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sábado, 23 de maio de 2015

Curtas: três livros Middle Grade (er, infanto-juvenis) para todos os gostos

As Aventuras de Flora e Ulisses, Kate DiCamillo, K.G. Campbell
Este é um pequeno livro bem engraçado e algo peculiar. Depois de ser acidentalmente sugado para um aspirador, o pequeno esquilo Ulisses ganha super-poderes. Ou assim o defende a Flora, a menina que assim o nomeia e o adopta. Flora considera-se uma céptica, gosta de banda desenhada e salva o esquilinho do malvado do aspirador, mas nem toda a gente lá em casa se encontra tão acolhedora para com o Ulisses...

Uma das coisas que gostei no livro é o sentido de humor, derivado das situações e da linguagem. A noção de um esquilo super-herói é muito gira. Também, nesse sentido, apreciei o tom, balançando o cómico com o sério, e mantendo uma boa dose de singularidade nos momentos e nos personagens. Ah, e adorei o incorporar de banda desenhada para contar certos momentos da narrativa. É bastante adequado para os momentos de acção, e também por ser um estilo de eleição da Flora.

Um ponto alto da história é que a peculiaridade e o carácter divertido da mesma podem denotar uma aparente simplicidade, mas escondem aspectos mais sérios e contemplativos. A reacção da mãe da Flora ao esquilo é assustadora, algo excessiva, e coloca-a claramente no papel de vilã (apesar de no ponto de vista dela até compreender a sua reacção inicial, que entretanto descarrilou).

Podemos ainda argumentar que o superheroísmo que a Flora vê no Ulisses é uma projecção do seu gosto pela banda desenhada, combinada com uma tentativa de lidar com o divórcio dos pais. Mas mesmo ciente dos pontos sérios, gosto de apreciar mais a parte fantástica e estranha, e divertida deste livro, que o torna adorável.

O Único e Incomparável Ivan, Katherine Applegate
Este foi para mim o melhor dos três, sem discussão. A autora inspirou-se na história real de um gorila que esteve 27 anos em exibição num centro comercial americano (onde mais?) para criar uma narrativa comovente e que faz pensar sobre o tratamento dado aos animais, e que desafia como pensamos neles.

Também de estrutura enganadoramente simples, O Único e Incomparável Ivan é narrado na primeira pessoa, pelo Ivan, com capítulos curtos, de 2 ou 3 páginas, relatando pequenos episódios ou recordações, impressões sobre o que o rodeia.

E a execução é extraordinária. Muito convincente a criar as vivências do Ivan, a sua inteligência, a maneira como vê o mundo. Deu um gozo enorme acompanhá-lo e às suas impressões. Através da simplicidade, entevê-se um espírito observador e artista. Além disso, a simplicidade esconde pormenores comoventes, detalhes que descrevem o tratamento dos animais às mãos dos humanos, demasiado frequentemente cruéis.

Os personagens secundários são fantásticos, adorei a Stella e a pequena Ruby, pelo seu espírito, o Bob, pela sua perspectiva, a Julia e o George, pela sua amizade e esforços incansáveis, até o Mack, com a sua ambiguidade. É um livro que consegue descrever os seus personagens extraordinariamente, com apenas umas pinceladas, e é tão bom de ver (e ler).

O final é animador e surpreendentemente triste e emocional. Os esforços de Ivan para se integrar são tão giros de observar, e a nostalgia pelo passado, com os seus momentos bons, comovente. Aliás, todo o livro consegue emocionar com poucas palavras, o que é de louvar.

O Dragão de Gelo, George R.R. Martin, Luis Royo
Ei, é o George a ser contido nas palavras! E a ser bem sucedido nisso! O choque!... Ehehe. Diria que valeu e vale a pena dar-lhe uma olhadela, porque encontrei uma boa história, mostrando um bom sentido de timing e um entendimento do que é escrever um conto infantil.

Esta é uma história sobre uma menina fria como o Inverno, Adara, que cresce feliz na quinta do pai, vivendo entre a sua família. Os Verões são bons, mas é pelo Inverno que ela suspira, para fazer fortes de neve e brincar com os lagartos de gelo. E num Inverno, conhece o dragão de gelo, criando uma ligação forte mútua. Mas as suas terras são ameaçadas por uma guerra que se aproxima, e será um herói inesperado que intervém...

