quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Este mês em leituras: Agosto 2017

Que mês fantástico! Estou de férias, e consegui fazer um monte de coisas aqui no blogue (e nas leituras e noutras coisas pessoais também) que queria fazer. Estou bastante actualizada nas opiniões e isso deixa-me mesmo feliz. Têm sido uns bons dias para descansar, mas também já estão a acabar...foi bom poder recarregar baterias.

Livros lidos


Opiniões no blogue


Os livros que marcaram o mês

  • 99 Dias, Katie Cotugno - gostei mesmo da maneira como a autora tratou o seu enredo e a sua protagonista, Molly... ela faz um monte de asneiras, mas é difícil não compreender onde é que a cabeça dela está, ou ter compaixão pelo que ela passa;
  • The Gentleman's Guide to Vice and Virtue, Mackenzi Lee - este é simplesmente amoroso, o seu protagonista é tão divertido e cheio de falhas duma forma cativante... adorei o humor dela, e a história em si é uma delícia de acompanhar;
  • Meg Cabot - julgo que cheguei ao fim do meu desafio pessoal Meg Cabot... as únicas coisas que me faltam ler dela são os contos espalhados por um milhão de antologias, e parece-me quase impossível andar a caçá-los todos, e alguns históricos do início da sua carreira, que é mesmo impossível comprar em papel, mesmo em segunda mão (a não ser que eu venda um rim), e em versão Kindle, bem, só há dois dos quatro que me faltam e custam mais do que estou confortável a pagar por um e-book... por isso, é o fim, por agora; estou contente por ter chegado ao fim dum desafio tão longo, especialmente porque normalmente não sou pessoa de desafios, mas também estou triste por ter acabado, porque diverti-me e isto puxava por mim... vou ter de encontrar outra coisa.

Aquisições

Banda desenhada do mês: os dois livros da Graphic Novels Marvel que deviam ter chegado o mês passado. (Este pessoal anda muito, muito atrasado.) Ainda não tenho os de Agosto porque costumam ir para o trabalho, e como tenho estado de férias... se bem que os meus colegas não me avisaram de uma encomenda, por isso pergunto-me se chegaram a entregá-los.

Em adição, a Goody está a lançar semanalmente, e alternadamente, revistas/livros do Homem-Aranha e dos Vingadores. Para quem ficou desanimada quando as últimas revistas Marvel morreram, descobrir isto foi uma boa notícia. (Apesar de eles não terem feito muita publicidade, infelizmente, pois descobri quase por acaso.) Como têm ISBN, contam como livros, e por isso entram para as minhas leituras.

Os três livros em português foram comprados com um vale Fnac (o do Gaiman) e com dinheiro em cartão (os outros dois); em inglês, temos uma autora que sigo (Meg Cabot), uma antologia intrigante com autores que sigo, e um livro que me deixava muito curiosa (Mackenzi Lee).

Os últimos dois deviam ter chegado em Julho, excepto pelo problema que os CTT me comeram os dois de seguida (um livro desaparecer é uma coisa, mas dois de seguida é um pouco suspeito) - foram enviados com 10 dias de diferença. O Book Depository foi gracioso o suficiente para enviar uma segunda cópia, e surpresa! chegaram os dois numa semana, que é bem mais rápido do que o tempo de entrega habitual dos CTT para encomendas minhas do site.

A ler brevemente

Em Setembro quero muito ler a Juliet, para (finalmente) terminar a trilogia, e ler a antologia que adquiri, porque estou mesmo curiosa. Tenciono continuar a comprar e ler as revistas da Goody da Marvel, e se finalmente os próximos dois volumes da Graphic Novels Marvel me chegarem às mãos, tenciono ler esses também. Por fim, espero poder ler alguns lançamentos de Agosto/Setembro - são os que estão listados na foto.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Meg Cabot: Missing You, Royal Crush


Páginas: 288 / 320

Editora: HarperTempest (HarperCollins) / Feiwel & Friends (MacMillan)

Missing You é a sequela final a esta série (1-800-Where-R-You). Pelo que posso ver das datas de publicação (quatro anos de intervalo do livro anterior), imagino que tenha sido publicado por obra do amor dos fãs por esta série; se tivesse de adivinhar, a editora provavelmente contratou a Meg para quatro livros, mas o quarto ficou tão em aberto que as pessoas passaram anos a queixar-se à editora, e eles finalmente cederam e pediram-lhe para escrever um quinto. O poder do fandom funcionava, mesmo quando as redes sociais eram embrionárias ou não-existentes, e fandom nem sequer existia como conceito.

O que resulta num paradigma curioso: há um salto temporal também para os personagens, e a Meg tenta actualizar-nos acerca do que decorreu nesse tempo - o que inevitavelmente vai resultar num tell/info dump, dos quais não sou fã, mas considero-os aceitáveis neste caso, suponho.

A verdade é que certas coisas podiam ter sido melhor abordadas e expandidas (a exposição do enredo, as motivações dos personagens, a rápida evolução de coisas que mereciam mais tempo), mas vi um comentário algures que a Meg tinha planos para 8 livros, por isso... suponho que ela estava a tentar condensar o máximo que podia neste, ao mesmo tempo que tentava agradar os fãs. Tenho pena, mas também não consigo ficar zangada.

A premissa deste livro é que a Jessica esteve fora, a usar os seus poderes no terreno, na "guerra contra o terror". E isso deixou uma marca nela: ao fim de algum tempo, começou a ter pesadelos e a ser incapaz de usar os seus poderes. Voltou a casa, as coisas não correram bem com o Rob, foi viver para Nova Iorque e começou a estudar música, a sua paixão. E agora, passado um ano, parece finalmente estar a recuperar. Entra em cena o Rob, que lhe aparece em casa à procura de ajuda para alguém da sua família. E apesar de relutante, a Jessica não resiste a ver se pode ajudar e recuperar as suas capacidades.

