quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Because You Love to Hate Me, antologia editada por Ameriie


Opinião: Mais um bom exemplo do porquê de eu ler poucas antologias. Claro, são uma boa maneira de conhecer novos autores e manter um ou outro debaixo de olho. (Aconteceu-me isso aqui, definitivamente.) Mas também são tão inconstantes que eu saio sempre da leitura algo insatisfeita. Como habitual, encontrei algumas histórias muito boas, outras assim-assim, e uma em particular que me irritou sobremaneira (e ainda outra que me deixou dividida).

O tema da antologia é a vilania, fazendo-nos deliciar com vários tipos e sabores de vilania, alguns fazendo-nos questionar a sua natureza, alguns nem sendo bem sobre vilania, outros mostrando que, nas circunstâncias certas, todos podemos chegar lá.

É uma premissa interessante, suportada pelo artifício de ter a colaboração de BookTubers conhecidos, que sugeriram as premissas sobre as quais os autores escreveram, e contribuem com mini-ensaios a comentar os contos. Julgo que houve uma pequena polémica quando isto foi anunciado, porque "havia tanta gente a lutar para ser publicado, e estes tipos (os BookTubers) tinham tudo de mão beijada", o que é hilariante e estúpido em retrospectiva. E doseado com uma boa quota de inveja feiinha que não fica bem a ninguém.

Primeiro, porque se estava a ignorar que, er, ter um canal do YouTube dá trabalho como o raio. Eu já tenho o trabalho que tenho aqui, imagine-se ter de me vestir noutra coisa que não um pijama, filmar-me a discorrer sobre um livro, e ainda ter de editar o bicho? Raios, não. Nem pensar. Depois, porque a natureza da participação deste pessoal, é muito mais no sentido do fã do que do escritor: dão uma sugestão, o escritor escreve, eles comentam e opinam com um texto curto. Não se parece nada com ter algo nosso escrito e publicado.

Por fim, algum deste pessoal tem aspirações a escritor, sim, mas vemos algum deles com um contrato na mão, à data em que escrevo? Não. Não funciona assim. (E a Sasha não conta porque o livro que ela vai publicar com a Lindsay Cummings foi pensado e auto-publicado numa cronologia muito diferente deste, e teve um percurso público bastante diferenciado.)

Anyway. Antes de passarmos aos contos, julgo que merece a pena comentar a participação dos YouTubers em si. Para ser honesta, na maioria não adicionam nada aos contos que acompanham. Os mini-ensaios podem até ser giros ou interessantes, mas eu consigo pensar por mim própria, obrigado, e na maior parte são mais uma análise do que lemos que outra coisa. Preferia que fossem um bocadinho mais pessoais.

Oh, e a premissa não podia ter sido colocada antes do conto? Parece-me estúpido só descobrir qual foi o desafio depois do conto, não antes, para poder avaliar quão bem sucedido foi. Por outro lado, sinto que realmente esta é uma oportunidade perdida para os YouTubers, gostava que pudessem ter mostrado mais os seus talentos na escrita.

Passemos aos contos. Vai ser longo.

The Blood of Imuriv, Renée Ahdieh: dá para perceber porque as pessoas gostam da autora. Ela escreve bem, é lírica, evocativa, produz a sensação de tragédia. O worldbuilding é fascinante, e leria um livro neste mundo. Mas o vilão é fraco: um bebé grande que tem ciúmes da irmã e tem problemas de raiva? Não é nada interessante, nem inovador. É bastante cliché.
Colaboração de Christine Riccio: um texto cómico sobre sinais de vilania e vacinar-se contra isso. Mais ou menos divertido, mas a Christine é bem mais hilariante no seu canal, por isso sei que ela é capaz de melhor.

Jack, Ameriie: este é fantástico. Um recontar de João e o Pé de Feijão, pelo ponto de vista da gigante filha do gigante que consta no conto. É muito cativante e envolvente, o POV dela, a maneira como se dá com o Jack, coloca-nos na cabeça dela duma forma perfeita. O que torna o twist final mais genial, porque é totalmente inesperado, mas ainda assim adequado e encaixando com as palavras da protagonista que lemos algumas páginas antes.
Colaboração de Tina Burke: curto, mas dos ensaios mais inteligentes e articulados do livro, e por isso a sua avaliação do conto leva a minha aprovação.

Gwen and Art and Lance, Soman Chainani: contado apenas em SMS e DM, o que é giro e funciona maioritariamente bem, apesar de eu desejar poder ler uma história mais longa com esta premissa, que é muito boa (lenda arturiana cruza-se com Hades e Persephone). O papel de vilão é praticamente inexistente: não é o Lance, que fica com a miúda debaixo do nariz do amigo, porque eles nunca foram um casal, e não é certamente a Gwen, que é apenas uma miúda a tentar perceber o que quer e a fazer um monte de asneiras pelo caminho. (Coisas nada boas, sim, mas não fazem dela uma vilã.) Gosto do entrosamento com o mito grego, porque os papéis de Hades e Persephone não são assim tão lineares, e dão uma autodeterminação à Persephone. Mas gostava que o conto fosse mais longo e elaborado, mais preenchido. Eu quero é caracterização de personagens.
Colaboração de Samantha Lane: em estilo social media, uma avaliação de vários papéis e perfis de vilões, mostrando como se enquadram no conto e na mitologia/lendas originais. Giro.

Shirley & Jim, Susan Dennard: um recontar Sherlockiano moderno, com uma carta de Shirley Holmes (pergunto-me se a Susan era fã da série de TV com o mesmo nome) para a sua amiga Jean Watson, a explicar como conheceu James Moriarty no colégio interno que todos frequentam, como se encantou por ele, como ele lhe mostrou uma perspectiva diferente, como ela sempre teve a sensação que ele ia fazer algo terrível e como foi manipulada nesse processo. O fim é giro porque prepara a história para a grande e histórica rivalidade. Gostei bastante.
Contribuição de Sasha Alsberg: uma coluna "Querida ...", mas para aspirantes a vilões. Gira mas nada memorável.

The Blessing of Little Wants, Sarah Enni: brilhante, genial, maravilhoso. Num mundo Harry Potter-like, a magia é finita e está a desaparecer. Os feiticeiros com grande capacidade mágica vêm a mesma mutilada, açaimada. A protagonista e o seu melhor amigo são dois feiticeiros poderosos que o escondem por essa razão, e que se lançam à aventura para tentar recuperar a magia para o mundo. Adorei o worldbuilding, adoraria ler mais sobre este mundo. A escrita é lírica e evocativa. A reviravolta final é fantástica (algo óbvia, porque adivinhei antes de tempo): a Sigrid é vilã pelas suas escolhas, independentemente dos resultados das suas acções. Um dos poucos que nos faz questionar se não faríamos o mesmo, especialmente se significasse salvar o mundo.
Colaboração de Sophia Lee: uma avaliação do conto certeira e inteligente. Caiu-me bem porque vai de encontro à minha opinião.