A narrativa tem uma estrutura tradicional de um conto infantil, e resulta muito bem por causa disso. Tem elementos fantásticos (dragões!), num mundo em que estão muito presentes, há um conflito principal, há drama, mortes e guerra, mas também coragem e vitória com custos elevados; e tudo termina num tom satisfatório. Gostei muito da Adara, do seu percurso e da sua relação com o dragão de gelo.

As ilustrações são a preto e branco (até podiam ser a cores!), mas muito detalhadas, bem ao estilo de Luis Royo, e bastante evocativas. Gostei mesmo de ler e acompanhar, e o design está muito agradável.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Curtas: The World of Divergent, Catching Fire Movie Companion, A Ironia e Sabedoria de Tyrion Lannister

Um curto comentário a este e-book, que tem o mesmo conteúdo que o livrito que era incluído nas box sets que juntavam os hardcovers da série - e que eu passava o tempo todo a queixar-me que era injusto, porque me tinha dado ao trabalho de comprar os livros quando saíam, e esta era a paga que tinha por ser uma fã interessada...

Adiante, pelo menos pude ler o conteúdo desse livrito, com alguns extras. O e-book contém alguns textos escritos pela autora sobre a série, a escrita de um mundo distópico, a criação das facções, a importância dos nomes... o material é interessante, dando a perspectiva da autora sobre alguns pontos da trilogia.

O e-book inclui também os manifestos das facções, e isso é um dos pontos mais altos para mim. Gostei de analisar os manifestos, e perceber as intenções originais das facções, e ver como elas tinham degenerado. Um bom elemento de worldbuilding. Fora isso, o e-book contém algumas citações que eram supostas ser teasers para o Allegiant, mas esse tipo de coisa eu preferi ignorar, e esperar para ler o livro em questão.

Quem é o responsável pela brilhante ideia de chamar ao filme The Hunger Games: Catching Fire? A sério, todo o marketing à volta do filme já não dá uma boa ideia que este é uma sequela dos Jogos da Fome? É preciso pô-lo no título? E, em resultado, dar-me um pesadelo de cada ver que tenho de escrever o nome deste livro, porque é anormalmente longo?

Já tenho mencionado várias vezes, nos comentários a outros companions do género, que gosto imenso de folhear livros deste género. Primeiro porque são profundamente ilustrados, com imensas fotos do filme em questão, o que permite analisar certos aspectos gráficos do mesmo ao pormenor. E depois porque dão uma ideia do processo cinematográfico, e do que é preciso ter em conta ao fazer um filme deste género. É fascinante ler acerca das preocupações dos criadores de um filme sobre os vários aspectos que vão contribuir para uma melhor experiência visual.

Especificamente neste volume, destacaria os capítulos sobre a criação da arena, e das cenas no Capitólio. São dois dos elementos mais ricos no filme e gostei de ler sobre alguns dos pormenores envolvidos na produção dos mesmos. Adoro que o livro traga imensas fotos, algumas até a ocupar duas páginas, e destaco ainda a inclusão de desenhos conceptuais pré-produção, que são ricos em detalhe e muito semelhantes ao resultado final, o que mostra que os criadores do filme tinham uma visão concreta para o mesmo.

A minha única crítica ao livro é a data de lançamento. Parece-me ridículo que tenha saído no dia em que o filme saiu para as salas de cinema. Com este tipo de coisa quer-se aguçar a curiosidade dos fãs, o que não pode acontecer se lançarem o livro no mesmo dia do filme.

É um livrinho giro para fãs e para coleccionar, com algumas frases seleccionadas de um dos personagens mais populares e destacados dos livros de George R.R. Martin. Tem algumas citações divertidas, e algumas refrescantemente honestas, e algumas tão verdadeiras.

Graficamente, o livro está bastante interessante, se bem que não me importaria se usassem mais vezes o fundo negro para as citações. O estilo do ilustrador deixou-me algo dividida: acho piada ao estilo de caricatura, mas por vezes achei os bonecos tão mal desenhados, com umas proporções meio estranhas.

