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domingo, 26 de março de 2017

Uma imagem vale mil palavras: Beauty and the Beast (2017)

Estou a ter uma ligeira dificuldade para escrever coerentemente. Este era um dos filmes mais esperados do ano, e a cada notícia e trailer uma pessoa só ficava com mais e mais expectativas - o que normalmente me deixa algo apreensiva. Não gosto de expectativas altas. É difícil de ultrapassar a fasquia que põem.

As boas notícias são que este passa o teste com nota máxima. Não era difícil, bastava seguir a história, mas o melhor de tudo é que o filme tem pequenas adições que eu adoro e me divertem e encantam fabulosamente.

Primeira coisa a destacar (porque eu lhe peguei antes sequer de ir ver o filme): banda sonora. Soa-me perfeita, como uma BSO dum musical soaria, e digo isto no melhor dos sentidos. Quando estou a ouvir a parte instrumental, ouvem-se numa música específica trechos de outras músicas que transmitem uma ideia/sentimento, e adoro isso, as ligações entre partes da história através da música. E há trechos memoráveis, que eu mesmo dias depois de ter visto o filme ainda me lembro. (Ajuda que ouça frequentemente a BSO).

Gosto ainda das ligeiras mudanças que fizeram em termos de instrumentação. Puseram em destaque alguns trechos que soam, como direi, mais franceses. (É onde a história se passa.) As músicas já nossas conhecidas soam-me fantásticas, não perfeitas, mas cativantes. Têm uma ou outra mudança em termos de ritmo. Em geral, fico fascinada a ouvir uma e outra vez as músicas até saber de cor a letra. Já tinha uma ligação emocional com as músicas e esta versão só acentuou isso.

As músicas novas têm os seus momentos. Evermore é talvez um pouco lamechas a mais, mas é operática e transmite bem o estado de espírito do personagem. (O Monstro depois da Belle sair do castelo para ir ter com o pai.) Days in the Sun é bem gira, melhor que a Being Human Again, que era uma adição recente ao filme animado, e transmitindo a mesma ideia. Adoro a sua nostalgia. How Does a Moment Last Forever é fofinha.

O elenco acabou por ser uma surpresa. Acho que a única pessoa que foi bastante óbvia desde o início era a Emma Watson. Quer dizer, para a minha geração, é claro que a Hermione também é a Bella. Duh. Mas não estava a ver como é que o Luke Evans era o Gaston, e céus, é perfeito. Se há pessoa que merece um prémio por se divertir com o seu personagem, é o Luke. Porque o Gaston é tão pateta que um actor tem que se divertir a actuar as partes mais ridículas do seu personagem.

A Emma Thompson também é óptima ideia para a narração inicial da maldição (não consigo deixar de ouvir a sua voz e relembrar certas partes da narração) e para a maternal Mrs. Potts. Gosto do pessoal dos serviçais do castelo em geral (a Audra McDonald como cantora de ópera/Madame Garderobe!). E finalmente acho que posso olhar para o Dan Stevens e não me sentir traumatizada com uma certa cena de Downton Abbey. Só foram precisos 4 anos e porem-lhe uma animação de computador em cima. Nada de substancial.

A história: bem, seguem a história do filme animado. Mas fazem uma coisa que eu apreciei muito: preencheram a mesma. Há coisas no filme animado que damos como garantidas, e coisas que aceitamos ver desenvolvidas da maneira que são porque é um filme animado. São coisas que não resultariam num filme com gente de carne e osso, porque lhe faltaria desenvolvimento de personagens, coerência no enredo.

O que é resolvido com as pequenas adições. Gosto de vermos um pouco mais do passado tanto da Belle como do príncipe, porque condicionam as acções deles no presente e as pessoas que são. Adoro a expansão do carácter do Gaston; de certo modo ele é um vilão ainda mais assustador, porque é claro que está bem ciente das suas acções - não é apenas o tolo bruto e burro do filme animado. (E ainda assim o filme mete-se com ele a torto e a direito.) E adoro a música do Gaston - é bastante interessante que uma música sobre o tipo de masculinidade tóxica do Gaston ("eu sou grande e macho e bom a caçar") é também a coisa mais exuberante e estereotipicamente gay.

Gosto de ver um certo tom mais feminista; a Belle é uma mulher educada e que se tenta educar num meio pequeno, e isso é incrivelmente trágico, porque toda a aldeia a vê como estranha. Há uma certa solidão na sua posição, e ela está ciente disso. (Mas gosto da relação próxima que ela tem com o pai, são amorosos juntos, e gosto de como ela o adora e lhe está grata pela pessoa que é.)

Por outro lado, gosto de como o filme expande um pouco mais a relação da Belle e do Monstro, mostrando-nos porque é que estas pessoas encontraram uma ligação em comum. Em parte, é a coisa da solidão em comum - ambos estão separados da sociedade por razões diferentes.

A personalidade do Monstro é bem engraçada. De certo modo, ele é bastante inexperiente em certas coisas, e isso vê-se nalgumas reacções dele. E outra coisa engraçada é ver alguma da arrogância e pedantismo da sua vida anterior nalguns comentários que faz. Podemos até pensar nele como tendo o tipo de personalidade de um Mr. Darcy - horrível à primeira vista, mas depois começamos a escavar e sai dali qualquer coisa bastante interessante.

Gostei bastante de ver algumas cenas em modo live-action. A música do Gaston, já disse, é genial. A parte do Kill the Beast continua a ser bastante assustadora, não importa que eu já não tenha 3 ou 4 anos ou algo do género. O Be Our Guest continua a ser bastante divertido e colorido, e a introdução do Belle/Bonjour continua a ser fantástica visualmente. Não repetiram as piadas visuais, mas criaram algumas novas bem giras.

O castelo é lindo, gosto mesmo do seu visual; as escadarias que até dão tonturas porque não há corrimãos, a grandiosidade de tudo, o vislumbre da sua anterior glória e a confirmação da mesma quando o castelo volta ao seu estado inicial.

As coreografias de certas partes estão giríssimas - again, o Belle é fantástico -, e o ataque ao castelo também, sem contar com a música do Gaston - oh, e a cena inicial no castelo do príncipe! Por falar nisso, a maquilhagem do príncipe nessa cena é extraordinária.

E continuando nessa linha, gostei mesmo de ver as roupas. A opulência dos vestidos no castelo antes da maldição, as cores das roupas comuns das pessoas em Villeneuve. As roupas do Gaston. As roupas da Belle em geral... o vestido amarelo da Belle, que tinha sido criticado por ser demasiado amarelo - bem, aqui são capazes de lhe ter posto um filtro. É um amarelo mais discreto, mais interessante, e os pormenores dourados mereciam poder vê-lo mais de perto. (E os adereços dela na cena! Perfection.) No entanto, o mais interessante desse vestido é a construção dele, que permite que sobressaia na dança. (De qualquer modo, adorei foi o vestido final da Belle - branco com uns bordados/desenhos florais lindos.)

Acho que a única coisa que me faz espécie é algo que na verdade está de acordo com a época histórica - homens a usar peruca. Acho que nunca vou recuperar de ver o Dan Stevens ou o Ewan McGregor naquelas perucas ridículas.

