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domingo, 15 de março de 2015

A rainha manda...: It Happened One Autumn, Lisa Kleypas

O livro que a Patrícia (Chaise Longue) me pediu para ler em Fevereiro para o A rainha manda... foi It Happened One Autumn, de Lisa Kleypas. Uma leitura adorável, que senti como realista, com personagens que gostei de conhecer e acompanhar, e apenas uma pequena excepção que me desgostou.


O livro que decidi que a Patrícia leria em Fevereiro foi Scarlet, de A.C Gaughen, e as impressões dela sobre a leitura podem ser lidas aqui.

A Lillian é arisca e pouco dada às convenções. Sejamos sinceras, tem muito pouco de senhora. Divertiste-te com esta “encalhada”?
Muito mesmo. Especialmente quando ela deixa o Marcus fora do sério, prestes a ter uma apoplexia.

... Agora a sério, é muito interessante ver como o estatuto de outsider dela, sendo uma americana no meio da nobreza britânica, a leva a impacientar-se com as regras de etiqueta minuciosas, e a descartá-las. Nem faz uma excepção para o objectivo que ela devia estar a seguir, de arranjar um nobre inglês para marido.

É refrescante, a atitude dela, especialmente porque é tão diferente das jovens que a rodeiam; porque quer fazer o que lhe apetece sem que ninguém a aborreça, ao ponto de fazer o completo oposto do que lhe pedem exigem; e porque é um óptimo contrapeso à atitude do Marcus. Uma flor de estufa morria ressequida ao lado dele. A Lillian vai dar-lhe luta todos os dias do resto das suas vidas, e é isso que vai fazer deles um óptimo casal. Não vão haver momentos aborrecidos.

Além disso, gosto bastante da relação que a Lillian tem com a irmã e as outras wallflowers, da qual vemos talvez mais neste livro que no anterior. São um grupo fantástico.

Completamente o oposto do seu par, o Marcus é um perfeito cavalheiro inglês. O que achaste dele?
Heh. Perfeito cavalheiro inglês. Se por perfeito cavalheiro inglês quisermos dizer "vulcão prestes a explodir"...

A sério, o Marcus tem esta fachada de frio, rígido e desinteressado, mas depois vai-se a ver e é completamente explosivo. Há uma cena no início do livro em que ele e outros homens do seu círculo estão juntos a falar, e comentam o leito conjugal. Ora o Marcus comenta que basta fazer amor com a sua mulher uma vez por semana, não era preciso mais, que tinha outros afazeres e mais cansa. (Lol.) A piada da coisa é que depois ele não tira as mãos de cima da Lillian, e um dos amigos com quem ele estava o goza por isso. E não esqueçamos a cena final, que é bom exemplo do temperamento dele, no bom sentido. Pelo menos fez-me rir, a reacção dele.

O Marcus é bastante teimoso e mandão, e para tal, é preciso teimoso e meio, personificado na Lillian. Já o disse antes, o par é perfeito, os seus feitios de índole semelhantes encaixam perfeitamente por se desafiarem mutuamente. Mas até tenho medo de imaginar os filhos deles.

Entre as outras meninas e meninos, e respectivas famílias, o elenco de personagens secundárias é practicamente tão irresistível quanto o parzinho. Concordas? Alguém que queiras destacar, seja pela positiva ou pela negativa?
Já disse que gosto bastante das wallflowers; gostei de conhecer melhor a Daisy pela sua relação com a Lillian, e deu para ver um pouco melhor da Evie, especialmente no que toca ao que ela está disposta quando está realmente desesperada. (A miúda tem cojones.)

Entre outras pessoas que gostaria de destacar, vou falar na Mercedes, a mãe das meninas americanas, porque me lembrou imenso da Mrs. Bennet na sua determinação para casar as filhas; e na duquesa viúva, a mãe do Marcus, porque a mulher é simplesmente louca da cabeça. Eu até compreendo alguma atitude mais retrógada e tradicionalista da parte dela, mas quando chegamos ao ponto de tentar magoar pessoas, bem, é ultrapassado um limite.

Sendo um romance, apesar de histórico, este livro centra-se na relação dos protagonistas que é bastante explosiva. Achas que a Lisa fez um bom trabalho no desenvolvimento desta relação?
Oh, very much. Adorei segui-los, e à maneira como o ódio evolui para amor. A sério, e pensar que eles começam o livro a maldizer-se mutuamente! Mas alguns momentos em que se permitem ser mais abertos aproximam-nos (a cena da pêra bêbeda é hilariante), e quando dão por eles, estão firmemente enrolados um no outro. Muito giro.

Parecem-me ser um par em que ambos estão bem um para o outro, porque as suas naturezas combativas podem significar que vão argumentar sobre tudo, mas isso também quer dizer que não há um que vai ceder sempre, pois isso não seria saudável. Nem a Lillian é mulher de ceder; e a resistência dela estimula-o e impede que se torne num tirano.

Mas o que mais apreciei é que apesar de ser um livro histórico, com problemas e dilemas do século XIX, a Lisa faz um bom trabalho na descrição dos sentimentos, emoções e pensamentos dos personagens, e faz com que sejam compreensíveis e credíveis para uma leitora do século XXI. Sinto que ela escreve duma forma bastante realista (com uma pequena, ou não tão pequena, excepção), e agrada-me.

Conta-me: o que gostaste mais nesta história? Houve alguma coisa que te tivesse desagradado?
Gostei: a relação da Lillian e do Marcus, e a maneira como a senti realista, devido ao modo como a Lisa escreve.

Detestei, com o ódio de mil sóis: a recta final do livro. Estava eu tão embalada, a elogiar a Lisa na minha cabeça pelo seu realismo no desenvolvimento da narrativa, feliz da vida por a Lillian e o Marcus se terem resolvido, e tumba, ela tinha de me contrariar e entrar no território de telenovela mexicana.

Porque foi isso que eu achei da cena toda do rapto: altamente incrível, no sentido em que não consegui acreditar na lógica de uma palavra sequer daquilo. Por um lado, se era para nos surpreender com a atitude do perpretador, era escusado passarmos o livro a ter "avisozinhos" sobre o carácter dele, porque o resultado é que a sua acção não é surpreendente - é só estúpida.