Outra coisa a apontar seria que acho útil que as citações fossem enquadradas no livro a que correspondem, pois complementaria a citação usada.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Mini-opiniões: Afonso Cruz, e adaptações em BD de Martin e Tolkien

A Guerra dos Tronos vol. 1, George R.R. Martin, Daniel Abraham, Tommy Patterson

A primeira de quatro partes da adaptação do primeiro livro das Crónicas de Gelo e Fogo a banda desenhada. Segue muito bem a história original, bem demais até, porque me fez lembrar do quão irritante a Catelyn era com o Jon Snow. A parte chata é que vai levar quatro livros para adaptar um (de 800 e tal páginas, mas mesmo assim...), e pergunto-me se não seria possível abreviar certas coisas, mas não me queixo dos pormenores, até gosto de ver. A arte não é das melhores, porque a cara dos personagens não é muito variada, só os cabelos diferentes é que ajudam a distinguir, mas a cor é bem mais interessante, e gostei bastante de algumas das capas dos números que compõem o volume.

Os Livros que Devoraram o Meu Pai, Afonso Cruz

É uma pequena história muito gira sobre o poder dos livros sobre a imaginação. Gostei do modo como o autor criou este mundo e esta história, mas acho que se perdeu ali a meio. O título engana, porque a referência ao pai dá a sensação que o vamos encontrar mais entre as páginas do livro, ou que vai haver algum tipo de resolução em relação à sua situação, o que não é verdade. Mas fiquei curiosa por espreitar outras coisas do autor.

Cocó, Ranheta e Facada, Rick Kirkman, Jerry Scott

Já tenho falado aqui desta série de tirinhas de BD, já disse o quão gosto de acompanhar a Wanda e o Darryl nos dramas domésticos com os três filhos, Zoe, Hammie e Wren. Apenas gostava que eventualmente os miúdos crescessem para além desta fase em que parece que "congelaram".

O Hobbit, J.R.R. Tolkien, Chuck Dixon, Sean Deming, David Wenzel

Adaptação em BD do livro de Tolkien, precisava mesmo de reler este livro na altura em que o fiz (depois de ver o filme). Muito fiel à história e ao seu espírito, agrada-me a arte, especialmente a cor, que me lembra aguarelas. O desenho pode estar um pouco datado na modo como apresenta os anões, sendo até cliché (lembram-me demasiado os desenhos animados de David, o Gnomo... ups, raça errada). Mas pelo menos, por ter sido feito na altura em que foi feito, não está "contaminado" pelas imagens dos actores que representam os personagens.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

George R.R. Martin no Villaret, em Lisboa

Ontem saí de casa cedo, e cheguei tarde! Pois é, o plano era assistir à sessão de autógrafos do George R.R. Martin no teatro Villaret, e como até passei o dia na zona foi um pulinho para lá chegar... a parte chata foi andar carregada dum lado para o outro, com o livro para a sessão, as coisas que recebi durante o dia, mais o livrinho que comprei para a sessão! Mas valeu a pena, foi um fim de tarde bem passado, e valeu a pena ver ao vivo um dos meus autores favoritos.

Cheguei ao Villaret lá para as 18h15, 18h20 - os lugares sentados já estavam quase todos ocupados, mas ainda consegui sentar-me... aproveitei para comprar o livro em pré-lançamento, O Cavaleiro de Westeros e outras histórias. Entretanto a sala foi enchendo, enchendo, ficando muita gente de pé, nos corredores e lá atrás. Esperámos um pouco, até cerca das 19h (ei, estamos em Portugal, nada começa a horas) e ao som da música da série lá o autor com uma gigantesca ovação, foi fantástico, o senhor mal entrou e a casa já quase ia abaixo!

A primeira parte da sessão foi composta por dois momentos. O primeiro momento consistiu no George a comentar os contos e novelas que compõem O Cavaleiro de Westeros e outras histórias. Foi bem giro ver a perspectiva dele sobre coisas que escreveu há tanto tempo, o que o levou a escrever os contos, coisas engraçadas sobre os mesmos, e destacou um ou outro que tenham ganho prémios.

O segundo momento consistiu numa sessão de perguntas ao autor, primeiro por Safaa Dib, da editora Saída de Emergência, depois pela audiência. Entre outras coisas, o autor comparou a escrita da saga a uma viagem Lisboa-Moscovo, em que já planeou os pontos de partida e chegada, mas não o caminho, e que nessa viagem estaremos mais ou menos na Alemanha. Mencionou como autores favoritos Jack Vance, Robert A. Henlein (o primeiro escritor de FC que leu), ou Roger Zelazny.

