quarta-feira, 26 de julho de 2017

Curtas BD: Graphic Novels da Marvel, vols. 36, 39-41

Deadpool: A Guerra de Wade Wilson, Duane Swierczynski, Jason Pearson
Bem, isto é interessante. E estou a falar a sério, ao contrário do Deadpool. Apreciei bastante o estilo de história, uma narrativa fragmentada com um narrador inconfiável, que nos faz questionar a sua realidade (ou a nossa) - quase ao estilo Inception.

É também refrescante ler uma história tão divertida/com um sentido de humor fantástico, meio retorcido e mórbido; e com violência a rodos, da qual não se desculpa. Além disso, aprecio a história por funcionar como uma espécie de introdução ao personagem, fornecendo uma possível história de origem para ele.

A história extra contida no volume é do mesmo argumentista e é sobre o Deadpool vender a sua história a Hollywood... que, expectavelmente, a retorce toda para a tornar mais vendável/palatável aos espectadores. O protagonista tem duas reacções: uma na cabeça dele (que é surpreendente), e outra na vida real (que é surpreendentemente emocional). Cativante.

Terra das Sombras, Andy Diggle, Billy Tan
Já li, e já opinei aqui. Volto a repetir-me, acho uma premissa francamente interessante. Pela carga religiosa que o personagem tem, é fascinante vê-lo fazer coisas cada vez mais moralmente "más", uma queda de graça profunda que o aterra no fundo do poço.

Contudo, entristece-me pensar que a responsabilidade pessoal do Matt nas suas acções é subvertida pelo facto de estar, essencialmente, a ser controlado por outra entidade. Acharia muito mais interessante tê-lo ver enterrar-se no buraco cada vez mais, justificando coisas cada vez piores, e depois ter uma história em que lida com a sua culpa e tentar perdoar-se pelas suas acções. (Bem, a história existe, mas não é especialmente boa, e é diminuída por este problema.)

Vingadores: A Cruzada das Crianças, Allan Heinberg, Jim Cheung
Esta, por sua vez, foi tão cativante. É uma premissa aparentemente simples: dois dos Young Avengers, Veloz e Wiccano (mais este), querem encontrar a Feiticeira Escarlate. A coisa complica-se quando descobrimos que desconfiam ser os, erm, filhos espirituais da Feiticeira, aqueles que morreram algures e deram cabo da sua mente ao ponto de ela criar a cronologia House of M, e depois destruir a população mutante, retirando os seus poderes a uma larga percentagem deles.

A história intrigou-me e cativou-me por expandir eventos passados que tinha acompanhado com interesse, como a House of M, e toda a coisa de não haver mais mutantes, o que sempre achei preocupante (quer dizer, podemos argumentar que além de matar Vingadores, ela terá matado um sem-número de mutantes que dependia da sua mutação para sobreviver no mundo); isto dá um fecho, uma sensação de resolução à história - sempre achei que a Feiticeira não tinha expiado esse "pecado", e pelo menos essa história corrige isso e coloca-a num ponto em que quer procurar uma espécie de redenção.

Além disso, adoro os Young Avengers e divirto-me sempre a ler uma história deles. Esta não fica atrás - é boa, cativante, com bom ritmo, e cada vez mais complexa. Não me fez odiar ninguém dos envolvidos, o que não seria o caso com outros eventos como House of M, ou AvX. (Gosto contudo de como as coisas estiveram encadeadas nos eventos até AvX - consegue-se ver como umas histórias evoluem para as outras, e a evolução faz sentido. Não sei se é o caso nos "eventos" que a Marvel anda a deitar cá para fora agora.)

Hulk: Destruição Total, Jeff Parker, Gabriel Hardman, Ed McGuinness
Já disse aqui várias vezes que o Hulk é personagem que não me assiste, perdão, que não me cativa, ou que raramente conseguem escrever de forma a cativar-me. Contudo, esta é uma história que eu posso apreciar, nem que seja pela ironia.

Ora o General Ross, que tantos anos perseguiu o Hulk, é ele agora também um Hulk, o Red Hulk. A ideia em si é hilariante, pela forma obsessiva com que ele o fazia. Mas também achei divertida a ideia de como Red Hulk, ele ter feito asneiras desde o início, e neste volume ter de pagar - o Red Hulk é obrigado a cumprir missões nesse sentido, e é emparejado com personagens que sistematicamente querem dar cabo dele, devido a esses eventos. Pronto, e é uma narrativa que permite expandir-lhe um pouco a mitologia, e permite-me gostar do personagem em toda a sua resmunguice.

A história final é tão engraçada (e nada tem a ver com o resto), por obrigar o Hulk e o Red Hulk a trabalharem juntos duma forma inusitada. Hilariante.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Meg Cabot: Vanished, books 1 and 2

When Lightning Strikes / Code Name Cassandra

Páginas: 560 (edição omnibus)

Editora: Simon Pulse

Sempre tive muita curiosidade em ler esta série, mas como era mais antiga nunca tive a oportunidade, porque encontrar edições antigas é um aborrecimento até mais não. Mas estou muito contente por finalmente ter tido a oportunidade.

Porque a premissa é giríssima e tão interessante. A Jess é uma miúda normal até que um dia, a caminhar com a amiga para casa, refugia-se debaixo dumas bancadas para fugir a uma tempestade... é claro que o resultado seria ser atingida por um relâmpago. O que ela vai descobrir é que o relâmpago lhe deu poderes psíquicos: vê a foto dum miúdo desaparecido antes de dormir, sonha durante a noite com o seu paradeiro, e quando acorda sabe, simplesmente sabe, onde a criança está.

Uma das razões pela qual gostei tanto é a Jess. É uma heroína/protagonista e tanto; a Jess está sempre em sarilhos, sendo rápida a agir com os punhos e tendo uma queda para reagir impulsivamente e afogueada pela raiva - teria aquilo a que se chama anger issues. Tem uma queda pela velocidade. É definitivamente a protagonista Cabotiana mais subversiva e menos certinha, o que tem o seu interesse.

O primeiro volume apresenta a premissa, e Jess dá por si descoberta pelo FBI quando começa a telefonar para uma linha de apoio a desaparecidos para dizer onde estão os miúdos. E tenta dar uma hipótese aos federais, mas quando percebe o que eles querem que faça, põe-se na alheta.

É algo de curioso considerar: o livro foi escrito antes do 11 de Setembro e da paranóia terrorista e da privacidade, e por isso os personagens reagem de maneiras que não seriam válidas nos dias de hoje. A Jess de hoje nunca telefonaria de forma a ser tão facilmente identificada à linha de apoio; e também algo na atitude do FBI e dos seus agentes parece um pouco datada. Além disso, a Jess confia demasiado facilmente nos federais. (A Jess hoje seria mais desconfiada.)

O enredo podia ser mais complexo e mais preenchido: há coisas que não funcionam bem como estão escritas, como o facto de a Jess confiar tão facilmente nos representantes do governo, e depois mudar de ideias quase dum momento para o outro, sem explicação convincente na narrativa para a sua mudança de ideias.

Personagens que gostei de seguir: a família da Jess, que a apoia, especialmente o Doug, fragilizado pelos seus demónios, e o pai, que se preocupa com ela sem a atrapalhar; a Ruth, por ser um contraponto engraçado à Jess; e o Rob, o jeitoso por quem a Jess se interessa. (E que também se interessa por ela.)

