domingo, 28 de agosto de 2016

Meg Cabot: Abandon, Underworld


Páginas: 320 / 336

Editora: Point / Point

Oh, boy. This is a mess. Uma que me diverti a ler, atenção, e devorei e tudo o mais. Mas ei, isso também aconteceu com o Crepúsculo, e toda a gente se lembra do quão... problemático esse era. (A comparação não é inocente. Já lá chegamos.)

Ora bem, esta série é como que um retelling ou adaptação do mito de Perséfone e Hades. A Pierce, a protagonista, morreu brevemente quando tinha 15 anos, e no processo conseguiu que a divindade da morte, John Hayden, ficasse completamente embeiçado por ela, ao ponto de nunca estar muito longe quando ela está em perigo. No presente, a Pierce mudou de casa para a Ilha Huesos, na Florida, e enquanto a sua relação com o John "evolui", rapidamente se vê perseguida por seres sobrenaturais muito perigosos...

Coisas boas que posso dizer, antes de passar às más: a escrita da Meg continua devorável. Ela tem o seu quê de cativante que me faz devorar qualquer livro, mesmo quando é muito parvo. Até o Insaciável teve os seus momentos.

E também: adoro a maneira como ela às vezes pega num conceito e lhe dá uma reviravolta do caraças. Gosto muito da ideia que ela criou aqui em torno do Submundo (Underworld), de quem fica responsável por ele; e de como tentou recriar o mito grego de Perséfone sem o seguir passo a passo, fazendo a sua própria coisa.

Ainda: gosto do elenco de personagens secundários, muito divertido, especialmente os amigos da Pierce, o Richard Sexton, e os marinheiros. Gosto do esforço para ter alguma diversidade - pelos apelidos, uma série de personagens tem raízes latinas, Pierce incluída (se bem que Oliviera é daqueles que podia ter sido evitado... creio que existe, mas soa tão mal...), e o Richard fala adoravelmente do seu parceiro (se o livro fosse escrito hoje já estavam casados).

Passemos às coisas más. Vou começar por uma fácil: a editora Point continua a insistir em produzir uns paperbacks horríveis. É a mesma queixa que tinha com a trilogia do Airhead: o livro é demasiado rígido, porque o papel é demasiado rígido, pouco flexível. Não facilita a experiência de leitura.

E passemos ao grande problema que eu tenho com os livros, que são precisamente os protagonistas, a Pierce e o John. You see, em muitos aspectos eles são uma cópia chapada da Bella e do Edward, e digo-o no sentido arrepiante e desconcertante.

Ora vejamos: o John é um perseguidor. Anda sempre atrás da Pierce, mesmo quando se zangam e ela lhe pede para se afastar. Porque, sabem? Ela ama-a. Quer protegê-la. Really. *facepalm* É violento quando está zangado. Tem a lata de lhe mentir e manipular acerca do mesmo assunto duas vezes no mesmo livro (o segundo).

Assume que só porque ela morreu (aos 15 anos), vai entrar num compromisso com ele... para sempre. Acha que a melhor maneira de proteger a Pierce é trancá-la no Submundo, forçando-a a deixar a sua vida e deixar de ter contacto com os seus. Tem esta mania irritante de lhe mudar a roupa cada vez que vão parar ao Submundo, que é absolutamente arrepiante.

A Pierce não é melhor. É tão... burra. Só quando alguém lhe diz com as letras todas que o John é uma divindade da morte é que o percebe. Mesmo quando havia pistas por ali aos pontapés. E depois, meu Deus, onde é que está a coragem, a espertalhonice, a irreverência que eu conheço de outras protagonistas da Meg? Ninguém diria à Suze Simon (a Mediadora) o que fazer. E no entanto a Pierce parece perfeitamente contente em deixar-se levar através do enredo escasso como uma ovelhinha, sem acção própria.

E a maneira como ela lida com o John, credo. Uggghhhhh. Alguém me mate. Ela fala dele como se fosse "uma coisa selvagem", e que "só precisa de ser reparado" do seu feitio. Isto é precisamente o tipo de lógica que uma vítima de violência doméstica usaria, parece-me.

Alguém me fizesse sequer metade do que o John lhe faz, e morria. Não estou a brincar. Por isso nem sequer consigo compreender a falta de indignação da Pierce quando descobre o monte de merdas que ele lhe continua a fazer. Separada da família, para nunca mais os ver? Que fixe, dá-me lá mais uns beijinhos para eu me esquecer disso. Oh, mentiste-me para eu ficar aqui no Submundo contigo? Claro, querido, amo-te! POR AMOR DA SANTA.

