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quinta-feira, 15 de maio de 2014

Promised, Caragh M. O'Brien


Opinião: Este terceiro e último livro da colecção marca o retorno de Gaia Stone ao Enclave, desta vez com uma multidão atrás, os ex-habitantes de Sylum que quiseram abandonar o ambiente tóxico em que viviam. Mas contam com um grande desafio: serem aceites pelo Enclave e por Wharfton, enquanto negociam o direito de se estabelecer junto a ambos, incluindo a cedência de água potável para esse efeito.

Em termos de enredo e sua ridicularidade, este livro oscila entre o primeiro e o terceiro. Voltamos ao Enclave, o que garante que a Gaia fica mais tola que nunca e se deixa apanhar um milhão de vezes por eles, sempre tentando resolver as coisas a bem com estas pessoas claramente irracionais, e sem ser capaz de se impor. Líder, a moça não é. Não que o Patriarca se porte melhor. A sério que este homem que é o líder dos seus, um líder supostamente experiente, lida duma maneira tão amadora e tão não-diplomática com esta multidão de gente, que está em quantidade que não é de ignorar, e que quase de certeza lhe vai arranjar sarilhos, seja de que maneira for?

Eu cá optava pela opção que desse menos sarilhos, mas pelos vistos sou só eu. Para ele, é mais fácil antagonizá-los desde o início. Claramente, apanham-se mais moscas com vinagre que com mel, e eu não sabia de nada. E obviamente, ele pensou que as suas tácticas ridículas iam afastar magicamente esta hoste. *facepalm* A sério, desde quando é que acções pensadas a curto prazo (porque aquilo que ele faz tem um objectivo muito específico, relacionado com a Gaia) vão resolver problemas a médio e longo prazo (que é a existência de quase duas mil pessoas junto à muralha)? A sério que este homem achava que as coisas não iam parar ao ponto em que pararam? E não falo mais nisto, que quanto mais falo mais aborrecida fico. Detesto quando personagens ficcionais funcionam de maneira tão pouco racional.

Passemos a coisas mais agradáveis. Continuo a achar que a autora introduz de uma maneira muito interessante as questões reprodutivas, abordando neste volume o aspecto das barrigas de aluguer. Só tenho pena que seja feito de maneira tão redutora. Para quem desconsiderava tanto o laço entre mãe e filho no início do primeiro livro, a Gaia coloca-se agora na posição oposta. E nunca vemos verdadeiramente a posição dos pais que alugam a barriga. Para além disso, é abordada uma questão relacionada com o direito ao próprio corpo e a lidar com ele como se bem entende - mas não posso explicar mais sob pena de revelar uma parte do final do livro.

São abordadas algumas questões sociais e económicas que também têm o seu interesse. A questão genética, que essencialmente define como esta sociedade evoluirá, é muito mal solucionada pelos líderes do Enclave. Querem resultados agora, por causa do dinheiro que isso lhes trará - as famílias ricas pagam bem para contornar o problema da infertilidade e da hemofilia -, e não parecem interessados em soluções a longo prazo. (O que não faz sentido nenhum, mas já falei disso há bocado, não me vou repetir.) As desigualdades socio-económicas entre ricos e não-ricos, e entre Enclave e fora do Enclave, dirigem os direitos e deveres reprodutivos das pessoas, algo que se torna fascinante de observar.

Gosto bastante do elenco de personagens secundários, e só tenho pena de não podemos dedicar mais tempo a cada um. São muitos, e a autora perde texto com outras coisas quando podia dar um pouco mais de antena a alguns, tanto de Wharfton, como do Enclave, ou de New Sylum. Sinto que a história enriquecia mais com isso.

Da Gaia já disse que parece uma tolinha a lidar com o Enclave, ingénua, demasiado confiante, incapaz de se impor, não com os seus, mas com os seus adversários. Aprecio o seu carácter idealista, mas o problema é que muitas vezes deixa que outros tomem as decisões difíceis e as executem. Só mais no fim se responsabiliza e se torna activa. Torna-se difícil ter uma protagonista que tem o coração no lugar certo mas se farta de meter os pés pelas mãos.

Quanto ao Leon, difícil é ser mais leal, coitado do rapaz. Sente que ele é que tem de fazer as tais coisas difíceis que mencionei, para proteger a Gaia. Em certa medida é bastante carente, pois a sua situação familiar nunca lhe permitiu sentir-se parte dela, o que me deixa triste. A sua relação difícil com o pai adoptivo dirige em parte o seu comportamento durante o livro, e gostava que pelo menos fizesse as pazes com o seu passado.

