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quarta-feira, 22 de março de 2017

Wires and Nerve, Marissa Meyer, Doug Holgate


Opinião: Raios, esta é uma nova forma de tortura. Já bem bastava ler um livro e esperar um ano para ler a sequela; agora em adição a isso, descubro que tenho direito a ver contadas mais histórias num mundo e numa série que adoro, e é em versão BD... que eu procedo a ler enquanto o diabo esfrega um olho e me sabe a pouco. Podemos saltar um ano, por favor?

Wires and Nerve serve como uma sequela à série principal das Lunar Chronicles: decorre alguns meses depois de Winter, e antes do conto-epílogo presente em Stars Above. O foco está na Iko, que finalmente tem direito ao seu POV e à sua própria história.

O enredo prende-se com uma consequência dos acontecimentos de Winter: depois da derrota de Levana, demasiados híbridos-lobos criados por ela ficaram à deriva na terra, sem controlo. A sua presença é um ponto de tensão política entre a Terra e Luna; e por isso Iko sugere à Cinder que pode ser ela a caçá-los, como uma agente externa.

E pronto, sempre soubemos que a Iko era maravilhosa; esta é só uma maneira de mostrar o quanto. Ela distribui porrada a rodos, e mantém o seu sentido de humor fantástico; e a história tem definitivamente uma certa leveza.

No entanto, gosto que a narrativa também tenha um tom mais sério entrelaçado - é que a Iko é uma andróide, e uma espécie de heroína esquecida por isso: todos os outros personagens são reconhecidos na Terra e em Luna como tendo terminado o reino de terror da Levana.

A Iko, por sua vez, não é considerada um ser sentiente, com sentimentos e personalidade; a individualidade que apresenta é considerada um defeito de fabrico do seu chip de personalidade. É trágico; ela é de fabrico artificial, sim, mas ser considerada menos que humana? Quando demonstra sentiência e personalidade para além da sua programação? É um comentário interessante sobre discriminação e minorias e o modo como achamos tão fácil julgar o que não conhecemos.

Gostei muito de rever toda a gente; a Iko acaba por se cruzar com todo o gang das Lunar Chronicles ao longo da história, e foi uma animação revê-los (e conhecer a sua interpretação gráfica por este artista). Gostei bastante do design de todos em geral, é aproximado o suficiente do que imaginava, mas com a sua própria interpretação.

Destaque para a Winter, que anda no seu papel de embaixadora; para a Cinder, que se esforça para mudar Luna; para a Scarlet e o Wolf, que vivem uma vida pacífica na quinta (e o Wolf está a trabalhar para o que vemos no conto do Stars Above - quero muito ver quando ele conseguir finalmente fazê-lo, mas a Scarlet não ajuda); e para a Cress e o Thorne, que viajam pelo mundo graças à nave Rampion e ao seu papel de distribuidores da cura para a lethumosis. (De todos, aquele que achei mais diferente é o Thorne: senti a falta do seu tom cheio de si... aqui ele está em modo herói, o que não é necessariamente mau, mas divirto-me bastante com a sua personalidade convencida e nada heróica.)

A narrativa faz um bom trabalho a relembrar o que está para trás (não que eu precisasse); quase me atrevo a dizer que é o suficiente para pessoas que ainda não contactaram com a série (se bem que se ainda não leram, estão à espera de quê? é só das melhores séries recentes do seu género), mas a sério, qualquer leitor está a perder muito não tendo lido a série, que é fantástica. E com este volume seria spoilado para os acontecimentos dela.

O enredo dos lobos perdidos começa a condensar-se num antagonista que vai dar muito trabalho à nossa protagonista no futuro, isso é claro; mas tenho toda a confiança e esperança na Iko. Por outro lado, ela volta a cruzar-se com o Kinney, e é tão divertido. Ele pensa dela que é como qualquer outro andróide, e é até um pouco insultuoso na maneira como fala com ela...

... mas há faíscas, e é tão giro de ver a parte final com eles a discutir e a desafiarem-se mutuamente. (E o comentário do Thorne sobre eles é hilariante.)

E pronto, agora estou para aqui a morrer já de saudades. Repetindo o meu comentário do início, já passou um ano? Podemos fazer fast-forward?

P.S.: uma opção interessante, graficamente falando, a de a arte ser em azul e branco. Gosto. Encaixa bem, de algum modo. Muito expressiva, ainda assim.

Páginas: 240

Editora: Feiwel & Friends (MacMillan)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Heartless, Marissa Meyer


Opinião: Dói-me o coração. Li este livro há um rol de tempo, no início do mês, e raios, ainda me dói o coração só de pensar nele. Depois das Lunar Chronicles confio na Marissa Meyer para praticamente tudo, mas estava bastante céptica com esta premissa - uma história de origem para a Rainha de Copas. Não é que a Marissa não saiba escrever do ponto de vista dum vilão - o livro Fairest é um bom exemplo de como fazer a coisa sem exagerar; mas não tenho propriamente uma ligação emocional com o livro que suscitou este recontar, e por isso achava que podia passar-me largamente ao lado.

Afinal, era escusada a preocupação. A Marissa é uma deusa dos retellings. Há esta coisa que ela faz em que pega em elementos reconhecíveis da história original, e que são parte da cultura popular no que toca à mesma, e embebe-os numa história muito sua, completamente única, e que ainda assim retém aquela familiaridade do conto. É algo fascinante de ver. E sobretudo, a história é pontuada pela sua escrita cuidadosa e pela maneira como desenvolve o enredo, tão cativante e devorável.

Heartless começa a história focado nos interesses simples da sua protagonista. Catherine vive em Hearts, um reino de Wonderland, e é filha de um marquês. Conta-se entre a nobreza do reino. No entanto, ela adora cozinhar, fazer bolos e coisas doces e deliciosas. Sonha em abrir uma padaria/pastelaria. Só que a sua posição social dificulta-lhe seguir o seu sonho, especialmente quando os pais têm aspirações a subir socialmente, e quando ela, sem querer, cativou o olhar do rei de Copas, ainda solteiro...

E aí está o conflito principal, a razão pela qual o livro me parte o coração: a situação da Catherine. Conforme a época em que o livro que inspira este foi publicado - a época Vitoriana -, a sociedade de Hearts é rígida em certos pontos, particularmente na intransigência das classes sociais, mas também na pouca liberdade que dava às mulheres.

A Catherine é prisioneira da sua posição social e das expectativas dos seus pais: ela deseja um rumo muito diferente para a sua vida, mas quando o rei quer cortejá-la, ela não consegue dizer que não, apesar do seu coração querer algo muito diferente. Foi uma parte desesperante do livro para mim: eu gostei muito da Catherine e da sua personalidade, mas matou-me ela não conseguir libertar-se, mandar toda a gente à fava e dizer não, cortar com o comboio descontrolado que teimava em levá-la para outro lado.

