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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Luz e Sombras, A Casa de Gaian, Anne Bishop


Opinião: A leitura do primeiro livro desta saga para mim foi... complicada. Dei uma passagem de olhos nas suas páginas antes de me atirar à leitura deste dois, e ainda me lembro do quão frustrante ler sobre os teimosos Fae que se recusavam a ver o que estava mesmo à sua frente. (Incrivelmente frustrante. Ugh.) Ainda acho que a Anne devia ter feito o mistério mais difícil, para eu não ficar a achar que esta gente era incrivelmente burra.

No entanto, adorei o worldbuilding e os personagens. A Ari e o Neall são amorosos, e apesar de deixarem de ser protagonistas na sequela - tiveram o seu final feliz. Podem continuar a defendê-lo e lutar por ele, mas a sua intervenção no enredo da trilogia terminou em grande parte. (Continuamos a seguir no entanto uma série de personagens já nossos conhecidos. Mais sobre esse assunto já a seguir.)

No entanto, onde a trilogia brilha... é no conceito. A Anne é assumidamente uma autora feminista, e acho fascinante a dualidade entre este mundo e o das Jóias Negras no que toca a isso. Nas Jóias Negras lemos sobre um matriarcado que é distorcido, pois algumas das suas líderes são cruéis e perverteram o significado do seu papel.

Em Tir Alainn ela explora um patriarcado que já foi um matriarcado, e cujos homens exercem, por determinadas influências, um poder tirânico sobre as mulheres da sua vida. É um pouco assustador de ler, pois esta trilogia é bastante mais próxima da vida real. Aquilo que a Anne descreve é o que acontece no nosso mundo, ainda hoje - fala sobre as maneiras subtis e menos subtis sobre como ainda há desigualdade na nossa sociedade.

É assustador também porque, mais ou menos 15 anos depois da sua publicação, vivemos num mundo em que é demasiado fácil aceitar que algo como isto pode acontecer. O ódio tem poder, é insidioso, e move as pessoas, e um dia destes podemos dar connosco com um grupo alimentado pelo ódio no poder, exercendo opressão indevida sobre aqueles que não concordam com eles, que são diferentes, enquanto as massas se deixam guiar pela cegueira. Portanto, pontos bónus por escrever sobre um tema intemporal e (aparentemente) sempre actual - e por usar essencialmente os temas de narrativas distópicas numa história de fantasia épica.

O segundo volume centra então a narrativa no escalar de posições: os Inquisidores não desapareceram, recarregaram baterias e voltaram à carga, espalhando a sua influência pelo leste de Sylvalan. Cabe aos nossos personagens, e ao resto de território de Sylvalan pôr-lhes um travão.

Gosto do foco nos novos personagens, sem deixarmos de ver os antigos. Adorei seguir a Lyrra e o Aiden, que entenderam as lições do primeiro livro e se esforçam por transmiti-las aos outros, ainda que às vezes caiam em saco roto. No entanto, nunca desistem, e procuram tudo o que pode ser feito por Sylvalan. Gosto de ver que assumem uma posição diferente dos Fae, e que não querem saber do que é tradição entre estes; é preciso coragem para seguir o coração e escolher ficar ao lado um do outro nestas circunstâncias.

Também gostei de acompanhar a Morag. Acho que a Anne foi bastante injusta para com ela, especialmente tendo em conta o seu fim. A solidão da Morag devido à sua posição é tocante, e ela merecia melhor. Entendo o que aconteceu, mas não preciso de gostar disso. E não gosto mesmo nada.

O terceiro volume passa por mover as peças de xadrez até ao conflito final: os Fae e os humanos finalmente a trabalhar juntos, a tentar ajudar as bruxas e a manter o tecido do mundo como o conhecem intacto. Não é muito forte em acção, mais em desenvolver o enredo e os personagens, fazendo encontrar quem precisa de se encontrar, aprofundando caracterização, sem perder o sentido de humor Bishopiano que tanto aprecio.

Entre os personagens novos, destaque para a Ashk e a Selena, duo de senhoras impressionantes e um tudo nada assustadoras; e para o pessoal de Willowbrook, principalmente a Breanna, que deu uma descasca tão grande ao Lucian, e foi glorioso, ela leva tudo à frente e é fantástica. (Ela e o Falco são amorosos, já agora.) Também gostei bastante do Liam, porque era alguém que nunca tinha pensado nestes assuntos e de repente deu por si um acérrimo defensor das bruxas e da luta pela alma de Sylvalan. Mas no geral, temos um elenco brilhante. Gosto da caracterização que a autora faz, e é um grupo de gente que dá gosto acompanhar.

A batalha final é a modos que curta. Acho que acção não é o forte da Anne, e por isso ela passa rapidamente pela mesma. Sei o que aconteceu, e mesmo que batalhas não sejam o meu forte para acompanhar - geralmente é demasiado confuso para mim -, podia ter sido mais aprofundada, definitivamente.

Já o final em si... é triste e não triste. Há perdas, e uma pelo menos frustra-me um bocadinho, mas seria de esperar, suponho. No entanto, agrada-me saber que estas pessoas terminaram a sua luta e se encaminham para os seus portos de abrigo e para uma vida feliz e tranquila.

Enfim... em suma, Anne Bishop é Anne Bishop. Há uma outra autora (*cof*Sarah J. Maas*cof*) que é tão influenciada pela Anne que isso é 50% das razões pelas quais gosto dela. Acaba por ser uma autora seminal nas minhas leituras, e escreve duma maneira tão interessante e cativante, que me encanta e me enche as medidas, e pronto, não consigo ver um mundo em que não goste de Anne Bishop. Sem querer tentar o destino, não me parece possível.

Título original: Shadows and Light (2002) / The House of Gaian (2003)

Páginas: 368 / 448

Editora: Saída de Emergência

Tradução: Luís Coimbra

domingo, 12 de outubro de 2014

A rainha manda...: Os Pilares do Mundo, Anne Bishop

A leitura para Setembro escolhida pela Patrícia (Chaise Longue) para mim foi Os Pilares do Mundo, de Anne Bishop. Um livro à altura dos outros da autora no que toca ao mundo que criou e à história em geral, mas que peca um bocado nos que toca aos personagens e à construção da narrativa. Fiquei curiosa para ver que mais a autora tem em mente para este mundo, mas não é como os seus outros livros, não me deu uma urgência imediata para continuar a ler.


A leitura para Setembro que escolhi para a Patrícia foi Flashman, de George MacDonald Fraser, e podem ler as minhas perguntas sobre a leitura e o que a Patrícia achou do personagem titular aqui.