Falou da sua experiência na série de TV, das suas rotinas como escritor (os pontos de vista, o Tyrion ser um personagem favorito), e (deve ser a pergunta mais feita nestas sessões) de o que aconteceria se "uma fatalidade" acontecesse antes de acabar a saga - devo dizer que o autor tem um sentido de humor fantástico, particularmente no que toca a esta questão. Gostei de quando ele mencionou Tolkien e o fim de O Senhor dos Anéis, particularmente no que toca ao que aconteceu no Shire.

A segunda parte da sessão foi, claro os autógrafos. O autor, já batido nisto, sugeriu começar pelo pessoal que estava em pé - o que até não achei mal, tendo em conta que estiveram uma hora em pé durante a conversa. Só que, claro, com a minha sorte a minha fila foi das últimas. Houve algumas coisas que podiam ter sido evitadas (pessoal a saltar da filas sentadas para a fila em pé, pessoal a abusar das fotos "com pose"), mas enfim... Pelo menos consegui dizer mais que duas palavras ao George e não me engasguei! E ainda saí de lá com uma foto do senhor a assinar-me o livro.

Foi um dia em cheio, mas certamente valeu a pena! Fica um agradecimento à editora pela organização disto, e ao autor por ter incluído Portugal na sua viagem à Europa.

EDIT: Outros bloggers relataram a sua experiência... aqui ficam alguns links:

Chaise Longue
(Villaret) - Game of Thrones Portugal (Villaret e El Corte Inglés) - Este meu cantinho... (Villaret) - Illusionary Pleasure (Porto)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sonho Febril de George R.R. Martin

Sinopse: Rio Mississípi, 1857. Abner Marsh, respeitável mas falido capitão de barcos a vapor, é abordado por um misterioso aristocrata de nome Joshua York que lhe oferece a oportunidade única de construir o barco dos seus sonhos. York tem os seus próprios motivos para navegar o rio Mississípi, e Marsh é forçado a aceitar o secretismo do seu patrono, não importando o quão bizarros ou caprichosos pareçam os seus actos.

Mas à medida que navegam o rio, rumores circulam sobre o enigmático York: toma refeições apenas de madrugada, e na companhia de amigos raramente vistos à luz do dia. E na esteira do magnífico barco a vapor Fevre Dream é deixado um rasto de corpos... Ao aperceber-se de que embarcou numa missão cheia de perigos e trevas, Marsh é forçado a confrontar o homem que tornou o seu sonho realidade.

Opinião: Esta, mais que uma história de vampiros, é uma imagem vívida do rio Mississipi numa época muito concreta - a dos barcos a vapor, em meados do século XIX. Melancólica mas nada datada - não se nota que foi escrita há quase 30 anos, a não ser por não cair nos clichés vampíricos que por aí andam. Fico satisfeita por o Martin ser capaz de nos dar uma boa história além das Crónicas de Gelo e Fogo.
 
Os personagens em si são absolutamente deliciosos, muito à Martin. Por um lado temos Abner Marsh, um verdadeiro homem do rio, cuja única paixão na vida foram os barcos a vapor, mas também muito leal e perspicaz. Do outro Joshua York, o vampiro inteligente, culto, idealista e carismático, que oferece a Marsh o sonho de uma vida: a compra de uma parte da sua companhia de barcos e a construção de um barco a vapor grandioso.
 
A terceira ponte do triângulo de personagens principais é Damon Julian, o vampiro mais antigo, desinteressado, verdadeiramente "morto", apenas ligando a quando fará a próxima refeição. É também de louvar o escritor pelos vampiros que cria. Tanto a mitologia vampírica me parece original, como pude reflectir na condição vampírica e nos conceitos de bem e mal.
 
Um livro interessante, válido por si só e capaz de interessar quem ainda não tenha lido Martin, mas também uma bela sobremesa para quem espera que o escritor termine o próximo livro das Crónicas.
 
Título original: Fevre Dream (1982)
 
Páginas: 400
 
Editora: Saída de Emergência
 
Tradutora: Ana Mendes Lopes


segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O Mar de Ferro de George R.R. Martin

Sinopse: Quando Euron Greyjoy consegue ser escolhido como rei das Ilhas de Ferro não são só as ilhas que tremem. O Olho de Corvo tem o objectivo declarado de conquistar Westeros. E o seu povo parece acreditar nele. Mas será ele capaz?

Em Porto Real, Cersei enreda-se cada vez mais nas teias da corte. Desprovida do apoio da família, e rodeada por um conselho que ela própria considera incapaz, é ainda confrontada com a presença ameaçadora de uma nova corrente militante da Fé. Como se desenvencilhará de um tal enredo?

