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sábado, 24 de setembro de 2016

Curtas BD: Fatale + Tony Chu, volumes 3 e 4

Fatale vol. 3: A Oeste do Inferno, Ed Brubaker, Sean Phillips
Fatale vol. 4: As Lágrimas do Céu, Ed Brubaker, Sean Phillips
Bem, estes volumes encheram-me as medidas. Tinha-me queixado nos volumes anteriores que, apesar de gostar muito de seguir a história e adorar o tom sobrenatural e de mistério dela, me estava a fazer comichão tanto mistério e não saber mais sobre o que está por trás do conceito.

Estes volumes deram-me precisamente o que procurava. O primeiro, o volume três da série, é uma colecção de histórias curtas sobre o conceito de Fatale. Passa-se em vários momentos da História, duas delas são com a Jo ao longo do século XX, mas duas são mais antigas (Velho Oeste no século XIX e Europa medieval).

Essencialmente o que faz é mostrar o conceito sob outras formas para além da Jo, e acho que isso já sugere algumas respostas às perguntas que os volumes anteriores punham. É como se Fatale fosse sempre (quase sempre?) uma mulher (a mesma? várias? várias reencarnações da mesma?) ao longo dos tempos, que é o foco de loucura no meio duma tempestade sobrenatural. Não é algo que se controle. É como que uma maldição. A portadora tem uma vida prolongada, se sobreviver à violência que a rodeia. E a violência vem sempre, duma forma ou doutra. Ela é como uma sereia que atrai todos em volta para a destruição.

O volume 4 volta à narração típica dos volumes 1 e 2. Acompanhamos o Nicolas no tempo presente (e em quantos sarilhos o homem está, coitado), e a Jo num passado agora muito próximo do presente. Depois de um acontecimento traumático, ela aparece à porta de casa duma banda da cena grunge nos anos 90, sem memória.

E mesmo sem memória, a sua presença influencia a atitude dos membros da banda, inspirando a voltar a compor e a gravar um vídeo, até que... tudo vai para o inferno, correndo mesmo, mesmo mal. Gostei bastante deste segmento, porque agora que já tenho algumas respostas, consigo seguir a maneira como as coisas evoluem à volta da Jo de forma mais informada.

De qualquer modo, o tom foi muito certeiro para descrever a lenta descida à loucura da banda, como primeiro tudo corre bem e depois... não corre. Desta vez os antagonistas mantiveram-se ao largo, aparecendo muito pouco, e deu para ver como costuma ser a narrativa em torno da Jo assim que se vê rodeada de pessoas. Estou mesmo curiosa para ver como tudo termina.

Tony Chu vol. 3: Enfarda Brutos, John Layman, Rob Guillory
Tony Chu vol. 4: Sopa de Letras, John Layman, Rob Guillory
Se houvesse um prémio para "livro(s) mais improvável(is) de eu ler, e ainda assim, adoro", estes ficavam com ele. A sério, a premissa é tão estranha e tontinha, algo que parece saído de uma sessão de brainstorming às três da manhã, quando toda a gente já está demasiado cansada e pedrada de sono para dizer coisa com coisa...

... e contudo, caramba, resulta. Mesmo. Os autores exploram a coisa de ângulos inusitados mas muitíssimo interessantes. E eu farto-me de rir com estes livros. As coisas são escritas com um sentido de humor brutal, que me cai mesmo bem.

O primeiro volume dos dois, o volume 3, lida com uma cabala de ricos que se junta para degustar carnes raras, e aqui não estamos só a falar de frango, mas também... de mamute. Que é recuperado através de manipulação de ADN. Depois seguimos para uma aparição do frango Poyo, que cruza novamente o caminho do Tony, e para uma emboscada ao Mason Savoy que quase corre mal. E por fim, conhecemos a família alargada do Tony.

Esta última parte foi a minha favorita. Também gosto do resto, porque os autores conseguem contar casos do Tony e do John Colby, o parceiro, que são resolvidos normalmente num único número, mas que contribuem para a narrativa principal da série.

