domingo, 21 de maio de 2017

Curtas BD: Graphic Novels da Marvel, vols. 35, 37 e 38

Vingadores Secretos: Missão a Marte, Ed Brubaker, Mike Deodato
Portanto, parece-me que isto se passa a seguir a alguns eventos curiosos no mundo Marvel, e até que gosto da ideia da formação da equipa. Uma espécie de equipa black ops, uma força de intervenção secreta equipada para lidar com ameaças ocultas, direi mesmo... secretas.

Tem uma mistura algo estranha de personagens, alguns interessantes, mas não sei se neste primeiro volume consegue usá-los em todo o seu potencial. No caso de uns, é uma pena. Falta um pouco de personalidade no desenvolvimento de personagens que tornaria a história em algo difícil de esquecer.

No entanto, a escrita é suficientemente cativante, tanto no diálogo como na criação do enredo, que embala o leitor o suficiente para a história se ler num instante. Não é uma história extraordinária, e podia ter ganho algo se o argumentista pegasse ainda mais no tom thriller/espião que lhe conheço doutras histórias, acho que podia melhorar aqui a coisa.

Sobre a arte: não sei, o Deodato faz umas coisas estranhas com os corpos e caras e respectivas proporções. Só me senti à vontade no número em que a arte passa para o David Aja, que já conhecia de outras andanças.

O Imperativo Thanos, Dan Abnett, Andy Lanning, Miguel Sepulveda
Esta é uma história escrita no seguimento de um drama galáctico anterior, mas segue-se bem sem precisar de saber tudo. Por mim até passava bem sem o número incluído no início, da revista dos Guardiões da Galáxia, sobre como encontraram o Thanos. Como não sei a história para trás, é irrelevante ler sobre como o encontraram e a outros personagens.

O enredo foca-se numa falha, por trás da qual há o acesso a um outro universo. Um em que a Morte foi eliminada. E na ausência de morte, a vida floresceu. Uma ideia fascinante de considerar, e adorei o conceito e a sua exploração, se bem que não me identifiquei com certas partes da mesma.

Como disse, a história acompanha-se brilhantemente, mas gosto na mesma que esteja cheia de referências. Ei, algumas eu até percebi! E achei divertido ver juntar tanta gente que aparece em histórias fora da Terra - Shiar, Inumanos, Nova, os Guardiões, até Celestiais e o Galactus.

Dois bons pontos no desenvolvimento da história: um, mesmo no meio dum grande evento, permite-nos preocupar com os personagens; dois, mesmo sendo um grande evento, não me perdi no enredo. (Os grandes eventos gostam muito de nos fazer isso.)

Vingadores: O Nascimento de Ultron, Roy Thomas, John Buscema
A ovelha negra deste conjunto. Não sou nada fã destes volumes que reúnem histórias mais antigas, metendo muitos números da revista juntos. Acaba por ter muitos enredos diferentes misturados e isso torna-se aborrecido para mim, acho que as histórias acabam por não ser muito bem exploradas.

O nascimento titular de Ultron nem sequer é uma grande parte do volume; só um par de números da revista. Não é particularmente excitante, e é contado quase em terceira mão, o que é... bem, aborrecido. Preciso de mais detalhe que isso.

Olhando para as outras histórias, acho o enredo meio forçado em muitas delas - a do Jarvis a ajudar o inimigo, por exemplo, ou a do Yellowjacket/Vespão, que não faz sentido algum, especialmente na relação com a Janet. Mas também, a história deles sempre me pareceu um pouco estranha.

A história que mete viagens no tempo é gira, mas eu gosto sempre de ler histórias que lidem com as consequências de viajar no tempo, por isso não é surpresa nenhuma. E a do Visão também parece um nível ou dois acima das outras.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

O Rouxinol, Kristin Hannah


Opinião: Este não seria necessariamente um livro que eu escolheria ler normalmente. Ao que entendo da sua bibliografia, a Kristin Hannah escreve maioritariamente Women's Fiction (não gosto desta nomenclatura, mas isso é assunto para outra altura), uma categoria onde se costuma incluir livros focados em mulheres, contemporâneos, cujo foco principal se estende para além do romance.

Portanto, não escreve numa área que eu leia habitualmente ou que me interesse de forma especial. As probabilidades de nos cruzarmos eram remotas. Entra em cena este livro, com uma série de burburinho por trás a destacá-lo, e passado na 2ª Guerra Mundial, e pronto, foi o suficiente para atiçar a minha curiosidade.

Talvez por não ler habitualmente na área em que a autora costuma escrever, posso dar-me ao luxo de ser mais desligada quando digo que o livro parece ter alguns dos, digamos, clichés que poderíamos associar ao género. (E isto é apenas a minha sensação de acordo com o que conheço. Vale o que vale.)

Ora vejamos: é escrito de forma a maximizar o lacrimejar do leitor, ao melhor estilo Nicholas Sparks, e condensa no menor número de páginas possível a maior quantidade possível de desgraças e situações complicadas de todo o género, para obter esse lacrimejar. A diferença aqui é: é sobre a 2ª Guerra Mundial, e isso faz mesmo toda a diferença, bem como a forma como descreve o decorrer dos acontecimentos.

Digo isto porque não dá respostas fáceis sobre as coisas que descreve. Mostra os extremos das situações e como sob pressão todos podem ser levados a eles. É um descrever do dia-a-dia duma vilória qualquer na França ocupada, e é impressionante ler sobre o mesmo.

Não é muito comum ler sobre as pessoas normais que vivendo em França, viram o seu modo de vida completamente alterado, com soldados nazis a serem atribuídos às casas que tinham quartos disponíveis, com uma comunidade transida de medo, que cresce de forma insidiosa, com listas e despedimentos (e eventualmente, enforcamentos) de pessoas incómodas, com destacamento de judeus da comunidade para serem levados sem ninguém entender o que está a acontecer.

Quando autocarros chegam a Paris e às pequenas terras para levar judeus, é fácil ao leitor entender o terror do que os espera, mas também é de partir o coração ver aqueles pessoas e os que as rodeiam ficar confusos, não entender o que se passa, tentar perceber porque tal acção está a acontecer, o sentido de tudo aquilo; e também é aterrador perceber que ainda não sabem, não conhecem o extremo a que o ódio pode levar.

Voltando atrás: este também é um livro sobre duas irmãs, e a sua relação fraternal, que achei muito interessante e bem desenvolvida, especialmente nas tensões entre as duas devido ao passado e à relação que têm com o pai.