À medida que a situação escalava e se tornava pior, enterrando mais a rapariga em algo que ela não queria, mais aflita eu ficava. No fim de contas, não posso culpá-la por se enterrar no buraco, por não ser capaz de resistir; mas posso entristecer-me com ela não ter tentado o suficiente - senti que ela só começou a lutar pelo que queria, a mostrar garra, demasiado tarde -, e com o facto de os pais dela só terem pensado no que a faria feliz demasiado tarde (a cena final deles é de partir o coração; eles perguntam se ela será feliz, e ela responde que diferentes seriam as coisas se eles se tivessem preocupado com isso antes).

E é isso que me mata também. Pode-lhe faltar um bocadinho de coragem no início, mas a miúda tem bom fundo. É gentil, e encontra um certo prazer nas coisas simples, como um bolo bem feito. Ganha uma garra especial a certa altura, mostra que podia ser a monarca que uma certa profecia apresentava. Mesmo quando está zangada com aqueles de quem gosta é capaz de ir em seu socorro (algo que será a sua ruína, mostrando que de boas intenções está o inferno cheio). Quando ganha coragem para se libertar das expectativas, é incrível vê-la, sabemos que poderá fazer coisas grandes (ela é mesmo assustadora e impressionante no fim, quando está muito próxima da Rainha de Copas que conhecemos).

É isso que me mata, realmente. Eu gosto da rapariga, a Marissa escreveu a protagonista mais gostável de sempre, mesmo com as suas falhas não posso ficar zangada com ela, e ela está destinada a tornar-se numa vilã. Estou zangada contigo, Marissa. Sinto-me manipulada. Não podes simplesmente fazer-me gostar dum personagem, fazer-me desejar-lhe tudo de bom, e depois tirares-me o tapete debaixo dos pés e fazer com que corra tudo mal. E mostrar duma maneira linda e perfeita como uma miúda adorável e doce vira uma louca obcecada com cortar cabeças. Não pode ser. Eu ainda tenho um coração (eh) que não aprecia ser torturado desta maneira.

Passemos a coisas mais agradáveis. Vou tentar não pensar mais em como este livro me torturou durante a sua leitura. Ok, como disse ali em cima, não tenho grande ligação aos livros que inspiraram este. Li este ano os livros da Alice, mas aquilo foi demasiado nonsense/sem-lógica para a minha cabeça. Posso apreciá-los duma forma intelectual, compreendendo o seu propósito, mas fora isso, not my cup of tea.

Tendo dito isto, adoro a maneira como a autora adaptou o mundo. Há montes de referências ao original, pegando no worldbuilding, e expandindo-o e adaptando-o para contar esta história. Há referências ao reino de Copas/Hearts, mas também a Chess, o reino de onde as White Queen e Red Queen vêm. Há conceitos acerca do xadrez que têm a ver com alguns dos personagens. Há histórias de origem para outros personagens (como a Mock Turtle... e a Lebre de Março, o Chapeleiro).

Mantém-se o aspecto de nonsense e excentricidade que permeia o original, mas a Marissa organiza a sua história duma maneira muito mais lógica e que vai de encontro aos meus gostos. É perfeita, a maneira como o faz. Soube-me tão bem ler e reconhecer tanta coisa do original aqui reflectida, e ao mesmo tempo sentir-me em casa porque me identifico muito mais com a escrita da autora.

Ainda a destacar: os personagens. Boa caracterização, gosto de como a autora deu uma personalidade própria a toda a gente. Foi muito interessante conhecer o Chapeleiro dela, ou a Lebre ou o Coelho Branco (ou o rei de Copas, o tolo), mas também alguns dos personagens novos; as Sisters, o Raven, a Mary Ann, o Peter Peter... e claro, não podia deixar de mencionar o Jest.

É que ele é bastante crucial ao percurso da Catherine, por ser o motor da mudança do mundo dela e de como vê as coisas. Achei o início da história deles algo instalove, afinal ela sonha com ele antes de o conhecer e fica logo meio obcecada depois da primeira vez em que o vê. O que soa um bocadinho parvo. Mas enfim. Ao passarmos isso, como a história deles acaba por ser muito Romeu e Julieta, sempre carregada com tensão e com a perspectiva de tragédia, é muito fácil deixar-se enlevar por ela.

Quando as coisas correm mal - porque vá lá, é óbvio que esta não seria uma história de origem duma vilã se corressem bem -, bem... partiu-se-me o coração. Foi tão triste ver como tudo o que podia correr mal, correu mal e descambou tão depressa. A única coisa boa do fim foi ver a Catherine em modo "rainha de Copas louca". Arrepiante.

E pronto, o fim. Só tenho a acrescentar que era realmente uma cética, não acreditava que a Marissa pudesse fazer-me gostar tanto de Wonderland. Estou a modos que feliz por estar errada, porque não podia ter gostado mais da viagem. Acho que posso dizer que seguiria esta senhora a qualquer lado para onde ela vá. (O que é bom, já que vai haver uma banda desenhada passada no mundo das Lunar Chronicles publicada já no próximo mês...)

Páginas: 464

Editora: Feiwel & Friends (MacMillan)

segunda-feira, 14 de março de 2016

Stars Above, Marissa Meyer


Opinião: Ahhhh porque é que isto não saiu cá para fora mais cedo? Tipo antes do último livro da série? Não tinha lido nenhuma das histórias que já tinham sido publicadas. Primeiro porque me aborrece deveras andar à caça dos milhentos contos que às vezes parecem acompanhar certas séries. Depois, porque quando soube da publicação deste livro, achei por bem esperar.

Contudo, teria sido interessante ler algumas destas coisas em ordem cronológica, ou junto aos livros onde são discutidas. Ah, mas ainda assim, soube-me tão bem ler o livro. São contos, pequenas cenas, às vezes, que esclarecem pontos da série. Não essenciais, mas intrigantes. E como disse, soube-me bem. Poder passar mais algum tempo com estes personagens, com este mundo.

The Keeper: é uma história sobre a Michelle Benoit, a avó da Scarlet. Relata a sua visita a Luna quando era jovem, e como os laços com Luna levam a que receba a Cinder - é de partir o coração, ver o que foi feito à Cinder quando era pequena, o que ela teve de suportar, as transformações exigidas. Contudo, o melhor desta história é que nos dá um vislumbre da relação da Scarlet com a avó, que eu acho bastante interessante, porque a Scarlet tem a quem puxar.