The Sea Witch, Marissa Meyer: um excelente exemplo do porquê de adorarmos a Marissa. Um recontar da história da bruxa n'A Sereiazinha, que encontra a mesma escolha da sereia, mas escolhe de forma diferente. Escrito de forma empática, é difícil não nos compadecermos com Nerit, que deseja ser amada e sentir-se integrada, sentimento que é universal. A sua solidão é entristecedora, e é constantemente injustiçada pelos homens na sua vida, o que faz entender as suas acções; apesar de tudo, as suas escolhas são moralmente erradas. Mas é recompensador vê-la ter a sua vingança e sentir-se à vontade na sua pele.
Colaboração de Zoë Herdt: ensaio mais pessoal sobre as escolhas de um vilão, mas passava bem sem o teste sobre se somos heróis ou vilões.

Beautiful Venom, Cindy Pon: este divide-me. É brilhante e estúpido ao mesmo tempo. Um recontar da Medusa num cenário asiático: uma jovem é escolhida pelo imperador para ser a próxima concubina, mas é perseguida por um deus, que a força. Depois vem a deusa da pureza, que a transforma num monstro por "não ter dito que não". Ai... eu queria gostar. Tem sentido de humor, a protagonista parece ter profundidade, a escrita é gira. Contudo. Sei que a autora escreveu isto como forma de criticar a mentalidade da sociedade de culpar as vítimas de violação, e nesse aspecto os deuses desta panteão são os verdadeiros vilões, e a mensagem é boa. Mas está escrito duma forma muito ambígua, dando-me a sensação que outra pessoa podia ler isto e ver o conto como apoiando essa mentalidade. Especialmente porque no fim a protagonista é transformada na vilã, num monstro, e tudo o que lhe acontece não parte das suas escolhas. O conto torna-a numa vítima também, essencialmente violando o seu carácter. Assim que é transformada num monstro, a forma como pensa é deformada, e tudo o que faz como "Medusa" não é a Mei Du que conhecemos. A sério, apenas uma ligeira mudança de tom podia corrigir isto, e é o que mais me frustra.
Contribuição de Benjamin Alderson: o enquadramento que o conto precisava, e só por isso já merece o meu reconhecimento. Tem bons pontos e bom enquadramento.

Death Knell, Victoria Schwab: uma escrita difícil de penetrar ao início, quebrada e estranha, mas cativante e lírica. A Morte acorda no fundo de um poço, com fome, sabendo que está na hora de acompanhar mais alguém nos seus últimos momentos. Essa pessoa passa um dia com a Morte, mostrando-lhe pequenos momentos do que é ser humano. No fim tenta um truque muito interessante, e gosto de como termina.
Contribuição de Jesse George: Uma carta pessoal à morte, mais tocante por isso, com algumas referências ao conto.

Marigold, Samantha Shannon: na Inglaterra do século XIX, os erl-folk mantêm uma trégua com a rainha - na esteira da Revolução Industrial, eles ficaram com o domínio sobre a floresta. Começam a desaparecer crianças e jovens do sexo feminino, e quando levam Marigold, dois jovens relacionados com ela partem à aventura para a trazer de volta. Um bom conto com uma reviravolta que questiona no fim quem é o vilão, quem precisa de ser salvo, e que faz um comentário ao papel da mulher na época vitoriana.
Contribuição de Regan Perusse: bom ensaio, comentário ao conto e que vai de encontro à minha opinião.

You, You, It's All About You, Adam Silvera: um pouco críptico, mas com um worldbuilding interessante. Uma narração curiosa, com uma protagonista jovem mas impiedosa e impressionante - que esconde algo, e a reviravolta é fantástica. A coisa da máscara, no entanto, é bizarra. Uma máscara feita de uma mão? Não faço ideia de como é que isso funcionaria. (Oh, mas o uso da segunda pessoa na narração é fabuloso.)
Contribuição de Catriona Feeney: avaliação do simbolismo da máscara, giro mas demasiado curto, e a análise da máscara que se usa é dispensável.

Julian Breaks Every Rule, Andrew Smith: ok, para já este é o único conto do livro que eu activamente fiquei a odiar. Para já pela escrita. Detesto quando escrevem estes protagonistas todos "preciosos", uns floquinhos de neve super-especiais. Depois, detesto este tipo de escrita pretensiosa, cheia de si, que quer parecer mais inteligente que é - o protagonista passa o tempo a dizer "ei, isto é foreshadowing". Ugh. FORESHADOWING NÃO É REPETI-LO A CADA DUAS PÁGINAS, não nós somos burros, thank you very much, não precisamos que seja anunciado. Detesto autores que escrevem como se o leitor fosse burro. Por fim, vi alguns comentários do Goodreads sobre como isto é divertido (não é, de todo), e como tem várias camadas e é inteligente e uma boa caracterização dum psicopata. Talvez eu tenha perdido alguma coisa? Porque não me parece. Parece-me um puto adolescente normal, choninhas, desinteressado. Nunca emite uma vibração arrepiante, nunca tem uma atitude que me desse vontade de colocar distância entre mim e esta pessoa. Ele convence-se que consegue matar pessoas com o pensamento porque teve algum problema com elas e de seguida aparecem mortas com acidentes estranhos... por um lado, parece-me o tipo de ansiedade adolescente normal, por outro é uma ideia parva. Seria muito mais interessante se o autor aumentasse a creepyness do personagem e desse pistas que o protagonista tinha tido mão nesses acidentes - e talvez fosse essa a ideia do autor, mas se foi, foi demasiado subtil para se perceber, e por isso não foi bem sucedido. Seria incrivelmente mais interessante se víssemos que o miúdo tem a cabeça revirada e estava em negação sobre tê-lo feito. O fim não é uma surpresa, e nem é recompensador, porque ele finalmente toma as coisas nas suas mãos, mas com tanto mimimi sobre foreshadowing qualquer tipo de revelação não é surpreendente ou interessante. Oh, e não cumpriu a premissa, que passava por um cenário futurista. Pseudo-poderes psíquicos não contam.
Contribuição de Raeleen Lemay: sobre porque gostamos de psicopatas. Again, percebeu mais que eu? Diz que releu e obteve mais coisas das releituras. Eu reli rapidamente e fiquei na mesma. Se tem segunda camada, tem que ser mais óbvio, eu normalmente sou boa a ler nas entrelinhas, por isso... é demasiado subtil. E por isso não foi uma contribuição que me agradou, porque babar para um conto que eu detestei não me caiu bem.

