Opinião: No submundo de Camorr, repleto de bares e ladrões, prostitutas e órfãos, existem os Cavalheiros Bastardos, uma quadrilha de ladrões que rouba aos ricos, mas não para dar aos pobres; fazem-no pelo prazer de executar um bom esquema. Adoro filmes e livros com um assalto pelo meio e este livro não foi excepção, sendo absolutamente fantástico nesse aspecto, com todas as reviravoltas a que tive direito.
Mas Locke Lamora, o líder dos Cavalheiros, e criador exímio dos esquemas com que enrolam os ricos, tem um talento para atrair sarilhos que complicam o golpe actual, e rapidamente se vê envolvido numa guerra que não é a sua, que percorre o submundo de Camorr mas tem potencial para afectar toda a cidade.
Adorei o enredo cheio de complicações e reviravoltas, porque me surpreendeu completamente. Eu lia um bocadinho, pensava que a história ia enveredar para um lado, e acabava sempre por ir parar a um local inesperado. O livro dá-nos um elenco de personagens muito interessantes e variadas, e muitos com um sentido moral enviesado e uma boca mais suja que um esgoto. Parece estranho dizer isto, mas que refrescante é ver personagens a dizer asneiras a torto e a direito! (E que não são o típico herói santinho.)
Os livro também tem os seus baixos, ou melhor, coisas que me desapontaram. Achei-o em partes excessivamente descritivo, o que atrasou o ritmo do livro. Houve descrições interessantes no que toca a worldbuilding, particularmente no que toca ao passado deste mundo e às fantásticas descrições alquímicas. Mas as descrições geográficas aborreceram-me, principalmente porque não havia mapa disponível que me ajudasse a orientar.
Ah, e as descrições com comida são exageradas. Eu acho que não preciso de ler tanto sobre as sobremesas que a nobreza de Camorr come. Fiquei também desapontada com a recusa deliberada do autor em desenvolver uma personagem, Sabetha. Achei completamente irreal que ela, tendo a importância que teve e ainda tem, nem apareça num único flashback, e passei o livro todo a tentar perceber o que ia na cabeça do autor para fazer isto (o que por sua vez me dificultava a "imersão" na história).
Os capítulos finais foram muito emocionantes e espectaculares. Tanta, tanta coisa acontece que devorei as páginas finais em menos de nada. O livro acaba com um final fechado, sendo muito satisfatório como um stand-alone, mas de certo modo acabei o livro com uma sensação de "soube-me a pouco". Gostava de ler mais aventuras do Locke e do Jean, contudo acho que prefiro esperar.
É que apenas o segundo livro da série está já publicado, e a espera pelos outros volumes adivinha-se Martiniano (como em, típica do Geroge R.R. Martin). Fiquei ainda com uma sensação estranha e difusa de que devia experimentar ler o livro em inglês, e que assim a leitura seria ainda mais satisfatória. Não é, de todo, uma crítica à tradução, apenas senti a falta de ler o livro em inglês.
Um livro que recomendo veementemente, tão excitante e divertido, e tão refrescante no vasto mar da fantasia.
Título original: The Lies of Locke Lamora (2005)
Páginas: 544
Editora: Saída de Emergência
Tradução: Ana Mendes Lopes








