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domingo, 26 de fevereiro de 2017

A Liga dos Homens Assustados, Rex Stout


Opinião: ... ou como um bando de homens feitos se pode portar como uma capoeira de galinhas histéricas, com o empurrão certo. A sério, falava eu do sentido de humor do Rex Stout no livro anterior... e aqui, ele sobe a fasquia e goza com a cara dos próprios personagens.

Neste volume, um grupo de antigos alunos de Harvard vem parar à sala de Nero Wolfe porque suspeitam que um deles, horrivelmente magoado numa brincadeira dos tempos de estudante, estará a assassinar os seus membros como forma de vingança. A apoiá-los estão as cartas crípticas que todos receberam depois de cada morte, aludindo às mesmas.

A piada da situação vem do facto que a histeria do grupo é largamente infundada. (E atenção que isto não é uma avaliação da culpabilidade ou falta dela do suspeito.) Pior, as suspeitas deles levam-nos a tomar acções que não tomariam - exemplo, o comportamento de Hibbard neste livro, ou as acções do criminoso no final do livro.

Apesar de já ter lido o livro e ter uma ideia de para onde se dirigia o enredo, gostei mais deste e das suas reviravoltas. O anterior fixa-se no assassino demasiado cedo e isso corta um pouco o fôlego à narrativa. Aqui, as constantes revelações sobre o que se está a realmente passar, e sobre os crimes e acções que foram praticadas pelos jogadores do enredo, tornam tudo mais cativante e prendem melhor o leitor.

Este volume traz também um momento engraçado na dinâmica entre o Archie e o Nero. A certa altura o Archie faz uma asneira, deixando-se vulnerável quando devia ter sido desconfiado (o que em si é divertido e preocupante), e o seu paradeiro torna-se incerto por momentos. Coisa que é das únicas que fez Nero Wolfe levantar o traseiro da cadeira e - gasp! - sair realmente de casa. (Tal era a preocupação.)

Isto é interessante porque este par trabalha em conjunto há alguns anos quando a série começa no volume anterior, e apesar da constante esgrima verbal, é bastante claro que se preocupam um com o outro. Ah, e por falar na esgrima verbal... é uma risota quando o Archie se sente frustrado por a) falta de trabalho ou b) não estar a ver o que quer que o Nero está a ver sobre o caso, levando a c) picar Wolfe para ver se obtém uma reacção. Muito engraçado.

Destaque para Paul Chapin, o suspeito de serviço, que tem uma análise psicológica muito curiosa na página; Nero Wolve adivinha correctamente o que o move, e é fascinante de ler. E acho interessante ver que, no final, e tal como no livro anterior, o que move os protagonistas não é necessariamente o fazer-se justiça; é fazer aquilo para que foram contratados. Nero Wolfe é bastante rigoroso nesse aspecto, e isso põe algumas questões morais e éticas ao leitor, especialmente quando o interesse do detective e a execução da justiça não coincidem.

Título original: The League of Frightened Men (1935)

Páginas: 304

Editora: Livros do Brasil (Porto Editora)

Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Picada Mortal, Rex Stout


Opinião: Era uma vez, há muitos anos atrás, apanhei uma série a passar na televisão. (Abençoada RTP2 quando passava um sem número de séries.) Não me lembro do título que lhe deram em português, mas era esta. Gostei mesmo do conceito e da execução, e do ambiente e dos personagens, e até da maneira como os mistérios se desenrolavam.

Resultado: andei nos meses (anos? não consigo precisar) a caçar livros do Rex Stout que pudessem ter o detective Nero Wolfe, e que foram publicados em Portugal pela colecção Vampiro na Livros do Brasil; só que já nessa altura, muitos dos livros eram difíceis de encontrar. Ainda li umas quantas coisas, e diverti-me com elas, mas infelizmente acho que não posso dizer que tenha adquirido e lido sequer o equivalente a metade da série. Uma pessoa cansa-se de andar a caçar livros impossíveis de encontrar, e parte para outras coisas.

