quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Tens Coragem?, Megan Abbott


Opinião: Eu queria tanto gostar deste livro. Ando há que tempos com vontade de ler esta autora, depois de ter ouvido falar do seu The Fever, sobre uma comunidade em que algumas adolescentes começam a desenvolver sintomas de uma doença misteriosa, e sobre a histeria que nela se espalha sobre a origem da doença.

E por isso saltei com a oportunidade de ler este livro, traduzido em português, da mesma autora; ela costuma ao que sei ter boas opiniões, e ser bastante divisiva, o que me deixava curiosa para ler qualquer coisa dela.

Pois bem... gostei e não gostei. Não gostei porquê: o ritmo do enredo é péssimo. A primeira parte (para aí 70% do livro) é super parada, muito baseada na caracterização psicológica (o que não é mau em si mesmo), e depois o mistério em torno de um crime que acontece dispara, as suspeitas acumulam-se, e a coisa fica excitante. Um bocado tarde demais; quase que parece que o livro não sabe o que quer ser: um thriller de acção ou psicológico.

Depois, esta coisa de "olhem para esta história, vejam como as pessoas normais são lixadas" que acontece em alguns thrillers? Tornou-se mais proeminente no Gone Girl (e a razão pela qual este me aborreceu de morte). E é tão mentira. O meu problema com o GG era que aquelas não eram pessoas normais (um era sociopata, o outro mentiroso compulsivo). Sim, as pessoas podem ser tão destrutivas e loucas como ambos os livros mostram. Mas os personagens em si não são um bom exemplo de "pessoas normais", se é que esse conceito pode ser usado (é bastante redutor)

Aqui no Dare Me a autora falha um pouco em criar uma atmosfera de credibilidade no que toca à parte do crime, como foi feito, porque foi feito... passa tanto tempo na caracterização psicológica da protagonista e das raparigas adolescentes que a rodeiam, que se esquece um pouco de dar suporte ao crime e às suas causas, até revelar no fim em jeito de telling, e não showing, o que realmente se passou. Só tem um bom suporte na sua relação com as adolescentes no centro da narrativa.

Terceira razão pela qual não gostei? Ugh, o pretensiosismo da escrita. Que vontade de esganar alguém, porque é a coisa que mais abomino. Consigo respeitar um escritor que escreve bem, e sabe que o faz. Se ele for capaz de partilhar o seu brilhantismo comigo duma forma humilde. Se ele escrever duma forma económica mas inteligente que me permite aperceber do que está a dizer sem mo esfregar na cara.

Não consigo respeitar alguém que escreve frases floridas só para dizer que escreve frases floridas, e para dizer que "escreve Literatura (sim, o L maiúsculo é importante para destacar o snobismo da coisa)". Há partes em que a escrita é demasiado fragmentada, demasiado confusa, e o "lirismo" não ajuda nada a clarificar, só a confundir mais. Talvez seja porque o livro não se conseguia decidir que tipo de história era, que rumo estava a tomar.

O que me mata, é que se removêssemos estes problemas que tive com o livro da equação, podia ser francamente brilhante. Até a escrita tem os seus momentos, quando não está demasiado ocupada a ser "bonita".

Porque este é um retrato extraordinário e incrivelmente honesto e realista de um grupo de raparigas adolescentes. É muito comum ver as pessoas a gozarem com o ser adolescente, particularmente o ser uma rapariga adolescente. Os seus interesses são escrutinados, ridicularizados. Este livro, no entanto? Podia ser uma lição em como, se realmente quisessem e tivessem interesse nisso, as raparigas adolescentes podiam dominar o mundo.

É deliciosa a maneira como a relação entre estas miúdas é descrita. Um grupo de cheerleaders sem rumo, e a chegada à escola duma treinadora nova interessa-as, motiva-as a serem melhores, fazerem coisas incríveis. Estas são pessoas que são atletas que dão no duro, que se matam para fazer uma rotina perfeita se for preciso. Há uma dedicação canina à coisa que é fascinante de ver, depois do interesse delas ser suscitado e dirigido.

E depois as relações pessoais entre elas, e entre elas e a treinadora... todo um retrato de como um grupo de mulheres juntas pode ser brutal umas com as outras, de como em grupo podemos ser tão tóxicas umas para as outras, ainda que sejamos capazes de atingir o extraordinário. Na adolescência particularmente, e é fascinante elas deitarem-se abaixo e se reconstruírem, e lutarem em conjunto por um objectivo e como no caminho se deixam encantar por uma cara nova.

