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domingo, 21 de maio de 2017

Curtas BD: Graphic Novels da Marvel, vols. 35, 37 e 38

Vingadores Secretos: Missão a Marte, Ed Brubaker, Mike Deodato
Portanto, parece-me que isto se passa a seguir a alguns eventos curiosos no mundo Marvel, e até que gosto da ideia da formação da equipa. Uma espécie de equipa black ops, uma força de intervenção secreta equipada para lidar com ameaças ocultas, direi mesmo... secretas.

Tem uma mistura algo estranha de personagens, alguns interessantes, mas não sei se neste primeiro volume consegue usá-los em todo o seu potencial. No caso de uns, é uma pena. Falta um pouco de personalidade no desenvolvimento de personagens que tornaria a história em algo difícil de esquecer.

No entanto, a escrita é suficientemente cativante, tanto no diálogo como na criação do enredo, que embala o leitor o suficiente para a história se ler num instante. Não é uma história extraordinária, e podia ter ganho algo se o argumentista pegasse ainda mais no tom thriller/espião que lhe conheço doutras histórias, acho que podia melhorar aqui a coisa.

Sobre a arte: não sei, o Deodato faz umas coisas estranhas com os corpos e caras e respectivas proporções. Só me senti à vontade no número em que a arte passa para o David Aja, que já conhecia de outras andanças.

O Imperativo Thanos, Dan Abnett, Andy Lanning, Miguel Sepulveda
Esta é uma história escrita no seguimento de um drama galáctico anterior, mas segue-se bem sem precisar de saber tudo. Por mim até passava bem sem o número incluído no início, da revista dos Guardiões da Galáxia, sobre como encontraram o Thanos. Como não sei a história para trás, é irrelevante ler sobre como o encontraram e a outros personagens.

O enredo foca-se numa falha, por trás da qual há o acesso a um outro universo. Um em que a Morte foi eliminada. E na ausência de morte, a vida floresceu. Uma ideia fascinante de considerar, e adorei o conceito e a sua exploração, se bem que não me identifiquei com certas partes da mesma.

Como disse, a história acompanha-se brilhantemente, mas gosto na mesma que esteja cheia de referências. Ei, algumas eu até percebi! E achei divertido ver juntar tanta gente que aparece em histórias fora da Terra - Shiar, Inumanos, Nova, os Guardiões, até Celestiais e o Galactus.

Dois bons pontos no desenvolvimento da história: um, mesmo no meio dum grande evento, permite-nos preocupar com os personagens; dois, mesmo sendo um grande evento, não me perdi no enredo. (Os grandes eventos gostam muito de nos fazer isso.)

Vingadores: O Nascimento de Ultron, Roy Thomas, John Buscema
A ovelha negra deste conjunto. Não sou nada fã destes volumes que reúnem histórias mais antigas, metendo muitos números da revista juntos. Acaba por ter muitos enredos diferentes misturados e isso torna-se aborrecido para mim, acho que as histórias acabam por não ser muito bem exploradas.

O nascimento titular de Ultron nem sequer é uma grande parte do volume; só um par de números da revista. Não é particularmente excitante, e é contado quase em terceira mão, o que é... bem, aborrecido. Preciso de mais detalhe que isso.

Olhando para as outras histórias, acho o enredo meio forçado em muitas delas - a do Jarvis a ajudar o inimigo, por exemplo, ou a do Yellowjacket/Vespão, que não faz sentido algum, especialmente na relação com a Janet. Mas também, a história deles sempre me pareceu um pouco estranha.

A história que mete viagens no tempo é gira, mas eu gosto sempre de ler histórias que lidem com as consequências de viajar no tempo, por isso não é surpresa nenhuma. E a do Visão também parece um nível ou dois acima das outras.

quinta-feira, 30 de março de 2017

Curtas BD: No Coração das Trevas DC, volumes 1 a 3

Joker: O Príncipe Palhaço do Crime, Bob Kane, Neal Adams, Ed Brubaker
Bem, se há personagem que é representado das mais variadas maneiras, mas ao mesmo tempo, mais consensual nos comics... deve ser mesmo o Joker. Vá lá, as duas histórias iniciais do volume (e suas primeiras aparições) são do mais psicopata que há: o Joker anuncia a morte de membros pronunciados da sociedade na rádio, e consegue misteriosamente cumprir as suas previsões, mesmo estando estes rodeados de segurança.

Gostei mesmo destas duas histórias; para o tipo de narrativa dos anos 40, parecem bastante complexas e sofisticadas. A história que se segue, dos anos 70, continua a expandir o terror de que só o Joker é capaz, e fico contente por saltarem as histórias dos anos 50-60, mais dominadas pelo Comics Code, que ao que entendo cortou as asas (e a piada e interesse) ao personagem.

A história seguinte é o tipo de coisa que esperaria do Ed Brubaker, e é um recontar fascinante da primeira história do Joker, enquadrando-a na cronologia de Batman: Ano Um. É muito boa e cativante, se é que posso pôr as coisas nesses termos sobre um assassino psicopata que deixa corpos deformados no seu trilho.

A última história é um recontar de origem de um personagem obscuro da DC, Jackanapes, às mãos do Joker. É fascinante e repulsiva, pelo que ele ensina ao gorila e lhe permite aprender, mas também pela noção dum ser inteligente e sensível às mãos dum louco.

Sinestro: A Guerra do Corpo Sinestro 1, Geoff Johns, Dave Gibbons, Ethan van Sciver, Ivan Reis, Patrick Gleason
Sinestro: A Guerra do Corpo Sinestro 2, Geoff Johns, Dave Gibbons, Peter Tomasi, Ethan van Sciver, Ivan Reis, Patrick Gleason
Até há bem pouco tempo, nunca tinha lido nada do Lanterna Verde. Não estou particularmente familiarizada com a sua mitologia. E devo dizer, é por isso mesmo um testamento à qualidade deste par de volumes que me tenham cativado tão inteiramente e me tenham soado tão interessantes.