Vianne é a mais velha, e de certo modo, a mais frágil, devido a circunstâncias da vida.. O escalar dos acontecimentos assusta-a, mas na primeira parte do livro tem confiança que tudo se resolverá, que o marido vai voltar para casa e que ajudará a resolver os problemas que enfrenta nesses primeiros tempos.

A sua evolução é cativante, especialmente porque a Vianne é todos nós, com vontade de ficarmos no nosso cantinho, sobreviver. A determinação dela em proteger a filha, no entanto, é louvável, especialmente porque faz todo o tipo de sacrifícios por ela. (E entristece-me pensar na Sophie a crescer nesta época, a começar a entender as coisas e crescer sabendo do pior que o ser humano pode oferecer.) No entanto, as coisas escalam de maneira tal, as perdas são tantas, que a Vianne sente que nada tem a perder, e ganha coragem para ajudar como pode.

Já a Isabelle... bem, eu não gosto de personagens como ela é. (Ou era na primeira parte.) É muito Marianne (do Sensibilidade e Bom Senso): muito idealismo e muita falta de bom senso. Aborreceu-me ter de ler nas primeiras 150 páginas a sua indignação com os nazis, que tinham de se opor a eles assim e assado, fazendo todo um número de pequenas rebeliões estúpidas e desnecessárias, que sob o olhar errado teriam emperigado a sobrinha e a irmã. A falta de consideração é enorme, e irrita-me mesmo. (Além disso, ela é o centro de um instalove que me fez revirar os olhos... e apesar de a situação ser desenvolvida de forma complexa mais para a frente, nunca me soou satisfatória.)

Felizmente, ela ganha juízo, e encontra o caminho para a Resistência, para ajudar como pode. E o que começou como entrega de missivas aqui e ali... terminou na criação por sua iniciativa de um caminho de fuga para pilotos dos Aliados através dos Pirenéus. (E consideremos o quão divertido será ver homens nos anos 40 deparar-se com uma miúda que os vai levar através das montanhas cheias de neve.)

E é por isso que o livro acaba por ser marcante: é uma ode ao trabalho que as mulheres fazem em tempo de guerra, tantas vezes desconhecido ou não reconhecido. Os homens lutam e fazem um grande estrondo e voltam e são heróis e tal. (Generalizando muito a coisa. claro.) As mulheres sobrevivem e duram e encontram pequenas mas enormes formas de contribuir, e não falam disso. Continuam a viver.

A narrativa é intercalada com capítulos nos anos 90, sob a perspectiva de uma das irmãs (não é suposto sabermos qual até quase ao fim), e esses pedaços são fascinantes de ler, pela perspectiva que a pessoa tem ao fim destes anos todos. (Gostava que confiasse no filho e realmente lhe contasse quase tudo o que passou na guerra. Parece uma herança que não merecia ser desperdiçada.)

O final: bem, frustra-me a parte da Isabelle. No fim de tudo, parece anticlimático. Entendo o que aconteceu e porquê, mas não concordo que precisasse de ser assim. Já a Vianne, tem umas escolhas bastante difíceis a fazer e é de partir o coração, pensar no que sofreu, mas anima-me ver a resiliência que a guerra lhe trouxe, e entendo as suas escolhas.

E pronto, este não era um livro que eu procuraria normalmente, as estrelas alinharam-se para a leitura. Não vai ficar propriamente como favorito, não pela sua qualidade, mas porque não é parte de um género que me apaixone; porque à parte isso, é um livro muito bom, com grandes momentos e que faz umas boas escolhas no que toca à história. Tem tudo para continuar a cativar leitores.

Título original: The Nightingale (2015)

Páginas: 480

Editora: Círculo de Leitores

Tradução: Marta Pinho

terça-feira, 16 de maio de 2017

Magia de Papel, Charlie N. Holmberg


Opinião: Curiosamente, quando este livro me chamou a atenção, por volta da altura do seu lançamento, fiquei com uma ideia ligeiramente diferente do que esperar. Não sei se foi da sinopse, ou das opiniões que li, ou do que quer que seja...

... as boas notícias são, acho que gostei mais dele assim. Achei um livro amoroso e fofo; pode não ser a maior invenção desde a roda, e tem espaço para melhorar bastante, mas tem aquela faísca, aquela coisa mágica que me faz gostar dum livro.

Pode ser do worldbuilding. Estamos em 1902, em Inglaterra, num mundo com uma base vitoriana, mas tendencialmente mais progressivo que a época equivalente que conhecemos. Possivelmente deve-se ao sistema de magia: alguém que deseje praticar magia parece livre de o fazer, tenha a idade que tiver, estudando durante algum tempo e depois tornando-se aprendiz dum mestre.

O aprendiz de mago liga-se a um material feito pelo homem - papel, vidro, plástico ou borracha resultam, pedra não, sangue... é curioso mas não inesperado, pois resulta. A partir daí o aprendiz dedica-se a aprender como manipular o material. Achei esta ideia tão única e inteligente, e acho que tem tremendo potencial, por isso só isso deixou-me com vontade de continuar e ler e saber mais.

Pode ser dos personagens, principalmente da protagonista. Ceony Twill vem de uma família pouco abastada, e esforçou-se muito para terminar a escola de magia o mais depressa possível, sendo uma das melhores alunas. Imaginemos então o desânimo dela ao saber que não pode escolher o material que vai trabalhar, que a professora a recomenda para o papel. O papel é aborrecido! Não é?

A reacção da Ceony no seguimento disto é muito interessante. Ela fica desanimada, e inicialmente reage duma maneira toda espertalhona, lança uns comentários resmungões e algo inconvenientes... mas não se arrasta pela miséria. Adapta-se. Ela é esperta e engenhosa, e não se resigna, mas aceita as circunstâncias e aproveita para aprender. Atrevo-me a dizer que começa a gostar. E quando um desafio se lhe põe, ela mostra-se à altura.

A Ceony vai estudar com um mago chamado Emery Thane. A personalidade dele revela-se ao longo do livro devido à sua premissa; mas achei engraçada a maneira como ele lidou com a relutância inicial da Ceony. Responde aos comentários inconvenientes dela mostrando-lhe como o papel funciona, e algumas das suas potencialidades (frágil mas versátil, e fiquei com vontade de me pôr a fazer origami), e faz um esforço para a fazer sentir-se bem-vinda.

Thane é misterioso e reservado, mas uma pessoa gentil. É relativamente jovem, mas com uma vida já bastante preenchida. E Ceony vai-se ver involuntariamente envolvida quando uma mulher do seu passado irrompe casa adentro e rouba o coração a Emery. Literalmente. Aqui é que a coisa parece virar para o domínio do estranho, mas dentro deste mundo, faz perfeitamente sentido.

