domingo, 18 de junho de 2017

Era uma vez...: Lady Midnight, Cassandra Clare


Opinião: Já passou um ano? MEU DEUS, JÁ PASSOU UM ANO??? (Tecnicamente, passou um ano, dois meses, duas semanas e quatro dias desde que terminei este livro. Não que esteja a contar.) Passei o dia de hoje a folhear este mesmo livro, a rever as minhas notas amorosamente escritas em post-its e coladas nas páginas (em 10% nem consegui decifrar exactamente o que tinha escrito, mas pronto), e a rever as minhas notas finais, escritas num bloco.

Terminei essas notas desesperada com a perspectiva de esperar um ano, mas é claro que esse ano passou, e só tenho pena de não ter escrito a minha opinião na altura, mas às vezes os livros são tão bons que temos de os guardar para nós um bocadinho. Nem sempre me é fácil ganhar coragem para desbobinar tudo e mais alguma coisa sobre o que achei do livro, sabendo que vou discorrer por milhentos parágrafos. (Mas agora até não estou a ter dificuldade nenhuma, tendo o livro refrescado e tão presente na minha mente.)

Um ano passado, o que posso dizer principalmente é isto: estou impressionada. Muito bem impressionada. A Cassandra Clare tem evoluído como escritora; estes já não são aqueles simples livros de fantasia urbana (nunca foram, para mim), a complexidade das histórias, do mundo, do enredo tem crescido fabulosamente; os desafios que ela se tem proposto têm aumentado e a maturidade com que ela aborda certas coisas é bem maior.

Além disso: esta série tem tudo para ser a minha favorita dela, não só pela complexidade que se adivinha. Entre todas, esta é uma carta de amor aos que não encaixam. Os que são diferentes, os que perderam e foram quebrados e se reconstruíram a si próprios. Os desamparados, e os que não deixaram que a tragédia os definisse. Toda a gente do elenco principal tem uma vulnerabilidade por não encaixarem na norma ou não poderem pedir ajuda quando se vêem assoberbados, e por vezes é de partir o coração.

No centro disto: a família Blackthorn. Parecem ter já uma longa relação de desconfiança para com a Clave (veja-se o seu motto, "uma má lei não é lei nenhuma"), mas na geração actual, uau, quão traídos foram pela Clave. O Mark e a Helen estão afastados da família pela desconfiança para com os faerie, perderam a mãe e depois o pai na Dark War, a família está como que abandonada, quase exilada em Los Angeles. Pior, ninguém deu conta que estas crianças estão sozinhas e desamparadas. Ninguém se importa. Pelo modo como a Clave opera, frio e impessoal, esta família viu-se encurralada, levados a extremos para sobreviver.

Esse isolamento não os impediu de florescer, no entanto. A desconfiança para com a Clave e o mundo Shadowhunter significa que usam tecnologia humana/mundana, como computadores e carros, o que faz deles pessoas melhor preparadas para interagir com o mundo actual. E são uma pequena grande família às vezes triste, às vezes disfuncional, mas que se adora e se protege mutuamente, e cada momento em família também pode ser divertido, como só as famílias conseguem ser.

Dentro e fora da família, há tanta gente que poderá ter um estatuto de outsider... temos a Diana - cujo segredo eu já sei, porque o Buzzfeed fez o favor de me spoilar ao publicar um artigo com a autora sem avisar que tinha spoilers para o livro mais recente... -, e bem, só fico contente de saber o segredo em questão porque dá uma dimensão diferente ao seu comportamento e às menções veladas que a autora faz. Ainda não sei o porquê de tudo, mas saber que cuida dos Blackthorns como pode tendo os seus próprios problemas... gosto ainda mais dela.

Temos a Cristina, que vem para Los Angeles para lidar com um coração partido... e adoro a Cristina pela sua fé, e por ser uma guerreira, e por ser inabalável e firme e uma pessoa em que se pode confiar para gerir uma crise. E por ser compassiva e querer fazer do seu mundo um lugar melhor. E temos o Malcolm Fade, que usa uma cara de desastrado e inconsequente e benevolente para esconder um desgosto inabalável.