Normalmente, mesmo quando uma personagem faz algo com o qual eu discordo muitíssimo, a caracterização é boa o suficiente para eu perceber porque o faz. Mas aqui? Não consigo perceber como é que uma pessoa NÃO ficaria completamente lixada da vida com certas coisas que o John faz. Mas aqui, a Pierce bate um bocadinho o pé e depois parece que se esquece que devia estar zangada.

O problema é, isto podia ser uma boa história, fantástica mesmo, se a caracterização fosse melhor feita, se os personagens não fossem caricaturas dos protagonistas doutro livro. Se as coisas evoluíssem doutro modo.

E o pior de tudo é que tenho a sensação que a Meg tem em algum nível noção do quão problemático tudo isto é. Quero dizer, ela escreve no segundo livro uma conversa entre o Richard e a Pierce em que ele pergunta se ela tem a certeza do que está a fazer, que apesar de ter dado encorajamento ao par, não pensava que chegasse a estes extremos. Por isso, ela sabe que o par não faz sentido algum. Sabe que podia fazer melhor.

Em termos de enredo, bem, o primeiro livro é fraquinho, como o primeiro da trilogia Airhead. Aliás, não há propriamente enredo. É mais como se o livro fosse uma prequela, ou uma preparação para toda a acção que vai acontecer nos livros seguintes. Só que o segundo também é muito parado na primeira metade. Não há nenhum objectivo claro, nenhum vilão concreto.

Ah... é como se a Meg tivesse tido ali uma crise de inspiração e tivesse perdido o jeito mesmo quando andava a terminar a série Princess Diaries, e depois de a terminar. Porque os livros que saíram por aquela altura, e nos anos seguintes, são aqueles dela que considero piores, mais fraquinhos. Esta trilogia, a trilogia do Airhead, e a duologia do Insaciável.

Aliás, acho curioso que, olhando para as datas de publicação dos livros dela, seja mesmo na recta final da série PD que há uma abundância de publicações dela, com o que parece ser meia dúzia de livros por ano (estou a exagerar ligeiramente, claro), para passarmos a dois por ano (em 2012 e 2013), e até nenhum (em 2014). Pergunto-me se não terá havido um certo cansaço, mesmo esgotamento por parte dela em relação à escrita.

Explicaria a queda de qualidade dos livros. Estes mais recentes, de 2015 e 2016, não têm tais queixas da minha parte. E é curioso que ela tenha voltado ao activo precisamente a reavivar séries antigas. Talvez fosse o que precisava para voltar a estar à vontade na escrita? Não sei. Isto sou só eu a alvitrar, claro, e sem ela vir cá para fora a falar disso, não posso saber se tenho razão. Mas lá que é coincidental, é.

Enfim. A sorte dela é que eu a adoro. Com outro autor que me fizesse uma destas, estava para aqui a berrar (um berrar escrito, claro) durante três horas, e nunca mais me esquecia da desfeita. Nem sequer estou zangada com esta confusão pegada. Mais... exasperada. Não havia necessidade. De qualquer modo, tenciono ler o terceiro livro, mesmo esperando que não seja grande coisa. Apesar de tudo, não é que tenha passado um mau bocado, é mais como se os personagens a comportarem-se como irracionais fosse uma inconveniência. Mas caramba, espero que a Meg não volte a este nível. Ela é demasiado boa para isso.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Lock & Mori, Heather W. Petty


Opinião: Este livro está nas minhas estantes desde o ano passado, quando parecia que estavam a sair alguns livros YA baseados em Sherlock Holmes, e eu andava a ler uns quantos, e mandei vir este, curiosa para ver o que sairia daqui. Só que por alguma razão parva (a capa talvez? os modelos parecem uns putos, se bem que vendo ao vivo nem tanto), achei que o livro era bastante mais juvenil que na realidade é, e sei lá, nunca lhe peguei até agora. Não vou dizer que foi isso que me afastou, acho que não, mas também não foi um incentivo. E nunca tinha tropeçado em opiniões que me lembrassem dele, o que é curioso mas explicável, suponho.