Não tenho muitas críticas, mas uma é a transição entre 2D/3D. Há cenas que são feitas especificamente para 3D e parecem pouco focadas no 2D (sim, fui ver nos dois formatos). Exemplos são os ramos no quarto da Belle (o fundo está desfocadíssimo mas a imagem é desinteressante no 2D, os ramos não a preenchem), ou certas partes do número Be Our Guest.

Outra coisa... é a expressividade dos personagens que são animados por computador. Conseguiram uma expressividade bastante boa com o Monstro - consegue-se perfeitamente ver certos maneirismos do Dan Stevens -, e a animação dele é um equilíbrio entre ser, bem, um monstro, mas manter expressividade.

Com os objectos é mais complicado. Sinto que aqueles que têm como base um objecto real, como a Madame Garderobe e o Maestro Cadenza, me pareceram mais interessantes do que os que parecem totalmente animados, como o Lumiére. Não é que lhe falte expressividade, exactamente, mas parece menos real, de algum modo. O que é óbvio por ser animado por computador, mas pronto, acho que me agradaria mais feito doutra maneira.

E pronto, acho que me vou calar agora, chega de fangirling. Vou voltar para o meu canto a ouvir a banda sonora sem parar até isto sair em formato físico. Mais uma coisa para eu esperar impacientemente... não é que eu não esteja habituada.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Uma imagem vale mil palavras: Suicide Squad (2016)

Bem, isto foi certamente uma excelente oportunidade de aprendizagem.

E tenho positivamente montes de pensamentos acerca disto, mas está difícil escolher um e começar. Por onde é que começo? Bem, vamos pegar numa coisa simples, bonita e positiva:

A banda sonora é excelente. Não dou por mim a dizer muitas vezes isto acerca de filmes, porque ou não reparo (normalmente a parte sonora passa-me um pouco ao lado), ou o estilo musical não é a minha onda... mas neste caso, nada disso pesou.

Praticamente todas as músicas com letra usadas chamaram-me a atenção, destacaram-se de algum modo. (Estive tão perto de me abanar na cadeira quando o Without Me começou a passar. Eh.) Uma sensibilidade muito hip-hop, com algumas coisas mais "clássicas", mas funciona muito bem com o tom do filme. E sei lá, estou a ouvir agora as músicas duma ponta à outra e não há uma que eu deteste. Muito bem escolhidas. Apetece-me dar um abraço à pessoa responsável por elas e por ser o ponto alto do filme.

E pronto. Acho que diz alguma coisa quando a coisa a destacar dum filme é a banda sonora, não? Eu queria muito gostar disto. E há partes que gosto. O problema é que, yep, infelizmente toda a gente tinha razão. It's a bit of a mess. Gosto muito de ver estas coisas por mim própria, porque nem sempre concordo com a opinião geral... mas eu dei nas orelhas ao Batman v. Superman (BvS) por ser uma confusão pegada. Este também é uma confusão pegada, ainda que noutro calibre.

Aqui a diferença prende-se com o realizador, creio eu. Não consigo respeitar o Zack Snyder, apesar de ter gostado de filmes dele no passado, porque vi fazer as mesmas asneiras no Man of Steel e no BvS, e tenho a sensação que devia haver alguém por trás a controlar o storytelling dos filmes dele que não ele. Ou um devia ter um melhor editor. Qualquer coisa serve, desde que as suas histórias sejam melhor contadas.

Quanto ao David Ayer, eu vi o Fury. Eu gostei do Fury. Eu gostei do que ele fez com o filme e os personagens. O retrato de um grupo de pessoas completamente destruída pelas circunstâncias (guerra)? Muito bom. Acho que ele seria capaz de dar uma sensibilidade semelhante a este filme. Pegar num grupo de vilões, mostrar como as suas acções os separaram da sociedade dita "normal", mantendo o tom ligeiramente divertido e sarcástico? Suspeito que ele era capaz de o fazer. Matava por ver um director's cut em que ele tinha completo controlo criativo.

Porque suspeito que o problema aqui foi... demasiados cozinheiros a meter o bedelho, e com demasiada pressa para terminar o bolo. Li demasiadas notícias do meio a falar das restrições temporais para a produção do filme, e de como os executivos da DC andavam stressadinhos para que isto tivesse sucesso, para não achar que foi precisamente isso que deu cabo do filme.

Porque convenhamos, onde o filme falha, é precisamente na montagem da história. As transições entre cenas são más, saltam de forma abrupta... parece que ninguém se decidia quanto ao tom do filme, porque as "piadas" acabam por estar mal montadas e cair de pára-quedas nas cenas onde estão inseridas... a caracterização de personagens não é muito boa na maioria dos casos, porque a introdução deles é feita muito à pressa e saltamos logo para a acção...

É-me difícil não relacionar isto com os rumores de que a cadeira do editor foi ocupada por uma série de gente, e com a preocupação dos "executivos" em aumentar o tom divertido do filme porque as pessoas não tinham gostado do tom "escuro" do BvS. Gente, aprendam uma coisa. O problema não era o "tom escuro". Era mesmo a maneira como a história estava montada. E começo a achar que foram pegar numa coisa que estava perfeitamente boa (ou pelo menos melhor que o que vimos), e foram estragá-la. Credo. A incompetência de todo este processo deixa-me boquiaberta.

E o problema é mesmo esse, o pessoal da DC cinematográfica está demasiado desesperado para estabelecer um "universo cinemático" como o da Marvel para apreender e entender as lições que o percurso da Marvel oferece. E se fossem espertos, aprendiam com o que os outros foram descobrindo por tentativa e erro, e faziam melhor.

Lição número um: escolham realizadores adequados para o trabalho. Conheçam o seu perfil. O Thor teve o Kenneth Branagh, o Capitão America o Joe Johnston, os Guardiões da Galáxia o James Gunn, os Vingadores o Joss Whedon. Cada tipo de herói tem o seu perfil mais e menos destacado, cada filme pede um tom diferente. Obviamente que cada uma destas pessoas teria feito um trabalho muito diferente nos filmes uns dos outros.

Lição número dois: saibam o que querem da história. Planeiem a longo prazo. Andamos há tanto tempo a ouvir falar das várias "fases" do MCU, e até acredito que não esteja tudo planeado ao milímetro. Mas os executivos da Marvel sabem para onde vão, por mais vago que isso seja, e dirigem-se para lá, e constroem as sucessivas histórias para lá chegar. É como escrever um livro. Ou uma trilogia. Ou uma longa série de livros.

Lição número três: uma vez escolhido o realizador, dêem-lhe espaço e tempo para trabalhar. E POR AMOR DA SANTA NÃO METAM O BEDELHO. Credo. Parece que cada vez que um filme foi mais fraquinho ultimamente, acabo sempre a ouvir falar de executivos do estúdio a interferir demasiado com a história. E ninguém aprende esta, raios. Se acham que vocês fariam um melhor filme, porque diabos é que são dão ao trabalho de contratar um realizador, hã? Até poupavam dinheiro.