O segundo volume foca-se numa ida para um campo de férias musical, onde a Jess será uma monitora. No último minuto, fica como monitora de um grupo de rapazes de 10 a 12 anos, e oh céus, é hilariante. Adorei como ela lidou com eles para os manter sossegados. E há um miúdo que lhe dá um trabalho especial por ser um rufiazinho, e é tão hilariante vê-la a dar-lhe a volta e dificultar-lhe o ele andar a fazer asneiras.

Neste volume o FBI ainda anda a segui-la: ela pode ter dito que perdeu os poderes no fim do livro anterior, mas não quer dizer que eles acreditem. E nos entretantos, encarrega-se de encontrar a filha de um senhor que a procurou no campo, por ter sabido das suas capacidades: desconfia-se que a menina foi levada pela mãe; e Jess não resiste a ajudar, especialmente sem antes saber se a menina realmente precisa de ser resgatada.

Neste esforço recruta o Rob para a ajudar, que passa o dia a conduzi-la dum lado para o outro - se isso não é prova do seu interesse por ela... mas eles não podem fazer nada quanto a esse interesse: o Rob já é maior de idade e aparentemente no estado do Indiana uma relação entre um maior de 18 anos e uma menor de 16 é contra a lei. (Ou era na altura. As pessoas naquela altura, no Indiana, andavam porventura à caça de relações ilegais nas escolas secundárias? Estou curiosa para saber que contornos tinha esta lei.)

O final do livro envolve mais uma partidinha do rufiazinho, e a Jess passa por um evolução dos seus poderes. Estou curiosa para ver o que se segue.

domingo, 16 de julho de 2017

The Girl with the Make-Believe Husband, Julia Quinn


Opinião: Ah, simplesmente amoroso. Acho bastante piada a este "truque" do romance, o do falso casamento, por forçar duas pessoas a uma intimidade que de outro modo não teriam, e gostei de como a Julia o explorou aqui.

Cecilia Harcourt acabou de ficar orfã. O pai morreu, deixando-a desamparada, e as suas hipóteses são casar com um primo detestável para poder ficar na casa de família, ou ir viver com uma tia. Num arremedo de coragem, a Cecilia procura outra opção: viaja para a América para encontrar o irmão, Thomas, que foi ferido nas lutas contra os rebeldes independentistas. Só que chegando a terra firme, nem tudo é fácil: o dinheiro está contado e Thomas não se encontra em lado nenhum.

No seu lugar encontra o Edward, amigo do irmão, ferido e inconsciente no hospital; e como não a deixavam vê-lo, a não ser que fosse de família, atreve-se a dizer que é sua esposa. Cecilia sabe que a armação vai acabar mal o Edward acorde, mas aí é que a porca torce o rabo, como o ditado diz: é que o Edward acorda sem memória dos últimos meses, e portanto não faz ideia do que aconteceu ou não entre eles. O balanço é precário: ela ajuda-o a recuperar, e ambos se focam em encontrar o irmão dela - mas este é um casamento falso que ameaça tornar-se verdadeiro...

Adorei mesmo esta premissa. A Cecilia e o Edward conheceram-se apenas por carta; ela enviava cartas frequentemente ao irmão e ele partilhava o seu conteúdo com o Edward, que ficava fascinado, e começou a mandar recados pelas cartas, até que o Thomas o começou a deixar escrever ele próprio os seus comentários. É tão fofo: eles nunca poderiam comunicar desta maneira sem o intermédio do Thomas (só se fossem noivos), e suspeito que o Thomas fazia isso porque tinha esperança que os dois se juntassem, ao perceber que tinham interesse nas palavras um do outro.

A minha parte favorita do livro, no entanto, é mesmo a questão do casamento falso: o início do livro é mais calmo, mas caiu-me bem, porque permite uma caracterização mais profunda dos personagens e das suas motivações. Por um lado, o Edward debate-se com a sua incapacidade, o problema de memória - o não se lembrar do casamento ou do que andou a fazer nos últimos meses; mas também tenta perceber os seus sentimentos em relação à Cecilia, e conclui que gosta da ideia de estar casado.

Por seu lado, a Cecilia detesta a mentira que contou, e esperava inteiramente já ter sido apanhada em falso; mas compreende que ter outro apelido, ser nora dum conde, faz uma diferença tremenda enquanto procura o irmão, e isso fá-la retrair-se de contar a verdade. É um pouco retorcido, mas é um sentimento tremendamente humano, assim como o é vê-la debater-se com o contar a verdade à medida que o tempo passa e ela e o Edward se envolvem emocionalmente.

Comete alguns erros, sim, mas não consigo evitar sentir compaixão por ela. A Cecilia foi muito corajosa em viajar e atravessar o oceano para encontrar o irmão, mas o livro é dolorosamente honesto acerca da posição duma mulher que ficou sozinha e sem família, sem poder social nenhum. Desamparada e num teatro de guerra, acredito que toma as acções que pode para sobreviver, tendo em conta as hipóteses que tinha. O coração dela está no lugar certo, e assim que pode cortar com a situação, fá-lo.

(Menção honrosa para a madrinha do Edward, esposa do governador de Nova Iorque e uma senhora com um feito determinado e tremendamente assustadora. Não admira que a Cecilia tenha caído para o lado ao conhecê-la.)

O final é tão excitante e divertido: clássico da Julia. É tão amoroso ao estilo comédia romântica, mas com uma pequena situação caricata pelo meio, que é mesmo típico dela. Fabuloso. (E o epílogo deixa no ar o destino do Andrew, o que me deixa incrivelmente intrigada.)

Enfim, gostei muito, identifiquei-me com a maneira como ela o escreveu. Gostei de ver um cenário um pouco diferente, e a reflexão e enquadramento dos dois protagonistas nele; gostei também de ver como tinha um dilema moral, em que o fazer a coisa certa choca com o que se precisa de fazer, e em como os sentimentos complicam tudo um pouco. (Não o fazem sempre em romance?)

Páginas: 384

Editora: Piatkus (Little, Brown Book Group/Hachette)

sábado, 15 de julho de 2017

Roar, Cora Carmack


Opinião: Gosto muito da Cora Carmack. Sempre tive a ideia que, mesmo tendo ela começado a sua carreira a escrever romance contemporâneo na categoria New Adult, o seu coração estava na fantasia. (Mais ou menos como o meu. Gosto cada vez mais de contemporâneo, mas fantasia é o meu favorito.) Não tenho a certeza se terei razão quanto ao favoritismo dela pela fantasia, mas estava brutalmente curiosa por lê-la no género, e por isso, este livro era algo muito antecipado.

O veredicto? Passei os dias da leitura completamente obcecada com ele. Nem consigo explicar porquê, exactamente: se pesar bem as coisas, há alguns aspectos que ela podia trabalhar melhor, ou pormenores que se fosse outro autor a fazer, eu já estava a trepar às paredes. (Ou a malhar nele.)

Só que há qualquer coisa na maneira como a Cora escreve. Ela escreve com uma honestidade e realismo emocionais; é possível identificarmo-nos com os seus personagens, com o seu percurso, e a sua caracterização é cativante e fantástica. Simplesmente, faz dos seus livros algo completamente imersivo para mim.

Este livro passa-se num mundo dominado por tempestades elementais; cheias de magia, há pessoas que se dedicam a derrotá-las e coleccionar a sua magia. Quantos mais tipos de tempestades enfrentarem, mais versáteis serão as suas capacidades. E oh, parece tão simples mas adorei este worldbuilding. Não é muito comum vê-lo ser construído desta maneira, e o seu conteúdo é fascinante. Só de imaginar as possibilidades! Estou enamorada.