Por outro, não há qualquer explicação dada para as suas acções (daí o epíteto de estúpida). Não há foreshadowing de a pessoa estar desesperada a esse ponto. Porque a verdade é que não está. No epílogo, contado na sua voz, contempla outras hipóteses para se arranjar entretanto. E se elas existiam, para quê chegar ao ponto que chegou, arriscando-se a perder amigos e fazer deles inimigos? Alguém que se escapou a levar tiros dos maridos da mulheres com quem andou metido, para agora arricar o pescoço por tão pouco. *facepalm*

Yep, Lisa, isto fez tanto sentido como uma roda quadrada, caramba. O pior é que tenho medo que isto me estrague o próximo livro. Porque tenho a sensação que não vou conseguir desligar a minha voz cínica, que vai estar o tempo todo a gozar com o caminho de redenção que sem dúvida será percorrido, por causa deste acto supostamente imperdoável e irredimível, mas que para mim foi só mal escrito. Não me oponho à sua presença, apenas à maneira como foi apresentado.

A única coisa boa disto tudo é ter o Marcus à porrada numa estalagem. A noção disto foi tão hilariante, que durante a cena me deu um ataque de risota dos bons. Não conseguia parar de rir com a ideia do estóico Marcus perder a cabeça e andar à porrada.

Achas que a autora apresentou bem o “fosso” existente entre americanos e ingleses, nobres e novos-ricos?
Eu gostei da abordagem dela. É uma época tão rica, esta em que os americanos tinham feito a vida no seu país, e traziam a sua riqueza para Inglaterra, procurando validação casando as filhas com nobres ingleses, pois à riqueza só faltava aliar o título. E a nobreza recebia os americanos com sobranceria, deprezando-os por não aderirem completamente a uma estrutura social altamente estruturada e regrada.

E ao mesmo tempo, necessitando deles, pois nem sempre os títulos significavam prosperidade, e muitos nobres estariam na penúria não fossem as herdeiras americanas com os seus dotes, er, avantajados. A Lisa consegue explorar bem um pouco das diferenças entre os dois lados, os conflitos culturais e sociais, e espelhar a situação nas circunstâncias dos personagens. Não podia pedir mais.

Para além de ser adorável, um dos grandes pontos positivos da escrita da Lisa é a sua capacidade sensorial, pois quase que não só nos coloca lá como é capaz de nos fazer ver e sentir o mesmo que as personagens. Concordas?
Sim, creio que sim. Como disse, senti grande parte da narrativa como real, muito graças a como a Lisa escreve. Além disso, a sua escrita é bem imersiva e cativante, e ler os seus livros é uma experiência prazerosa. Passei um bom bocado com o livro (com uma pequena excepção), e sei que não será a última vez que lerei a autora (se bem que é melhor esperar um bocadinho para me esquecer da fúria com este fim).

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O livro escolhido pela Patrícia para eu ler no próximo A rainha manda... é:

A Árvore do Verão, Guy Gavriel Kay
Esta escolha este mês vem de um instinto qualquer. Ao deparar-me com este livro nos livros por ler da p7 não consegui deixar de pensar que ela apreciaria o trabalho de Guy nesta trilogia, mesmo que seja mais bruto em termos de matéria do que por exemplo, Os Leões de Al-Rassan. Para além de ser uma leitura leve, é um regresso às origens e a um autor que ambas apreciamos. Espero que ela goste e que não tenha vontade de me bater a seguir.

Nunca, querida, só me ouvirias a resmungar muito. Mas não creio que este autor me dê vontade disso, eheheh.

Podem descobrir o livro que sugeri à Patrícia para Março, e o porquê de o ter escolhido, aqui.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A rainha manda...: North and South, Elizabeth Gaskell

O livro que a Patrícia (Chaise Longue) me escolheu para ler em Janeiro para o A rainha manda... foi North and South, de Elizabeth Gaskell. Uma leitura bastante complicada, um tudo nada turbulenta, mas relativamente satisfatória, pois já conhecia a história e gostava dela, e por isso apreciei a expansão da mesma que me permitiu.


O livro que escolhi para a Patrícia ler foi The Assassin's Curse, de Cassandra Rose Clarke, e as impressões dela sobre a leitura podem ser lidas aqui.

Margaret: doce e idealista, esta personagem apresenta, contudo, algum preconceito e orgulho, mesmo que seja pelas classes altas. Dentro das grandes heroínas dos clássicos, o que achaste desta heroína tão parecida com a nossa Lizzy?
A Margaret, muito resumidamente, é uma santa. Sim, ela começa a história cheia de preconceitos contra o lugar para onde vai viver, Milton, cidade industrial, e contra algumas pessoas, como o Thornton (doravante nomeado por Thorny, porque é isso que ele é), por este viver do comércio. Mas é um preconceito informado pela classe em que se moveu durante parte da vida, a pequena nobreza, e à medida que o tempo passa Margaret conhece Milton e as suas gentes, e atrevo-me a dizer que chegou a gostar muito deste local em que vivia, apesar de todos os problemas que lhe trouxe.

A parte da santa deve-se ao facto de a Margaret aturar muita coisa difícil ao longo da história, circunstâncias em que outras pessoas teriam quebrado completamente; e por ser bastante leal e justa, no que toca aos seus e àqueles de quem gosta, e aos seus valores e sentimentos. O que quer dizer que se mete nalgumas situações menos claras que as pessoas lhe poderiam apontar, quando as intenções dela eram as melhores.

A consciência dela também não ajuda, porque lhe dá cabo da cabeça devido a uma mentira bem-intencionada; e é claro que temos durante uma parte da narrativa a Mrs. Thornton e o Thorny a pensar que ela é uma galdéria porque estava com um homem ao fim do dia na estação dos comboios - que por acaso era irmão dela. Está bem que eles não sabiam do irmão dela, mas é assim tão extraordinário tentarem perceber se a Margaret tinha parentes masculinos? Porque até tinha, para além do Frederick, cuja história não podia ser revelada.

John: teimoso e racional, ele enerva-nos no início (e noutros momentos) mas a verdade é que acaba por se revelar uma personagem muito mais emocional do que esperaríamos. O que pensas da evolução desta personagem?
O Thorny devia levar um pontapé no traseiro por desconfiar da Margaret, e tenho dito.