No meio dos Blackthorns, destaque para duas pessoas. Uma é o Ty, que tem uma caracterização fantástica e respeitosa, parece-me, do que o mundo é para ele, de como se relaciona com o mesmo, e de como isso não o diminui nem às suas capacidades. A vida será sempre um bocadinho mais difícil para ele, especialmente no seio dos Shadowhunters, mas ele cresceu amado, e teve sempre quem o tentasse entender e facilitar o seu crescimento e entrosamento com o mundo.

Outra é o Mark. O seu retorno é doloroso. Passou tempo com os faerie, e isso mudou-o. Passou muito às mãos deles, e isso mudou-o também. O reajustar a esta vida é difícil para ele (também tem os seus momentos divertidos), não entende nada do mundo moderno, nem das convenções sociais humanas. Não está num lugar em que possa ser o responsável, apesar de tecnicamente ser o mais velho. Mas tem uma personalidade fantástica, e o seu lugar único traz-lhe desafios que vou gostar de acompanhar.

Quanto à nossa protagonista: ah, a Emma é uma delícia. Uma herdeira natural do sentido de humor (e até um pouco do feitio) do Jace e do Will. Mas a Emma é muito mais que isso. Determinada a resolver o assassinato dos pais, pois não acredita na história oficial; a Emma dedicou-se a treinar e treinar e treinar... pode não ter sangue angélico como o Jace, mas ela vai ser a melhor Shadowhunter que pode, e que ninguém se atreva a dizer-lhe que não pode. O melhor dela é que tem um feitio muito menos torturado; a Emma é orfã mas cresceu parte duma família, os Blackthorn, e isso permitiu-lhe sentir-se amada, parte de algo. Gosto bastante da sua leveza. Oh, e adoro a sua amizade com a Cristina. Adoro ver amizades femininas fortes, e que parecem quase sem esforço. Estas duas são capazes de levar tudo à frente, mas apoiam-se mutuamente.

Quanto ao Julian: oh, céus. Se tivesse de escolher um favorito entre todos, tinha de ser ele. Há uma complexidade incrível na maneira como o Julian compartimentaliza as coisas. É o Shadowhunter guerreiro que se espera dele. Mas também é o rapaz gentil e aquele que assumiu o papel de cuidador da família, e é de partir o coração, entender que um rapazito de 12 anos assumiu um fardo bem mais pesado do que alguma vez se deva pedir a alguém da sua idade. E ele fá-lo com um sorriso no rosto para toda a gente, raramente se vendo o quanto lhe custa, negar-se a si próprio. E tem ainda uma faceta, que é deliciosa e aterradora para alguém com 17 anos - o estratega, a mente cheia de artimanhas e astúcias, que aprendeu ao longo de anos a enganar gente bem mais velha que ele. Aquilo que ele faz no final? Brilhante, e de mestre.

Quanto aos dois juntos: é muito interessante ver a sua relação. Neste caso, é pré-existente, ao contrário das séries anteriores da autora. Cresceram com uma posição de responsabilidade quanto aos mais novos, e a relação de amizade e de parabatai que se construiu está cheia de cumplicidade e piadas partilhadas e de conforto na companhia um do outro. Mas é claro que há outros sentimentos... "engarrafados", e quando explodem... uau. O Julian está ciente disso há muito, mas a Emma, pobre alma abstraída e obcecada com ser a melhor guerreira, só agora está a aperceber-se da coisa... é claro que sendo um livro da Cassandra, há um impedimento. A ligação parabatai. Mas sendo a Cassandra, sei que ela vai encontrar uma forma de desatar o nó que deu. Depois de, muito apropriadamente, nos partir o coração de caminho, vezes sem conta. Claro.

Temas deste livro (para além do que já falei) que gostaria de destacar: como os Shadowhunters tratam a diferença. Os nossos personagens estão dolorosamente cientes disso, infelizmente. A Clave está numa trajectória de mostrar cada vez mais a sua face, a sua intolerância e intransigência e injustiça, e por mais que tentem, uns poucos indivíduos a pensar de modo diferente não conseguem milagres da noite para o dia. A Clave não aprende nada com a história, seja a humana, seja a deles, e a "Guerra Fria" com as fadas só vai escalar até explodir.

Há maneiras novas de ver os parabatai e - para além da óbvia - apreciei ver a relação da Livvy e do Ty e de como se sentem em relação a assumir esse passo. (Há menção a uma relação parabatai e amorosa no passado, e raios, que curiosa que eu estou.) Além disso, há a exploração do amor familiar e fraternal, e da vida familiar e caseira, e achei isso interessante também, a mundaneidade misturada com a acção e as reviravoltas no enredo.