Sobre a parte final do livro, é... complicada. Os personagens tomam decisões moral e eticamente duvidosas, e duvido que fossem a melhor ideia, mas acredito que achassem que era a melhor, e as razões pelas quais as tomaram estavam no lugar certo, mais ou menos. É claro que deu asneira, mas isso é outra conversa. Como é que se lida com alguém que não quer ser razoável ou diplomático? E devem outros sofrer por isso?

É emocional, no entanto. Acontecem certas e determinadas coisas, hmm, irreversíveis, e gostava que tivéssemos visto mais a reacção a uma dessas coisas. Passei os últimos capítulos a hiperventilar e a virar páginas como louca, porque precisava mesmo de ver com os meus próprios olhos que pelo menos alguma coisa ia correr bem. E, claro, depois chegamos ao fim, mesmo, e é tudo demasiado curto para o meu gosto - pelo menos, queria ter visto mais momentos do depois, saber mais sobre como as coisas iam ficar.

Em suma, tenho uma relação de amor-ódio (sendo que ódio é talvez uma palavra muito forte...) com esta trilogia. Eu farto-me de queixar das coisas menos boas, e das coisas que podiam fazer desta uma história muito melhor... mas isso é porque também gosto de partes da história e acho que mereciam ser melhores. Adoro a maneira a autora introduziu os temas da trilogia, e fartando-me de resmungar, continuo a ter devorado os livros e divirto-me genuinamente a lê-los.

Páginas: 304

Editora: Simon & Schuster UK

domingo, 27 de abril de 2014

Curtas: BD e contos

Tortured, Caragh M. O'Brien
Ruled, Caragh M. O'Brien
Dois contos passados no mundo da trilogia Birthmarked, Tortured e Ruled ocorrem respectivamente antes e depois de Prized/Apreciada, o segundo livro, acompanhando ambos o mesmo personagem, o Leon. (Tenho a sensação que a autora é uma fangirl do Leon, já agora.)

Tortured lida com as consequências que o Leon tem de enfrentar por ter ajudado a Gaia no fim do primeiro livro, Birthmarked. É uma situação complicada, porque ele é filho adoptivo do homem mais poderoso do Enclave, mas isso não o protege de ser torturado e tratado de forma mesquinha como vingança por tal "crime".

Fico triste, porque a sensação que tenho é que ele nunca teve uma vida familiar normal, sendo visto mais como um "apêndice", pelo menos da parte do pai. A madrasta, a Genevieve, mostrou-se mais preocupada e interessada, a ponto de enfrentar o marido, e por essa razão fico curiosa por ver o papel que ela terá no terceiro livro. Gostava de conhecer melhor a dinâmica familiar do Leon, porque creio que isso afecta o modo como ele vê o mundo.

Ruled mostra um pouco a situação em Sylum após os acontecimentos do Prized, o segundo livro, dando umas pistas acerca das mudanças no terceiro livro. Mas foca-se principalmente num parto que a Gaia vai fazer e no qual o Leon está presente, compreendendo melhor o que ela faz e partilhando esse momento com ela. Tenho pena do rapaz, ele ali a suspirar pela Gaia, e a moça sempre a dar-lhe para trás... a ver se eles finalmente se entendem no terceiro livro.

Cat versus Human, Yasmine Surovec
Sigo o blogue em que a autora publica os seus comics, Cat versus Human, e divirto-me imenso com as piadas que faz em torno de gatos, das suas idiossincrasias, e de ser um dono de gatos. Adoro as piadas da cat lady, daquilo que os gatos fazem à cama dela (especialmente quando ela lá está a dormir), o modo como o marido é arrastado para ser uma cat person e adorar os bichinhos que têm lá em casa, aquilo que os gatos lhe fazem à casa, ao computador, às cortinas, ao sofá...

Gosto muito do tipo de desenho que a autora usa, é simples mas eficaz a contar a história de cada gag, e as cores têm uma paleta reduzida, mas que a autora faz funcionar a seu favor. Gosto muito do grafismo, e acho que usaram o formato pouco usual do livro de forma a funcionar a seu favor.

Fábulas - Lendas no Exílio, Bill Willingham, Lan Medina, Steve Leialoha, Craig Hamilton
Esta é uma premissa fabulosa - personagens de histórias encantadas, contos de fadas e outros que tais, expulsos da sua terra natal, refugiam-se em Nova Iorque e formam uma comunidade que faz por se manter despercebida entre os humanos.