Glitches: funciona quase como uma continuação da anterior, porque pega na Cinder depois de acordar, e mostra-nos a sua apresentação à sua nova família. Gostei de ler sobre ela a descobrir as suas novas capacidades cyborg, e sobre a reparação da Iko, que é certamente uma andróide com personalidade, algo raro. E achei fascinante a despedida do Garan da família, quando descobre que está doente - porque quase tive pena da Adri.

The Queen's Army: sobre o Wolf e como ele foi parar ao "exército especial" de soldados da Levana. Dá uma certa dimensão ao que ele experiencia durante a série, como se sente em relação às modificações corporais e a ser um peão nas mãos da Levana. Dá vontade de lhe dar um abraço ou umas festinhas, porque o Wolf é demasiado gentil e adorável para encaixar neste mundo, e porque é assustador ver um miúdo a suportar estas mudanças.

Carswell's Guide to Being Lucky: oh Thorne, you lucky bastard. Tens sorte que as pessoas gostam de ti. Achei este conto uma visão esclarecedora sobre como a cabeça dele funciona. Nunca pensei que ele fosse um menino rico e privilegiado; mas até faz sentido, porque as expectativas do pai e a tensão com ele levam a que o Thorne vá na direcção contrária, criando esquemas em cima de esquemas para se afastar daquela vida; e ele até é bem engenhoso, muito malandro, e exsuda mais confiança do que provavelmente sente. Fez-me pensar na relação que ele tem com duas meninas na série. A Cinder compreendeu o brincalhão que tem à frente, e por isso responde à altura às asneiras que lhe saem da boca; a Cress, apesar de toda a sua inexperiência, topou as ligeiras crises de consciência que ele tem às vezes, e levou-o a ser essa pessoa melhor que ele é capaz de ser, às vezes.

After Sunshine Passes By: um conto sobre a Cress quando era mais nova, uma shell no meio de outras crianças shell Lunares. Vemos como ela vai parar ao satélite; e curiosamente, o conto estabelece um paralelo entre ela e o Wolf - ambos desesperados para agradar os seus mestres taumaturgos, para evitarem um destino pior. Gosto muito de ver como a Cress usa a sua imaginação, e o seu optimismo, como forma de lidar com o pior que a vida lhe traz.

The Princess and The Guard: pelo título, é claro que os protagonistas são a Winter e o Jacin. O conto relata alguns momentos do passado deles, desde que eram crianças, e é adorável vê-los crescer juntos. À semelhança do Fairest, esclarece o passado da Winter de modo a mostrar quem ela é no presente da série: vemos o acontecimento que a faz desistir de usar os poderes lunares, aquilo que a Levana lhe faz, e é tudo explicado perfeitamente. O Jacin desiste de algo que queria muito fazer, o que mostra um pouco a personalidade dele.

The Little Android: céus, esta adaptação é brilhante. Senti o mesmo a lê-la que a ler o Cinder - os pontos principais da história original estão lá, mas fantasticamente encaixados neste mundo tão diferente. A pequena andróide que salva um jovem, apenas para se apaixonar por ele e ver a aproximação dele a outra rapariga. Contudo, o mais fascinante é a ressonância de certas cenas: devido a uma avaria, a andróide sente dor quando caminha. Dor, uma coisa tão tremendamente humana. A cena final encaixa tão bem na questão do sacrifício final do original; mas podia ser um pouco menos confusa, acho que não esclarece bem o que está a acontecer até ser tarde demais.

The Mechanic: a cena em que a Cinder e o Kai se conhecem, vista do ponto dele. É fácil esquecer que tecnicamente foi o Kai que começou isto tudo; era ele que procurava inicialmente a Selene, ainda que partindo dum desejo ingénuo mas certeiro de se livrar da Levana. Percebe-se o que ele viu na Cinder, uma jovem simples, despretensiosa, natural. Um contraponto interessante ao final do Cinder.

Something Old, Something New: é puramente indulgência, mas uma muito bem vinda. Um conto que decorre algum tempo depois do fim do Winter, conta-nos o que se passou com o pessoal entretanto, e é delicioso, poder passar mais algum tempo com estes personagens, saber o que lhes tem acontecido. Gosto de os ver juntos, ver como é fácil o companheirismo, agora que já não têm alguém a tentar matá-los. Além disso, é super divertido ver como eles estão no meio de uma tempestade mediática. Acho piada à intriga em que a maior parte dos personagens se envolve para dar a volta a outra personagem - é tudo feito dum modo orgânico, e agrada-me ver um momento de felicidade, o primeiro de muitos, espero. Ah, vou ter saudades deste pessoal.

Páginas: 400

Editora: Feiwel & Friends (MacMillan)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Winter, Marissa Meyer


Nota: lido em leitura conjunta com a Joana do Leitora de Fim de Semana.

Opinião: Há livros para os quais é bastante difícil escrever uma opinião, e muitas as razões pelas quais isso pode acontecer. O livro pode fazer parte duma série favorita, ou ser dum autor favorito. Pode até ser o último dessa série, e ser algo complicado dizer adeus. Pode ter tudo o que esperávamos e tudo o que não sabíamos que queríamos. Pode ser longo como nunca se leu, e mesmo assim estar cheio de reviravoltas e razões para continuar a ler, e pode mesmo assim ter parecido curto, de tanta coisa que contém, e mesmo assim tanta coisa que podia ainda ter.

Se ainda não é óbvio com todo este palavreado, é claro que estou a falar do Winter. Passei tanto tempo a suspirar por este livro, a desejar lê-lo, a criar expectativas, que quando me chegou até tinha alguma relutância em começar, porque como é que o "filme" que eu tinha feito na minha cabeça podia ser comparável com a realidade?

Creio que é nisso que a Marissa Meyer se tornou mesmo boa. Ela tem vindo a manter o equilíbrio narrativo por quatro livros, aumentando a cada um os POVs que acompanhamos, e aumentando o alcance da história, e a quantidade de coisas que tem de ter no enredo para a narrativa fluir e concluir satisfatoriamente - e acho que posso dizer que ela fá-lo neste livro duma maneira fantasticamente impressionante, praticamente sem vacilar.

Há pequenas imperfeições, claro; por um lado podemos argumentar que a narrativa podia ser mais curta (o livro tem 800 páginas) - contudo, simplificar a narrativa seria um demérito que se lhe fazia, e à capacidade da Marissa introduzir reviravoltas e acção a cada canto; por outro, acho que podia dizer que mesmo assim o livro não é longo o suficiente.

Podíamos ter facilmente dois livros disto, e desenvolver certos pedaços da narrativa - coisas que a Marissa introduz, porque faz sentido serem introduzidas, para o desenvolvimento dos personagens e do enredo, mas que fiquei a sentir que podíamos espremer muito mais sumo dali, se tivéssemos mais espaço. 

