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domingo, 11 de dezembro de 2016

Curtas BD: Sandman. volumes 5 a 8

Sandman v.5: Um Jogo de Ti, Neil Gaiman, Shaun McManus, Colleen Doran, Bryan Talbot, George Pratt, Stan Woch, Dick Giordano
Sandman v.6: Fábulas e Reflexões, Neil Gaiman, Bryan Talbot, Stan Woch, P. Craig Russell, Shaun McManus, John Watkiss, Jill Thompson, Duncan Eagleson, Kent Williams
Sandman v.7: Vidas Breves, Neil Gaiman, Jill Thompson, Vince Locke
Sandman v.8: A Estalagem no Fim do Mundo, Neil Gaiman, Michael Allred, Gary Amaro, Mark Buckingham, Dick Giordano, Tony Harris, Steve Leialoha, Vince Locke, Shea Anton Pensa, Alec Stevens, Bryan Talbot, John Watkiss, Michael Zulli

Ahhhh e as histórias recheadas de referências e cruzamentos entre pontos deste mundo riquíssimo continuam... a sério, é uma delícia encontrá-las. Ver personagens reaparecer, comentários de passagem explicados, momentos mencionados revisitados em flashbacks. Toda uma panóplia de coisas que faz parecer que estava tudo planeado desde o início. (Mesmo quando não estava.)

Os melhores autores fazem-no. Criam um mundo tão rico e vasto, e começam a criar ligações entre pontos afastados dele, e introduzem à-partes para ser explorados mais tarde. Faz tudo parecer uma tapeçaria gigante que o autor tece, partes diferentes em momentos diferentes. E o todo é fantasticamente coeso.

Além disso, as referências! De babar. O Neil Gaiman mete tanta coisa de mitos e lendas e dá-lhe a sua própria interpretação, e mais importante, estabelece uma ligação íntegra entre elas. Quem nunca tivesse ouvido falar delas acreditaria que isto pertencia tudo ao mundo do Sonho. E a cultura que é preciso para juntar isto tudo e fazer um todo coerente... impressionante.

O quinto volume, Um Jogo de Ti, segue uma personagem que tínhamos conhecido no segundo volume, a Barbie, já sem o seu Ken. (O Ken trocou-a pela... "Sindie". Eh.) Como nesse volume, este foca-se numa protagonista feminina e explora mais aspectos do mundo do Sonho e como ela se relaciona com eles.

E caramba, que história pesada. Fascinante, mas acontece tanta coisa... a relação da Barbara com o mundo do Sonho é bem diferente. Quando era criança habitava esse Mundo, e era princesa de um reino, a escolhida para o salvar. Barbara vai reencontrar-se com ele, mas as coisas não são bem como ela imagina, e um novo conceito do Sonho pode ser a maior ameaça de todas.

Achei fascinante a exploração desta história e dos conceitos que porta, mas também gostei muito das suas personagens. A Barbie, a Wanda (fico com pena de não a vermos mais), a Hazel e Foxglove, a Thessaly (que eu espero ainda vir a ver no futuro nestas histórias)... todas ocupam o seu lugar na narrativa, e curiosamente todas encarnam um aspecto diferente de feminilidade.

Fábulas e Reflexões, o sexto, é mais um volume de contos e histórias curtas que exploram várias facetas do mundo do Sonho. Medo de Cair sobre como um encontro com o Morpheus inspira alguém a sair da sua zona de conforto.

Três Setembros e um Janeiro dá dimensão a uma personagem pouco conhecida, o Imperador Norton dos EUA. Só mesmo o Neil Gaiman para dar um destaque tão giro e respeitoso a tal coisa. Adoro como incorpora a Desespero, e o Sonho, e Desejo, e até a Morte, obviamente, no seu percurso.

Termidor revisita a personagem da Johanna Constantine, que executa uma missão para o Morpheus na França do Reino do Terror de Robespierre. Again, quem é que se lembra destas coisas? Só o Gaiman para melhorar a nossa cultura geral. Gostei de ver a interacção da Johanna com Robespierre e com a França desses tempos, e achei interessante aquilo que lhe é pedido para fazer.