Ok, vamos sair da tangente "porque é que a Marvel está a fazer um melhor trabalho, IMO". Vamos tentar destacar coisas que eu gostei no filme.

Se eu franzir os olhos e fizer um ligeiro esforço de imaginação, eu até gosto do tom do filme e do que estava a tentar passar. Acho que se as circunstâncias fossem ideais teríamos aqui um novo Guardiães da Galáxia. Gosto da ideia dos vilões virarem heróis (era preciso desenvolver melhor as motivações deles para se envolverem), gosto da ideia de só eles serem capazes de o fazer.

Gosto da ideia de haver alguém implacável o suficiente para se lembrar de juntar uma equipa de vilões. Gosto do tom auto-depreciativo e sarcástico e da ideia de todos trabalharem mal uns com os outro até aprenderem a trabalhar bem uns com os outros.

O design tem francamente momentos muito bons no filme. Os símbolos estilizados que representam cada personagem (esta galeria is just lovely), as cenas de apresentação dos personagens (apesar de eu desejar um botão de pausa, porque não deu para ler aquilo tudo, nem de perto), a maior parte dos fatos de cada personagem (o unicórnio do Boomerang! o fato da Harley era divertido, e as tatuagens do Diablo bastante impressionantes), o design da Enchantress e do cúmplice dela, o design do Killer Croc.

Onde o design falha é no Joker. Oh, gente. O Joker tem uma aparência tão icónica e um estilo tão clássico. Era preciso mesmo "datar" o Joker desta versão fazendo-o parecer um gangsta? Ugh, aquelas correntes de ouro e as tatuagens. *facepalm* Onde é que aquilo grita Joker? Não grita. Podia viver com os dentes metálicos, que dão um ar assustador à boca dele sem ter de ir para o sempre presente sorriso desviado. Algumas das tatuagens podem ficar (o sorriso na mão sim; o "damaged" na testa não). O resto? Nop, nop, nop. O resto da roupa já faz um bom trabalho a apresentar e homenagear o Joker.

Em termos de elenco, não tenho queixas. Acho que tentaram fazer o melhor que podiam com o material que tinham. Muitos não têm espaço para respirar (o Slipknot é um desperdício de espaço, só aparece, sem ser apresentado, para lhe acontecer... aquilo). Alguns têm pequenos momentos engraçados ou giros que gostava de ver expandidos (o Killer Croc, o Boomerang, a Katana), e que provavelmente os actores mereciam mais cenas para evoluir o personagem.

Quem tem mais momentos para evoluir e apresentar o personagem, e bastante merecidamente (mas ainda assim partes da caracterização podiam estar melhores), são a Harley Quinn (gostei da personalidade dela, e gostava que a Margot tivesse mais tempo de antena com ela...), o Deadshot (o pessoal não leva o Will Smith a sério, mas o homem dedica-se de corpo e alma aos personagens dele, e não precisa de mandar coisas estranhas aos colegas para fazê-lo), o Diablo (história pessoal bastante interessante, e o que descobrimos dele no clímax da acção é superintrigante), e a Amanda Waller (vá, toda a gente em coro, a Viola Davis é a nossa rainha, seja o que for que ela faça).

Não tenho realmente comentários a fazer para a Enchantress e o Rick Flag, curiosamente. A história deles acaba por ser central à narrativa, mas não gostei de como foi apresentada nos flashbacks, não há peso emocional, e tendo em conta os seus contornos, eles (o pessoal que fez o filme) deviam ter feito a sua história mais detalhada, deviam ter-nos feito preocupar com o que lhes acontecia.

Tenho a certeza que tenho mais pensamentos acerca disto, mas agora não me ocorre mais nada (aposto que cinco minutos depois de clicar em "publicar" me vou arrepender de não ter falado de A, B, ou C), e isto já vai suficientemente longo, por isso vou ficar por aqui.

O que fica deste filme é isto: eu gosto, em teoria, do que podia ter sido, mas não consigo ignorar o que é, e tenho as minhas críticas ao que é. Diverti-me em partes, mas estive sempre ciente das suas falhas, o que não devia acontecer com um filme. E espero sinceramente que a DC aprenda com os erros e melhore, porque tem uma série de personagens fixes à espera do seu lugar no grande ecrã, e seria triste deitar tudo a perder. E por amor da santa, não me lixem a Mulher Maravilha. Nunca mais vão conseguir fazer nada se lixarem a WW.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Uma imagem vale mil palavras: Alice Through the Looking Glass (2016)

Andei uma data de tempo a navegar na tag desta rubrica (as memórias...) a tentar descobrir se alguma vez tinha opinado o primeiro filme destes dois. Era pouco provável, o filme estreou em 2010, que foi quando comecei o blog e esta rubrica só começou mais tarde, se bem me lembro. Mas nem sempre opino a seguir aos filmes saírem, e por isso não é linear.

Pois bem, o que acho piada a estes filmes é que apesar de partilharem os títulos dos livros, são mais a modos que sequelas deles. Acompanham uma Alice mais velha, praticamente adulta, a voltar a Wonderland - porque sim, as visitas descritas nos livros aconteceram, e os filmes assumem-nas como prequelas deles, usando os conceitos e o mundo descritos da sua própria maneira, mas reflectindo ligeiramente os livros cujos títulos usam.

Nesta história, a Alice passou, depois do filme anterior, alguns anos a explorar, como sonhava, e volta a Londres para encontrar a sua vida de pantanas. Culpando a passagem do tempo, Alice vai saltar oportunamente para Wonderland, onde descobre que o Chapeleiro está a desaparecer, devido ao peso de um problema familiar não resolvido; e Alice quer ajudar, mas não sabe o que fazer - depressa se colocando no encalço do Tempo, esse ser elusivo que a pode ajudar em mais do que uma maneira.

Provavelmente a maneira como a história é lançada é um pouquinho frágil, porque toda a coisa se baseia no Chapeleiro ver uma coisa que o faz pensar na família e na situação não resolvida que tem com eles, e meter na cabeça que podem estar vivos; e depois a Alice mete-se a tentar ajudar, e a resposta é-lhe dada de bandeja (pedir ajuda ao Tempo), e depois - mesmo tendo sido avisada pelo Tempo que não pode fazer aquilo e que vai correr mal e vai dar cabo do contínuo espaço-tempo - a Alice vai fazê-lo, o que me pareceu algo egoísta e pouco justificado porque não achei o problema do Chapeleiro credível. Hmmm.

Passando à frente disto, acabei por gostar de como as coisas se desenrolaram. Acho sempre piada a ver como histórias de viagens no tempo se desenvolvem, e a maneira como a Alice volta atrás, e vai parando em locais encadeados e percebe que tem de voltar mais atrás, mas ao mesmo tempo vê que a sua presença não muda o curso das coisas... gostei de ver.

Além disso, adorei o conceito do Tempo como personagem, ver o "espaço" que habita, como aquilo funciona... e morri a rir com o filme tentar usar todas as piadas e mais algumas que se podia lembrar com o tema Tempo. Muito bom. (Gosto da ligação da cena na mesa do chá com a cena correspondente no primeiro livro da Alice. Fiquei tão triste por perceber que eles ficaram ali, presos, até a Alice lhes aparecer.)