Apesar de ser um pouco mais pesado, achei que este volume continua com o sentido de humor Cabotiano, e consegue ser suficientemente satisfatório na evolução da Jessica durante a narrativa. A Jess aprendeu novas formas de resolução de conflitos, e adorei como resolveu as coisas com o vilão, muito inspirada.

Gostei, entre outros, de ver o Doug tão bem na vida, e envolvido nos problemas da cidades; e de ver a relação gira que a Jessica tem com o pai, em que lhe pode contar tudo que o senhor não se assusta nada. Oh, e de ver que o Rob fez tanta coisa com a sua vida e não ficou à espera da Jess, a amuar num canto. Também feliz por poder ver um final feliz para os personagens, e um final mais fechado. Julgo que a Jess e o Rob podem ter avançado um pouco demasiado depressa, mas como gosto de finais felizes...

Royal Crush é o terceiro livro focado na Olivia, a pequena meia-irmã da Mia que acabou de descobrir que é uma princesa. Como a Mia, a Olivia gosta muito de escrever (e desenhar) no seu diário; neste volume, está quase a fazer 13 anos, e vão dar um baile em sua honra em Genovia.

De caminho, a Olivia está felicíssima por ir ser uma tia: a Mia está grávida de gémeos, e prestes a dar à luz. É algo divertido de seguir pelo drama que se gera nos media à volta do assunto: toda a gente aposta no sexo das crianças, e nos seus nomes, e é a loucura para tentar descobrir esta informação ou tirar-lhes fotos.

Entretanto, a Olivia está a lidar com o facto de ter desenvolvido uma paixoneta pelo Príncipe Khalil; e com o facto da escola, a Royal Genovian Academy, ir competir com outras escolas reais europeias nuns jogos de Inverno, o que deixou os alunos completamente animados. (Ou parvinhos, como a prima Lady Luisa; e consideremos o Príncipe Gunther que é totalmente sem-noção; ou a amiga Nishi, que quer que a Olivia tire umas fotos ao Khalil e as envie.)

Gosto muito desta série porque acho que a Meg apanha bem a voz Middle Grade da Olivia; e adoro a Olivia, que é uma menina humilde, divertida, interessada e preocupada. Divirto-me a segui-la. Aprecio também poder seguir o pessoal da série Diários da Princesa, ver o que andam a fazer, desde a Mia e o Michael, até ao Lars, o segurança pessoal dela. Oh, e a Grandmère! Que neste livro faz de chaperone na visita aos jogos e Inverno e é engraçada de seguir.

Destaque ainda para como a chegada dos bebés deixa tudo babado; e gosto tanto do conceito da Meg ter várias escolas europeias de elite a ensinar realeza e nobreza - ela inventa uma série de principados e pequenos países pela Europa e pelo mundo fora, e é tão engraçado.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Reencontro com o Amor, Melissa Pimentel


Opinião: Este é um retelling de Persuasão. Não é letra-a-letra - nunca podia ser, pois o pendor observatório social de Jane Austen não pode ser reproduzido da mesma maneira numa sociedade que não é a mesma de há 200 anos. No entanto, diria, que é uma adaptação relativamente inteligente.

Vejamos: segue o esquema geral do enredo do original, passando pelos momentos "grandes" -as crises, as indecisões, os "ele ama-me, ele não me ama" -; adapta os personagens - sinto que a irmã e o pai da Ruby têm características que lembram os personagens originais, mas têm também características redentórias que nos fazem entender porque a Ruby os ama, e por outro lado gosto do que ela fez com as irmãs Musgrove -; tem um certo sentido de humor e até podemos entever alguma crítica social, apenas não com a categoria apurada e a pena afiada de Austen.

A história foca-se em Ruby, jovem que vem duma cidade pequena e que vive e trabalha em Nova Iorque, tendo chegado a um ponto de que se possa orgulhar. 10 anos antes apaixonou-se por Ethan, mas algo aconteceu que os separou (é o mistério da história). Já o Ethan era um empregado de bar quando se conheceram, mas depois da separação voltou a estudar, criou uma app revolucionária, e agora é um milionário cobiçado por causa disso.

A inovação do enredo prende-se mesmo com podermos acompanhar os dois momentos da relação. Alternamos capítulos entre presente e passado, para apreciar a sua evolução, entender como se juntaram, como terminaram, e como voltar a estar no mesmo espaço pode criar todo o tipo de tensões.

Apreciei vê-los no passado: deu para entender que eram muito novos e queriam coisas diferentes da vida, e alguém ia ficar emburrado por não poder seguir a vida como a via se continuassem juntos. Não estavam preparados para uma relação séria, apesar de o sentimento ser forte.

O porquê do término da relação, bem, não apreciei que a autora fizesse caixinha e nos agitasse a revelação à frente do nariz sempre que podia... mas o conteúdo em questão fez sentido. A Ruby estava num mau lugar, assustada, e numa posição delicada e frágil, e isso tornou-a um alvo fácil. Tomou uma decisão errada, mas depois uma certa e esteve 10 anos a culpar-se por isso. Acho que merece compaixão pela posição difícil em que acabou.

Outra coisa interessante sobre o livro: há muitos anos, tive uma fase em que andava a ler chick lit - detesto o termo, mas serve para descrever o que quero dizer - e era interessante, mas era sobre gente com uma idade e numa posição na vida muito diferente da minha na altura.

Parece que cheguei finalmente a um ponto na vida em que chick lit é sobre a minha geração... há algumas coisas que a autora escreve que são exactamente o dilema dos Millennials: há gente que segue o exemplo dos pais e tenta encontrar uma carreira, como a Ruby, que acaba por se sentir incrivelmente frustrada ao obter um pouco daquilo que achava que queria; há gente que mal saiu do berço e já é super bem sucedida - leia-se rainha do Instagram ou uma empresária da Internet (as irmãs Musgrove... aqui são gémeas e são amorosas e tão inteligentes e desafiadoras dos estereótipos que a sua beleza podia trazer).