Aurora é uma princesa de uma cidade-estado regida pela sua família. Só as famílias reais têm poderes mágicos para lidar com as tempestades, que se transmitem hereditariamente. (Ou assim a Aurora pensa.) O problema da Aurora? Ela não mostra ter nenhuma gota de magia. É um facto altamente escondido por ela e pela mãe, a rainha; e um casamento arranjado com um príncipe de outra cidade poderá resolver o problema delas, de quem protegerá a cidade das tempestades no futuro.

O enredo começa a rolar quando a Aurora descobre que as coisas não são bem assim, e que muito do que sabe sobre o mundo é errado ou cheio de lacunas. Isso faz com que ela fuja de casa e se junte a um grupo de caçadores de tempestades, e o mundo abre-se para ela num largo campo de oportunidades.

E aqui é que vem o ponto principal: gostei mesmo, mesmo da Aurora. Ela foi muito protegida toda a vida, e é ingénua e inexperiente nalgumas coisas, mas não é parva nenhuma. Sabe cuidar de si, é decidida, sabe procurar o que quer e precisa, sabe aceitar que não sabe tudo e procura aprender com quem sabe.

Nas mãos doutro autor, a ingénua seria uma parvinha; ou tentaria esconder a inexperiência com arrogância e ser uma personagem irritante. Qualquer destas abordagens é aborrecida para mim porque foi usada até à exaustão. Em face disso, o que a Cora faz é refrescante.

A Aurora pode não saber nem uma fracção do que há para saber sobre tempestades, e pode não ter experiência da vida fora do palácio; mas sabe defender-se, luta bem, tem uma curiosidade natural e educou-se extensivamente. Tem confiança no que sabe fazer, e tem confiança suficiente para aceitar o que não sabe fazer, e deitar-se a tentar corrigir isso. Adoro isso.

Outro aspecto meu favorito do livro é a relação da Roar com um dos caçadores de tempestades, o Locke. Ele é um pouco irritante em certas alturas, todo armadão em alfa, e fico feliz que na maioria do livro não embarque nisso, porque daria comigo em doida...

Oh, mas é tão divertido vê-los juntos. Começam de uma relação de, ermmm, "ódio", sempre a implicar um com o outro e a discutir (ao ponto de os outros caçadores se divertirem a observá-los), e quando damos por nós estão às beijocas a tentar perceber como é que lá foram parar. Este género de relações é tão divertida de acompanhar, e aqui é adoçada por ver que a Roar é incrivelmente capaz e impõe-se, defendendo as suas capacidades, e não deixando que façam gato-sapato dela. A maneira como o desafia é fabulosa e hilariante. (Especialmente pelas discussões deles.)

Em adição, gosto bastante do elenco de personagens secundários. A Nova é uma personagem fantástica, amiga da Aurora, mas que tem os seus próprios problemas, e gosto que a Cora lhe dê tanta densidade de caracterização. E o grupo de caçadores de tempestades é amoroso de seguir, e rico em caracterização e variedade, e adorei segui-los.

Se tivesse que apontar um defeito, apontaria para o desenvolvimento do enredo. A narrativa é muito claramente uma de descoberta e desenvolvimento, e não há nada de errado com isso; mas o arco de história maior da série é abordado muito pela rama: há demasiadas questões que podiam ser apresentadas, como o vilão, e as suas motivações, e o que se passa em Pavan, e as motivações da família real de Locke. Adoro intriga política, e podia tê-la desenvolvido mais, porque a história presta-se a isso.

Faltou-lhe preparar o próximo livro mais claramente; e gostaria que o fim fosse, bem... que não fosse tão aberto. Ou que fosse um cliffhanger, ou que fechasse mais a história. Os personagens ficam a meio duma transição, e é um pouco desconcertante, especialmente porque a Roar ainda não revelou a sua identidade aos outros, mas estão a encaminhar-se para Pavan novamente. (No entanto, estou mesmo curiosa para ver como isso vai decorrer.)

Em suma, passei os dias da leitura totalmente a fangirlar acerca do livro. Tem os seus altos e baixos, mas maioritariamente tem altos muito bons e que me caíram mesmo bem. A Cora escreve duma forma que ressoa comigo, e estou aqui a torturar-me com a ideia de esperar um ano pelo próximo livro. Sei que vai valer a pena.

Páginas: 384

Editora: Tor Teen

domingo, 9 de julho de 2017

O Coração de Simon Contra o Mundo, Becky Albertalli


Opinião: Awww, este livro é mesmo adorável e fofo... gostei mesmo de como a Becky decidiu escrever a sua história. Dá para perceber que ela passa (passou?) muito tempo à volta de adolescentes. A sua caracterização dos personagens no livro é fantástica.

Simon Spier é um rapaz de 16 anos. É gay e está bem resolvido quanto à sua sexualidade; apenas ainda não está preparado para sair do armário. Começou a trocar e-mails com alguém da sua escola, e está enlevado com o Blue, o seu correspondente, mas dele apenas sabe que é outro rapaz gay que também ainda não saiu do armário. Um colega da escola descobre a troca de e-mails, e chantageia-o com o objectivo de conhecer melhor uma amiga do Simon; a partir daí, todo o tipo de sarilhos pode acontecer.

Como disse, adorei a caracterização. Gostei muito de ler a maneira como a Becky escreveu o Simon: com as suas inseguranças e interesses, asneiras e dramas adolescentes. É um miúdo normal, e aprecio que não seja feito um dramalhão em torno da sua sexualidade. A exploração discreta da sua vida é muito mais interessante.

Gostei também da sua relação com os seus: os pais, os amigos... toda a gente comete erros, mas todos se adoram; e sair do armário, quando acontece, merece uma chuva de apoio e preocupação de todos. Por falar em sair do armário, gosto mesmo de como a Becky descreve a saída forçada a que o Simon é sujeito: a sensação de traição é algo com que todos nos podemos relacionar, independentemente da nossa sexualidade.

Em adição, acho interessante ver que não há um bullying exacerbado derivado desse momento: há bullying, sim, e vemos os professores preocupar-se e defender um dos seus alunos, mas também há uma série de microagressões, coisa com que qualquer minoria se debate no dia-a-dia, o que é bem realista.

Outro aspecto do Simon que achei amoroso: enquanto tenta perceber a identidade do Blue, encontra alguns rapazes que acha interessantes, desenvolve umas paixonetas por aqui e ali, mas desapaixona-se com a mesma rapidez. E apercebe-se que está mesmo encantado com o Blue pela pessoa que é, e que revelou ser ao longo dos seus e-mails.

Quanto à identidade do Blue... foi divertido tentar adivinhar. As pistas da Becky são subtis, mas estão lá, e permitem ao leitor lá chegar. Também é engraçado tentar ver o Simon lá chegar: especialmente porque a certa altura ele se queixa que heterossexual é visto como a norma, e depois a identidade do Blue fá-lo confrontar-se com uma norma que o Simon assume, relacionada com outra minoria. Ser parte de uma minoria não o protege de ter as suas ideias pré-concebidas, o que é interessante de ver.

Bem, em suma, consigo definitivamente ver de onde vêm as comparações à Stephanie Perkins ou à Rainbow Rowell. A Becky é capaz de escrever livros igualmente adoráveis, e tem o potencial de vir a tornar-se uma favorita como as outras autoras. Faltou-lhe um bocadinho assim (sinto que o enredo devia ser mais "preenchido", mais convoluto para chegar ao que faz das outras autoras minhas favoritas), mas é definitivamente uma autora a ter debaixo de olho.