Indigo and Shade, April Genevieve Tucholke: um ligeiro retelling de A Bela e o Monstro, pelo ponto de vista do Gaston. O que é hilariante de ler, porque ele é tão cheio de si, tão convencido e tão bom caçador e bom a tudo, que até dá vontade de lhe bater. Mas é realista - é um protótipo do Gaston que estamos a ler. Na cidade dos EUA de influência francesa onde vive, no meio das montanhas, uma Besta começa a atacar e corpos aparecem pela floresta. O "Gaston" quer saber o que se passa, mas pelo meio deixa-se cativar por uma moça, Indigo Beau (eh, "Beau"), leitora inveterada, bonita, e que gosta de passar horas na floresta. Termina depressa, e a reviravolta foi um bocadinho óbvia, porque já li demasiadas coisas que seguem esta linha de pensamento.
Contribuição de Whitney Atkinson: um bom ensaio, muito interessante, que decompõe um personagem como o Gaston, que é um menino bonito e brilhante e espera que o mundo se deite a seus pés.

Sera, Nicola Yoon: muito arrepiante. Começamos no dia presente, em que uma jovem parece estar no centro de uma explosão de violência, sem aparentemente a causar, bastando a sua presença. Depois percorremos o seu passado pelos olhos da sua mãe, que a tenta amar... mas Sera sempre foi diferente, sempre houve algo de errado com ela que a mãe não queria admitir. Ao crescer tem atitudes arrepiantes, nada infantis, e está sempre no centro de morte e desastre. É impressionante pelo conceito de um bebé nascer mau, no sentido em que a sua própria natureza influencia os demais à sua volta. Gostei.
Contribuição de Steph Sinclair e Kat Kennedy: é um pouco genérico, parecendo o tipo de artigo que apareceria numa revista feminina, e gosto de como estas meninas opinam, por isso sabe a muito pouco. Queria ver mais delas. Mas é divertido, giro, cheio de girl power, sobre como ser uma vilã assertiva, mas que pode ser extrapolado para qualquer mulher

Comentários finais:
Favoritos: Jack, Ameriie;  Shirley & Jim, Susan Dennard; The Blessing of Little Wants, Sarah Enni; The Sea Witch, Marissa Meyer; Marigold, Samantha Shannon; Sera, Nicola Yoon
Detestei com a fúria de mil sóis: Julian Breaks Every Rule, Andrew Smith
Boas contribuições: Tina Burke, Samantha Lane, Sophia Lee, Benjamin Alderson, Regan Perusse, Whitney Atkinson

Páginas: 368

Editora: Bloomsbury

sábado, 16 de setembro de 2017

Curtas BD: Revistas Marvel, Homem-Aranha e Vingadores, volumes 1 e 2

Homem-Aranha vol. 1: Aprender a Escalar, Dan Slott, Ramón Pérez
Homem-Aranha vol. 2: Global, Dan Slott, Giuseppe Camuncoli
O primeiro volume contém os fascículos que compõem a história Aprender a Escalar (Learning to Crawl); é uma história sobre os primeiros tempos de Peter Parker como Homem-Aranha, recontada, e adaptada ao século XXI. Revivemos a morte do tio, as lutas - mas um vídeo colocado no YouTube dá uma dimensão diferente ao super-herói, dando-lhe uma fama inesperada

O jovem que colocou esse vídeo inspira-se no heroísmo do Aranha e torna-se no seu próprio super-herói: mas mostra como é fácil virar o vilão, fazendo as coisas pelas razões erradas. A história em si é deliciosa pelos dilemas morais do Peter e o modo como está a aprender a fazer isto, ultrapassando os problemas.

O segundo volume decorre no seguimento do afastamento do Doutor Octopus do, er, corpo do Peter Parker, que é devolvido ao legítimo dono. (Banda desenhada de super-heróis. Soa sempre como a coisa mais bizarra do mundo.) O foco é nas indústrias Parker, como o Peter manteve esse desenvolvimento do Ock e o fez crescer, e como isso o apoia a ser um herói a nível global.

Gosto bastante. As minhas partes favoritas do Homem-Aranha têm sido ao longo do tempo quando ele evolui, muda do cliché do azarado coitadinho; e isto pode ser interessante para ele. É impressionante o quanto avançou, trabalhando com a SHIELD, usando tecnologia para lutar contra o crime; mas ainda é o Peter, o miúdo adorável preocupado com a tia.


Os Vingadores vol. 1: Os Sete Magníficos I / Futuro Perdido I, Mark Waid, Adam Kubert, Mahmud Asrar, Gerry Duggan, Ryan Stegman
Os Vingadores vol. 2: Os Sete Magníficos II / Futuro Perdido II, Mark Waid, Mahmud Asrar, Gerry Duggan, Ryan Stegman
Nestes dois volumes seguimos duas equipas que assumem o manto de Vingadores. A primeira forma-se quando os da velha guarda se apercebem que no momento não há ninguém que use o nome de Vingadores para a sua equipa. E então temos uma equipa que reúne gente como o Homem de Ferro, e também o Capitão América na sua encarnação vivida pelo Sam Wilson e o Thor na sua encarnação em que o merecedor do martelo é uma mulher; e ainda gente jovem como a Kamala Kahn (a Miss Marvel), ou o Nova.

O que é tão fofo. Achei divertidíssimo ver a Kamala e o Nova às turras. E a rivalidade conjuga-se bem com a sua inserção na equipa e os desafios de ter jovens com responsabilidades tão grandes, sendo inexperientes. Também achei engraçado o Sam Wilson e a Thor juntos, ao princípio ninguém da equipa sabe quem ela é e o processo de descoberta é giro. Em suma, é uma equipa com potencial.

A segunda equipa junta Vingadores, X-Men, e Inumanos. Aparentemente, no mundo Marvel as tensões estão em alta com os Inumanos e a sua aceitação na sociedade, e a equipa é reformada para incluir elementos dos três grupos, de forma a promover a união entre todos.

Creio que gostei mais da outra encarnação que li da equipa. Esta é um pouco estranha; como equipa não é... orgânica? Não parece ter nomes grandes ou nomes reconhecíveis suficientes, e trata os personagens de forma algo estranha. Quero dizer, a Rogue é uma pessoa bastante experiente a este ponto do campeonato, e comete um faux pas daqueles no início? Difícil de acreditar.

A equipa é liderada pelo Steve Rogers, que a este ponto ficou velhote (qualquer coisa com o soro do super-soldado, creio eu), e deixou de ser o Capitão, mas ainda põe toda a gente em sentido. Gosto de o ver assim caracterizado, mas a maneira como o desenham é péssima. Por outro lado, acho interessante que confie no Deadpool para fazer parte da equipa, e melhor, que o Cap seja das poucas pessoas que o Deadpool leva a sério.

O inimigo presente é um Inumano naturalista, e acaba por ter uma reviravolta no fim. A sua presença força a aparição do Cable, que estava no futuro em que este Inumano conseguiu dominar o mundo. Outra questão que também pode vir a ser interessante no futuro. Se bem que o que eu gostava de ler mais era sobre a posição dos Inumanos neste mundo. Podem vir a fazer histórias bem giras sobre este conflito.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Este mês em leituras: Agosto 2017

Que mês fantástico! Estou de férias, e consegui fazer um monte de coisas aqui no blogue (e nas leituras e noutras coisas pessoais também) que queria fazer. Estou bastante actualizada nas opiniões e isso deixa-me mesmo feliz. Têm sido uns bons dias para descansar, mas também já estão a acabar...foi bom poder recarregar baterias.