Lembrei-me dele por causa duma outra série Sherlock-like que é uma enorme favorita e que é muito, muito, boa: a série Every da Ellie Marney. Isto aconteceu porque eu há umas semanas descobri que a editora americana (a edição que eu estava a seguir) considera não continuar a publicar (só falta um livro, caramba), porque não tem tido muito sucesso por terras americanas. De quem é que é a culpa, quem é? Se tivessem publicado os livros mais próximos uns dos outros, e apanhassem o ritmo de publicação dos australianos (de onde os livros vêm), não tinham perdido leitores para a publicação australiana. Porque quase toda a gente que lê parece ficar louca para continuar a ler, e na altura em que saiu o primeiro nos EUA, o segundo já existia na Austrália, e o terceiro estava prestes a sair.

Concluíndo: fiquei muito aborrecida. E deprimida. E gritei um bocado online com a pobre alma que me quis ouvir, que procedeu a compadecer-se de mim. Já não bastava as editoras portuguesas passarem a vida a fazer isto, grrr. E quando fui de férias há duas semanas meti este no saco, porque já estava na hora, e estava com saudades de, bem, alguma coisa do género, e porque estava com saudades dos meus queridos Wattscroft, apesar de isto não ter propriamente a ver.

E agora só quero bater em mim própria. Porque é que levei tanto tempo a ler isto??? Ainda bem que nunca li as opiniões do Goodreads, porque as que aparecem primeiro são maioritariamente negativas. E nunca estive tão feliz em ir contra a maré. Normalmente não me importo de estar na minoria de uma opinião sobre um livro, ainda que positiva; neste caso, ainda que compreenda porque é que as pessoas se queixam, não me identifico com o que apresentam para não gostar. E suponho que é a única vez em que vou falar da opinião dos outros, porque aqui fiquei mesmo surpreendida por encontrar tantas opiniões menos boas.

Ok, agora é que vamos mesmo entrar no sumo do livro. A minha tendência para tangentes é grandiosa. O livro é sobre um par moderno e contemporâneo de dois dos personagens de Arthur Conan Doyle. Por um lado Sherlock "Lock" Holmes, um adolescente solitário e esperto e ligeiramente estranho que é fascinado com mistérios e deduções.

Por outro, James "Mori" Moriarty (sim, aqui tenho de concordar que é parvo ela chamar-se James, podia ter ajustado ligeiramente o nome), a nossa narradora, uma jovem muito inteligente, com queda para Matemática (o Moriarty original é professor de Matemática), ainda mais solitária, com uma sólida descrença na autoridade (e na humanidade), uma ética e moral, errr, flexíveis, e uma vida familiar complicada.

Os dois cruzam-se por acaso, apesar de frequentarem a mesma escola, e dão com uma cena de crime em investigação. O Lock, pela sua queda para mistérios, propõe que façam um jogo de investigação do crime, a ver quem chega à resolução primeiro, desde que partilhem tudo o que encontrarem sobre o mistério.

Esta é a premissa para a história. E raios, como eu adorei a narradora. Um feitiozinho tramado, desafiador, desconfiado, com um lado negro que ela está desesperada para esconder. A Mori não confia facilmente em alguém, e tem dificuldade com o contacto humano, talvez pela sua personalidade, talvez pela vida familiar. A verdade é que ela está mais à vontade com números, factos e teorias do que com pessoas e emoções. A sua narração é um pouco fria, mas muito cativante devido à maneira como ela funciona.

E uau, a maneira como essas coisinhas chamadas emoções dão cabo dela. Cedo no "jogo", a Mori encontra uma relação entre o mistério e a história da sua família, e o seu primeiro instinto é esconder tudo, investigar sozinha, porque por muito tempo ela esteve sozinha, a lidar com certas coisas em solidão, e com o aparente desinteresse de quem pudesse ajudar.

A verdade é que a situação é mais séria do que aparenta, e com a questão da violência doméstica que predomina em casa, ela sente que não tem outra hipótese. Tal como a solução que no final do livro ela quer dar à coisa; com a sua moral mais flexível, e aterrorizada com os outros caminhos que se lhe apresentam, ela mete na cabeça que só pode fazer aquilo, mesmo que seja a ideia mais idiota de sempre.

O livro tornou-se subitamente mais sério por causa disso, e eu apreciei esse tom. Gosto bastante da sensação de querer que um personagem tenha um final feliz - cheio de arco-íris e unicórnios -, emparejada com o reconhecimento que não é tudo tão fácil assim, às vezes as circunstâncias e as próprias pessoas estão no caminho de ficar tudo melhor, e não é fácil andar de mãos dadas com os nossos demónios sem se perder no caminho.