Ah... sinto que este livro empacota tanta coisa. Tanto acontece no enredo, coisas mais simples e caseiras, e mais grandiosas e explosivas... a caracterização está no topo, e como disse, a narrativa é incrivelmente complexa a vários níveis. O livro tem 700 páginas, é certo, mas parece que tem muito mais lá dentro. É difícil de explicar. Mas gosto.

Questões para o futuro: as injustiças cometidas ao longo do tempo contra Blackthorns, e como isso terá a ver com o enredo da outra trilogia planeada pela autora, The Last Hours, decorrendo (salvo erro), em 1903. Mais coisas sobre o elo dos parabatai, obviamente. A doença de Arthur Blackthorn, e como os faerie agem nas suas cortes. Um pequeno grande segredo que a Seelie Queen pode estar a esconder (havia uma teoria entre os fãs muito curiosa). Oh, e vai a Cassandra continuar a torturar-me com os seus pares amorosos???

Ah. Que tonta que eu sou. É claro que sim.

Enfim... estou um passo mais perto de poder ler o Lord of Shadows, o segundo livro. Não queria lê-lo sem escrever isto, e tenciono lê-lo até ao fim do mês. Mas agora até tenho medo. Sei que ela me vai torturar, e sei que vou ter de esperar algo como dois anos para ler o fim da trilogia. Essa noção é um pouco assustadora, mesmo que signifique que no meio vamos poder ler um livro da outra trilogia, The Last Hours, sobre a qual tenho muita curiosidade. Bem, eu sempre fui masoquista no que toca às minhas leituras favoritas...

Páginas: 704

Editora: Margaret K. McElderry Books (Simon & Schuster)

terça-feira, 13 de junho de 2017

All the Rage, Courtney Summers


Opinião: All the Rage, de facto. Não a raiva que a protagonista sente (longe disso), mas o que o leitor sente ao ler a sua narrativa, e ao se aperceber do que passou e ainda passa no dia-a-dia. (E em jeito de piada, toda a raiva do mundo por aquela sinopse triste, que não dá nem de perto uma ideia do livro que se tem em mãos, e é altamente enganadora do tipo de enredo que o livro tem.)

Este é um livro que é brilhante na caracterização da sua protagonista. Romy é uma jovem a quem aconteceu uma coisa terrível, e que para complementar, nunca mereceu o crédito das pessoas da sua cidade, ou dos seus pares. Toda a gente assume que Romy é uma mentirosa - pois como é que Kellan, rapaz "perfeito", filho do xerife, faria tal coisa?

E aí é que entra o brilhantismo. Romy não sente raiva - Romy está dormente desde então. Romy usa baton e verniz de unhas vermelho, e obceca com a sua aplicação, como se fosse uma armadura, porque o é - a rapariga em que ninguém acredita assume o traje de tentadora e cabra, porque é isso que os outros pensam dela.

É de partir o coração. Ver o estado em que a Romy está - depressiva, desconectada da sua realidade. Continua a ir à escola, ao trabalho. Não pensa no que lhe aconteceu. Recebe insultos e microagressões de todo o lado. Não pensa nisso também. É difícil no trato, até com quem a ama. Isto é uma miúda cuja vida foi destruída não só por um acto isolado, mas também pela reacção de toda uma comunidade à sua história.

E é por isso que a caracterização é tão boa. Não parece acontecer nada. A personalidade da Romy não parece ser nada de especial. É aí que está o interesse. A falta de coisas que a tornam numa personagem com quem o leitor se identifique é o que mostra a extensão do que passou.

O enredo desta história, secundariamente, também é sobre o desaparecimento de outra rapariga. Uma que Romy conhecia. E com cujo desaparecimento ela pode ter uma relação. E isto também é fascinante de ler, pois a reacção da comunidade ao desaparecimento não podia ser mais diferente. Há preocupação, há luto. Romy nota com amargura que se fosse ela ninguém se preocuparia, fora a mãe e o companheiro.

(Por falar neles, adorei a mãe e o Todd. Tentam ser o mais apoiantes que podem da Romy. E o Todd é um bom comentário a quem vive com uma dificuldade - dor crónica -, e é visto como "preguiçoso", por não lhe ser possível trabalhar.)