A Ceony consegue manter Thane vivo com a magia do papel, mas é uma solução temporária. Frustrada com a inacção dos seus professores e magos mais experientes que ela, parte à procura de Lira, a mulher ladra de corações no sentido físico (e ex-mulher de Emery, já agora), numa tentativa de recuperar o coração roubado.

Um feitiço que corre de forma inesperada, e zás! Ceony vê-se presa, bastante literalmente também, no coração de Thane. O interessante desta situação é como a magia funciona neste mundo e neste situação em particular. Para sair, Ceony tem de percorrer as quatro câmaras do coração, nas quais vai encontrar alguns detalhes privados da personalidade do mago: os seus momentos mais altos e mais baixos, os seus desejos e as suas dúvidas.

E pronto, em termos de enredo o livro não é particularmente ambicioso, descreve a chegada de Ceony ao seu aprendizado, os primeiros tempos do mesmo, e depois o coração é roubado e o que se segue são uma série de flashbacks que esclarecem a personagem Emery Thane. Adorei esta parte porque amo ler sobre desenvolvimento de personagens, mas também pelo efeito que tem na Ceony.

Se somos expostos ao que se passa nas profundidades do coração de outra pessoa, diria que a ficamos a conhecer bastante bem, mas também corremos o risco de nos identificarmos ou envolvermos com o que vemos. E pronto, vamos dizer que gosto da ideia nesta particular apresentação. É uma ideia adorável, e achei cativante ler sobre o depois, quando a Ceony volta e resolve tudo e os personagens conversam sobre o que aconteceu. Dou por mim a torcer pela ideia com muita força.

E no fim, mais um livro para a pilha dos "estou a suspirar pela sequela, quero ler já imediatamente, como não posso???". Que dura é a vida duma leitora inveterada.

Título original: The Paper Magician (2014)

Páginas: 256

Editora: Estação Imaginária

Tradução: Sónia Maia

terça-feira, 9 de maio de 2017

Meg Cabot: Allie Finkle, volumes 1 a 3


Páginas: 256 / 240 / 256

Editora: Scholastic

Oh raios, estes livros são amorosos. A sério, achei que me podia aborrecer um bocadinho, não costumo ler muito MG (Middle Grade, ou infanto-juvenil), e por isso a minha cabeça não está habituada ao tipo de voz e narrativa típica da faixa etária...

... contudo, a Meg Cabot faz um trabalho excelente nesse aspecto. Adoro a voz que ela dá à Allie. Não passo muito tempo a conviver com miúdos de 9 anos, propriamente, mas pareceu-me credível, a maneira como ela a escreve.

Ora vejamos: a Allie é esperta, mas ingénua, engenhosa, mas insegura, com um fundo curioso e que questiona as coisas, mas também um nadinha crédula. Boa filha, boa irmã, bom sentido do que está certo e errado. Tem as preocupações e os dramas e o discernimento que esperaria que uma rapariga de 9 anos tivesse. Os livros são divertidos e encontram desafios curiosos, adequados à idade. E por isso, soou-me realista.

O primeiro volume, Moving Day, como o título indica, é sobre a família Finkle ir mudar-se. Diverti-me imenso principalmente pela reacção da Allie - que inventa uma série de "esquemas" ineficazes mas engraçados para travar a mudança. Mas também achei um piadão à amiguinha da Allie que chorava o tempo todo, e à peripécia da tartaruga.

O segundo volume, The New Girl, é sobre a Allie começar as aulas na nova escola. Faz amigas, e debate-se com alguma insegurança sobre o seu lugar na turma e o estabelecimento duma relação com a professora. Enfrenta uma moça armada em rufia, que goza com ela e lhe diz que lhe vai bater. Pontos bónus por a Allie ter empatia e discernimento sobre o que realmente se passava com a Rosemary, e gostei mesmo de como lidou com ela. Não é a solução para todos os casos, mas este resultou mesmo bem.

O terceiro volume, Best Friends and Drama Queens, apresenta uma nova "miúda nova", Cheyenne, do Canada, totalmente sofisticada, e que traz novos modos que quer impor à turma. E é aqui que a genialidade da Meg se revela. A Cheyenne quer fazer com que toda a gente faça par e diga que "goes with" pessoa X. Os miúdos não sabem o que isto quer dizer, e ficam adoravelmente perdidos e confusos, mas quase toda a gente cede à pressão dos pares e arranja um rapaz ou rapariga com que emparejar.

Achei muito interessante como ela explorou a pressão social para toda a gente ceder aos desejos da Cheyenne, e como explora um pouco de política sexual sem os miúdos saberem o que isso é. A dinâmica de quem convida quem, o drama entre amigos sobre quem "anda com" quem, o modo como este movimento é quase todo centrado nas raparigas, a pressão social para avançar antes de alguém se sentir preparado, ou para avançar apesar de alguém não se sentir inclinado de todo nesse sentido.

Adorei a reacção da Allie à rapariga, e como entendeu que não era boa ideia fazer aquilo só porque a outra queria. (E como lidou com o rapaz que as outras queriam que fosse o seu par. Apesar de ele ser também amoroso no modo como não queria ficar de fora, e se sentia triste por ainda não ter sido escolhido como par.) E diverti-me imenso com a reacção dos pais da turma, que rapidamente toparam o drama e puseram um travão à coisa, com uma intervenção da professora.

Em suma, histórias bem giras e bastante inteligentes, parecendo-me bastante adequadas à idade. Estou intrigada e quero continuar a ler para ver o que vem a seguir.

sábado, 6 de maio de 2017

Black Widow - Forever Red, Margaret Stohl


Opinião: Hmmm. Dou por mim a pensar no que escrever sobre este livro, e honestamente não há muito a destacar. Podia ser um tão melhor livro. Mas acaba por não ser uma leitora particularmente impressionante. Sim, é um bom passa-tempo, mas não é a invenção da roda - e no que toca a uma personagem tão subutilizada e mal utilizada como a Black Widow, ela merecia uma reinvenção da roda.

A história começa oito anos atrás. Natasha Romanoff salva uma rapariguinha de 9 anos, Ava Orlova, e frustra os planos de Ivan Somodorov, um inimigo que conhece bem. Ivan parece derrotado, mas no presente surge uma reactivação das experiências que fazia. Natasha e Ava reencontram-se ao fim de oito anos, e com a ajuda de um rapaz ligado de forma misteriosa a elas, vão investigar.