A sério, acho que começo a compreender porque é que este Geoff Johns é venerado. Ele consegue fazer bastantes coisas bem com esta história. Uma, é contar uma que agrade a gregos e troianos. (Leia-se leitores familiarizados e não familiarizados.) Duas, é escrever de forma a ser bastante fácil de uma pessoa acompanhar e actualizar-se em relação ao Corpo dos Lanternas Verdes.

Três, é escrever uma história-evento que ocupa vários números de uma revista, e o ritmo do enredo ser mesmo bom e nem por um momento ser de todo aborrecido. Quatro, é escrever a história de forma a avançar a mitologia deste canto da DC e apresentar uma série de conceitos bem curiosos. Cinco, é fazer-me preocupar com uma miríade de personagens secundários que nunca vi na vida.

Seis, é escrever um vilão fascinante e nada exagerado; dá para compreender como o Sinestro funciona, e o porquê do que faz. E melhor, os planos dele são razoáveis e não típicos do vilão estereotípico. E finalmente, sete, dar-me vontade de ler mais qualquer coisa com estes personagens e desta fase.

sábado, 24 de setembro de 2016

Curtas BD: Fatale + Tony Chu, volumes 3 e 4

Fatale vol. 3: A Oeste do Inferno, Ed Brubaker, Sean Phillips
Fatale vol. 4: As Lágrimas do Céu, Ed Brubaker, Sean Phillips
Bem, estes volumes encheram-me as medidas. Tinha-me queixado nos volumes anteriores que, apesar de gostar muito de seguir a história e adorar o tom sobrenatural e de mistério dela, me estava a fazer comichão tanto mistério e não saber mais sobre o que está por trás do conceito.

Estes volumes deram-me precisamente o que procurava. O primeiro, o volume três da série, é uma colecção de histórias curtas sobre o conceito de Fatale. Passa-se em vários momentos da História, duas delas são com a Jo ao longo do século XX, mas duas são mais antigas (Velho Oeste no século XIX e Europa medieval).

Essencialmente o que faz é mostrar o conceito sob outras formas para além da Jo, e acho que isso já sugere algumas respostas às perguntas que os volumes anteriores punham. É como se Fatale fosse sempre (quase sempre?) uma mulher (a mesma? várias? várias reencarnações da mesma?) ao longo dos tempos, que é o foco de loucura no meio duma tempestade sobrenatural. Não é algo que se controle. É como que uma maldição. A portadora tem uma vida prolongada, se sobreviver à violência que a rodeia. E a violência vem sempre, duma forma ou doutra. Ela é como uma sereia que atrai todos em volta para a destruição.

O volume 4 volta à narração típica dos volumes 1 e 2. Acompanhamos o Nicolas no tempo presente (e em quantos sarilhos o homem está, coitado), e a Jo num passado agora muito próximo do presente. Depois de um acontecimento traumático, ela aparece à porta de casa duma banda da cena grunge nos anos 90, sem memória.

E mesmo sem memória, a sua presença influencia a atitude dos membros da banda, inspirando a voltar a compor e a gravar um vídeo, até que... tudo vai para o inferno, correndo mesmo, mesmo mal. Gostei bastante deste segmento, porque agora que já tenho algumas respostas, consigo seguir a maneira como as coisas evoluem à volta da Jo de forma mais informada.

De qualquer modo, o tom foi muito certeiro para descrever a lenta descida à loucura da banda, como primeiro tudo corre bem e depois... não corre. Desta vez os antagonistas mantiveram-se ao largo, aparecendo muito pouco, e deu para ver como costuma ser a narrativa em torno da Jo assim que se vê rodeada de pessoas. Estou mesmo curiosa para ver como tudo termina.

Tony Chu vol. 3: Enfarda Brutos, John Layman, Rob Guillory
Tony Chu vol. 4: Sopa de Letras, John Layman, Rob Guillory
Se houvesse um prémio para "livro(s) mais improvável(is) de eu ler, e ainda assim, adoro", estes ficavam com ele. A sério, a premissa é tão estranha e tontinha, algo que parece saído de uma sessão de brainstorming às três da manhã, quando toda a gente já está demasiado cansada e pedrada de sono para dizer coisa com coisa...

... e contudo, caramba, resulta. Mesmo. Os autores exploram a coisa de ângulos inusitados mas muitíssimo interessantes. E eu farto-me de rir com estes livros. As coisas são escritas com um sentido de humor brutal, que me cai mesmo bem.

O primeiro volume dos dois, o volume 3, lida com uma cabala de ricos que se junta para degustar carnes raras, e aqui não estamos só a falar de frango, mas também... de mamute. Que é recuperado através de manipulação de ADN. Depois seguimos para uma aparição do frango Poyo, que cruza novamente o caminho do Tony, e para uma emboscada ao Mason Savoy que quase corre mal. E por fim, conhecemos a família alargada do Tony.

Esta última parte foi a minha favorita. Também gosto do resto, porque os autores conseguem contar casos do Tony e do John Colby, o parceiro, que são resolvidos normalmente num único número, mas que contribuem para a narrativa principal da série.

Mas acompanhar a família Chu? SEM PREÇO. Tão fofos e disfuncionais e escritos como um encontro de família: os pequenos dramas e implicações de uns com outros. Descobrimos duas interessantes adições à família: uma que não posso mencionar porque tem mais piada descobrir quando se lê, mas que me deixa curiosa para saber como aconteceu; outra é a irmã gémea do Tony, Antonelle. Que é tão animada e bem-disposta, tão o oposto do comportamento geralmente sóbrio do Tony.