(E já agora, detestei, detestei o xerife. Como, mas como, é que fica encarregado de investigar o desaparecimento da rapariga, quando esta era namorada do filho [não o Kellan]? Conflito de interesses é só uma frase? Ugh, e as reacções dele à Romy! Que vontade de o esganar.)

Destaque para a descrição que a autora faz do que é ser rapariga, e existir num mundo de raparigas. Os conflitos, as rivalidades, o quão duras são umas para as outras. Entende muito bem como miúdas adolescentes funcionam. (Megan Abbott, se escrevesses um bocadinho mais como esta senhora, e menos como escreves, eu podia ter gostado mais de ti. Porque a parte das raparigas adolescentes está de topo nos dois casos.)

Uma menção de passagem ao Leon e à Caro. O Leon é o primeiro rapaz por quem a Romy se interessa desde que tudo aconteceu, e é curioso acompanhar o redespertar para sentimentos e desejos que julgava esquecidos. Também gosto do Leon porque ele sabe que não pode "resolver" a Romy. Ela tem de fazer isso por si mesma.

A Caro porque é uma irmã mais velha fantástica, muito querida, gravidíssima, animada e assustada como só uma futura mãe pode ser. (Ah, e de partir o coração quando a Romy pensa que "espero que não seja uma rapariga", porque sabe todas as maneiras que o mundo tem de destruir uma rapariga.)

O final... bem, não há soluções fáceis, não há respostas para o sentido da vida. O mistério da narrativa é resolvido, claro, mas a evolução da Romy na direcção de um lugar melhor, mentalmente, só agora está a começar. Há esperança, no entanto. É tudo o que podemos pedir. (Para além de um mundo em que narrativas como esta não sejam necessárias, claro.)

Páginas: 336

Editora: St. Martin's Griffin

domingo, 11 de junho de 2017

Curtas BD: No Coração das Trevas DC, volumes 7 a 10

Super-Homem e Apocalipse: Caçador e Presa, Dan Jurgens, Brett Breeding
Ok, esta história não é nada de especial, não é particularmente bem contada nem nada, e falta-lhe sensibilidade e profundidade no geral, e até tem o contra de se seguir a um evento que não li - e que não me interessa particularmente, já que não tendo a orbitar para as histórias do Super-Homem...

Contudo, resultou para mim. Terá a ver com qualquer coisa no ritmo da acção; ou talvez por, apesar de estar a ler algo no rescaldo dum evento grande do personagem, me ser possível acompanhar bem o enredo.

Também pode ser pelos resquícios de densidade emocional numa história que de outro modo foi desenhada para ser uma narrativa de porrada. Destaque para a exploração do medo do Super-Homem quando se depara com o retorno do Apocalipse; e para a história do Apocalipse, que é super-interessante, com a ideia de ser construído e reconstruído a partir do medo e da sua capacidade de resistênciae de aprender. Não é inteiramente Darwiniana, mas é curiosa.

Joker: Asilo do Joker, Jason Aaron, Jason Pearson, James Patrick, Andy Clarke
Não gostei particularmente deste volume, não necessariamente pelas histórias (têm os seus altos e baixos), mas pelo enquadramento: a série original tem dez histórias, e cada volume que as junta em inglês tem cinco. O volume em português tem quatro histórias de um, e uma de outro - portanto, se eu quisesse ler as que faltam, nem posso apostar num dos volumes em inglês, que fico sempre a chuchar no dedo com qualquer coisa. (A este ponto preferia mesmo que tivessem seleccionado outra coisa para a colecção. Algumas das histórias não são assim tão boas... pelo menos podiam ter escolhido as melhores das melhores da série, em vez de ir pela familiaridade dos personagens.)

De qualquer modo: esta é uma série sobre os vilões do Batman, contando uma história do seu passado, tentando enquadrá-los na sua vilania. O elemento de ligação é o Joker, que apresenta cada história. (Percebo o que estão a tentar fazer com isso, mas não sou fã.)

A história do Joker é divertida pelo modo como joga com as nossas expectativas do personagem. (Mas a arte é demasiado cheia de traço para o meu gosto.) A do Pinguim é arrepiante, e interessante, pela entrada na maneira como funciona. (Gosto da arte.) A da Poison Ivy é demasiado fragmentada para o meu gosto, confusa, e não faz um bom trabalho a explicar o porquê das acções da Ivy, porque está a fazê-lo naquele momento.