Não há definitivamente meias-medidas para a geração, e acho que a autora soube incorporar bem um bocadinho dos dilemas e posições da mesma. É um ponto que não é enorme no enredo, mas condiciona as acções dos personagens e um pouco da evolução do mesmo, portanto é giro e meritório de nota.

A história é, como no original, no POV da protagonista, e por isso mantém-se o suspense sobre os motivos e os pensamentos do Ethan, mantendo efectivamente uma certa tensão derivada da incerteza. Mas mesmo assim, ele tornou-se uma pessoa interessante com os anos, e seria intrigante ver o POV dele.

O final passa por a Ruby fazer algo difícil - confessar ao Ethan a coisa que a fez terminar com ele 10 anos antes, sabendo que é má o suficiente para ele nunca mais lhe querer pôr a vista em cima. E depois toma algumas decisões muito acertadas sobre o seu futuro, sem saber se passa por ele ou não - gosto que tenha identificado a fonte da sua frustração e se tenha proposto a mudar a vida e procurar algo diferente.

Não tivemos direito a uma carta deliciosa como a do Wentworth - vou querer sempre cair para o lado com algo do género -, mas sinto que a confissão da Ruby atinge o mesmo propósito: é assustador pôr o coração nas mãos de outrém, arriscando-se a que essa pessoa o esmague. E gosto que o Ethan tenha entendido o mau lugar onde ela estava 10 anos antes - tinha tido vislumbres disso -,  e entendido que após tanto tempo, estava para trás das costas, e era inútil ficar zangado. Já tinham perdido muitos anos com um sentimento não realizado pela sua incompatibilidade inicial.

E isto sim, é próximo do original. Sim, tenho pena da Anne e do Frederick por terem perdido aqueles anos todos, mas não sabemos como as coisas correm, e se se tivessem juntado na altura a sua vida podia ser bem diferente. Ele ganhou a ambição de se elevar socialmente para mostrar aos que o tinham rejeitado que estavam errados, e ela revelou-se uma mulher sensata, apesar de, ou talvez por causa do sofrimento e arrependimento da sua decisão. Acima de tudo, Reencontro com o Amor concorda com o original e faz o argumento que a separação temporal pode ser boa para as partes envolvidas.

Título original: The One That Got Away (2016)

Páginas: 320

Editora: Topseller (20|20)

Tradução: Fernanda Semedo

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

The Gentleman's Guide to Vice and Virtue, Mackenzi Lee


Opinião: Oh, este livro é tão, tão giro e amoroso, e tão divertido que só me apetece dar-lhe festinhas/abraçá-lo - o que seria um pouco estranho para um objecto inanimado, mas é assim que o dito me deixou. Quer dizer, há meses que o livro tem um burburinho louco atrás, o que normalmente me deixa desconfiada (qualquer coisa muito falada ou é muito boa, ou muito má, para mim), mas também tenho a sorte de ter um excelente sexto sentido para perceber quando um livro vai ser a minha praia, e bem, este caiu-me que nem uma luva.

O protagonista da história é Henry Montague, Monty para os amigos. O Monty é um lorde inglês que chegou à maioridade, e que vai começar a ser treinado para herdeiro pelo pai; antes disso, no entanto, este tenciona enviá-lo numa Grand Tour da Europa, para se cultivar e, hmm, domar os seus modos. O Monty está muito animado com a perspectiva da viagem, porque pensa que será um ano de festas, bebida e senhoras de reputação duvidosa; no entanto o pai tem diferentes planos e vai enviar um chaperone para se assegurar que o rapaz é um modelo de bom comportamento.

A acompanhá-lo estarão a sua irmã Felicity, que por ser mulher não tem direito a ver as partes boas da Tour (ver os museus, as oportunidade culturais e de conhecimento), o que no caso da Felicity é trágico, pois a sua mente é voraz de conhecimento científico; e o melhor amigo Percy, um jovem biracial bem mais responsável que o Monty, possuidor de um segredo que afecta ainda mais o seu lugar na sociedade... e objecto da enorme paixoneta duradoura do Monty.

O problema da Grand Tour... é que foi desviada. O Monty comete um acto irreflectido para obter uma pequena vingança contra alguém de quem não gostou (típico do Monty... muito, muito típico), e isso mete-os inadvertidamente num monte de sarilhos... de repente estão a fugir Europa fora não só de salteadores, mas também da Coroa Francesa, e pelo meio tropeçam num "golpe", num sonho alquímico tornado realidade... oh, e ainda são raptados por piratas.

Parece um pouco convoluto, mas Mackenzi Lee fá-lo resultar: as constantes reviravoltas do enredo são cativantes e hilariantes de acompanhar. Adorei seguir as peripécias em que os nossos protagonistas se metem - especialmente porque 90% da culpa é do Monty. Em adição, a autora escreve com um sentido de humor que vai totalmente de encontro ao meu, e isso é fabuloso. Fartei-me de soltar risinhos e gargalhadas com este.

A caracterização é excelente, especialmente no Monty. Começamos por ver este bon vivant, um libertino sempre metido em festas e sarilhos que esgotou a paciência do pai; mas depois começamos a ver as outras camadas, o miúdo bisexual aterrorizado com a perspectiva de as pessoas erradas descobrirem que também gosta de rapazes: há muita falta de autoestima ali, muita autodepreciação no modo como o Monty se comporta. Quase uma forma de desiludir o mundo para que o mundo não o desiluda a ele.

Também gostei da caracterização do Percy, ele tem duas coisas em seu desfavor perante a sociedade - é meio negro, e tem uma doença ainda muito mal entendida nesta altura. E no entanto ele é um jovem que não deixa que isso o defina, é inteligente e determinado e discreto, apesar de estar resignado a que os outros o vejam como "menos", por ser quem é.

