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domingo, 4 de agosto de 2013

Dearly, Beloved, Lia Habel


Opinião: Este é um livro um pouco diferente do anterior. Tem a ingrata missão de seguir as pegadas do primeiro livro, dando-lhe continuação e sendo ao mesmo tempo um tipo de história que segue um caminho distinto. E por isso, é uma história com um ritmo mais lento, com várias facetas, talvez até um pouco confusa. Mas também necessária - transmite mesmo a sensação de ser um livro de ligação entre o primeiro e o(s) próximo(s) livro(s) - que espero que hajam, porque gosto mesmo deste mundo e dos personagens.

Depois dos zombies terem saído do armário metafórico em Dearly, Departed, a sociedade de New Victoria está a lidar com as repercussões de ter os mortos-vivos entre si, e descobrir que depois da morte os seus entes queridos se mantêm lúcidos (bem, uma parte deles). Há caos, e confusão. O primeiro capítulo do Bram é muito interessante - e pensando bem, o que acontece no resto do livro - porque inverte os papéis duma história deste tipo, e os zombies são a presa, não o predador. Gostei bastante desta parte do livro, seguir os vários problemas que advêm do reconhecimento dos zombies pela sociedade - os mascarados, os Changed, o pânico pela possível existência de uma nova estirpe, mas também a tentativa da sua inclusão na sociedade, especialmente por quem tem um familiar morto-vivo.

O livro apresenta, tal como no anterior, uma série de POVs de vários personagens. Temos a Pamela que, depois dos acontecimentos do primeiro livro, está a lidar com um grandessíssimo caso de stress pós-traumático. Os capítulos dela dividiram-me. Por um lado tive saudades da Pamela badass, e por outro compreendo o porquê de ela estar no estado em que está. É difícil ter de ser forte por todos os que a rodeiam. Além disso, os capítulos dela trazem uma cena hilariante em que ela faz uma proposta bem interessante ao Lopez. E há aquela cena em que ela chuta metaforicamente o traseiro do Michael outra vez - e é uma cena linda de ver.

A Vespertine Mink merece uns POVs também. Nada muito substancial, mas acabei por gostar do percurso dela. E promete grandes coisas para futuros livros. Ou pelo menos o espero. A sua ligação com o Renfield deixa-me curiosa. Outro personagem com POVs é o Michael Allister, que anda a tramar das suas e a ser um idiota completo. (E por isso, ver o Bram, e depois a Pam, a dar-lhe uma lição e a pô-lo no seu lugar é demasiado bom.) Mas os seus capítulos sugerem algo mais. Um puto a tentar provar-se ao pai mais frio que um glaciar. Por falar nisso, o pai do Michael parece ter um papel desconhecido mas misterioso e importante no que está a acontecer com os zombies. Estou oficialmente intrigada.

Outro dos personagens secundários com direito a POVs é a Laura, uma zombie que pertence aos Changed, um grupo de mortos-vivos com ideais pacíficos, mas que são rapidamente pervertidos. Por um lado, estes capítulos suscitaram-me algum interesse, e foi neles que encontrei um desenvolvimento que me surpreendeu... mas por outro, é a parte da história que podia ser cortada. Não parece contribuir muito para o outro enredo e aquilo que de facto contribui podia ser revelado e apresentado doutras maneiras, sem precisarmos dos POVs da Laura.

Quanto à Nora e ao Bram, sou uma fã enorme deles, e continuam a ser perfeitamente adoráveis. A dinâmica entre eles, derivada do facto do Bram ser um zombie e ter um tempo limitado, é cativante. E a relação deles acerta em muitos pontos. Deixa-me triste pensar no inevitável fim. (A não ser que a Lia Habel tire um Deus ex machina minimamente credível sabe-se lá donde. Espero que não. Seria muito mais interessante ler isto a acontecer.)

Em suma... gostei do livro. Adoro o que a Lia Habel fez com este mundo, e como consegue conjugar várias coisas muito diferentes. A maneira como ela escreve é apelativa, e gosto muito de como ela desenvolve as coisas. Este segundo livro sofre um pouco das "dores do segundo livro", mas também me deixou com muita vontade de ler o que a autora tem em mente para os próximos livros.

Páginas: 496

Editora: Del Rey/Ballantine (Random House)

terça-feira, 19 de março de 2013

Dearly, Departed, Lia Habel


Opinião: Uau, eu adorei este livro e estou de tal modo impressionada com o que a Lia Habel fez aqui que até estou de boca aberta. É porque o livro tem uma série de coisas que podiam actuar contra si, mas a autora consegue fazê-las funcionar duma maneira extraordinária. (E ainda melhor, tem um sentido de humor que me agrada.)

Primeiro, os zombies. Nunca percebi porque é que as pessoas acham tanta piada dos zombies, nem nunca vi filmes com zombies. (O meu único contacto com os mesmos foi o livro Guerra Mundial Z - gostei -, e The Walking Dead, primeira temporada da série e primeiro livro - também gostei, mas ainda não tive vontade de continuar a ver). Contudo, gosto muito mais do que a Lia Habel faz aqui. Cria uma série de explicações fisiológicas e científicas para, quando voltam à vida, se tornarem nos monstros irracionais ou manterem a sua humanidade. E a explicação para o que causa a doença é fantástica, e muito bem pensada. Pontos bónus para a autora.

Depois, o cenário. Para além de zombies, temos um bocadinho de uma história distópica/pós-apocalíptica (mais pós-apocalíptica, na verdade), e steampunk com uma base Vitoriana, e incorporação de outras tecnologias que não a do vapor. Toda esta mistura podia soar estranha e irreal, mas a autora consegue, não sei bem como, criar uma mistura interessante que me fez querer que ela revelasse mais deste mundo. Os primeiros capítulos têm um maior peso no worldbuilding, mas não os achei aborrecidos, pelo contrário, li com prazer.