A história do Duas Caras é brilhante, retorcida, a melhor do conjunto e com um final extraordinário. E a história da Harley Quinn é divertida, louca, desnaturada, com uma arte cartoonesca, e possivelmente uma homenagem a Amor Louco, pois lembra imenso o estilo frenético dessa história.

Universo DC: Mal Eterno 1, Geoff Johns, David Finch
Universo DC: Mal Eterno 2, Geoff Johns, David Finch
Esta é uma história mesmo cativante. A premissa passa por uma invasão da Terra pelo Sindicato do Crime - os vilões da Terra-3 que são espelhos dos super-heróis do mundo DC que conhecemos. A Liga da Justiça fica inactivada e ninguém os pára. O seu domínio do mundo é quase completo, recrutando os vilões desta Terra para fazer o seu trabalho sujo...

Entra em cena o Lex Luthor, que não está para aturar este pessoal nem para vê-los tomar o comando da Terra. Pega em si, num grupo de vilões que não está inclinado para aceitar o novo status quo, e mete as mãos ao trabalho - salvar o mundo.

É uma história interessante por questionar os parâmetros da vilania, pelas voltas e reviravoltas que encerra e pelos paralelos que estabelece com a outra Terra paralela. Destaque para o Bizarro e a relação que desenvolve com o Lex, o seu criador, e como cresce e aprende a existir.

Oh, e sabendo que a história decorre depois de Death of the Family, quando o Joker destrói a confiança da Batfamília... bem, é amoroso duma forma retorcida ter o Nightwing a ver a sua identidade secreta revelada como Dick Grayson, e depois estar em perigo de morte e o Batman ficar todo preocupado... o Batman tem sentimentos! Que novidade! Eheheh.

Este volume duplo tem uma segunda história, que decorre depois da primeira: a Liga da Justiça procura o Lex Luthor, mas pelo meio da sua demanda, deparam-se com uma jovem dominada pelo anel energético do paralelo do Lanterna Verde da Terra-3. (Reconheci a jovem, que me parece que depois se junta ao Corpo dos Lanternas Verdes.)

Destaque para o final, em que o Batman resolve as coisas, e não é ao murro (mais um momento amoroso para o Batman). No entretanto, a equipa deixa o Lex entrar para a Liga, para o manter debaixo de olho, o que promete ser interessante.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Este mês em leituras: Maio 2017

Um bom mês a nível de leituras, pelo menos posso dizer que encontrei muitos livros que me caíram no goto. No blogue nem tanto; fiz em Maio dois dos horários menos meus favoritos na rotação de horários do meu emprego, porque implicam chegar a casa tardíssimo, e isso reflecte-se no escrever aqui no blogue, pois que vontade há de ser coerente a horas tardias, pergunto eu... não me parece que esteja atrasada em termos de opiniões, no entanto, por isso contento-me com essa pequena vitória.

Livros lidos


Opiniões no blogue


Os livros que marcaram o mês

  • Magia de Papel, Charlie N. Holmberg - um livro tão giro, com umas ideias fantásticas que ainda me deixaram a pensar nelas, um mês depois;
  • O Rouxinol, Kristin Hannah - marcante mais pelo ambiente histórico, a descrição da vida na França ocupada, mas a história dual das irmãs com percursos tão diferentes também é cativante;
  • A Court of Wings and Ruin, Sarah J. Maas - remeto para a opinião, que já está escrita, mas esta é uma autora favorita, e tornou-se a minha série favorita dela, foi a modos que um final e foi triste dizer adeus, mas é animador saber que vão haver mais livros neste mundo;
  • O Verão em Que Me Apaixonei, Jenny Han - gostei pela simplicidade, pela descrição do Verão, mas também por ter achado a Belly tão interessante na sua inexperiência, tão honesta;
  • The Pearl Thief, Elizabeth Wein - que saudades do Code Name Verity, e este, apesar de ser um livro tão diferente, soube-me bem, e é irrepreensível na maneira como descreve a época;
  • All the Rage, Courtney Summers - a raiva titular não é da protagonista, é do leitor quando percebe a extensão do que lhe foi feito, a injustiça do que passou; tem uma espécie de mistério à mistura, e é interessante o suficiente, mas o melhor é a exploração daquela sociedade e do que fez à Romy.

Outras coisas no blogue

  • Nada a contribuir, este mês.