Desta vez acho que gostei mais do filme em si, da história, e até do design. Que segue a linha do anterior, mas os conceitos são mais de encontro aos meus gostos, e por isso... não me recordo de ter amado de paixão o filme anterior, mas agora que li os livros consigo apreciar melhor este e identificar-me mais com ele.

Visualmente, o filme é fantástico (não posso comentar o 3D, porque não fui ver), gosto imenso das cores, do trabalho na criação do espaço do personagem Tempo, da roupa da Alice (tão estranha, mas entranha-se), do local da Rainha Vermelha e dos seus habitantes...

Só uma última coisa, porque vejo acontecer demasiadas vezes e irrita-me solenemente, e vi aqui acontecer novamente, com os créditos e o marketing feito e tudo o mais... Hollywood, nós não somos burros. Se um actor famoso/conhecido/adorado está num filme, e estamos interessados em vê-lo, nós somos capazes de notá-lo sem nos esfregarem isso na cara a cada momento. Torna-se especialmente irritante e parvo quando o papel do actor é marginal ou nem sequer é protagonista.

Sim, Hollywood, estou a ficar enjoada da vossa paixão imorredoura pelo Johnny Depp. Pior, estão a começar a fazer-me odiar a cara dele, porque está espetada em todo o lado, e eu não preciso mesmo de o ver a cada momento que passo com os olhos abertos. Provavelmente conseguiam vender metade dos filmes com ele sem ter de nos lembrar que ele lá está a cada minuto; e já que estamos nisso, parem de lhe dar todos os papéis esquisitóides que vos aparecem. Tenho a certeza que ele não precisa de ficar preso a esse estereótipo. E eu vivia mais feliz se não tivesse de ranger os dentes por ver a mesma coisa pela milionésima vez. E pronto, vamos terminar por aqui, já me queixei do que tinha a queixar, e não quero ficar mais irritada.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Uma imagem vale mil palavras: X-Men - Apocalipse (2016)

... e foi assim que o Professor X perdeu o cabelo. Uma visão certamente desconcertante, o McAvoy todo careca, quando ele até costuma ter uma jeitosa cabeleira.

Ok, acho que o que tenho primeiro a dizer é que este filme não é tão bom como os dois anteriores, nem de caras. Tem os seus momentos, mas o First Class, e o Days of Future Past são perto de francamente brilhantes em reestabelecer o interesse da história dos X-Men, e em melhorar problemas que estavam para trás.

Uma palavrinha em especial para o Days of Future Past, que acho que nunca comentei aqui. Só por conseguirem gerir dois conjuntos de elencos tão grandes já merecem o céu. Ajuda muito que já toda a gente esteja pré-estabelecida, e não tenham de apresentar tantos personagens novos (já muitos dos X-Men presentes haviam aparecido antes), mas mesmo assim, é impressionante.

Depois, usam fantasticamente os poderes dos personagens em serviço da história, e as suas capacidades são lindamente exploradas. Na sequência inicial, as capacidades da Blink são fascinantes de ver, ainda mais quando os personagens e os Sentinelas andam a entrar e sair de pontos diferentes da cena. (As habilidades de adaptação das Sentinelas também são maravilhosas.) E a cena em que vemos do que realmente o Peter é capaz? Fantástica.

Por fim, o Days of Future Past consegue fazer ainda uma coisa mais extraordinária - criar uma timeline inteiramente nova e "apagar" os erros da trilogia original. Digamos que o First Class funciona como prequela para todos os filmes; o DFP estabelece que um ponto de viragem é quando o Magneto é implicado no assassinato de Kennedy.

Na minha opinião, o mundo em que isso não acontece é o mundo da trilogia original (mais os filmes do Wolverine, acho eu - mas nunca lhes liguei muito, por isso, não tenho a certeza, e não quero saber). Isso faz sentido - os mutantes só são expostos muito mais tarde, no início do século XXI, como nos primeiros filmes; e explicaria porque a Mística é tão devotada ao Magneto. Não tinham tido as suas divergências.

O mundo em que o Magneto é implicado no assassinato de Kennedy é o mundo de Days of Future Past. Os humanos estão cientes da presença dos mutantes; e outro ponto de viragem, o assassinato do Trask, cria o futuro distópico que vemos no filme, e que se quer evitar. Os eventos do fim do filme evitam-no, e originam um futuro que até me deu vontade de chorar só de ver: a nostalgia que foi rever toda aquela gente! Fiquei felicíssima da vida.

E pronto, para não estarmos completamente off-topic, é essa a fraqueza e força deste filme. Não pega nesses personagens, nesse vislumbre que temos, e isso mata-me completamente. É claro que não faz sentido voltarmos a isso, mas aquilo pareceu tanto uma benesse ganha pelos X-Men, que tenho pena de não poder acompanhar.

Por outro lado, o enraizamento desta história nos anos 80 permite introduzir novos personagens, alguns que já conhecemos, apenas os vemos mais cedo na sua, hmm, carreira de X-Men. Foi muito bom ver qualquer um dos "novos"  - a Jean Grey, o Ciclope, a Storm, a Jubilee, o Nocturno, a Psylocke, o Anjo, ... quaisquer destes fazem parte de equipas com que estou familiarizada na BD, por isso a presença de qualquer um deixou-me animada.

No entanto, o filme faz-lhes um desserviço: não aproveita inteiramente a presença desta gente. Não faz propriamente um bom trabalho a introduzi-los, ou melhor, não lhes dá espaço para respirar, se estabelecerem. Acho que está demasiado preso e focado nos personagens principais para criar arcos de história completamente satisfatórios para estes personagens novos e secundários. O que não acontecia com o First Class, por exemplo. E este pessoal tem tanto potencial. Ficam para um próximo filme? Eu preferia que não. Preferia que tivessem feito com eles o que fizeram com os personagens do First Class.

Comparativamente, o enredo e a construção da narrativa são mais fracos. Não sei explicar bem o que é, mas é como se o objectivo da história fosse menos claro. Oh, sabemos o que se está a passar, mas não sei se há uma evolução clara e lógica das coisas. O DFP parece ter um maestro por trás a controlar a evolução das coisas, tudo muito bem orquestrado, e este não me deu esta sensação.

Em contraponto, há uma série de elementos muito fixes na história. O facto de se passar nos anos 80, por exemplo. Há algo engraçado no modo como a Moira, personagem humana, envelheceu claramente (e a reacção do Charles a ela é totalmente hilariante), mas depois os mutantes... estão na mesma? Envelheceram ou evoluíram fisicamente muito pouco? É peculiar; talvez seja a maneira de reconhecerem a intemporalidade da banda desenhada? (Mas depois o Peter ainda está na mesma, a viver na cave da mãe, no que parece um síndrome de Peter Pan?)

Gosto de ver esta história adaptada para o cinema, é grandiosa e tem pontos bem fixes da mitologia dos X-Men; gosto da ideia de ver mutantes no antigo Egipto - e adoraria saber mais sobre os Cavaleiros dessa altura, porque achei mesmo interessante aquela devoção que se viu nos seus momentos finais.