E pronto, esta é uma série sobre Holmes e Moriarty, suponho que tenha de acabar com o estabelecimento de uma rivalidade. Ainda que essa perspectiva seja desencorajadora. Esse caminho só pode passar por corações partidos e tragédia, e gosto demasiado destes miúdos para antecipar o drama que aí vem com excitação. (Bem, talvez um bocadinho. Eu sempre gostei do drama.)

Pronto, isto ainda é mais intenso e triste porque o Sherlock aqui é um rapaz adolescente adorável. Adorkable, mesmo, algo que nunca pensei que diria deste personagem-tipo. Com um fascínio por mistérios e deduções, mas ainda não o grande detective. Um pouco aluado, socialmente, e solitário, e com os seus próprios problemas. A diferença da Mori é que lida duma forma muito diferente com eles. Aliás, o jogo em si pode ser visto como uma maneira de não ter de lidar com eles.

É claro que se distrai completamente quando ele e a Mori começam a desenvolver uma queda um pelo outro, e é totalmente adorável. Todo desajeitado só para dar as mãos, e todo preocupado e protector quando percebe que a Mori tem problemas em casa, se bem que tenta dar-lhe espaço, como ela pede. Não sei bem o que foi, mas achei-os tão fofos juntos, talvez porque a situação parte de uma certa inexperiência dos dois, mas nunca pareceu infantilizada. Talvez porque ambos estavam num lugar menos bom, mentalmente, e estavam no lugar certo para serem um apoio mútuo. Se bem que há uma miríade de razões para a coisa descarrilar depressa.

O elenco de personagens tem os seus pontos altos, e gostava de destacar os irmãos da Mori (coisinhas fofas, pobrezinhos), o pai dela (a certa altura até achei que ele não era o seu pai biológico, devido à animosidade com que a trata), a Sadie (ainda não acredito que a Heather lhe fez o que lhe fez), e o Mycroft (não consigo lê-lo bem, nem sequer dá para perceber a sua idade, mas o que vislumbramos é fascinante).

O enredo podia ser mais forte, porque o mistério acaba por ser mais ou menos fácil de desvendar, e acabamos por nos focar mais nas emoções e sentimentos dos personagens a todo o cenário; no entanto, acho que também é precisamente esse o objectivo. É bastante interessante ver as coisas desenrolarem-se e ser desvendadas, e ver como os dois protagonistas reagem a elas. Além disso, para um livro tão pequeno, tem tanta coisa lá dentro, e fiquei surpreendida que apesar disso me provocasse uma impressão tão forte.

O fim, bem, já disse, dá a sensação que está tudo quebrado, e que não dá para voltar a colar a jarra exactamente da mesma maneira. É um pouco aflitivo. O Lock é bastante leal à Mori durante a narrativa, mas no fim ela esperava que ele fosse leal de uma forma que não encaixa com a sua natureza, e quase lhe ia custando tudo. Mesmo que certos limites não tenham sido ultrapassados (e quando forem, não dá para voltar para trás), a ideia está lá, e isso é infinitamente perturbador.

Oh, bem, a única coisa boa de eu ter lido isto agora é que só tenho de esperar até Novembro para ler o próximo. Pelo menos desta vez não tenho de me lamuriar sobre ter de esperar um ano. (Ou mais, no caso da Ellie Marney. Mas vou tentar contornar isso.) Estou com muita vontade de ler o que vem a seguir.

Páginas: 256

Editora: Simon & Schuster

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Curtas BD: Lumberjanes, Bitch Planet, ODY-C

Lumberjanes vol. 2: Friendship to the Max, Noelle Stevenson, Grace Ellis, Shannon Watters, Brooke Allen
Bem, as Lumberjanes revelaram-se ainda mais fixes no segundo volume. Admito que tinha alguma relutância em continuar a ler, foi por isso que esperei tanto tempo, porque achei que algo tão extraordinário, excêntrico e bem-amado só me podia vir a desiludir... mas se posso dizê-lo, acho que fiquei verdadeiramente fã das meninas desta vez.

Este volume expande mais a mitologia dos monstros que têm assolado o campo de férias, e com tudo mais a claro, soube-me melhor a leitura, por perceber o que se estava a passar. Não que a história dificulte a compreensão de outro modo, mas raios, gosto de perceber o que se está a passar, ao ver tantas referências meio familiares juntas.