E considerando aquilo que apresenta acerca das lendas e personagens, fiquei fascinada com os pedacinhos de informação... o Príncipe Encantado é um vagabundo que se aproveita da bondade de todas as mulheres com quem se envolve? A Bela, quando zangada com o monstro, fá-lo reverter à forma original? Fantástico.

O problema é que a história não aproveita muito bem essa premissa... perde-se um pouco no enredo principal, que é o mistério do assassinato de um dos personagens de lendas. Só que o mistério é tão básico e tão simples que eu percebi logo o que tinha acontecido. Portanto, o enredo principal é um veículo para explorar este mundo... mas como o enredo principal é tão fraquinho, mata um pouco a grandiosidade que a história podia vir a ter.

Sobre a arte, não tenho grande coisa a dizer, não é particularmente memorável... à excepção do trabalho com as vinhetas, especialmente quando lhes põem molduras que evocam os contos de fadas. Acho as capas visualmente muito mais interessantes.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Apreciada, Caragh M. O'Brien


Opinião: Este livro foi uma boa surpresa. Gostei do primeiro livro da trilogia, mas também o achei... fraco. Faltava-lhe algo. A autora tinha que trabalhar melhor o enredo. Os personagens não cativavam e a história não transmitia uma mensagem clara. Apesar disso, a premissa era muito interessante e acabou por ser uma leitura que "embalava" e de viragem voraz das páginas. Portanto não sabia bem o que esperar do segundo volume, mas aquilo que recebi foi bem mais do que estava à espera.

Gostei muito mais deste livro. Suponho que algumas coisas menos boas que apontei no primeiro ainda estão lá, em parte... mas sinto que a autora as soube trabalhar melhor. O ritmo da narrativa não me pareceu tão estranho, e fiquei mais investida nos personagens e nas relações estabelecidas neste livro. A autora consegue apresentar uma sociedade totalmente diferente da do primeiro livro, e melhor, achei esta sociedade fascinante e com algo para dizer sobre as relações humanas.

Gostei mais do worldbuilding neste livro, creio que fez tudo mais sentido para mim. Os dois aspectos que condicionam Sylum são bastante... científicos, e nisso tenho de louvar a autora, porque ela parece ter feito alguma pesquisa para criar pelo menos situações cientificamente plausíveis. Tanto no aspecto número 1, que afecta a população masculina, e que encaixou mesmo bem com algo que estudei no meu curso... como no aspecto número 2, que além de explicar o porquê das pessoas se verem impossibilitadas de sair de Sylum, ainda explica (na minha opinião, já que a autora não tornou isso claro) o tipo de atitude que os habitantes de Sylum têm.

Também achei mais interessante o tipo de sociedade que a autora construiu. É uma sociedade matriarcal, e as mulheres mandam e têm o poder, sim... mas continuam tão prisioneiras do sistema como se fosse uma sociedade patriarcal. O poder que detêm é ilusório, se acabam por ter as suas opções tão limitadas - ou casam e viram uma máquina de parir, ou tornam-se "soltas" e vêem direitos básicos serem-lhes recusados, em troca dos direitos que clamam para si. Esta sociedade é um comentário sobre como a desigualdade entre os seus elementos não é a resposta, e é uma análise fantástica sobre relações entre homens e mulheres, com certas nuances que a autora introduz.

Apreciei ler sobre certas subtilezas da sociedade, como o equilíbrio de poder associado ao toque - uma coisa aparentemente tão simples tendo um significado tão grande. Gostava que a Gaia tivesse compreendido melhor e mais cedo como é que esta sociedade funcionava, as suas regras... mas no caso particular em que estou a pensar, creio que o Peter estava ciente de que a Gaia não compreendia as ramificações das acções de ambos. Gera uma discussão curiosa sobre consentimento e escolha.

Quanto à Gaia e aos seus pretendentes... é engraçado vê-la numa posição em que se vê alvo de tanta atenção. Mencionei o que achava do Peter (basicamente é um pateta que não tem bom senso nenhum); já o Will parece-me uma rapaz com a cabeça no lugar, que pelo menos respeita a Gaia... gostei mais do jeito discreto dele.

O Leon, esse, coitado, tem a cabeça feita num oito, vindo duma situação terrível, e ainda vem-se meter neste manicómio que é Sylum. Lida inicialmente um bocado mal com o que encontra, mas tenho de reconhecer, tinha razão em puxar as orelhas à Gaia. Ela precisava disso. Aliás, ele lida com a Gaia duma maneira... nada aborrecida. Compreende-a e aceita-a melhor do que ela pensa, apesar de ser péssimo a exprimir afecto, o que é tremendamente irritante, mas estranhamente cativante. Bem, pelo nunca haverá um momento enfadonho com eles os dois. Não me facilitam a vida, mas vou torcendo por eles.