A guerra está prestes a terminar mas as terras fluviais continuam assoladas por bandos de salteadores. Apesar da morte do Jovem Lobo, Correrrio ainda resiste ao poderio dos Lannister, e Jaime parte para conquistar o baluarte dos Tully. O mesmo Jaime que jurara solenemente a Catelyn Stark não voltar a pegar em armas contra os Tully ou os Stark. Mas todos sabem que o Regicida é um homem sem honra. Ou não será bem assim?
 
Opinião: Começo a achar, ou melhor, a ter a certeza, que esta ideia que o autor teve de dividir os POVs/capítulos entre este livro [AFfC] e o seguinte [ADwD] de acordo com critérios geográficos foi muito triste. Há um aviso no fim deste livro em que o escritor defende esta solução, argumentando que esta maneira serviria melhor os leitores que separar os dois livros com um "continua" no fim do primeiro....Suponho que se o segundo tivesse sido publicado no ano a seguir ao primeiro, como o senhor tencionava, a ideia até fosse boa. Mas assim à distância de 5 anos desde a publicação em inglês deste livro não consigo concordar, pois o foco acaba por se restringir a poucos personagens, tendo um ou outro muitos capítulos com o seu POV. Se os capítulos dos dois livros tivessem sido ordenados cronologicamente com todos os personagens, a leitura seria mais agradável pela variedade e por se evitar a irritação de "bolas este outra vez..." ou de "então e o que se passa com aquele personagem??".

Do lado das ilhas de ferro só aparece um personagem, Victarion Greyjoy, que perdeu o trono para o irmão mais velho e se lança a mando deste numa série de conquistas e invasões no zona sudoeste de Westeros - o capítulo serve só praticamente para criar uma ameaça nesta zona e infuenciar o desenrolar o enredo numa certa direcção em Porto Real. De Dorne também só temos um capítulo, cujo POV é o da Princesa Arianne Martell. Os pontos altos deste capítulo são o aprisionamento da princesa na torre, com a sensação de sufoco e prisão muito bem transmitidas, e também a revelação dos planos do regente de Dorne, o pai de Arianne, em relação ao casamento da mesma e da insinuação de como isso poderia trazer vingança em seu nome e dos Targaryen.

Do lado dos Stark, tivemos um POV para a Arya e outro para a Sansa. No primeiro caso, o POV é baseado na identidade que Arya adopta ao trabalhar nas ruas de Bravos a vender marisco. Fica mais interessante para o fim, quando esta comete um assassínio, mas cuja execução atribui à personalidade errada (Arya). O seu fim fica em suspenso. De destaque os seus "sonhos de lobo", que sugerem que também poderá ser um warg como o irmão Bran. No segundo caso, o de Sansa, esta adoptou bastante bem a nova identidade, a de bastarda do Mindinho. Destaque neste capítulo para a revelação final do mesmo a Alayne em relação aos seus planos. Continuo a achar que este tipo tem muito na manga e planeia as coisas como um general. Promete muito.

Com o Sam há o esforço de chegar a Vilavelha a partir de Bravos, mas não consigo destacar nada a não ser que espero que este rapaz vença a sua cobardia e timidez naturais. Quanto à Brienne, ainda acho que anda numa caça aos gambozinos, mas ao menos ficou/ficámos a saber o paradeiro do Cão de Caça (que desilusão, achei que este personagem tinha mais para dar, gostava que pudesse atingir algum tipo de redenção ou paz) e a verdadeira identidade da jovem Stark que este "arrastava para Correrio" - da maneira como disseram à Brienne esta achou que fosse a Sansa, mas descobri que seria a Arya. Talvez este conhecimento a possa safar, ja que o seu destino ficou em suspenso.

E o foco deste volume acaba por ser massivamente nos gémeos Lannister, Jaime e Cersei. Os capítulos do primeiro são bastantes interessantes, dando-nos conta de alguma mudança de atitude da sua parte. Conhecemos também alguns personagens que me despertaram alguma curiosidade - Sor Ilyn Payne, que pelo facto de não poder falar, acho que um capítulo no seu POV seria muito engraçado; e também a Senhora Gemma Lannister Frey, uma tia do Jaime que não tem papas na língua e diz muita verdades quando os outros não as querem ouvir. Ela chega a dizer que acha que o verdadeiro filho de Tywin é Tyrion e não Jaime - o que é irónico, dado que Tywin desprezava o filho anão por achar que este matou a mãe ao nascer; no entanto só posso concordar com ela, pois se Tywin tivesse olhado para além do ódio e da fealdade, teria visto o filho capaz de o orgulhar mais, pois é o mais esperto, o melhor estratega e o mais capaz para governar um reino se for preciso.