Livros lidos


Opiniões no blogue


Os livros que marcaram o mês

  • 99 Dias, Katie Cotugno - gostei mesmo da maneira como a autora tratou o seu enredo e a sua protagonista, Molly... ela faz um monte de asneiras, mas é difícil não compreender onde é que a cabeça dela está, ou ter compaixão pelo que ela passa;
  • The Gentleman's Guide to Vice and Virtue, Mackenzi Lee - este é simplesmente amoroso, o seu protagonista é tão divertido e cheio de falhas duma forma cativante... adorei o humor dela, e a história em si é uma delícia de acompanhar;
  • Meg Cabot - julgo que cheguei ao fim do meu desafio pessoal Meg Cabot... as únicas coisas que me faltam ler dela são os contos espalhados por um milhão de antologias, e parece-me quase impossível andar a caçá-los todos, e alguns históricos do início da sua carreira, que é mesmo impossível comprar em papel, mesmo em segunda mão (a não ser que eu venda um rim), e em versão Kindle, bem, só há dois dos quatro que me faltam e custam mais do que estou confortável a pagar por um e-book... por isso, é o fim, por agora; estou contente por ter chegado ao fim dum desafio tão longo, especialmente porque normalmente não sou pessoa de desafios, mas também estou triste por ter acabado, porque diverti-me e isto puxava por mim... vou ter de encontrar outra coisa.

Aquisições

Banda desenhada do mês: os dois livros da Graphic Novels Marvel que deviam ter chegado o mês passado. (Este pessoal anda muito, muito atrasado.) Ainda não tenho os de Agosto porque costumam ir para o trabalho, e como tenho estado de férias... se bem que os meus colegas não me avisaram de uma encomenda, por isso pergunto-me se chegaram a entregá-los.

Em adição, a Goody está a lançar semanalmente, e alternadamente, revistas/livros do Homem-Aranha e dos Vingadores. Para quem ficou desanimada quando as últimas revistas Marvel morreram, descobrir isto foi uma boa notícia. (Apesar de eles não terem feito muita publicidade, infelizmente, pois descobri quase por acaso.) Como têm ISBN, contam como livros, e por isso entram para as minhas leituras.

Os três livros em português foram comprados com um vale Fnac (o do Gaiman) e com dinheiro em cartão (os outros dois); em inglês, temos uma autora que sigo (Meg Cabot), uma antologia intrigante com autores que sigo, e um livro que me deixava muito curiosa (Mackenzi Lee).

Os últimos dois deviam ter chegado em Julho, excepto pelo problema que os CTT me comeram os dois de seguida (um livro desaparecer é uma coisa, mas dois de seguida é um pouco suspeito) - foram enviados com 10 dias de diferença. O Book Depository foi gracioso o suficiente para enviar uma segunda cópia, e surpresa! chegaram os dois numa semana, que é bem mais rápido do que o tempo de entrega habitual dos CTT para encomendas minhas do site.

A ler brevemente

Em Setembro quero muito ler a Juliet, para (finalmente) terminar a trilogia, e ler a antologia que adquiri, porque estou mesmo curiosa. Tenciono continuar a comprar e ler as revistas da Goody da Marvel, e se finalmente os próximos dois volumes da Graphic Novels Marvel me chegarem às mãos, tenciono ler esses também. Por fim, espero poder ler alguns lançamentos de Agosto/Setembro - são os que estão listados na foto.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Meg Cabot: Missing You, Royal Crush


Páginas: 288 / 320

Editora: HarperTempest (HarperCollins) / Feiwel & Friends (MacMillan)

Missing You é a sequela final a esta série (1-800-Where-R-You). Pelo que posso ver das datas de publicação (quatro anos de intervalo do livro anterior), imagino que tenha sido publicado por obra do amor dos fãs por esta série; se tivesse de adivinhar, a editora provavelmente contratou a Meg para quatro livros, mas o quarto ficou tão em aberto que as pessoas passaram anos a queixar-se à editora, e eles finalmente cederam e pediram-lhe para escrever um quinto. O poder do fandom funcionava, mesmo quando as redes sociais eram embrionárias ou não-existentes, e fandom nem sequer existia como conceito.

O que resulta num paradigma curioso: há um salto temporal também para os personagens, e a Meg tenta actualizar-nos acerca do que decorreu nesse tempo - o que inevitavelmente vai resultar num tell/info dump, dos quais não sou fã, mas considero-os aceitáveis neste caso, suponho.

A verdade é que certas coisas podiam ter sido melhor abordadas e expandidas (a exposição do enredo, as motivações dos personagens, a rápida evolução de coisas que mereciam mais tempo), mas vi um comentário algures que a Meg tinha planos para 8 livros, por isso... suponho que ela estava a tentar condensar o máximo que podia neste, ao mesmo tempo que tentava agradar os fãs. Tenho pena, mas também não consigo ficar zangada.

A premissa deste livro é que a Jessica esteve fora, a usar os seus poderes no terreno, na "guerra contra o terror". E isso deixou uma marca nela: ao fim de algum tempo, começou a ter pesadelos e a ser incapaz de usar os seus poderes. Voltou a casa, as coisas não correram bem com o Rob, foi viver para Nova Iorque e começou a estudar música, a sua paixão. E agora, passado um ano, parece finalmente estar a recuperar. Entra em cena o Rob, que lhe aparece em casa à procura de ajuda para alguém da sua família. E apesar de relutante, a Jessica não resiste a ver se pode ajudar e recuperar as suas capacidades.

Apesar de ser um pouco mais pesado, achei que este volume continua com o sentido de humor Cabotiano, e consegue ser suficientemente satisfatório na evolução da Jessica durante a narrativa. A Jess aprendeu novas formas de resolução de conflitos, e adorei como resolveu as coisas com o vilão, muito inspirada.

Gostei, entre outros, de ver o Doug tão bem na vida, e envolvido nos problemas da cidades; e de ver a relação gira que a Jessica tem com o pai, em que lhe pode contar tudo que o senhor não se assusta nada. Oh, e de ver que o Rob fez tanta coisa com a sua vida e não ficou à espera da Jess, a amuar num canto. Também feliz por poder ver um final feliz para os personagens, e um final mais fechado. Julgo que a Jess e o Rob podem ter avançado um pouco demasiado depressa, mas como gosto de finais felizes...

Royal Crush é o terceiro livro focado na Olivia, a pequena meia-irmã da Mia que acabou de descobrir que é uma princesa. Como a Mia, a Olivia gosta muito de escrever (e desenhar) no seu diário; neste volume, está quase a fazer 13 anos, e vão dar um baile em sua honra em Genovia.