Ari é uma protagonista com um enorme poder mas, em comparação com Jaenelle, é menos sombria e complexa. O que achaste dela? Estranhaste esta protagonista tão doce e inocente?
Estranhar? Nem por isso. A Ari é um doce de pessoa, e quase a única que se aproveita no meio de uma data de gente egoísta, malvada, tortuosa, mesquinha e horrenda. É quase como um raio de sol num dia chuvoso, e por isso foi refrescante acompanhá-la pela história. É bom ler sobre alguém cuja bondade intrínseca não é abalada pelas circunstâncias.

Lucian e Dianna, os Fae: estes dois irmãos são muito controversos e conseguem bulir-nos com os nervos pela sua cegueira. Qual foi a tua relação com eles ao longo do livro?
Bem, comecei o livro intrigada com a potencial demanda que eles tinham à frente... mas isso foi rapidamente por água abaixo. O Lucian perde-se na procura egoísta de prazer, e a Dianna perde-se na exigência egoísta que toda a gente menos ela arrisque o pescoço, e na distribuição egoísta de culpas a toda a gente menos ela. Portanto, detestei-os tanto que no fim do livro já estava a ranger os dentes.

Adolfo, o Inquisidor: Louco, ele é um vilão que nos faz tremer, mas também irrita-nos. Foi um vilão suficientemente forte para ti, ou não te convenceu?
É difícil de explicar. É muito convincente como vilão, eu acredito realmente que ele odeia as mulheres em geral e as bruxas em particular, e é arrepiante considerar os planos e os esquemas que ele tem para levar a sua avante. No entanto, não fiquei convencida da sua existência como pessoa. Mesmo tendo aquele capítulo com as suas reminiscências, que dão uma base sólida para o seu ódio, não me pareceu uma pessoa a sério. Pareceu-me demasiado artificial. A Dianna e o Lucian são igualmente pessoas horríveis, mas pareceram-me mais credíveis nos seus defeitos.

Morag, a Morte: Talvez uma das personagens mais complexas de Anne, Morag tem uma posição muito difícil entre os seus. Conseguiste compreendê-la?
A Morag é fantástica, fica ali no pedestal com a Ari. A sua posição única dá-lhe também uma perspectiva única sobre as coisas, e curiosamente é uma perspectiva mais bondosa e humanista que seria de esperar dum Fae, ou dum avatar da morte. Não é por ser a representante da morte que é assutadora ou mesquinha, apesar de toda a gente borrar as calças quando a vê. Quero dizer, em compreendo as pessoas, pensam sempre que a Ceifeira vem vê-los porque vem colher alguém e levá-lo para o outro mundo. Mas a pobre da moça não pode estar só de visita? Ou à procura de guarida? Ela precisa de sustento e companheirismo como toda a gente, caramba. Bem, acho que gostava que ela encontrasse um cantinho onde se sentisse sempre bem-vinda.

Do que já conheces da autora, foi tão complexo e sombrio como estavas à espera? Ou achaste-o demasiado doce e simples?
Errr não sei se posso pô-lo em termos tão simples. Quero dizer, a Anne Bishop é geralmente considerada sombria, pelos temas pesados que introduz por exemplo na Saga das Jóias Negras, mas eu não consigo reduzi-la e à série a esse termo, porque ela escreve com um certo sentido de humor, por isso para mim o sombrio e o humor balançam-se bem. E o resultado é que não estou automaticamente à espera que um livro dela seja sombrio. Se bem que aqui fez-me falta o sentido de humor dela.

Complexo, acho que posso dizer que sim. Uma coisa que admiro nos livros dela é as ideias-base com que constrói todos os seus mundos, que geralmente originam uma história e um mundo complicados mas fascinantes de acompanhar. Doce e simples, nem por isso. A ideia de Tir Alainn e da importância das bruxas para esse mundo, e como está tudo a desmoronar-se... é um pouco assutadora.

Anne tem uma grande capacidade para criar relações fortes entre as personagens, permitindo ao leitor ligar-se a eles e sentir sentimentos fortes por elas. Sentiste isso neste livro?
Conta o ódio que desenvolvi à Dianna, ao Lucian e ao Adolfo?

Agora a sério, não sei se posso dizer que sim. Não sei se é por ser o primeiro livro, mas muita coisa pareceu-me... superficial. Além disso, falei ali em cima do sentido de humor da Anne. É esse sentido de humor que ela tem a escrever sobre as relações interpessoais que a torna mais interessante de ler e fortalece as ligações entre personagens. Como não senti esse humor, fez-me falta para caracterizar as relações entre personagens.

Mais uma vez, temos uma trama incidida num tema matriarcal, mas desta vez a ver com a ligação à Terra Mãe. Achas que esse tema foi bem explorado?
Eu gostei do tema. Como disse ali, geralmente gosto das ideias da Anne Bishop, porque são complexas e constroem mundos e histórias complicados e que dão gozo a explorar... e gosto muito da ideia de as bruxas serem o centro deste mundo, a âncora para Tir Alainn. Não gosto que as pessoas se tenham esquecido da importância delas e as andem a perseguir - mas aí é um "não gosto" pessoal e não de ter um problema com a história, porque é uma premissa bem interessante e que lança uma ideia semelhante à da Trilogia das Jóias Negras: a dum sistema matriarcal que foi pervertido e que em resultado o mundo em que se insere está a perder-se, e cabe aos nossos personagens tentar melhorá-lo. É outra coisa que gosto na autora, o explorar temas semelhantes de maneiras diferentes.

Em vez dos Sangue, aqui temos os Fae, com uma complexa hierarquia entre eles e uma ligação esquecida às bruxas. Achas que a sua caraterização foi bem conseguida? E a das bruxas?
Como disse, gostei tanto da ideia da importância das bruxas para este mundo. E sim, também encontrei interesse na caracterização dos Fae. Alguns deles assumem avatares arquetípicos de divindades, e é muito curioso ver isso explorado. Não gostei dos Fae serem uns patetas que se esqueceram da importância das bruxas e do que fundou o seu mundo e a boa vidinha que vivem, mas achei uma bela ideia, a de que viverem à sombra da bananeira os tornou ingratos e egoístas.

A autora aproveitou a magia deste mundo para trazer um dos horrores da nossa realidade para a fantasia: a Inquisição. Foi bem conseguida?
Em geral, sim. Os métodos dos Inquisidores são assutadores, e nem sequer falo propriamente da tortura. Falo dos outros métodos insidiosos que usam, como ter os bardos a espalhar músicas que vilipendiam as bruxas, ou toda a retórica que usam contra elas, ou usar os nobres gananciosos como maneira de conseguirem perseguir as bruxas e as terras que elas defendem. E o uso dos Inquisidores neste mundo de fantasia acaba por ser bem ancorado e bem usado no contexto da história, por isso é engraçado ver um elemento da vida real num contexto fantástico.

Este livro é diferente das outras trilogias da autora. A sua escrita brilhou da mesma maneira? Ou é menos sombria?
Again, não é mais nem menos sombria, é diferente. Se bem que posso dizer que estou algo desapontada, frustrada mesmo, com a maneira como ela desenvolveu a história. Primeiro porque algumas caracterizações de personagens me pareceram excessivas e pouco credíveis (ver: Adolfo).