Não me importava nada de ter outro livro, afinal só tivemos um livro passado em Luna, e a sociedade Lunar é tão fascinante que podíamos bem ter mais um. (Agora pergunto-me é qual o conto de fadas que a Marissa poderia recontar nesse quinto livro...)

Por falar no recontar de contos, tenho adorado a maneira como a Marissa o fez. Não segue à risca a história original, porque isso não faria sentido neste mundo, e de qualquer modo não seria desafiante, mas depois faz uma homenagem aos momentos icónicos dos contos em que se inspira, e oh, é brilhante. Tem-no sido até agora, e aqui volta a sê-lo.

Aprecio deveras a relação da Levana com a Winter, a forma como a sociedade Lunar condiciona os comportamentos delas e como isso se relaciona com o conto, e quase perdi a cabeça (no bom sentido) ao reconhecer os momentos da maçã envenenada e do caixão de vidro. (Tal como me aconteceu com o momento "mas que orelhas tão grandes tens tu, avó" do Scarlet...)

E agora, o que é que eu digo mais, que seja minimamente coerente? Gostei mesmo de acompanhar a história em Luna, conhecer melhor o, er, corpo celeste que tanto trabalho tem dado aos nossos protagonistas. As coisas são mesmo más na sociedade Lunar, o modo como os regentes têm forçado a estratificação em classes, e como têm isolado os vários sectores de Luna de forma a que as pessoas se mantenham mergulhadas no medo, ao mesmo tempo que produzem para benefício de uns poucos escolhidos. Talvez um pouco por ter acabado de ver o segundo filme do Em Chamas, mas sim, a sociedade lembra-me a do mundo da Suzanne Collins - talvez também porque através desse terreno comum se pode fazer uma crítica à sociedade dos dias de hoje.

O casal protagonista desta vez é o par Winter, a princesa enteada da rainha Levana, e o Jacin Clay, o guarda real que se tem metido num monte de sarilhos. Quando a história começa eles já são completamente dedicados um ao outro, o que calculo que não é totalmente inocente da parte da Marissa. Num livro tão grande e tão cheio de outros acontecimentos e personagens, facilita o desenvolvimento do romance, até porque já tivemos algumas pitadas deles anteriormente.

De qualquer modo, achei-os tão giros, naquela dedicação e ao mesmo tempo negação toda. A Winter não avança porque não se acha merecedora, já que a sua recusa em usar os poderes Lunares fá-la ter frequentemente alucinações e visões. O Jacin não avança porque, bem, a moça é uma princesa, como é que um mero guarda real vai ter hipóteses?

E no entanto, a cumplicidade entre eles está lá, e a dedicação mútua é impressionante. Da parte do Jacin, especialmente, que fez um monte de asneiras só para voltar para perto dela, e continua a fazer tudo para mantê-la a salvo. A cena em que ele assume o papel do caçador do conto original é assombrosa.

Quanto à Winter em si, gostava muito de a destacar pelas suas convicções firmes e a sua determinação em manter-se a elas. Ela tem muito boas razões para não usar os seus poderes, e por mais que seja difícil, por mais horrível que seja lidar com as visões e não poder ser capaz de confiar no próprio discernimento no que toca ao que é real ou não, ela não desiste. É preciso um tipo muito particular de força interior, e gosto mesmo dela por isso.

Quanto aos outros casais, epá, toda a gente é adorável. É uma coisa que a Marissa tem feito muito bem, fazer-nos fãs deste pessoal à primeira página e obrigar-nos a torcer por eles a cada página. (E não digo só romanticamente, na verdade, mas também quanto às relações de amizade que se estabelecem, e quanto aos objectivos que os personagens têm nesta saga.)

Achei interessante ver a Scarlet passar bastante tempo com a Winter, porque a Scarlet tem uma personalidade muito pragmática, e ser obrigada a lidar com os devaneios da Winter é um desafio para ela. Por outro lado, o Wolf, coitado do rapaz, continua a sofrer como ninguém, primeiro pela separação da Scarlet, depois por uma coisa que lhe acontece e que ele temia que viesse a acontecer. Até é daqueles detalhes que eu gostava de ver mais desenvolvidos, porque não vemos exactamente como ele se sente acerca disso, e como o vai condicionar a partir de agora.

A Cinder e o Kai sempre foram bastante fofos de acompanhar (e têm um sentido de humor partilhado que eu aprecio), mas na verdade a vida e as escolhas deles não são inteiramente livres, pelas responsabilidades que têm ou virão a ter, e o contraste entre a posição e a postura dos dois é fascinante de explorar.

O Kai passou a vida toda a ser preparado para este tipo de responsabilidade, e foi isso que guiou as suas atitudes até agora, mas neste momento em que a Levana está tão perto de ter o que queria, isso dá-lhe uma certa liberdade, e é delicioso vê-lo mandar tudo às urtigas e criar uma certa resistência passivo-agressiva para dar com a Levana em louca, e pronto, é tão divertido. Não há muito que possa fazer nas circunstâncias dele, mas ao menos pode dificultar as coisas o mais que consiga.

A Cinder, bem, até tenho um pouco de pena dela. Sempre me pareceu bastante discreta, e do tipo de pessoa que apreciaria bastante estar sossegada no canto dela, sem ninguém a aborrecê-la, mas não é isso que lhe está destinado; e ao contrário do Kai, ela não tem qualquer experiência ou preparação. As atitudes dela não vêm dum desejo concreto de melhorar Luna, nem de amar o seu, hmm, país, porque ela não conhece Luna, nunca viveu lá, nem se lembra nada daquilo.

Vêm, obviamente, de um desejo de auto-preservação - a chata da Levana continua a insistir em tentar matá-la -, mas vêm também dum lugar ideológico, de sentir que está a fazer a coisa certa, de achar que faça o que faça, de certeza que há de ser melhor que a Levana (o que não é assim tão difícil como isso) - é algo menos concreto, mais esperançoso, menos calculista e mais inocente, e por isso até gostava de ver mais momentos com ela no novo status quo, enquanto se adapta às coisas.

A Cress e o Thorne, oh céus. Adoro toda a gente, mas tenho uma ligeira preferência por estes dois. É tão fascinante contrapor a inexperiência da Cress à atitude mundana e descomplicada do Thorne; porque mesmo assim, ele está pelo beicinho, e é uma coisa que não se torna aparente até quase demasiado tarde.

Achei tão divertido ver a Cress separar-se do grupo, não pelo acontecimento em si, que foi preocupante, mas porque isso deixou o Thorne tão mal-humorado, assim num tipo de atitude quase semelhante à do Wolf sem a Scarlet. O Thorne, a amuar. Que perspectiva hilariante. (Isso e o Kai a fazer de psicólogo e a tentar pôr-lhe juízo naquela cabeça.)