Já a Felicity é um doce para esta leitora. Sarcástica, com uma relação giríssima com o Monty, cheia de exaspero (pensar-se-ia que ela era a mais velha), e trocas verbais cheias de alfinetadas. A Felicity vai para a finishing school no fim da viagem, mas isso para ela é um açaime: a jovem tem uma mente bem afinada, adora ler livros de divulgação científica (e escondidos pela capa de um romance... é cá das minhas), e tem um sangue frio admirável, o que combinado com os seus conhecimentos de medicina safam o grupo em momentos cruciais. (Para não falar da rijeza que é preciso ter para coser o seu próprio ferimento... sem anestesia ou analgesia.)

O que eu destacaria mais acerca deste livro é que é uma ode aos inadaptados, aos rejeitados pela sociedade por esta ou aquela razão. Qualquer um dos três protagonistas tem algo que o faz pertencer a uma minoria discriminada, algo que "diminui" o seu valor na sociedade; e ainda assim, estes miúdos prevalecem e criam e tomam as rédeas da sua própria história, procurando um final feliz.

É tão optimista que dá vontade de derreter; é tão fácil, por exemplo, torcer pelo Monty e pelo Percy, porque são adoráveis (juntos e separados), e a sua história tem todas as pequenas coisas de uma amizade a resvalar para amor, os olhares e suspiros, os mal entendidos, o achar que se tem um amor não correspondido... pobre Felicity, até ela embarca nos preconceitos aceites da sociedade sobre homossexualidade (e isto apesar de não embarcar no caso do Percy e da sua doença, o que achei uma dualidade interessante), e mesmo assim não consegue deixar de torcer pelos dois, e querer que estas duas pessoas que adora tenham direito à sua felicidade.

Enfim, é um livro que adorei, encheu-me as medidas duma forma como poucos fazem. A autora descreve uma época histórica de forma genuína, mas consegue apresentá-la do ponto de vista de gente que seria esquecida pela História e afastada pela sociedade de então. De certo modo, é brilhante, e gostei mesmo disso, bem como do sentido de humor, e dos personagens principais cativantes. Recomendaria sem ressalvas.

Páginas: 528

Editora: Katherine Tegen Books (HarperCollins)

domingo, 27 de agosto de 2017

Mitologia Nórdica, Neil Gaiman


Opinião: Ok, isto não é reinventar a roda. Nem pretendia ser, na verdade. Isto é, no entanto enganadoramente simples. É um escritor conhecido propor-se a recontar e colectar num único volume um conjunto de lendas e mitos fragmentados, fazendo muito com pouco - dando-lhes clareza e coerência, e uma cronologia lógica e ordenada de forma a que façam sentido.

É um livro que, não trazendo nada de novo, exactamente, é especial pela mão que o escreve. Ache-se o que se achar dele, Neil Gaiman é um excelente escritor. Tem uma curiosa combinação de literário e mainstream na maneira como escreve, tem uma fantástica cultura geral, um sentido de humor rico e um toque mágico que confere a tudo o que escreve aquele quê de encantador.

Lendo o volume, é importante por outras razões; dá para ver a importância que este tipo de histórias teve noutros seus trabalhos, e quase tenho vontade que fizesse o mesmo com outros tipos de lendas e mitos. Uma volume de histórias que inspiraram Sandman, recontadas pelo autor do mesmo? Ah, era brilhante.

Uma nota final: foi estranhamente emocional ler o conto sobre o Ragnarok. Primeiro porque como é postulado, é um conto acerca do fim do mundo, do que vai acontecer, ao contrário dos contos anteriores, que são sobre o passado. Depois, é algo perturbador ler um livro de contos sobre um conjunto de personagens, e depois ler algo sobre "o que lhes vai acontecer" - e isso passar por toda a gente (quase) morrer, e de forma horrível. É algo compensado, contudo, pela promessa de renovação, a ideia de que o mundo recomeçará com descendentes dos deuses e com um retorno bem merecido.

Título original: Norse Mythology (2017)

Páginas: 248

Editora: Presença

Tradução: Maria de Almeida

sábado, 26 de agosto de 2017

Curtas BD: The Fade Out, Nailbiter, e mais

The Fade Out v.1: Act One, Ed Brubaker, Sean Phillips
Os autores voltam a algo que parece ser a sua praia - um mistério ao estilo noir passado na década de 40/50 do século XX. Não é nada de novo, talvez até algo repetitivo para quem já leu grande parte do Fatale, mas fazem-no duma maneira cativante o suficiente para captar a nossa atenção.

A história foca-se num crime: a protagonista dum filme de Hollywood desta época morre em circunstâncias estranhas, com o argumentista a acordar na sala ao lado após uma noite de festa intensa. Ele foge, para não ser implicado, mas depois apercebe-se que o estúdio está a tentar mascarar a morte como um suicídio. A injustiça leva-o a investigar, e rapidamente dá conta que a intriga é mais profunda e perigosa do que suspeitava...

Fazem um bom trabalho a explorar a atmosfera da velha Hollywood, glamorosa mas com um lado escuro a espreitar (estes são os anos da caça às bruxas comunista); a escrita é boa e envolvente, e a arte bastante decente, especialmente nas cores. Apenas peca por saber a pouco: são quatro números da história, e levanta muitas questões mas ainda não responde a nada.

Nailbiter v.1: There Will Be Blood, Joshua Williamson, Mike Henderson, Adam Guzowski, John J. Hill, Rob Levin
Este é um pouco estranho. A premissa passa pelo facto de haver uma cidadezinha no Oregon de onde vêm 16 serial killers; o protagonista viaja para lá à procura de um amigo que estava a investigar a razão disso acontecer. O mais bizarro de tudo? O último escapou à justiça, foi considerado inocente no julgamento e vive tranquilamente em Buckaroo.

Começam a acontecer coisas estranhas, alguém parece estar a reviver as particularidades de cada serial killer, e o Warren (o assassino absolvido) parece o culpado mais óbvio - o que quer dizer que não, não está envolvido no assunto e parece querer ajudar o protagonista e a polícia.