Enfim. Acho que desde que conhecemos o personagem que dá para perceber que não é o bruto comerciante que a Margaret parece pensar, que é bastante inteligente e decidido, e que pelos vistos tem um coração mole, porque cai de amores pela rapariga mesmo recebendo dela indiferença e gestos que ele toma como arrogância mas que são geralmente desconhecimento. Por isso, até nisso é boa pessoa, ao não lhe levar a mal atitudes que deixariam outros ofendidos.

A evolução dele tem mais a ver com o decorrer dos acontecimentos e a mudança de percepção da Margaret sobre ele - à semelhança do que acontece com a Lizzie Bennet em Orgulho e Preconceito, em relação ao Mr. Darcy. A partilha de momentos difíceis leva-a a olhá-lo com outros olhos, e cedo a Margaret dá por ela a desejar a boa opinião dele - que é quando por ironia do destino ele vê a situação que a faz passar por galdéria, e ainda por cima a apanha numa mentira acerca dessa situação. (O timing destes dois é fabuloso.)

Uma das coisas mais interessantes sobre o Thorny é que é a imagem do self-made man: o pai deixou muitas dívidas, mas ele subiu desde a posição mais humilde até ser dono de um moinho de algodão. E mesmo na face da derrota, enfrenta-a com dignidade e sobriedade, não embarcando em delírios, o que também foi preciso coragem para fazer.

Figuras parentais: Tanto os pais de Margaret como a mãe de John acabam por se destacar na história pela sua presença marcada nas vidas dos filhos. Contudo, são completamente diferentes, algo que se nota nos respectivos filhos. Conta-me como lidaste com a sua vincada presença.
A Mrs. Thornton é uma personagem que nos torna difícil a tarefa de gostar dela. Teve uma vida complicada, e isso reflecte-se na postura espartana e rígida que assume. Mas tem um orgulho enorme no filho, por ter conseguido tanto na vida, e isso é uma atitude louvável, e posso desculpar-lhe as reacções dela que derivam disso. É por isso que acabei por gostar dela. Isso e por ser brutalmente honesta, e não fazer coisas pelas aparências ou porque fica bem. Tenho uma curiosidade gigantesca sobre como é que ela se daria com a Margaret no dia-a-dia quando ela casar com o Thorny... seria definitivamente uma situação interessante.

Os pais da Margaret são algo bastante diferente. A Margaret viveu mais de metade da vida com a tia, em Londres, sendo exposta à sociedade, e passava os Verões com os pais; só volta a viver com eles agora. A relação é necessariamente distinta. O pai, com uma crise de consciência, deixa de ser reverendo da Igreja de Inglaterra, o que força a mudança da família para Milton.

Uma mudança que gera uma modificação nos pais de Margaret. A mudança de estilo de vida, e o stress que provoca, têm um efeito neles e na sua saúde, e indirectamente na relação com a Margaret. Com a mãe, a Margaret tem uma relação mais ténue, mas muito dedicada mais para o fim. Com o pai, a Margaret tem uma relação mais próxima, um pouco marcada pela mudança, mas apoiam-se mutuamente.

A coisa curiosa nesta família é que a fragilidade dos pais de Margaret leva a que ela tome a responsabilidade por muito, que seja o pilar de força, não se permitindo momentos de fraqueza, o que não era propriamente saudável para ela, e invertia o papel entre ela e os pais - o que numa jovem com 18, 19 anos é extraordinário.

A família operária: Entre todas as personagens secundárias, a família a quem Margaret se apega acaba por sobressair, de alguma forma, entre elas. Também foram marcantes para ti?
Os Higgins foram um componente muito importante na história. Primeiro, porque introduzem uma nova perspectiva à Margaret, uma família que vive do trabalho nos moinhos de algodão, permitindo-lhe ver a indústria sobre uma nova perspecitva. Mas também são uma maneira de explorar as classes mais pobres, o tipo de vida que tinham, e a luta por melhores condições de vida e de trabalho, através das greves. E por fim, porque os Higgins permitem uma ligação inestimável entre os vários elementos da narrativa, particularmente a Margaret e o Thorny, e de certo modo essa ligação ajuda a juntá-los no final.

Apresentando como temática as mudanças sociais que a industrialização impôs na sociedade inglesa, este livro acaba por ser uma pequena grande lição sobre um dos períodos mais importantes e de algum modo, radicais, da história de Inglaterra. Pensas que foste tão bem introduzida ao tema quanto esclarecida?
Pode-se dizer que a Elizabeth Gaskell foi bastante minuciosa na apresentação do tema, e isso é de louvar, porque apresenta os dois lados da questão, os donos das fábricas, e os trabalhadores. O desenvolvimento do assunto torna-se mais rico porque é descrito por uma pessoa contemporânea; e de qualquer modo não é uma época ou faixa da sociedade muito explorada nos livros de teor histórico que tenha lido, sejam eles romance ou não, por isso posso dizer que saí da leitura mais bem informada.

A dado momento, foste apresentada a uma série de tragédias e momentos mais infelizes que alteraram o rumo da história e, consequentemente, a tua forma de lidar com ela. Qual foi a tua reacção?
Honestamente, e tenho muita pena das pessoas envolvidas, mas essa é a parte mais excitante da narrativa. É quando começam a acontecer as desgraças que a história se torna interessante, porque precipitam uma evolução da personalidade da Margaret que é fascinante de observar, e fazem emergir o carácter extraordinário dela.

Não podia deixar de perguntar: depois de nos fazerem sofrer com as suas birras, desconfianças e desventuras ao longo da história, Margaret e John conseguiram um lugar no teu coração?
Sim, conseguiram. O curioso desta história é que poderíamos chamar-lhe qualquer coisa como "Orgulho e Preconceito 2", porque as pessoas desta história - principalmente a Margaret e o John - são tão dominadas pelos dois. É o orgulho dos Thornton, mãe e filho, que condiciona a percepção deles sobre as atitudes da Margaret, por exemplo; e são os preconceitos iniciais da Margaret que a fazem menosprezar o Thorny. Foi cativante ver a evolução da relação deles à medida que se afastam do orgulho e preconceito iniciais para uma estima mútua. E também torturante e delicioso ler os capítulos finais, para perceber se eles se entendiam, e como.