Gosto da ideia dos mutantes terem um passado mais para trás do que se pensa. Acho interessante o status quo dos mutantes no mundo, o medo, a incerteza, e o quanto isso muda (ou não?) no fim do filme. É assustador ver como são explorados em certos locais. Mas é tão fixe ver a Escola para Mutantes a funcionar, é fantástico.

Acho interessante ver a evolução e pensar em como ela se deu para alguns dos personagens principais. O Charles Xavier está bem mais próximo do velhote que conhecemos, sabedor e calmo, em controlo, finalmente alguém que está num ponto em que pode ser um modelo e ensinar miúdos.

A Mística e o Magneto, bem, são os coitadinhos da trilogia. Só desgraças, senhores! Há uma certa aura negra que os envolve, e nem sempre é pelos acontecimentos externos. Em parte, é por não se saberem libertar dos sentimentos negativos que carregam. Acho que o Magneto é francamente pior neste aspecto, ele não sabe mesmo gerir os golpes que a vida lhe dá. A Mística dá muito mais a sensação de ter encontrado uma sensação de paz consigo mesma.

Ai, tenho de mencionar ali um momento, porque é a coisa mais deliciosamente meta e autoconsciente que já vi. A certa altura, alguns personagens vão ao cinema ver o terceiro filme do Star Wars, e estão a discutir a trilogia; e a Jean Grey diz algo do género "toda a gente sabe que o terceiro é o pior". Sou capaz de ter morrido a rir, muito. Não fui a única no cinema.

Ah! E tenho a dizer, no início do filme comentei para o lado que o Wolverine não devia aparecer, não me lembrava de darem destaque ao Hugh Jackman aparecer, e era só assim um nadinha estranho metê-lo a ele no mesmo espaço que uma Jean Grey demasiado jovem, tendo em conta o que é suposto acontecer para a frente. E pronto, eles cruzam-se brevemente, e a Jean tem uma, digamos, acção caridosa para com ele, e felizmente termina ali. Pode explicar porque é que mais tarde ele se pode interessar por ela, mas por agora estamos bem assim. Muito obrigada.

E pronto, agora não me lembro de mais nada que queira comentar. Tenho a certeza que há mais coisas, só não me lembro, a minha cabeça fechou o estaminé. Vou só terminar dizendo que a cena final, de acção, não é tão excitante como seria de esperar, exceptuando um momento com a Jean. Falta-lhe ali um bocadinho assim.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Uma imagem vale mil palavras: Captain America - Civil War (2016)

Não gosto de começar o comentário a um filme que gostei falando de outro que, bem, não gostei tanto, mas Zack Snyder, ponde os olhinhos nisto, seu palerma. Querias pôr super-heróis à batatada? É assim que se faz, homem.

Pontos-chave de porque é que este filme funcionou: para já, o conflito faz sentido. Faz sentido a nível lógico, a nível emocional. Toda a gente tem um interesse próprio no conflito, um arco de história próprio, assim por dizer.

Depois, o filme não fica demasiado enamorado das suas próprias cenas de acção para se esquecer que tem de desenvolver o enredo e os seus personagens. Sim, há acção, mas são os pontos altos e baixos, a nível emocional, que nos ficam. E por fim, não tem momentos parvos que querem criar uma pseudo-ligação emocional mas só fazem asneira. *cof*Martha*cof*

Agora a sério, estou mesmo contente por isto não ser como a Guerra Civil dos comics, porque essa aí, às vezes, é um bocadinho... demais. Neste filme, depois dos sucessivos conflitos destrutivos, mais um com contornos especiais no início da história, os Vingadores são abordados para se submeterem aos Acordos de Sokovia, promovidos pelas Nações Unidas para manter algum tipo de supervisão sobre estas pessoas super-poderosas.

E na verdade, o princípio por trás dos acordos faz sentido. As pessoas estão assustadas. Se por um lado a intervenção dos Vingadores faz sentido em situações reactivas, quando há uma ameaça pré-existente; por outro é mais complicado quando agem preventivamente, como no início do filme. Como justificar passar por cima de jurisdições próprias dos países, de fronteiras, de direito à auto-determinação? Quem controla isso? Who watches the Watchmen?

E por outro lado, já tivemos provas suficientes no Marvel Cinematic Universe para manter uma saudável desconfiança da autoridade externa. Organizações governamentais já se revelaram corruptas, pessoas em posições de poder já mostraram ter intenções menos altruístas.

Portanto, é muito natural que as pessoas se dividam pelos dois campos, mas não é um extremar de posições, é sobre convicções e sobre o percurso de cada um. (Já agora, ainda uma comparação com o outro filmezinho: a base do enredo é a mesma, envolvendo uma manipulação por parte do vilão. A diferença é que os motivos e os métodos deste vilão fazem de facto sentido, no sentido em que se percebe porque toda a gente foi manipulada, e no sentido das motivações dele.)

A certo ponto começo a ter pena do Tony, o homem não acerta uma. A hubris fê-lo colocar-se várias vezes em posição de criar uma coisa com potencial, mas vê-la falhar vez após vez, e é por isso que está tão preparado para a supervisão, de modo a que as suas acções tenham um controlo externo.

Já o Steve tem confiança na sua capacidade de autosupervisão, ou melhor, na capacidade dos Vingadores se gerirem e saberem os seus limites. Não confia que uma autoridade externa o saiba fazer, ou pior, poderá usá-los para fins mais duvidosos. É por isso que este é um filme do Capitão America, mas também um quase filme dos Vingadores. Seja onde for, o Capitão é o líder deles, e é o seu papel natural.

Tenho pena do pobre do Bucky. Desde os anos 40 que o homem não tem poder de decisão sobre o próprio destino, e durante o filme as coisas não melhoram. Faz-me pensar que eles podiam fazer uma mini-série, assim como a da Peggy, sobre a vida dele ao longo dos anos. Ou sobre o futuro dele.

O Pantera Negra tem uma apresentação espectacular. Muito discreto, digno, mas claramente um líder, um guerreiro, alguém com princípios. Não é preciso muito para brilhar. O Homem-Aranha, bem, é adorável. É o primeiro que é credivelmente um adolescente, e gosto desse ângulo. O entusiasmo juvenil de estar no meio daquela gente conhecida toda, de estar taco a taco com eles. (Ainda agora me estou a rir, duma parte em que o Aranha diz que é de Queens, e o Capitão responde que é de Brooklyn. E depois mais tarde, o Peter diz à tia que levou porrada dum Steve que era do Brooklyn...)

A única coisa parva no meio disto tudo é a maneira como o colocam na história. O Tony lembra-se do meio do nada ir buscá-lo, e mete um puto no meio dum conflito entre gente super-poderosa? Que mais valias é que ele trazia? Por que raios foi meter um miúdo no meio daquilo? Não ficou bem justificado. Fazia mais sentido se tivessem enlaçado com a coisa das bolsas mencionada no início do filme. (E em aparte, é um pouco estranho ver a Tia May tão nova, se bem que faz mais sentido do que ser uma velhinha...)