Bem, a ideia base por trás da história é bastante interessante. Mete o passado da Natasha no Red Room, e ligações humanas quando ela tenta muito não as ter. E tem um elemento científico que envolve desenvolver capacidades que não se tinha e é fascinante pelo uso dado ao mesmo.

O meu problema é... sim, é uma história que tem muita acção e é excitante. Mas não tem muito mais para além disso. O enredo e o seu ritmo não são fortes, a caracterização de personagens é mínima, tem um romance instalove desenvolvido de maneira fraca.

Pergunto-me se o problema não estará na concepção. As pessoas na Marvel talvez tenham pensado: "ei, YA é popular... a Natasha também... vamos juntá-los" - o que é, já agora, a pior razão de todas para fazer coisas.

De qualquer modo, o que quero dizer com isto é: o tipo de história que isto podia ser, mais intensa, mais realística, mais violenta, mais digna duma história da Viúva - bem, creio que isto devia ser uma história adulta. Não que não hajam autores YA capazes de coisas intensas e pesadas. Mas não me parece que esta autora seja uma delas. E duvido que os editores responsáveis sejam o tipo de editor que abraçaria o tipo de história necessário para contar algo do passado da Viúva Negra.

Além disso, a Natasha devia ser a protagonista, não devia dividir esse posto. Podia ser a badass que sabemos que ela é, levar tudo à frente e tudo o mais. A introdução dos dois protagonistas adolescentes só deixa o enredo mais burro do que precisava ser. E ei, eu adoro YA. Sei que YA é capaz de ser muito inteligente.

Só que isto parece em partes a ideia preconceituosa de alguém que não conhece YA, de como acha que YA é. E a Margaret Stohl é escritora de YA, ela devia saber fazer melhor. Provavelmente até sabe. Possivelmente isto deve-se ao controlo editorial da Marvel. Eu sei lá. Mas é definitivamente a ideia com que fiquei.

Mais uma queixa: a cronologia disto não me parece muito certa. Tendo em conta o momento que a Natasha encontra a Ava em criança, mais a sua relação com outro personagem da narrativa, mais a idade que é suposto ela ter, calculada a partir desse relação... sei lá, há qualquer coisa que não faz sentido, especialmente quando sabemos que na cronologia tem de haver espaço para ela ir parar ao Red Room e depois desertar de lá. Detesto quando os livros não são consistentes neste aspecto.

Destaque de coisas giras: as menções de outros personagens da Marvel. Este é um mundo em que os personagens "normais"/"zés-ninguéns" estão cientes dos superheróis e são fãs deles, e por isso há menções a eles ou a ter posters e T-shirts alusivas a eles. Esse tipo de coisa. É giro pensar nisso.

Outra coisa gira: aparições de personagens Marvel. Particularmente o agente Coulson, que é o agente responsável pela Natasha na SHIELD, e as interacções deles são engraçadas; e o Tony Stark, bastante divertido e descomplicado, com umas respostas à altura quando a Natasha está a ser totó.

Gostava que tornassem mais claro em que universo esta história se passa - comics ou MCU. Parece-me que é no espaço-tempo dos comics: a relação da Natasha com o Coulson ou com o Tony não parece nada aquela que vemos nos filmes, e há uma menção a um gato que a Tasha tem que parece uma referência às histórias da Viúva criadas por Phil Noto e Nathan Edmondson. O único argumento a favor de isto ser do MCU é a personalidade do Tony, que parece mais Robert Downey Jr.-like, mas parece-me esticar a corda considerar que isso é um argumento de peso a favor do MCU.

Em suma: isto podia ser tão melhor do que é, se ao menos deixassem. Acho que a Marvel deu um tiro no pé e podia ter feito algo que fosse bem mais satisfatório para os fãs, em vez de produzir o livro só para dizer que o fizeram. Preocupa-me um pouco no sentido em que brevemente vamos ter em grande destaque mais livros YA com superheróis, agora da DC.

Contudo, a primeira autora é a Leigh Bardugo (a escrever Wonder Woman), e tenho sérias dúvidas que a Leigh seja capaz de lixar alguma coisa, portanto...só se tentasse com muito esforço. E o conjunto de autores que escolheram para a série agrada-me. Portanto, pontos para vocês, DC. Não lixem isto.

Páginas: 416

Editora: Marvel Press

domingo, 30 de abril de 2017

Este mês em leituras: Abril 2017

Até estou a estranhar o mês, Abril costuma ser chuvoso conforme diz o ditado, mas só hoje é que pus a vista em cima a uns chuviscos... bem, desde que as nuvens não se estejam a guardar para a feira do livro... Em termos de blogue e leituras, digamos que estou satisfeita com o ritmo que levo. As coisas têm corrido bem.

Livros lidos


Opiniões no blogue


Os livros que marcaram o mês

  • Hunted, Meagan Spooner - um recontar de um conto favorito, A Bela e o Monstro, com um pouco de folclore russo, num tom indomado e inquieto, cativante e mágico e estranhamente realista e relacionável que ainda me assombra;
  • Strange the Dreamer, Laini Taylor - é a Laini, ela podia escrever-me a lista de compras que eu gostava, mas pronto, mais um livro maravilhoso, encantador, cheio de uma escrita bela e cativante, com uma história épica e apaixonante, e uma fantástica capacidade de observação da natureza humana;
  • A Bela e o Monstro (novelização), Elizabeth Rudnick - gostei do filme, gostei de rever a história lendo a sua novelização;
  • Allie Finkle #1, 2, 3, Meg Cabot - uma surpresa porque acabei imenso a gostar da voz narrativa destes livrinhos infanto-juvenis, a Allie é uma miúda amorosa.

Outras coisas no blogue

  • Eh. Mais um mês sem material extra-livros.

Aquisições

Banda desenhada do mês: apenas a colecção No Coração das Trevas DC que estou a fazer e que vem com o jornal Público. A Graphic Novels Marvel este mês foi opcional, aparentemente. (Estou a brincar. Mais ou menos. Mas irrita-me deveras que a quantia dos livros me seja debitada da conta no início do mês, e que depois esperem até ao último momento possível para entregá-la no meu local de trabalho - para onde eu me dei ao trabalho de pedir que entregassem de propósito, de modo a não haver problemas na entrega -, o que neste mês impediu que eu a recebesse, bem, este mês.)