Achei interessante pela descrição da mentalidade de cidadezinha pequena, e por fazer algumas piadas com os clichés dos filmes de terror; acho intrigante a premissa de uma cidade ser responsável por tantos assassinos, e estou curiosa para ver a explicação. Não é tão nojento quanto esperava, no entanto. Tony Chu consegue ser mais enjoativo com certas coisas.

Oracle: The Cure, Tony Bedard, Kevin VanHook, Claude St. Aubin, Julian Lopez, Fernando Pasarin
Depois de uma missão com as Birds of Prey, a Barbara Gordon sente a necessidade de ficar sozinha, e assim parte à aventura. Tropeça num plano maléfico do Calculator, o vilão equivalente ao que ela faz como Oracle - um mágico dos computadores. O plano passa por estudar uma equação que o vilão acha que vai trazer uma cura à filha, que está em coma; só que pelo caminho, esse seu esforço está a deixar corpos por todo o lado.

Gostei de ver a Barbara a ser uma heroína de acção, mesmo com a sua limitação; ela tem os seus momentos menos bons e o livro não se afasta disso, o que gostei, mas também a coloca a fazer uma série de coisas fixes e destemidas. O aspecto da realidade virtual é bastante curioso e manteve o meu interesse ver como era realizado.

A arte, no entanto... eh. Detesto as capas da mini-série. É uma sexualização desnecessária da personagem, e até um pouco perturbadora se pensarmos que uma das capas associa isso à sua incapacidade, pondo-a numa pose vulnerável. Nem pensar. Quem é que achou que isto era uma boa ideia?

The Girl With the Dragon Tattoo v.1, Stieg Larsson, Denise Mina, Leonardo Manco, Andrea Mutti
Julgo que a única coisa que este livro tem a seu favor é que me fez relembrar duma história que eu até apreciei muito ler. Fora isso, uma grande bola de meh. Não gosto da ideia de dividir a história a meio, e poder relembrar só metade, por exemplo. Neste tipo de adaptação não faz exactamente sentido.

Também não gosto da sua simplicidade. Estava a rever o enredo do livro original pela página da Wikipedia, e raios, é convoluto. A BD precisa, claro, de ser uma adaptação, tanta complexidade não é adequada às suas páginas... mas mudam o tom, mudam certas cenas, o enredo e os personagens parecem mal caracterizados. Há maneiras de adaptar e simplificar sem perder o espírito, e parece que estes criadores não estavam à altura da tarefa.

A arte também não é cativante. Aborrecida, pouco expressiva, talvez até inexperiente? Não me incomodou a leitura, mas também não lhe adicionou nada.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O Noivo de São Valentim, O Estratagema de Lady Sara, Emily Hendrickson

O Noivo de São Valentim, Emily Hendrickson
Este é um livro amoroso; estava na estante da minha mãe há anos (a sério, ainda tem o talão de compra ao Círculo de Leitores em 1994), e há uns anos roubei-lho e diverti-me a lê-lo umas quantas vezes, se bem que já não relia há uns bons tempos.

A premissa passa por ter uma relação pré-existente entre os dois protagonistas: ambos se conhecem de Londres, e havia química, mas agora no campo Elizabeth não quer ter nada a ver com o David porque o acha um libertino (acho que em inglês devem atirar com a palavra rake de cinco em cinco minutos, porque passamos metade do livro a ouvir dizer que o David é um libertino).

Só que o David precisa de pedir ajuda a Elizabeth, e então tem a brilhante ideia de trepar à janela dela para entrar no seu quarto... e a Elizabeth dá-lhe um tiro, a pensar que era um ladrão. (Bem feito.) Apanhados numa situação comprometedora, a tia de Elizabeth considera-os noivos. O que ajuda o pedido de David, que queria a ajuda de Elizabeth num mistério: descobrir o que está a acontecer ao pai, que adoeceu repentinamente e de forma suspeita.

Tem bastantes pontos de interesse, como o mistério, e a história pessoal da família da Elizabeth, pois as várias irmãs fizeram algum trabalho de espionagem para a coroa, e este é tecnicamente o segundo numa série, e adorava ter a oportunidade de vir a ler outros livros dela, especialmente nesta série... excepto pelo pormenor que são superantigos e não há probabilidade de os caçar em papel. Talvez se me der para perder a cabeça na Kindle Store ou assim...

A razão porque gostei tanto deste livro passa também pelo par protagonista, apesar de o foco do livro não ser apenas o romance, achei-lhes piada e achei que tinham química. Este é um romance histórico à antiga, há uma série de coisas que esperamos nos RH hoje em dia e que não acontecem em RH escritos há décadas... e até é refrescante ler algo de diferente.

O Estratagema de Lady Sara, Emily Hendrickson
A história deste livro foca-se num grupo de senhoras que quer casar por amor, com um cavalheiro da sociedade... e uma delas tem a ideia de, com as tias, senhoras conhecedoras da sociedade, elaborar um lista de elegíveis a marido para cada uma, de acordo com os seus gostos e feitios.

É uma premissa bastante divertida, e adorei segui-la para ver os resultados... o livro é bastante focado nas relações entre mulheres, sejam as quatro amigas, sejam as tias - que adorei, já agora. São senhoras mais velhas que já perderam o marido (duas delas, creio eu), ou são solteironas (a outra, acho), e que se dedicam a acompanhar os dramas de sociedade. Não há ninguém mais sabedor e que poderá dar uma opinião sobre qualquer membro do ton.

Tudo corre bem para três das jovens... mas não para Sara, a protagonista e sobrinha das senhoras. É que a Sara excluiu logo o primeiro nome da lista à partida, por uma incompatibilidade pessoal que prefere não revelar... só que a corte com os seguintes jovens também não corre lá muito bem, e chega ao fim sem pretendente!