Adoro que a história seja tão positiva e tão boa para o grupo de raparigas, apresentando-as como um grupo unido de amigas. É tão fofinho. Também aprecio que a Jen, a monitora, se tenha juntado a elas e ajudado nas aventuras. (Tinha ficado fã da Jen.)

Todas as jovens têm momentos para brilhar, e gosto muito da personalidade de todas, mas a Ripley é uma enorme bolinha de fabulosidade. Aquilo que ela faz no fim é fantástico e adorável.

Bitch Planet, vol. 1: Extraordinary Machine, Kelly Sue DeConnick, Valentine De Landro
É sempre uma sensação curiosa pegar num livro que tem um destaque tão grande. Entre as expectativas e a realidade, há o perigo de o livro se perder ali no meio. E podia até ser uma coisa bastante fixe para começar.

Neste caso, posso dizer que gosto muito da atitude deste livro. Passa-se num mundo em que uma mulher determinada como non compliant ("não complacente") é presa e enviada para um planeta secundário que funciona como prisão. E NC pode ser algo tão simples como discutir com um homem, não encaixar nos padrões de beleza, ou cometer o grande crime de deixar de interessar ao marido e ser trocada por um modelo mais novo.

Portanto, o livro essencialmente expande certos pontos que assolam a existência de uma mulher ainda nos dias de hoje (gostamos de fingir que estamos no século XXI, mas às vezes ainda parece que estamos no XIX), e usa-os para criar um mundo distópico em que a existência da mulher está imensamente constrangida ao ponto de acharmos ridículo... mas depois podemos pensar um bocadinho e chegar à conclusão que estes aspectos existem hoje no dia-a-dia, estão apenas, er, "exagerados" e condensados.

E portanto a premissa é muito fixe, e a atitude das personagens é fantástica (a Penny é espectacular), e o worldbuilding é impressionante, ao ponto de se sentir a injustiça de certos momentos, mas reconhecer que são honestos.

Os pontos menos positivos no livro são que o enredo em si e as personagens ainda não são muitos claros. Fora duas ou três protagonistas, não faz um bom trabalho em caracterizar, diferenciar e destacar as restantes, o que é uma pena. E o próprio enredo é bastante vago; vai haver um jogo tipo mata, em que uma das equipas é com mulheres da prisão, e...? O livro faz mais por criar o worldbuilding que a preocupar-se com um enredo concreto.

A arte é engraçada, muitas vezes a tentar evocar um estilo de anos 70-80, que é precisamente o objectivo. O fim de cada número inclui uns anúncios falsos bem apropriados ao mundo apresentado, superdivertidos. Só tenho pena de não ter acesso aos ensaios que os números individuais continham. Não tenho maneira de adquiri-los, como imagino que aconteça a muita gente, por isso é um bocado triste não serem incluídos.

ODY-C vol. 1: Off to Far Ithicaa, Matt Fraction, Christian Ward
Uau... este livro é positivamente alucinogénico. Não é para ser compreendido à primeira, muita gente nem se vai dar ao trabalho, não vai ser inteiramente compreensível, e pede várias leituras. É definitivamente desafiador. Challenge accepted.

A premissa é um recontar da Odisseia, no espaço, com personagens somente femininas, num mundo universo em que os homens foram erradicados e existe um terceiro sexo. Confused yet?

Achei fascinante. Muito confuso, e obriga a pensar bem no que se está a ler, e bem, adoro ter nas mãos uma banda desenhada que me desafie assim. A história segue de perto alguns dos acontecimentos da Odisseia, e é contada neste tipo de narração meio arcaica, para evocar as raízes gregas da história.

E caramba, é tão violenta. Sangue e morte por todo o lado, mas a história original é assim, portanto... e há momentos com as deusas gregas (todas a identificar-se como mulheres também) completamente doidos, e tão em linha com a mitologia grega.

E a arte é tão colorida, e vívida e, er, bem, alucinogénica. O trabalho de cor é extraordinário, enche tão bem o olho, e tem destaques fantásticos e lindos.