Ah, e ainda tenho de falar do Visão. Uma coisa (há mais, mas esta é a que me fica) muito interessante acerca dele e do Ultron, do último filme dos Vingadores, tem a ver com os actores que os interpretam. Através da maquilhagem, e efeitos visuais e assim, conseguimos mesmo ver a pessoa por baixo, os maneirismos particulares de cada um, os gestos e assim. O que é extremamente desconcertante, mas fascinante. Afinal, são inteligências artificiais a modelar-se nos humanos. Isto é especialmente importante, e imagino que cada vez mais o será, com o Visão.

E pronto, gostava muito de falar de toda a gente, mas isto ficava longo demais, e eu tenho que ir à minha vidinha. Basta dizer que gostei de todos. Acho que genuinamente posso dizer que não tenho nada a apontar ao filme (excepto a desculpa que arranjaram para meter o Homem-Aranha, que é mesmo forçada, mas ele é tão adorável que os desculpo), de tal forma me encheu as medidas. Pelo que percebi, estes realizadores vão fazer os dois próximos filmes dos Vingadores, e essa perspectiva deixa-me animada. Começo a achar que, se fizeram a Guerra Civil resultar, vão ser eles a fazer resultar a Infinity War.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Uma imagem vale mil palavras: The Huntsman - Winter's War (2016)

Bolas, ao ver isto dei-me conta que não me lembro de muito do filme anterior. O que não é de espantar, porque não foi particularmente memorável, mas acho que foi minimamente divertido, se bem me lembro, e deva jeito eu ter uma base melhor para isto. Ou talvez a falta de memória seja uma benção neste caso.

De qualquer modo, parece-me que ambos os filmes têm algo em comum. Não são obras primas; dum certo prisma, não são exactamente sequer aquilo a que se chama bons filmes. Não que me importe; desde que me divirta, já fico contente por ver um filme de fantasia no grande ecrã.

Em certo ponto, este filme é capaz de ser melhor. Não se leva tão a sério, o que quer dizer que está mais confortável a fazer a sua coisa, e por isso sai-se melhor a fazê-lo. Quanto à questão prequela vs. sequela que tanto me intrigava antes de o ver (sobre qual seria a sua natureza), o filme faz batota.

É que é ambos. De certo modo, até é um retcon, uma reinterpretação e reorganização da continuidade do primeiro filme. A primeira parte apresenta a antagonista, Freya, irmã da já nossa conhecida Ravenna, descobrimos o que a torna na antagonista, conhecemos o conflito principal do filme, conhecemos os protagonistas.

E depois, saltamos sete anos no tempo, para chegar à parte da sequela. A Branca de Neve e o Caçador encaixa no meio deste. Eh. Não consigo decidir se é genial ou não. Consequências disto: bem, hão de haver algumas inconsistências. Mas o resultado final da duologia é pelo menos mais... er, forte? O conceito é um pouco estranho, mas acabei por gostar.

Inconscistência número um: tudo o que me lembro do personagem do Caçador no primeiro filme é que era deprimido e deprimente, provavelmente por causa do seu passado. Aqui? Bem, o Chris Hemsworth canaliza o Thor Feliz da Vida, o que acaba por ser bastante mais divertido. É uma mistura de convencido, e irritante, demasiado optimista, mas bem disposto e animado, o que pode-se dizer que é um melhoramento. O Chris-Thor-Feliz é bem melhor que o Zangado.

Também podemos dizer que é uma inconsistência não haver menção da Freya no primeiro filme, mas ela ainda não havia sido inventada, por isso vamos deixar isto nas mãos do retcon e ficar satisfeitos com isso.

Eu até gostei da Freya, e do que ela representava. O contraponto que era no início à Ravenna, a desilusão que encontrou, as acções que toma. Fascinou-me a criação do seu reino no Norte, e como todas aquelas crianças encontram o seu mundo destruído às mãos dela para serem raptadas para o seu exército. É uma base fantástica para a história, e que até merecia ser melhor explorada.

Outra coisa que gostei bastante: a história acaba por ser uma espécie de herdeira natural do conto da Rainha das Neves. Acho que já toda a gente me ouviu/viu/leu lamuriar o suficiente sobre como detesto mesmo que associem o Frozen ao conto, porque aquilo tem tanto a ver como o branco tem a ver com o preto...

Portanto, vou só dizer que é bom ver algo que tem mais a ver com uma história que tanto aprecio. Os paralelos não são literais, mas a rainha gelada em ambos está a tentar congelar e controlar os sentimentos de outros, e tenta manipular o coração e visão das pessoas para o obter. Só por usar o mesmo tema já tem o meu voto.

O sentido de humor é maioritariamente hilariante. Os anões dão uma necessária e providencial piada à coisa. Acho que toda a gente na minha sessão morria a rir cada que vez que os anões e as anãs se punham a discutir. O humor é às vezes um bocadinho palerma e cliché, mas como não esperava uma obra prima nem nada de novo, fiquei satisfeita.

Queria muito falar sobre a Sara, que é a tal personagem que tinha sido mencionada de passagem como a mulher do Caçador... bem, não tinha imaginado nada disto. Não quero elaborar muito, porque revelar o papel da Sara é parte da piada... mas, vá lá, façam uma série de filmes só para ela. A dar porrada a toda a gente. Nunca tinha pensado na Jessica Chastain como uma personagem de acção, mas funciona. E gosto de como a Sara tem noção do tempo que passou, do que aconteceu desde então, e de como ela tem direito a fazer as suas escolhas.

Gostava que tivessem explorado melhor a relação fraternal da Freya e da Ravenna. De certo modo, é o que guia o enredo, e por isso fortalecer esse aspecto fortaleceria a história. A rivalidade potencial daria sumo à coisa.

Coisas estranhas: mas porque é que insistimos no sotaque? Caramba, é altamente distractivo. Num mundo de fantasia não há sotaque escocês, ou lá o que era. Além disso, é giro rever boa parte do elenco principal do original (o Sam Clafflin estava adorável), mas precisávamos de ser mesquinhos e cortar inteiramente a Kristen Stewart por questões pessoais? Ugh. A única coisa que vemos da personagem dela é as costas. Parece parvo. Tecnicamente, é ela que interage inicialmente com o espelho, e lança a demanda do Caçador.

Coisas mesmo boas: o design, o visual. Caramba, os vestidos são novamente extraorinários, detalhados, lindos, um colírio para os olhos. Os efeitos do espelho, fantásticos, As "armas" da Ravenna, uau. Até ouro e alcatrão fazem parecer excitante. Gelo em todo o lado. Já falei dos vestidos bonitos?

Oh, well. Diverti-me e é o que interessa. Se começar a escavar é claro que começo a encontrar buracos. Mas agora não me apetece partir a cabeça a pensar nisso. Vou só deixar que realmente saí surpreendida da coisa. Não estava à espera de nada de especial, e por isso tudo o que vem à rede é ganho.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Uma imagem vale mil palavras: Batman v Superman - Dawn of Justice (2016)

Hmmm era preciso eu ir ver isto ao cinema para ter direito a ver três trailers que queria mesmo ver no grande ecrã? Porque isso nunca acontece. Pior, normalmente escolhem sempre trailers que não têm nada a ver com o filme em questão.