De caminho, a Olivia está felicíssima por ir ser uma tia: a Mia está grávida de gémeos, e prestes a dar à luz. É algo divertido de seguir pelo drama que se gera nos media à volta do assunto: toda a gente aposta no sexo das crianças, e nos seus nomes, e é a loucura para tentar descobrir esta informação ou tirar-lhes fotos.

Entretanto, a Olivia está a lidar com o facto de ter desenvolvido uma paixoneta pelo Príncipe Khalil; e com o facto da escola, a Royal Genovian Academy, ir competir com outras escolas reais europeias nuns jogos de Inverno, o que deixou os alunos completamente animados. (Ou parvinhos, como a prima Lady Luisa; e consideremos o Príncipe Gunther que é totalmente sem-noção; ou a amiga Nishi, que quer que a Olivia tire umas fotos ao Khalil e as envie.)

Gosto muito desta série porque acho que a Meg apanha bem a voz Middle Grade da Olivia; e adoro a Olivia, que é uma menina humilde, divertida, interessada e preocupada. Divirto-me a segui-la. Aprecio também poder seguir o pessoal da série Diários da Princesa, ver o que andam a fazer, desde a Mia e o Michael, até ao Lars, o segurança pessoal dela. Oh, e a Grandmère! Que neste livro faz de chaperone na visita aos jogos e Inverno e é engraçada de seguir.

Destaque ainda para como a chegada dos bebés deixa tudo babado; e gosto tanto do conceito da Meg ter várias escolas europeias de elite a ensinar realeza e nobreza - ela inventa uma série de principados e pequenos países pela Europa e pelo mundo fora, e é tão engraçado.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Reencontro com o Amor, Melissa Pimentel


Opinião: Este é um retelling de Persuasão. Não é letra-a-letra - nunca podia ser, pois o pendor observatório social de Jane Austen não pode ser reproduzido da mesma maneira numa sociedade que não é a mesma de há 200 anos. No entanto, diria, que é uma adaptação relativamente inteligente.

Vejamos: segue o esquema geral do enredo do original, passando pelos momentos "grandes" -as crises, as indecisões, os "ele ama-me, ele não me ama" -; adapta os personagens - sinto que a irmã e o pai da Ruby têm características que lembram os personagens originais, mas têm também características redentórias que nos fazem entender porque a Ruby os ama, e por outro lado gosto do que ela fez com as irmãs Musgrove -; tem um certo sentido de humor e até podemos entever alguma crítica social, apenas não com a categoria apurada e a pena afiada de Austen.

A história foca-se em Ruby, jovem que vem duma cidade pequena e que vive e trabalha em Nova Iorque, tendo chegado a um ponto de que se possa orgulhar. 10 anos antes apaixonou-se por Ethan, mas algo aconteceu que os separou (é o mistério da história). Já o Ethan era um empregado de bar quando se conheceram, mas depois da separação voltou a estudar, criou uma app revolucionária, e agora é um milionário cobiçado por causa disso.

A inovação do enredo prende-se mesmo com podermos acompanhar os dois momentos da relação. Alternamos capítulos entre presente e passado, para apreciar a sua evolução, entender como se juntaram, como terminaram, e como voltar a estar no mesmo espaço pode criar todo o tipo de tensões.

Apreciei vê-los no passado: deu para entender que eram muito novos e queriam coisas diferentes da vida, e alguém ia ficar emburrado por não poder seguir a vida como a via se continuassem juntos. Não estavam preparados para uma relação séria, apesar de o sentimento ser forte.

O porquê do término da relação, bem, não apreciei que a autora fizesse caixinha e nos agitasse a revelação à frente do nariz sempre que podia... mas o conteúdo em questão fez sentido. A Ruby estava num mau lugar, assustada, e numa posição delicada e frágil, e isso tornou-a um alvo fácil. Tomou uma decisão errada, mas depois uma certa e esteve 10 anos a culpar-se por isso. Acho que merece compaixão pela posição difícil em que acabou.

Outra coisa interessante sobre o livro: há muitos anos, tive uma fase em que andava a ler chick lit - detesto o termo, mas serve para descrever o que quero dizer - e era interessante, mas era sobre gente com uma idade e numa posição na vida muito diferente da minha na altura.

Parece que cheguei finalmente a um ponto na vida em que chick lit é sobre a minha geração... há algumas coisas que a autora escreve que são exactamente o dilema dos Millennials: há gente que segue o exemplo dos pais e tenta encontrar uma carreira, como a Ruby, que acaba por se sentir incrivelmente frustrada ao obter um pouco daquilo que achava que queria; há gente que mal saiu do berço e já é super bem sucedida - leia-se rainha do Instagram ou uma empresária da Internet (as irmãs Musgrove... aqui são gémeas e são amorosas e tão inteligentes e desafiadoras dos estereótipos que a sua beleza podia trazer).

Não há definitivamente meias-medidas para a geração, e acho que a autora soube incorporar bem um bocadinho dos dilemas e posições da mesma. É um ponto que não é enorme no enredo, mas condiciona as acções dos personagens e um pouco da evolução do mesmo, portanto é giro e meritório de nota.

A história é, como no original, no POV da protagonista, e por isso mantém-se o suspense sobre os motivos e os pensamentos do Ethan, mantendo efectivamente uma certa tensão derivada da incerteza. Mas mesmo assim, ele tornou-se uma pessoa interessante com os anos, e seria intrigante ver o POV dele.

O final passa por a Ruby fazer algo difícil - confessar ao Ethan a coisa que a fez terminar com ele 10 anos antes, sabendo que é má o suficiente para ele nunca mais lhe querer pôr a vista em cima. E depois toma algumas decisões muito acertadas sobre o seu futuro, sem saber se passa por ele ou não - gosto que tenha identificado a fonte da sua frustração e se tenha proposto a mudar a vida e procurar algo diferente.

Não tivemos direito a uma carta deliciosa como a do Wentworth - vou querer sempre cair para o lado com algo do género -, mas sinto que a confissão da Ruby atinge o mesmo propósito: é assustador pôr o coração nas mãos de outrém, arriscando-se a que essa pessoa o esmague. E gosto que o Ethan tenha entendido o mau lugar onde ela estava 10 anos antes - tinha tido vislumbres disso -,  e entendido que após tanto tempo, estava para trás das costas, e era inútil ficar zangado. Já tinham perdido muitos anos com um sentimento não realizado pela sua incompatibilidade inicial.

E isto sim, é próximo do original. Sim, tenho pena da Anne e do Frederick por terem perdido aqueles anos todos, mas não sabemos como as coisas correm, e se se tivessem juntado na altura a sua vida podia ser bem diferente. Ele ganhou a ambição de se elevar socialmente para mostrar aos que o tinham rejeitado que estavam errados, e ela revelou-se uma mulher sensata, apesar de, ou talvez por causa do sofrimento e arrependimento da sua decisão. Acima de tudo, Reencontro com o Amor concorda com o original e faz o argumento que a separação temporal pode ser boa para as partes envolvidas.