A Caçada: sob o formato de uma história dentro da história, conta com mais algumas aparições de habitantes do Sonho, e conta com uma pequena revelação no fim muito gira. Agosto: sobre o Imperador Augusto, os rumos que tomou (e que o Império Romano tomou), e como um dos Eternos influenciou o seu caminho. De novo, uma pequena parte da História é apresentada de forma tão fascinante que me dá vontade de ir pesquisar sobre ela.

Lugares Instáveis: Morpheus cruza-se com Marco Polo, enquanto este se vê perdido num deserto, no início das suas aventuras. A Canção de Orfeu: sobre o único filho de Morpheus, é o Orfeu da mitologia grega. A sua história decorre mais ou menos como conhecemos, mas com pequenas modificações, derivadas de pertencer à família dos Eternos. Muito interessante, pela relação complicada entre pai e filho. E por ser a base para o que se vai desenrolar no futuro.

O Parlamento das Gralhas: sobre o que acontece quando um bebé adormece (e acabei de perceber que o bebé deve ser o filho duma grávida que o Sonho salvou há uns volumes atrás) e vai parar ao Sonho. Conhece Eva, Caim e Abel, e eles contam-lhe histórias, que são um pouco sobre as suas próprias histórias. Acabo sempre a morrer de pena do Abel quando ele aparece, porque fazendo jus ao nome, acaba sempre perdido na violência às mãos do irmão. Eles parecem amar-se, mas depois o Caim vira psicopata e bem, acaba sempre mal. E recomeça. E pronto, este volume é um excelente exemplo de quanta coisa boa e interessante o Gaiman mete no seu mundo, e quão bem elas soam juntas.

O sétimo volume, Vidas Breves, explora finalmente o irmão desaparecido, Destruição. A Delírio, que o adora, quer encontrá-lo, mas Desespero e Desejo não estão com vontade de ajudar; vai pedir ao Morpheus, que não parece muito inclinado a ajudar, mas acaba por embarcar no esforço.

Coisa fascinante número um: eles estão a fazer caixinha comigo!!! Todas estas referências sobre o Sonho ter o coração partido por causa duma mulher, mas ela ainda não foi apresentada, não sabemos o que aconteceu. E número dois: a maneira como a relação da Delírio e do Sonho evolui. Adoráveis. Aliás, gosto bastante de como alguns dos irmãos se relacionam. Eles e a Morte reagem muito como irmãos uns com os outros. Bem fofo.

Número três: uma alusão à maneira como a Desespero assumiu o lugar. E número quatro: a maneira como esta família é absolutamente disfuncional e lida com os seus "deveres". É sempre uma delícia ver a sua história a decorrer ao longo destes volumes. O fim deste marca uma viragem irreversível na sua história, é bastante fácil de ver, e temo que nada mais será o mesmo, que a tragédia esteja ao virar da esquina (especialmente depois de ler o fim do oitavo volume).

O oitavo volume é A Estalagem no Fim do Mundo. Mais um livro de contos que sobe para o próximo nível, explorando a natureza das histórias, frequentemente introduzindo histórias dentro de histórias, ou histórias contadas em segunda mão, um artifício potencialmente difícil de usar, mas bastante claro no modo como aqui é apresentado. A Estalagem é um local, algures parte do Sonho, onde entram viajantes de todo o tipo, perdidos nas suas viagens; e a premissa do volume é que esses viajantes contam histórias para passar o tempo.

A primeira história é Ramadão, que não é bem parte deste volume, tradicionalmente é do sexto. (Imagino que passou para aqui para equilibrar o tamanho dos volumes.) É tão gira, tão colorida e bem desenhada (adoro o traço), e uma que pertence verdadeiramente ao mundo do Sonho, inspiradora e etérea. Segue Um Conto de Duas Cidades (outra com traço e cores visualmente fantásticos) sobre a natureza das cidades. Assombrosa e claustrofóbica.