Uma última nota: não tenho exactamente queixas em relação à tradução... mas não consegui deixar para trás a sensação que devia ter lido isto em inglês. Creio que perdi uma ou outra piada por não estarem no contexto e/ou língua original.

Título original: Simon vs. the Homo Sapiens Agenda (2015)

Páginas: 248

Editora: Porto Editora

Tradução: Miguel Marques da Silva

sábado, 8 de julho de 2017

Curtas BD: Mulher Maravilha, volumes 1 a 3

Mulher Maravilha: Terra Um, Grant Morrison, Yanick Paquette
Hmmm. Posso não ter lido muito da Mulher Maravilha na minha vida (esperançosamente isso vai mudar no futuro), mas não seria isto que eu escolheria para recomendar a outrem uma história que conte um regresso às origens da personagem.

Quero dizer, o Grant Morrison tem a distinção de ter escrito o pedaço das revistas do X-Men que mais marcou a minha leitura dos personagens... e aqui tem a distinção de fazer uma leitura da personagem que retorna às origens e ao que o criador estava a tentar fazer (a questão da submissão).

Mas por isso mesmo, não me parece adequado dar isto a alguém que não conheça a personagem (ou que, como eu, se tenha dado ao trabalho de investigar e ler um pouco sobre a mesma e o seu criador). Além disso, tenho algumas dúvidas quanto ao retrato feito de Themyscira - em partes parece mais a fantasia masculina daquilo que uma ilha só com mulheres seria. Não me parece que concorde com a interpretação de como a sociedade Amazona seria em certos aspectos.

Adicionemos ainda uma certa falta de tacto - o Steve Trevor é um homem negro, o que poderia ser uma ideia interessante, mas aquilo que representa acaba por ser demasiado pouco subtil - e a falta de tacto revela-se numa cena em que a Diana pede ao Steve para se submeter... usando aquilo que há cento e tal anos seria um instrumento de tortura e de controlo de escravos negros.

A arte é bonita, interessante, cativante visualmente. Tem uns momentos menos bons, mais estáticos, em que dá um ar porno à Diana, o que não faz sentido algum. E bem, em contrapartida o livro tem a recomendação de mostrar uma Diana ingénua, inexperiente no mundo dos homens, o que é curioso de acompanhar.

Mulher Maravilha: Um Por Todos, Christopher Moeller
Ok... a premissa da narrativa em si parece um pouco estranha. Eu sou uma moça da fantasia, mas vê-la cruzada com a Mulher Maravilha (na verdade, é ver fantasia misturada com super-heróis) é desconcertante.

No entanto, a história em si é muito boa. Os aspectos SFF são fascinantes, bem clássicos, o que é reconfortante. E gosto muito do tema em torno da protagonista, sobre sacrifício e as escolhas difíceis que tem de fazer, deixando os que a rodeiam de fora. (Gostei de ver como dá a volta a todos os membros da JLA. Tenho a sensação que ela não se safava tão facilmente com uma mulher.)

A arte é bem bonita - já tenho mostrado que sou fã deste estilo pintado, apesar de não ser o melhor para as cenas de acção (é algo estático), que neste tipo de história abundam.

Mulher-Maravilha: Hiketeia, Greg Rucka, J.G. Jones
Pronto, aqui a história é muito, muito, muito boa. A Diana aceita um pedido de Hiketeia de uma jovem que sente não ter escolhas, e tenta ajudá-la, por muito turvo que o seu passado tenha sido. É uma história que mostra o espírito da Mulher Maravilha, determinada e corajosa e protectora e preocupada. Só que neste caso em particular aceitar a Hiketeia leva a que fique num campo oposto ao do Batman, que procura a jovem para a fazer pagar pelos seus crimes.

É uma bela história que mostra que não há só preto e branco, há nuances e tons de cinzento no que toca a moralidade - o Batman tende a assumir mais a primeira perspectiva e a Mulher Maravilha inclina-se mais para a segunda. A jovem teve as suas razões para praticar alguns actos terríveis, e é de partir o coração perceber sequer o porquê de ela ter sentido que devia fazê-lo.

O tema grego é prevalente, na aparição das Fúrias e do conceito de Hiketeia, mas também pelo modo como a narrativa está apresentada ao estilo duma tragédia grega. E como todas as tragédias gregas, parece encaminhar-se para um fim tremendo...

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Uma nota final às edições. A colecção anterior da Levoir, sobre os vilões da DC, não tinha introduções, que fizeram falta, e por isso gosto de vê-las reaparecer e de ver textos mais aprofundados. No entanto, entristece-me perceber que as edições são mais caras, mas mais curtinhas. Entendo que a relação entre preço, tamanho e tiragens não é linear; uma colecção da Mulher Maravilha será vista como mais arriscada, as tiragens serão menores, os preços maiores... mas mesmo assim, gostava de ter visto um esforço para fazer render o esforço monetário do leitor. Ou então, que a série não soubesse tão a pouco, tendo apenas cinco volumes.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Este mês em leituras: Junho 2017

Ah, mês de Junho, bane of my existence. Recheado de um sem número de coisas que me distraiu e impedir de postar aqui no blogue tanto quanto gostaria. Mas ei, as leituras estiveram muito bem, e ainda tive tempo para fazer uma semi-releitura do Lady Midnight e postar a opinião que devia ter sido escrita há... 15 meses? Oh céus. O tempo passa demasiado depressa. *considera tornar-se eremita*

Livros lidos


Opiniões no blogue


Os livros que marcaram o mês

  • Isto Acaba Aqui, Colleen Hoover - parece-me ser o melhor dela até agora, porque apesar do tema "pesado" (eh, na verdade a Colleen não conhece outro tipo de temas), ela consegue desenvolver a história com nuance e com honestidade emocional, e isso ressoa com o leitor;
  • O Coração de Simon contra o Mundo, Becky Albertalli - raios, este é amoroso, gostei mesmo da personalidade do Simon, da história, e da maneira como a autora escreve: simples, mas cativante;
  • Roar, Cora Carmack - passei os quatro dias desta leitura completamente obcecada com o livro... há qualquer coisa na maneira como a Cora escreve os personagens dela que é tão emocional e relacionável, e para cúmulo adorei o worldbuilding disto e agora terminei e quero mais;
  • The Girl With the Make-Believe Husband, Julia Quinn - para juntar à festa, outra leitura que me encheu completamente as medidas - não há muito que inovar com romance histórico, mas se se contar uma boa história... gosto deste tipo de narrativa, e sinto que a Julia conseguiu criar a atmosfera emocional necessária para a mesma.

Outras coisas no blogue

  • Hmmm nope.

Aquisições

Compras da feira do livro! Cada vez mais escassas, porque honestamente já não há assim tanta coisa que me falte juntar à To Be Read list. O livro dos gatos e o do cérebro vieram cá para casa porque me pareceram giros. O da Deborah Harkness porque assim já tenho a trilogia e posso ganhar vergonha e acabá-la. O A Cidade do Fogo Celestial para completar a minha colecção em português.

Os livros do Michel Faber e da Kate Atkinson porque, bem, pareceram-me interessantes quando foram lançados, mas tenham paciência, mais que 20 euros por um livro é estar a pedi-las, ninguém vai comprá-lo e depois é claro que vão ter de metê-los na secção dos preços especiais/descatalogados/usados/whatever. (Que foi onde os comprei.) E o do Sherlock Holmes porque me pareceu interessante e uma leitura que estaria a jeito no futuro. Se eu entretanto arranjar maneira no meu calendário de leituras muito ocupado de fazer uma (re)leitura do cânone sherlockiano...