Comprei o Peter Pan na banca onde compro a colecção DC, pois estava a um bom preço, e é uma bela edição. Magia de Papel e a novelização de A Bela e o Monstro comprei com dinheiro em cartão. Os restantes livros são em inglês, e como já é habitual são ou de autoras e/ou colecções que sigo, ou são os livros para o desafio Meg Cabot.

A ler brevemente

Pretendo ler o restante da colecção DC, que já falta pouco para acabar. E ler a Graphic Novels Marvel quando finalmente conseguir pôr-lhe as mãos em cima. Gostava de ler Magia de Papel, que parece uma história gira, e tenciono ler o restante da série Allie Finkle da Meg Cabot para o meu desafio da autora.

Fora isso, quero ler os lançamentos do mês em inglês: a trilogia da Sarah vai terminar, e eu até roo as unhas de antecipação; e a Wein escreveu uma prequela ao seu Code Name Verity - e tendo em conta que muitos anos depois, ainda tenho vontade de chorar só de pensar nele, até tenho medo de ver o que me espera. (Mas também estou muito curiosa.)

sábado, 29 de abril de 2017

Four Weddings and a Sixpence, Julia Quinn, Elizabeth Boyle, Laura Lee Guhrke, Stefanie Sloane


Opinião: Normalmente cansa-me ler antologias. Sabem sempre a pouco, e os autores nem sempre sabem trabalhar o formato em seu favor - levando a que as histórias pareçam por vezes apressadas e soem insatisfatórias. Pode-se dizer que é mais ou menos o caso de todas estas histórias: a diferença entre elas é a mestria com que as autoras me fizeram esquecer disso.

A premissa da história é apresentada em Something Old, uma espécie de prólogo pela nossa Julia Quinn, a cabeça de cartaz: quatro amigas numa escola de internato encontram um sixpence, que as lembra duma rima sobre casamento, e decidem ficar com a moeda e partilhá-la para lhes dar sorte. Adorei seguir a amizade das raparigas através dos contos, pessoas tão diferentes e ainda assim com algo em comum.

(Picuinhice do dia: são todas loiras ou descritas como próximo disso. Eu sei que estatisticamente os ingleses são mais loiros que, digamos, um povo latino, mas raios, nem uma morena? Ou uma ruiva, que estaria também bem adequada? A variedade de personalidades não se traduz fisicamente? Para compensar, quase todos os pares delas são morenos de olhos azuis. Yep, que grande variedade aí também.

E mais picuinhice: ugh, detesto este tamanho de livro dos mass market paperback. São minúsculos e um incómodo para manusear, ainda mais quando o papel é bem mais rígido do que devia ser. Se houvesse alternativa, podem crer que teria apostado nela.)

Something New, Stefanie Sloane: Anne Brabourne tem dois problemas. O tio quer muito que ela case antes dos 21 anos, ou leva-a para o campo; no entanto, ela não quer casar por amor (o casamento dos pais foi deveras tempestuoso), e quer encontrar um marido maleável. Entra em cena Rhys, duque de Dorset, que fica a saber do dilema dela e se oferece para opinar acerca dos homens em sociedade que encontrar e do seu potencial como maridos. Só que a coisa não lhes corre de feição, quando ele começa a encontrar defeitos em todos e ela começa a sentir emoções que não desejava.

Achei este muito apressado. Ao fim dum encontro, e já estão obcecados um com o outro. Era o género de coisa que seria melhor preenchida num livro completo. Eles têm química, no entanto, e gostei de ter os parentes respectivos a torcer por eles e tentar empurrá-los um para o outro. O final é engraçado, pela preocupação dela, mas a cena de sexo caiu um bocado do ar. Aquele capítulo podia ter sido usado para os desenvolver melhor.

Something Borrowed, Elizabeth Boyle: Já Cordelia Padley tem apenas um problema: disse às tias que tem um noivo, para elas pararem de lhe inventar pretendentes. Só que agora elas querem conhecê-lo. Entra em cena Kip Talcott, o noivo presumido, que se tornou conde e teve de assumir responsabilidades inesperadamente. Ambos partilharam em crianças o amor pela aventura e por explorar o mundo, mas isso parece coisa do passado.

Este soou-me a apressado mais pela rapidez com que o Kip entra na farsa do noivo. Estava pronto a pedir outra moça em casamento e tudo - por motivos mercenários, mas mesmo assim... porque de resto, é uma história bem divertida, em jeito de comédia. Os protagonistas reaproximam-se rapidamente, mas posso acreditar nisso, pela história partilhada. Adorei terem as tias dela a torcer por eles e cientes do que se passava. Adorava ter uma história para o Drew, o irmão menos sério dele, e para a Kate, a chaperone dela. (Talvez uma para a Pamela, a ex-futura noiva, que é tão mal tratada pela história.)

Something Blue, Laura Lee Guhrke: Lady Elinor Daventry tenciona ajudar o pai no que toca a uma acusação sobre o seu comportamento em tempos de guerra, e a maneira que encontra é casar com um homem influente que o ajude. Conta com a moeda mágica para lhe dar sorte, mas Lawrence Blackthorne tem objectivos contrários: é o advogado de acusação num processo contra o pai dela, e rouba-lhe a moeda como forma de a atrapalhar. Lawrence era, até há seis meses, noivo de Ellie, até lhe pedir algo extremo - apoiá-lo contra o pai no processo que investigava.

Achei o Lawrence um pouco parvalhão, pois esperava que a Ellie o apoiasse contra o próprio pai sem sequer confiar nela no que toca ao porquê; mas o conflito em si foi credível e o que me fez gostar tanto da história. O drama moral é interessante, especialmente opondo pessoas que foram comprometidas. É claro que a história ganharia se fosse um livro completo, mas funcionou assim para mim. (Achei amoroso que na vida passada deles, enquanto comprometidos, passassem o tempo a escapulir-se para curtir.)

... and a Sixpence in Her Shoe, Julia Quinn: e é por isso que a Julia é a nossa rainha, contando uma história, vá, apressada (tem o menor número de páginas disponível) - a corte dá-se numa semana e dois ou três encontros -, mas incrivelmente é cativante e interessante e curiosamente credível.

Beatrice Heywood vive com as tias idosas, cuidando delas e esforçando-se para manter a economia familiar. É sonhadora, leitora e uma estudiosa autodidacta de astronomia nas horas vagas. (Não acredita no poder da moeda, mas usa-a na mesma, para apaziguar as amigas.) Lord Frederick Grey-Osbourne é um académico, mas um acidente trágico deixou-o cego dum olho e descrente da sociedade. Até que tropeça quase literalmente na rapariga cabeça no ar que o faz confrontar com a sua situação...