Tinha saudades, no entanto. Há algo que a série de TV captou tão bem, que é o tom e o sentido de humor do autor. (Pelo menos penso que sim. Vi a série há tanto tempo.) Mas pronto, posso dizer que fiquei contente por ver que esta "reedição" ou lá o que é da colecção Vampiro inclui o Rex Stout; pode ser que desta vez eu consiga ler a série toda do Nero Wolfe.

Nero Wolfe é um detective peculiar. Obeso, reclusivo, não sai de casa para resolver casos; os casos vêm ter com ele. Nero interessa-se e desinteressa-se de casos com a mesma rapidez com que mudaria de camisa; mas quando um tem o seu interesse, é implacável. A investigação fora de casa deixa ao cargo do seu assistente/secretário/homem-dos-sete-ofícios, Archie Goodwin, sarcástico a tempo inteiro e sério apenas quando está inclinado para isso, e ocasionalmente, a outros detectives que contrata para ajudar num caso.

Sempre gostei muito desta dupla e de como o Rex os escreve. O Nero Wolfe é um tipo sisudo, impenetrável, quase misantrópico. Tem horários rígidos (ai de quem o queira interromper das 9 às 11 da manhã, e das 4 às 6 da tarde, quando dedica tempo ao seu hobby, jardinagem de... orquídeas), é um gourmet inveterado, e revira este mundo e o outro se isso impedir que tenha de sair de casa.

O Archie faz uma piada de tudo, mas é imensamente observador e reconta perfeitamente o que observou, interrogou, encontrou ao Nero, e por isso é essencial ao processo de investigação, ainda que nenhum dos dois provavelmente o admita. Além disso, o Archie, com o seu sarcasmo e piadinhas, é a pessoa perfeita como contraponto ao Nero; diria que o atiça, puxa por ele, mantém as coisas interessantes.

Creio que o Rex Stout fez uma caracterização excelente com estes dois. Nunca faz parecer que um é mais que o outro; são iguais, de certo modo, apenas pessoas com capacidades diferentes e que se complementam bem. O Nero nunca seria capaz de sair de casa e andar a interrogar pessoas e facilitar certos acontecimentos; tal como o Archie também detestaria ficar fechado em casa e e fazer conexões impossíveis entre coisas aparentemente não relacionadas.

Outra coisa que apreciei no autor quando o li no passado, e novamente com este livro: o sentido de humor. Não só nas observações e comentários do Archie (que é o narrador da história e absolutamente hilariante), mas nos próprios acontecimentos, na domesticidade da casa-prédio (uma brownstone, que sonho) de Nero, nas interacções dele com o Archie, e ocasionalmente com as pessoas envolvidas no mistério.

O mistério em si contado neste livro parece-me ser um bom exemplo das histórias contadas por Rex Stout, pelo que me lembro: um acontecimento banal revela ser um mistério convoluto, com reviravoltas sobre o método do assassinato, o papel do assassino e até do assassinado. E curiosamente, o culpado é estabelecido bastante antes de o livro terminar: o interesse prende-se mais com a maneira como vai ser apanhado, e a história resolvida. (E a solução deste é bastante interessante. A acusação que o Archie faz ao Nero no fim, ainda mais.)

Ah, espero que não demorem muito até publicar o próximo livro do Rex Stout na colecção Vampiro. Que vontade de matar saudades outra vez.

P.S.: Pergunto-me se a tradução é nova ou a original da Livros do Brasil? Achei ali umas coisas estranhas no meio que precisavam de tradução e revisão cuidadas. (Como a referência aos anos 50 que apanhei - a história passa-se em 1933.) Preguiça much, Porto Editora? Não é só comprar uma editora mais pequena e aproveitar-se da colecção literária que eles já têm; bem que podiam juntar algum valor literário à aquisição, usando as vossas capacidades para melhorar o produto que apresentam. E um livro é sempre um produto, por mais que queiramos fingir que não.

Título original: Fer-de-lance (1934)

Páginas: 296

Editora: Livros do Brasil

Tradução: Eduardo Saló