O volume 4 lida com o acontecimento final do livro anterior, o aparecimento de umas letras misteriosas e desconhecidas no céu, e como isso está a levar o planeta à loucura. Alguns dos casos que o Tony e o John investigam relacionam-se com essa loucura e com a narrativa principal da história, muitas vezes de formas inusitadas mas fascinantes.

O Tony tem de colaborar com outras pessoas ao longo do volume delas, uma delas sendo a Toni, a irmã (que também tem os seus próprios superpoderes); outras são algumas agentes da USDA, que são tão engraçadas a rivalizar com estes "palermas de agentes da FDA"; e também conhecemos gente com mais algumas capacidades - um sofívoro, que descobre conhecimento útil aos agentes da FDA ao comer, e alguém que cruza brevemente o caminho do Tony (mas vai de certeza ter importância no futuro), e que lista os ingredientes ao comer algo.

O volume termina com um cliffhanger mauzinho, preocupante mesmo; estou curiosa para ver a reacção do Tony, porque ele não brinca em serviço quando se trata da família, apesar de tudo. E porque fica implícito que esta pessoa também tem... capacidades.

Ainda tenho de mencionar duas coisas que gostei de ver nestes dois volumes. Uma é o John Colby, o parceiro do Tony, que é hilariante. A sério, as coisas que lhe saem da boca... E também foi bem giro ver a reacção dele ao Mason Savoy. Apesar de tudo, é bastante leal. O John faz-me lembrar um cão, nesse aspecto. Muito leal e super bem disposto.

Outra é ver a Amelia e o Tony juntos. Adoráveis. Ele leva-lhe flores e ela lê-lhe as críticas que faz para o jornal de comida. (A Amelia faz a pessoa saborear a comida com meras palavras. O Tony não aprecia comer porque os seus poderes o fazem ver tudo sobre aquilo que come. As críticas da Amelia são o mais próximo que tem de uma experiência gastronómica.) E quando estão juntos estão sempre a fazer olhinhos, o que é tão giro. E acho piada que a Amelia é a única que tira o ar sério e sóbrio da cara do Tony.

Ah, façamos dali três coisas que tenho de mencionar. No quarto volume temos uma menção visual a Fringe. Dois agentes com o ar da Anna Torv (a Olivia na série) e do Joshua Jackson (o Peter) estão a interrogar alguém, juntamente com alguém que pode ou não ser o John Noble (o pai do Peter) - é o único que não se parece tanto com o actor. Ah, tenho tantas saudades de Fringe.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Curtas: Poderosos Heróis Marvel, volumes 9 a 11

Capitão América: Sonhadores Americanos, Ed Brubaker, Steve McNiven, Giuseppe Camuncoli, Travis Charest, Ed McGuinness, Frank Tieri, Paul Azaceta
Acho que o mais fascinante de ler histórias, a este ponto, sobre o Capitão América, e digo isto especialmente por ser um personagem tão icónico e conhecido, é ver como os escritores e artistas conseguem construir sobre o que está feito e acrescentar pormenores e detalhes ao seu mito e à sua história, contribuir para adicionar mais um pouco à sua biografia.

Neste volume em particular, descobrimos que uma equipa que trabalhou com Steve Rogers durante a Segunda Guerra Mundial ficou presa durante uma missão num mundo sonhado ou imaginário, mutável na presença e desejos dos seus habitantes (um pouco à Inception, eu diria). E assim ficaram, presos fora do tempo até aos dias de hoje, em que voltam com um intuito vingativo.

A história é cativante, o enredo corre bem sem engasgos, e até tem os seus momentos engraçados. É capaz de ser a primeira vez que vejo a Peggy Carter nos quadradinhos, e adoro um momento em que a Sharon diz algo do género "espera aí, roubaste a tia Peggy a outro homem???" ao Steve. A singularidade do momento é algo de nota. (Tendo em conta que a Sharon está ou esteve ou ainda está, I don't know, não tenho vida para seguir assim tão bem a vida amorosa dos personagens de comics, envolvida com o Steve.)

O volume tem ainda algumas histórias extra, de um número comemorativo, uma de uma página sobre a essência do personagem; outra sobre um momento em que se debate sobre se deve voltar a usar o uniforme; e a última sobre um clone de alguém que o Capitão conhece muito bem, e que fez muito mal - aqui a perspectiva é sobre se esta pessoa deve ser condenada por algo que ainda não fez, e talvez nunca venha a fazer, mas que o seu, er, original fez. Muito bem apresentado, o dilema.

Curiosamente, acabei a gostar bastante desta história. Não é nada o meu estilo, porque não costumo ler coisas com o Wolverine por aí além, e uma narrativa na Terra Selvagem também não me puxaria. Mas acabou a ser uma bela surpresa.

Combinando um estilo de aventura à Indiana Jones, ou à filme de sábado à tarde na TV, que puxa à nostalgia, com alguns elementos sobrenaturais e um cenário na selva que é mais ameaçador que encantador, acaba por ser muito divertida, com o seu quê de acção.

Gostei tanto de acompanhar os sarilhos em que o Wolverine e a Shanna se metiam, especialmente porque metade derivava de eles discordarem num curso de acção, e irem por caminhos diferentes sem se combinarem. (Mas também era assim que metade das situações se resolviam.) Fiquei curiosa por ver de onde este personagem do Amadeus Cho apareceu, porque acho que nunca o tinha visto, portanto assumo que é um personagem muito pequeno, ou então nunca tropecei em histórias em que ele apareça.

Gosto da reviravolta sobrenatural da história, e como afecta o percurso dos personagens. Não gosto do fato da Shanna, porque passei metade do livro a pensar como é que aquilo funcionava, se fosse só uma tira de pano à frente e atrás, sem ligação, era doloroso expor tanto os genitais, mas depois percebi pelo desenho que afinal é uma espécie de bikini por baixo. E assim, meus senhores é que se descobre os uniformes mais mal concebidos. Se o leitor tem de parar para pensar na exequibilidade da coisa, é porque não está bem feita.