Por mais curta que seja, gostei mesmo desta história; a Julia construiu-a duma forma inteligente. Primeiro porque gera uma discussão sobre a incapacidade do Frederick: é claro que há pessoas que vão pensar menos dele, ou que isso o diminui... mas também há pessoas que vão vê-lo pelo que é - um resmungão.

Caso da Bea, que quando lhe dá um encontrão por estar a olhar para as nuvens, recebe maus modos. E depois fica a olhar fascinada para ele, mas para o olho saudável dele, que é azul da cor do céu... e o Fred interpreta-a mal, pensando que ficou arrepiada com o olho cego. Achei este momento interessante porque o fez confrontar com o autopreconceito, e o obrigou a deixar de ter pena de si mesmo. (Além disso, a Bea tem uma curiosidade académica sobre o que é que o olho dele ainda pode fazer, que preconiza a existência do nervo óptico. É um momento intrigante, e tem o bónus de o desarmar.)

Depois, a história é inteligente porque mostra como estes dois são compatíveis, e como este é um encontro de iguais: ambos têm interesses académicos, e consegue-se ver como sendo parceiros, vão apoiar-se e ajudar-se um ao outro.

Bónus para um encontro rumo aos telescópios universitários, a que a Bea nunca teve e nunca poderia ter acesso, e que é amoroso pelos dois juntos; e pela tia dela que faz de chaperone e finge que está muito cansada para os deixar sozinhos. O final é no casamento dela, reunindo as quatro amigas, e é tão engraçado, entre decidirem o que fazer à moeda e meterem-se umas com as outras por ninguém ter esperado pelo casamento para pintar a manta... e especularem se a Bea também o fez. (E quando entra, metem-se com ela, mas passa-lhe ao lado, tipicamente alheada.)

Páginas: 416

Editora: Avon Books (HarperCollins)

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Peter Pan, J.M. Barrie


Opinião: Curiosamente, a primeira observação que me ocorre fazer sobre este livro é também uma comparação. Porque em certa medida, me fez pensar nos livros da Alice de Lewis Carroll. Esses são escritos duma forma nonsense que é muito associada ao imaginário das crianças; Peter Pan usa esse imaginário das crianças, e tem algum nonsense na maneira como constrói o seu mundo e o enredo - mas mesmo assim, fez mais sentido para mim e identifiquei-me mais com este livro que com os da Alice.

É uma história charmosa, sem dúvida. Um pouco diferente da versão que conhecemos da Disney; mas eu, que estava ciente que haviam diferenças, acabei por ficar surpreendida com a proximidade de alguns detalhes. A narrativa pode não ser exactamente a mesma, mas o filme animado aproveita todo o tipo de pormenores engraçados. (Exemplo: os Meninos Perdidos no livro vestem peles de ursos que caçam... no filme vestem "peles" de vários tipos de animais.)

É também uma história contraditória, em termos emocionais. É cheia de aventuras excitantes e encontros próximos com o perigo, e tem um mundo maravilhoso a explorar pelos protagonistas; mas também é triste, no sentido em que faz uma reflexão discreta sobre o desaparecimento de uma criança e o efeito que isso tem nos pais. Tendo em conta a história trágica pessoal de um dos irmãos mais velhos de Barrie, é de partir o coração considerar as suas palavras no texto sobre o assunto, que ainda assim são amorosas e doces.

É também ainda uma história um pouco sinistra, no que toca ao seu protagonista titular. Peter Pan é a criança que não cresce; e como criança, é amoral, egoísta, desinteressada, cruel. Tem características que todas as crianças exibem; a diferença é que estas crescem, e Peter recusa-se, prefere ficar neste meio termo sem fim. Permite uma narrativa fascinante, mas também desconcertante.

Detalhes interessantes da narrativa: os pais Darling, como lidavam com os filhos antes e depois do desaparecimento (o depois é de partir o coração para a Sra. Darling); a questão da janela aberta e do beijinho no canto da boca da Sra. Darling e de arrumar os pensamentos das suas crianças (detalhes amorosos e fascinantes); o conjunto de piratas, particularmente Hook, cavalheiro inglês primeiro e só pirata depois (centro dos seus desentendimentos com Peter); e Tiger Lily, independente e guerreira de direito próprio.

Uma nota final para a minha edição. É uma edição especial que encontrei à venda por um preço jeitoso, e é irrepreensível. Pelo preço, é... sem preço. A encadernação é fantástica, o papel luxuoso, a impressão mesmo boa.

Tem a adição de três contribuições. Uma por Rita Redshoes, com anotações/comentários manuscritos nas margens. Não é o tipo que me tenha mantido interessada. Os comentários pareceram-me do tipo de coisas que nos passam pela cabeça numa leitura, mas que não têm necessariamente valor para ser partilhados com os outros. Pelo menos, a maior parte não adicionou nenhum valor à minha leitura. Só uma fracção é que tem algo realmente a acrescentar.

O posfácio é por Pedro Santos Guerreiro. Também não me disse nada. Malha muito no filme da Disney, e é um bocado cheio de lugares-comuns. O desgosto com o filme animado (e outras adaptações) é perfeitamente dispensável, parece-me. Há espaço para tudo e o desacordo do autor tem mais a ver com a interpretação geral da história que se faz. (Nunca foi a minha, por exemplo.) E ficar aborrecido com as opiniões dos outros porque não são as nossas é inútil, parece-me. (E um pouco curioso numa pessoa que é jornalista, mas enfim.)

O verdadeiro valor das contribuições encontra-se nas ilustrações por Cláudia Guerreiro. Muito, muito giras. Usa vários meios para as fazer e têm um certo ar de inacabadas que lhes dá um certo charme. A biografia incluída no livro deu-me a entender que não é habitual fazer ilustrações para livros, e é uma pena.

Título original: Peter Pan; ou Peter and Wendy (1911)

Páginas: 248

Editora: ed. exclusiva Expresso-Visão (baseada numa da Relógio d'Água, creio eu)

Tradução: Relógio d'Água (porque esta edição se recusa a dizer o nome do tradutor e só coloca a editora original nesse espaço, o que faz... totalmente sentido; ou nem por isso)

quinta-feira, 27 de abril de 2017

A Bela e o Monstro (novelização), Elizabeth Rudnick


Opinião: Não é muito habitual ler novelizações de filmes - que me recorde, na minha vida de leitora só lhes peguei aqui e ali, para filmes que tivesse apreciado bastante e quisesse revisitar no meio meio de entretenimento favorito.