E pronto, o livro é imensamente complicado, o que não joga exactamente a seu favor, mas é tão doido e diferente que me deixou intrigada o suficiente para querer ler o segundo.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

If I Was Your Girl, Meredith Russo


Opinião: Este livro... pessoal do Book Mail YA, muito obrigada por se lembrarem dele. Provavelmente seria uma coisa que não teria pegado, não por causa do tema, mas porque tenho restringido as minhas leituras em inglês a séries e autores que sigo, e portanto outras coisas que me chamem a atenção acabam por ficar numa lista imaginária chamada "talvez um dia... quando eu ganhar o euromilhões e me reformar prematuramente". Mesmo que possam vir a valer a pena. O que é uma pena.

De qualquer modo, fico contente por ter tido a oportunidade de o ter lido. É um livro bastante importante. Uma autora transgénero, com uma história sobre uma adolescente transgénero, com uma modelo de capa transgénero. O esforço por reconhecimento e aceitação de minorias faz-se assim, com passinhos de bebé, e vejo este livro como mais um passinho.

Não é perfeito nem fala por toda a gente que pudesse ser representada por ele, mas faz um bom trabalho em apresentar e normalizar uma experiência de vida, tanto a alguém que possa passar pelo mesmo, como alguém que nunca tenha contactado com a mesma.

A Amanda é uma jovem de 18 anos que vai fazer o seu último ano da secundária numa nova terra, onde ninguém a conhece. Vai viver com o pai, que teve dificuldades de aceitação em todo o processo, aliás, desde sempre; saiu de casa da mãe e do local onde viveu nos últimos anos devido a uma situação complicada em que foi exposta e agredida, como demasiadas vezes é a realidade de uma pessoa transgénero.

Um novo começo permite-lhe dar-se a conhecer sem preconceitos, e a Amanda começa a enturmar-se, fazer amigos, apaixonar-se. A descobrir-se como pessoa, sentir-se bem na sua pele, sem medo. Alguns dos momentos mais impressionantes foram aqueles em que ela morria de medo de ser descoberta, ridicularizada, agredida.

A coisa mais fixe da história é ver a personagem desabrochar, é inspirador ver alguém tão jovem e que passou por tanto, encontrar um tanto de "normalidade", se posso usar essa expressão, da qual não sou muito fã, especialmente no contexto. Mas ver a Amanda conhecer um rapaz, sentir aquelas borboletas no estômago, fazer um grupo de amigas que a apoiam... gostei de acompanhar.

A crítica que tenho a fazer é algo que a própria autora reconhece na nota no final do livro. Em muitos aspectos, a experiência da Amanda é algo "abençoada", no sentido em que passa por alguns desafios que se põem a alguém transgénero, mas não tem de enfrentar muitos deles, ou simplesmente certos pontos da transição são "facilitados" para a história e para o leitor. Por um lado compreendo, o mais importante aqui é a viagem emocional, que é muito boa e me envolveu completamente, por outro lado, também gostaria de ler mais sobre esses desafios.

Outra coisa a apontar é o facto de ser um livro de uma autora que está a começar, e em alguns detalhes nota-se. Oh, acho que emocionalmente fez um óptimo trabalho a detalhar a evolução da personagem, e adoro certos pontos como os flashbacks, para entendermos como a Amanda chegou aqui, ou a lenta aceitação dos pais, especialmente do pai, que no fim estava completamente focado em proteger a filha de tudo e todos, ou a irmandade feminina que se forma entre o grupo de amigas, especialmente depois da revelação (adoro a reacção da Anna, educada num meio hiper-religioso e conservador).

O que queria apontar que se nota de mais inexperiente é... talvez uma certa falta de complexidade no enredo, na narrativa? É bastante simples, e no caso é suficiente, mas também é o tipo de coisa que eu notaria seja em que história fosse. Além disso, a própria história, mesmo tendo os seus dramas, corre muito melhor do que provavelmente seria a realidade, e nisso há um pouco de wishful thinking, suponho, de que seja esta no futuro a realidade para uma pessoa jovem numa situação semelhante. É importante normalizar este tipo de experiência, mas ao mesmo tempo como ainda não chegámos lá, como sociedade, não é inteiramente realista.

Gosto muito de como a história acaba, bastante em aberto, num tom positivo e empoderador, cheia de possibilidades. Faz-me ficar orgulhosa da Amanda e do caminho que percorreu ao longo da narrativa.