No centro disto tudo está a relação entre as três mulheres principais da trama: a Addy, a narradora, completamente cativada pela treinadora; a Beth, a capitã da equipa que é a única que não embarca no fascínio; e a própria treinadora, Collette French, uma mulher com os seus problemas próprios que é uma janela para o estado de ser adulto, algo que encanta as jovens do grupo.

E é incrível, vê-la desenrolar-se e como acaba por dirigir a narrativa e os seus acontecimentos. A Addy e a Beth têm um longo historial para trás, e isso condiciona as suas acções. A Addy em si é particularmente interessante; alguém no Goodreads descreve-a como uma espécie de Nick Carraway, o que é perfeito. Em muitos aspectos, a Abby desliga-se dos acontecimentos e da sua responsabilidade deles, limitando-se a narrar o que vê, sem ter que se envolver particularmente, sem ser o motor deles.

E a sua lente inteiramente egoísta e auto-centrada é algo muito interessante de ver acontecer; a Addy acaba por não ser uma narradora confiável, porque muito lhe passa ao lado. Habituada a ser a lugar-tenente da Beth, de fazer o que lhe é dito sem ter de pensar por si própria, de tomar a liderança. É incrível como ela não vê o culpado, mesmo à frente dela aquele tempo todo. Só quando ela começa a pensar sobre o crime que aconteceu, as coisas contraditórias que lhe contaram as pessoas que podem ser os suspeitos, é que ela começa a tentar desenterrar a verdade.

E esse processo, na recta final do livro, é muito excitante. Fez-me finalmente duvidar de tudo e todos, e encontrar culpados em todas as esquinas. Mesmo tendo sido apresentado um culpado, ainda assim consigo ver como podia facilmente ter acontecido doutra maneira, e a pessoa estar a ser acusada erradamente. (Pouco provável, mas um exercício interessante de fazer.)

É quando a Addy se liberta das relações tóxicas em seu torno que finalmente cresce para ser a melhor versão de si. É um desabrochar bem curioso de observar, especialmente quando ela e as outras raparigas passam o tempo livre a fazer alguns disparates.

Em última análise, este também é um livro sobre como os adultos responsáveis por estas jovens lhes falham completamente. Os pais da Addy e da Beth raramente aparecem, e não se mostram interessados pela vida das filhas; abandonam-as e deixam-nas à solta, fazendo o que querem. Não ia acabar bem. A treinadora arranja os seus próprios problemas, apesar de aparentar ter uma vida perfeita, e as suas acções são um péssimo exemplo para as jovens que a rodeiam. Ela acaba por tornar a Addy cúmplice de algo que esta nem sequer consegue processar, compreender a gravidade de.

Ah, céus, eu queria mesmo gostar. Queria. E de certos pontos, adorei. Passei um bom bocado, se só os considerar. O problema é o resto. As coisas negativas que apontei são bastante determinantes no meu gostar ou não de um livro, e ofuscam largamente os pontos positivos. Não excluo ler outro livro da autora no futuro, para ver se o problema é dela ou meu, mas também não vou já a correr fazê-lo

Título original: Dare Me (2012)

Páginas: 288

Editora: Saída de Emergência

Tradução: José Saraiva

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Este mês em leituras: Novembro 2016

Mal posso acreditar que estamos a menos de um mês do Natal! E que o ano está quase a acabar! Para onde é que 2016 foi? Bem, não é que lhe vá sentir a falta. Estou mais que preparada para 2017, e para pôr as mãos nos livros e filmes que este me reserva.

No que toca ao mês em si, estou bastante contente por ter escrito e postado mais, e ter-me posto mais actualizada no que toca a opiniões. Quando Outubro terminou, estava tragicamente atrasada nesse aspecto e com receio de me esquecer de tudo.  Fiz um esforço concertado; alguns dias, em vez de ler no caminho para o trabalho levei material de apontamentos e delineei as opiniões. Tinha-me andado a portar mal nesse aspecto, portanto a ver se Dezembro corre ainda melhor.