Aquisições

Ora bem, primeiro a banda desenhada do mês - os livros das colecções que estou a fazer: a DC No Coração das Trevas, que já acabou; a Graphic Novels Marvel - que para além de me ter chegado tarde, como mencionei no post mensal de Abril, ainda foi entregue trocada - mandaram os números 37 e 38, quando devia ter sido os 36 e 37, e daí andar a ler a série fora de ordem (mas pelo menos já me corrigiram o erro); e uma nova colecção focada na Mulher Maravilha, que me está a deixar muito intrigada.

Depois, no topo da pilha temos os livros em inglês. Como habitual, temos os livros do desafio Meg Cabot - e dou-me conta agora, nesta foto e na dos livros lidos faltou-me acrescentar o último livro da Allie Finkle, por lapso. E temos os livros de séries (os da Sarah J. Maas, e da Cassandra Clare) e de autoras (as anteriores, mais a Elizabeth Wein e a Rachel Vincent) que sigo habitualmente.

No fundo da pilha as aquisições em português, virtualmente a custo zero já que usei o meu dinheiro em cartão Continente.

A ler brevemente

Espero vir a ler mais livros destas colecções de BD que estou a fazer. Tirando isso, tenciono ler o livro da Colleen Hoover - até tenho medo, digamos, pois parece dramático até dizer chega e isso tem sido o que resulta menos para mim nos livros da autora. Estou animada para ler o Lord of Shadows, um livro muito esperado, e curiosa para ver o que a Rachel Vincent tem preparado.

Quanto a futuras aquisições, espero receber em Junho Roar da Cora Carmack; o livro da Julia Quinn, para continuar a série dela; e um omnibus da série Vanished da Meg Cabot, com os dois primeiros volumes - a série é tão antiga que é impossível encontrar edições coordenantes de cada volume da série. E mesmo apostando nesta edição, vou ficar apeada com o quinto livro, que não teve direito a omnibus e só há num tamanho completamente diferente. (Pois, não sou fã.)

terça-feira, 30 de maio de 2017

The Pearl Thief, Elizabeth Wein


Opinião: The Pearl Thief serve como prequela a Code Name Verity, essa pérola literária que cinco anos depois, ainda me faz cantar as suas virtudes. (Tive oportunidade de rever o seu brilhantismo relendo partes do livro num domingo de manhã, depois de acabar este livro.) Contudo, funciona perfeitamente como a sua própria história isolada - não é necessário ler um após o outro, se bem que diria que a vida de qualquer leitor seria bem melhor por ter lido o Verity.

O livro decorre no Verão de 1938, e foca-se na personagem Julie, que conhecemos do Verity. Julie é parte da nobreza escocesa (o pai é um conde, o avô materno também), mas a sua deslocação a Strathfearn, onde se localiza a casa ancestral da família materna, não é por uma boa razão: a propriedade está a ser vendida, bem como o seu conteúdo, e a submeter-se a obras para ser transformada numa escola privada.

(Num processo muito semelhante ao aludido em Downton Abbey, calculo, a propriedade deixou de dar lucro e começou a acumular dívidas, exacerbadas com a doença do avô e as contas médicas acumuladas antes de falecer.)

Só que, mal chega, Julie mete-se logo em sarilhos: está junto ao rio da propriedade, observando um homem com um comportamento estranho, quando leva uma pancada forte na cabeça. Acorda três dias depois, sem saber o que se passou, mas o homem que observava está desaparecido. Este é portanto no essencial um mistério ao estilo cozy com um toque vintage e juvenil de Nancy Drew.

Não se pense, no entanto, que é só isso que o livro é. Tem múltiplos outros pontos de interesse: para já, a exploração da personagem Julie. Podemos ver vislumbres da pessoa que ela se vai tornar. Esta Julie é inexperiente, e ainda está a aprender a lidar com as suas capacidades de dar conversa e manipular pessoas, de usar os seus encantos femininos.

No Verity a Julie é extraordinária neste aspecto; aqui, ela vai fazendo as coisas tentativamente, aprendendo com as suas experiências. Por vezes corre-lhe mal - uma situação particular em que achava que estava no controlo ia-se virando contra ela -, mas a Julie é destemida e tem uma imensa vontade de aprender e melhorar.

