domingo, 13 de dezembro de 2015

Harry Potter e o Cálice de Fogo, J.K. Rowling


Opinião: Normalmente não costumo dizer que tenho favoritos entre os livros desta série, porque todos acabam por ser significativos à sua maneira, seja porque marcaram o meu percurso como leitora, e porque me lembram partes diferentes da minha vida, seja porque acabam todos por ter a sua importância para a evolução da série - não consigo dizer que um livro seja inútil, ou menos importante para o decorrer das coisas, porque esta senhora era genial e desde o início que andava a plantar coisas para os livros seguintes.

Contudo, tenho uma certa inclinação por ler este livro, e o seguinte, também. Céus, as coisas ficam tão sérias, tão depressa. Não é que não houvesse perigo antes, mas os personagens eram mais jovens, o tom dos livros era mais descomplicado, e conseguia-se resolver as coisas no final do livro. Terminava tudo enbrulhadinho com um lacinho muito bonito.

O fim deste livro é absolutamente deprimente. Eu nunca fico chocada com a parte da morte, porque acontece demasiado depressa, e uma pessoa não tem tempo para o choque; mas com o que vem a seguir. A perda de inocência, a sensação de que nada vai ficar bem novamente. O Harry naqueles capítulos finais está tão entorpecido emocionalmente, porque enfrentou algo que nenhum miúdo de 14 anos merece enfrentar, porque alguém com esta idade não pensa que vai morrer, nem vê um dos seus pares morrer à sua frente. É mesmo... pesado.

Além disso, cada vez tenho mais razões para ficar, hmmm, desapontada com o Dumbledore. Os pormenores de como as coisas decorrem no último livro estão um pouco desfocadas nas minhas cabeça, mas creio que ele põe o Harry num caminho que sabia como ia terminar, e nunca o prepara para as decisões perturbadoras que ele tem de tomar. E o Harry aqui mostra que é capaz de as enfrentar. Ele essencialmente pensa que vai morrer, mas enfrenta o Voldemort de qualquer modo, sem esperar que algo o salve. Again, nada que alguém com esta idade devesse enfrentar.

Ok, passemos a coisas mais bem humoradas. Uma coisa que gosto mesmo neste livro é o Torneio dos Três Feiticeiros. Muda um pouco a configuração do ano lectivo, o suficiente para manter as coisa interessantes, adoro seguir as três tarefas e as peripécias que envolvem descobrir o que são as tarefas; e aprecio tanto conhecer estudantes de outros países. De certo modo os livros passarem-se na escola de Hogwarts reduz um pouco a nossa perspectiva sobre o mundo mágico, e é bom ver outros países e outras culturas, outros modos de fazer as coisas. (É por isso que também adoro a Taça Mundial de Quidditch.)

Mais um destaque: o modo como começamos a vislumbrar os acontecimentos do passado, porque isso é super interessante. Percebemos como o Voldemort chegou ao poder, as consequências de ter sido derrotado, e começamos a descobrir jogadas de bastidores, dramas pessoais, pequenos segredos que têm um impacto tão grande. Sempre adorei este aspecto nos livros.

Oh, e tenho de dizer, ler o livro sabendo o que se passa com o Moody? É tão arrepiante e excitante. Todas, e digo mesmo todas, as interacções que ele tem com os outros personagens são reavaliadas. O interesse que ele tem em que o Harry avance no Torneio. A maneira como ele mostra as Maldições Imperdoáveis à turma, especialmente a Cruciatus, tendo em conta o que aconteceu aos Longbottoms, e como ele se mostra amigável com o Neville! Ugh, pobrezinho, apetece-me dar um abraço ao Neville, sabendo que teve à frente esta pessoa que lhe causou tanto mal.

Outras coisas divertidas deste livro: Rita Skeeter. Céus, quantos sarilhos esta alminha causou. Os choques culturais e sociais com os alunos de Durmstrang e Beauxbatons, que nos faz vê-los às vezes de modo menos abonatório, e os pobres não têm culpa. Os dramas do Ron, primeiro com o Harry, depois com a Hermione, e a coitada tem de aturar hormonas aos saltos durante bastante mais tempo do que merece.

A este ponto a Hermione amadureceu, bem mais cedo que os rapazes, e largou aquela queda para sabichona irritante. Ela é mais sabedora, sim, mas não se exibe, e faz tudo para ajudar nas tarefas do Torneio. Apesar de ter direito a revirar os olhinhos quando o Ron ou o Harry estão a ser obtusos e ela tem de explicar tintim por tintim, especialmente quando se fala de sentimentos. Além disso, ela sai da sua zona de conforto, e é cortejada por um rapaz aparentemente bastante desejável no mundo feiticeiro, o que gera alguns momentos giros e interessantes. Ah, gosto mesmo da Hermione, agora que ela já cresceu e passou a fase mais stressadinha.

Oh, e tenho a dizer, finalmente encontrei uma prova que estes livros tiveram uma revisão, por mínima que tenha sido! Na edição inicial do livro, quando saiu em português, há uma altura em que o artigo difamador da Rita Skeeter sobre a Hermione sai, e o Ron diz algo do género "ela faz-te parecer uma... mulher escarlate".

O que para o meu pequeno cérebro de 11, quase 12 anos foi algo confuso, porque tinha a certeza de que não havia tal expressão em português, e porque raios é que iam meter tal coisa no livro se em Portugal não falamos assim. Meu pobre inocente cérebro ainda não marcado para asneiras nas traduções. Eu percebi o sentido da frase, mas não porque é que o Ron se exprimiria assim. Acho que percebi também que o tradutor/a (a equipa, na verdade) era um palerma e tinha feito mal o seu trabalho.

E pronto, aqui temos o meu primeiro encontro de terceiro grau documentado com uma má tradução. E aonde eu queria chegar, é que nesta edição mais recente, com a capa que está ali em cima, o Ron diz "desavergonhada". Ok, não era o que eu escolheria (não sei qual é o original, mas "vadia" seria interessante), mas serve.

Ok, no próximo mês, guess what? Vou ler o livro mais longo da série! E o mais dramático, também, de certezinha absoluta. Adoro a louca da Umbridge. Vai ser tão divertido.

Título original: Harry Potter and the Goblet of Fire (2000)

Páginas: 592

Editora: Presença

Tradução: Isabel Fraga, Isabel Nunes, Manuela Madureira

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