Mas acompanhar a família Chu? SEM PREÇO. Tão fofos e disfuncionais e escritos como um encontro de família: os pequenos dramas e implicações de uns com outros. Descobrimos duas interessantes adições à família: uma que não posso mencionar porque tem mais piada descobrir quando se lê, mas que me deixa curiosa para saber como aconteceu; outra é a irmã gémea do Tony, Antonelle. Que é tão animada e bem-disposta, tão o oposto do comportamento geralmente sóbrio do Tony.

O volume 4 lida com o acontecimento final do livro anterior, o aparecimento de umas letras misteriosas e desconhecidas no céu, e como isso está a levar o planeta à loucura. Alguns dos casos que o Tony e o John investigam relacionam-se com essa loucura e com a narrativa principal da história, muitas vezes de formas inusitadas mas fascinantes.

O Tony tem de colaborar com outras pessoas ao longo do volume delas, uma delas sendo a Toni, a irmã (que também tem os seus próprios superpoderes); outras são algumas agentes da USDA, que são tão engraçadas a rivalizar com estes "palermas de agentes da FDA"; e também conhecemos gente com mais algumas capacidades - um sofívoro, que descobre conhecimento útil aos agentes da FDA ao comer, e alguém que cruza brevemente o caminho do Tony (mas vai de certeza ter importância no futuro), e que lista os ingredientes ao comer algo.

O volume termina com um cliffhanger mauzinho, preocupante mesmo; estou curiosa para ver a reacção do Tony, porque ele não brinca em serviço quando se trata da família, apesar de tudo. E porque fica implícito que esta pessoa também tem... capacidades.

Ainda tenho de mencionar duas coisas que gostei de ver nestes dois volumes. Uma é o John Colby, o parceiro do Tony, que é hilariante. A sério, as coisas que lhe saem da boca... E também foi bem giro ver a reacção dele ao Mason Savoy. Apesar de tudo, é bastante leal. O John faz-me lembrar um cão, nesse aspecto. Muito leal e super bem disposto.

Outra é ver a Amelia e o Tony juntos. Adoráveis. Ele leva-lhe flores e ela lê-lhe as críticas que faz para o jornal de comida. (A Amelia faz a pessoa saborear a comida com meras palavras. O Tony não aprecia comer porque os seus poderes o fazem ver tudo sobre aquilo que come. As críticas da Amelia são o mais próximo que tem de uma experiência gastronómica.) E quando estão juntos estão sempre a fazer olhinhos, o que é tão giro. E acho piada que a Amelia é a única que tira o ar sério e sóbrio da cara do Tony.

Ah, façamos dali três coisas que tenho de mencionar. No quarto volume temos uma menção visual a Fringe. Dois agentes com o ar da Anna Torv (a Olivia na série) e do Joshua Jackson (o Peter) estão a interrogar alguém, juntamente com alguém que pode ou não ser o John Noble (o pai do Peter) - é o único que não se parece tanto com o actor. Ah, tenho tantas saudades de Fringe.

domingo, 26 de julho de 2015

Curtas: mais BD, parte II

Fatale - Volume Dois: O Negócio do Diabo, Ed Brubaker, Sean Phillips
Neste volume, a acção principal passa dos anos 50 para os anos 70, mudando o tom do policial noir com polícias corruptos para o horror insidioso com uma dose de loucura e drogas do meio Hollywoodesco. Josephine entrincheirou-se em casa, escondida do mundo, em parte para evitar aqueles que a perseguem, em parte para evitar levar tragédia a mais vidas, como o seu percurso tem feito até agora.

Pelo meio, temos algumas páginas a desenvolver o percurso de Nicolas Lash no presente, enquanto continua a investigar Josephine e a sua relação com Dominic Raines, um amigo do pai. Nicolas fica cada vez mais obcecado com a sua demanda, mesmo tendo-se cruzado apenas por momentos com Jo, o que mostra a capacidade dela de influenciar os outros.