  • Suicide Squad: mostraram o trailer com a Bohemian Rhapsody como fundo, que gosto mesmo de ver, porque as batidas da música estão encaixadas tão perfeitamente com as imagens do trailer... fossem todos assim;
  • X-Men, qualquer coisa Apocalipse: tenho gostado muito de ver esta nova "vaga" dos filmes dos X-Men, portanto óbvio que estou animada para ver, especialmente porque alguns dos velhos personagens vão voltar, em versão mais jovem, e a miúda em mim que via os desenhos animados dos anos 90 está animadíssima só com a perspectiva de ver a Jubilee;
  • Capitão América e qualquer coisa sobre a Guerra Civil: ainda estou em dúvida sobre como é que a Guerra Civil vai resultar em filme, mas gostei muito do segundo filme do Capitão, e são os mesmos realizadores, e começo a perceber que às vezes os realizadores fazem toda a diferença (mais à frente sobre isso), e pelo menos parece que vai ser tudo tão dramático, e quase como um filme dos Vingadores, só que sem o nome deles no título... além disso, morri a rir quando percebi que no fim do trailer o Homem de Ferro chama por uma certa pessoa, chamando-lhe... "underoos". Ehehe.

Ok, eu devia estar a falar do filme. Bem, o que eu tenho a dizer principalmente é que tive uma epifânia, ou vá, a compreensão de uma verdade meio triste: o Zack Snyder é um storyteller tão, tão mau. (O que é uma péssima coisa para se ser, quando se é um realizador.)

E isto é vindo de alguém que até gostou, mais ou menos, assim-assim, de outras coisas que ele fez. Gostei do Watchmen, mas aí a história estava toda feita, ele não podia estragar nada, e as duas coisas que mudaram no filme caíram-me no goto (tiraram a coisa dos piratas, que eu achei aborrecida na banda desenhada, e achei o "culpado" da banda desenhada um bocado pateta, por isso no filme resulta melhor).

Gostei das ideias e do visual do Sucker Punch, mas depois para um filme de acção pareceu-me algo estagnado. Gostei das ideias do filme anterior do Super-Homem, mas em retrospectiva há algo na execução que não me soou bem.

E é isso, o Zack Snyder tem ideias fixes, mas monta-as tão mal, conta tão mal a sua história, que me parte o coração, porque todos estes filmes podiam ser brilhantes (este provavelmente incluído), mas caem... em saco roto, sei lá.

Problema número um: o filme é demasiado longo, e engonha. Já acontecia no Man of Steel. Também aqui o clímax final se arrasta e toma a forma de vários pequenos clímaxes, que em vez de serem interessantes, quando se empilham, são aborrecidos. Um enredo que não fosse tão convoluto, que fosse cortado e aparado e costurado aqui e ali, tornava o filme mais "corrido".

Problema número um e meio: o homem lembra-se de meter ali pormenores que não lembram a ninguém, e depois aquilo não ajuda a contar a história, só empata. Toda a coisa do Lex Luthor com a senadora e o Wallace qualquer coisa é desnecessariamente complicada. (A maneira como o Lex executa o seu plano maléfico é desnecessariamente complicada.)

Ah, e a coisa do futuro distópico com que o Bruce sonha, e em que a Lois morreu e o Super-Homem parece mau? Tecnicamente, é fixe, é uma referência dos comics, mas não ajuda a contar a história, e quem não conhece, não sabe o que se está ali a passar. Não serve para nada, a não ser como nerdice. Eu nunca li qualquer comic relacionado com o assunto, e só percebi porque mesmo não lendo todos os comics vou arquivando na minha memória certas referências que apanho. (Funcionava melhor como cena extra, para preparar um próximo filme. Assim como a aparição do Flash no meio daquilo.)

Problema número dois: por favor, mais inteligência a construir o enredo. Podemos ter perfeitamente um enredo complexo, mas que seja inteligente. Como me queixei ali em cima, toda a trama do Lex Luthor é tão enleada e tão confiante que vai correr bem, mas que podia correr mal devido a um milhão de factores relacionados com o livre arbítrio dos personagens envolvidos.

Não há um milhar de maneiras mais simples e igualmente inteligentes de virar o Batman contra o Super-Homem um contra o outro? Eles já estavam predispostos para não gostarem um do outro, mesmo. E o Batman é supostamente este tipo muito inteligente e detectivesco, portanto vê-lo ser manipulado desta maneira é... irritante.

Problema número três: caracterização psicológica. As decisões dos personagens têm de fazer sentido com o que eles são, o passado deles, os medos, motivos e vontades. Era preciso uma melhor caracterização do Lex para os motivos dele fazerem sentido. Um ódio a figuras endeusadas, de autoridade, porque o papá lhe batia? Fixe, é uma boa ideia. Vamos explorar isso.

Assim, tudo o que me soou foi que lhe tentaram dar um motivo, mas ao mesmo tempo fazer dele um Joker à lá The Dark Knight (god bless you, Heath Ledger, oito anos depois e continuas a assombrar o pessoal). Só que para isso, era preciso que o Lex fosse menos "psicopata choninhas e desvairado" e mais "psicopata caótico e frio, mas contido e controlado".

Ok, chega com a negatividade, já bati suficientemente no ceguinho, parece-me, e apontei os piores problemas, e até estou a ficar furibunda só de pensar nisso. E fico furibunda porque depois o raio do filme tem pormenores e ideias fixes, mas não os usa com todo o seu potencial, e detesto ver uma história decente desperdiçada, e... grrr.

Passemos a coisas boas, coisas que gostei. Os três actores principais. Fazem o melhor que podem, com a história que lhes é dada, e não lhes consigo apontar defeitos. O Henry Cavill é adorável e carismático, e encaixa bem no personagem; o Ben Affleck é credível no papel de Batman assim mais experiente *cof*velhote*cof*, e até tem uma cena ou outra engraçada.

O destaque é mesmo a Wonder Woman, que é bastante intrigante quanto aos seus motivos mal entra no ecrã, e quando finalmente a vemos no fato e entra aquela música fantástica a introduzi-la... ah, maravilhoso. Ela a lutar era cativante, parecia mesmo que se estava a divertir, o que faz sentido com alguém com um perfil mitológico e habituado a lutar com monstros.

Fiquei intrigada com a maneira como isto encaixa com a trilogia do Christopher Nolan. A mansão Wayne está destruída, o que encaixa nessa continuidade, a cena inicial é claramente uma menção à trilogia, o Batman começou a lutar contra os criminosos há 20 anos, mas ao mesmo tempo o filme dá a sensação que esta cruzada dele é um recomeçar, como se tivesse estado parado... o que até encaixa com o fim da trilogia também, mais ou menos, mas gostava de perceber melhor se é mesmo suposto encaixarem na mesma continuidade.