A banda desenhada comprada durante o mês, que faz parte das duas colecções que estava a acompanhar: Mulher Maravilha e Graphic Novels Marvel. Fora isso, em inglês temos autoras que estou a acompanhar (Meg Cabot, Julia Quinn e Cora Carmack), e um livro que cacei com um desconto jeitoso (argumento de Fantastic Beasts and How to Find Them). Em português, aquisições feitas com desconto em cartão.

A ler brevemente

O resto da colecção da Mulher Maravilha. O tal argumento do filme, se eu conseguir pôr as minhas mãos num DVD do mesmo e puder fazer uma leitura acompanhada ou algo do género. O livro da Emily Barr, para terminar de ler as minhas aquisições do mês. Oh, e espero receber aqueles três títulos (escritos na foto) durante o mês, e proceder a lê-los. E se os céus forem bons para mim, vou finalmente ler o All Closed Off da Cora Carmack.

Também: um livro qualquer da Cassandra Clare. Queria que fosse o Lord of Shadows: a internet é uma vaca e há sempre alguém que consegue spoilar-nos - exemplo, o mais que consegui passar sem ser spoilada recentemente foi a temporada 4 de Sherlock, por cinco meses. E no outro dia um estúpido achou por bem falar liberalmente dum ponto do enredo da temporada num post sobre algo nada relacionado com Sherlock.

Yep. Eu não vou escapar no que toca ao LoS. E por isso gostava de ler esse, mas também cheguei à conclusão que 2 anos é muito tempo até chegar ao próximo livro da trilogia, e não sei se aguento. Daí a minha ideia de ler as antologias primeiro. Mas pronto... o candidato mais provável é o LoS, mesmo. (É que me dá urticária, a ideia de ser spoilada no que toca a este livro.)

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Fala-me de Um Dia Perfeito, Jennifer Niven


Opinião: Ah, estão tão cansada das comparações ao John Green. Pior, estou cansada dos livros que são escritos à moda do John Green, tentando preencher um nicho. John Green só há um, que faz o que faz com relativo sucesso e mestria, e tentar imitá-lo só vai, na minha opinião, dar asneira.

Digo isto porquê? Porque apesar de ter apreciado em parte a leitura, passei demasiado tempo a exasperar-me com a tentativa da autora de seguir a fórmula Greeniana. Ora vejamos: os dois protagonistas conhecem-se num cenário inusitado - ambos estão na torre da escola, a contemplar o suicídio. Só que o Finch vê a Violet ali mesmo ao lado e distrai-a e demove-a de seguir com um plano que ela própria não tinha pensado em toda a sua extensão.

Depois, temos a maneira como o enredo se desenvolve: é vazio. Não se pode propriamente dizer que alguma coisa acontece. E os personagens são pequenos flocos de neve preciosos, excêntricos só pelo objectivo de serem diferentes, não por terem uma personalidade rica.

A Violet, por exemplo, pareceu-me vazia, como personagem. O que a determina é a tentativa de suicídio, o seu processo de luto, e a suposta depressão que terá por causa disso. No entanto, ela é caracterizada de forma tão fraca que nunca, bem, achei credível qualquer parte deste processo.

Adoraria poder ter visto uma caracterização de depressão bem feita, mas lamento, quando a rapariga é inspirada a melhorar pelas interacções com o Finch? Não que a interacção com os outros não permita que alguém no estado da Violet não melhore, mas o processo mental de a pessoa melhorar por si mesma nunca é sublinhado, e assim parece que o Finch é o motor disso. O que é totalmente errado. Não são os outros que nos curam, não é o amor que resolve tudo.

Pronto: enredo fraco (durante um bom bocado no início falha em captar a atenção), caracterização fraca e a soar falsa, uma escrita pseudo-bonita a soar a vazia. Que tem este livro a favor dele?

Maioritariamente, o Finch como personagem. Aliás, este livro seria dez vezes mais interessante se o Finch fosse o protagonista e se nos focássemos na sua caracterização. Ele é intenso e demasiado in your face no que toca à Violet, sendo desconfortavelmente impositivo. Mas a maneira como se interessam pelo outro, a sua química, é cativante de ver (ou ler).

Além disso, a sua caracterização no que toca à sua saúde mental é algo muito interessante de ler. As descrições do que lhe acontece, do que a sua mente lhe faz... e a envolvência de ele ter uma doença mental e ninguém o reconhecer. É assustador ver o desleixo da família, o bullying que sofre, a incompreensão de que a doença mental também existe nos jovens, e a incompreensão da doença em específico que o Finch sofrerá (nunca é diagnosticado, mas o livro sugere que é doença bipolar, e a caracterização aponta para isso).

(É claro que com isto algumas atitudes dos que o rodeiam são um pouco extremas e incredíveis. Com a mãe e o pai há razões para não verem que está doente, mas e a irmã Kate, que encobre os seus momentos depressivos? Faria sentido vê-la tentar ajudar o irmão. Ou a sério que ninguém na escolta tenta parar os extremos a que vai o bullying? Quer dizer, o jornal extraoficial da escola publica um artigo sobre as pessoas mais prováveis de se suicidarem na escola. Não me tentem fazer crer que pelo menos alguns dos professores não estariam cientes do mesmo. Em suma, acho altamente incredível que não houvesse alguém que tentasse ajudar o Finch, ainda que sem sucesso.)

O final, apesar de tudo, é chocante e cru, é triste. É inevitável e envolvente. É o reconhecimento que o amor não resolve tudo. Apreciei que a Violet tentasse ajudar da maneira que pudesse, que no caso, vendo-se incapaz de ajudar directamente, consistiu em pedir ajuda aos pais. É um bom reconhecimento que nesta idade não somos capazes de tudo, e podemos e devemos pedir ajuda quando estamos assoberbados.

Sofre de alguma Greenite na recta final, mas é marcante. E franzo o sobrolho um pouco às implicações de que o Finch mudou a Violet, a transformou e colocou no caminho do melhoramento - de novo, não são os outros que nos salvam, somos nós mesmos que o fazemos.

Contudo, redime-se em parte das muitas fragilidades que apresenta. Podia estar melhor escrito, ser uma melhor história? Podia. Mas é o livro que temos em mãos. Só me resta desejar que a autora aprenda e tenha escrito um melhor segundo livro YA. (Que também já está publicado, e se chama O Universo nos Teus Olhos.)

Título original: All the Bright Places (2015)

Páginas: 360

Editora: Nuvem de Tinta (Penguin Random House Grupo Editorial)

Tradução: Isabel Veríssimo

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Brave New Girl, Rachel Vincent


Opinião: Uau, isto é mesmo o estilo de livro que se está a tornar marca da Rachel Vincent, ultimamente. Curtinho, mas empacotando uma riqueza de material fantástica, um enredo preenchido e envolvente, temas fascinantes que colocam questões a debater, personagens que cativam e dão gosto de acompanhar.