Livros lidos


Opiniões no blogue


Os livros que marcaram o mês

  • Gemina, Amie Kaufman, Jay Kristoff - ahhh foi tão bom continuar a ler neste mundo, estava tão animada e ao mesmo tempo cautelosa, e fico contente por ter sido, à semelhança do primeiro, uma coisa que me encheu completamente as medidas e fez uma série de coisas que gosto de ler;
  • Anexos, Por Um Fio, Rainbow Rowell - porque uma releitura da Rainbow leva sempre a que eu redescubra as suas histórias;
  • Every Move, Ellie Marney - é o livro final da trilogia, estou tão triste por ter de deixar os meus meninos, mas feliz por ter gostado da sua história final, e por tê-los acompanhado ao longo da trilogia... a Ellie Marney faz com os seus livros e as suas histórias uma série de coisas que adoro ler, e por isso vai ficar na lista de favoritos;
  • Tens Coragem?, Megan Abbott - esta é mais pela negativa; tinha tantas expectativas acerca da autora, e apesar de ela fazer uma coisas fixes, também faz algumas cenas de que não sou fã, e são daquelas que eu não suporto mesmo, portanto acabei a não gostar do livro tanto como queria.

Outras coisas no blogue

  • Nada? Não se pode ter tudo. Prefiro a maior produtividade deste mês.

Aquisições

Ora bem, temos os livros das colecções de BD que estou a fazer, a colecção Sandman e a Graphic Novels Marvel. Depois temos uma edição de Pride and Prejudice que tecnicamente é uma aquisição do fim do mês anterior, mas da qual me esqueci quando andei a tirar fotos; ficou-me uma pechincha, já que aproveitei numa altura em que a Fnac estava com 20% de desconto nos livros.

O conjunto dos dois livros da Rainbow Rowell mais o do Brandon Sanderson encomendei no site da Saída de Emergência; os primeiros dois para fazer uma releitura (e porque a Rainbow merece que eu tenha mais que uma edição dos livros dela), o do Sanderson para aproveitar que o autor ia estar cá e conseguir um autógrafo.

Comprei A Empregada com dinheiro em cartão Continente (e só não comprei mais porque o resto do dinheiro que tinha gastei, uma vez na vida, em outras coisas giras que não livros). E o Heartless e o Tales from the Shadowhunter Academy são os livros em inglês do mês, de autoras e séries que sigo.

A ler brevemente

Para já, só tenho planos fixos de ler o Heartless. A Marissa Meyer tem feito um tão bom trabalho com retellings que estou curiosa. Ainda não sei se vou ler mais alguma coisa do desafio Meg Cabot este ano - faltam-me poucos livros, mas aqueles que tencionava ler estão demasiado caros para o meu gosto (e para um paperback, que infelizmente é o único formato em que existem).

Fora isso, tenho algumas coisas que sobraram da pilha de desejos de meses anteriores a que ainda gostava de dar atenção este ano. Também gostava de ler o Mind Games, o segundo da Heather W. Petty, mas ainda não encomendei e de momento está excessivamente caro e esse facto está a dar-me muita comichão. Talvez quando encomendar as pre-orders de Janeiro, mais ou menos a meio de Dezembro...

terça-feira, 29 de novembro de 2016

A Empregada, Laura Amy Schlitz


Opinião: Não sei porquê, não esperava muito deste livro. Uma parvoíce, na verdade. Tem os seus altos e baixos, mas no todo é um conjunto muito agradável, e escrito duma forma inteligente e sensível.

Joan é uma jovem sonhadora e inocente que trabalha na quinta do pai, em nenhures (vamos chamar-lhe assim). Um homem rude, cruel e bruto, o pai não vê uso para a instrução, e por isso afasta a Joan da professora, das aulas, e por fim dos livros que adora. E por isso, pela destruição dos seus amados livros, Joan ganha coragem e põe-se na alheta, deixando a quinta e esperando encontrar um trabalho numa grande cidade como Baltimore.

Diria que este livro vive e respira apoiado na força da caracterização da protagonista, a Joan. Afinal, este é  diário dela que estamos a ler. E posso dizer que na maioria, gostei bastante da Joan e da sua caracterização. Ela é uma jovem com pouca instrução, mas esperta, e com um desejo ardente de saber mais, ler mais, conhecer mais. É ambiciosa nesse aspecto, e é óbvio que a quinta onde vive com o pai e os irmãos mais velhos é demasiado pequena para contê-la.