Quanto à Gaia... bem, a miúda sabe mesmo como arranjar sarilhos mal chega a algum lado, e é bastante fã de gestos grandiosos, se para aí estiver virada. É engraçado como mal chega a Sylum e começa logo a quebrar regras... depois tenta integrar-se, tentando aceitar e cumprir as regras, só que isso também não corre muito bem. Mata-lhe completamente o espírito.

É curioso o equilíbrio de forças, ou de convicções (será a melhor palavra) que se gera entre a Gaia e a Matriarca. É em parte um conflito geracional, entre jovens e velhos (se é que posso chamar velha à Matriarca)... mas também uma questão de convicções. A Gaia acredita no seu trabalho de parteira e na protecção das suas pacientes... é fascinante, como a autora conseguiu meter ali uma discussão pró-escolha/pró-vida, e ainda mais sem ninguém lhe cair em cima, considerado que os americanos são um tudo-nada conservadores.

A Gaia tem uma evolução intrigante, com muitos avanços e recuos, mas quando é preciso, o coração dela está no sítio certo. Talvez até demais, porque quando mete uma coisa na cabeça, ou se dedica a uma coisa, leva tudo à frente, e às vezes esquece-se um bocadinho dos que a rodeiam. Espero que entretanto melhore um pouco e conheça duas coisas novas, sensibilidade e ponderação.

A parte final do livro põe as coisas num ponto que me deixa com muita vontade de ler o próximo. As mudanças em Sylum prometem. Enfim, acho que diria que este livro me deu muito mais que pensar que o outro. Fico feliz por ver que este livro é melhor que o anterior. Às vezes o segundo livro de uma trilogia é mais fraco, e anima-me ver que aqui não é o caso.

Título original: Prized (2011)

Páginas: 432

Editora: Everest

Tradução: Maria João Rodrigues

domingo, 30 de março de 2014

Marcados à Nascença, Caragh M. O'Brien


Opinião: Gaia é uma jovem de 16 anos que está a treinar para ser parteira, como a mãe, e Marcados à Nascença começa com o primeiro parto que faz sozinha. Só que devido à imposição do Enclave, a cidade fortificada que domina a sua terra natal, Gaia terá que entregar o bebé, para que o Enclave lhe possa proporcionar uma vida melhor. Só que quando algo ameaça a sua família, Gaia começa a questionar aquilo que sempre conheceu, lançando-se numa demanda para ajudar os pais.

Este é um livro com uma base muito interessante. O aspecto reprodutivo, e as questões que levanta acerca disso, cativou-me. As entregas dos bebés, as dificuldades reprodutivas dentro do Enclave, os problemas genéticos por trás de tudo... é um bom fundo para uma história distópica, e um que não tenho visto muitas vezes.

Passei um bom bocado a ler a história. É de leitura fácil e viciante, assim que nos embala. E impossível não torcer pela Gaia, para que perceba os problemas por trás deste sistema, para que consiga ajudar os pais e escapar às garras do sistema. Gaia é uma heroína inicialmente deslumbrada com o Enclave, mas aos poucos vai descobrindo do que o Enclave é capaz, e é recompensador fazer essa viagem com ela.

Contudo... isto, nas mãos de um escritor mais dotado, podia ser tão melhor. Há uma falta de profundidade, de complexidade, até de intensidade, no desenvolvimento do enredo, dos personagens e até do mundo. Achei as relações entre personagens com a falta de aquele quê que me faz acreditar nelas. Nunca acreditei que o Enclave, este sistema totalitário perigoso, fosse realmente assim... nunca há realmente uma sensação de perigo. A Gaia foge e é apanhada uma série de vezes por eles, e geralmente escapa de maneiras tão parvas e tão parvamente simples que me pergunto como é que o Enclave ainda está de pé, sendo gerido por idiotas. Por vezes as coisas não são bem explicadas ou apresentadas com a clareza necessária, enfraquecendo a história.

Isto impede-me de ter gostado do livro, ou de vir a ler as sequelas? Não, porque fora isto gostei da história, até estou investida no decorrer dos acontecimentos e quero saber o que vem a seguir, o que a autora tem preparado para o resto da trilogia. Terminei o livro com uma boa sensação, e a experiência de leitura foi agradável. Mas lá que me entristece ver uma história que podia ser grandiosa, ser executada de forma insatisfatória, entristece.

Título original: Birthmarked (2010)

Páginas: 416

Editora: Everest

Tradução: Maria João Rodrigues