Neste mundo, em cada ano e em cada área de emprego (gestão, trabalhadores, soldados, cientistas, artistas, ...), há um genoma que é trabalhado e replicado em números contidos ou vastos, conforme a área e as necessidades da cidade. Cada genoma gera assim uma unidade de gente, e cada pessoa dessa unidade usa a mesma cara, as mesmas características físicas, aproximadamente, mas um nome diferente, normalmente relacionado com o emprego para o qual vão ser preparados durante o seu crescimento, em adição a serem referenciados por um número que indica os anos que passaram desde o nascimento da unidade - a sua idade, por assim dizer.

Dahlia 16 tem, como o seu nome indica, 16 anos. Está na unidade de trabalhadores, a ser treinada para ser uma jardineira hidropónica. Para ela é reconfortante ser mais uma num mar de iguais. Porque todas as suas "irmãs" da sua unidade usam a sua cara, mas têm pequenas diferenças de personalidade, pequenas idiossincrasias. São as suas melhores amigas, as jovens com quem partilha a sub-unidade de jardineiras.

Mas Dahlia sente orgulho no seu trabalho, e questiona-se sobre o que a rodeia. Sabe que é uma característica não desejável - se for descoberta, pode vir a condenar a sua unidade. Uma imperfeição numa jovem pode ser uma imperfeição em todo um genoma, e um genoma defeituoso é "retirado" (três tentativas para adivinhar o que isso implica).

A narrativa começa a desenrolar-se quando Dahlia fica presa num elevador com um jovem soldado, e a sua curiosidade leva-a falar com ele, mesmo sabendo que é proibido. E uma série de encontros e uma curiosidade crescente levam a que Dahlia comece a descobrir uma série de segredos que explicam o mistério de Lakeview - porque esta cidade de genomas tem mais do que se lhe diga.

O título é uma homenagem clara a Brave New World, e de certo modo, a história em si também o é. Ambas as narrativas preocupam-se com a capacidade de criação da humanidade no que toca a manipulação genética, e como isso afecta a vida em sociedade - apenas o fazem de maneiras ligeiramente diferentes. De qualquer modo, as questões que Brave New Girl levanta são fascinantes.

Gostei muito de acompanhar a Dahlia através das suas dúvidas e daquilo que vai descobrindo do seu mundo. É curiosa, mas tem medo de condenar as jovens do seu genoma. E só quando a sua mão é forçada é que se lança à procura da verdade - a tragédia é um excelente motivador, e Dahlia fica determinada em saber o porquê.

Também gostei muito de poder levantar a ponta do véu e começar a descobrir o que realmente se passa em Lakeview, e a sua relação com as cidades envolventes. É pesado e assustador, mas adoraria saber o que levou a sociedade a instalar este sistema. Traz muitas questões sobre os direitos em sociedade de alguém como a Dahlia.

O final mostra que isto é só o início de algo grandioso; é quase cliffhangeresco, não por deixar os personagens em perigo imediato, mas por deixá-los à beira dum momento que adoraria ver desenrolar-se. Promete ser divertido. E está mesmo feito para vir a dar molho. Ah... lá vou eu ter de esperar mais um ano.

Páginas: 272

Editora: Delacorte Press (Penguin Random House)

terça-feira, 27 de junho de 2017

Isto Acaba Aqui, Colleen Hoover


Opinião: Portanto, mais um para a minha história dos Altos e Baixos Com a Colleen Hoover. Neste caso, orgulho-me de dizer que é um alto. Muito alto. Emocionalmente, criativamente, tecnicamente, é o livro mais complexo e mais completo que lhe vi. Tem um par de coisas que gostava de ver mais desenvolvidas, mas é extraordinário na maneira como dá nuance a uma situação que tão frequentemente é (erradamente) simplificada.

Estava aqui a perguntar-me... é suposto fazermos caixinha acerca do que o livro é? Porque a sinopse original é muito vaga, sim - enquanto que a portuguesa é bastante óbvia -, e de qualquer modo, acho que eu já sabia do que tratava só de ler opiniões por aí. E de qualquer modo não acredito que se ganhe nada por ser uma surpresa. (Até é interessante o leitor ir com os seus preconceitos para a leitura, para os ver desafiados.)

Lily é uma jovem que acabou de se mudar para Boston, para recomeçar a vida. A vida familiar não era de sonho, e a morte recente do pai tornou mais presentes memórias passadas. Um dia, sentada num telhado dum prédio, a pensar, Lily cruza-se com um jovem neurocirurgião, Ryle, que à primeira vista aparenta estar a descontar um mau dia numas cadeiras, que pobrezinhas, não lhe fizeram mal nenhum.

Ryle é encantador e misterioso, e Lily faz clique com ele. Um momento partilhado faz com que seis meses depois, com uma ajudinha da serendipidade, se cruzem novamente e decidam encetar uma relação. É intenso, é emocionante, e absorvente.

A parte interessante de ver a sua relação desenvolver-se, no entanto, é poder fazê-lo de fora. Desde o início que Ryle mostra alguns sinais alarmantes no que toca à sua personalidade - a sua cena inicial podia ser desculpável, qualquer pessoa tem momentos de frustração... mas pareceu-me que ele tinha demasiado gosto em deixar a Lily pendente com a sua coisa de não ter relações mas andar sempre atrás dela, tipo abelha em torno do mel. Há certas atitudes meio controladoras que ele tem no início da sua relação, que são preocupantes para quem vê de fora - mas que facilmente passam ao lado para quem está enlevado, nos píncaros da paixão.

E é esse, creio eu, precisamente o objectivo, o argumento do livro. (O que a autora estaria a tentar mostrar, quero eu dizer.) É muito fácil julgarmos de fora. ("Porque é que ela continua com ele?") Vejamos a Lily, que teve um exemplo muito claro em casa do que não é uma relação amorosa estável e saudável em casa... ela conhece os sinais. E mesmo assim cai na armadilha. O amor faz-nos coisas estranhas. Coloca-nos umas palas nos olhos que nos deixa cegos a muito, e oferece-nos uns óculos de lentes cor-de-rosa que nos fazem teimar em ver sempre o melhor.

Gosto de ver a Colleen pôr as coisas nestes termos. Todos podemos cair na armadilha. Todos podemos decidir perdoar e perdoar até a situação se tornar incomportável. Mas só nós podemos reconhecer o ciclo vicioso e quebrá-lo.

Outras duas coisas que achei interessante de ver: como a Lily entende melhor a mãe depois de passar por tudo isto. Há um respeito extraordinário pela senhora, e uma cena no fim com ela é bem tocante. E como toda a situação é descrita com nuance: entendemos porque o Ryle reage como reage, mas isso nunca é uma desculpa para o seu comportamento, que é descrito de forma muito clara como errado. E quando a Lily entende que não pode tolerar mais a situação, porque o amor não é suficiente e tem a quem dar um melhor exemplo que recebeu da mãe... não há desculpas. Há um entendimento que nada é simples, que haverá sempre ali uma ligação, mas que isso não justifica tudo o resto.

Gostava ainda de fazer uma menção à Lily... fora desta situação, ela tem um sonho, e segue-o. E é bem-sucedida a fazê-lo. Nada é mais inspirador que isso. E outra menção aos personagens secundários... adorei a Alyssa e o marido, tão amorosos e engraçados.

(E já agora, aiaiai, a Colleen e a sua paixão por nomes estranhos. Ryle, Alyssa, Rylee, Atlas... a sério? As pessoas na vida real não se chamam assim.)

Uma última menção para o Atlas. Não bastava ter um tema inspirador, era preciso dois. Atrevo-me a dizer que a Colleen foi demasiado ambiciosa. Gosto muito que ela tenha abordado a história do Atlas. Chama a atenção para uma situação por que demasiada gente passa, e que é tão fácil se perderem nos meandros do sistema...