E então a Joan, mesmo sabendo pouco do mundo, arrisca-se e sai de casa, querendo encontrar um emprego como empregada doméstica numa casa da cidade, esperando que no futuro possa continuar a sua instrução e tornar-se professora. Do seu pensamento, em parte pela idade, em parte pelos seus desejos, longe estão ideias de casamento.

A chegada à cidade não é desprovida de peripécias, mas a Joan também tem sorte, e acaba empregada na casa duma família judia. E a partir daí vai crescer e conhecer uma nova realidade, muito diferente da sua; com avanços e recuos e boa vontade, a Joan vai-se esforçar para alcançar os seus sonhos.

Entre as melhores partes do livro está mesmo isso: a vivência da Joan entre uma família judia. A Joan é uma fervorosa católica, mas talvez por ter vivido tão isolada, ela não conheceu qualquer tipo de sentimento antisemita durante a sua vida. Ela nem sabe o que a palavra significa. E aí é que está o cerne da coisa, ela pode ser pouco educada, pode ser inocente, mas é essencialmente boa pessoa, tolerante, até feminista.

E portanto, numa época em que ainda haviam pogroms em partes do mundo, não a choca nada trabalhar para judeus. Aliás, choca-a é descobrir que ainda existem pogroms; a sua incredulidade quando lhe contam o quanto judeus ainda sofrem, muitas vezes às mãos de católicos e cristãos, é quase adorável. Ela foi educada pela mãe para o catolicismo, num misto de amor e fé e compaixão e contrição, e por isso não cabe na cabeça dela o mal que as pessoas fazem em nome da religião.

E lá está, à parte um par de situações, a Joan convive excelentemente com os costumes judeus, e interessa-se muito por eles e por exercer a sua função o melhor que pode de acordo com o que é preciso fazer. A sua lealdade aos Rosenbachs é inspiradora.

Outra parte excelente do livro é o pendor feminista. Em momento algum passa pela cabeça da Joan que não vai conseguir fazer o que quer da vida por ser mulher. Era só o que faltava. Para ela, uma mulher pode ser médica, ou até presidente. Ela ambiciona instrução, e muito mais do que uma vida caseira ou uma a trabalhar como empregada.

Mais partes boas: os personagens. Toda a gente é caracterizada com um cuidado fantástico. A Malka é deliciosa, os Rosenbachs têm todos a sua personalidade e uma relação diferente com a Joan, e é fantástico de as ver desenvolver...

A própria Joan é uma pequena caixinha de surpresas. É pouco instruída mas não é burra, é inocente mas não é parva. Tem momentos de grande sensibilidade e percepção (foi bem esgalhada, a coisa da visão da Mimi), e momentos de ingenuidade de bater com a cabeça nas paredes. (Afinal, ela só tem 14 anos. Em 1911. Tendo vivido toda a vida isoladamente.) É frívola, mas preocupa-se com uma série de assuntos importantes. É ela que leva a narrativa avante, e sem ela não seria a mesma coisa.

Se tivesse de destacar algo negativo, diria que seria mesmo a ingenuidade da Joan. Às vezes mete-a em buracos que dão um novo sentido à expressão "vergonha alheia". E na maior parte dos casos não me importei nada de acompanhar esses momentos, por mais tolinha que ela tenha sido... mas na recta final, custou-me particularmente fazê-lo.

A Joan estava avisada que certa pessoa era assim e assim, e mesmo assim caiu na ratoeira e deixa-se enredar. Bem sei que é o ano que é, ela é a pessoa que é. Mas soou-me ingenuidade a mais, e tanto burburinho por uma paixoneta imerecedora soou-me mal, e tenho pena que a história termine a seguir a essa situação. Preferia que acabasse com um momento mais alto para a Joan. Que até existe, porque damos um salto no tempo, mas sabe a pouco.

A outra coisa é que o livro não soa como se ela tivesse evoluído alguma coisa ao longo da narrativa. É claro que aprendeu algumas coisas, mas termina a história ainda muito juvenil, muito ingénua; quase parece a mesma Joan do início, pelo menos a escrever. Acho que a autora poderia ter sido um pouco mais óbvia na demonstração da sua evolução, denotando isso até na maneira como ela escreve o diário.

É que mesmo depois do salto temporal, ela ainda soa ao mesmo. E quando está a falar do quanto aprendeu e de quão mais crescida está, soa a falso. Porque ela está a dizer-nos, não a demonstrá-lo. Não me parece que a autora tenha feito um trabalho bom o suficiente na coisa do show, don't tell.

