Opinião: O título em português diz tudo. A antecipação criada nos livros anteriores previa uma rebelião em larga escala, mas nada me podia ter preparado para a extensão dos horrores da guerra e para a sucessão de acontecimentos trágicos que se seguiria. Louvo a Suzanne Collins por ter desenvolvido a história assim; gostei mais da mesma por isso. Senti-a mais real. Curiosamente, levei algum tempo a ganhar coragem para ler o Em Chamas e este pelo desapontamento que o livro final suscitou em muitos fãs.
Não sei se o que a maioria das pessoas esperava era uma Katniss lutadora e no centro dos acontecimentos, uma guerra justa e sem carnificina, e um final perfeito a acompanhar, mas percebo que nesse caso o livro tenha desapontado. Temos em vez disso uma heroína quebrada, uma guerra em que o pior da natureza humana vem ao de cima, e o fim... no fim temos aqueles que sobreviveram a tentar colar os cacos do vaso que quebrou em milhares de pedacinhos. A análise mais acertada das coisas é feita pelo Plutarch (a ironia!, pois de todos deve ser aquele com mais falta de tacto):
"Agora estamos naquele período harmonioso em que toda a gente concorda que os recentes horrores nunca poderão repetir-se. (...) Mas a memória colectiva costuma ser curta. Somos seres volúveis e estúpidos com memórias fracas e um grande dom para a autodestruição. Mas, quem sabe? Talvez seja agora, Katniss. (...) O momento em que aprendemos. Talvez estejamos a testemunhar a evolução da raça humana."
Fiquei chocada com a perversão das razões da guerra; como é que os rebeldes podem reclamar da justiça da sua causa quando começam a usar os métodos do inimigo, é uma coisa que me ultrapassa. Será que os fins justificam os meios? Não posso concordar, vendo o tipo de horrores que as pessoas são capazes de cometer em nome de uma causa.
A Katniss, coitada, dá dó - aquele espírito rebelde e determinado que ela tem está lá, mas ela passa o livro a ser levada de um lado para o outro para ser o mimo-gaio, o símbolo da revolução; a Katniss que conhecemos deixou-se enterrar por uma depressão, algumas tentativas de resistir à maré e manter-se íntegra, todas as manipulações envolvendo os rebeldes, e uma incapacidade de ver para além do próximo passo. A certa altura as coisas deixaram de estar sob o seu controlo, e não consigo ver o que ela poderia ter feito para o recuperar. Partiu-me o coração ver o estado em que a guerra a deixou no fim do livro. Assim como o destino de vários personagens, mas senti a guerra mais real por causa disso.
Quanto ao desenrolar do "triângulo amoroso"... eu sou a primeira a resmungar quando não gosto, mas neste caso fiquei... satisfeita com a resolução. Nunca tivemos grande oportunidade de conhecer o Gale nos livros anteriores, e neste livro, que ele finalmente tem algum tempo de antena, causa uma péssima impressão. Mais ou menos por volta da altura em que ele está a conceber as armadilhas letais, desisti dele.
Não é que a Katniss não tenha escolhido entre um dos dois rapazes (se é que isso importa), acho que escolheu, ainda que não propriamente de maneira consciente, aquele que lhe permitisse curar-se e recuperar e não aquele que aprofundasse a dor sempre que ela lhe pusesse os olhos em cima. Gostei do epílogo porque precisava de saber que eles iam ficar bem (o que é um conceito difícil de definir, neste caso) a bem da minha sanidade mental, depois de todas aquelas desgraças.
Não é que a Katniss não tenha escolhido entre um dos dois rapazes (se é que isso importa), acho que escolheu, ainda que não propriamente de maneira consciente, aquele que lhe permitisse curar-se e recuperar e não aquele que aprofundasse a dor sempre que ela lhe pusesse os olhos em cima. Gostei do epílogo porque precisava de saber que eles iam ficar bem (o que é um conceito difícil de definir, neste caso) a bem da minha sanidade mental, depois de todas aquelas desgraças.
Fiquei fascinada com esta trilogia. Tem mais profundidade do que esperava e deu-me muito em que pensar. Sei que me vou lembrar destes livros por bastante tempo. Desaponta-me que sejam reduzidos à violência (e à premissa macabra) dos Jogos (ainda hoje li uma crítica que sugeria isso), mas enfim, pessoas diferentes retiram coisas diferentes dos livros, e é isso que adoro na literatura.
Uma última nota: por vezes dei por mim a desejar ter lido os livros em inglês. Não sei, há cenas em que eu leio uma palavra e penso... "oh, que palavra é que a autora usou em inglês?", porque sinto que a palavra em português não me está a transmitir bem a intenção original. É algo estranho quando a minha própria língua me falha.
Uma última nota: por vezes dei por mim a desejar ter lido os livros em inglês. Não sei, há cenas em que eu leio uma palavra e penso... "oh, que palavra é que a autora usou em inglês?", porque sinto que a palavra em português não me está a transmitir bem a intenção original. É algo estranho quando a minha própria língua me falha.
Título original: Mockingjay (2010)
Páginas: 280
Editora: Presença


