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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Encontrada, Carina Rissi


Opinião: Topseller, esta capa? Não. Não, não e não. Não, não, não. Não. Por favor, como é que conseguem produzir capas perfeitamente adequadas para outros géneros, e fazem até coisas imaginativas nalgumas delas, mas depois em romances históricos parece tudo feito por um puto de 5 anos no Paint, colado com cuspo?

A sério, detesto esta moda de montagem de uma figura humana em cima duma imagem duma propriedade antiga. E joga-se para ali o texto em cima, e já está. (Não são os únicos culpados, mas pronto, agora vão levar por tabela.) Não há preocupação em fazer tudo de forma harmoniosa, em que pelo menos se faça parecer que as imagens fazem, de facto, parte umas das outras.

Continuando. Ai, Sofia, Sofia, só disparates, miúda. tsk-tsk *abana a cabeça*

Neste segundo volume da série, a Sofia (a protagonista) encontrou o seu conto de fadas com Ian Clarke. O casamento aproxima-se a passos largos, os preparativos estão em marcha... mas a Sofia só mete os pés pelas mãos, e não consegue evitar a série de desastres que se acumulam, antes e depois da cerimónia... por seu lado, o Ian também está a agir de forma um bocadinho estranha, e a Sofia morre de medo que ele se tenha arrependido.

Aiai... só tenho a dizer, as peripécias em que a Sofia se mete? Na sua maioria, hilariantes. Nesses casos a autora faz render muito bem o caso de "peixe fora de água" que ela é, e consegue criar situações em que a falta de familiaridade da Sofia com os costumes do século XIX levam a situações caricatas. A minha favorita? A do casamento, o choque que a rapariga dá ao padre ao confessar uma certa coisa, e a maneira como ela (e o Ian depois junta-se à festa) manipula o padre para continuar a cerimónia. Brilhante!

E pronto, na maioria a autora escolhe bem as situações em que a Sofia se mete em sarilhos. Ou pelo tal desconhecimento dos costumes que falei ali em cima, ou por ela não deixar de ser quem é, e se indignar com certas coisas, e tentar ser a mulher independente que era no século XXI.

Há ali momentos em que a autora exagera um bocadinho na situação, diria eu. Há uma ou outra coisa que me soaram falsas, pouco credíveis. A Sofia até pode desconhecer muita coisa do século XIX, apesar de ser uma Austenófila, mas há faux pas que ela comete que podiam ser evitados se ela tivesse um pouco mais de bom senso. (Sair de casa de calças? Oh Sofia, até eu sei que é uma péssima ideia.)

É uma falha na caracterização; não aprecio quando os autores fazem dos personagens mais tolinhos do que são ou deviam ser. No caso da Sofia, ela deveria saber pelo menos escolher as suas batalhas. Sabe que o Ian é um homem do século XIX, e não entende certas coisas. Não seria melhor lutar por aquelas que realmente a apaixonam? (Neste caso, a coisa das calças é parva. A dela querer fazer algo por si própria, essa sim, é merecedora de discutir com o Ian.)

No seguimento da Sofia ser uma tonta? Oh por amor da santa, o desentendimento deles é tão parvo. Ela interpreta que uma coisa que ele diz... à luz do século XXI. (O homem pede "um tempo", porque quer umas horas para arrefecer a cabeça.) E a Sofia entra em paranóia. Oh Sofia, esta gente não sabe o que é divórcio, boa? O próprio Ian diz vezes sem conta que está ali para ficar, e ela joga a toalha ao tapete à primeira.

Eu sei, tem a ver com as inseguranças da Sofia acerca de pertencer ali, se alguma vez o conseguirá fazer, e um reconhecimento que não é só amor e uma cabana. Mas a sério, detesto quando os autores fazem dos seus personagens tolos. Acho que é um pouco de inexperiência da Carina; acredito que mais para a frente na sua obra deixe de fazer estas falhas de caracterização.