Gostei mesmo do Alfred, o papel do Jeremy Irons, uma combinação de sarcástico e depreciativo das atitudes do Bruce, ainda que continuando a apoiá-lo. Gostei do Perry White, com o seu feitiozinho. Gostei das aparições do resto da Liga da Justiça, que até souberam a pouco. (A aparição do Flash, vindo do futuro, até é gira, se ignorarmos o resto da cena onde ela encaixa.)

Não gostei do Lex (já falei dos meus problemas com ele), não gostei da Lois. Depois dum filme em que ela parecia ser a sua própria pessoa, aqui parece servir mais de... elemento decorativo?

Gostei da história tentar lidar com a questão da destruição que aconteceu no outro filme, que até é um motivador bom para o enredo (apenas não foi gerido bem), e tentar lidar com a posição que o Super-Homem pode tomar no mundo (que também não foi gerido bem, e desviado pelo confronto titular e a missão de... vingança? do Lex Luthor).

E... estou a tentar encontrar mais coisas giras para destacar, mas já é tarde, está-me a falhar a memória, e quando tento encontrar coisas boas, são meio boas, e trazem algo mau atrás, e eu começo é a lembrar-me das coisas que não gostei. Ugh. Porque é que eu me torturo?

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Uma imagem vale mil palavras: A 5ª Vaga (2016)

A sério, eu tenho que parar de ver adaptações cinematográficas de livros. Mesmo quando são perfeitamente adequadas, a minha cabeça não consegue parar de encontrar-lhes problemas, caramba. Era tão mais fácil poder simplesmente desligar.

Bem, esta adaptação. É bastante decente. Segue bem o ritmo narrativo do livro, com as devidas adaptações. Nunca conseguiríamos ter, por exemplo, a surpresa da identidade do Zombie, porque no livro isto baseia-se em não lhe conseguirmos ver a cara, coisa que não é possível na tela, obviamente.

De qualquer modo, acho que o filme lida bem com as diferenças de meio que há entre livro e filme. A escrita do Ricy Yancey até é um pouco cinematográfica, tal como a maneira como ele cria a história, e presta-se a ser adaptada, em parte.

A intercalação das narrativas dos vários narradores ainda funciona melhor em filme; e certas coisas consegue transmitir bastante bem, como a paranóia ao extremo que podemos detectar na Cassie logo na primeira cena, ou as sucessivas vagas que destroem o planeta e desfiguram o mundo como o conhecemos.

Há um par de "atalhos" que são tomados para facilitar o correr do enredo, que até fazem sentido. O primeiro, particularmente, que explica porque a Cassie não estava no campo de refugiados com os adultos e os militares - é menos convoluto, e uma solução elegante. No segundo caso, é o modo como a Cassie percebe a natureza do Evan. É um pouco rápido demais, mas resulta.

Coisas que gostei mesmo: o Sam, o mano da Cassie é adorável. E pensando bem, os actores que fazem o papel dos dois personagens masculinos principais também parecem demasiado adoráveis. É até estranho. Hollywood parece estar repleta de bonzões, mas não tanto de gente com ar fofo.

Gosto bastante do contraponto entre a normalidade da vida antes, e até durante a "invasão", que no início se pauta pelo desconhecido e pela inércia, e a estranheza pós-apocalíptica de um mundo devastado, que obriga as suas crianças a crescer abrupta e violentamente. Ah, e gosto do humor. Gosto que mantenham certas cenas com piada.

Não sou fã do que fizeram com a Ringer. Primeiro, ela é implicitamente asiática no livro, portanto cai mal o casting duma actriz caucasiana. Depois, aquela actuação de miúda furiosa roqueira é tão pateta. (Ou como a minha irmã disse, "onde é que ela anda a arranjar o eyeliner?") Ugh. A Ringer pode ter o seu feitiozinho, mas esta interpretação é esticar a corda, e é simplista. Para miúda furiosa, preferia a Jena Malone a fazer de Johanna nos Jogos da Fome.

A montagem, bem, podia ser melhor em partes. Há ali uma situação em que o grupo do Zombie está muito baixo na tabela, e que eles fazem um crescimento brutal num certo espaço de tempo, e isso não parece bem transmitido, o esforço, o quão complicadas as circunstâncias eram para eles. Parece desvalorizar a evolução dos personagens aqui.

Além disso, o grupo de Zombie é uma confusão de caras, nunca nos são apresentados em condições, nem deu para perceber quem era o Poundcake. (O Poundcake tem o seu momento no segundo livro. Não acredito que nem sei quem é o Poundcake. [Entretanto já fui ver ao IMDb. O actor nem sequer é gordo. Era essa a piada do Poundcake, pensarmos que o nome tinha a ver com ser gordo, só que não.])

E pronto, umas coisas boas, umas menos boas, mas é um filme decente, e acredito que vá entreter quem vai ao cinema. Principalmente aqueles que não leram o livro, mas possivelmente também os que leram. Considerando as diferenças de meio, está a melhor adaptação que poderia ser feita nestas condições, isso acredito.

Agora, e este é o meu problema principal com isso... e um que só descobri ao conversar com a minha irmã depois da visualização. Ela não achou "nada de especial", e eu dei por mim a tentar explicar quão especial era o livro e porque é que valia a pena ler...

É que o Rick Yancey é fabuloso a descrever uma dimensão emocional e psicológica dos seus personagens, e há camadas de coisas no livro que no filme não estão lá. O filme é mais superficial, enquanto que o livro é mais profundo.

Está bem que não podemos reproduzir a narração única da Cassie. Mas há substitutos para isso. Os Jogos da Fome também tinham uma narração muito específica com a Katniss, e o filme conseguiu adaptar isso.

É claro que nesse caso tinham a vantagem de ter a fantástica Jennifer Lawrence, que é tão expressiva e consegue transmitir aquilo que está a passar na cabeça da Katniss, e substitui bastante bem a narração do livro. Aqui temos a Chloe Grace Moretz, que não é de perto nem de longe tão talentosa.

E o próprio filme não ajuda, porque creio que havia maneiras de sublinhar a mensagem inerente ao enredo, de pôr lá as camadas de significado, de ser, enfim, um filme um pouco mais profundo em vez de ser só exactamente aquilo que temos à frente do nariz.

Again, os Jogos da Fome conseguem fazê-lo, sublinhar a crítica inerente ao entretenimento e como se ultrapassam certas linhas na sua produção. A diferença é que as pessoas que pegaram neles parecem realmente importar-se com o material de origem.

Neste caso? Tenho as minhas dúvidas. Anda tudo louco à procura da próxima série YA que vai ser uma adaptação cinematográfica em grande, e por isso põem-se a disparar em todas as direcções sem pensar bem no que estão a fazer, em vez de se focarem em fazer um bom trabalho, que isso seria meio caminho andado.

Estou tão cansada deste furor YA nos filmes, esta preguiça de fazer filmes originais, esta incapacidade de reconhecer aquele algo mais que há nos livros, e que por terem YA espetado na capa, são descartados logo à partida como incapazes de ser "livros sérios", e de por isso merecerem "adaptações sérias". Oh pá, pessoal, cresçam. Levo a sério as vossas adaptações quando começarem a levar a sério o material original.