Gostei mesmo de O Conto de Cluracan, por explorar um personagem que já conhecemos anteriormente, e porque o local que ele visita dá a sensação de ter uma história riquíssima, da qual só nos é apresentada uma fracção. Senti vontade de a explorar melhor. O Leviatã de Hob também me agradou, pela história pessoal do Jim, mas também pela aparição do Hob Gadling, que já conhecemos doutras andanças. E pela história-dentro-da-história apresentada, e pela reflexão sobre certas coisas extraordinárias.

O Rapaz Dourado: acho que apreciaria mais se conhecesse o personagem doutras andanças. Creio que faz parte do universo DC e foi aproveitado pelo Gaiman para este conto. Gostei de ver como o Sonho e a Morte são desenhados aqui. Mortalhas: cheio de histórias-dentro-de-histórias, apresenta outra cidade que gostava de ver melhor explorada. Parece fascinante. (E o Destruição aparece! E descobrimos com ele mais um pouco da história dos Eternos.)

Ah, este conceito da Estalagem é fascinante. (Já agora, a estalajadeira é alguém que suspeito que já conhecemos [Astarte/Ishtar].) Mas pesada mesmo? É a parte final deste livro. A natureza da tempestade que trouxe estas pessoas à Estalagem é clarificada um pouco, abordando a natureza da realidade... e os visitantes da estalagem vislumbram um velório no céu, e vemos tanta gente conhecida, e é impressionante de ver, e céus, this does not bode well. Até tenho medo de continuar a ler. A expectativa diz-me que coisas boas não vêm nesta direcção.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Curtas: BD

Fábulas: A Revolução dos Bichos, Bill Willingham, Mark Buckingham, Steve Leialoha
Fábulas: O Livro do Amor, Bill Willingham, Mark Buckingham, Steve Leialoha
Depois de um início morno desta série, vejo-me a explorar um pouco mais a história e o mundo, ao ler os dois volumes seguintes da colecção. O primeiro pega nos conceitos e temas de A Quinta dos Animais (e talvez de O Senhor das Moscas) para ancorar a história, o segundo junta um conjunto de várias histórias, algumas stand-alone, algumas distribuídas por vários números.

Diverti-me bastante a ler o primeiro livro, graças à ideia de termos os habitantes da Quinta, os seres dos contos de fadas que não conseguem passar por humanos, a revoltarem-se contra o status quo e a quererem mudar as coisas. Adorei ver o papel da Cachinhos Dourados, armada em revolucionária de pacotilha, incitando alguns dos animais dos contos a revoltarem-se. Achei muito interessante ver a divisão entre animais que apoiavam e não apoiavam a revolução.

Gostei de acompanhar a tensão presente, a sensação de perigo iminente derivada da situação que se complica para a Branca de Neve. Toda a questão da revolução levanta boas questões sobre como as coisas estão organizadas para os personagens dos contos de fadas, e toca um pouco na frustração que têm por terem fugido das suas terras natais.

No segundo volume, achei alguma piada às histórias stand-alone, uma com o João do Pé-de-Feijão, no século XIX, algo moralista, o que contrasta com o feitio trapaceiro do João; e a outra pegando nos Liliputianos e outros personagens de contos com tamanho diminuto, contando uma historinha bem fofa sobre uma das suas tradições.

Entre as outras duas histórias, a primeira envolve um jornalista que anda a rondar a Cidade das Fábulas e afirma ter provas daquilo que eles são (o palpite dele é... vampiros, heh). Alguns dos personagens tentam resolver a situação duma forma muito original e engenhosa. A segunda história mete o retorno da Cachinhos e a sua tentativa de vingança.

O melhor deste história foi o Barba Azul levar o que merece, porque não gosto mesmo nada dele. Também há a história dos valentes Liliputiano e o seu companheiro/montada. Ou o golpe do Príncipe Encantado, que se revelou completamente. E ainda a vingança da Cachinhos.