Enfim, de qualquer modo, são pequenas objecções, num livro que tanto tem de bom e de delicioso. Diria que lê-lo foi como se estivesse a ler um clássico, um Mulherzinhas ou assim, o que denota que a autora até sabe imergir-nos na época e retratá-la como se fosse a sua época. Só se nota que é contemporâneo pelo tratamento respeitoso dos Rosenbachs. Foi uma pequena grande (e boa) surpresa, diria eu, e bastante recomendada.

Título original: The Hired Girl (2015)

Páginas: 368

Editora: In Edições (Zero a Oito)

Tradução: Susana Serrão

domingo, 27 de novembro de 2016

O Último Adeus, Cynthia Hand


Opinião: Este é um livro simples, enganadoramente simples. Lex é a protagonista, e ela e os que a rodeiam estão a tentar lidar com o suicídio do seu irmão mais novo, algumas semanas antes. No entanto, é incrivelmente difícil explicar o modo brilhante como a Cynthia Hand desenvolve a narrativa e apresenta os personagens e os pequenos momentos que os moldam.

Como disse, a premissa do livro passa por explorar os estilhaços deixados pela morte de Tyler, o irmãozinho mais novo de Lex. Ela limita-se a avançar pelos dias, afasta-se dos amigos e do namorado. Pensa que começou a ver o fantasma do irmão. A mãe afundou no desespero e bebe em excesso ao fim do dia.

Um dia, o terapeuta da Lex desafia-a a escrever uma espécie de diário, já que outras abordagens não resultaram com ela. E é o decorrer do tempo, juntamente com a escrita do diário, que vão levar a Lex a trabalhar o luto, enfrentar os seus muito complicados sentimentos acerca do assunto, tingidos com uma massiva dose de culpa.

Porque é isso. Este livro não oferece todas as respostas. Não tem um fim que embrulha tudo muito bem feitinho e deixa toda a gente num caminho mais feliz. Apenas limita-se a mostrar como um acontecimento trágico deixa marcas em todos em redor, e como essas pessoas tentam lidar com a tragédia e com a rotina entorpecedora de ter de avançar no dia-a-dia.

Talvez seja porque a Cynthia escreve de um lugar de experiência própria (o seu próprio irmão suicidou-se quando eram jovens, apesar de este não ser um livro autobiográfico, nas palavras da autora), mas achei a história muito imersiva, realista, credível. Não vamos descobrir aqui o sentido da vida; é "só" uma história sobre uma rapariga (e aqueles que a rodeiam) a tentar fazer sentido de algo que é impossível explicar.

Adorei a Lex com o seu pensamento inteiramente analítico, que para ela também é uma desculpa para não ter de sentir. Gostei de ver como ela tenta fazer sentido das acções do Ty, tenta perceber, mas compreende que só para a pessoa que o faz, as suas razões farão sentido. Gosto de vê-la compreender que não há explicação para tudo, nem precisa de haver.

Achei interessante vê-la debater-se com a culpa que sente por não ter falado com o irmão quando ele a tentou contactar, pensado que era sua culpa por não o afastar do precipício. Apreciei vê-la debater-se com o conceito de um último adeus, de as últimas palavras que disse ao mano serem ou não carinhosas, porque para ela isso era importante. Gostei de a ver encontrar paz quanto a isso.

Gostei ainda do elenco de personagens secundários. Os amigos da Lex, a tentar confortá-la sem saber realmente o que é estar nessa situação. O (ex-)namorado, o Steven, completamente totó e adorável como a Lex, com quem ela termina no meio do luto, culpando-o e a si própria por coisas em que eles não tinham mão. A Sadie, uma amizade reencontrada e refeita devido a voltarem a ter coisas em comum. A mãe da Lex, perdida no desespero e tristeza, quase desleixando a filha que ainda tem. (Gostei de a ver fazer um esforço, depois da Lex lhe gritar sobre o seu comportamento.)

O pai, menos presente devido a um divórcio que ainda deixa a Lex enraivecida. Gostei de a ver trabalhar na relação com o pai depois disso, e depois do papel que ela lhe atribui na espiral descendente em que a família entrou. E de vislumbrar o luto do pai, ao qual ele também tem direito. O terapeuta da Lex, sempre a tentar puxar por ela sem ser excessivo. E ainda toda esta comunidade de pessoas que foi afectada por um acto tão trágico. Especialmente os jovens, especialmente os amigos do Ty. (Menção especial para o Damian, coisinha preciosa, tão discreto e cheio de vida.)