O truque? O seu primeiro da lista, Myles Fenwick, ouviu a conversa original entre as senhoras, e ficou ressentido por ser excluído, e por ser chamado de "aborrecido". E procede então a sabotar a Sara em todos os pontos seguintes da lista. E em teoria gosto desta ideia da sabotagem...

Excepto por um pequeno facto: é manipulador. Cai-me mal que ele esteja a influenciar os acontecimentos, sem a Sara se dar conta. Acho que encontraria mais piada na história se a Sara o descobrisse a meio do enredo e aquilo virasse uma batalha dos sexos entre os dois para ver quem prevalece.

Também não acho particularmente excitante a razão original para eles estarem "zangados"/ela o excluir - é fraca. E o final não é assim muito forte, já que ela descobre a manipulação no fim e caem logo nos braços um do outro. Sinto que devia haver zaragata primeiro e que ela o devia fazer sofrer pelas suas intromissões. Enfim, a premissa do enredo é gira, mas precisava de mais trabalho.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

99 Dias, Katie Cotugno


Opinião: Uau. Tenho 99% de certezas (heh) que poucos ou quase nenhuns autores se safariam a escrever uma história deste tipo. A situação em questão é delicada e envolve toda a gente metida ao barulho ter atitudes condenáveis, e pior, reincidir nas asneiradas que faz; e ainda assim, acho que a autora apresenta a questão com nuance, fazendo-nos entender porque este pessoal toma decisões terríveis, humanizando-os. Pontos bónus por isso.

Molly é uma jovem de 18 anos que esteve a estudar durante o 12º ano numa escola privada no Arizona; voltou a casa agora, antes da faculdade, para aguentar um Verão complicado antes de poder seguir o seu percurso académico. O dilema? Molly é amiga da família Donnelly desde sempre, ao ponto de a amizade profunda que tinha com o Patrick, um dos irmãos, dar em namoro. Um ano antes, Molly foi apanhada numa indiscrição: num momento em que o namoro estava complicado, envolveu-se com Gabe, o outro irmão Donnelly. E foi apanhada. Daí a sua fuga para o Arizona, para fugir ao bullying que se seguiu a tal revelação.

A escrita da autora é bem bonita e cativante; e melhor ainda, ela escreve de forma tão interessante. Ao longo do Verão, Molly vai examinar os seus erros e a sua relação com os Donnelly. Há um certo reactivar do "triângulo" durante o Verão, mas pelos olhos dela entendemos aquilo que devia ser óbvio: é preciso três para fazer uma asneira destas.

Há certos aspectos da relação dela com cada rapaz que preconiza uma ligeira manipulação e malícia da parte de cada um (é fascinante chegar ao fim e percebê-lo); de certo modo a Molly é a mais inocente no meio disto tudo, no sentido em que ela está a tentar honestamente resolver as suas cenas, sem intenção de fazer mal - apesar de no fim de contas, acabar a fazê-lo. Mas lá está, é difícil odiá-la quando se vê a confusão em que a cabeça dela está: é difícil não sentir compaixão.

Uma coisa que apreciei ler foi o sublinhar que a autora faz: foram precisas três pessoas para dançar o tango aqui. Após a "traição" inicial quem passou pior foi a Molly: é o mundo em que vivemos, uma mulher é uma galdéria enquanto que um homem é um macho quando ambos têm a mesma atitude. É triste, mas é empoderador ver lembrado que as culpas no cartório pertencem a toda a gente, e que a Molly não é uma santa ou uma pecadora.

Apesar de todas as patetices que comete, gostei de seguir a evolução da Molly. O Verão permitiu-lhe ficar mais segura de si, mais confortável na sua pele, e fazer um maior esforço para socializar e recuperar as amizades que ficaram para trás quando foi para o Arizona. Aprende a viver depois do fim do mundo como o conhecia, a ser caridosa para consigo e com os seus erros. E revê a relação que tem com a mãe.

(Que é uma escritora e publicou um livro sobre uma moça dividida entre dois rapazes... a Molly foi apanhada quando uma revista fez um artigo a revelar a inspiração da mãe; honestamente eu jamais perdoaria à minha mãe, fazer algo do género com uma revelação privada, mas a Molly é melhor pessoa que eu.)

Gosto do fim, que resolve o dilema de forma agridoce. Está toda a gente magoada com a maneira como se portaram uns com os outros, e por isso não pode exactamente ser feliz... mas é esperançoso. Que este pessoal siga com a sua vida, ganhe juízo e se volte a encontrar num lugar em que está preparado para uma relação séria. São jovens e aprenderam com os seus erros, e é realista que quaisquer relações descritas não sejam para o fim da vida (apesar de eu ter as minhas preferências).

Nota extra: o livro tem 99 capítulos, um para cada dia do Verão. Pontos bónus por a autora conseguir contar uma história coerente em que escreve um bocadinho todos os dias, e em que cada dia é essencial.

Título original: 99 Days (2015)

Páginas: 352

Editora: IN (Zero a Oito)

Tradução: Pronto a Editar Atelier (era só o que estava no livro; acho curioso que agora já nem se coloque o nome de uma pessoa... quer dizer, não tenho queixas da tradução, mas parece tão impessoal)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Luz e Sombras, A Casa de Gaian, Anne Bishop


Opinião: A leitura do primeiro livro desta saga para mim foi... complicada. Dei uma passagem de olhos nas suas páginas antes de me atirar à leitura deste dois, e ainda me lembro do quão frustrante ler sobre os teimosos Fae que se recusavam a ver o que estava mesmo à sua frente. (Incrivelmente frustrante. Ugh.) Ainda acho que a Anne devia ter feito o mistério mais difícil, para eu não ficar a achar que esta gente era incrivelmente burra.

No entanto, adorei o worldbuilding e os personagens. A Ari e o Neall são amorosos, e apesar de deixarem de ser protagonistas na sequela - tiveram o seu final feliz. Podem continuar a defendê-lo e lutar por ele, mas a sua intervenção no enredo da trilogia terminou em grande parte. (Continuamos a seguir no entanto uma série de personagens já nossos conhecidos. Mais sobre esse assunto já a seguir.)