Além disso, eles os dois são o casal que sofre mais com as manipulações Lunares, ao ponto de eu me pôr a gritar para o livro, tanta era a preocupação. Mas no fim, achei tão adorável a maneira como as coisas se desenvolveram, como as experiências deles mudam a sua perspectiva mais no fim, porque me dá maior confiança no futuro deles.

O livro está cheio de reviravoltas, como num jogo de xadrez, e como disse ali em cima, se o livro fosse mais curto, as coisas tinham de ser mais simplificadas, e pareceria demasiado fácil para os nossos heróis. A recta final, então, as últimas 200 páginas, foram uma tortura. Graças aos poderes Lunares, tivemos demasiados momentos de roer as unhas, e que deixavam uma pessoa na dúvida de aonde aquilo ainda ia parar.

Quanto à Levana, continua louca da cabeça, como sempre, e isso é que é cativante de observar. Ela acredita genuinamente que está a fazer o melhor para Luna e para as gentes Lunares. E que gerir as coisas com mão de ferro é a melhor maneira de avançar Luna.

A maneira como os heróis fazem a Levana perder a compostura (porque só assim para ter uma hipótese de a derrotar) é a mais óbvia e a mais simples, tendo em conta de onde ela obtém o seu poder, mas ao mesmo tempo deu-me um bocado de pena. Não é crime nenhum ser assim, como a Levana é (não falo da parte psicológica, porque aí devia ser crime ser uma psicopata), e não é o fim do mundo. Só que é o poder que a Levana dá a isso que a desfaz.

Ah, vou ter tantas saudades disto. Tive meia-dúzia de capítulos no fim a fechar a história de toda a gente, mas mesmo assim, soube-me a pouco. Quero saber o que vai ser daqui para a frente, para esta gente toda. Passei tanto tempo investida em torcer pelo futuro deles, que queria saber mais sobre esse futuro.

Para me contentar, ainda tenho felizmente um livro de contos da série, a sair em Fevereiro, se não me engano, e parece que até tem um epílogo à história, coisa que me deixa brutalmente curiosa. Era mesmo o que eu queria ler.

Páginas: 832

Editora: Feiwel & Friends (MacMillan)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Fairest, Marissa Meyer


Opinião: Este livro começou, em termos de leitura, em desvantagem: a sua existência é a única responsável por eu ter de esperar mais uns excruciantes nove meses pelo último livro desta série, Winter. Não fosse ele, e eu já estava a esta altura do campeonato toda contente da vida a ver como é que a Team Cinder vai resolver a trapalhada em que está o(s) mundo(s) deles. (Pelo menos estaria previsivelmente a fazê-lo, se o livro seguisse o mesmo calendário de publicação dos anteriores.)

Além disso, não sou a maior fã desta moda recente de se criarem histórias que de algum modo desculpabilizam os vilões, que mostram que coitadinhos, tiveram uma vida difícil, ou a história foi mal contada, ou as suas acções foram mal-entendidas. Blá blá blá. Bolas, deixem os maus serem maus; um bom vilão é fascinante por isso mesmo, não precisa de desculpas. Estava com algum receio que esta história fosse um bocado nessa tendência, e a sério, eu não preciso de ter pena da Levana. Ela é arrepiante e assustadora e tudo o que preciso é que ela tenha uma morte grandiosa, mas merecida.

Após a leitura deste livro, acho que pelo menos a Marissa Meyer conseguiu escrever algo que nos permita entrar na cabeça da Levana, perceber como é que ela funciona, mas ainda assim não desculpabilizar de todo as acções dela. Eu achava que ela era uma máquina sem sentimentos, estratégica e arrepiante...

E continuo a achar que ela é arrepiante, mas agora porque sei como é que ela pensa, e não é bonito de ver. Uma infância desleixada, sem qualquer tipo de carinho ou preocupação, uma família que vê os seus como peões, uma vida de tortura pela irmã mais velha - levam a que no início da história, esta seja uma personagem com uma tremenda falta de auto-estima, completamente amoral, desesperada por algum tipo de validação.

É um pouco patético, até. A vida na corte parece horrível, cheia de víboras interesseiras, e a Channary e a Levana tinham uns pais muito pouco interessados. Não é muito explorado, mas gostava de perceber que tipo de infância tiveram, porque as duas desenvolveram problemas sérios e são completamente loucas da cabeça.

A Channary é uma sádica de primeira, e quando toma o trono é completamente desinteressada das suas responsabilidades. No entanto, quando tem a filha, a princesa Selene, parece bastante ligada à criança, algo que não é normal para a corte, ao ponto de a Levana achar estranha a ligação. Pergunto-me o que teria acontecido à Selene se tivesse tido sido educada pela mãe. De qualquer modo, o seu fim é algo ridículo e irónico. Sempre achei que a sua morte era coisa da Levana, mas nem foi preciso ela mexer um dedo, a própria Channary fez o obséquio de morrer.

Voltando à Levana, este livro até me deu alguma esperança na sua futura (espero eu) derrota. Uma coisa é a Team Cinder enfrentar a Levana maquiavélica e mecânica, estratega e cruel que eu imaginava. Mas a vilã que temos na verdade é uma menina que nunca cresceu, cujas acções ainda se regem pela procura de validação. Tudo o que ela faz é na procura de ser a melhor rainha de Luna, a mais bela, e vem dum lugar de anseios e emoções, de desespero e ódio contra si própria e contra a sua aparência por baixo do glamour. Sinto que alguém assim é mais fácil de derrotar, porque se conhecermos os desejos dela, é mais fácil de os virar contra ela.

Explorando outro aspecto da sua personalidade, é bastante assustador o quanto ela racionaliza as suas acções, ao ponto de algo mesmo mau, algo tão errado, ser transformado num favor que está a fazer à sua vítima. Por exemplo, a manipulação que exerce sobre Evret Hayle, o pai da Winter, obrigando-o a amá-la e a casar com ela, convencendo-se que se amam mutuamente. Mais horrível ainda é ele estar ciente a cada passo da manipulação, mas ser incapaz de se defender contra a mesma.

Ou, por exemplo, o atentado contra a Princesa Selene, onde, bolas, a racionalização dela é ao ponto de estar a fazer um favor à criança, ficando-lhe com o trono. Pior, consegue mesmo racionalizar o meio pelo qual tenta matá-la - o fogo -, quando a própria Levana tem medo do fogo, por causa do seu "acidente", que a marcou fisicamente. Não há qualquer empatia; é um conceito que passa ao lado da Levana.