Elizabeth Gaskell dá-nos um livro complexo, com muitas temáticas difíceis, e a sua escrita não foge à regra. Conta-me as tuas frustrações sobre ela.
Eu nem sei muito bem explicar as minhas frustrações com a escrita dela. Só sei que levei 10 dias para ler o livro, sem ter lido mais nada nesses dias, e que o arrastar da leitura estava a dar comigo em doida. Não é habitual eu levar tanto tempo a ler um livro, nem sequer quando o inglês é ligeiramente mais complexo por virtude de o livro ter sido escrito noutra época.

A sensação com que fiquei é que a escrita dela é muito descritiva, pouco dada a avançar com o enredo, e sei que dava frequentemente por mim a ler um parágrafo e a olhar para o ar, a sonhar acordada, porque a escrita não me cativava. É claro que isso me dificultou, e muito, o avançar da leitura, ao ponto da frustração, o que também não tornou a leitura fácil.

No entanto, sei separar as coisas e consegui deixar que isso não me afectasse o gosto que tirei da história. A minha sorte é que já a conhecia, de ver a série, e estava predisposta a gostar dela. E de certo modo, apreciei o nível de detalhe que o livro trouxe, dá certas nuances aos acontecimentos e às atitudes dos personagens, coisas que a série não permitiu explorar. E por isso, e por já ser fã da história, acabei por gostar do livro, apesar de não ter ficado fã da maneira como a Elizabeth Gaskell escreve.

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O livro que a Patrícia escolheu para eu ler no próximo A rainha manda... é:

It Happened One Autumn, Lisa Kleypas
Depois de fazer a minha querida p7 sofrer com a leitura anterior (mais uma vez mil perdões), este mês decidi-me por uma leitura mais levezinha e bem divertida. It Happened One Autumn é um dos meus livros preferidos do género, e faz parte de uma das minhas séries preferidas e tem, claro, um dos meus casais preferidos. Por isso, ofereço-te os explosivos Lillian e Marcus para te alegrar num mês tão frio.

Obrigada, e ainda bem! Preciso mesmo de descansar da leitura mais pesada que foi a deste mês... até gostei bastante da Lisa Kleypas quando a li, não sei porque é que tenho adiado a leitura dos livros seguintes da série.

Podem ver qual o livro que sugeri à Patrícia para este mês, e o porquê de o ter escolhido, aqui.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A rainha manda...: Rebel Angels, Libba Bray

A leitura escolhida pela Patrícia (Chaise Longue) para eu ler em Outubro para esta rubrica foi Rebel Angels, da Libba Bray. Uma leitura complexa e interessante, um trabalho soberbo e detalhado, muito ao estilo da Libba, com uma boa reflexão sobre o papel destas jovens na sociedade.


A leitura que escolhi para a Patrícia ler em Outubro foi Espera por Mim, de Gayle Forman, e podem ler as impressões dela aqui.

As meninas nunca foram perfeitas, mas sentiste neste livro mais os seus defeitos? O que pensas de algumas atitudes e formas de pensar, quer da Gemma, quer da Felicity ou da Anne?
A caracterização das protagonistas é a coisa mais maravilhosa e frustrante que a Libba faz. Digo maravilhosa porque ela retrata a amizade entre as meninas duma maneira realista. Há um senso de união, uma capacidade extraordinária de levar as coisas a bom porto quando se juntam, mas também há inveja, desacordo, e pressão. A amizade entre um grupo de mulheres é por vezes das coisas mais complicadas que há, e aprecio que a autora a retrate credivelmente.

Contudo, também é por isso que é frustrante de ler. Dá-me uns nervos dos diabos quando, por exemplo, a Felicity e a Ann começam a desconfiar da Gemma, a achar que ela faz de propósito para não as levar para os reinos, mas as viagens têm um efeito negativo na Gemma, por isso a pressão acaba por levá-la a emperigar-se quando não há necessidade. Gostava que as raparigas fossem mais compassivas umas para com as outras, mas imagino que isso seja algo que irão apanhando com a idade e a experiência, por isso não me consigo zangar com elas.

Não consigo encontrar faltas à Gemma, propriamente, porque ela é a protagonista e vemos a história pelos seus olhos, e pelos seus olhos é mais fácil encontrar faltas com as outras meninas. Suponho que posso dizer que gostava que o primeiro instinto da Gemma não fosse manter escondidas algumas informações que recebe, porque se as três jovens partilhassem e conversassem mais, resolviam os problemas mais rapidamente. Acho fascinante que a Gemma se debata com o seu papel na sociedade, porque ela sabe o que é esperado dela, mas não consegue identificar-se com isso, e essa situação deixa-a insegura e na dúvida sobre o futuro.

Quanto à Ann, custa-me que ela tenha tanta dificuldade em defender-se e acreditar nos seus pontos positivos. Falta-lhe auto-estima, mas não é algo que alguém possa resolvê-lo por ela, por isso fico a torcer para que ganhe confiança. Sobre a Felicity, acho-a uma pessoa bastante complexa, mas como a perspectiva que tenho dela é a da Gemma, tenho dificuldade em formar uma opinião sobre ela. Suspeitei de parte da sua biografia, e sei que isso conciona muito da sua postura, mas gostava de a conhecer melhor. Não tenho toda a informação necessária sobre a sua relação com a família e o seu passado, mas o que sei deixa-me interessada, e acho que a Felicity, nas condições certas, podia ir muito longe.

Há alguma personagem que gostarias de destacar, quer pela positiva ou pela negativa?
A vilã, da qual eu desconfiei muito cedo, mas que me confirmou as suspeitas quando a Libba se põe a falar de anagramas dos nomes e nos dá o nome completo da pessoa passado meia-dúzia de páginas. Ela tem um papel importante na coisa, mas não é a única jogadora, talvez nem a mais perigosa, e por isso temo pelas minhas meninas.

Gostei bastante de conhecer e explorar a sociedade londrina vitoriana pelo Natal, porque deu algum cenário às meninas, e permite compreender como a sociedade condiciona a sua postura.

Quanto aos rapazes que mostram interesse na Gemma, não creio que possa torcer por nenhum. O Simon seria apenas uma escolha segura, e um impedimento às grandes coisas a que a Gemma está destinada. Não me parece que compreendesse. Quanto ao Kartik, bem, eu vejo alguma atracção, mas não vejo uma ligação genuína com a Gemma, e para pessoas tão diferentes a química tem de estar lá, ou aquilo não vai a lado nenhum.

