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terça-feira, 23 de junho de 2015

End of Days, Susan Ee


Nota: Este livro foi lido em leitura conjunta com a Joana do Leitora de Fim-de-Semana. Podem ler a opinião dela aqui.

Opinião: O último ano tem-se revelado repleto de leituras que acabam séries, o que faz sentido, porque a maior parte delas comecei em 2011-2013, quando comecei a ler em inglês com frequência, e sendo a maioria trilogias, é só fazer as contas, estão todas a terminar ao mesmo tempo. O problema é que eu ando a dizer adeus a demasiados mundos em que passei tanto tempo imersa (também conta o tempo entre livros em que andei a suspirar pelas sequelas), e isso deixa-me com uma disposição singular. (Uma qualquer combinação de deprimida, feliz, enlevada, amuada e com vontade de pedinchar mais.)

Focando-me neste livro em particular, e em como termina a sua série respectiva. Bem, a Susan sempre teve uma noção brilhante de ritmo, e os livros têm tido um ritmo alucinante, sempre a andar, sempre algo a acontecer, mesmo os momentos parados avançam a narrativa ou a caracterização dos personagens. Este livro não é excepção; começa pouco depois do anterior terminar (seria um exercício interessante ler todos de seguida, para acompanhar o ritmo), pegou em mim, envolveu-me, e não me largou até chegar ao fim.

E no entanto, no arco maior de história que abrange a trilogia, senti que este livro andou um nada depressa demais, ou saltou passos, ou algo do género. Há coisas que são resolvidas demasiado depressa, e fora de cena, o que é incongruente com a importância que tiveram antes. E há coisas que mereciam mais tempo para ser desenvolvidas.

Não sei, a Susan originalmente planeava que isto fosse uma pentalogia, e dei por mim a desejar que realmente houvessem mais livros, porque há coisas que mereciam ter mais tempo de antena para eu ficar completamente satisfeita com a sua evolução. Pelo menos, sinto que mereço definitivamente mais um livro, para apresentar e desenvolver certos pontos, com um outro enredo que não este (os nephilim talvez?), e depois finalmente vinha este livro, em toda a sua glória apocalíptica.

A fasquia está mais elevada que nunca, e os planos retorcidos dos anjos (de certos anjos, pelo menos) vêem o seu culminar neste volume, o que não augura nada de bom para os humanos. Algo que sempre apreciei nestes livros foi a sensação de o mundo que conhecemos ter acabado, e isso mantém-se, não é desfeito, e é ainda mais ameaçado. O apocalipse continua, e é um desafio tremendo para os humanos resistir-lhe.

Apreciei alguns pontos novos do worldbuilding que foram introduzidos (se bem que não me importava nada que alguns fossem mais desenvolvidos, ou que tivessem sido apresentados mais cedo): os Watchers, o Pit, o que a espada podia fazer, toda a nojeira fascinante que acontece no Pit, aquilo dessa nojeira que transborda para o mundo real, a nojeira ainda mais fascinante e aterradora que os anjos arranjaram para lixar os humanos, e oh por favor, eu quero saber onde a Susan foi buscar metade destas imagens, porque é arrepiante e (adivinhem) nojento e fascinante e aterrorizador.

Coisas que eu gostava de ter visto mais: basicamente explorar a sociedade dos anjos. Gosto muito do POV da Penryn, mas é limitado neste aspecto, e não me importava nada de ter tido uns capítulos para o Raffe, que nos daria isso, e ainda esclareceria melhor o seu carácter, que é coisa que eu gostava de ter explorado melhor, sinto que ainda nem arranhámos a superfície.

Além disso, onde é que está o Lúcifer? O que é um apocalipse sem o anjo malvado que caiu originalmente por, er, mandar a entidade patronal apanhar caracóis? Sinto que um apocalipse sem Lúcifer não é apocalipse, o que provavelmente é o objectivo, mas dei por mim a desejar que ele aparecesse para acabar com aquela tralha toda, que estava toda a gente a operar fora do calendário pré-estabelecido, e não seria tão divertido se Lúcifer fosse um burocrata retorcido, e fosse ele a pôr tudo na linha? Ok, aqui já estou a construir castelos no ar, eu sei. Mas seria tão fixe.