Depois porque ela toma decisões narrativas que não fazem sentido. Mostra-nos claramente o que está errado com este mundo nas primeiras páginas... o que torna a história tão frustrante de ler quando os personagens só chegam à mesma conclusão 200 e tal páginas depois. Fez-me gostar ainda menos da Dianna e do Lucian, que pareceram tão idiotas por levarem tanto tempo a lá chegar.

E para além disso, a Ceifeira deixa alguém escapar no fim do livro que não fez propriamente sentido que deixasse escapar. Essa pessoa vai voltar para causar sarilhos, e a Ceifeira já mostrou que não tem problemas em levar alguém se for para proteger outra pessoa que merece, por isso para quê poupar este palerma? Só para podermos ter os livros 2 e 3 da trilogia? Pois...

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Aqui fica o livro que a Patrícia escolheu para eu ler este mês, e porquê:

Rebel Angels, de Libba Bray
Ora bem, eu escolhi este livro para a p7 porque senão ela nunca mais o vai ler e, muito sinceramente, eu não consigo suportar essa ideia. Eu sei que ela gostou do primeiro, mas o que eu sei que ela não sabe, é que este segundo livro é ainda melhor! E quero que ela tenha umas horas de leitura sofridas a redescobrir este mundo, para depois sofrer comigo até lermos o terceiro… Eu sei, estou a ser má, mas não quero sofrer sozinha. E estou a ajudá-la a acabar uma das séries que tem pendentes. Não sou uma querida?

És, Patrícia, és uma santa. *assobia para o lado* Tens consciência que se eu ler este livro, e por acaso quiser ler imediatamente o terceiro, basta-me encomendá-lo em inglês (é como estou a seguir a série), enquanto que tu tens de esperar pela edição em português (é como a Patrícia está a seguir a série)? Muahahahah...

Podem ver qual o livro que sugeri à Patrícia para Outubro, e o porquê de o ter escolhido, aqui.

domingo, 23 de junho de 2013

Ponte de Sonhos, Anne Bishop


Opinião: Andei a espreitar os meus comentários anteriores aos livros da Anne Bishop, e dei-me conta que as leituras desta autora foram feitas em duas fases. Uma no Verão de 2010, em que foi a loucura, comigo a percorrer 7 livros da autora - o 2º e o 3º livros da Trilogia das Jóias Negras, Herdeira das Sombras e Rainha das Trevas, para além de mais 3 livros passados no mundo das Jóias Negras, Teias de Sonhos (livro de contos), Jóia Perdida e Anel Oculto; e li ainda Sebastian e Beladonna, ambos passados num novo mundo criado pela autora, Efémera. No Verão de 2011 voltei à carga, lendo Aliança das Trevas e A Senhora de Shalador, ambos do mundo das Jóias Negras, mas com outros personagens, e Despertar do Crepúsculo, antologia de contos e novelas focados nos SaDiablo.

O que é que eu posso concluir daqui? Que não me canso de ler a autora. Por um lado, porque adoro o seu sentido de humor a escrever os seus personagens, e por mais livros que ela escreva nestes ou noutros mundos acabo por voltar a eles e encontrar esse consolo. Por outro, as coisas que ela imagina... este mundo de Efémera é uma coisa tão complexa, e por vezes ainda tenho dificuldade em visualizar este mundo composto de paisagens fragmentadas, equilibradas pelas Paisagistas e ligadas pelos Construtores de Pontes, e em que os sentimentos e emoções modelam o mundo em que se vive.

Neste volume, a autora expande mais um bocadinho o seu mundo, e chegamos a partes do mesmo em que não se conhecem conceitos que já nos são familiares, como o de Paisagistas, mas no entanto existe o equivalente desses conceitos neste novo espaço, a cidade de Visão. É uma coisa que aprecio que a autora faça, a extensão do seu mundo para novas paisagens, com culturas e sociedades diferentes, mas com conceitos semelhantes. Por outro lado, apresenta-nos a um novo modo, igualmente complexo e fascinante, de uma paisagem "funcionar", com a cidade de Visão - cidade essa que é posta em perigo pela presença de velhos inimigos num novo lugar.

E conhecemos uma nova raça sobrenatural, as Tríades - e, uau, é de loucos só de imaginar a logística da coisa. A Anne fez um bom trabalho a descrever a transição entre as três partes da Tríade, e em criar uma sociedade com os seus mitos e tabus, mas gostava que tivesse desenvolvido mais como é que funciona o dia-a-dia destes seres, porque é uma coisa que influencia o final, e acho que a autora se esquivou a elaborar essa parte.

Este é o livro do Lee, que está a tentar lidar com o que aconteceu à irmã no livro anterior, e a reconciliar o que ela era no passado com o que é no presente. No meio da amargura cruza-se com alguns magos que desejam mal à Belladonna e na tentativa de a proteger, vai parar a Visão, sozinho e meio louco.

Tenho pena do Lee. Há muitas vantagens em termos um elenco de personagens deste tipo, em que são todos como uma grande família, com os seus momentos divertidos e a preocupação uns com os outros. Mas também têm desvantagens. Uma é o facto de não conseguirem manter-se afastados quando alguém precisa de fazer alguma coisa por si próprio (como a Belladonna no fim do último livro, e até em certa medida o Lee neste). Outra é às vezes certos membros da família (e os seus problemas) passarem despercebidos. Que é o que acontece com o Lee no início deste livro basicamente a vida toda dele.

Portanto isto acaba por ser uma espécie de emancipação para o Lee, ao ver-se sozinho e desamparado num local que não conhece e ao qual a família não pode aceder. É em Visão que encontra todo um novo elenco de personagens muito interessantes. Temos Sholeh Zeela a Zhahar, a Tríade que melhor ficamos a conhecer, com personalidades muito distintas. O Danyal, que é a modos que um colega da Belladonna, mas que ainda tem muito que aprender com o seu dom. A Kobrah, que já conhecemos em A Voz, e que curiosamente se cruza com o Provocador, de todas as pessoas. E muitos outros... uma coisa que eu gosto na autora é que consegue criar personagens bem diferentes que a mim me soam como pessoas diferentes.

Tenho de confessar, uma das minhas partes favoritas é quando os dois lados do elenco de personagens se encontra. Especialmente o Lee e a Belladonna, porque há uma cena mesma gira que parte desse encontro. A partir daí, o livro perde um bocadinho o gás, acho que a autora podia ter planeado melhor algumas coisas e não deixar as revelações todas para o fim, porque acabou por dar cabo do ritmo que o enredo levava.