O que me leva à Cersei. É a que perde por ser exposta mais ao longo do livro, porque podemos ver todos os seus defeitos, sem lhe conseguir achar alguma virtude. Eu pelo menos fiquei-lhe com um pó... É muito má estratega, reage a quente em tudo, toma decisões que não lembram ao Diabo, tem um complexo qualquer de paranóia, vendo inimigos em tudo, e acabando por perigar a relação com outros pares do reino, numa altura em que Westeros está à beira da desagregação. As suas decisões são tomadas a partir de uma profecia que lhe foi feita em jovem, mas é incapaz de ver que as decisões que toma a estão a levar para mais perto da realização da parte final da profecia. o seu fim, ficando em suspenso, é merecido, e só espero que signifique que vai morrer quando a voltarmos a ver, porque já não a suporto mesmo.

Esta é a principal razão pela qual não concordo com a ideia da divisão geográfica dos capítulos - neste livro tivemos demasiados capítulos centrados na Cersei, na Brienne e no Jaime, e embora tenham algumas pérolas, levam também a uma sensação de saturação. Outra coisa que reparei é a tentativa de "acertar o tempo" dumas personagens em relação às outras - nos capítulos da Arya e da Arianne Martell há artifícios de passagem do tempo. Por fim, não achei muita piada ao autor achar por bem deixar os destino de muitas personagens - Cersei, Arya, Brienne - em suspenso. Um bom escritor como o George R. R. Martin não precisa (ou não devia precisar) desses artifícios para cativar os leitores para o(s) livro(s) seguinte(s).

Em suma, não posso deixar de recomendar, até porque as coisas menos consguidas deste senhor são muito melhor conseguidas que muita coisa que por aí anda, e porque esta saga deixa o leitor completamente imerso na história, com tanta intriga e paixão e drama, mesmo sendo este livro um dos mais "fracos" da série.

POVs: Jaime - Cersei - O Pirata (Victarion Greyjoy) - Jaime - Brienne - Cersei - Jaime - Gata dos Canais (Arya Stark) - Samwell - Cersei - Brienne - Jaime - Cersei - A Princesa na Torre (Arianne Martell) - Alayne (Sansa Stark) - Brienne - Cersei - Jaime - Samwell
 
Título original: A Feast for Crows (2005) [2ª metade do original]

Páginas: 336

Editora: Saída de Emergência
 
Tradutor: Jorge Candeias

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O Festim dos Corvos de George R.R. Martin

Sinopse: Continuando a saga mais ambiciosa e imaginativa desde O Senhor dos Anéis, As Crónicas de Gelo e Fogo prosseguem após o violento triunfo dos traidores.

Enquanto os senhores do Norte lutam incessantemente uns contra os outros e os Homens de Ferro estão prestes a emergir como uma força implacável, a rainha regente Cersei tenta manter intacta a força dos leões em Porto Real.

Os jovens lobos, sedentos por vingança, estão dispersos pela terra, cada um envolvido no perigoso jogo dos tronos. Arya abandonou Westeros rumo a Bravos, Bran desapareceu na vastidão enigmática para além da Muralha, Sansa está nas mãos do ambicioso e maquiavélico Mindinho, Jon Snow foi proclamado comandante da Muralha mas tem que enfrentar a vontade férrea do rei Stannis e, no meio de toda a intriga, começam a surgir histórias do outro lado do mar sobre dragões vivos e fogo...

Opinião: Pensei que tinha perdido a minha queda para os calhamaços depois da desgraça que foi ler A Lenda do Cisne, mas felizmente o senhor Martin curou-me facilmente disso. Isto dito, cuidado com o texto que se segue, pois deverá estar pejado de spoilers para praticamente todos os livros da série.
 