Título original: The One That Got Away (2016)

Páginas: 320

Editora: Topseller (20|20)

Tradução: Fernanda Semedo

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

The Gentleman's Guide to Vice and Virtue, Mackenzi Lee


Opinião: Oh, este livro é tão, tão giro e amoroso, e tão divertido que só me apetece dar-lhe festinhas/abraçá-lo - o que seria um pouco estranho para um objecto inanimado, mas é assim que o dito me deixou. Quer dizer, há meses que o livro tem um burburinho louco atrás, o que normalmente me deixa desconfiada (qualquer coisa muito falada ou é muito boa, ou muito má, para mim), mas também tenho a sorte de ter um excelente sexto sentido para perceber quando um livro vai ser a minha praia, e bem, este caiu-me que nem uma luva.

O protagonista da história é Henry Montague, Monty para os amigos. O Monty é um lorde inglês que chegou à maioridade, e que vai começar a ser treinado para herdeiro pelo pai; antes disso, no entanto, este tenciona enviá-lo numa Grand Tour da Europa, para se cultivar e, hmm, domar os seus modos. O Monty está muito animado com a perspectiva da viagem, porque pensa que será um ano de festas, bebida e senhoras de reputação duvidosa; no entanto o pai tem diferentes planos e vai enviar um chaperone para se assegurar que o rapaz é um modelo de bom comportamento.

A acompanhá-lo estarão a sua irmã Felicity, que por ser mulher não tem direito a ver as partes boas da Tour (ver os museus, as oportunidade culturais e de conhecimento), o que no caso da Felicity é trágico, pois a sua mente é voraz de conhecimento científico; e o melhor amigo Percy, um jovem biracial bem mais responsável que o Monty, possuidor de um segredo que afecta ainda mais o seu lugar na sociedade... e objecto da enorme paixoneta duradoura do Monty.

O problema da Grand Tour... é que foi desviada. O Monty comete um acto irreflectido para obter uma pequena vingança contra alguém de quem não gostou (típico do Monty... muito, muito típico), e isso mete-os inadvertidamente num monte de sarilhos... de repente estão a fugir Europa fora não só de salteadores, mas também da Coroa Francesa, e pelo meio tropeçam num "golpe", num sonho alquímico tornado realidade... oh, e ainda são raptados por piratas.

Parece um pouco convoluto, mas Mackenzi Lee fá-lo resultar: as constantes reviravoltas do enredo são cativantes e hilariantes de acompanhar. Adorei seguir as peripécias em que os nossos protagonistas se metem - especialmente porque 90% da culpa é do Monty. Em adição, a autora escreve com um sentido de humor que vai totalmente de encontro ao meu, e isso é fabuloso. Fartei-me de soltar risinhos e gargalhadas com este.

A caracterização é excelente, especialmente no Monty. Começamos por ver este bon vivant, um libertino sempre metido em festas e sarilhos que esgotou a paciência do pai; mas depois começamos a ver as outras camadas, o miúdo bisexual aterrorizado com a perspectiva de as pessoas erradas descobrirem que também gosta de rapazes: há muita falta de autoestima ali, muita autodepreciação no modo como o Monty se comporta. Quase uma forma de desiludir o mundo para que o mundo não o desiluda a ele.

Também gostei da caracterização do Percy, ele tem duas coisas em seu desfavor perante a sociedade - é meio negro, e tem uma doença ainda muito mal entendida nesta altura. E no entanto ele é um jovem que não deixa que isso o defina, é inteligente e determinado e discreto, apesar de estar resignado a que os outros o vejam como "menos", por ser quem é.

Já a Felicity é um doce para esta leitora. Sarcástica, com uma relação giríssima com o Monty, cheia de exaspero (pensar-se-ia que ela era a mais velha), e trocas verbais cheias de alfinetadas. A Felicity vai para a finishing school no fim da viagem, mas isso para ela é um açaime: a jovem tem uma mente bem afinada, adora ler livros de divulgação científica (e escondidos pela capa de um romance... é cá das minhas), e tem um sangue frio admirável, o que combinado com os seus conhecimentos de medicina safam o grupo em momentos cruciais. (Para não falar da rijeza que é preciso ter para coser o seu próprio ferimento... sem anestesia ou analgesia.)

O que eu destacaria mais acerca deste livro é que é uma ode aos inadaptados, aos rejeitados pela sociedade por esta ou aquela razão. Qualquer um dos três protagonistas tem algo que o faz pertencer a uma minoria discriminada, algo que "diminui" o seu valor na sociedade; e ainda assim, estes miúdos prevalecem e criam e tomam as rédeas da sua própria história, procurando um final feliz.

É tão optimista que dá vontade de derreter; é tão fácil, por exemplo, torcer pelo Monty e pelo Percy, porque são adoráveis (juntos e separados), e a sua história tem todas as pequenas coisas de uma amizade a resvalar para amor, os olhares e suspiros, os mal entendidos, o achar que se tem um amor não correspondido... pobre Felicity, até ela embarca nos preconceitos aceites da sociedade sobre homossexualidade (e isto apesar de não embarcar no caso do Percy e da sua doença, o que achei uma dualidade interessante), e mesmo assim não consegue deixar de torcer pelos dois, e querer que estas duas pessoas que adora tenham direito à sua felicidade.

Enfim, é um livro que adorei, encheu-me as medidas duma forma como poucos fazem. A autora descreve uma época histórica de forma genuína, mas consegue apresentá-la do ponto de vista de gente que seria esquecida pela História e afastada pela sociedade de então. De certo modo, é brilhante, e gostei mesmo disso, bem como do sentido de humor, e dos personagens principais cativantes. Recomendaria sem ressalvas.

Páginas: 528

Editora: Katherine Tegen Books (HarperCollins)

domingo, 27 de agosto de 2017

Mitologia Nórdica, Neil Gaiman


Opinião: Ok, isto não é reinventar a roda. Nem pretendia ser, na verdade. Isto é, no entanto enganadoramente simples. É um escritor conhecido propor-se a recontar e colectar num único volume um conjunto de lendas e mitos fragmentados, fazendo muito com pouco - dando-lhes clareza e coerência, e uma cronologia lógica e ordenada de forma a que façam sentido.

É um livro que, não trazendo nada de novo, exactamente, é especial pela mão que o escreve. Ache-se o que se achar dele, Neil Gaiman é um excelente escritor. Tem uma curiosa combinação de literário e mainstream na maneira como escreve, tem uma fantástica cultura geral, um sentido de humor rico e um toque mágico que confere a tudo o que escreve aquele quê de encantador.

Lendo o volume, é importante por outras razões; dá para ver a importância que este tipo de histórias teve noutros seus trabalhos, e quase tenho vontade que fizesse o mesmo com outros tipos de lendas e mitos. Uma volume de histórias que inspiraram Sandman, recontadas pelo autor do mesmo? Ah, era brilhante.