O final é super interessante, pela ameaça que sugere; mas ao mesmo tempo frustrante, porque fica para resolver noutro livro, e é sempre isso que me aborrece nos comics, o não poder ler logo a seguir quando fico (muito ou pouco) pendurada. A arte, essa, bastante agradável ao olho, com uma planificação de vinhetas e pranchas pouco usual, mas que me cativou.

Demolidor: Partes de um Todo, David Mack, Joe Quesada, David Ross
O Demolidor não é um personagem que eu tenha lido muito, mas parece-me bastante mais interessante, pelos temas e ideias na base do personagem. E felizmente, tenho apanhado alguns livros que o confrontam com essas ideias e temas, histórias que mostram bem a sua essência.

Neste livro, os autores juntam-no com uma jovem que será o seu par ideal. Gosto do argumento e da ideia que um bom par para o Matt Murdock terá de ser alguém que entenda o que ele enfrenta todos os dias, uma combinação de uma incapacidade com uma capacidade extraordinária. E nesse aspecto, a Eco é fantástica, com uma incapacidade e uma capacidade que se complementa com a do protagonista.

Só que as coisas não são assim tão fáceis, pois não? Especialmente para o Demolidor, que parece ter um azar enorme com as mulheres, e parece-lhe ser impossível manter uma namorada por um período prolongado de tempo. Aqui, a interferência vem de Wilson Fisk (quem mais?), o Rei do Crime (esse tipinho que parece estar sempre a jeito para lixar a vida do Matt, mas adiante), que lança a Maya contra o Demolidor numa missão de vingança, sem ela saber que o super-herói e o homem por quem se apaixonou são a mesma pessoa.

Gosto mesmo da forma incomum como a narração é feita, a três vozes, dando espaço para os três personagens contarem o seu lado. E mais importante ainda, apreciei como a arte é usada para ajudar essa narração pouco habitual a transmitir algo ao leitor; é muito interessante como tenta mostrar a perspectiva do Matt e da Maya, vivendo com uma incapacidade. Fascinante de observar, a arte conta a história como poucas vezes vi fazer.

domingo, 26 de julho de 2015

Curtas: mais BD, parte II

Fatale - Volume Dois: O Negócio do Diabo, Ed Brubaker, Sean Phillips
Neste volume, a acção principal passa dos anos 50 para os anos 70, mudando o tom do policial noir com polícias corruptos para o horror insidioso com uma dose de loucura e drogas do meio Hollywoodesco. Josephine entrincheirou-se em casa, escondida do mundo, em parte para evitar aqueles que a perseguem, em parte para evitar levar tragédia a mais vidas, como o seu percurso tem feito até agora.

Pelo meio, temos algumas páginas a desenvolver o percurso de Nicolas Lash no presente, enquanto continua a investigar Josephine e a sua relação com Dominic Raines, um amigo do pai. Nicolas fica cada vez mais obcecado com a sua demanda, mesmo tendo-se cruzado apenas por momentos com Jo, o que mostra a capacidade dela de influenciar os outros.

Ok, este foi um livro bastante intrigante, os autores conseguem escrever e desenhar a história de modo a manter o meu interesse, graças a todo o mistério em torno da Josephine, e ao pendor sobrenatural e de horror da narrativa. No entanto, este é muito claramente um volume de ligação, um em que ainda se apresentam mais perguntas que respostas, o que me frustra um pouco, porque nem um véu sequer é levantado acerca da origem da Jo, apenas nos é mostrado mais do conflito que ela tem com os seus antagonistas.

Ora sem contextualização do conflito torna-se difícil compreender ou preocupar com o que está a acontecer, é só mais do mesmo em relação ao primeiro volume. Não que a história deste volume não tenha qualidade mesmo assim, mas gostava que o decorrer das coisas avançasse um pouco mais depressa.

A arte, creio que já o disse, é muitíssimo adequada a evocar um mistério e uma história tão sombria como esta, e cativa-me bastante. Menção ainda para o mini-cliffhanger envolvendo o Nicolas no fim - outro que traz mais perguntas que respostas, mas que é extremamente intrigante.

Oh, céus, este livro/história é tão estranho, com a premissa mais bizarra de sempre, e curiosamente, os autores conseguem fazê-la resultar. É fascinante. Melhor, conseguem expandir a premissa e construir sobre ela, desenvolvendo novos e velhos detalhes que encaixam com o que sabíamos anteriormente, e que complementam este mundo.

Portanto, sim, esta é uma das coisas que apreciei neste volume. Num mundo em que o frango foi banido devido a uma gripe das aves que matou milhões, aparece agora um fruto que cozinhado tem sabor a frango, mas é claro que com a natureza humana pelo meio, as coisas não correm brilhantemente.

Outras coisas a destacar no volume: o sentido de humor. O retorno do antigo parceiro do Tony, o John Colby, e a relação deles. O sentido de humor maluco inerente à premissa daquilo que é Tony Chu. A aparição do irmão dele. Mais categorias de pessoas com relações estranhas com a comida. O retorno de um personagem mencionado no primeiro volume. Toda a loucura na ilha.

Coisas que não são as minhas favoritas: o Mason está desaparecido, à parte de um breve comentário. A sensação de que este é um volume de ligação, de que ainda há muitas perguntas e poucas respostas, de que ainda não temos o panorama geral. E uma certa sensação de homofobia na maneira como o Applebee é caracterização. (Ugh.)