Este livro corresponde à primeira parte do original, A Feast for Crows [AFfC]. É um livro com uma tarefa difícil, pois segue-se ao que é considerado o melhor da saga até agora (A Storm of Swords [ASoS], em português divididos em A Tormenta da Espadas e A Glória dos Traidores); por outro lado, é o livro que marca um certo desnortear da história por parte do autor. Pelo que percebi, originalmente o autor tencionava que o livro a seguir ao ASoS se passasse cronologicamente cinco anos mais tarde; depois abandonou esse plano pois teria de fazer muitos flahsbacks e coisas do género; então parece que aquilo que estava a preparar após o ASoS acabou por ser dividido em dois livros, este [AFfC], e o A Dance with Dragons [ADwD], em que o autor iria dividir mais ou menos os capítulos dos personagens entre um e outro geograficamente. Parece-me que também já terá deixado para trás este plano, pois passaram-se cinco anos desde a publicação do AFfC... Muitos fãs queixam-se da demora, e alvitram que o senhor terá perdido o fio à meada.
 
Apesar de me desgostar ter de esperar sabe-se lá mais quantos anos pelo próximo livro, consigo compreender se tal desnorte tiver acontecido. A série tem uma miríade de personagens, e conquanto no primeiro livro os capítulos eram quase todos no ponto de vista de membros da família Stark, entretanto isto tem vindo a mudar, tanto por o raio do homem ter matado uma data deles, como pela separação destes personagens, como pela entrada no verdadeiro "Jogo de Tronos", que acaba por ter mais jogadores que uma pessoa poderia prever no início da série. Isso implicará, suponho, que alguns personagens muito queridos não apareçam e outros aparentemente sem importância tenham um capítulo sob o seu ponto de vista [POV].
 
No primeiro caso, temos Tyrion Lannister, que está completamente desaparecido, tal como Varys, devido ao envolvimento de ambos na morte de Tywin Lannister. Quem me dera ser mosca para descobrir onde estas duas almas estão! Varys, descobrimos neste livro, devia empolar a sua importância, pois um ex-meistre, Qyburn, toma o seu lugar, e os "passarinhos" que sussurravam a Varys sussurram agora a Qyburn. Tyrion, cujos capítulos eram sempre muito interessantes de seguir, era para ir de barco até às Cidades Livres, mas com o prémio pela sua cabeça pergunto-me se terá ido para aí. Quem sabe se não terá fugido ainda mais para Oriente, e a esta altura do campeonato estou a vê-lo a cruzar-se com a Daenerys Targaryen (cujos POVs também não aparecem neste livro, e ainda bem, já que não a suporto) no próximo livro [ADwD].
 
No segundo caso, aparecem POVs de persongaens pouco importantes, o que poderia ser evitado nalguns casos usando personagens mais importantes - caso neste livro dos capítulos O Capitão dos Guardas ou O Cavaleiro Maculado. Alguns dos capítulos dos personagens nas ilhas de ferro (família Greyjoy) também me deixam algumas dúvidas sobre a sua importância, mas vou avaliá-la depois de ler O Mar de Ferro. No entanto, estes personagens das ilhas de ferro divertem-me e são algo interessantes, pois estão enrolados numa disputa pelo trono. O Aeron com aquela coisa toda do respeito e temor ao Deus Afogado parece-me um fanático religioso; quanto à Asha, gostava de a conhecer melhor, pois uma mulher que prova que pode fazer tudo o que um homem faz (lutar, conquistar e quem sabe reinar) merece mais um tempinho de antena.
 
Os capítulos da Brienne irritaram-me um bocado, porque ela anda numa demanda inútil (encontrar Sansa Stark), dum lado para o outro, sem fazer nada de especial (a não ser procurar inutilmente Sansa Stark), e os capítulos dela parece que estão a encher chouriços. Até gosto da personagem, também por ser uma mulher a tentar afirmar-se num mundo de homens, mas é tão boa pessoa que ainda se vai meter em sarilhos. A Sansa era das minhas personagens menos favoritas, pois era uma florzinha de estufa, mas este novo rumo promete. Aprender uns truques do jogo de tronos com o Mindinho pode ser o que esta rapariga precisa; ela encarna tão bem a personagem que lhe foi atribuída (filha bastarda do Mindinho) que o segundo capítulo dela já aparece com o nome dessa personagem (Alayne). O Mindinho é um personagem que salvo erro nunca teve um capítulo; se o autor quer pô-lo a ser um jogador importante devia dar-lhe um capítulo ou outro para nos esclarecer sobre os seus motivos e intenções.
 