Sobre a Penryn e o Raffe: bem, eu estava totalmente à espera que acontecesse uma desgraça, e passei tanto tempo a preparar-me para isso, que agora não sei bem o que fazer com o que lhes acontece. A sua relação toma um ângulo mais intenso e angustiado, com a noção do muito que os separa, mas também aquele efeito íman que não os deixa afastar... e o livro termina para eles num ponto alto e satisfatório, mas também numa incerteza, e a incerteza consome-me, porque não quero imaginar coisas más a acontecer a personagens queridos, e pronto, quase que era preferível que tivesse mesmo acontecido uma desgraça, porque lá fico eu outra vez a fazer castelos no ar. Alguém que me pare.

De qualquer modo, têm boas cenas juntos, com trocas verbais deliciosas, e o passarem mais tempo juntos quer dizer que, bem, passam mais tempos juntos. Fisicamente. Conscientes do outro mesmo ali ao lado. É uma evolução interessante para a Penryn, que apesar de tudo, todo o drama, a maturidade que lhe é exigida, ainda é uma adolescente, com direito a ter as hormonas aos saltos.

E por falar na Penryn, a sua evolução ao longo do livro passa por algumas coisas que eu gostei de ver abordadas, como o "cofre dos sentimentos", onde enterrava lá tudo, e agora começa a abarrotar, o que guia o seu comportamento mais complicado em certos pontos. Apesar disso, ainda é a minha Penryn, decidida, corajosa, pronta a tudo para proteger os seus, mas também uma jovem, com direito a inseguranças e a não saber o que fazer em algumas circunstâncias. A Susan faz um bom balanço neste ponto.

Entre os personagens secundários, destaque para a Paige, essa pequena guerreira que não se perde na violência; a mãe da Penryn e da Paige, que tem os seus momentos lúcidos, e tem intervenções brutais neste livro; o Beliel, esse desgraçado que agora é demasiado fácil entender; os Watchers, um grupo bem interessante e que merecia mais desenvolvimento para se consolidar como grupo; e as pessoas da Resistência, sempre determinadas na sobrevivência da raça humana.

Sobre o confronto final, já disse, foi assustador e de roer as unhas, comovente e nojento (há criaturas por ali que eu preferia nunca ver), e emocionante e um testamento à resiliência humana e à sua capacidade para coragem nas situações mais estúpidas e sem esperança. Foi mais curto do que eu esperava, mas o final fica em simultâneo fechado (por resolver o conflito) e em aberto (já que fica à nossa imaginação como os personagens vão resolver os problemas do dia-a-dia num cenário pós-apocalíptico).

Acho que a sensação principal que eu retiro daqui é que isto ainda não acabou. A Susan tem tanto para explorar neste mundo, e se ela achava originalmente que conseguia escrever 5 livros disto, é porque tem material para mais livros que 3. Só a exploração da mitologia e do worldbuilding dava pano não só para mangas, mas para o fato completo. Há muitas pontas soltas, muitas coisas apenas introduzidas, com as quais eu consigo sobreviver se não as vir desenvolvidas, mas não era tão bom saber mais? Sou insaciável neste ponto.

De qualquer modo, saí da leitura muito feliz. Tive um final para os meus queridos personagens, um bom final, que me satisfez. Tive um livro ao nível dos outros, em termos de ritmo do enredo e da história. Tive novas descobertas e resolução de pontos mais antigos. Só queria assim um bocadinho mais, que sei que a Susan é capaz, que ela podia ter deitado tudo abaixo, eu incluída, e ainda tinham de me raspar do tecto da explosão de excitação. Assim sendo, sobrevivi.

Páginas: 352

Editora: Skyscape (Auto-publicado)

sexta-feira, 7 de março de 2014

World After, Susan Ee


Opinião: Segundo livro da série Penryn & the End of Days, World After começa nos momentos quase imediatamente a seguir ao fim de Angelfall. A Penryn e a família estão novamente reunidas, e juntaram-se novamente à Resistência, coisa que não vai durar muito, porque se há coisa em que a Susan é mestre, é não nos deixar sequer respirar antes de enfiar um monte de obstáculos no caminho da Pen (pobre da rapariga).

Desta vez, depois de tudo o que fez para ajudar e recuperar a irmã, a Penryn tem dificuldade em reconectar-se com ela. Pois a Paige voltou mudada, e a Penryn não sabe se consegue reconhecer a irmãzinha nesta pessoa tão diferente que tem à frente. Aquilo que a Paige é agora está a um passo de se transformar num monstro, e só o amor pela família e pela irmã a impede de passar o limite.