No entanto, onde a trilogia brilha... é no conceito. A Anne é assumidamente uma autora feminista, e acho fascinante a dualidade entre este mundo e o das Jóias Negras no que toca a isso. Nas Jóias Negras lemos sobre um matriarcado que é distorcido, pois algumas das suas líderes são cruéis e perverteram o significado do seu papel.

Em Tir Alainn ela explora um patriarcado que já foi um matriarcado, e cujos homens exercem, por determinadas influências, um poder tirânico sobre as mulheres da sua vida. É um pouco assustador de ler, pois esta trilogia é bastante mais próxima da vida real. Aquilo que a Anne descreve é o que acontece no nosso mundo, ainda hoje - fala sobre as maneiras subtis e menos subtis sobre como ainda há desigualdade na nossa sociedade.

É assustador também porque, mais ou menos 15 anos depois da sua publicação, vivemos num mundo em que é demasiado fácil aceitar que algo como isto pode acontecer. O ódio tem poder, é insidioso, e move as pessoas, e um dia destes podemos dar connosco com um grupo alimentado pelo ódio no poder, exercendo opressão indevida sobre aqueles que não concordam com eles, que são diferentes, enquanto as massas se deixam guiar pela cegueira. Portanto, pontos bónus por escrever sobre um tema intemporal e (aparentemente) sempre actual - e por usar essencialmente os temas de narrativas distópicas numa história de fantasia épica.

O segundo volume centra então a narrativa no escalar de posições: os Inquisidores não desapareceram, recarregaram baterias e voltaram à carga, espalhando a sua influência pelo leste de Sylvalan. Cabe aos nossos personagens, e ao resto de território de Sylvalan pôr-lhes um travão.

Gosto do foco nos novos personagens, sem deixarmos de ver os antigos. Adorei seguir a Lyrra e o Aiden, que entenderam as lições do primeiro livro e se esforçam por transmiti-las aos outros, ainda que às vezes caiam em saco roto. No entanto, nunca desistem, e procuram tudo o que pode ser feito por Sylvalan. Gosto de ver que assumem uma posição diferente dos Fae, e que não querem saber do que é tradição entre estes; é preciso coragem para seguir o coração e escolher ficar ao lado um do outro nestas circunstâncias.

Também gostei de acompanhar a Morag. Acho que a Anne foi bastante injusta para com ela, especialmente tendo em conta o seu fim. A solidão da Morag devido à sua posição é tocante, e ela merecia melhor. Entendo o que aconteceu, mas não preciso de gostar disso. E não gosto mesmo nada.

O terceiro volume passa por mover as peças de xadrez até ao conflito final: os Fae e os humanos finalmente a trabalhar juntos, a tentar ajudar as bruxas e a manter o tecido do mundo como o conhecem intacto. Não é muito forte em acção, mais em desenvolver o enredo e os personagens, fazendo encontrar quem precisa de se encontrar, aprofundando caracterização, sem perder o sentido de humor Bishopiano que tanto aprecio.

Entre os personagens novos, destaque para a Ashk e a Selena, duo de senhoras impressionantes e um tudo nada assustadoras; e para o pessoal de Willowbrook, principalmente a Breanna, que deu uma descasca tão grande ao Lucian, e foi glorioso, ela leva tudo à frente e é fantástica. (Ela e o Falco são amorosos, já agora.) Também gostei bastante do Liam, porque era alguém que nunca tinha pensado nestes assuntos e de repente deu por si um acérrimo defensor das bruxas e da luta pela alma de Sylvalan. Mas no geral, temos um elenco brilhante. Gosto da caracterização que a autora faz, e é um grupo de gente que dá gosto acompanhar.

A batalha final é a modos que curta. Acho que acção não é o forte da Anne, e por isso ela passa rapidamente pela mesma. Sei o que aconteceu, e mesmo que batalhas não sejam o meu forte para acompanhar - geralmente é demasiado confuso para mim -, podia ter sido mais aprofundada, definitivamente.

Já o final em si... é triste e não triste. Há perdas, e uma pelo menos frustra-me um bocadinho, mas seria de esperar, suponho. No entanto, agrada-me saber que estas pessoas terminaram a sua luta e se encaminham para os seus portos de abrigo e para uma vida feliz e tranquila.

Enfim... em suma, Anne Bishop é Anne Bishop. Há uma outra autora (*cof*Sarah J. Maas*cof*) que é tão influenciada pela Anne que isso é 50% das razões pelas quais gosto dela. Acaba por ser uma autora seminal nas minhas leituras, e escreve duma maneira tão interessante e cativante, que me encanta e me enche as medidas, e pronto, não consigo ver um mundo em que não goste de Anne Bishop. Sem querer tentar o destino, não me parece possível.

Título original: Shadows and Light (2002) / The House of Gaian (2003)

Páginas: 368 / 448

Editora: Saída de Emergência

Tradução: Luís Coimbra

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Meg Cabot: Vanished, books 3 and 4

Safe House / Sanctuary

Páginas: 512 (edição omnibus)

Editora: Simon Pulse

Retornando a esta série, agora com o volume três e quatro... raios, detesto mesmo a ideia de fazerem omnibus com estes livros. Não o fizeram com o quinto livro, nem sequer o reimprimiram neste tamanho/formato, o que eu odeio porque a série não vai ficar na minha estante do mesmo tamanho/harmoniosa. Bah. (E não, comprar individualmente não era uma opção. As edições que são iguais ao exemplar que tenho do quinto livro... bem para metade da série já não existem nem se podem comprar. Esta série não é assim tão popular, infelizmente.)

O terceiro livro pega no início de um novo ano escolar: a Jess está a tentar portar-se melhor e meter-se em menos sarilhos, enquanto tenta ter um espírito mais escolar. A coisa é cortada pela raiz, porque ainda nem a escola tinha começado, e uma menina da claque já tinha morrido... coisa que passou ao lado da Jess, por causa de razões. (A cena onde ela descobre é morbidamente engraçada, pela sua falta de noção.)