Este não é um livro extraordinário, que vá mudar o mundo ou inventar a toda. Mas é um livro especial por si mesmo, por recortar um bocadinho da realidade e imortalizá-la nas suas páginas. Há algo na escrita da Cynthia que é honesto e emocional, com um toque de familiaridade e boa disposição, que permite que esta não seja uma leitura pesada; mas ainda assim, emocional e que deixe uma marca. Estou contente por ter apostado nele.

P.S.: É definitivamente picuinhas entrar nisto depois dum livro assim, mas pronto... gostei da capa, na sua maioria. E do design. Honra a capa original e usa a ideia de escrita e de post-its. No entanto, não sou fã da maneira como o nome da autora está enquadrado. Parece tão... antiquado. Já não se faz assim em capas, e não é particularmente interessante como opção gráfica.

Título original: The Last Time We Say Goodbye (2015)

Páginas: 304

Editora: Topseller

Tradução: Cláudia Ramos

sábado, 26 de novembro de 2016

Gemina, Amie Kaufman, Jay Kristoff


Opinião: Ah, estava tão preocupada. Sem razão nenhuma, mas pronto. That's how I roll. Tinha uma secreta ou não tão secreta esperança que me divertisse tanto como com o primeiro livro, mas pronto, também estava nervosa acerca de a fórmula perder o seu encanto, ou de não gostar tanto de acompanhar personagens diferentes. Bah, que tonta, não é?

Neste segundo livro, os seus acontecimentos seguem mais ou menos a partir do fim do Illuminae, fazendo dele tanto uma sequela como um companion - este último é porque não segue os mesmo personagens ou até directamente o mesmo enredo, o primeiro porque continua um arco de história maior que acredito que vai seguir para o terceiro livro.

A acção decorre na estação espacial Heimdall, um local mencionado várias vezes no primeiro livro e que era visto como um potencial porto de abrigo. É que a Heimdall gere um wormhole, modo de viagem para naves chegarem rapidamente a outros pontos daquela zona do universo, ou até ao local central de administração da sociedade que vemos nos livros. E é por essas razões que a Heimdall se vê então envolvida na guerra intercorporações que ditou os acontecimentos do Illuminae.

No centro disto tudo estão dois jovens que residem na estação. A Hanna Donnelly, filha do comandante da estação, aparentemente mimada, rica e protegida. No entanto, a Hanna foi treinada por um pai militar. É excelente em autodefesa, e passavam os serões em jogos de estratégia. O melhor de tudo neste livro foi mesmo a Hanna. Uma caixinha de surpresas, uma miúda capaz de muito mais do que aparenta.

E adoro a sua apresentação no início: rapidamente afasta a potencial etiqueta de "certinha e menina do papá" - a Hanna está a tentar comprar uma substância alteradora de sobriedade. Uma droga, basicamente, com a diferença que esta não parece ter adição como desvantagem, e por isso também não terá estigma associado. E também acho bastante interessante a Hanna ter um namorado, e eles serem fofos juntos, mas não parecerem particularmente amorosos ou carinhosos juntos. Talvez seja porque rapidamente a acção principal entra em cena, mas achei a relação deles mais física que outra coisa. E bem, depois ela tem um fim bastante justificado, por isso eu tinha razão em não torcer por eles.

Já o Nik Malikov nem sequer é um residente registado da estação. Cresceu e faz parte da máfia - que não podemos dizer que é russa, porque neste mundo as nacionalidades já não são como as conhecemos, mas é uma evolução da mesma. Está na estação para ajudar o tio a conduzir negócios mais ou menos ilegais (e para fugir ao passado, mas isso é parte da história). O Nik conhece a Hanna porque é a pessoa que lhe vai vender a "substância" (eles flirtam um bocado, mas são apenas conhecidos), e é isso que os salva na parte inicial da acção. Além disso, gostei do Nik porque ele parece mais do que é. Quase que se vê que ele está a tentar demasiado ser o membro da máfia que é suposto ser, e gosto que também seja uma caixa de surpresas.