Uma nota final: foi estranhamente emocional ler o conto sobre o Ragnarok. Primeiro porque como é postulado, é um conto acerca do fim do mundo, do que vai acontecer, ao contrário dos contos anteriores, que são sobre o passado. Depois, é algo perturbador ler um livro de contos sobre um conjunto de personagens, e depois ler algo sobre "o que lhes vai acontecer" - e isso passar por toda a gente (quase) morrer, e de forma horrível. É algo compensado, contudo, pela promessa de renovação, a ideia de que o mundo recomeçará com descendentes dos deuses e com um retorno bem merecido.

Título original: Norse Mythology (2017)

Páginas: 248

Editora: Presença

Tradução: Maria de Almeida

sábado, 26 de agosto de 2017

Curtas BD: The Fade Out, Nailbiter, e mais

The Fade Out v.1: Act One, Ed Brubaker, Sean Phillips
Os autores voltam a algo que parece ser a sua praia - um mistério ao estilo noir passado na década de 40/50 do século XX. Não é nada de novo, talvez até algo repetitivo para quem já leu grande parte do Fatale, mas fazem-no duma maneira cativante o suficiente para captar a nossa atenção.

A história foca-se num crime: a protagonista dum filme de Hollywood desta época morre em circunstâncias estranhas, com o argumentista a acordar na sala ao lado após uma noite de festa intensa. Ele foge, para não ser implicado, mas depois apercebe-se que o estúdio está a tentar mascarar a morte como um suicídio. A injustiça leva-o a investigar, e rapidamente dá conta que a intriga é mais profunda e perigosa do que suspeitava...

Fazem um bom trabalho a explorar a atmosfera da velha Hollywood, glamorosa mas com um lado escuro a espreitar (estes são os anos da caça às bruxas comunista); a escrita é boa e envolvente, e a arte bastante decente, especialmente nas cores. Apenas peca por saber a pouco: são quatro números da história, e levanta muitas questões mas ainda não responde a nada.

Nailbiter v.1: There Will Be Blood, Joshua Williamson, Mike Henderson, Adam Guzowski, John J. Hill, Rob Levin
Este é um pouco estranho. A premissa passa pelo facto de haver uma cidadezinha no Oregon de onde vêm 16 serial killers; o protagonista viaja para lá à procura de um amigo que estava a investigar a razão disso acontecer. O mais bizarro de tudo? O último escapou à justiça, foi considerado inocente no julgamento e vive tranquilamente em Buckaroo.

Começam a acontecer coisas estranhas, alguém parece estar a reviver as particularidades de cada serial killer, e o Warren (o assassino absolvido) parece o culpado mais óbvio - o que quer dizer que não, não está envolvido no assunto e parece querer ajudar o protagonista e a polícia.

Achei interessante pela descrição da mentalidade de cidadezinha pequena, e por fazer algumas piadas com os clichés dos filmes de terror; acho intrigante a premissa de uma cidade ser responsável por tantos assassinos, e estou curiosa para ver a explicação. Não é tão nojento quanto esperava, no entanto. Tony Chu consegue ser mais enjoativo com certas coisas.

Oracle: The Cure, Tony Bedard, Kevin VanHook, Claude St. Aubin, Julian Lopez, Fernando Pasarin
Depois de uma missão com as Birds of Prey, a Barbara Gordon sente a necessidade de ficar sozinha, e assim parte à aventura. Tropeça num plano maléfico do Calculator, o vilão equivalente ao que ela faz como Oracle - um mágico dos computadores. O plano passa por estudar uma equação que o vilão acha que vai trazer uma cura à filha, que está em coma; só que pelo caminho, esse seu esforço está a deixar corpos por todo o lado.

Gostei de ver a Barbara a ser uma heroína de acção, mesmo com a sua limitação; ela tem os seus momentos menos bons e o livro não se afasta disso, o que gostei, mas também a coloca a fazer uma série de coisas fixes e destemidas. O aspecto da realidade virtual é bastante curioso e manteve o meu interesse ver como era realizado.

A arte, no entanto... eh. Detesto as capas da mini-série. É uma sexualização desnecessária da personagem, e até um pouco perturbadora se pensarmos que uma das capas associa isso à sua incapacidade, pondo-a numa pose vulnerável. Nem pensar. Quem é que achou que isto era uma boa ideia?

The Girl With the Dragon Tattoo v.1, Stieg Larsson, Denise Mina, Leonardo Manco, Andrea Mutti
Julgo que a única coisa que este livro tem a seu favor é que me fez relembrar duma história que eu até apreciei muito ler. Fora isso, uma grande bola de meh. Não gosto da ideia de dividir a história a meio, e poder relembrar só metade, por exemplo. Neste tipo de adaptação não faz exactamente sentido.

Também não gosto da sua simplicidade. Estava a rever o enredo do livro original pela página da Wikipedia, e raios, é convoluto. A BD precisa, claro, de ser uma adaptação, tanta complexidade não é adequada às suas páginas... mas mudam o tom, mudam certas cenas, o enredo e os personagens parecem mal caracterizados. Há maneiras de adaptar e simplificar sem perder o espírito, e parece que estes criadores não estavam à altura da tarefa.

A arte também não é cativante. Aborrecida, pouco expressiva, talvez até inexperiente? Não me incomodou a leitura, mas também não lhe adicionou nada.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O Noivo de São Valentim, O Estratagema de Lady Sara, Emily Hendrickson

O Noivo de São Valentim, Emily Hendrickson
Este é um livro amoroso; estava na estante da minha mãe há anos (a sério, ainda tem o talão de compra ao Círculo de Leitores em 1994), e há uns anos roubei-lho e diverti-me a lê-lo umas quantas vezes, se bem que já não relia há uns bons tempos.

A premissa passa por ter uma relação pré-existente entre os dois protagonistas: ambos se conhecem de Londres, e havia química, mas agora no campo Elizabeth não quer ter nada a ver com o David porque o acha um libertino (acho que em inglês devem atirar com a palavra rake de cinco em cinco minutos, porque passamos metade do livro a ouvir dizer que o David é um libertino).

Só que o David precisa de pedir ajuda a Elizabeth, e então tem a brilhante ideia de trepar à janela dela para entrar no seu quarto... e a Elizabeth dá-lhe um tiro, a pensar que era um ladrão. (Bem feito.) Apanhados numa situação comprometedora, a tia de Elizabeth considera-os noivos. O que ajuda o pedido de David, que queria a ajuda de Elizabeth num mistério: descobrir o que está a acontecer ao pai, que adoeceu repentinamente e de forma suspeita.