Neste livro temos algumas surpresas chocantes, em que algumas personagens se revelam diferentes do que pensávamos ou alguns dos seus segredos mais obscuros são descobertos. Surpreenderam-te estas reviravoltas?
Sim e não. Não eram coisas que eu soubesse antes de começar a ler, mas também foram coisas que deduzi à medida que a história se foi desenvolvendo. Creio que a Libba Bray faz um bom trabalho a equilibrar a manutenção do suspense nessas questões, e a plantar algumas pistas para o leitor.

Aproveitando as férias natalícias das protagonistas, a Libba dá-nos um retrato mais detalhado da vida londrina da época e, principalmente, dos papéis das jovens na sua sociedade. Achas que foi enriquecedor para a história? Deu-te uma melhor ideia da época?
Sim, foi bastante mais esclarecedor que o primeiro livro nesse aspecto. Uma escola em regime de internato é uma micro-sociedade - bastante interessante por sinal -, mas não permite ver a imagem geral. A verdade é que a sociedade em que cresceram e em que se movem dita o tipo de comportamento que a Gemma, a Felicity e a Ann têm - e o comportamento que é esperado delas. É assustador, até, pensar em como esta época sufocava as suas jovens, pessoas inteligentes, competentes, cheias de ideias e sonhos. Por isso, sim, a autora dá uma bela descrição da época, bem certeira.

Existe uma certa aura de mistério em redor desta história. Isso atiça a tua curiosidade? Ou faz-te sentir perdida?
Bem... deixa-me uma sensação dual. Por um lado, o mistério que envolve os reinos é o que faz a narrativa avançar, que força as meninas a investigar, e quero muito saber o que passa com os reinos, e o que ainda vai acontecer com eles. Mas por outro lado, a história avança devagar, por vezes demasiado devagar. O mistério principal é revelado com demasiada calma, fazendo parecer que ou as raparigas não estão com pressa nenhuma em resolver as coisas, ou são demasiado tontinhas para perceber as coisas.

Se no primeiro livro a ideia dos Reinos parecia um pouco obscura, neste somos confrontados com alguns povos que aí residem, para além, de nos ser apresentada uma ideia mais palpável do que são os Reinos e daqueles que os querem controlar. Sentiste isso? Achas que foste esclarecida ou ainda existe algo que te confunde neste mundo?
Bem, posso dizer que a questão dos Reinos foi mais desenvolvida e melhor esclarecida, sim. O espaço dos Reinos foi explorado pelas meninas, e conhecemos novos locais e novos habitantes deles. Em termos de magia, deu para compreender melhor como os Reinos e o que contêm funcionam, que tipo de transformações podem ocorrer aos que neles habitam, e o que pode ser trazido para o mundo real. Deu para perceber ainda quem está interessado em controlar o poder dos Reinos, e acima de tudo, foi definitivamente estabelecido que a magia tem consequências, algo bastante importante no esquema geral das coisas.

A escrita da Libba destaca-se por ser bastante envolvente apesar das ideias abstractas que transpõe para o seus livros. Sentes o mesmo? Gostas da escrita dela?
Gosto bastante. É uma escrita complexa, densa, mas que lança como que um feitiço sobre o leitor, e é impossível deixar a história a meio por causa disso. Pode dar um nadinha de trabalho a desbravar, por vezes, mas por isso o prazer é maior quando se chega ao fim. E gosto muito de como ela envolve vários temas e aspectos numa mesma narrativa, trabalhando-os fantasticamente, sem falhas.

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O livro que a Patrícia escolheu para eu ler no próximo A rainha manda... é:

North and South, de Elizabeth Gaskell
Escolhi este livro para a p7 porque é um dos meus clássicos preferidos e evoca tudo o que ambas gostámos num livro. Penso que ela se irá deliciar com as discussões de Margaret e Mr. Thorne, bem como pela forma inteligente como a autora mostra a dicotomia desta sociedade. Espero que seja uma leitura tão maravilhosa para ela como foi para mim. Afinal, já temos Orgulho e Preconceito, bem como Jane Eyre em comum... Porque não termos uma tríade?

No entanto, o próximo post da rubrica será para Janeiro. Vamos fazer agora uma pausa durante o próximo mês e meio, pois entre a época festiva e terminar alguns desafios pessoais, vamos andar relativamente ocupadas, e então achámos melhor recomeçar no novo ano para podermos dedicar todo o nosso tempo aos respectivos livros.

Podem ver qual o livro que sugeri à Patrícia para Janeiro, e o porquê de o ter escolhido, aqui.

domingo, 12 de outubro de 2014

A rainha manda...: Os Pilares do Mundo, Anne Bishop

A leitura para Setembro escolhida pela Patrícia (Chaise Longue) para mim foi Os Pilares do Mundo, de Anne Bishop. Um livro à altura dos outros da autora no que toca ao mundo que criou e à história em geral, mas que peca um bocado nos que toca aos personagens e à construção da narrativa. Fiquei curiosa para ver que mais a autora tem em mente para este mundo, mas não é como os seus outros livros, não me deu uma urgência imediata para continuar a ler.


A leitura para Setembro que escolhi para a Patrícia foi Flashman, de George MacDonald Fraser, e podem ler as minhas perguntas sobre a leitura e o que a Patrícia achou do personagem titular aqui.

Ari é uma protagonista com um enorme poder mas, em comparação com Jaenelle, é menos sombria e complexa. O que achaste dela? Estranhaste esta protagonista tão doce e inocente?
Estranhar? Nem por isso. A Ari é um doce de pessoa, e quase a única que se aproveita no meio de uma data de gente egoísta, malvada, tortuosa, mesquinha e horrenda. É quase como um raio de sol num dia chuvoso, e por isso foi refrescante acompanhá-la pela história. É bom ler sobre alguém cuja bondade intrínseca não é abalada pelas circunstâncias.

Lucian e Dianna, os Fae: estes dois irmãos são muito controversos e conseguem bulir-nos com os nervos pela sua cegueira. Qual foi a tua relação com eles ao longo do livro?
Bem, comecei o livro intrigada com a potencial demanda que eles tinham à frente... mas isso foi rapidamente por água abaixo. O Lucian perde-se na procura egoísta de prazer, e a Dianna perde-se na exigência egoísta que toda a gente menos ela arrisque o pescoço, e na distribuição egoísta de culpas a toda a gente menos ela. Portanto, detestei-os tanto que no fim do livro já estava a ranger os dentes.