Quanto ao fim... preferia que não ficasse tão em aberto. Como disse ali em cima, a logística do dia-a-dia das Tríadas não ficou bem assente, e como é uma coisa que afecta o final dos protagonistas, custa-me que se tenha deixado tudo tão vago. Por outro lado, dei por mim a desejar ler mais sobre alguns dos personagens, e a querer que também eles tivessem o seu final feliz, por isso adoraria que a Anne Bishop escrevesse sobre os mesmos.

Título original: Bridge of Dreams (2012)

Páginas: 448

Editora: Saída de Emergência

Tradução: Maria João Trindade

domingo, 24 de fevereiro de 2013

A Voz, Anne Bishop


Opinião: É um livro curtinho, e eu já tenho sido muito verbosa acerca dos contos, noveletas e novelas e do quão insuficientes (quase sempre) me parecem. Aqui isso aconteceu - mais ou menos -, mas mais porque estava com saudades do mundo de Efémera do que pela incapacidade da Anne Bishop em escrever uma história curta de modo satisfatório. Porque como história, A Voz funciona muito bem, e consegue inserir-se fantasticamente no mundo da série a que pertence, abordando temas que a autora já tem explorado noutros livros. É uma história que faz jus ao resto da obra de Bishop.

Passando-se no mundo de Efémera, fascinou-me mas não me surpreendeu o modo como aborda sentimentos, maus e bons, e como estes esculpem o mundo em que vivemos. Não há aqui paisagistas ou construtores de pontes, mas a magia das paisagens está lá. É terrível, e triste, saber a história da personagem titular, mas gostei de ir a descobrindo juntamente com a personagem principal, Nalah, de ver como Nalah se debatia com o mundo que conhece, e o que faz para mudar a sua vida.

Achei muito interessante a maneira como "A Voz" funcionava, libertando os aldeões do seu peso emocional, fosse a que custo fosse. A autora liga emoções e magia de um modo muito subtil e aparentemente simples, mas com um mundo de repercussões. E aborda o tratamento e o lugar dado às mulheres no mundo, tema que não lhe é estranho. Espero vir a saber o que acontece à Kobrah... pelas opiniões do terceiro livro de Efémera, Bridge of Dreams, parece que sim. Venha daí esse terceiro livro.

Título original: The Voice (2012)

Páginas: 128

Editora: 11x17 (livro de bolso da Saída de Emergência)

Tradução: Luís Coimbra

terça-feira, 12 de julho de 2011

Despertar do Crepúsculo, Anne Bishop


Opinião: Este é, em príncipio, o último livro da autora sobre o universo das Jóias Negras, e traz consigo alguma carga de nostalgia, por ser o último livro que posso ler, novo, com estes personagens. É composto, à semelhança do Teias de Sonhos, por quatro histórias; e penso que a minha favorita foi a segunda, por ter um grande foco em duas das minhas personagens favoritas, a Surreal e o Lucivar.

Prendas de Winsol
Um conto sobre o primeiro Winsol de Daemon e Jaenelle, passa-se entre os acontecimentos de Jóia Perdida e Aliança das Trevas, enquanto a família SaDiablo se debate com as exigências da época festiva e com o rescaldo dos acontecimentos em Jóia Perdida.
Um conto bastante divertido e interessante sobre a família SaDiablo quando não estão a enfrentar os pobres diabos que se atrevem a meter com eles. Gostei de rever a Tersa e a Karla. O conto prepara os acontecimentos da próxima história.

Cambiantes de Honra
A história mais longa e complexa do livro, foca-se na comunidade eyriena e nas mudanças que irão ocorrer em Ebon Rih. O personagem Falonar revela-se um idiota pomposo e arrogante ao extremo. Por sua vez, o Lucivar prova porque é que é um dos meus personagens favoritos, distribuindo porrada e atitude por todos os cantos.
Vemos também os personagens Rainier e Surreal a lidarem com aquilo que enfrentaram no Jóia Perdida; é claro que a Surreal tinha de o fazer em grande. Pobre Daemonar, pensar que tinha magoado a "titi Srell".

Família
Neste conto vemos como os SaDiablo são uma família unida e grande. Quando um dos seus é atacado, é espantoso como se reúnem num ápice para perceber o que se passa. Foi triste ver o que aconteceu a um certo personagem, mas o conto termina numa nota positiva. Achei piada ver os SaDiablo referidos como uma "família remendada". São de facto uma manta de retalhos, parece que cabe sempre mais um.

A Filha do Senhor Supremo
Esta história foi triste, por significar para mim o fim de uma era nesta saga. Passa-se, como é indicado no início, ao longo de décadas, mas tinha dado jeito haver uma indicação qualquer quando há saltos temporais na história, pois por vezes não era óbvio que tinham ocorrido. Foi estranho ver algumas das coisas ocorrerem, e estranho foi ver a evolução de alguns personagens, mas outras coisas até foram divertidas, com o humor típico dos SaDiablo e da autora.
Foi também muito interessante conhecer a personagem titular, especialmente o seu significado. Fiquei curiosa em perceber como as coisas se processam para as raças de longevidade prolongada, já que dois personagens, o Daemonar e o Mikal (o filho mais novo da Sylvia), parecem ter perto de um século e ainda são considerados como jovens ou adolescentes.
Este último conto pode deixar alguns fãs de cara à banda, por nos mostrar acontecimentos impensáveis. Gostei por a autora ter a coragem de lá ir e de nos mostrar essas coisas, mas por outro lado os saltos no tempo e a caracterização deixam a história algo incompleta, acho que gostava de poder ter visto uma história mais longa.

Título original: Twilight's Dawn (2011)

Páginas: 416

Editora: Saída de Emergência

Tradutora: Cristina Correia

sábado, 2 de julho de 2011

A Senhora de Shalador, Anne Bishop


Opinião: Este livro começa imediatamente após o anterior da autora, Aliança das Trevas. Cassidy começa a provar que é uma Rainha digna de reger um Território, mas alguns duvidam das suas capacidades e preferiam que outra Rainha os regesse. O aparecimento de algumas pessoas do seu passado acaba por desencadear uma mudança tremenda em Dana Nehele.

Primeiro quero resmungar um bocado contra as pessoas se fixarem demasiado na aparência. A Cassidy é descrita como ruiva, alta, desengonçada, mas nunca percebi exactamente o que é que tinha que fazia as pessoas acharem-na feia. Acabei por ficar a pensar que este é um daqueles casos em que a beleza está no olhar do observador e que possivelmente a Cassidy tem características pouco comuns neste mundo, o que faz com que as pessoas fiquem demasiado fixadas na sua aparência. É que a autora exagera um pouco na tentativa de passar a ideia de que a Cassidy é considerada feia. Parece o George R.R. Martin a dizer-nos um milhão de vezes que a Brienne é feia, com a diferença de que o Martin conseguiu fazer-me acreditar que a Brienne é feia.