Ok, este foi um livro bastante intrigante, os autores conseguem escrever e desenhar a história de modo a manter o meu interesse, graças a todo o mistério em torno da Josephine, e ao pendor sobrenatural e de horror da narrativa. No entanto, este é muito claramente um volume de ligação, um em que ainda se apresentam mais perguntas que respostas, o que me frustra um pouco, porque nem um véu sequer é levantado acerca da origem da Jo, apenas nos é mostrado mais do conflito que ela tem com os seus antagonistas.

Ora sem contextualização do conflito torna-se difícil compreender ou preocupar com o que está a acontecer, é só mais do mesmo em relação ao primeiro volume. Não que a história deste volume não tenha qualidade mesmo assim, mas gostava que o decorrer das coisas avançasse um pouco mais depressa.

A arte, creio que já o disse, é muitíssimo adequada a evocar um mistério e uma história tão sombria como esta, e cativa-me bastante. Menção ainda para o mini-cliffhanger envolvendo o Nicolas no fim - outro que traz mais perguntas que respostas, mas que é extremamente intrigante.

Oh, céus, este livro/história é tão estranho, com a premissa mais bizarra de sempre, e curiosamente, os autores conseguem fazê-la resultar. É fascinante. Melhor, conseguem expandir a premissa e construir sobre ela, desenvolvendo novos e velhos detalhes que encaixam com o que sabíamos anteriormente, e que complementam este mundo.

Portanto, sim, esta é uma das coisas que apreciei neste volume. Num mundo em que o frango foi banido devido a uma gripe das aves que matou milhões, aparece agora um fruto que cozinhado tem sabor a frango, mas é claro que com a natureza humana pelo meio, as coisas não correm brilhantemente.

Outras coisas a destacar no volume: o sentido de humor. O retorno do antigo parceiro do Tony, o John Colby, e a relação deles. O sentido de humor maluco inerente à premissa daquilo que é Tony Chu. A aparição do irmão dele. Mais categorias de pessoas com relações estranhas com a comida. O retorno de um personagem mencionado no primeiro volume. Toda a loucura na ilha.

Coisas que não são as minhas favoritas: o Mason está desaparecido, à parte de um breve comentário. A sensação de que este é um volume de ligação, de que ainda há muitas perguntas e poucas respostas, de que ainda não temos o panorama geral. E uma certa sensação de homofobia na maneira como o Applebee é caracterização. (Ugh.)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Curtas: BD parte I - Fatale, Tony Chu

Fatale - Volume Um: A Morte Persegue-me, Ed Brubaker, Sean Phillips
Esta leitura foi uma boa surpresa. Comprei o livro por curiosidade, pois estou interessada nesta iniciativa da G Floy Studio em lançar algumas séries de banda desenhada em Portugal, e acabei bastante satisfeita com o resultado final; os livros estão a um bom preço, a edição é boa, de capa dura, e as histórias agradaram-me.

Fatale apresenta uma história que pode já ter sido contada de um milhão de maneiras diferentes, mas que seguem o mesmo molde: uma mulher fatal em sarilhos, um homem perdidamente embeiçado por ela, um mistério que têm de desvender, um conjunto de perigos em que se colocam, polícias corruptos e vilões determinados. Mas talvez não tenha sido contada propriamente assim, com o toque de sobrenatural que apresenta, e é isso que deu sabor à narrativa.

A história alterna entre duas linhas temporais, dando claramente mais peso a uma delas. Começamos por acompanhar Nicolas Lash, que é responsável pela herança de um amigo do pai, Dominic Raines, e é através daquilo que lhe deixa e de uma mulher misteriosa relacionada com que ele que Nicolas é arrastado para algo que não compreende.

Rapidamente a narrativa dá lugar ao núcleo central da história, decorrendo em São Francisco, em 1956. Dominic "Hank" Raines é um jornalista a investigar uma história sobre policias corruptos, algo que o coloca no caminho de Josephine, uma mulher enigmática e magnética, e no caminho de uma série de acontecimentos sobrenaturais e perigosos homens cujos desígnios não conhece.