Portanto, sim, este é um desses casos. O conto original é um favorito, a versão animada da Disney é uma favorita, o filme live-action recente é um favorito. Estava destinada a ler isto e a adorar e divertir-me durante a leitura, para matar saudades da história. (Ainda que me soubesse a pouco.)

O primeiro reparo que tenho a fazer é que me parece que isto deve ter sido escrito durante a produção do filme, baseado apenas no argumento. Digo isto porque o texto não coordena perfeitamente com o filme nos detalhes visuais - coisas que seriam determinadas na produção e pós-produção -, e que no texto são descritas de forma ligeiramente diferente.

Em adição, alguma caracterização de personagens é diferente. O exemplo óbvio são o Gaston e o Le Fou, que no filme têm uma "leitura" diferente da conhecida, largamente devido ao trabalho dos actores e das indicações da realização que tiveram; neste livro, a descrição deles aproxima-se mais do filme animado. (E não é a minha coisa favorita. Gosto mesmo do que fizeram com eles no filme.)

Em adição, reparei agora que a página de título menciona o nome desta autora como a adaptadora, e menciona o nome dos argumentistas. Portanto, sim, parece que tenho razão.

Outra coisa curiosa a apontar é o facto de ler partes do diálogo do livro e "ouvir" o correspondente em inglês, por estar familiarizada nessa língua (via banda sonora), o que foi bastante divertido. (E boas notícias para a tradução: não tive razões de queixa nesse aspecto.)

Quanto ao livro valer por si mesmo - bem, suponho que posso dizer que o faz. É detalhado o suficiente, e explora um pouco mais certos pormenores que se calhar o filme não teve oportunidade de abordar. (Particularmente na caracterização e nas circunstâncias passadas.) Não é que não estejam no filme, e que o espectador atento não seja capaz de os deduzir, mas aqui estão mais explícitos, e alguns aspectos são mesmo novos, o que é um bónus.

No entanto, é um livro que tem 200 páginas. Para quem está habituado a calhamaços, posso dizer que talvez este seja um bocadinho "básico". Como é suporte para outro meio de entretenimento, não tem a necessidade de ser tão completo como podia ser. (E por isso, se fosse um livro isolado, falharia um nada como narrativa complexa.) Podia ser mais preenchido, e eu adoraria isso. Adoraria mais detalhe, mais descrição. Nem que seja como pura indulgência de passar mais tempo neste mundo.

De qualquer modo, satisfaz o desejo de rever o filme. (Já que o raio do DVD não tem data de lançamento à vista e eu não posso justificar ir ao cinema pagar o raio dum bilhete outra vez.) Encantei-me com o mesmo, e cresci com a história, que me está próxima do coração, e por isso a leitura foi bastante boa. Apenas há que manter as expectativas no lugar certo quanto ao tipo de livro que se tem nas mãos.

Título original: Beauty and the Beast (2017)

Páginas: 208

Editora: Dom Quixote

Tradução: Luís Serrão

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Strange the Dreamer, Laini Taylor


Opinião: Arghhh eu aqui há tanto tempo à espera dum livro da Laini Taylor e ela faz-me isto! Sinto-me enganada! Indignada! Furiosa!

... ok, estou a ser dramática simplesmente pelo objectivo de o ser. Mas a verdade é que mal posso acreditar neste livro e na maneira como terminou. É a coisa mais insatisfatória e cliffhangeresca que já vi. (No bom sentido, claro.) Ai... há autoras que têm mesmo prazer em torturar-nos, diria eu. Ou como dizia em conversa há uns dias, essas autoras bebem lágrimas de leitores e alimentam-se das suas esperanças devastadas. (As trolls.)

O que posso eu dizer mais? É Laini Taylor. Quem não leu, devia ganhar juízo e ler. Quem leu e não gostou, não é agora que vai gostar, suponho. Quem leu gostou, está à espera do quê? Porque ela continua a fazer aquela coisa maravilhosa em que combina uma escrita fantasiosa e um storytelling encantador, numa combinação mágica digna de conto de fadas.

A diferença para os contos de fadas, que são primordiais e arquetípicos, é que a autora é uma brilhante observadora e descritora da natureza humana; entende perfeitamente aquilo que faz de nós o que somos, como portamos o bem e o mal em nós, e como as circunstâncias condicionam isso mesmo.

Isso relaciona-se com o conflito no centro da narrativa: a cidade mencionada na sinopse está no centro de um conflito entre, erm, tipos de pessoas, digamos assim. E é esse conflito que ditou os acontecimentos misteriosos aludidos na sinopse; como essas coisas se deram, no entanto... bem, a piada é ler e descobrir.

E pronto, a autora consegue facilmente envolver-nos na narrativa com a sua capacidade extraordinária em que usa uma linguagem onírica e mágica e extravagante, sem nunca ser exagerada ou melosa. Diria que ela é enganadoramente simples: se eu explicasse a alguém o enredo, pareceria óbvio... mas ao ler tem tantas facetas e pequenos detalhes fabulosos; quase que usa arquétipos e ideias-base, mas depois desconstrói-os e subverte-os, e assim consegue surpreender-nos.

O worldbuilding é fascinante: adoro o cuidado com que a biblioteca é descrita, o refúgio mágico que parece ser para o Lazlo; e depois adorei conhecer Weep, a cidade verdadeira, e Unseen City, a cidade dos sonhos. Existem duas versões de si, e cada uma merece ser conhecida. Além disso, está presente também no enredo algo sobre os sonhos e a sua textura, e essa exploração é outra coisa digna de nota.

Quanto a personagens: o par de protagonistas é adorável. O Lazlo é uma coisinha preciosa, sonhador, tímido, simples, talvez um pouco injustiçado. No entanto, um momento de coragem permite-lhe alcançar o seu sonho, e oh céus, que bela aventura o espera. A Sarai, bem, é melhor conhecê-la. Mas está circunscrita às expectativas e preconceitos dos outros, e isso é verdadeiramente trágico. A sua posição única tornou-a verdadeiramente empática, apesar de ter razões para o ódio.

Os dois juntos, bem... se fosse outra autora, eu teria arrancado os cabelos. A Laini safa-se. O que acontece encaixa bem com o tipo de história e escrita. Porque honestamente, estes dois tecnicamente ainda não se conheceram no mundo real e já estão todos lamechas um com o outro, e eu a revirar os olhinhos do alto da minha idade mais velha. É um pouco exasperante, mas amoroso, suponho. Como disse, encaixa com a Laini e o tipo de situação em que estão, que pressiona o decorrer dos acontecimentos. Além disso, eles são novos e inexperientes, o que leva a um imediatismo que acaba por ser cativante, apesar de tudo.