Um ponto positivo do livro é que nos permite fazer algumas ligações com acontecimentos e personagens dos outros livros. Podemos ver onde começou o plano de manipulação, coerção e invasão da Terra, com a criação da doença da letumose e dos guerreiros lupinos. Podemos conhecer a Princesa Selene, ou a Princesa Winter e o seu pai, ver como é a relação dela com a Levana, podemos ver o Dr. Darnel e a Sybil Mira, e até o Jacin Clay, que virá a ter um papel importante no último livro, e aqui podemos ver que ele e a Winter se conhecem desde miúdos, o que é simplesmente adorável.

Bolas, até podemos ver a Levana a ficar toda feliz da vida quando a imperatriz da Eastern Commonwealth (a mãe do Kai) morre, porque assim já pode ter desígnios sobre o imperador para forçar uma aliança, ou quem sabe sobre o filho dele. De notar que o Kai neste ponto nem devia ter chegado à puberdade, e a Levana é aí uns 15 ou 16 anos mais velha, aproximadamente. Portanto, isto não é arrepiante nem nada. /end sarcasm De qualquer modo, parece-me que o rapaz nunca teve hipótese, a Levana estava focada nele e no trono que viria a ocupar há demasiado tempo para ser demovida.

O worldbuilding é, como tem sido sempre para esta autora, fascinante. Dá para conhecer melhor Luna e entender como a sua sociedade funciona, como é que chegaram ao ponto em que chegaram nos livros principais. Dá-me alguma esperança, porque enquanto que a corte Lunar está podre, as pessoas normais, os plebeus, parecem simplesmente estar a tentar fazer o melhor que podem. Não tenho a certeza como é que um entendimento entre a Terra e Luna é possível depois de tudo, mas tenho esperança.

A coisa mais frágil neste livro é o enredo. Não há propriamente um fio de ligação que conduza a história: apenas uma sucessão de acontecimentos que acompanham a Levana desde os 15 anos, na coroação da irmã, até alguns anos antes do início da série. Contudo, a Marissa Meyer consegue fazer as transições temporais muito bem, sem me fazer dar conta do vazio que um salto temporal poderia ser nas mãos doutro autor.

Em conclusão, esta leitura até acabou por se revelar uma boa surpresa, dando-me bastante em que pensar e complementando fantasticamente a série. Os meus receios eram maioritariamente infundados (excepto a parte em que ainda vou ter de esperar 9 meses pelo Winter, bah). Diria que é um bom complemento para os fãs, que depois de Cinder, Scarlet e Cress vão encontrar aqui alguns easter eggs giros, e vislumbrar alguns momentos que ditam os acontecimentos da série.

Além disso, o livro contém ainda os primeiros três capítulos de Winter, para os curiosos. (Eu recuso-me a lê-los, porque sei que se começasse não ia conseguir acabar, e por isso sei que três míseros capítulos não me iam saciar. Prefiro esperar pelo momento em que terei o livro completo nas minhas mãos.)

Páginas: 276

Editora: Feiwel and Friends (MacMillan)

segunda-feira, 10 de março de 2014

Cress, Marissa Meyer


Opinião: Li este livro há quase um mês e tem sido tão, mas tão difícil conjurar as palavras para escrever uma opinião. A este ponto da série, não consigo ser imparcial, e pior, a perspectiva de ter de dizer o que achei do livro faz de mim uma tontinha balbuciante. Porque como, exactamente, é que vou começar a enumerar as coisas que gostei, se para mim toda a leitura foi uma viagem fabulosa?

Acho que Cress marca um bocadinho pela evolução da autora e pelo amadurecimento do seu trabalho. Pois se isto fosse uma trilogia (não é), Cress seria claramente o segundo livro, aquele em que imensas coisas acontecem, os personagens são movidos como peças de xadrez para chegarem ao ponto em que são necessários para o xeque mate grande final, mas a história principal ainda está longe do clímax.

No entanto, a autora consegue manobrar o enredo e os personagens de modo mais habilidoso que em Scarlet, lidando muito melhor com a quantidade crescente de POVs e de acção em várias frentes, e criando de certo modo uma história mais coesa. Não que o livro anterior não tenha sido bom, mas suponho que se pode dizer que sofreu com a inexperiência da autora, coisa que já não se verifica aqui.

Cress segue as linhas gerais da história da Rapunzel, colocando a personagem titular fechada num satélite, sozinha. Felizmente para ela, cruza-se com o grupo de personagens que já conhecemos dos livros anteriores, e que encetam uma operação de salvamento para a ajudar. As coisas não correm muito bem, e todo o grupo é separado, resultando o resto da narrativa na tentativa de se juntarem novamente.

Gostei tanto da Cress. Tendo vivido grande parte da vida fechada e sozinha, é, naturalmente, bastante ingénua, mas tem um lado sonhador e aventureiro que me agradou. Achei piada ao facto de ela sonhar com a vida para além do satélite, tornando-se numa pirata ou aventureira ou princesa. E também à reacção dela quando finalmente se vê na Terra, que nunca conheceu. Até um deserto tem tanto para lhe dar. Gosto que nunca perca essa qualidade de surpresa e espanto que tem, porque é o que faz dela uma personagem tão interessante.

Antes de conhecer o Capitão Thorne, a Cress já tem a modos que uma paixoneta por ele, o que é eternecedor, mas também uma opção curiosa da autora. Permite desconstruir a personagem do Thorne e permite-o evoluir aos olhos dela e aos nossos. Uma personagem pessoa não tem que ser perfeita para gostarmos dela, e neste caso as aventuras que têm juntos esclarece-os acerca da personalidade um do outro, mas também os aproxima por causa disso. E a parte final da história deles... tão gira. Algo incompleta (coisa que imagino que a autora corrija no próximo livro), mas gira.

Sobre a Scarlet e o Wolf, bem, não posso comentar muito sem spoilar, mas a parte deles da história aperta-me o coração. Do ponto de vista da escritora, é uma bela opção, especialmente para lidar com a quantidade crescente de POVs. Mas do ponto de vista de leitora, espero que a situação se resolva o mais depressa possível, que o meu coração não aguenta ver o Wolf tão em baixo.

Sobre a Cinder e o Kai, eu provavelmente devia citar a Iko - "Isto é melhor do que uma telenovela!" - e pirar-me, que de resto vai ser complicado comentar. Mas não resisto. O percurso que ambos fazem é muito interessante, culminando num evento arriscado, mas estranhamente com alguma piada. E temos direito a uma cena bem gira mais lá para o fim com os dois, em que fica claro uma coisa importante que têm em comum - a responsabilidade e o que fazer com ela. A Cinder, particularmente, debateu-se com este ponto durante o livro, e acho que o fim a pôs um passo mais perto de aceitar que tem de fazer as coisas que precisam de ser feitas.