Adolfo, o Inquisidor: Louco, ele é um vilão que nos faz tremer, mas também irrita-nos. Foi um vilão suficientemente forte para ti, ou não te convenceu?
É difícil de explicar. É muito convincente como vilão, eu acredito realmente que ele odeia as mulheres em geral e as bruxas em particular, e é arrepiante considerar os planos e os esquemas que ele tem para levar a sua avante. No entanto, não fiquei convencida da sua existência como pessoa. Mesmo tendo aquele capítulo com as suas reminiscências, que dão uma base sólida para o seu ódio, não me pareceu uma pessoa a sério. Pareceu-me demasiado artificial. A Dianna e o Lucian são igualmente pessoas horríveis, mas pareceram-me mais credíveis nos seus defeitos.

Morag, a Morte: Talvez uma das personagens mais complexas de Anne, Morag tem uma posição muito difícil entre os seus. Conseguiste compreendê-la?
A Morag é fantástica, fica ali no pedestal com a Ari. A sua posição única dá-lhe também uma perspectiva única sobre as coisas, e curiosamente é uma perspectiva mais bondosa e humanista que seria de esperar dum Fae, ou dum avatar da morte. Não é por ser a representante da morte que é assutadora ou mesquinha, apesar de toda a gente borrar as calças quando a vê. Quero dizer, em compreendo as pessoas, pensam sempre que a Ceifeira vem vê-los porque vem colher alguém e levá-lo para o outro mundo. Mas a pobre da moça não pode estar só de visita? Ou à procura de guarida? Ela precisa de sustento e companheirismo como toda a gente, caramba. Bem, acho que gostava que ela encontrasse um cantinho onde se sentisse sempre bem-vinda.

Do que já conheces da autora, foi tão complexo e sombrio como estavas à espera? Ou achaste-o demasiado doce e simples?
Errr não sei se posso pô-lo em termos tão simples. Quero dizer, a Anne Bishop é geralmente considerada sombria, pelos temas pesados que introduz por exemplo na Saga das Jóias Negras, mas eu não consigo reduzi-la e à série a esse termo, porque ela escreve com um certo sentido de humor, por isso para mim o sombrio e o humor balançam-se bem. E o resultado é que não estou automaticamente à espera que um livro dela seja sombrio. Se bem que aqui fez-me falta o sentido de humor dela.

Complexo, acho que posso dizer que sim. Uma coisa que admiro nos livros dela é as ideias-base com que constrói todos os seus mundos, que geralmente originam uma história e um mundo complicados mas fascinantes de acompanhar. Doce e simples, nem por isso. A ideia de Tir Alainn e da importância das bruxas para esse mundo, e como está tudo a desmoronar-se... é um pouco assutadora.

Anne tem uma grande capacidade para criar relações fortes entre as personagens, permitindo ao leitor ligar-se a eles e sentir sentimentos fortes por elas. Sentiste isso neste livro?
Conta o ódio que desenvolvi à Dianna, ao Lucian e ao Adolfo?

Agora a sério, não sei se posso dizer que sim. Não sei se é por ser o primeiro livro, mas muita coisa pareceu-me... superficial. Além disso, falei ali em cima do sentido de humor da Anne. É esse sentido de humor que ela tem a escrever sobre as relações interpessoais que a torna mais interessante de ler e fortalece as ligações entre personagens. Como não senti esse humor, fez-me falta para caracterizar as relações entre personagens.

Mais uma vez, temos uma trama incidida num tema matriarcal, mas desta vez a ver com a ligação à Terra Mãe. Achas que esse tema foi bem explorado?
Eu gostei do tema. Como disse ali, geralmente gosto das ideias da Anne Bishop, porque são complexas e constroem mundos e histórias complicados e que dão gozo a explorar... e gosto muito da ideia de as bruxas serem o centro deste mundo, a âncora para Tir Alainn. Não gosto que as pessoas se tenham esquecido da importância delas e as andem a perseguir - mas aí é um "não gosto" pessoal e não de ter um problema com a história, porque é uma premissa bem interessante e que lança uma ideia semelhante à da Trilogia das Jóias Negras: a dum sistema matriarcal que foi pervertido e que em resultado o mundo em que se insere está a perder-se, e cabe aos nossos personagens tentar melhorá-lo. É outra coisa que gosto na autora, o explorar temas semelhantes de maneiras diferentes.

Em vez dos Sangue, aqui temos os Fae, com uma complexa hierarquia entre eles e uma ligação esquecida às bruxas. Achas que a sua caraterização foi bem conseguida? E a das bruxas?
Como disse, gostei tanto da ideia da importância das bruxas para este mundo. E sim, também encontrei interesse na caracterização dos Fae. Alguns deles assumem avatares arquetípicos de divindades, e é muito curioso ver isso explorado. Não gostei dos Fae serem uns patetas que se esqueceram da importância das bruxas e do que fundou o seu mundo e a boa vidinha que vivem, mas achei uma bela ideia, a de que viverem à sombra da bananeira os tornou ingratos e egoístas.

A autora aproveitou a magia deste mundo para trazer um dos horrores da nossa realidade para a fantasia: a Inquisição. Foi bem conseguida?
Em geral, sim. Os métodos dos Inquisidores são assutadores, e nem sequer falo propriamente da tortura. Falo dos outros métodos insidiosos que usam, como ter os bardos a espalhar músicas que vilipendiam as bruxas, ou toda a retórica que usam contra elas, ou usar os nobres gananciosos como maneira de conseguirem perseguir as bruxas e as terras que elas defendem. E o uso dos Inquisidores neste mundo de fantasia acaba por ser bem ancorado e bem usado no contexto da história, por isso é engraçado ver um elemento da vida real num contexto fantástico.

Este livro é diferente das outras trilogias da autora. A sua escrita brilhou da mesma maneira? Ou é menos sombria?
Again, não é mais nem menos sombria, é diferente. Se bem que posso dizer que estou algo desapontada, frustrada mesmo, com a maneira como ela desenvolveu a história. Primeiro porque algumas caracterizações de personagens me pareceram excessivas e pouco credíveis (ver: Adolfo).

