Opinião: Em Fahrenheit 451, Ray Bradbury conta a história de um bombeiro que em ver de apagar fogos, os ateia. Pois Guy Montag vive num mundo em que é proibido ler livros, e os transgressores cedo verão as suas casas e bibliotecas a arder, em fogos postos pelos bombeiros.
É uma premissa bastante provocadora, e uma ideia muito interessante, que acaba por desembocar em dois aspectos. Um é o da censura, o da proibição de livros que aconteceu no passado, acontece no presente e acontecerá, acredito, no futuro. Onde quer que hajam livros, há alguém a sentir-se afrontado por estes, e quiçá a querer impedir os outros de os ler. Neste mundo, a censura é regulada por elementos particulares da sociedade, mas o mais curioso é que esta atitude deriva do crescente desinteresse da população em geral por livros.
O outro aspecto, e que é relacionado com esse desinteresse, é a emergência de formas de entretenimento e de tecnologia mais imediatas e mais "simples" que os livros. O crescente interesse da população pelo entretenimento fácil levou a uma simplificação dos livros... o que combinado com o conflito gerado em torno destes levou a que fossem banidos, pura e simplesmente, para manter a população feliz e sem conflito.
Tudo junto dá bastante pano para mangas reflexão. Podemos ver neste facilitismo e estupidificação das pessoas através do entretenimento um espelho da actualidade de hoje, com uma massificação dos meios de comunicação: TV, internet, e redes sociais... mas acho que o autor não é assim tão claro na sua crítica tendencialmente tecnófoba. Qual é, afinal, o problema principal, nesta questão? É a tecnologia (que pode fazer coisas maravilhosas, também), ou o uso que fazemos dela? Não há um exemplo de um personagem que conviva saudavelmente com a tecnologia, por isso suspeito que o autor se inclinava mais para a primeira, mas pessoalmente inclino-me mais para a segunda.
Tive alguma dificuldade com o estilo de escrita do autor. Depois do Philip K. Dick me parecer algo seco e pouco cativante, este autor vai na direcção oposta. Pareceu-me excessivo com tanta metáfora, tanto floreado, tantos rodriguinhos... tornou-se um bocadinho saturante, e pouco contribuiu para a fluidez da leitura. Às tantas eu dava por mim a pensar: "bolas, pára lá de engonhar, avança-me mas é com a história". E depois tinha de pousar o livro, para descansar de tanto palavreado. É uma escrita às vezes bonita, mas há que saber dosear as metáforas e os artifícios, e duvido que o autor o saiba fazer.
Achei o protagonista, Guy Montag, um bocado tolo na maneira como reage às coisas... mas é um personagem melhor caracterizado por isso. Apreciei a sua evolução ao longo da história, o modo como foi despertando para o valor dos livros, apesar de as suas tentativas de fazer algo para mudar o seu mundo fossem bastante ineptas. (O que conta é a intenção, certo?)
Quanto ao final, gostei bastante da metáfora da fénix (vá lá, uma metáfora que se salve). Achei o final bastante vago, mas o próprio livro assim o é, em muitos aspectos, por isso está coerente com o resto da história.
Fahrenheit 451 é, em parte, uma carta de amor à palavra escrita e ao livro. Nota-se o valor que o autor lhes dá naquilo que escreve; e apesar de todos os defeitos que lhe encontrei, achei esta uma história importante, e merecedora de uma oportunidade, pois tem alguns pontos de reflexão, e como leitora inveterada não posso deixar de ficar horrorizada com o futuro que pinta.
Título original: Fahrenheit 451 (1953)
Páginas: 200
Editora: Europa-América
Tradução: Teresa da Costa Pinto Pereira