Tenho de mencionar alguns personagens secundários, que bem o merecem. Primeiro a Iko, que continua divertida como tudo, com aquela grande paixoneta pelo Kai, e que passa merecidamente a um novo... estado. É claro que a Marissa Meyer tinha de ser má e pôr esse novo estado num ponto tremido, mas acredito que tudo se resolva pelo melhor. Depois o Dr. Erland, que volta a ter um papel importante no curso dos acontecimentos. Entristece-me pensar no que ele passou desde os seus tempos em Luna, e em como se debateu com o seu papel no desenrolar de muitos dos acontecimentos no passado e presente da tetralogia.

Depois a autora aproveitou para nos apresentar dois novos personagens, e aqueles que serão os protagonistas do último livro, Winter. Um é a personagem titular desse livro, Winter, que se perfila idealmente para o papel de Branca de Neve, o conto que o último livro pretende recontar. O outro personagem é o par dela, sobre o qual não posso comentar muito, apenas que achei piada ao seu sentido de humor e em como se integrou na "equipa Cinder".

Sou fã da maneira como a autora costuma recriar os momentos-chave dos contos na sua história, e aqui não foi excepção. Por um lado, temos todos os pontos altos da história da Rapunzel - a torre, o deserto, a cegueira (a autora fez uma coisa bem boa com este ponto), e até as "lágrimas curativas". Apenas este último momento ficou um pouco irresolvido, ou melhor, não o vemos ter a sua conclusão natural. Suponho que a autora o esteja a guardar para o último livro.

Por outro, a apresentação dos protagonistas do próximo livro foi tão bem feita, e duma maneira que encaixa tão bem com o conto da Branca de Neve que só me faltou dar pulinhos de alegria. O momento em que reconheci o (presumido) protagonista masculino de Winter foi assim um daqueles momentos "Eureka!", só comparável a quando reconheci o momento "Avó, que boca tão grande tens" do Scarlet. Já a Winter está numa posição em tudo reminiscente da Branca de Neve no início do conto (talvez com um pequeno twist retorcido), por isso até tenho medo de tentar adivinhar o que é que a autora tem preparado para o último livro. (Mas quero tanto ver a cena da maçã envenenada. Tenho a certeza que a autora lhe vai dar uma bela reviravolta.)

Acho que não posso dar a opinião por terminada sem mencionar aquela que acaba por ser o motor principal da história, aquela que adoro odiar, a vilã rainha Levana. Uma megera tão megera que até as megeras têm medo dela. A extensão da sua maldade e calculismo não têm mesmo limites. E eu odeio-a. Mas sem ela não havia história, por isso... e bem, ela tem sido muito esperta nas suas tramóias, por isso estou com vontade de a ver tropeçar.

Por outro lado, estou com muita curiosidade em ver como a hostilidade entre terrestres e lunares vai ser resolvida. Ou melhor, eu sei que vai ser difícil. Tenho boas razões para querer ver isto resolvido *cof*Cinder e Kai*cof*, mas também tenho em mente que uma mudança súbita de mentalidade dos dois povos em relação à sua inimizade é completamente irrealista... sei lá, espero que a autora possa encontrar um meio termo.

E pronto, termino a opinião em completa negação, porque simplesmente recuso-me a acreditar que faltam 11 meses para eu poder ler o fim desta história. Vou *tentar* não morrer de impaciência até lá. (Não prometo nada.)

Páginas: 560

Editora: Feiwel and Friends (MacMillan)

domingo, 24 de março de 2013

Scarlet, Marissa Meyer


Opinião: Por vezes, o segundo livro duma série sofre de um conjunto de problemas que afectam a qualidade do produto final: livro de ligação entre o início e o fim da história (especialmente nas trilogias, o que não é o caso), antecipação dos fãs, incapacidade do autor em voltar a conjurar aquilo que fez do primeiro livro um sucesso. Contudo, este não é o caso, de maneira nenhuma. A Marissa Meyer conseguiu voltar a cativar-me, fazendo-me mergulhar na história, adorando cada segundo, e até surpreendendo-me com o modo como a tem planeada.

Neste volume, a história da Cinder cruza-se com a de Scarlet, uma jovem cuja avó está desaparecida há semanas, e que relutantemente aceita ajuda de um estranho, Wolf, que afirma poder ajudá-la a encontrá-la. Estava curiosa, e até com alguma relutância, em ver se a autora conseguiria equilibrar os dois fios de narrativa, e posso dizer que passou com distinção. Gostei muito de seguir os capítulos alternados de cada protagonista (e ocasionalmente de outros personagens), e adorei o modo como a autora ligou as suas histórias. Vê-se que ela planeou muito bem certas coisas, e pequenos detalhes revelados em Cinder ganham agora uma importância que não supus, o que me deixou bem impressionada.

A Scarlet foi uma protagonista fantástica. Destemida, com princípios, senhora do seu nariz, talvez um pouco impulsiva, mas com bons instintos, e sempre acompanhada do seu capuz vermelho e da pistola que a avó lhe ofereceu para se defender. Por sua vez, o Wolf foi um personagem que me deixou dividida (e gostei disso) - passei o livro todo entre o pensar "ai não podes confiar nele, sua tonta, dah, ele chama-se LOBO! vais-te lixar" e o "ohhhh ele é tão fofinho, parece um cãozinho abandonado, Scarlet, dá-lhe umas festinhas!". Não sei, o Wolf é um personagem misterioso e dúbio, mas que felizmente escapa às armadilhas do género e do estereótipo. É perigoso, mas ele e a Scarlet nunca se esquecem disso. O seu passado está relacionado com o enredo principal, e é bem negro, vemo-lo a fazer coisas assustadoras, mas também mostra sinais de ultrapassar a sua herança e tornar-se uma pessoa melhor. Tem um lado gentil e protector, e tem química com a Scarlet (é delicioso vê-los juntos). Quero muito ver como as coisas evoluem a partir daqui... eles têm uma conversa no fim bem gira, e a verdade é que são os dois pessoas intensas, portanto isto só pode tornar-se ainda melhor.

A Cinder, bem, depois do aperto em que ela se viu no fim do outro livro, põe-se na alheta na primeira oportunidade, o problema é que tem que trazer com ela um criminoso internacional, o Cadete Capitão Thorne. Achei alguma piada a este personagem, porque está sempre preparado para tudo, mas ao mesmo tempo é um tudo-nada alheado a certas coisas óbvias. Além disso, as bocas dele são tão engraçadas - entre ele e a Iko, nunca vamos ter falta de gargalhadas. Estou totalmente à espera que ele seja o protagonista masculino de um dos próximos livros, provavelmente o Cress, o da Rapunzel - mas também o consigo ver com a Branca de Neve Winter, a tentar tirar-lhe a maçã da garganta com uma manobra de Heimlich e a seguir a fazer-lhe um boca-a-boca.