Bem, tentei ignorar isto, já que aquilo que certas pessoas acham da Cassidy e da sua capacidade para ser Rainha de um território acaba por ser o motor deste livro. Sim, estou a falar de ti, Theran Greyhaven. Deves ser o personagem mais obtuso, burro e cego de todo o sempre. Perdes o apoio do teu primo, do homem que te criou, de toda a corte da Cassidy, de grande parte do território de Dana Nehele e mesmo assim não consegues perceber que estás a ir pelo caminho errado?

No entanto, isto é também uma prova da capacidade da autora em criar personagens ricos e cativantes, que mesmo que sejam uns idiotas ou uns coitadinhos, nós acabamos por ter pena deles ou por nos identificarmos com eles. A Kermilla, por exemplo, é muito divertida, na sua incapacidade de ver o que estava a fazer de errado. Por outro lado, passei um bom bocado do livro a torcer por alguém que tivesse a coragem de lhe torcer o pescoço.

Adorei os desenvolvimentos em torno da corte de Cassidy, de como as pessoas se tornaram tão leais a ela e em como se tornaram num grupo tão unido e atento a qualquer perigo. O desenvolvimento final na história foi muito interessante, e altamente irónico, considerando que o causador do mesmo era a pessoa que tinha menos interesse em que tal acontecesse. E tudo por causa da sua teimosia e incapacidade de ver bem as coisas.

A família SaDiablo continua a ter um papel bastante importante nos acontecimentos, enquanto que podemos também acompanhar alguns momentos das suas vidas quotidianas. Acho que era capaz de ler um livro só dedicado às suas vidas quotidianas, dado que teria muitos momentos interessantes e divertidos. Apreciei poder matar saudades de alguns membros da corte de Jaenelle. Os jovens do Primeiro Círculo dela proporcionam-me alguns bons momentos na trilogia e gostei de poder ver outra vez a Morghann, o Khardeen, o Aaron e a Karla (Beijinho, beijinho - ah que saudades!). Adorei poder conhecer melhor os sceltitas e explorar o que esta divertida raça tem para oferecer.

Mais um livro fantástico de Anne Bishop, que me deixou embrenhada na história e cativada pelos personagens. Agora que só me falta ler um livro do universo da Jóias Negras, estou a ficar algo nostálgica. Foi uma delícia poder acompanhar estas personagens, mas também estou algo expectante em relação ao que a autora está a preparar para nós.

Título original: Shalador's Lady (2010)
 
Páginas: 512
 
Editora: Saída de Emergência
 
Tradutora: Cristina Correia

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Aliança das Trevas, Anne Bishop


Opinião: Que saudades de abrir um livro da Anne Bishop... Mal abri o livro dei por mim mesmo embrenhada na história, virando as páginas rapidamente. Esta história passa-se cronologicamente a seguir aos livros Teias de Sonhos e Jóia Perdida (creio que há menções a acontecimentos de ambos os livros).

Com o território de Dana Nehele devastado, os Príncipes dos Senhores da Guerra procuram uma Rainha que possa reger. Felizmente para nós, os pobres coitados vão pedir ajuda à família SaDiablo que rege em Kaeleer. Infelizmente para eles, o tolo que vai pedir ajuda é Theran Greyhaven, descendente de uns personagens presentes em Anel Oculto, mas também um bronco, obtuso e demasiado dependente das aparências (ele foi capaz de ficar ofendido por duas Rainhas em Kaeleer usarem respectivamente, oh horror, cabelo curto e calças).

Entra em cena uma Rainha sem corte, Cassidy. Fiquei algo chocada pela maneira como a sua corte se "livrou" dela, apenas por não ser suficientemente bonita e ambiciosa para os seus padrões. É ela que vai para Dana Nehele como Rainha. Infelizmente, tem o bronco do Theran a atazanar-lhe o juízo e a julgá-la pela aparência durante o resto do livro. Felizmente o Theran tem um primo, o Gray, que tem algumas cicatrizes (emocionais e físicas) por ter sido torturado há uns anos, mas que não deixa de ser um rapaz adorável e que com a chegada de Cassidy dá finalmente um salto na sua evolução emocional.

A família SaDiablo continua a ter um papel bastante relevante na narrativa e a aparecer vezes suficientes para me deixar muito satisfeita. Adorei os momentos de intervenção deles com as pessoas de Dana Nehele - como quando o Lucivar vai a Greyhaven ver se está tudo bem, ou quando Cassidy, Grey e Theran vão à Fortaleza jantar com os SaDiablo. E achei muita piada à cadela sceltita Vae - pode ser que consiga ensinar maneiras ao Theran. Também achei alguma piada aos mal-entendidos que se geravam na Corte de Cassidy devido ao seu Primeiro Círculo ser um bando de nabos e não saber nada de Protocolo.

O livro acaba com uma descoberta incrível que poderá, espero eu, mudar as coisas em Dana Nehele, mas deixa bastante em aberto para ser desenvolvido no livro seguinte, A Senhora de Shalador. Felizmente já o tenho em casa e não preciso de morrer de curiosidade por muito tempo. Em suma, adorei voltar ao mundo das Jóias Negras, sendo que penso que este livro está ao nível do que a Anne Bishop tem escrito neste mundo. Terminei o livro muito satisfeita.

Título original: The Shadow Queen (2009)
 
Páginas: 336
 
Editora: Saída de Emergência
 
Tradutora: Cristina Correia

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Belladonna de Anne Bishop

Sinopse: Há muito tempo, Efémera foi dividida em inúmeras paisagens mágicas ligadas somente por pontes. Pontes que podem levar quem as atravessa para onde realmente pertence e não ao local onde pretende chegar.

Uma a uma, as paisagens de Efémera estão a cair na sombra. O Devorador do Mundo está a espalhar a sua influência, manchando as almas das pessoas com dúvida e medo, alimentando-se das suas emoções mais negras. A cada vitória o Devorador aproxima-se da conquista final.

Apenas Glorianna Belladonna possui a habilidade de frustrar os planos do Devorador. Mas os seus poderes foram mal interpretados e incompreendidos. Determinada a proteger as terras sob o seu domínio, Glorianna defrontará o Devorador sozinha se assim estiver no seu destino.

Opinião: Neste livro da série o foco vira-se para Belladonna (como o título indica), mas apesar de tudo (tal como no livro anterior) têm sempre algum destaque mais personagens, tanto novas como já apresentadas no livro anterior. Os personagens do Antro da Devassidão ou das Paisagens da mãe de Belladonna aparecem um pouco menos porque a acção não passa tanto por estes espaços. O Provocador serve de providenciador de momentos cómicos quando é preciso; a Lynnea, apesar de ser tímida até há pouco tempo, continua a conseguir "dar a volta" a demónios-touro e machos em geral; o Sebastian aparece para intimidar o pretendente da prima mas também um papel mais importante no desenrolar do final. O Lee é irmão da Belladonna, e gosto muito das "discussões de irmãos" com ela, mas é também um apoio para ela. Este personagem também dá alguns momentos cómicos muito bons com algumas saídas dele... Fico à espera do livro seguinte da série que a autora diz no seu site ser dedicado a ele.