O acontecimento motor que garante que tudo vai mudar é a chegada de uma equipa de elite especializada em exterminação e recuperação e obtenção de... coisas. Foi enviada pela corporação que provocou os acontecimentos no Illuminae, para prevenir que os sobreviventes do primeiro livro consigam ajuda. E têm carta branca para destruir a Heimdall e todos nela para obter os seus objectivos. É claro que vai tudo para o inferno. E como a lei de Murphy é a lei de Murphy, tudo o que pode correr mal neste cenário, vai correr mal.

Diria que a evolução do enredo neste livro tem algumas semelhanças com o anterior, como se ambos tivessem um "esquema" geral: há um elemento antagonista principal e deliberado, e um antagonista secundário, que se manifesta duma maneira quase incontrolável e mais insidiosa que o principal. Além disso, os personagens têm de navegar uma série de "missões" ao longo da história (faz-me pensar num jogo de consola). Para além disso, diria que cada uma é a sua própria história, distinta e única à sua maneira.

Gosto das pequenas ligações que este livro tem com o Illuminae, como personagens relacionados presentes nos dois; e o facto de quem sobreviver ao primeiro livro, vai seguramente aparecer neste. Nem sequer é um spoiler; as coisas não seriam interessantes se as duas narrativas não se interceptassem, portanto é claro que ia acontecer.

Outras coisas de que gostei: personagens secundários como a Ella, uma miúda com uma deficiência física que é essencial na narrativa da Hanna e do Nik. A Ella é tão fofa e tão durona, uma verdadeira aranha a criar a sua teia para apanhar as moscas. Absolutamente odiei e adorei o antagonista secundário, porque me lembrou das aulas de Parasitologia, e tendo eu tirado um curso na área de saúde, é dessas que me lembro como arrepiantes, com a ideia de parasitas a inflitrar-se na nossa pele e bichos microscópicos mas com coisas que pareciam dentes feiosos. Ugh.

Gostei da parte final. Sabendo nós que um wormhole faz parte da equação é claro que se espera que os autores façam alguma coisa gira com ele. Aquilo que eles fizeram? Para já, foi surpreendente, mesmo estando eu à espera que acontecesse algo, não pensei que fosse isso. Depois, foi tão fixe, tão estranho mas bem esgalhado, toda a noção de coisas paralelas e como resolveu o final para os personagens. Muito bom.

E pronto, estou muito curiosa para o que vem a seguir. Cada livro é, na sua essência, sobre a força e engenho da humanidade, a sua vontade e capacidade de sobrevivência, mas a trilogia no seu todo é sobre vencer os maus, na forma de uma corporação intergalática que destruiu as vidas dos nossos protagonistas como as conheciam.

Quero muito ver como termina porque agora que já conheço o formato, quero ver a evolução natural dos primeiros dois livros para o terceiro. E quero ver o futuro, quero saber o que acontece no seguimento dos relatórios que vemos no início e fim deste livro. Estou tão curiosa que podia morrer de curiosidade.

Por fim, dois destaques: a maneira como os autores nos imergem na cultura vigente, apresentando coisas que nos são familiares e estranhas ao mesmo tempo. Como a subvocalização, que cria chats entre as pessoas na Heimdall, mas em que o emissor não tem de escrever. Ou a noção dum vírus que obriga a passar uma música dum certo artista sempre que a estação tem algo sonoro a passar. É claro que neste futuro as corporações musicais usam vírus para promover as suas músicas. É genial. (Além disso, a música em questão cria momentos hilariantes no livro.)

O segundo destaque é para o design do livro. Brilhante, fantástico, até me dá uma coisa só de contemplar o trabalho necessário para isto. Os chats, as pretensas entradas na Unipedia, as formas imaginativas usadas para descrever certos momentos na acção (os autores ainda se divertem com a coisa; em momentos em que morrem figurantes ficcionais, eles usam o nome de autores amigos no diagrama).

Adorei neste livro a lista de pessoas na equipa táctica que invade a Heimdall; deu uma cara às pessoas e deu mais impacto quando lhes vemos acontecer coisas. E adorei que quando alguns morressem, a lista aparecesse actualizada, com cruzes a riscá-los da equipa. Só me queixo de a lista não aparecer actualizada no fim, com os verdadeiros e pretensos sobreviventes. E por fim, diverti-me tanto com o diário da Hanna, que desenha para contar a sua vida, e tem observações fascinantes. E bónus, é desenhado pela Marie Lu, outra autora que aprecio. Uma bela e simpática surpresa.

Páginas: 672

Editora: Alfred A. Knopf Books (Penguin Random House)