Tem bastantes pontos de interesse, como o mistério, e a história pessoal da família da Elizabeth, pois as várias irmãs fizeram algum trabalho de espionagem para a coroa, e este é tecnicamente o segundo numa série, e adorava ter a oportunidade de vir a ler outros livros dela, especialmente nesta série... excepto pelo pormenor que são superantigos e não há probabilidade de os caçar em papel. Talvez se me der para perder a cabeça na Kindle Store ou assim...

A razão porque gostei tanto deste livro passa também pelo par protagonista, apesar de o foco do livro não ser apenas o romance, achei-lhes piada e achei que tinham química. Este é um romance histórico à antiga, há uma série de coisas que esperamos nos RH hoje em dia e que não acontecem em RH escritos há décadas... e até é refrescante ler algo de diferente.

O Estratagema de Lady Sara, Emily Hendrickson
A história deste livro foca-se num grupo de senhoras que quer casar por amor, com um cavalheiro da sociedade... e uma delas tem a ideia de, com as tias, senhoras conhecedoras da sociedade, elaborar um lista de elegíveis a marido para cada uma, de acordo com os seus gostos e feitios.

É uma premissa bastante divertida, e adorei segui-la para ver os resultados... o livro é bastante focado nas relações entre mulheres, sejam as quatro amigas, sejam as tias - que adorei, já agora. São senhoras mais velhas que já perderam o marido (duas delas, creio eu), ou são solteironas (a outra, acho), e que se dedicam a acompanhar os dramas de sociedade. Não há ninguém mais sabedor e que poderá dar uma opinião sobre qualquer membro do ton.

Tudo corre bem para três das jovens... mas não para Sara, a protagonista e sobrinha das senhoras. É que a Sara excluiu logo o primeiro nome da lista à partida, por uma incompatibilidade pessoal que prefere não revelar... só que a corte com os seguintes jovens também não corre lá muito bem, e chega ao fim sem pretendente!

O truque? O seu primeiro da lista, Myles Fenwick, ouviu a conversa original entre as senhoras, e ficou ressentido por ser excluído, e por ser chamado de "aborrecido". E procede então a sabotar a Sara em todos os pontos seguintes da lista. E em teoria gosto desta ideia da sabotagem...

Excepto por um pequeno facto: é manipulador. Cai-me mal que ele esteja a influenciar os acontecimentos, sem a Sara se dar conta. Acho que encontraria mais piada na história se a Sara o descobrisse a meio do enredo e aquilo virasse uma batalha dos sexos entre os dois para ver quem prevalece.

Também não acho particularmente excitante a razão original para eles estarem "zangados"/ela o excluir - é fraca. E o final não é assim muito forte, já que ela descobre a manipulação no fim e caem logo nos braços um do outro. Sinto que devia haver zaragata primeiro e que ela o devia fazer sofrer pelas suas intromissões. Enfim, a premissa do enredo é gira, mas precisava de mais trabalho.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

99 Dias, Katie Cotugno


Opinião: Uau. Tenho 99% de certezas (heh) que poucos ou quase nenhuns autores se safariam a escrever uma história deste tipo. A situação em questão é delicada e envolve toda a gente metida ao barulho ter atitudes condenáveis, e pior, reincidir nas asneiradas que faz; e ainda assim, acho que a autora apresenta a questão com nuance, fazendo-nos entender porque este pessoal toma decisões terríveis, humanizando-os. Pontos bónus por isso.

Molly é uma jovem de 18 anos que esteve a estudar durante o 12º ano numa escola privada no Arizona; voltou a casa agora, antes da faculdade, para aguentar um Verão complicado antes de poder seguir o seu percurso académico. O dilema? Molly é amiga da família Donnelly desde sempre, ao ponto de a amizade profunda que tinha com o Patrick, um dos irmãos, dar em namoro. Um ano antes, Molly foi apanhada numa indiscrição: num momento em que o namoro estava complicado, envolveu-se com Gabe, o outro irmão Donnelly. E foi apanhada. Daí a sua fuga para o Arizona, para fugir ao bullying que se seguiu a tal revelação.

A escrita da autora é bem bonita e cativante; e melhor ainda, ela escreve de forma tão interessante. Ao longo do Verão, Molly vai examinar os seus erros e a sua relação com os Donnelly. Há um certo reactivar do "triângulo" durante o Verão, mas pelos olhos dela entendemos aquilo que devia ser óbvio: é preciso três para fazer uma asneira destas.

Há certos aspectos da relação dela com cada rapaz que preconiza uma ligeira manipulação e malícia da parte de cada um (é fascinante chegar ao fim e percebê-lo); de certo modo a Molly é a mais inocente no meio disto tudo, no sentido em que ela está a tentar honestamente resolver as suas cenas, sem intenção de fazer mal - apesar de no fim de contas, acabar a fazê-lo. Mas lá está, é difícil odiá-la quando se vê a confusão em que a cabeça dela está: é difícil não sentir compaixão.

Uma coisa que apreciei ler foi o sublinhar que a autora faz: foram precisas três pessoas para dançar o tango aqui. Após a "traição" inicial quem passou pior foi a Molly: é o mundo em que vivemos, uma mulher é uma galdéria enquanto que um homem é um macho quando ambos têm a mesma atitude. É triste, mas é empoderador ver lembrado que as culpas no cartório pertencem a toda a gente, e que a Molly não é uma santa ou uma pecadora.

Apesar de todas as patetices que comete, gostei de seguir a evolução da Molly. O Verão permitiu-lhe ficar mais segura de si, mais confortável na sua pele, e fazer um maior esforço para socializar e recuperar as amizades que ficaram para trás quando foi para o Arizona. Aprende a viver depois do fim do mundo como o conhecia, a ser caridosa para consigo e com os seus erros. E revê a relação que tem com a mãe.

(Que é uma escritora e publicou um livro sobre uma moça dividida entre dois rapazes... a Molly foi apanhada quando uma revista fez um artigo a revelar a inspiração da mãe; honestamente eu jamais perdoaria à minha mãe, fazer algo do género com uma revelação privada, mas a Molly é melhor pessoa que eu.)

Gosto do fim, que resolve o dilema de forma agridoce. Está toda a gente magoada com a maneira como se portaram uns com os outros, e por isso não pode exactamente ser feliz... mas é esperançoso. Que este pessoal siga com a sua vida, ganhe juízo e se volte a encontrar num lugar em que está preparado para uma relação séria. São jovens e aprenderam com os seus erros, e é realista que quaisquer relações descritas não sejam para o fim da vida (apesar de eu ter as minhas preferências).

Nota extra: o livro tem 99 capítulos, um para cada dia do Verão. Pontos bónus por a autora conseguir contar uma história coerente em que escreve um bocadinho todos os dias, e em que cada dia é essencial.

Título original: 99 Days (2015)

Páginas: 352

Editora: IN (Zero a Oito)

Tradução: Pronto a Editar Atelier (era só o que estava no livro; acho curioso que agora já nem se coloque o nome de uma pessoa... quer dizer, não tenho queixas da tradução, mas parece tão impessoal)