Pergunto-me no entanto se não daria para escrever um segundo livro com a sua história. o que ele andou a fazer quando se separou da Lily, e acho que faria mais sentido nesse volume eles se reconectarem a sério.

Uma menção para a tradução, e não é das melhores... não aprecio quando os tradutores deixam que a cultura popular lhes passe ao lado e façam algumas asneiras a lidar com as menções a ela. Exemplo: traduz-se SpongeBob (o que me parece desnecessário), mas depois não se traduz Dory (há muitas menções a À Procura de Nemo) por Dóri, que é como a personagem é conhecida em Portugal. Entre outras coisas... enfim.

Título original: It Ends With Us (2016)

Páginas: 336

Editora: Topseller

Tradução: Dina Antunes

sábado, 24 de junho de 2017

Meg Cabot: Allie Finkle, volumes 4 a 6


Páginas: 240 / 208 / 240

Editora: Scholastic

E a "amorosidade" destes livrinhos continua. A sério, adoro a maneira como a Meg entra na cabeça duma menina de 9-10 anos. Faz mesmo sentido, em termos narrativos. As preocupações, os dramas, as pré-concepções, os erros, as piadas, a simplicidade da vida quando se tem essa idade, a responsabilidade de ser a mana mais velha, como se age com os seus pares. Muito giro.

O quarto volume, Stage Fright, é sobre uma peça que a turma vai encenar: foi a professora que escreveu e é sobre reciclagem, mas contada ao modo de um conto de fadas. Tem uma princesa como protagonista, e a Allie, como todas as meninas na turma, quer ser a princesa. Mas entre as suas amigas, a Sophie é considerada a candidata ideal, e a Allie não se acusa quanto ao seu desejo.

Depois de lerem para os papéis, Allie é escolhida para o papel da Rainha Má, o que a desaponta; mas o melhor de tudo é que ela descobre que é uma boa actriz, e que dando um tom cómico ao papel, consegue cativar as pessoas que vêem a peça. A história também é interessante porque mostra a Allie e as amigas a gerir egos e a ser um pouco, er, dramáticas.

Glitter Girls and the Great Fake Out é o quinto volume e foca-se num convite que a Allie recebe: para ir à festa de anos da Brittany, uma menina menos simpática da sua antiga escola. Seria um não óbvio para a Allie, excepto quando descobre que a festa vai ter todo o tipo de extravagâncias que a Allie queria experimentar.

A piada do enredo foca-se em dois pontos: a Allie tencionava, no dia da festa, acompanhar as amigas a um evento de majorettes em que a irmã mais velha de uma delas entrava (a Allie queria muito ir); mas acabar por inventar uma mentirinha e dizer-lhes que está a ser obrigada a ir. (E a mentira não fica completamente esclarecida, o que achei interessante. A Allie é honesta só até certo ponto, o que achei refrescante, ela aprender sobre mentir e tentar resolver as coisas sem magoar sentimentos.)

O segundo ponto... é que a coisa resulta mal. As meninas na festa (à excepção duma) são bastante más para ela e a Allie não se diverte, mesmo desejando tanto fazer aquelas coisas. E também isso é interessante, ela aprender a gerir a situação e como retirar-se dela.

O sexto volume (Blast from the Past) é sobre uma visita de estudo que a turma da Allie vai ter. A desvantagem é que vão partilhar a visita com o quarto ano da antiga escola da Allie. Onde estão as meninas más, a Brittany e a Mary Kay (também conhecida como a ex-amiga chorona).

Foi tão divertido, ler sobre o encontro entre turmas, e o choque entre alunos. As meninas más da antiga turma chocam com a Cheyenne e as meninas más da nova turma, o que foi hilariante de acompanhar. Além disso, a Allie tem azar com o grupo em que fica para o dia, e acaba com os dramáticos todos de ambas as turmas.

O que acaba por ser engraçado, por vê-la gerir os egos e os dramas entre personalidades tão diferentes. (Tenho pena do Joey, que é tão fofo mas acaba numa posição vulnerável. E destaque para o Scott e a sua mudança de atitude.)

Em adição, a Allie tem de lidar com um potencial sentimento de perda, pois a professora fica noiva e a Allie acha que ela vai mudar de casa e deixar de ser sua professora. E também temos o Mewsie, o gatinho da Allie, que "foge" e se esconde nas entranhas da casa (porque encontra um canto confortável), e a Allie tem de lidar com a ansiedade e a preocupação com o gato. (Por fim: este livro não me soou a um livro final. Parece ter bastantes pontas soltas que poderiam ser exploradas em livros futuros. Que estranho.)

domingo, 18 de junho de 2017

Era uma vez...: Lady Midnight, Cassandra Clare


Opinião: Já passou um ano? MEU DEUS, JÁ PASSOU UM ANO??? (Tecnicamente, passou um ano, dois meses, duas semanas e quatro dias desde que terminei este livro. Não que esteja a contar.) Passei o dia de hoje a folhear este mesmo livro, a rever as minhas notas amorosamente escritas em post-its e coladas nas páginas (em 10% nem consegui decifrar exactamente o que tinha escrito, mas pronto), e a rever as minhas notas finais, escritas num bloco.

Terminei essas notas desesperada com a perspectiva de esperar um ano, mas é claro que esse ano passou, e só tenho pena de não ter escrito a minha opinião na altura, mas às vezes os livros são tão bons que temos de os guardar para nós um bocadinho. Nem sempre me é fácil ganhar coragem para desbobinar tudo e mais alguma coisa sobre o que achei do livro, sabendo que vou discorrer por milhentos parágrafos. (Mas agora até não estou a ter dificuldade nenhuma, tendo o livro refrescado e tão presente na minha mente.)

Um ano passado, o que posso dizer principalmente é isto: estou impressionada. Muito bem impressionada. A Cassandra Clare tem evoluído como escritora; estes já não são aqueles simples livros de fantasia urbana (nunca foram, para mim), a complexidade das histórias, do mundo, do enredo tem crescido fabulosamente; os desafios que ela se tem proposto têm aumentado e a maturidade com que ela aborda certas coisas é bem maior.

Além disso: esta série tem tudo para ser a minha favorita dela, não só pela complexidade que se adivinha. Entre todas, esta é uma carta de amor aos que não encaixam. Os que são diferentes, os que perderam e foram quebrados e se reconstruíram a si próprios. Os desamparados, e os que não deixaram que a tragédia os definisse. Toda a gente do elenco principal tem uma vulnerabilidade por não encaixarem na norma ou não poderem pedir ajuda quando se vêem assoberbados, e por vezes é de partir o coração.

No centro disto: a família Blackthorn. Parecem ter já uma longa relação de desconfiança para com a Clave (veja-se o seu motto, "uma má lei não é lei nenhuma"), mas na geração actual, uau, quão traídos foram pela Clave. O Mark e a Helen estão afastados da família pela desconfiança para com os faerie, perderam a mãe e depois o pai na Dark War, a família está como que abandonada, quase exilada em Los Angeles. Pior, ninguém deu conta que estas crianças estão sozinhas e desamparadas. Ninguém se importa. Pelo modo como a Clave opera, frio e impessoal, esta família viu-se encurralada, levados a extremos para sobreviver.