É porque de resto, a autora até tem boas ideias na maneira como evolui o enredo. Para além dos sarilhos em que a Sofia se mete, apreciei o "mistério" das jovens que morriam misteriosamente. Foi uma ideia inteligente, usar a questão das crinolinas. E portanto denota algum conhecimento da época que me agrada.

O elenco de personagens secundários é fantástico. Alguns são caricaturas, e o objectivo é mesmo serem-no, como a tia Cassandra, impossível e uma Lady Catherine de Bourgh brasileira, ou o Dimitri mulherengo. Outros fazem parte da família no fim, e os pedacinhos de história própria que vemos para eles são deliciosos, como a Madalena, o Gomes, a Elisa ou o Lucas, até "o outro senhor Clarke", o Thomas, e a Teodora...

O final é tão giro. Um bocado dominado pelos dramas da Sofia, que passou o livro obcecada com os modos de dar à luz no século XIX, e a sonhar com cesarianas (a sério, miúda, acalma lá os cavalos, inda há muita gente a dar à luz de forma mais ou menos natural no século XXI, não é tudo cesarianas), mas muito giro. Gostei imenso da reacção de toda a gente ao acontecimento, e gostei dos saltos no tempo para vermos mais um bocadinho do felizes para sempre.

Gostei particularmente do último salto no tempo. A Sofia arranja maneira de enviar algo à Nina, a sua maior amiga do século XXI, 200 anos depois de ter vivido. E é adorável, e achei tão interessante como a autora conseguiu criar ali uma ligação através do tempo. Muito fixe.

Enfim, o livro tem as suas falhas, e a Sofia exaspera-me por vezes com a sua tendência para o drama, mas acho que acabei por me afeiçoar bastante a esta série. Foi uma boa surpresa poder ler e devorar os dois livros; não são o próximo bestseller, mas são adoráveis, fofinhos, são divertidos e proporcionam umas boas horas de leitura. É tudo o que posso pedir.

Páginas: 448

Editora: Topseller

Adaptação: Tiago Marques

sábado, 9 de abril de 2016

Perdida, Carina Rissi


Opinião: Há autores que têm queda para, mesmo na sua primeira inexperiente tentativa, captar a atenção do seu público alvo, por serem eles próprios leitores entusiásticos, com os seus interesses que transbordam para a página, e que se alinham com os interesses dos seus leitores.

Neste caso, a Carina Rissi e eu falamos a mesma linguagem: Jane Austen e romances históricos do século XIX com uma pitada de conto de fadas. É meio caminho andado para o meu coração. Há uns anos vi uma série que adorei, Lost in Austen, sobre uma fã da Jane do século XXI que troca de lugar com a Lizzie Bennet, e acaba nos braços do Mr. Darcy, apesar dos seus modos estranhos e história que não pode partilhar. Sempre quis ler um livro que fosse assim parecido.

Pois bem, as linhas gerais da história convergem. A Sofia é uma jovem do século XXI, descrente do amor, amante de Jane Austen, muito dependente da sua tecnologia, que deixa o telemóvel cair na sanita (palerma). Ao tentar comprar outro, uma misteriosa mulher vende-lhe um aparelho que não funciona como outro telemóvel qualquer: Sofia é transportada para o século XIX e acaba a fazer amizade com uma família da zona, enquanto tenta descobrir como voltar.

É claro que a primeira pessoa que a Sofia encontra depois de aterrar no passado é um cavalheiro, Ian Clarke, que fica alternadamente escandalizado e fascinado com a pessoa dela, os seus modos, e a maneira como parece estar quase despida (leia-se: usa uma mini-saia). O choque de culturas não é o suficiente para separar estes dois, que se começam a aproximar, apesar das suas diferenças.

Boa parte da piada do livro é mesmo o choque de culturas, principalmente para a Sofia. Foi hilariante vê-la descobrir aos poucos as partes menos glamorosas da época, como a roupa apertada e cheia de camadas, as crinolinas e os espartilhos, e a... casinha, fora de casa, onde o papel de papel higiénico era assumido por folhas... de alface.