Os novos personagens introduzidos vivem originalmente numa parte de Efémera mais... coesa geograficamente, o que leva a que as Paisagens e conceitos associados sejam desconhecidos neste espaço. Isto leva a um desacelerar da narrativa em certas cenas, pois é preciso explicar-lhes tais conceitos - pessoalmente até agradeço porque este mundo é bastante complexo; no entanto isto pode não agradar a todos. Destes personagens destacam-se Caitlin Marie, uma jovem Paisagista que nunca soube o que era e que foi rejeitada por todos na sua aldeia como uma "feiticeira"; isto leva a que a Belladonna se identifique com ela, por ter passado por algo parecido devido ao que é capaz de fazer.

O outro novo personagem chama-se Michael, "portador de boa-sorte e causador de infortúnios", que a seu modo é uma espécie de Paisagista, pois pode influenciar Efémera. Mas a sua importância reside em que ele e a Belladonna parecem destinados, pois sonham um com o outro ainda antes de se conhecerem. Bolas, devorei o livro até conseguir ler quando é que eles se conheciam! Este personagem não é tão apreciado como outros da Anne Bishop por ser considerado "lamechas", mas eu gostei deste casal pela inversão de papéis - a Belladonna tenta manter-se mais afastada emocionalmente por saber que terá de enfrentar o Devorador do Mundo, e é o Michael que tem de andar atrás dela e é mais honesto sobre o que sente por ela. Outro ponto a destacar neste personagem é que sabe a maneira de enfrentar o Devorador do Mundo, mas tem a coragem de contar a Belladonna, mesmo sabendo o que lhe poderá custar. Sei que a Anne Bishop tem criado personagens masculinos todos "big bad boy", e são fixes, mas um personagem fofinho tem algo que se lhe diga.

O Devorador do Mundo, o antagonista principal, continua a semear o mal entre as pessoas para aumentar a Escuridão em Efémera. A maneira como pode ser derrotado é bastante à Anne Bishop, porque envolve um sacrifício que me partiu o coração, mas também achei uma ideia bastante original, incluindo aquilo que acontece após ser travado. Só posso dizer que a Escuridão, para ser definida como tal, precisa do seu antónimo, a Luz, pois estes dois conceitos balançam-se e equilibram-se. Depois disto, o fim já se estava a ver (senão acontecesse assim eu ficava seriamente zangada com a Anne Bishop), mas deixa algo em suspenso para nos atiçar a curiosidade e que espero que seja tratado no próximo livro.

Este livro tem sido considerado menos bom que o anterior, mas pessoalmente não posso concordar, porque vibrei muito mais com a história e tive menos dificuldade em ligar-me aos personagens, aliás, adorei-os! Para mim, este livro justificou o meu investimento neste mundo de Efémera e gostei muito.
 
Título Original: Belladonna (2007)

Páginas: 384

Editora: Saída de Emergência

Tradutora: Cristina Correia

sábado, 21 de agosto de 2010

Sebastian de Anne Bishop

Sinopse: Bem-vindos a Efémera, onde a terra se altera em resposta aos mais profundos desejos e medos dos seus habitantes. Há muito tempo, Efémera foi dividida em inúmeras paisagens mágicas ligadas somente por pontes. Pontes que podem levar quem as atravessa para onde realmente pertence e não ao local onde pretende chegar.

Numa dessas paisagens habitada por demónios e onde a noite impera, o meio-íncubo Sebastian delicia-se em prazeres obscuros. Contudo, aguarda-o um destino devastador. Uma aprendiza descuidada libertou um mal antigo que agora se agita - e o reino de Sebastian poderá ser o primeiro a sucumbir... Mas em sonhos, ela chama por ele: uma mulher que não deseja mais do que ser amada e sentir-se protegida - uma mulher pela qual ele anseia mas que sabe poder vir a destruí-la. Ela é Lynnea, e o seu improvável romance está no centro da batalha que se trava entre a luz e as trevas.

Opinião: Tinha muita curiosidade em ler um livro da Anne Bishop que não fosse do mundo das Jóias Negras, para poder comparar a história e o mundo criados para autora e comprovar que a autora é capaz de escrever para além das Jóias Negras. Mantendo a comparação, posso confirmar que neste livro (tal como na Filha do Sangue), é nos apresentado um mundo e uma história criados com uma magnífica imaginção, a que se aplica a máxima "primeiro estranha-se depois entranha-se". Pois se no início se anda um bocado perdido, a tentar perceber as regras daquele novo mundo cirado pela autora, rapidamente se é cativado pela descrição dos cenários, dos personagens e do enredo.

O mundo criado neste livro, Efémera, consiste num conjunto de regiões que outrora estavam ligados geograficamente, mas que presentemente estão separados no contexto físico. Estas regiões são denominadas Paisagens e tudo sobre elas, o aspecto, os habitantes, etc. são determinados pelas emoções, boas ou más, das pessoas que lá vivem - no entanto cada Paisagem tem uma Paisagista responsável para manter as correntes de Luz e Escuridão (determinadas pelas emoções) equilibradas. A fazer ligação entre as várias Paisagens temos Pontes, construidas pelos Construtores de Pontes, que por vezes levam-nos não aonde a nossa mente quer ir, mas sim aonde o nosso coração condiciona que "merecemos" ir.

É um mundo prestes a ser desequilibrado, pois um ser conhecido como o Devorador do Mundo foi libertado da sua prisão, e só se satisfaz ao invadir as Paisagens e provocar discórdia, violência e outros maus sentimentos entre os habitantes das mesmas. Por outro lado, temos os Magos, seres que regulam a justiça e o uso de "magia" pelas Paisagistas. Podemos ver ao longo do livro quão este grupo é corrupto e tem em mente um objectivo obscuro.

No meio disto estão três jovens, Sebastian, Belladonna e Lee (o primeiro é primo dos outros dois, que são irmãos). Lee é um Construtor de Pontes e Belladonna uma Paisagista, talvez a mais poderosa desde sempre, por conseguir infuenciar a construção de uma Paisagem. E aqui um ponto de contacto com as Jóias Negras, pois a personagem principal é em ambos uma jovem muito poderosa, absolutamente incompreendida e perseguida pelos poderes "executivos". Tal como Jaenelle, Belladonna poderá ser a única a ser capaz de salvar o seu mundo.

Sebastian por outro lado é um jovem meio-humano, meio-íncubo, que dada a sua natureza nunca foi bem aceite ou se conseguiu intergrar em qualquer lado. Apenas foi bem tratado pela sua tia e primos, e o sítio onde melhor se integrou foi o Antro da Devassidão, onde habitantes das outras Paisagens vêm para beber, jogar ou ter sexo. No entanto, este não é um espaço verdadeiramente mau, apenas com pessoas e as suas emoções, tanto boas como más. Sebastian está ligado a este espaço mais do que pensa, e terá possivelmente um papel na defesa desta Paisagem e na luta contra o Devorador do Mundo.