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Curtas: BD

Lumberjanes vol. 1: Beware the Kitten Holy, Noelle Stevenson, Grace Ellis, Shannon Watters, Brooke Allen
Este livro é totalmente adorável. Já tinha ouvido falar tanto dele, mas não tinha uma ideia muito clara do que esperar, por isso ainda bem que me arrisquei. A história passa-se num campo de férias para meninas, ahem, hardcore lady-types, como o texto se refere ao grupo e ao campo, e conta as aventuras de um grupo de 5 jovens.

Só que a piada dessas aventuras é que têm um pendor sobrenatural, com serpentes marinhas gigantes, raposas com três olhos, e estátuas falantes, num misto de várias coisas que gosto de ler (ou ver), tudo no mesmo produto artístico, e isso é tão divertido. Quase que podíamos argumentar que tanta aventura é produto da imaginação das meninas, se não fosse a monitora delas aparentar ficar ciente dos monstros no fim deste volume.

O enredo corre bem, com um misto de aventuras e momentos mais calmos, alturas em que cada rapariga pode brilhar por mostrar uma capacidade que tem (afinal, isto é um campo de algo parecido com escuteiras, e têm de ganhar badges por certas capacidades que demonstram), e pontos em que descobrimos mais um pouco sobre elas e sobre o mistério geral no centro de Lumberjanes (o meu único problema é ainda não termos uma ideia muito clara do que se passa, detesto não saber já).

Gostei bastante de conhecer as várias jovens protagonistas, ficamos com uma pequena ideia das suas personalidades e relações, mas estou com vontade de as conhecer melhor, acompanhá-las foi uma delícia. A arte é exuberante e colorida e uma delícia para os olhos, e pontos-bónus para esta edição - com folhas mais grossas que o normal para estes livros, e com muitos extras de capas variantes para os vários números presentes no volume.

Rat Queens vol.1: Sass and Sorcery, Kurtis J. Wiebe, Roc Upchurch
Outro livro acerca do qual não sabia bem o que esperar, e outro que me surpreendeu. Basicamente os autores pegam em todos os clichés dos livros e jogos de fantasia que se lembraram, e comentam-nos e gozam com eles, e viram-nos ao contrário para criar uma história que provavelmente vai agradar mais se o leitor tiver algum conhecimento do género, para poder rir-se com as piadas internas inseridas na narrativa.

E a sério, só os arquétipos e raças neste são por demais engraçados de ver explorados. As protagonistas são uma elfa feiticeira, uma anã guerreira, uma humana clériga e uma smidgen/halfling/hobbit/whatever ladra. Só aí as expectativas sobre elas são esmagadas, com a clériga a ser também ateia, ou a ladra a ser uma hippie de primeira, com uma queda por doces e drogas.

As aventuras em si são bastante engraçadas e cativantes de acompanhar - alguém anda a tentar matar grupos de mercenários, e as protagonistas são um deles, e tentam safar-se das tentativas de assassinato ao mesmo tempo que procuram o culpado. Os personagens secundários e até a maneira como as aventuras decorrem fogem ao conhecido para o género, e adoro o sentido de humor embutido na narrativa e nos diálogos.

Gosto ainda mais de ver um grupo de mulheres mercenárias, femininas, com diferentes estilos e perspectivas de vida, a divertir-se, matar coisas por dinheiro, e com uma saudável perspectiva sobre sexo. Creio que tenho uma inclinação maior para a Dee, só porque ela no fim do livro na festa estava tão desconfortável na festa, agarrada ao seu livrinho e com uma disposição "não me chateiem". Mas na verdade gostei de todas, e apreciei as suas diferentes personalidades.

Saga vol. 3, Brian K. Vaughan, Fiona Staples
É assim, eu já comentei Saga por duas vezes aqui no blog, não sei se tenho muito a acrescentar. Grande parte das coisas que disse continuam a aplicar-se. É uma história que cada vez mais vai ganhando tracção, e está numa parte particularmente cativante e interessante. As histórias dos vários personagens cruzam-se finalmente, e beeeeem, é explosivo. (Quase literalmente.)

Achei bem interessante ver os desafios que se põem à Alana, ao Marko e à Hazel como família, e o que se perfila e se espera para eles no futuro, e achei tão engraçado ver a Klara e o Oswald darem a volta à geração mais nova. Para além disso, aprecio como os autores estão a conseguir desenvolver quase todos os personagens, fazendo o leitor preocupar-se com o que lhes acontece.

Velvet vol. 2: The Secret Lives of Dead Men, Ed Brubaker, Steve Epting, Elizabeth Breitweiser
Neste segundo volume da intriga em torno de Velvet, a protagonista volta a casa, em Londres, para perseguir mais umas pistas relacionadas com o mistério que investiga, e no qual foi implicada como bode expiatório.

Acho que a parte que eu gosto mais destes livros é a intriga de espionagem, as facadinhas nas costas entre gente deste meio, os segredos e mistérios, a incerteza do que vai acontecer e de quem temos à frente. E também o perigo associado à missão de Velvet, os planos malucos de espião que usam coisas tão básicas da natureza humana para funcionar, e o drama presente derivado de tudo o que aconteceu no passado.

Parece que estou a ver um episódio de Alias, uma série que eu adorava ver, e por isso digo-o no sentido de elogio. Essa série também conseguia ser bastante retorcida e cheia de reviravoltas. Neste volume, adorei ver como a fasquia sobe mais um bocado, a intriga revela-se ser mais profunda que o esperado, e a Velvet, apesar de ser quase sobrehumana nas suas capacidades, vê-se ultrapassada por alguém que joga este jogo ainda há mais tempo que ela.

Os pontos de vista espalham-se a outros personagens, o que dá uma imagem mais geral da coisa, mas também permite avaliar a genialidade da Velvet, na maneira como manobra a perseguição que lhe é feita, e se escapa entre os pingos da chuva. Espiões a enganar espiões é tão divertido.