Por outro lado, também é bastante divertido ver os habitantes do século XIX, especialmente o Ian, ficarem abismados com o comportamento da Sofia. A sua recusa em usar crinolinas ou espartilhos, o uso de ténis, os modos demasiado expeditos para uma jovem que devia ser recatada, a maneira como fala livremente de assuntos que uma mulher não devia falar... pobre Ian, lentamente habitua-se a ficar escandalizado pelas coisas que a Sofia diz. E faz. Atrevo-me a dizer que a certa altura ele já prefere ficar escandalizado mesmo.

Por falar no par principal, achei-os adoráveis juntos. O romance foi bastante fofinho e quando começou a dominar a narrativa até me surpreendeu, porque a autora soube imprimir à história uma certa intensidade que era precisa para sublinhar a questão dos amantes separados pelo tempo, destinados a ficar juntos.

Há pequenos momentos dos personagens secundários que deu para apreciá-los, e só deu vontade de os conhecer melhor, de os ter durante mais bocadinhos. Há alguma caracterização subtil, o que aprecio, e gostei imenso da Teodora, por exemplo; mas também da Elisa, do Gomes, da Madalena, do Storm, da Nina...

Pontos negativos: se estou a ver bem no Goodreads, este é o primeiro livro da autora, e nota-se. Falta-lhe alguma maturidade na escrita. Ela escreve, por exemplo, a Sofia demasiado exagerada para sublinhar a diferença dela das pessoas do século XIX, chegando a tornar-se descabida ou rude até para padrões do XXI, o que faz parecer a Sofia uma tolinha.

Para isso (a Sofia feita tola) também contribui uma certa falta de pesquisa, ou falta de ser coerente. A Sofia gosta de Jane Austen e supostamente conhece bem a época, mas depois chega ao século XIX e comporta-se como uma ignorante em relação aos modos e costumes da época. Ou mesmo quando percebe que as pessoas não se comportam como ela, não tenta ajustar as suas expectativas ou comportamento, mesmo sabendo que pode embaraçar os amigos que fez.

Depois denota-se que o livro precisava de um bocadinho de proofreading, de pesquisa mesmo. Há uma parte em que se fala de móveis vitorianos; pois bem, em 1830 a Rainha Victoria ainda não tinha começado a reinar sequer, por isso o nome da época com o nome dela não se devia usar. Ainda não havia o conceito de algo ter aspecto vitoriano.

Por outro lado, além da situação geral da cultura e comportamentos e costumes em que a Sofia tropeça a cada momento, não há assim tantos elementos históricos usados para contextualizar: nenhuma menção directa a isto passar-se no Brasil, nada de menções políticas; e bem sei que a autora neste seu mundo ficcional não queria dar tempo de antena à escravidão, uma questão tão vergonhosa, mas fingir que não existiu até soa pior, parece que lhe retira a importância que devia ter.

Defeitos à parte, acabei por me afeiçoar bastante ao livro, curiosamente. A história é devorável, a protagonista é superdivertida e com uma perspectiva engraçada e interessante, e o romance é bastante cativante, deixando uma pessoa a torcer pelo casal principal como se não houvesse amanhã. O fim é bastante satisfatório, mas sei que há sequelas, o que me deixa imensamente curiosa para saber o que contêm.

A adaptação em si pareceu-me bastante boa, sei que se não tivesse havido eu teria parado quando primeiro tropeçasse e esbarrasse em calão brasileiro; mas ocasionalmente o calão era demais, o que me faz perguntar se a culpa era da autora ou se o problema é do adaptador. Ocasionalmente, uma ou outra frase soavam meio estranhas, mas fora isso, leitura fantástica.

Páginas: 352

Editora: Topseller

Adaptação: Joaquim E. Oliveira