E por fim, o romance. Até me apetece chorar de alegria por não ter tido de aturar um insta-love, porque se há história que não funcionava com isso, era esta. A reacção da Nora ao conhecer o Bram e os outros zombies é compreensivelmente os berros e o "tirem-me daqui", e lentamente, ao conhecê-los melhor, percebe que estas pessoas mantêm aquilo que eram antes de morrer, e que vale a pena conhecê-las. Melhor, a Nora e o Bram aproximam-se depois de se conhecerem como pessoas (uma lição sobre beleza interior aqui, pessoal), respeitam-se (a Nora não faz birra porque o Bram tem de ir para a guerra dar porrada a zombies e pode morrer, o Bram não a patroniza nem a trata como inútil mas faz o que pode para a manter segura... e tendo em conta que eu já vi as atitudes contrárias por aí, isto é quase miraculoso), e têm consciência que a sua ligação não é ideal, tem muitos entraves, e não vai durar para sempre. É um par interessante, e apetece-me dar-lhes um abraço, bolas. E a Lia Habel consegue fazer-me esquecer durante grande parte da história que ei, estas pessoas estão a apodrecer, lentamente mas estão, e nem me lembrei do factor nojento.

Adorei, adorei as duas protagonistas femininas da história. Sim, a Nora é tecnicamente a protagonista, mas eu vou proclamar a Pamela, a melhor amiga da Nora, como protagonista também, porque ela merece. A Pamela é a âncora da Nora quando ela esteve em baixo, é uma miúda que se debate com o seu lugar no mundo, mas não deixa que lhe dêem ordens, é esperta e percebe logo que há algo de errado, mas não quer ser ovelha e esperar que "o governo" lhe diga para panicar, e melhor, pega num arco a meio da história para salvar a família e basicamente vai dar porrada aos zombies. E no fim ainda dá uma lição a um snobezito armado em bom.

Por outro lado, a Nora é uma rapariga que não encaixa no modelo de lady Vitoriana normal, fica fascinada a ver documentários de guerra e não tem paciência para as exigências da sociedade. O que se resolve com um quase-rapto por zombies maus que a leva a aterrar no campo dos zombies bons. A sua reacção ao vê-los é a expectável (medo e fecha-se num quarto), mas ao conversar com o Bram ganha coragem e atreve-se a sair para a base, exigindo andar por ali armada com uma pistola e uma caçadeira, e ainda consegue com que o Bram se ofereça para a ensinar a lutar com uma espada. Ela chega a oferecer-se para lutar com a Companhia Z (a dos zombies bons)! E adoro quando está fechada no quarto e põe toda a gente em sentido quando larga aos berros, a pedir pelo Bram.

Quanto ao Bram, é um cavalheiro, com mais profundidade que esperava, e um líder, gostei de o ver a lidar com os zombies que o seguiam. Desenvolve uma atracção pela Nora, mas resiste, porque lembra-se de tudo o que não pode oferece-lhe. Respeita, ajuda-a, e preocupa-se com ela. Achei muito divertido como ele não consegue fechar a boca e revela tudo à Nora a certa altura. E a sua atitude ao ceder-lhe armas para a fazer sentir segura, e ao ensinar-lhe como usar a espada e como lutar contra zombies. É uma atitude melhor que a do Wolfe, que queria tratar a Nora como uma boneca de porcelana e como uma inútil.

Falando no Wolfe - para além do Bram, da Nora e da Pamela, mais dois personagens têm direito a capítulos no seu POV (ponto de vista), o Wolfe e o Victor -, era um personagem um pouco óbvio, no seu comportamento, e achei os seus POVs os menos úteis da narrativa, porque não esclarecem tão bem as suas motivações. Do Victor não posso falar muito sem spoilar, mas os seus capítulos ajudam a compreender outro lado da narrativa, apesar de não serem estritamente necessários para a mesma. (E numa nota à parte, acho piada a ver opiniões no Goodreads a queixarem-se da mudança de POVs. Meus caros, ide ler George R.R. Martin e depois falamos, sim? Depois do Martin, mudança de POVs é coisa que não me incomoda nem faz confusão, até gostei, por poder ver a perspectiva dos três personagens principais, a Nora, o Bram, e a Pamela.) Entre os outros personagens, gostei do grupo de amigos do Bram, principalmente da Chas ("Details!"), e do Renfield. E estou intrigada com a Vespertine Mink e o seu papel nos próximos livros, e com o Dr. Sam.

A história em si avança lentamente no início, mas nunca a achei aborrecida, porque estava mesmo tão cativada com o worldbuiding e as explicações que as páginas voaram. A partir do meio, a narrativa ganha intensidade, com a descoberta dos zombies em New London, e adquirindo um aspecto survivalista. Achei muito interessante a evolução da perspectiva do público em geral em relação aos zombies - de ignorância a "ok, alguns deles mantêm-se sãos, vamos ter de os aceitar na sociedade?" (o horror! a tragédia! num mundo cheio de regras e costumes, a confusão que os não-mortos vão gerar...). Acho que isto tem um grande potencial para ser explorado nos próximos livros.

Os últimos capítulos são um pouco mais apressados, no sentido em que cobrem várias semanas (em vez de vários dias no resto da história), e a Lia conseguiu pregar-me um susto ali a certa altura, mas apreciei o que ela estava a tentar fazer, fechando a história o mais que podia. No entanto, descobre-se uma certa coisa mesmo antes da última página, que vai dar pano para mangas no próximo livro, portanto diria que a história fica também algo em aberto. Oh, quero muito ver o que vai acontecer a seguir.

Páginas: 480

Editora: Del Rey/Ballantine Books (Random House)