O enredo avança com uma velocidade furiosa (heh, nada a ver com o filme), nem dando tempo para respirar, e levanta mais uma pontinha do véu deste mistério, ao mesmo tempo que coloca mais perguntas e mostra que isto é bem mais profundo que inicialmente se apresentava. A narrativa joga bem com as personalidades e tropes de espiões, e é um gosto acompanhar, nunca se torna confusa.

A arte é fantástica, Steve Epting e Elizabeth Breitweiser combinam traço e cor para apresentar uma imagem bem realista e cinematográfica, conjurando uma atmosfera bem adequada a uma história de espionagem dos anos 70. No entanto, não gosto muito da capa (deste e do anterior). Sei que está a tentar conjurar um estilo de época bem explorado, mas é mesmo por essa razão que sei que é possível fazê-lo sem parecer uma confusão pegada. Aqui não há ligação entre imagens, está tudo ali a flutuar sem nexo.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Curtas: BD parte II - Sex Criminals, Velvet

Sex Criminals Vol. 1: One Weird Trick, Matt Fraction, Chip Zdarsky
Este livro facilmente chama a atenção, pela premissa, que é bem curiosa e singular, e relacionada com algo tão fulcral à experiência humana. E por isso é fácil ter expectativas, ou preconceitos, e descartá-lo sem mais; o que é uma pena, porque acabou por se tornar um livro divertido e com uma ou duas coisas interessantes a dizer acerca de sexo.

Suzie tem um poder extraordinário: durante o sexo, consegue parar o tempo. Um poder estranho, claro, mas que pela narração de Suzie chama a atenção para algumas questões ao longo do seu crescimento: desconhecendo se isto é normal para o resto do mundo, Suzie tenta esclarecer as suas dúvidas com várias fontes, mas ninguém se mostra disponível. Um ponto verdadeiramente trágico: por mais que o sexo esteja omnipresente, nunca estamos disponíveis para discuti-lo, algo mesmo triste se pensarmos em miúdos com a idade que a Suzie tinha a fazer asneiras porque nunca ninguém lhes explicou como é que funciona.

Enfim, a nossa protagonista sobrevive, e consegue viver uma vida social normal, tendo explorado o seu poder e respectivos limites, e habituando-se a viver com ele. Tem preferências e ideias pré-concebidas como qualquer um. Mas a sua vida dá uma reviravolta quando conhece o Jon, que tem a mesma capacidade.

Achei alguma piada à maneira como a relação deles se desenvolveu no início, a partir desta característica partilhada, e de como foram explorando juntos novas potencialidades do seu poder; e também gostei bastante de ler a narrativa do Jon sobre o seu passado, porque lidou com as coisas de maneira diferente, e ainda lida, o que dá uma abordagem distinta da Suzie. (Aquilo que ele faz à planta do patrão é de loucos. Mas super engraçado.)

Quanto àquilo que decidem fazer em conjunto - roubar um banco para salvar a biblioteca em que Suzie trabalha -, é a parte mais divertida do livro, porque fazem uma série de coisas doidas e hilariantes para testar os limites deste poder e entram em cena alguns conceitos completamente loucos mas que fazem muito sentido, como a polícia que patrulha o tempo parado, pessoas que têm o mesmo poder e tentam evitar que quem o tem abuse dele. Tecnicamente, estão a fazer a coisa certa, mas através da narração da Suzie cedo se perfilam como antagonísticos, e não podemos deixar de torcer por ela e pelo Jon.

A arte cartoonesca e psicadélica de Chip Zdarsk é perfeita para contar esta história com uma base tão louca, e fá-la resultar tão bem. A apresentação do tempo parado e o planeamento de algumas vinhetas e pranchas são aspectos que se destacam visualmente.

Velvet Vol. 1: Before the Living End, Ed Brubaker, Steve Epting, Elizabeth Breitweiser
Velvet é a história de Velvet Templeton, secretária do director de uma divisão de inteligência altamente secreta (não são todas?), ARC-7; quando um agente da divisão é morto, Velvet vê-se implicada na intriga, e é ao tentar limpar o seu nome que descobrimos que Velvet é muito mais do que parece. (E pronto, eu quando crescer quero ser como a Velvet e saber distribuir porrada sem suar as estopinhas.)

A história é clássica, no sentido que temos um (ex-)espião a tentar limpar o seu nome, no meio de uma conspiração, mas é o passado e a pessoa que Velvet é, e a maneira como a história é contada que me agarrou e manteve interessada.

Por um lado, o passado de Velvet, e as coisas que fez, deixaram-me intrigada, e queria saber sempre mais... em certos aspectos, vi a minha curiosidade saciada, noutros, nem por isso (há que guardar revelações para os próximos capítulos). Por outro lado, a narração do presente de Velvet é alucinante, viajando pela Europa, procurando pistas sobre o que levou à morte do agente e que possam ajudá-la a provar a sua inocência.

O certo é que fiquei investida na história, virando as páginas e acompanhando-a quase como se tratasse de um episódio da minha série favorita. A atmosfera dos anos 70 é muito bem evocada e para isso contribui a arte - que também transmite mesmo bem o ambiente de suspense, perigo e espionagem, ou não fosse a dupla argumentista/artista responsável por um livro dentro do mesmo género, só que com um super-herói - Capitão América: O Soldado do Inverno.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Curtas: BD parte I - Fatale, Tony Chu

Fatale - Volume Um: A Morte Persegue-me, Ed Brubaker, Sean Phillips
Esta leitura foi uma boa surpresa. Comprei o livro por curiosidade, pois estou interessada nesta iniciativa da G Floy Studio em lançar algumas séries de banda desenhada em Portugal, e acabei bastante satisfeita com o resultado final; os livros estão a um bom preço, a edição é boa, de capa dura, e as histórias agradaram-me.