Dado o título, o livro é focado no ponto de vista de Sebastian, mas com espaço para nos mostrar o que se passa com outros personagens, tanto principais como secundários. E o romance com Lynnea, uma jovem tímida e que irá descobrir-se ao longo do livro, acaba por ser um enredo secundário, com importância principalmente para aqueles que os rodeiam - acaba no entanto por ter um papel mais destacado no fim do livro e no desenlace da narrativa.

O humor de Bishop denota-se em algumas passagens, e a escrita continua deliciosa. Os personagens são cativantes e estou curiosa por saber mais sobre este mundo. Quero bastante ler o próximo.

Título Original: Sebastian (2006)

Páginas: 384

Editora: Saída de Emergência

Tradutora: Cristina Correia

domingo, 25 de julho de 2010

Anel Oculto de Anne Bishop

Sinopse: Depois de nos maravilhar com a Trilogia das Jóias Negras, a autora regressa ao mundo que a fez vencer o prémio Crawford Memorial Fantasy Award. Desta vez para nos contar a história de Jared, um Senhor da Guerra de jóia vermelha. Jared transgrediu todas as regras ao assassinar a sua rainha. Mas no reino dos Sangue, são poucos os homens que podem sobreviver sem estar sob a vigilância de uma rainha. Conseguirá Jared enfrentarar os seus próprios demónios e descobrir o significado de estar verdadeiramente ligado a uma Rainha?

Anel Oculto é um livro isolado, mas tem laços com os acontecimentos da trilogia — especialmente pela presença do inesquecível Daemon Sadi. O mundo de Bishop continua a ser gótico, sensualmente perigoso e por vezes violento. Um prazer de leitura para os fãs, e uma excelente descoberta para os novos leitores que são apresentados a uma sociedade complexa, exigente, e carregada de personagens tão reais que arrepiam.

Opinião: Mais um livrinho da série das Jóias Negras, este passa-se cronologicamente antes da trilogia, e complementa a criação do mundo dos Sangue. É sobre Jared, um homem vendido como escravo de prazer que acabou de matar a última Rainha que o possuia, e Lia, uma jovem corajosa e bondosa que está de uma certa maneira relacionada com a Senhora Cinzenta da qual muito se fala, neste livro e também na trilogia.

É bom poder ler um livro com personagens deste mundo que não têm umas Jóias tão poderosas, e poder ver o mundo dos Sangue da sua perspectiva. Também é muito bom poder ver descritos alguns dos acontecimentos que levaram à corrupção dos Sangue descrita na trilogia, e ver a Dorothea ser uma mazona, porque já duvidava das suas capacidades, pois na trilogia não se vêem muito depois de o Daemon lhe fugir. É interessante o personagem do novo Guarda-Mor que ela adopta, pois podemos ver ao longo deste livro a sua corrupção por Dorothea e evolução em malvadez.

As personagens, precisamente por serem menos poderosas, permitem-nos focar mais no aspecto das relações e laços que se formam entre elas, acabando por se delinearem algumas das personagens mais deliciosas do mundo das Jóias Negras. Por outro lado, entra em cena por dois ou três capítulos um velho conhecido, Daemon Sadi, durante o período em que é um escravo de prazer possuido por Dorothea. Podemos ver que já neste momento ele sonhava com a Feiticeira que havia de vir e que é o foco da trilogia... Outro momento de destaque é a cena final de confronto, que é mencionada de passagem no fim do Rainha das Trevas, precisamente por existir um paralelismo entre o que Jaenelle faz nesse livro e Lia neste.

Óptimo complemento para a trilogia, com uma boa tradução (como sempre), recomendável a quem goste deste mundo mas também a quem se queira introduzir no mesmo.

Título original: The Invisible Ring (2000)

Páginas: 368

Editora: Saída de Emergência

Tradutora: Cristina Correia

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Jóia Perdida de Anne Bishop

Sinopse: Neste enfeitiçado volume do mundo das Jóias Negras, um escritor enlouquecido descobre que é descendente dos Sangue. Mas quando percebe que os seus sonhos de grandeza e fama são apenas uma fantasia, decide vingar-se. Os Sangue vão pagar caro por o substimarem e a primeira vítima vai ser a família SaDiablo.

Surreal SaDiablo e o Príncipe Rainier recebem um convite para visitar uma velha mansão que personifica os mitos e poderes mágicos dos Sangue. Mas a mansão é, na verdade, uma poderosa armadilha mortal para capturar outros Sangue e usá-los como marionetas para inspirar a sua escrita. As suas vidas dependem agora de um jogo de enigmas.

Enquanto Surreal e Rainier lutam para escapar à armadilha mortal, Daemon Sadi e o seu meio irmão Lucivar preparam-se para aparecer no máximo das suas forças. E prometem que quem os provocou, vai arrepender-se...

Opinião: Um escritor plebeu, Jarvis Jenkell [JJ], descobre que é Sangue; escreve então alguns livros com um personagem que descobre que é Sangue, num espelho da sua situação, mas não é por isso que será aceite. O último livro que está a preparar contém este seu personagem a ficar preso numa casa assombrada.

Coincidentalmente, Jaenelle decide criar uma casa arrepiante, ao saber de muitos preconceitos que os plebeus têm sobre os Sangue, e parece que é aí que JJ se passa - cria uma casa assombrada mortal e convida Surreal, Lucivar e Daemon de modo a que estes pensem que é uma convocatória de Jaenelle. Por sorte, só Surreal e Rainier entram na casa, mas têm de enfrentar alguns feitiços bem criados por Viúvas Negras.

Apreciei muito poder passar mais um livrinho com os SaDiablo, pois estes personagens criados pela Anne Bishop são muito carismáticos e engraçados. Foi interessante ver a Surreal e o Rainier presos na casa assombrada do escritor, e a situação é descrita como se fosse um filme de terror. Intercaladas com estas cenas, temos o Daemon e a Jaenelle a tentar perceber a situação de fora e o Lucivar... bem está entretido com a Marian e o Daemonar. Mas quando aparece, é para rebentar com a casa, hehe.

A Surreal e o Rainier fazem por merecer a descasca que o Lucivar lhe reserva no final. Eu sei que não há filmes de terror no mundo dos Sangue, mas bolas, acho que aprendemos com os mesmos que andar a vaguear por uma casa assombrada não é boa ideia. O escritor criou um casa assombrada mesmo à filme de terror, mas creio que a sua revolta não é exactamente justificada. Podia ter resolvido a sua situação de muitas outras maneiras, se compreendesse como funcionam os Sangue, mas aí também foi mal-aconselhado... Devia ter procurado saber como são os Sangue de uma fonte mais segura. Aquilo que descobriu erradamente levou a que direccionasse a sua cólera injustificada contra os SaDiablo... E ninguém se mete com os SaDiablo, logo espera-se que a coisa não corra bem para o lado do escritor.