Achei muito interessante ver a Penryn debater-se com este dilema, o de querer voltar a abraçar a irmã mas deter-se por causa daquilo que está à vista, ignorando outros sinais. Apesar de tudo, a Pen faz tudo pela irmã, e neste volume volta a dar por si à sua procura. Pontos bónus por a Susan usar um artifício semelhante ao do livro anterior para fazer avançar a história, e ao mesmo tempo conseguir escrever uma coisa fresca e que não soa a repetição.

Parte disso tem a ver com a maneira como a autora escreve a história. Nada na história parece desperdício, nada serve para engonhar. A história e o enredo estão escritos de maneira habilidosa, e de modo a que cada evento, cada acção, sirvam para avançar a narrativa, ou definir melhor o worldbuilding, ou aprofundar a caracterização dos personagens. A Susan dá resposta a perguntas e coisas que ficaram por esclarecer do primeiro livro, enquanto lança ainda mais perguntas e sugere coisas que atiçam ainda mais a curiosidade. Isto traduz-se num livro que pega no leitor e o leva a virar páginas sem dar conta, num ritmo viciante, até chegar ao fim.

Continuo fã da Penryn, que tem uma personalidade fabulosa. Ela sabe fazer, e faz, tudo o que é preciso fazer para sobreviver, e não pede desculpas por isso. Mas ao mesmo tempo debate-se com os problemas da irmã, e tem um fraquinho pelos mais fracos (mete-se pelo menos um par de vezes em sarilhos para ajudar alguém), e às vezes só quer ser uma miúda normal, nem que seja por cinco minutos, para poder suspirar por um tipo giro (é claro que a realidade não a deixa).

Tenho um bocadinho de medo por ela, porque estamos sempre a vê-la compartimentalizar as coisas, e colocar aquelas com que não pode lidar no seu "cofre mental", mas - e ela própria reconhece-o - qualquer dia o cofre não vai fechar, e as coisas más vão sair todas cá para fora duma vez, e nesse dia a sanidade dela ainda vai para o Inferno. Tenho muito medo desse dia.

Quanto ao Raffe, está ausente por uma parte da narrativa, mas temos direito à segunda melhor coisa a seguir a ele, que é a sua espada. É impressionante o modo como a autora conseguiu dar personalidade à espada, e ainda conseguir usá-la como um artifício narrativo, mostrando-nos alguns momentos no ponto de vista do Raffe - coisa importante para ajudar a compreender como é que ele "funciona".

Gosto imenso de o ver a ele e à Penryn juntos, porque fazem genuinamente uma boa equipa (adoro aquela cena no oceano), e têm um sentido de humor fantástico (adoro as piadinhas que fazem à custa um do outro), e algumas cenas com eles são de aquecer o coração (ah, a cena depois da cena do oceano, e ainda a cena depois dessa)... mas não consigo largar a sensação de que vou acabar esta série de coração partido. Dê lá por onde der, a separação intrínseca entre os dois é muito difícil, senão impossível, de quebrar. E se há coisa que a Susan consegue fazer, neste mundo pós-apocalíptico recheado de anjos, é ser realista. Por isso não vejo que volta pode ela dar a isto.

Passemos para outras coisas que me deprimam menos. Adoro o elenco de personagens secundários. A mãe da Penryn é fabulosa na sua loucura com uma lógica tão particular, e eu tenho a certeza que ainda vai ter um papel muito importante na narrativa. A Paige surpreendeu-me, porque eu achava que a reviravolta no seu destino significava que a ia perder brevemente, mas agrada-me mesmo aquilo que a autora está a fazer com ela. Estou deveras curiosa para ver o que vai sair daqui.

Os gémeos Dee e Dum também me deixam curiosa, porque tenho sempre a sensação que há algo mais com estes dois, que estão sempre a tramar alguma que faça parte de um endgame só deles, e que ainda vamos descobrir qualquer coisa sobre eles que nos vai deixar boquiabertos. O Uriel continua aquele tipinho manipulador e cheio de esquemas, e aquilo que vislumbramos das tramóias dele não é bonito. Nem por sombras. Estou com uma vontade louca de descobrir que ele tem um certo arcanjo supostamente morto escondido algures só para o beneficiar, e que esse arcanjo consiga voltar só para criar mais caos neste mundo já de si caótico. Se há coisa em que os anjos são muito bons, é no caos.