Depois porque ela toma decisões narrativas que não fazem sentido. Mostra-nos claramente o que está errado com este mundo nas primeiras páginas... o que torna a história tão frustrante de ler quando os personagens só chegam à mesma conclusão 200 e tal páginas depois. Fez-me gostar ainda menos da Dianna e do Lucian, que pareceram tão idiotas por levarem tanto tempo a lá chegar.

E para além disso, a Ceifeira deixa alguém escapar no fim do livro que não fez propriamente sentido que deixasse escapar. Essa pessoa vai voltar para causar sarilhos, e a Ceifeira já mostrou que não tem problemas em levar alguém se for para proteger outra pessoa que merece, por isso para quê poupar este palerma? Só para podermos ter os livros 2 e 3 da trilogia? Pois...

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Aqui fica o livro que a Patrícia escolheu para eu ler este mês, e porquê:

Rebel Angels, de Libba Bray
Ora bem, eu escolhi este livro para a p7 porque senão ela nunca mais o vai ler e, muito sinceramente, eu não consigo suportar essa ideia. Eu sei que ela gostou do primeiro, mas o que eu sei que ela não sabe, é que este segundo livro é ainda melhor! E quero que ela tenha umas horas de leitura sofridas a redescobrir este mundo, para depois sofrer comigo até lermos o terceiro… Eu sei, estou a ser má, mas não quero sofrer sozinha. E estou a ajudá-la a acabar uma das séries que tem pendentes. Não sou uma querida?

És, Patrícia, és uma santa. *assobia para o lado* Tens consciência que se eu ler este livro, e por acaso quiser ler imediatamente o terceiro, basta-me encomendá-lo em inglês (é como estou a seguir a série), enquanto que tu tens de esperar pela edição em português (é como a Patrícia está a seguir a série)? Muahahahah...

Podem ver qual o livro que sugeri à Patrícia para Outubro, e o porquê de o ter escolhido, aqui.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

A rainha manda...: leitura para Setembro

E depois de um breve interregno para o Verão, eu e a Patrícia voltamos à carga com recomendações mútuas na nossa rubrica, A rainha manda...; este mês promete, com as nossas respectivas recomendações. A Patrícia escolheu para mim Os Pilares do Mundo, da Anne Bishop. Ela explica porquê:

Ao rever a lista de livros que temos em conjunto mas que ela não leu, dei-me conta que algo de estranho se passava... A p7 tem esta trilogia por ler! Como é possível alguém ter Anne Bishop na estante por ler?? Como?? É impensável, por isso quero dar-lhe o prazer de regressar a esta autora fabulosa que ambas adoramos, já que eu não o posso fazer (até posso mas isso é outra conversa). Basta dizer que é Anne Bishop, eu sei que ela sabe aquilo que tem estado a adiar. Não o fará mais.

Bem... estava a guardar coisas boas para um momento especial como este? A verdade é que entretanto não saiu mais nada dela em português, e tendo em conta que durante tanto tempo havia sempre qualquer coisa dela já publicada para eu ler, vai ser estranho quando isso deixar de acontecer. De qualquer modo, Anne Bishop é Anne Bishop, por isso calculo que vá ser uma leitura deliciosa. Obrigada pelo empurrão. ;)

Podem descobrir o livro que escolhi para a Patrícia, e o porquê da escolha, aqui.

sábado, 16 de agosto de 2014

A rainha manda...: Transformar-se em Maria Antonieta, Juliet Grey

Desta vez, a leitura escolhida pela Patrícia do Chaise Longue para eu ler para esta rubrica foi Transformar-se em Maria Antonieta, de Juliet Grey. Uma leitura inusitada, para mim; é raro ler ficção histórica desta maneira, pegando em personagens reais, em acontecimentos reais, e ficcionando à volta deles. Foi curioso, para mim, manter a distância e lembrar-me que esta é uma interpretação dos acontecimentos, feita pela autora, e não a verdade verdadinha tal como aconteceu. Ainda assim, pareceu-me uma interpretação plausível, e foi uma bela leitura, muito cativante.


Em Agosto, eu e a Patrícia vamos fazer uma pausa, e retomamos a rubrica em Setembro. Entretanto, podem ler as impressões da Patrícia sobre o livro que escolhi para ela, The Winner's Curse de Marie Rutkoski, aqui.

Maria Antonieta, princesa odiada ou menina esquecida: muito se tem dito e falado sobre esta rainha. Envolta em controvérsia, é talvez das mais odiadas da História. O que achaste do retrato que Juliet Grey nos dá?
É um retrato curioso, algo benigno, mas que tenta explicar como é que a sua educação e circunstâncias levaram-na ao fim que conhecemos. É um pouco triste, até. Quase a última filha numa grande (muito grande) família, dá-me a sensação de ter sido negligenciada, particularmente na sua educação; e então quando de repente acalentam grandes esperanças e querem que ela seja muito mais do que é, as coisas complicam-se. Ela não parece ter um espírito forte, decidido, mas se a mãe tivesse tido mão na educação dela, preparando-a para navegar nas águas traiçoeiras da intriga palaciana, talvez ela não tivesse cometido tanta asneira, e não tivesse tido tanta dificuldade em se integrar na corte francesa.

Acho que o que me desanima é ver potencial desperdiçado, e há momentos na corte em que se vê que ela consegue ser inteligente e ultrapassar desafios. E por outro lado, seria fantástico se a mãe dela, a imperatriz Maria Teresa, de facto se decidisse pelo que quer. A miúda estava a receber sinais mistos sobre os desejos da mãe, do que era esperado dela como austríaca, mas ao mesmo tempo ela também já não o era, tinha renunciado ao seu país com o casamento, e o apego à Áustria poderá ter complicado a integração em França.

Como pessoa, a protagonista parece ter bom fundo, boas intenções, ainda que nem sempre bem orientadas. Acho interessante a sua relação com o marido, com o qual a consumação do casamento ainda levou um bom bocado a acontecer (passam-se quatro anos depois do casamento neste livro e nada! vamos lá ver no próximo). São apenas dois miúdos, nada preparados para casar, e a falta de comunicação entre ambos, e com as pessoas mais próximas, para esclarecerem questões de intimidade, levou a um arrasto ridículo de tal situação.