Outros pontos de interesse prendem-se com algumas questões sociais, e os tipos de preconceito que prevalecem na pequena sociedade que rodeia a propriedade. Temos Mary, a bibliotecária da terra, que tem algum tipo de deficiência física no rosto e que é surda, o que condiciona a percepção que as pessoas têm dela. (A certo ponto, também a própria Julie assume coisas acerca da Mary que não devia.)

Temos uma exploração de desejos e sexualidade por parte da Julie, que reconhece que se sente atraída por ambos os sexos; e uma visita a um espectáculo de variedades apresenta-a a uma cantora trans. Numa época em que estas vivências nem sequer eram reconhecidas, quanto mais terem um nome, é de partir o coração ver as pessoas não poderem ser exactamente quem são, ou explorarem livremente o que querem porque nem se falava disso.

Outro aspecto do preconceito prende-se com a presença de travellers escoceses. A comparação mais directa que posso fazer é que são como ciganos ou Romani do Sul da Europa; mas calculo que tendo a Escócia uma história e sociedade algo diferentes do Sul Europeu, também hajam diferenças culturais, sociais e étnicas entre os dois grupos, por isso não são paralelos directos.

No entanto, são-no em muita coisa. Os travellers são nómadas, viajando dum lado para o outro conforme encontrem trabalho. Como não estão fixos, encontram muito pouca aceitação por parte da população sedentária, e todo o tipo de injustiças por falta de compreensão do seu modo de vida.

Quando as acções criminosas no início do livro se dão, os suspeitos óbvios para as pessoas são os travellers. Ellen e Euan, dois jovens que a Julie e o irmão conhecem no livro e com quem fazem amizade, nunca puderam terminar a escolaridade por dificuldades interpostas por quem de direito. É incrivelmente triste porque a Ellen parece ter interesses académicos, e nunca poderá segui-los.

Curioso é no meio disto tudo ver de onde vêm os preconceitos. Vemo-los mais entre as classes trabalhadoras, que não se podem dar o luxo de não ter preconceitos e não terão instrução suficiente para ultrapassar os mesmos. É entre a família de Julie que a família de Ellen e Euan encontra amigos, o que é interessante de considerar: é um pouco de classicismo enraizado na sociedade, já que esta família nobre tem, pela sua posição social, uma instrução diferente que lhes permite questionar os preconceitos que se lhe deparam, e pronto, podem realmente dar-se ao luxo de não ter preconceitos.

No entanto, neste aspecto nem tudo é mau: Mary, por exemplo, que era muito aversa aos travellers - alguém alvo de preconceito a enraizar outro preconceito em si mesma -, acaba por se abrir à sua presença, e confrontar esse mesmo preconceito que pintava as suas percepções. Aceita a presença de Ellen e acaba por ver o quanto esta última adora história e entende dos artefactos da propriedade, o quanto pode ajudar na avaliação do espólio. (Um pouco de esperança nesta sociedade dos anos 30.)

No que toca a enredo, achei o início do livro um pouco aborrecido. Acho que leva algum tempo até estabelecer as peças do puzzle, e da história, e o ritmo é bem mais calmo que no Verity, o que é um tudo-nada desconcertante. (Mas muito necessário.)

Quando a narrativa ganha tracção, lê-se muito melhor, e como vimos tem tanto sumo a espremer; contudo, o fim e a revelação dos mistérios também podia ser melhor trabalhada. Achei a cronologia das revelações algo confusa, ou melhor, não suficientemente clara. Há uma coisa que faz clique - a identidade do corpo que é encontrado -, o resto nem por isso, e isso fez-me confusão. Acho que a autora é bem mais capaz que isso.

Queixas à parte (foi só esta), este é um excelente livro. A Elizabeth Wein tem mão para nos imergir na atmosfera de uma época, e ela evoca esta Escócia dos anos 30 fantasticamente, mostrando uma fatia da sociedade escocesa, e discutindo alguns problemas sociais dela de forma directa e clara, e apresentando todo o tipo de detalhes que fazem um óptimo trabalho a complementar a pintura e esclarecer o leitor. Pode ter começado menos bem, mas o livro melhorou largamente e foi cativante até ao fim. Estou muito contente por ter tido a oportunidade de o ler.

P.S.: Quem é que está na capa? A Julie não é, que é descrita como loira. E a Ellen creio que também não. Aiaiai, editoras a mandar fazer capas que nem fazem sentido com a história...

Páginas: 412

Editora: Bloomsbury