Pela negativa, não achei piadinha nenhuma ao desenvolvimento entre a Branca e o Lobo. Até estava a gostar do par e da sua evolução, mas depois o autor decide lançar uma bomba que não se coaduna nada com o tom até então apresentado. Se era suposto apimentar a relação, não resulta, é uma situação permanente que resulta de um momento de mau gosto e que poderia ser visto como uma violação por ambas as partes. Soa tão mal, e não sei como é possível ir daqui para a frente sem a relação ficar manchada por isto.

De qualquer modo continuo a sentir uma ligeira falta de intensidade, de ligação com o material, como senti no primeiro livro. Gosto de ler, acho piada às ligações e adaptações dos contos, mas não é algo que me apaixone, que me envolva e faça vibrar com a maneira como os contos são adaptados. Sinto que as coisas são apresentadas por vezes pela rama, e precisava que fossem mais exploradas e mais depressa. A ideia de escrever diferentes géneros de histórias e apresentar assim o mundo dos contos é boa, mas na execução deixa um pouco a desejar.

The Wicked + The Divine, Kieron Gillen, Jamie McKelvie, Matthew Wilson, Clayton Cowles
Tanta tinta tem corrido por aí por causa deste livro, e mesmo assim nada me dava uma ideia clara dele, ou o que esperar. Podia correr muito mal, ou correr muito bem. Felizmente é totalmente o segundo.

The Wicked + The Divine tem uma premissa fascinante. A cada noventa anos, os deuses renascem e reencarnam em corpos humanos, e vivem durante dois anos até terem de morrer, desaparecer e hibernar até à próxima aparição. Ideia só por si já bem boa, mas melhorada pela questão de que no tempo presente os deuses encarnam em super-estrelas, veneradas pelas massas, num processo semelhante e dissimilar à veneração de que eram alvo em tempos antigos.

O como não é muito explorado neste livro; mais as consequências da sua existência entre nós. Estas são pessoas que acabaram de descobrir que são poderosas, que são veneráveis, e isso tem um potencial explosivo enorme. Não há moral ou controlo, não pelos padrões humanos. Por outro lado, há uma doçura e uma inocência em certas facetas dos deuses, e isso é muito interessante de ver explorado.

Achei a Amaterasu tão curiosa, pois ao dar um concerto leva as pessoas a um transe transcendental, e tem um feitio tão doce. A Sakhmet é uma doida, no bom sentido, e gostei do que vi dela. Também encontrei um interesse particular na Morrigan/Badb/Annie, com as suas multiplas facetas e poderes. Ou na Ananke, integrante do grupo e ao mesmo tempo à parte deles. Mas a melhor mesmo é a Luci, com a sua bravata e atitude desafiadora. Contudo, o destaque deste Panteão foi a variedade de deuses de diferentes mitologias, e a diversidade de personagens que nos é apresentada.

A Laura como protagonista é perfeita. É-nos apresentada como uma fã dos deuses, e num concerto da Amaterasu consegue ser introduzida no backstage e conhecer alguns dos deuses. A sua posição de fã permite-nos uma introdução completa a este mundo sem aborrecer o leitor; e a sua perspectiva permite ainda assim acompanhar o mistério presente na narrativa e questionar o que não conhece ou compreende.

Além disso, a Laura é bastante decidida e pró-activa, fazendo avançar a narrativa, enquanto que o não ser um dos deuses permite-lhe algum distanciamento para avaliar as coisas (e fazer frente aos deuses quando estão a ser parvos). [Vi totalmente à distância aquele final para ela. Era tão óbvio. Mas estou curiosa para ver onde isto vai dar.]

Quanto à arte, só tenho a dizer que é tão bonita, linda mesmo. Tudo parece magnífico na página, as cores são maravilhosamente hipnotizantes, e o traço agrada-me muito. O planeamento das pranchas oscila entre o incomum e o ordinário, mas até as páginas com um aspecto mais normal dão a sensação de aquilo ter sido muito bem planeado, porque o ritmo de avanço das vinhetas me soou tão bem.