Luís Augusto, o delfim idealista mas influenciável: um fraco para a História mas neste livro temos uma perspectiva mais pessoal dele. Era assim que o imaginavas?
Acho que não o imaginava, de todo. Geralmente fala-se tanto da Maria Antonieta, que ele fica para segundo plano. Mas não fiquei muito bem impressionada. Quero dizer, até acho interessante que ele não se deixe embarcar nas intrigas e frivolidades da corte... mas também é cego ao que é preciso ser mudado, e está demasiado interessado em comer e caçar para se dedicar ao que é exigido do seu papel. No geral, parece um bocado palerma.

Tal como a Maria Antonieta, parece ter um espírito fraco, pouco decidido, bastante influenciável, especialmente no que toca ao seu tutor. Bem, só se estragou uma casa, no que toca a este casal, mas gostava que pelo menos um deles tivesse tido uma boa cabeça para enfrentarem os problemas que os esperavam. É que assim é bastante claro que eles estavam amaldiçoados a falhar, desde o início, como monarcas, o que é tão triste, porque é um desperdício. Tinham uma oportuniade real de mudar as coisas em França, mas não o conseguiram, e bem, todos sabemos como é que isto acaba.

Sendo ficção histórica, este livro apresenta-nos personagens que existiram. Pensas que a autora conseguiu trazê-las a vida realisticamente?
Definitivamente. Consegue dar pequenos detalhes, pequenas idiossincrasias a todos, de modo que parecem reais para mim. O que são, só que aqui me pareceram personagens tão reais que eu me ponho a falar deles, as suas motivações e feitios, como se fossem apenas isso, personagens de um livro. O que, depois lembro-me, não são. E custa separar as águas, entre as pessoas reais e os personagens ficcionados que me parecem reais, graças à descrição da autora. É um pouco bizarro, falar de pessoas que existiram como personagens de um livro. Uma experiência fascinante, diria também.

Qual foi a personagem que mais te marcou? E aquela que te mexeu com os nervos?
Quase que podia responder "a imperatriz Maria Teresa" às duas. A mãe de Maria Antonieta parece uma pessoa impressionante, pronta a levar tudo e todos à frente, com uma ambição formídável, e parece uma pessoa que seria interessante conhecer. Mas por outro lado, bule-me com os nervos a maneira como ela espera que a Maria Antonieta se transforme nesta consorte ideal para o delfim de França, da noite para o dia, por artes mágicas; e a maneira como diz à filha para fazer uma coisa, e a seguir outra completamente diferente, é positivamente ridícula. Portanto, mexe-me definitivamente com os nervos.

Quanto à personagem que marcou, vou escolher a Maria Antonieta, porque este é um retrato bem surpreendente dela, bastante cândido, mas delicioso de explorar.

A narrativa apresenta-nos a vida de Maria Antonieta antes de ser delfina, na Áustria, e depois em França. Quais foram para ti as maiores diferenças? Achas que a autora conseguiu mostrar quão diferentes as realezas, países e cortes eram?
Se eram diferentes! Creio que sim, conseguiu dar uma ideia. Quero dizer, não passamos assim tanto tempo na corte austríaca, porque a educação da Maria Antonieta está um pouco afastada do dia-a-dia da corte e da política, mas do que vemos, é imediatamente visível o contraste quando passamos para a corte francesa. E que corte de loucos, quase posso dizer. Pelo menos, tenho a certeza que eu dava em louca, com tanta etiqueta, tanta intriga, tanta formalidade, tanta hipocrisia.

São enormes as diferenças que encontro. Só a noção de ir dormir e acordar com uma trupe de cortesãos a dar-me e tirar-me roupa... *arrepios* Esta gente não conhecia definitivamente a noção de privacidade. E, desculpem, mas urinar no meio dos corredores? Ninguém sabe o que é um penico? De certeza que já os havia naquela altura. Até parece que havia criados para os despejar, e muitos, em Versalhes. Não era por falta deles que andavam a deixar presentes nos corredores.

E depois temos as intrigas mesquinhas, a devassidão, a falta de moral... eu até compreendo como é que a corte francesa começou e acabou neste estado, mas é demais. Um bocadinho menos de atenção à roupa do vizinho do lado e a quem anda a dormir com quem, e mais ao país e aos seus domínios, e se calhar não tinham perdido a cabeça. (Literalmente.) Digo eu.

Como romance histórico, este livro conseguiu captar a tua atenção? Juliet Grey conseguiu transportar-te no tempo para a França do século XVIII?
Definitivamente. Parece-me pelo menos um livro bastante bem pesquisado, bem detalhado, e não tive dificuldade em ver-me nesta época, em conhecer a personalidade de uma das personagens mais marcantes da história, e em perceber o seu passado e o seu futuro, em como a sua vida inicial em França dá lugar ao que aí vem. Conheci os cortesãos, a intriga, a etiqueta da corte, e senti-me parte da história, por momentos.

Sendo passado numa época de revoluções, intrigas e aparências, achas que este livro conseguiu transmitir-te os tempos difíceis que as personagens viviam?
Depende do que queres dizer por tempos difíceis. Raramente vemos o ponto de vista do povo, que esse sim estava a passar momentos complicados, mas não é esse o objectivo do livro. E de certo modo, também são tempos difíceis os que acompanham a corte francesa e a sua evolução, porque aqui estão as pessoas que podiam liderar França, fazer uma mudança para melhor no seu país, e estão demasiado obcecadas com quem é que vai dar a camisa de dormir à delfina! Ou seja, são tempos difíceis, sim, pela frustração que os eventos na corte me transmitem, e pela noção que podiam estar, sei lá, a fazer coisas mais úteis. Por isso, sim, a autora conseguiu transmitir-me isso muito bem.

A escrita deste livro faz-me pensar no filme de Sophia Coppola, Marie Antoinette, principalmente por ser muito visual. Concordas?
Bem, tem alguma piada, a tua pergunta, porque realmente tive flashes do filme quando estava a ler o livro, por isso diria que concordo. É muito fácil visualizar os exageros, os excessos nos vestuários e decoração, e diria que o filme ajuda visualmente as descrições da autora, que não lhe ficam nada atrás. Complementam-se bem, e fiquei com vontade de rever o filme. Diria também que a escrita da autora se presta bem a fazer-me "ver" aquilo que descreve, por isso fez um bom trabalho neste aspecto.