Fatale apresenta uma história que pode já ter sido contada de um milhão de maneiras diferentes, mas que seguem o mesmo molde: uma mulher fatal em sarilhos, um homem perdidamente embeiçado por ela, um mistério que têm de desvender, um conjunto de perigos em que se colocam, polícias corruptos e vilões determinados. Mas talvez não tenha sido contada propriamente assim, com o toque de sobrenatural que apresenta, e é isso que deu sabor à narrativa.

A história alterna entre duas linhas temporais, dando claramente mais peso a uma delas. Começamos por acompanhar Nicolas Lash, que é responsável pela herança de um amigo do pai, Dominic Raines, e é através daquilo que lhe deixa e de uma mulher misteriosa relacionada com que ele que Nicolas é arrastado para algo que não compreende.

Rapidamente a narrativa dá lugar ao núcleo central da história, decorrendo em São Francisco, em 1956. Dominic "Hank" Raines é um jornalista a investigar uma história sobre policias corruptos, algo que o coloca no caminho de Josephine, uma mulher enigmática e magnética, e no caminho de uma série de acontecimentos sobrenaturais e perigosos homens cujos desígnios não conhece.

Acho que a história conseguiu manter o suspense e o nível de perigo, deixando-me impaciente para continuar a ler e ver o que aconteceria a seguir. Fiquei muito curiosa pelo que é sugerido acerca do passado e futuro da Josephine, e pelo aspecto sobrenatural, que está inevitavelmente relacionado com ela, mas que começa apenas por ser introduzido, e não completamente explicado.

Aliás, seria essa a minha única queixa, o eu querer saber mais e não poder, ainda, por ser apenas o primeiro volume, porque de resto conseguiu manter-me totalmente investida e com vontade de descobrir o mistério de Josephine, e que os protagonistas conseguissem escapar a um destino inevitável. A questão da mulher fatal que Jo representa é mais complexa que aparenta, e vou querer muito desvendar os seus segredos.

A arte é mais tradicional, mas perfeitamente adequada ao estilo de história, e desenho e cores combinam-se muito bem para criar a atmosfera ideal para a história, conseguindo cativar-me para a história. Gostei muito do trabalho tendencialmente monocromático, e o desenho fez-me transportar para a época.

Tony Chu - Volume Um: Ao Gosto do Freguês, John Layman, Rob Guillory
Esta é uma história... estranha. Digo-o maioritariamente no bom sentido, mas definitivamente estranha. Divertida, também, porque com tal premissa não vamos lá sem sentido de humor, e consegue usar a premissa a seu favor, por isso resulta melhor do que esperava. Tony Chu vive num mundo em que a gripe das aves matou milhões de pessoas, e isso nos EUA levou a que a FDA (a instituição que regula alimentos e medicamentos) proibisse a carne de frango, o que quer dizer que se gerou um mercado negro paralelo para a sua venda. (E também que há quem ache que isto é tudo uma conspiração.)

Tony é um polícia que tropeça num caso que envolve venda proibida de frango, o que o põe a trabalhar para a FDA devido à revelação da sua capacidade extraordinária: é um cibopata, alguém que recebe impressões psíquicas quando come algo. É muito incómodo saborear um bife de porco quando se consegue ver impressões da sua vida (ou morte); mas dá muito jeito quando basta mordiscar uma vítima para descobrir o seu assassino, ou vice-versa.

Portanto, sim, ideia completamente doidivanas. É um bocado nojento quando o Tony se tem de pôr a fazer a sua coisa, mas os autores não exploram a situação, apenas a usam como âncora para o resto da narrativa, por isso acabei por me divertir a ler a história, algo que não esperava, mas há algum sentido de humor no desenvolvimento da mesma, o que acabou por me agradar.

Por outro lado, gosto bastante do conceito de cibopata e de como foi explorado, porque o pobre do Tony não pode comer nada sem ser avassalado por uma série de imagens e impressões, sendo-lhe impossível saborear um prato; e cedo é introduzido outro tipo de pessoas com uma capacidade extraordinária: uma delas é Amelia Mintz, uma saboescriba, que faz ao seu leitor saborear a comida sobre a qual escreve. Incluindo o Tony, pelo que é capaz de ser a mulher da sua vida.

Portanto, o livro não se leva demasiado a sério, e brinca com os conceitos que apresenta, gerando uma série de situações bem engraçadas, como a Amelia derrotar uns malfeitores graças à sua capacidade, ou até a página inicial, o prólogo, que toma outra importância quando se torna claro como se vai intercruzar com o caminho do Tony.

O grupo de personagens secundários é bem giro, e fico com vontade de os vir a conhecer melhor. Há a Amelia, da qual já falei; o irmão do Tony, que era cozinheiro profissional, com programa de TV e tudo, até se lançar numa diatribe em directo contra o governo e a FDA (é um dos que acredita na conspiração contra a carne de frango); o Mason Savoy, outro cibopata, e que me deixa intrigada quanto aos seus motivos; o chefe do Tony, Applebee, totalmente antagonístico em relação a ele; ou o seu antigo parceiro, John Colby, com o qual tem uma relação engraçada.

A arte é mais cartoonesca, muito adequada ao tom da história, mas também é bastante detalhada, o que visualmente é muito cativante, e foi um trabalho que gostei de explorar.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Colecção Universo Marvel #18, #19 e #20: Wolverine, Vingadores vs. X-Men

Wolverine: Evolução, Jeph Loeb, Simone Bianchi
Uma história que apresenta um novo inimigo do Wolverine, enquanto se debate com um inimigo já bem seu conhecido, Evolução tenta adicionar mais alguns pormenores à mitologia do personagem, desenvolvendo ainda o seu passado.