Samwell "Sam" Tarly tem um par de capítulos que eu li sem tanto gosto como alguns outros; o ponto alto é quando ele está no navio em que partiram da Muralha e descobre a identidade verdadeira do bebé que Gilly traz; outro ponto alto é quando ele se cruza em Bravos com uma personagem que penso que será a Arya Stark (já agora, este rapaz passa a vida a cruzar-se com membros dos Stark sem poder dizer que os viu ou sem os [re]conhecer). Esta, por sua vez, tem sempre uns capítulos que são sempre uma delícia de ler. Em Bravos, é acolhida na Casa do Preto e Branco, onde será iniciada na Guilda dos Homens Sem Rosto; para isso, terá de descartar a sua personalidade, e todos os nomes que já terá assumido, e iniciar-se na arte de assumir uma personagem e personalidade inventadas - a que ela assume, a Cat, é a que se cruza com o Sam. Ao ler os capítulos da Arya, é fácil esquecer que esta rapariga tem 10 ou 11 anos, tanto devido às situações por que passa como devido ao seu ponto de vista único.
 
Jaime Lannister, depois de perder a mão direita, ficou diferente; creio que gosto mais de como está agora do que como era apresentado, sendo simplesmente o Regicida; no entanto os seus capítulos de ASoS eram melhores. Tem no entanto uma visão única e que vai evoluindo sobre os que o rodeiam, especialmente a sua irmã gémea, Cersei. Apesar de serem apaixonados incestuosamente desde miúdos, Jaime tem-se vindo a afastar emocionalmente da irmã. E creio que o compreendo. Cersei pode parecer uma mulher forte, a tentar afirmar-se num mundo de homens, mas passa por tola, é casmurra, e muitas vezes parece um daqueles cavalos com palas nos olhos - só vê o que tem imediatamente à frente. Acho que ela acredita mesmo que é uma magnífica jogadora no jogo de tronos, mas reage demasiado a quente, levada muitas vezes pela raiva, e confia demasiado na sua beleza, sem desenvolver outros aspectos que lhe poderão dar vantagem. Ora a beleza irá um dia desaparecer; que fará então?
 
Cersei podia também usar a sua beleza de uma forma mais inteligente do que usar homens pouco importantes para lhe fazer um favorzinho enquanto lhes promente sexo; uma verdadeira jogadora usaria outros jogadores mais importantes para lhe fazer as vontades. O que me leva à raiva - ela age muito por raiva ao irmão Tyrion, mas este jogava muito mais subtilmente o jogo de tronos e tinha uma combinação de carisma e lábia para levar a sua avante; achei que tinha estabelecido bases muito mais fortes no controlo de Porto Real enquanto foi Mão do que o controlo que Cersei tem. Está tão obececada em afastar aqueles que entende como inimigos (todos os que possam estar relacionados com os Tyrell; até Jaime ela começa a ver como inimigo) que se esquece duma máxima: mantém os teus amigos perto, mas os inimigos ainda mais perto. É no jogo de cedências com inimigos, seja de posições ou de refens importantes, que se ganha vantagens sobre o inimigo; alienando-o, creio eu, nada conseguirá. É neste momento a personagem que mais me irrita, mas cujos capítulos acabo por devorar.
 
Bem, fiz aqui quase um raio-x psicológico aos personagens, pois a verdade é que esta série continua muito apaixonante e cheia de intriga, com personagens que podemos adorar ou adorar odiar, com um enredo complexo e ao mesmo tempo cativante, e com promessa de muito mais. Espero que os próximos livros cumpram o prometido.
 
POVs: Prólogo (Pate, aprendiz de Meistre) - O Profeta (Aeron Greyjoy) - O Capitão dos Guardas (Aero Hotah, em Dorne) - Cersei - Brienne - Samwell - Arya - Cersei - Jaime - Brienne - Sansa - A Filha da Lula Gigante (Asha Greyjoy) - Cersei - O Cavaleiro Maculado (Arys Oakheart) - Brienne - Samwell - Jaime - Cersei - O Capitão de Ferro (Victarion Greyjoy) - O Afogado (Aeron Greyjoy) - Brienne - A Fazedora de Rainhas (Arianne Martell) - Arya - Alayne (Sansa Stark) - Cersei - Brienne - Samwell
 
Título original: A Feast for Crows (2005) [1ª metade do original]

Páginas: 448

Editora: Saída de Emergência
 
Tradutor: Jorge Candeias