Temos também algumas cenas em que podemos conhecer um pouco melhor alguns personagens desta família, muito boas. O livro em si pode parecer irrelevante para a trilogia, mas eu leria qualquer coisa com estes personagens magníficos criados pela Anne Bishop. A escrita continua boa, a história em si é um bónus e os personagens iguais a si mesmos. Recomendo a quem adora o mundo das Jóias Negras.

Título original: Tangled Webs (2008)

Páginas: 320
Editora: Saída de Emergência

Tradutora: Cristina Correia

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Teias de Sonhos de Anne Bishop

Sinopse: Teias de Sonhos é a forma ideal de travar conhecimento com o mundo negro e fantástico de Anne Bishop. Depois da aclamada Trilogia das Jóias Negras, Teias de Sonhos vai ainda mais longe e faz incidir a luz sobre os acontecimentos mais ocultos do passado de cada uma das suas fascinantes personagens.

Qual a origem das jóias e do seu poder? Qual o passado de Saetan, o Senhor Supremo do Inferno? O que esconde a vida pessoal do misterioso Lucivar? Conseguirá Jaenelle ser feliz ou terá sacrificado a sua felicidade com Daemon para poder salvar o mundo?

Com um enredo tão sensual quanto perverso, Anne Bishop oferece-nos mais uma prova irrefutável de ser uma das vozes mais fortes da dark fantasy.

Opinião:
Tecedeira de Sonhos
Um conto curtinho, mas muito interessante sobre a criação da Aranha Tecedeira de Sonhos. Achei um bocado confuso ao início, mas apreciei conhecer a origem duma personagem com alguma importância na trilogia e a sua relação com a antiga raça que originou os Sangue.
 
O Príncipe de Ebon Rih
Passado entre o 2º e o 3º livros da trilogia, ficamos a saber como Lucivar e Marian se conheceram. Lucivar tem um feitiozinho dos diabos, por isso é curioso ver a mulher que lhe dá a volta. É muito gira a maneira como discutem e se aproximam ao mesmo tempo um do outro. Também é interessante a maneira como a Marian é introduzida e aceite na família SaDiablo. Fiquei foi chateadíssima com a interferência da Luthvian, porque demonstra o quão mesquinha é; além de que gostava que se fosse para ela se intrometer, fosse uma intromissão de jeito, isto é, mais composta, assim só pareceu que ela é patética. Mas talvez seja mesmo para sublinhar a sua mesquinhez. Outra coisa interessante foi o desenvolvimento entre Lucivar e Karla. Gosto tanto da personagem dela que saber mais qualquer coisa sobre a Senhora "beijinho, beijinho" é uma bênção.
 
Zuulaman
É a resposta à pergunta sobre porque é que Saetan não tentou recuperar Daemon ou Lucivar quando estes lhe foram tirados quando eram crianças. Descobrimos o que aconteceu ao 3º filho de Saetan e Hekatah - não é bonito -, vemos quão malvada ela verdadeiramente é e descobrimos aquilo que Saetan é capaz de fazr quando destroçado e destruído.
 
O Coração de Kaeleer
Ocorre após o 3º livro da trilogia, dá-nos as respostas que o fim deste livro possa ter deixado quanto ao destino de algumas personagens. Duas feiticeiras maliciosas que escaparam à "purga" ocorrida no 3º livro e começam a espalhar rumores maliciosos sobre Daemon que poderão magoar Jaenelle: A relação de ambos está fragilizada depois do "Rainha das Trevas", mas ironicamente esta interferência acaba por ajudar a juntá-los. Ficamos a saber mais sobre a nova jóia da Jaenelle. A Surreal e o Lucivar também aparecem, com resultados engraçadíssimos. Daemon, no fim, ensina às feiticeiras o que é dançar com o Sádico. Podemos assistir ao casamento de Daemon e Jaenelle, tão giros e como se adoram!
 
Título original: Dreams Made Flesh (2005)

Páginas: 400

Editora: Saída de Emergência
 
Tradutora: Cristina Correia

domingo, 4 de julho de 2010

Rainha das Trevas de Anne Bishop

Sinopse: Há setecentos anos, num mundo governado por mulheres e onde os homens são meros súbditos, uma Viúva Negra profetizou a chegada de uma Rainha na sua teia de sonhos e visões.Incapazes de atingir Jaenelle, a jovem Rainha, os membros corruptos dos Sangue fazem um jogo perverso de diplomacia e mentira, procurando destruir aqueles que sempre deram tudo por ela. E revertem as culpas para o seu tutor, Saetan, que passa a ser visto como a maior das ameaças ao poder instituído.

Com Jaenelle como Rainha, a chacina do povo e a profanação das terras irá terminar. Porém, onde se fechou uma porta poderá abrir-se uma janela... E mesmo que Jaenelle possa contar com os seus aliados, talvez não seja suficiente: só um terrível sacrifício poderá salvar o coração de Kaeleer...
 
Opinião: Ler este livro foi como andar numa montanha russa: em cima, em baixo, em cima, em baixo... A primeira parte focou-se no retorno de Daemon, a sua integração na corte, as ameaças mais ao largo de Hekatah e Dorothea... Destaque para quaisquer cenas com Surreal, que com aquela feitiozinho e aquela boca grande deixa-nos na risota. As cenas sobre a interacção machos-fêmeas dos Sangue também são muito giras - as relações homens-mulheres são retratadas com o humor habitual de Bishop. A dança entre Daemon e Jaenelle, particularmente, deixaram-me a pensar "oh... tão fofos".
 
Foi bom rever algumas personagens que não haviam tido tanto destaque nos outros livros, como Wilhelmina, Surreal ou Daemon. E conhecer outras personagens como o Colmilho Cinzento. O que só me fez ficar mais entristecida com os acontecimentos na segunda parte. Houveram algumas mortes. O Daemon teve que fazer uma coisa difícil. A Jaenelle uma coisa ainda mais difícil. Mas em guerra, ou ameaça de guerra, por vezes vale (quase) tudo. Quando se pode perder toda uma terra, todo um povo... A purificação do povo dos Sangue acabará por ser a melhor e mais difícil escolha.
 
A segunda parte acaba por ser angustiante devido aos acontecimentos, e no fim não fica tudo bem, como num final cor-de-rosa. Mas o livro acaba definitivamente numa nota positiva, e isso é que me deixou completamente satisfeita com o final e com este último livro da trilogia.

Título original: Queen of the Darkness (2000)

Páginas: 400
 
Editora: Saída de Emergência
 
Tradutora: Cristina Correia