entre o que se passa na Quinta dos Animais e a situação que o autor pretendia criticar. Mas devo dizer que adorei a antropomorfização dos animais ao longo da história. As suas atitudes cada vez mais humanas ao gerir a quinta são de arrepiar. O modo como o poder corrompe, como uma classe/grupo se sobrepõe aos outros, a aceitação passiva dos animais em relação àquilo que os líderes expõem, a maneira como a propaganda e a reescrita do passado condicionam o desenvolvimento futuro da sociedade... são temas que claramente preocupavam o autor, que os revisita em 1984. Tendo lido este último, apreciei a ligação entre as duas obras.

Apreciei muito o sentido de humor inerente à escrita de este tipo de história. Há uma certa piada em ver a classe dirigente comparada a porcos e aqueles que os seguem a ovelhas. E toda a sátira é tão certeira na observação dos comportamentos humanos que é fácil esquecer que esta é uma fábula e que os personagens são animais.

Gostei bastante da adição a esta edição do prefácio que era originalmente para ser publicado com a primeira edição britânica, coisa que nunca chegou a acontecer. Nele, o autor critica o estado de coisas entre a classe intelectual britânica no pós-guerra, em que havia uma espécie de acordo tácito para abafar e não exprimir ideias anti-Rússia. É uma perspectiva interessante de conhecer.

Uma nota final para o título. Este livro já tem sido publicado em Portugal com o título O Triunfo dos Porcos, título esse que me parece estranhamente adequado, num ponto de vista jocoso. Mas agrada-me este título, mais simples mas mais fiel ao original, e tal como a própria história, enganadoramente simples. Falta-lhe o subtítulo que o autor tencionava colocar na história. A Fairy Story foi suprimido logo nos primeiros anos, e parece não ter a ver muito com o livro... mas até tem. Pois esta é uma fábula e tal como o título principal, é simples e irónico.

Título original: Animal Farm - A Fairy Story (1945)

Páginas: 160

Editora: Antígona

Tradução: Paulo Faria