O mistério em si é bastante óbvio - a Jess só não apanha logo o culpado porque fica encantada pelo seu comportamento... o que até percebo, ela é jovem e inexperiente com comportamento manipulativo, mas tendo em conta a atitude normal dela com as pessoas não sei se faz sentido.

É divertido acompanhar a história porque ninguém acredita que a Jess tenha perdido os poderes, graças a uma colega desbocar-se acerca da coisa - a chata da Karen Sue, e a resposta de Jess a ela é super hilariante.

E numa nota à parte, o restaurante dos pais da Jessica arde por causa do enredo. Entristece-me, porque adoro a família dela. É refrescante ver o quão importantes são na sua vida, o quanto a influenciam. (Nem sempre assim é em YA.) E adoro seguir o Douglas - acho relativamente realista a sua descrição e de como vive com uma doença mental - há muitos dias "normais", sem eventos, e um dia o Doug sai de casa e arranja um emprego, na direcção de recuperar um módico do que passaria por uma vida normal para ele.

No livro número quatro, o enredo é algo extremo e quase ridículo de tão convoluto e de como parece que roubou as suas cenas de acção dum filme de acção no sentido do maior dos clichés. Mas é divertido e cativante de seguir, e estranhamente é bem relevante nos dias de hoje. A Jess começa a investigar uma série de crimes e desaparecimentos contra pessoas de minorias da sua cidade, e tropeça num culto/extremistas de direita que vivem no meio da floresta - e é assustador ver o tipo de coisas que lhes saem da boca.

O destaque neste livro seria também para uma mudança no enredo do FBI e da sua relação com a Jess - há um Dr. Krantz a tentar recrutá-la para uma equipa de pessoas com capacidades especiais, mas duma forma menos agressiva, e ele mostra-se interessado em ajudar a Jessica no meio deste enredo, o que dá um certo interesse ao mesmo.

Outra coisa gira neste livro é o início, em que a Jess se está a tentar escapulir de um jantar de Acção de Graças para ir ter outro com o Rob e a mãe. Eles os dois são adoráveis, e foi giro acompanhar o dilema deles aqui: serem um par reconhecido, tendo em conta o que os separa (dois anos de diferença de idade, e uma certa separação social por o Rob ser um "campónio" e a Jess uma menina da cidade).

Além disso, gosto cada vez mais do Rob. Está na sua, sossegadinho da silva, mas de repente a Jess precisa de ajuda e é tão óbvio que gosta dela porque larga tudo para a ajudar e para se enterrar nos seus esquemas. Além disso, suspeito que as pessoas não lhe darão tanto crédito como merece. A maneira como se entrosa no culto de extremistas, dizendo as coisas certas, mostra que o Rob é bastante culto e versátil, um camaleão hábil para encaixar no grupo no momento em que era necessário.

sábado, 5 de agosto de 2017

Curtas BD: Mulher Maravilha, volumes 4 e 5, + bónus

Mulher Maravilha: Homens e Deuses, George Pérez, Len Wein, Greg Potter
Esta é uma história que é um produto do seu tempo, mas é bastante boa apesar de tudo. É complexa, bem contada, e com um objectivo claro, o que é um bónus se estiver a ler BD. É palavrosa, mas não duma forma irritante e mal amanhada.

É um recontar de origens para a Diana e para as Amazonas. O enquadramento das personagens é na mitologia grega, e gosto que use a sua riqueza para complementar a história, adicionando-lhe algo de seu. É fascinante ler sobre os personagens olimpianos e o seu papel na narrativa, as facetas que assumem nesta versão.

Uma coisa gira é que pega nos personagens icónicos da Mulher Maravilha, a Etta Candy e o Steve Trevor, e os revitaliza para esta nova versão. E a arte definitivamente entranha-se. É complexa, quase barroca, mas muito interessante de acompanhar.

Mulher Maravilha: Deuses de Gotham, Phil Jimenez, J.M. DeMatteis
Outra que me encheu as medidas. Alguns vilões de Gotham incorporam alguns deuses relacionados com Ares, o deus da guerra, e o cruzamento é intrigante e interessante de ver. (O Joker é um deles. A versão deificada dele é... qualquer coisa.)

É uma história excitante, apesar de o enredo ser simples (derrotar os vilões), e gosto de a ver incorporar tantos personagens da "mitologia" da Mulher Maravilha e do Batman, com direito a vilões e heróis em igual medida.

A arte é reminiscente da do livro anterior - calculo que numa homenagem à mesma. O volume termina com uma história autocontida sobre a Mulher Maravilha, vista pelos olhos de outra mulher maravilhosa e humana - Lois Lane, que se divide entre a jornalista e a mulher nas suas observações. Bastante interessante. (Mas podia tentar não enveredar por uma pseudo-rivalidade. É parva.)

Wonder Woman vol. 4: War, Brian Azzarello, Cliff Chiang, Goran Sudžuka
Comprei porque estava a um bom preço e porque estava curiosa para ver como era esta particular interpretação da personagem. Estava ciente que isto é a meio da história, o que não me incomodou; mas talvez seja por isso que não me diz tanto quanto poderia.

Os personagens formam um grupo coeso, mas como não os vi formarem-se, não tenho razões para me preocupar com eles e com o que lhes acontece. A narrativa vai a meio, e apesar de ser fácil de acompanhar, também não é nada que impressione precisamente por não ter acompanhado de início.

No entanto, a dinâmica presente é interessante, especialmente os papéis que os deuses assumem na narrativa. O final entrega à Mulher Maravilha uma posição desafiante, e julgo que seria interessante de acompanhar no futuro. A arte é cartoonesca, mas inteligente, e também homenageia velhos mestres (há um pouco da New Genesis de Kirby na história).