Outros personagens: gostei de conhecer as pessoas que rodeiam a Sarai. São miúdos bem queridos e gostava que tivessem tido outra vida. (A Minya não. Essa pode morrer. Ugh. Detesto personagens como a Minya. Fundamentalistas e imutáveis. Não são antagonistas interessantes. Até podem ser desafiantes para os protagonistas, mas não podem evoluir, e isso irrita-me. Mas adoro odiá-los.) Também gostei de conhecer a Calixte, miúda intrépida e desbocada, e os que rodeiam Eril-Fane, que são um símbolo do que a cidade conheceu por 200 anos. Conhecer a sua história trágica é de partir o coração.

A mensagem da história é curiosamente relevante nos dias que correm. Uma mensagem sobre opressão e desumanização do "inimigo", sobre os actos terríveis que se cometem depois de ultrapassado um certo ponto de pressão... sobre as diferenças que nos separam e aproximam, sobre preconceito aprendido e internalizado e como é difícil descartá-lo, e sobre como é fácil violência alimentar violência. Difícil é ultrapassar uma vida inteira a aprender a linguagem do ódio.

Há algumas pequenas reviravoltas na história... mas digamos que começo a conhecer como a autora "funciona". Ela faz um comentário de passagem à página 200 que fez clique para mim e adivinhei o que ela tinha preparado para nós umas 250 páginas depois. Não estragou o meu gosto pela leitura. Pelo contrário, diverti-me a ver como as coisas iam parar àquele ponto. Houve espaço para o inesperado, ainda assim.

O final... oh, o final. É de partir o coração. É torturoso, é quase incredível. Mal consigo imaginar como ela vai descalçar a bota. É frustrante. e enervante. Tudo isto no bom sentido, claro. Mas toda eu comicho só de pensar em esperar um ano ou mais para saber o que vai acontecer a seguir.

Páginas: 544

Editora: Little, Brown (Hachette)

domingo, 23 de abril de 2017

Curtas BD: No Coração das Trevas DC, volumes 4 a 6

Uma história que captou o meu interesse pela protagonista e pelo tom. Selina Kyle está morta para o mundo, mas um golpe que corre mal deixa-a desesperada e ambiciosa: o golpe que se propõe executar de seguida envolve roubar da máfia. Com um plano tão temerário, é provável que as coisas venham a correr mal...

Uma história que me cativou pelo tom noir, ao estilo daquelas narrativas de detectives de antigamente, com um golpe, uma femme fatale, violência estilizada a todos, um detective e montes de gente em sarilhos antes da história acabar... É um enredo clássico e rodado, mas é precisamente por isso que resulta.

A arte também me encheu o olho, o estilo é cartoonesco e simples, mas muito eficaz e cativante. Ajuda que as cores sejam de Matt Hollingsworth, creio que ele trabalhava em Hawkeye e o seu estilo adequa-se perfeitamente.

O volume contém ainda uma história curta com dois dos personagens da história principal, e um assalto que corre mal, colocando-os na mira do Batman, pois as suas acções ditam um momento muito familiar a Bruce Wayne. Uma coincidência interessante, e com economia de palavras é fácil perceber as acções dos envolvidos.

Esquadrão Suicida: Disciplina e Castigo, Ales Kot, Matt Kindt, Patrick Zircher
É um bocadinho óbvio que esta é uma história a meio do decorrer da revista que acompanha a equipa; ao que entendo houve uma mudança de escritor, e isto é um mini-reinício da narrativa, mas parecem ter acontecido coisas antes disto, e não sou fã da ideia de apanhar uma história a meio.

O enredo em si não é nada de especial, pelo menos não no que toca às missões: são genéricas, cheias de vilões genéricos, desconhecidos e com motivações desinteressantes, e por vezes são mesmo confusas. O interesse está na exploração dos personagens: a Harley Quinn é incrivelmente interessante, e morri ao descobrir que o querido irmãozinho psicopata da Barbara Gordon, a Batgirl, que apareceu nalguns dos volumes dela que li o ano passado, aparece aqui! A ideia de tê-lo como analista é fabulosa. (Bónus no volume: dois números sobre a origem da Harley e do Deadshot. Algumas ideias interessantes, mas não é a maior invenção desde a roda.)

Dentro dos vários artistas aqui presentes, acho que gostei mais do Patrick Zircher, responsável pelos três primeiros números. A arte é complexa e nada aborrecida e dinâmica - e bónus, não desenha a Harley como uma pin-up, coisa que estou rapidamente a aprender que é praticamente irresistível para todos os artistas que a desenham. A sério, é a ideia mais básica de sempre tendo em conta o uniforme dela. O artista da narrativa sobre ela também era minimamente interessante, num sentido mais cartoonesco.

Joker & Harley Quinn: Amor Louco, Paul Dini, Bruce Timm
Ok, acho que entendo porque é que a história titular foi tão popular na sua altura. Depois de um tom tão negro nos comics vindo dos anos 80, a série animada criada por estes dois artistas (e esta história) devem ter sido uma lufada de ar fresco. Contudo, sinto que se saísse nos dias de hoje, nunca teria a mesma relevância.

De qualquer modo, é uma história bem divertida. O humor é apalhaçado, exagerado, físico - adequado para dois vilões que se vestem como palhaços, curiosamente. Morri a rir com os comentários da Harley ("não queres acelerar na tua Harley?"), com os sonhos da Harley sobre a vida deles em conjunto, e com o Joker a imaginar os outros vilões a gozar com ele quando se soubesse que a Harley fez um melhor trabalho que ele a derrotar o Batman. (E gostei que ela o fizesse.)

No entanto, a luz a que mostra a relação deles, o tom divertido, só faz um melhor trabalho a destacar algo preocupante: o quão disfuncionais e errados eles são juntos. Em adição, a arte presta-se ao tipo de história, dinâmica, cartoonesca, fantasticamente colorida. Muito gira.

O volume contém também uma história pelos dois artistas principais, Demónios, que envolve Ra's Al-Ghul, e é gira, mas honestamente não é tão boa como Amor Louco. A terceira história no volume é uma com a Harley e a Poison Ivy, que raptam o Bruce Wayne para o usar como um cartão de crédito ambulante, e irem às compras de Natal para elas. Super-engraçado, especialmente pela frustração do Bruce em ter de fazer o que elas mandam.