Esse isolamento não os impediu de florescer, no entanto. A desconfiança para com a Clave e o mundo Shadowhunter significa que usam tecnologia humana/mundana, como computadores e carros, o que faz deles pessoas melhor preparadas para interagir com o mundo actual. E são uma pequena grande família às vezes triste, às vezes disfuncional, mas que se adora e se protege mutuamente, e cada momento em família também pode ser divertido, como só as famílias conseguem ser.

Dentro e fora da família, há tanta gente que poderá ter um estatuto de outsider... temos a Diana - cujo segredo eu já sei, porque o Buzzfeed fez o favor de me spoilar ao publicar um artigo com a autora sem avisar que tinha spoilers para o livro mais recente... -, e bem, só fico contente de saber o segredo em questão porque dá uma dimensão diferente ao seu comportamento e às menções veladas que a autora faz. Ainda não sei o porquê de tudo, mas saber que cuida dos Blackthorns como pode tendo os seus próprios problemas... gosto ainda mais dela.

Temos a Cristina, que vem para Los Angeles para lidar com um coração partido... e adoro a Cristina pela sua fé, e por ser uma guerreira, e por ser inabalável e firme e uma pessoa em que se pode confiar para gerir uma crise. E por ser compassiva e querer fazer do seu mundo um lugar melhor. E temos o Malcolm Fade, que usa uma cara de desastrado e inconsequente e benevolente para esconder um desgosto inabalável.

No meio dos Blackthorns, destaque para duas pessoas. Uma é o Ty, que tem uma caracterização fantástica e respeitosa, parece-me, do que o mundo é para ele, de como se relaciona com o mesmo, e de como isso não o diminui nem às suas capacidades. A vida será sempre um bocadinho mais difícil para ele, especialmente no seio dos Shadowhunters, mas ele cresceu amado, e teve sempre quem o tentasse entender e facilitar o seu crescimento e entrosamento com o mundo.

Outra é o Mark. O seu retorno é doloroso. Passou tempo com os faerie, e isso mudou-o. Passou muito às mãos deles, e isso mudou-o também. O reajustar a esta vida é difícil para ele (também tem os seus momentos divertidos), não entende nada do mundo moderno, nem das convenções sociais humanas. Não está num lugar em que possa ser o responsável, apesar de tecnicamente ser o mais velho. Mas tem uma personalidade fantástica, e o seu lugar único traz-lhe desafios que vou gostar de acompanhar.

Quanto à nossa protagonista: ah, a Emma é uma delícia. Uma herdeira natural do sentido de humor (e até um pouco do feitio) do Jace e do Will. Mas a Emma é muito mais que isso. Determinada a resolver o assassinato dos pais, pois não acredita na história oficial; a Emma dedicou-se a treinar e treinar e treinar... pode não ter sangue angélico como o Jace, mas ela vai ser a melhor Shadowhunter que pode, e que ninguém se atreva a dizer-lhe que não pode. O melhor dela é que tem um feitio muito menos torturado; a Emma é orfã mas cresceu parte duma família, os Blackthorn, e isso permitiu-lhe sentir-se amada, parte de algo. Gosto bastante da sua leveza. Oh, e adoro a sua amizade com a Cristina. Adoro ver amizades femininas fortes, e que parecem quase sem esforço. Estas duas são capazes de levar tudo à frente, mas apoiam-se mutuamente.

Quanto ao Julian: oh, céus. Se tivesse de escolher um favorito entre todos, tinha de ser ele. Há uma complexidade incrível na maneira como o Julian compartimentaliza as coisas. É o Shadowhunter guerreiro que se espera dele. Mas também é o rapaz gentil e aquele que assumiu o papel de cuidador da família, e é de partir o coração, entender que um rapazito de 12 anos assumiu um fardo bem mais pesado do que alguma vez se deva pedir a alguém da sua idade. E ele fá-lo com um sorriso no rosto para toda a gente, raramente se vendo o quanto lhe custa, negar-se a si próprio. E tem ainda uma faceta, que é deliciosa e aterradora para alguém com 17 anos - o estratega, a mente cheia de artimanhas e astúcias, que aprendeu ao longo de anos a enganar gente bem mais velha que ele. Aquilo que ele faz no final? Brilhante, e de mestre.

Quanto aos dois juntos: é muito interessante ver a sua relação. Neste caso, é pré-existente, ao contrário das séries anteriores da autora. Cresceram com uma posição de responsabilidade quanto aos mais novos, e a relação de amizade e de parabatai que se construiu está cheia de cumplicidade e piadas partilhadas e de conforto na companhia um do outro. Mas é claro que há outros sentimentos... "engarrafados", e quando explodem... uau. O Julian está ciente disso há muito, mas a Emma, pobre alma abstraída e obcecada com ser a melhor guerreira, só agora está a aperceber-se da coisa... é claro que sendo um livro da Cassandra, há um impedimento. A ligação parabatai. Mas sendo a Cassandra, sei que ela vai encontrar uma forma de desatar o nó que deu. Depois de, muito apropriadamente, nos partir o coração de caminho, vezes sem conta. Claro.

Temas deste livro (para além do que já falei) que gostaria de destacar: como os Shadowhunters tratam a diferença. Os nossos personagens estão dolorosamente cientes disso, infelizmente. A Clave está numa trajectória de mostrar cada vez mais a sua face, a sua intolerância e intransigência e injustiça, e por mais que tentem, uns poucos indivíduos a pensar de modo diferente não conseguem milagres da noite para o dia. A Clave não aprende nada com a história, seja a humana, seja a deles, e a "Guerra Fria" com as fadas só vai escalar até explodir.

Há maneiras novas de ver os parabatai e - para além da óbvia - apreciei ver a relação da Livvy e do Ty e de como se sentem em relação a assumir esse passo. (Há menção a uma relação parabatai e amorosa no passado, e raios, que curiosa que eu estou.) Além disso, há a exploração do amor familiar e fraternal, e da vida familiar e caseira, e achei isso interessante também, a mundaneidade misturada com a acção e as reviravoltas no enredo.

Ah... sinto que este livro empacota tanta coisa. Tanto acontece no enredo, coisas mais simples e caseiras, e mais grandiosas e explosivas... a caracterização está no topo, e como disse, a narrativa é incrivelmente complexa a vários níveis. O livro tem 700 páginas, é certo, mas parece que tem muito mais lá dentro. É difícil de explicar. Mas gosto.

Questões para o futuro: as injustiças cometidas ao longo do tempo contra Blackthorns, e como isso terá a ver com o enredo da outra trilogia planeada pela autora, The Last Hours, decorrendo (salvo erro), em 1903. Mais coisas sobre o elo dos parabatai, obviamente. A doença de Arthur Blackthorn, e como os faerie agem nas suas cortes. Um pequeno grande segredo que a Seelie Queen pode estar a esconder (havia uma teoria entre os fãs muito curiosa). Oh, e vai a Cassandra continuar a torturar-me com os seus pares amorosos???

Ah. Que tonta que eu sou. É claro que sim.

Enfim... estou um passo mais perto de poder ler o Lord of Shadows, o segundo livro. Não queria lê-lo sem escrever isto, e tenciono lê-lo até ao fim do mês. Mas agora até tenho medo. Sei que ela me vai torturar, e sei que vou ter de esperar algo como dois anos para ler o fim da trilogia. Essa noção é um pouco assustadora, mesmo que signifique que no meio vamos poder ler um livro da outra trilogia, The Last Hours, sobre a qual tenho muita curiosidade. Bem, eu sempre fui masoquista no que toca às minhas leituras favoritas...

Páginas: 704

Editora: Margaret K. McElderry Books (Simon & Schuster)