Gostei do percurso da Cinder no livro. Depois do que descobriu, é natural que esteja cheia de dúvidas e atemorizada com a extensão do que pode fazer, e vai à procura de respostas. Ficamos a saber um pouco mais do seu passado e do que lhe aconteceu durante uma parte da sua vida que estava inexplicada. Compreendo as suas dúvidas e a sua luta para não se tornar numa Levana, mas estou expectante de finalmente a ver conseguir usar os seus poderes e livrar-nos de vez da rainha má. Uma parte menos boa da história dela é que eu estou impaciente por a voltar a ver com o Kai, resolverem o que têm a resolver, mas imagino que a autora me vá fazer sofrer mais um bocadinho. O Kai, por sua vez, tenta equilibrar a frágil relação com os Lunares e com a rainha louca psicopata Levana, o que não é fácil; e no fim, ele acaba por ter de fazer uma coisa que me deixou completamente chocada e preocupada, porque sei que não é a solução, mas também sei que não há outra coisa a fazer, tendo em conta as circunstâncias.

Outro ponto que adoro nestas histórias é o modo como a autora incorpora o conto de fadas na narrativa principal. Neste caso, o Capuchinho Vermelho. Em todo o livro há pequenas referências (o desaparecimento da avó de Scarlet, o facto de ela usar um casaco com capuz vermelho, ...), mas a cena "avó, porque é que tens orelhas/olhos/boca tão grandes?" deu cabo de mim. Só percebi o paralelismo quando a cena estava a acabar e se revela, e foi tão inteligente a maneira como foi executada. Nunca suspeitei de nada, e tem alguma ressonância com a cena original. O modo como os Lunares e o que eles andam a tramar se relaciona com o conto também é muito interessante, e deixa-me absolutamente furiosa, devido à extensão do que a Levana está preparada para fazer para obter o que quer.

Próxima paragem: África e o conto da Rapunzel. Conto ver uma evolução da Cinder e dos seus poderes, a Scarlet e o Wolf a serem absolutamente fofinhos e awesome, a Iko a continuar a ser a personalidade adorável que sabemos que ela é, o Thorne a tornar-se no protagonista masculino que sabemos que pode vir a ser, e a Rapunzel ainda mais fabulosa que a da Disney, se fazes favor, Marissa. Não peço muito. (Ahahahaha.)

Páginas: 464
 
Editora: Feiwel and Friends (Macmillan)

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Cinder, Marissa Meyer


Opinião: Tive este livro debaixo de olho o ano passado, quando saiu, mas esperei para ler algumas opiniões, a ver se me poderia interessar. Por alguma razão, as opiniões nunca me incitaram a pegar-lhe, o que é uma vergonha, porque eu agora estou a perguntar-me "porquêêêêêê? porquê é que eu nunca li isto?". Se bem que se o tivesse lido mais cedo, estaria cheia de comichão para ler o segundo livro. Este primeiro livro deixa a história não exactamente num cliffhanger, mas num ponto muito "irresolvido", e eu terminei o livro quase a trepar às paredes de curiosidade e impaciência.

Também é um livro um pouco difícil de definir, diria. A autora tece uma história com uma miríade de temas e influências, quase a transbordar, mas acho que consegue criar uma história coesa com elas. Gostei muito de como incorporou elementos da história da Cinderela com alguns pozinhos de Sailor Moon, situando o enredo numa Nova Pequim do futuro, com cyborgs, andróides, e uma ameaça latente dos Lunars (povo da Lua), que não podia ser mais diferente dos Earthens (terrestres). Diverti-me imenso a reconhecer os paralelismos com o conto da Cinderela e com o anime da Sailor Moon, ainda mais porque a autora conseguiu incorporar muito bem o seu mundo futurista com os mesmos. (O "sapato", a abóbora, a fada madrinha, o vestido, o baile, a madrasta e as meias-irmãs... está tudo lá!)

Gostava que a autora tivesse desenvolvido mais o cenário, isto, que nos tivesse fornecido mais dados sobre o passado, o que levou ao presente estado de coisas, quanto tempo passou desde o nosso presente, ... há algumas revelações, mas eu estou esfomeada de conhecimento deste mundo que me pareceu tão potencialmente interessante.

O enredo corre a um ritmo alucinante, dei por mim e pensar que precisava mesmo de virar mais uma página, mais um capítulo, para saber o que ia acontecer a seguir. Adivinhei muito cedo uma certa informação que a autora só revela no fim, mas para ser honesta acho que ela não estava sequer a tentar escondê-la, apenas a atiçar-nos a curiosidade ao percebermos o que se passa - o que resultou, sabendo esta coisa li algumas cenas doutra maneira.

A minha personagem favorita foi a Cinder, por razões óbvias - é a personagem principal e com maior tempo de antena -, e menos óbvias - adorei o ser uma miúda desenrascada, que ganha a vida como mecânica, que é dependente da madrasta mas lhe resiste, que também sonha com coisas mais femininas, mas reconhece a realidade da sua situação. A Iko recebe muito carinho nas opiniões por aí, e justamente, porque aquilo que lhe sai da boca é hilariante. Também achei piada ao Kai e à relação que ele desenvolve com a Cinder, de flirt e amizade, com o potencial de algo mais, mas também a consciência de muito que os separa (a Cinder mais que ele, mas isso já são spoilers). Acho que hoje em dia qualquer autor que NÃO meta instalove nas suas histórias ganha a minha devoção eterna.

Gostei de ver a maior parte dos personagens descritos com alguma nuance (a madrasta não é sempre má, e a Cinder não é uma fonte de bondade eterna), com excepção da rainha Levana. Oh, como eu adorei odiar esta personagem. Ajuda que ela seja uma manipuladora obcecada com a aparência, que mantém o seu povo refém da adoração que lhe prestam. Espero mesmo vir a ver a Cinder a dar-lhe um chuto no real traseiro.

O fim, bem já disse que me deixou pendurada. Foi um bocadinho triste, porque finalmente se revela (quase tudo) o que a Cinder é, especialmente aos olhos do Kai, e a reacção dele podia ser melhor. Compreendo essa reacção (se aturei a Neryn em Shadowfell, que se debateu com uma coisa parecida, tenho que o aturar a ele), mas espero que veja brevemente a luz. Oh, como eu quero ler o Scarlet (o segundo livro).

P.S.: Andei a escavar pelo antigo blogue da autora e descobri que ela anunciou que a venda dos direitos deste livro para Portugal no fim de Janeiro de 2011. O livro só foi publicado nos EUA um ano depois. Huh. Claramente estava a gerar muito interesse ainda antes de ser publicado.

Páginas: 400

Editora: Feiwel & Friends (MacMillan)