Em termos de revelações, aquilo que mais gostei de descobrir prende-se com as maquinações e política dos anjos, e com os "escorpiões" e com aquilo em que a Paige se tornou. Há aqui muita coisa em jogo, e a autora faz um bom trabalho, e deliciosamente tortuoso, em revelar a quantidade certa de informação antes de nos atirar mais perguntas para cima. Há tanta coisa que quero saber... lá terei de esperar pelo terceiro livro (e seguintes), cuja data de publicação neste momento ainda é incerta. Leitora interessada sofre muito.

Páginas: 320

Editora: Skyscape

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Angelfall, Susan Ee


Opinião: Ser leitora também é isto: encontrar um livro que nos encha as medidas, para logo a seguir ficarmos insatisfeitos porque nos soube a pouco, e queremos ler mais, tipo, já, agora, imediatamente, para ontem, se for possível, antes que a curiosidade nos mate.

E sim, é o caso deste livro. Angelfall passa-se no nosso planeta, num momento em que o apocalipse chegou há 6 semanas, pelas mãos de anjos. Seres que trazem a destruição e o caos à Terra, seres maus e bons e violentos e poderosas e corruptíveis e terríveis. E só isto já me deu vontade de abraçar o livro e a autora. Se é para termos um Apocalipse bíblico, é assim que eu o quero ver. Caos! Destruição! O fim do mundo como o conhecemos! Anjos absolutamente aterradores! (Bem, depende do anjo.)

Gostei de ler sobre o aspecto pós-apocalíptico da história. A sobrevivência é o aspecto mais importante na mente da personagem principal e da sua família, vê-se no que fazem e dizem (mais a Penryn). Acho fascinante ler sobre os edifícios abandonados, sobre os gadgets electrónicos descartados e usados para fazer muros, sobre a incursão por casas abandonadas para aproveitar o que for possível.

Quanto à Penryn... que caixinha de surpresas e dualidades. É uma jovem que foi forçada a tornar-se responsável pela mãe louca e pela irmã doente, cheia de recursos e determinada. Toda ela está focada na sua sobrevivência e na da família, mas às vezes nota-se que faz o luto pelo mundo que já não existe e pela vida que não teve. Tem os seus momentos de doçura e compaixão, mas também tem o seu quê de malícia e manipulação. É um pacote completo, e gosto muito dela como protagonista.

Quanto ao Raffe, é um pouco mais impenetrável, porque a história é contada do ponto de vista da Penryn; mas dá para deduzir algumas coisas do que faz e diz, e da sua interacção com outros anjos. Tem um certo sentido de humor que me agrada, e tem definitivamente mais do que se lhe diga. Achei as cenas finais mais esclarecedoras... para não falar dum certo acontecimento, que promete mudar o status quo. Intrigante. Estou com muita vontade para ver como a autora vai desenvolver as coisas a partir daqui. Há muita coisa na política entre os anjos, e na maneira como eles fazem as coisas, que me deixa curiosa. (Para não falar do que alguns andam a tramar. Vi por ali umas coisas arrepiantes.)

Quanto à Penryn e ao Raffe como par, gostei de ver a sua evolução. Começam naturalmente por uma aliança insegura por terem objectivos que se complementam, mas à medida que viajam encaminham-se para uma confiança e uma boa parceria. Até funcionam bem como equipa, o que me surpreendeu, e têm mais em comum que provavelmente admitiriam. E a parte romântica está lá, mais subtil, o que me agrada, porque a aproximação nasce duma convivência forçada mas também dum encontro de personalidades compatíveis. É delicioso ver a lealdade mútua que têm no fim, e a determinação em lutarem juntos, e um pelo outro.

Quanto ao enredo e à evolução da história, não deixa quase respirar. As coisas sucedem-se em catadupa, o livro lê-se depressa (também é curtinho), e quando dei por mim estava no fim. Parte da história é mais survivalista, enquanto a Penryn e o Raffe se deslocam para o seu destino, mas a segunda parte é mais acção pura, à medida que os protagonistas tentam atingir os seus objectivos. A recta final é viciante, não me deixava mesmo largar o livro, e fiquei vidrada naquele fim. Ah... tantas perguntas por ver respondidas, tanta coisa por ver resolvida.

No entanto - e esta é a parte que me soube a pouco - cheguei ao fim com a sensação de a história não ter mesmo terminado. Como se faltasse um bocadinho do livro. Não sei explicar... mas é desconcertante. Talvez aconteça porque este é a primeira parte de cinco que a autora tem planeadas, e parte de algo maior.

Páginas: 288

Editora: Skyscape