Páginas: 288

Editora: Flatiron Books (Alloy Entertainment)

sábado, 20 de agosto de 2016

The New Guy (And Other Senior Distractions), Amy Spalding


Opinião: Este é um livrinho fofito, contemporâneo, mas a longo prazo suponho que não me vá ficar na memória. Sinto-me grata pelo Book Mail YA o ter escolhido, e me ter mandado este livro na sua caixa; conheci uma nova autora, e a Amy Spalding faz algumas coisas giras na sua história. Por outro lado, não foi um livro que me deu vontade de ir a correr explorar o resto dos livros da autora. Uma pena. Tenho saudades de ler uma boa autora contemporânea com um tom tão divertido.

O livro foca-se em Jules, uma jovem que está a começar o seu último ano da escola secundária. Jules é uma aluna top, está sempre em cima do acontecimento, e tem um plano para este ano correr no seu melhor.

Só que tudo descarrila mal o ano começa: Jules é encarregada de mostrar a escola ao aluno novo, Alex Powell. O mesmo Alex que há um par de anos era superfamoso e pertencente a uma boyband. Relutantemente, Jules aceita a atracção que tem pelo Alex, que é genuinamente uma boa pessoa, simpático, interessado, e nada cheio de tiques. A Jules é nova nesta coisa de ter um namorado e passa-lhe um pouco ao lado toda a coisa.

Por outro lado, cartazes a anunciar algo chamado Talon são espalhados pela escola, e quando Jules descobre o que é, parece que os seus planos cuidadosamente elaborados vão todos para o lixo. Tencionava liderar o jornal da escola e deixá-lo no melhor estado possível para os alunos que ficarão à frente dele no ano seguinte; mas o Talon é um canal de TV multimédia que passa durante alguns minutos na escola, dando-lhes efectivamente concorrência no que toca a jornalismo escolar, e Jules teme que o Crest (o jornal escolar) perca com a comparação.

E pronto, este é o centro da história. Creio que é necessário explicar isto porque a sinopse é muito vaga, sem dar ideia do que vai acontecer no livro, e fala de uma traição do Alex sem explicar porque é ele tão importante, e sem dar a entender que isso tem a ver com esta rivalidade jornalística.

É muito divertido seguir a Jules nos seus dramas pessoais, à medida que a rivalidade com o Talon cresce e a sua ansiedade para com o Crest e a sua continuidade cresce também. E também é interessante ver como ela lida com ter um namorado, quando isso nunca tinha acontecido; e ver como se afasta dos amigos e fica enredada no drama com o Talon e esquece um bocadinho tudo à sua volta.

Contudo, o meu problema com a história é que a autora talvez tenha exagerado um bocadinho demais no drama, na maneira como a Jules sente as coisas: fica tão indignada com o aparecimento do Talon, e mete logo na cabeça que isso vai ser o fim do Crest, o jornal, e... sei lá, pareceu-me que era tudo muito a peito; a vontade que me dava era de puxar as orelhas à rapariga e dizer-lhe para se acalmar. Tanta intensidade na maneira como ela levou as coisas soou-me a... falsa, talvez? Nada credível, pelo menos.

E pronto, como isto é o centro da história, pareceu tudo um pouco... demais. Porque de resto a história é amorosa. Os personagens secundários são fantásticos; a Sadie com os seus dramas maternos (a mãe é uma superestrela de cinema e a Sadie tem dificuldade em posicionar-se para além disso), o professor de jornalismo, e o Alex, que é tão fofo e terra-a-terra.

Ah, e as mães da Jules, um casal lésbico que foi introduzido duma forma fantástica. Gostei muito de ler como a Jules cresceu com elas e cresceu com a situação e se sente acerca disso (perfeitamente normal, I mean) e lida com cada uma de forma diferente. As três são adoráveis juntas; as mães da Jules, como ela é tão caseira, encorajam-na a viver um pouco antes de entrar para a faculdade.

Até gostei da Jules, apesar da intensidade com que encara a situação central ao livro. Acho-a engraçada, na maneira como parece ter tudo resolvido e decidido, mas quando encontra um obstáculo, passa-se um bocadinho. E gostei da a acompanhar enquanto descobre algumas coisas que não tinha experimentado, o que a coloca fora da sua zona de conforto, algo divertido de acompanhar.

E pronto, foi um livro bem giro, diverti-me bastante a lê-lo, mas tem as suas falhas, e apesar de não me terem incomodado, propriamente, também não consigo deixar de as apontar. Aprecio definitivamente que a YA Book Mail box me tenha apresentado uma nova autora. Recomendaria para uma leitura mais rápida e divertida, mas há definitivamente coisas que me tenham preenchido mais.

Páginas: 320

Editora: Poppy (Little, Brown)