Acho que a história conseguiu manter o suspense e o nível de perigo, deixando-me impaciente para continuar a ler e ver o que aconteceria a seguir. Fiquei muito curiosa pelo que é sugerido acerca do passado e futuro da Josephine, e pelo aspecto sobrenatural, que está inevitavelmente relacionado com ela, mas que começa apenas por ser introduzido, e não completamente explicado.

Aliás, seria essa a minha única queixa, o eu querer saber mais e não poder, ainda, por ser apenas o primeiro volume, porque de resto conseguiu manter-me totalmente investida e com vontade de descobrir o mistério de Josephine, e que os protagonistas conseguissem escapar a um destino inevitável. A questão da mulher fatal que Jo representa é mais complexa que aparenta, e vou querer muito desvendar os seus segredos.

A arte é mais tradicional, mas perfeitamente adequada ao estilo de história, e desenho e cores combinam-se muito bem para criar a atmosfera ideal para a história, conseguindo cativar-me para a história. Gostei muito do trabalho tendencialmente monocromático, e o desenho fez-me transportar para a época.

Tony Chu - Volume Um: Ao Gosto do Freguês, John Layman, Rob Guillory
Esta é uma história... estranha. Digo-o maioritariamente no bom sentido, mas definitivamente estranha. Divertida, também, porque com tal premissa não vamos lá sem sentido de humor, e consegue usar a premissa a seu favor, por isso resulta melhor do que esperava. Tony Chu vive num mundo em que a gripe das aves matou milhões de pessoas, e isso nos EUA levou a que a FDA (a instituição que regula alimentos e medicamentos) proibisse a carne de frango, o que quer dizer que se gerou um mercado negro paralelo para a sua venda. (E também que há quem ache que isto é tudo uma conspiração.)

Tony é um polícia que tropeça num caso que envolve venda proibida de frango, o que o põe a trabalhar para a FDA devido à revelação da sua capacidade extraordinária: é um cibopata, alguém que recebe impressões psíquicas quando come algo. É muito incómodo saborear um bife de porco quando se consegue ver impressões da sua vida (ou morte); mas dá muito jeito quando basta mordiscar uma vítima para descobrir o seu assassino, ou vice-versa.

Portanto, sim, ideia completamente doidivanas. É um bocado nojento quando o Tony se tem de pôr a fazer a sua coisa, mas os autores não exploram a situação, apenas a usam como âncora para o resto da narrativa, por isso acabei por me divertir a ler a história, algo que não esperava, mas há algum sentido de humor no desenvolvimento da mesma, o que acabou por me agradar.

Por outro lado, gosto bastante do conceito de cibopata e de como foi explorado, porque o pobre do Tony não pode comer nada sem ser avassalado por uma série de imagens e impressões, sendo-lhe impossível saborear um prato; e cedo é introduzido outro tipo de pessoas com uma capacidade extraordinária: uma delas é Amelia Mintz, uma saboescriba, que faz ao seu leitor saborear a comida sobre a qual escreve. Incluindo o Tony, pelo que é capaz de ser a mulher da sua vida.

Portanto, o livro não se leva demasiado a sério, e brinca com os conceitos que apresenta, gerando uma série de situações bem engraçadas, como a Amelia derrotar uns malfeitores graças à sua capacidade, ou até a página inicial, o prólogo, que toma outra importância quando se torna claro como se vai intercruzar com o caminho do Tony.

O grupo de personagens secundários é bem giro, e fico com vontade de os vir a conhecer melhor. Há a Amelia, da qual já falei; o irmão do Tony, que era cozinheiro profissional, com programa de TV e tudo, até se lançar numa diatribe em directo contra o governo e a FDA (é um dos que acredita na conspiração contra a carne de frango); o Mason Savoy, outro cibopata, e que me deixa intrigada quanto aos seus motivos; o chefe do Tony, Applebee, totalmente antagonístico em relação a ele; ou o seu antigo parceiro, John Colby, com o qual tem uma relação engraçada.

A arte é mais cartoonesca, muito adequada ao tom da história, mas também é bastante detalhada, o que visualmente é muito cativante, e foi um trabalho que gostei de explorar.