É intrigante ver revelados certos pormenores sobre o passado do Wolverine e sobre um tal Romulus, que eu já tive oportunidade de conhecer e ler sobre, em histórias mais à frente. Contudo, não sou totalmente fã da narração com flashbacks, que é um pouco confusa e convoluta.

A questão da Evolução também me faz duvidar se seria completamente necessária para apresentar o Romulus; possivelmente sim, mas gostava que tivesse sido explorada doutra maneira. No entanto, gostei bastante da narração interna do Logan, que deu algum interesse à história.

A arte é visualmente muito interessante, talvez um pouco escura, mas bastante enérgica; a composição das pranchas e a organização das vinhetas nelas confere alguma dinâmica à acção. Só não sou completamente fã dum aspecto visual tão escuro.

Vingadores vs. X-Men 1: O Dia da Fénix, Brian Michael Bendis, Jason Aaron, Ed Brubaker, Jonathan Hickman, Matt Fraction, John Romita Jr., Olivier Coipel 
Vingadores vs. X-Men 2: E Então Restou Um, Matt Fraction, Brian Michael Bendis, Jason Aaron, Ed Brubaker, Olivier Coipel, Adam Kubert 
Já disse por aqui que não sou muito fã das sagas longas, porque tendem a arrastar e a engonhar, sem sim à vista; mas este Vingadores vs. X-Men até fez um bom trabalho em manter a minha atenção. O enredo corre a um bom ritmo, e em vez de termos os heróis a correr dum lado para o outro sem rumo (bem, até temos um bocadinho disso), há um acontecimento aproximadamente a um terço ou a meio da história que muda o foco e os desígnios dos super-heróis , e que ajuda a dinamizar a narrativa.

A história geral é responsabilidade de cinco argumentistas bem conhecidos (Brian Michael Bendis, Jason Aaron, Ed Brubaker, Jonathan Hickman e Matt Fraction), que se revezam a escrever cada número individual da história. Fazem um trabalho decente a criar um todo coerente, suponho; não conheço os estilos narrativos respectivos o suficiente para os identificar, mas deu para notar que cada número tinha um estilo diferente.

A premissa em si é bastante interessante, com os dois grupos titulares a discordar acerca de um assunto que lhes é muito caro - a vinda da Fénix, presumivelmente para encarnar na Hope Summers, e o caos que poderá vir daí - e a história que daí resulta até entretém, e se acompanha bem. Contudo, é daquelas premissas que se eu me puser a esmiuçar cai logo abaixo - creio que se os dois grupos se sentassem a uma mesa a discutir o assunto em vez de partir para a agressão imediatamente, não tínhamos tido tanto drama. Por outro lado, se toda a gente não insistisse em ser tão irracional, não tínhamos história, portanto...

Tenho a sensação que os Vingadores se fartaram de pôr o pé na argola vezes sem conta, em termos tácticos, o que é um pouco estranho, tendo em que conta que são liderados pelo Capitão América, que é supostamente um bom líder militar e uma pessoa razoável. E por falar no Capitão, a militarização da situação inicial parece-me totalmente descabida. Esperaria essa atitude dum Nick Fury, mas do Capitão? Bah.

Outro que faz uma asneirada de todo o tamanho é o Tony Stark. Para o génio que é suposto ser, como??? Como é que ele comete uma argolada como aquela com a Fénix? Podemos argumentar que tudo o que se segue é culpa dele, que foi fazer de Deus sem ter a certeza do que estava a fazer - o que não me parece nada típico do Homem de Ferro, mas enfim.

O acontecimento a meio da narrativa leva as coisas para novo território, e torna-se interessante seguir o Quinteto da Fénix. Porque a ideia inicial que têm, de melhorar o mundo em que vivem é fantástica; mas como acontece frequentemente com quem possui muito poder, as boas intenções degeneram. É curioso observar como os personagens resistem ou não ao poder da Fénix, mantendo a sua personalidade ou exacerbando-a até ao ponto de desequilíbrio.

Agrada-me a ideia final do que acontece à Fénix. A verdade é a história para trás deste evento é longa e complicada, indo bater pelo menos até à Dinastia de M, e aquilo que a Wanda/Feiticeira Escarlate fez nessa história teve repercussões durante muitos anos. Portanto, é adequado que ela tenha um papel na resolução do conflito, e que seja peça essencial no equilíbrio das capacidades da Hope.

Sobre uma certa morte ali para o final, bem, já disse que estou à espera que o personagem volte a todo o momento, por isso não me aquece nem arrefece. Ainda por cima o momento é tão anticlimático, ocorrendo depois dum momento grandioso, e tão inglório - querem mesmo que eu acredite que esta pessoa não saberia fazer melhor que cutucar uma fera enfurecida? É quase como se fosse culpa dele, bolas. A situação diz mais sobre a psique do perpetrador e de como se sentia em relação à sua vítima - de forma exacerbada pela Fénix.

Aprecio perceber finalmente o estado de algumas coisas nos primeiros números do Marvel NOW!, há muita coisa que faz agora sentido, como a tensão entre o Pantera Negra e o Namor. E percebi porque é que o casamento do Pantera com a Tempestade acabou, ainda que seja por uma razão estúpida - estarem de lados opostos do conflito não me parece suficiente, muito menos ele culpá-la pelo que o Namor fez, mas enfim...

Quanto ao trabalho artístico, está bem representado, entre três desenhadores bem conhecidos (John Romita Jr., Olivier Coipel, e Adam Kubert); só lhes notei a diferença porque o primeiro desenha caras e expressões num estilo mais cartoonesco e menos realista. Uns (Olivier Coipel, parece-me) têm mais queda para brincar com a organização das páginas e o posicionamento das vinhetas, mas no geral o trabalho apresentado conseguiu manter o meu interesse.