sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A rainha manda...: North and South, Elizabeth Gaskell

O livro que a Patrícia (Chaise Longue) me escolheu para ler em Janeiro para o A rainha manda... foi North and South, de Elizabeth Gaskell. Uma leitura bastante complicada, um tudo nada turbulenta, mas relativamente satisfatória, pois já conhecia a história e gostava dela, e por isso apreciei a expansão da mesma que me permitiu.


O livro que escolhi para a Patrícia ler foi The Assassin's Curse, de Cassandra Rose Clarke, e as impressões dela sobre a leitura podem ser lidas aqui.

Margaret: doce e idealista, esta personagem apresenta, contudo, algum preconceito e orgulho, mesmo que seja pelas classes altas. Dentro das grandes heroínas dos clássicos, o que achaste desta heroína tão parecida com a nossa Lizzy?
A Margaret, muito resumidamente, é uma santa. Sim, ela começa a história cheia de preconceitos contra o lugar para onde vai viver, Milton, cidade industrial, e contra algumas pessoas, como o Thornton (doravante nomeado por Thorny, porque é isso que ele é), por este viver do comércio. Mas é um preconceito informado pela classe em que se moveu durante parte da vida, a pequena nobreza, e à medida que o tempo passa Margaret conhece Milton e as suas gentes, e atrevo-me a dizer que chegou a gostar muito deste local em que vivia, apesar de todos os problemas que lhe trouxe.

A parte da santa deve-se ao facto de a Margaret aturar muita coisa difícil ao longo da história, circunstâncias em que outras pessoas teriam quebrado completamente; e por ser bastante leal e justa, no que toca aos seus e àqueles de quem gosta, e aos seus valores e sentimentos. O que quer dizer que se mete nalgumas situações menos claras que as pessoas lhe poderiam apontar, quando as intenções dela eram as melhores.

A consciência dela também não ajuda, porque lhe dá cabo da cabeça devido a uma mentira bem-intencionada; e é claro que temos durante uma parte da narrativa a Mrs. Thornton e o Thorny a pensar que ela é uma galdéria porque estava com um homem ao fim do dia na estação dos comboios - que por acaso era irmão dela. Está bem que eles não sabiam do irmão dela, mas é assim tão extraordinário tentarem perceber se a Margaret tinha parentes masculinos? Porque até tinha, para além do Frederick, cuja história não podia ser revelada.

John: teimoso e racional, ele enerva-nos no início (e noutros momentos) mas a verdade é que acaba por se revelar uma personagem muito mais emocional do que esperaríamos. O que pensas da evolução desta personagem?
O Thorny devia levar um pontapé no traseiro por desconfiar da Margaret, e tenho dito.

Enfim. Acho que desde que conhecemos o personagem que dá para perceber que não é o bruto comerciante que a Margaret parece pensar, que é bastante inteligente e decidido, e que pelos vistos tem um coração mole, porque cai de amores pela rapariga mesmo recebendo dela indiferença e gestos que ele toma como arrogância mas que são geralmente desconhecimento. Por isso, até nisso é boa pessoa, ao não lhe levar a mal atitudes que deixariam outros ofendidos.

A evolução dele tem mais a ver com o decorrer dos acontecimentos e a mudança de percepção da Margaret sobre ele - à semelhança do que acontece com a Lizzie Bennet em Orgulho e Preconceito, em relação ao Mr. Darcy. A partilha de momentos difíceis leva-a a olhá-lo com outros olhos, e cedo a Margaret dá por ela a desejar a boa opinião dele - que é quando por ironia do destino ele vê a situação que a faz passar por galdéria, e ainda por cima a apanha numa mentira acerca dessa situação. (O timing destes dois é fabuloso.)

Uma das coisas mais interessantes sobre o Thorny é que é a imagem do self-made man: o pai deixou muitas dívidas, mas ele subiu desde a posição mais humilde até ser dono de um moinho de algodão. E mesmo na face da derrota, enfrenta-a com dignidade e sobriedade, não embarcando em delírios, o que também foi preciso coragem para fazer.

Figuras parentais: Tanto os pais de Margaret como a mãe de John acabam por se destacar na história pela sua presença marcada nas vidas dos filhos. Contudo, são completamente diferentes, algo que se nota nos respectivos filhos. Conta-me como lidaste com a sua vincada presença.
A Mrs. Thornton é uma personagem que nos torna difícil a tarefa de gostar dela. Teve uma vida complicada, e isso reflecte-se na postura espartana e rígida que assume. Mas tem um orgulho enorme no filho, por ter conseguido tanto na vida, e isso é uma atitude louvável, e posso desculpar-lhe as reacções dela que derivam disso. É por isso que acabei por gostar dela. Isso e por ser brutalmente honesta, e não fazer coisas pelas aparências ou porque fica bem. Tenho uma curiosidade gigantesca sobre como é que ela se daria com a Margaret no dia-a-dia quando ela casar com o Thorny... seria definitivamente uma situação interessante.

Os pais da Margaret são algo bastante diferente. A Margaret viveu mais de metade da vida com a tia, em Londres, sendo exposta à sociedade, e passava os Verões com os pais; só volta a viver com eles agora. A relação é necessariamente distinta. O pai, com uma crise de consciência, deixa de ser reverendo da Igreja de Inglaterra, o que força a mudança da família para Milton.

Uma mudança que gera uma modificação nos pais de Margaret. A mudança de estilo de vida, e o stress que provoca, têm um efeito neles e na sua saúde, e indirectamente na relação com a Margaret. Com a mãe, a Margaret tem uma relação mais ténue, mas muito dedicada mais para o fim. Com o pai, a Margaret tem uma relação mais próxima, um pouco marcada pela mudança, mas apoiam-se mutuamente.

A coisa curiosa nesta família é que a fragilidade dos pais de Margaret leva a que ela tome a responsabilidade por muito, que seja o pilar de força, não se permitindo momentos de fraqueza, o que não era propriamente saudável para ela, e invertia o papel entre ela e os pais - o que numa jovem com 18, 19 anos é extraordinário.

A família operária: Entre todas as personagens secundárias, a família a quem Margaret se apega acaba por sobressair, de alguma forma, entre elas. Também foram marcantes para ti?
Os Higgins foram um componente muito importante na história. Primeiro, porque introduzem uma nova perspectiva à Margaret, uma família que vive do trabalho nos moinhos de algodão, permitindo-lhe ver a indústria sobre uma nova perspecitva. Mas também são uma maneira de explorar as classes mais pobres, o tipo de vida que tinham, e a luta por melhores condições de vida e de trabalho, através das greves. E por fim, porque os Higgins permitem uma ligação inestimável entre os vários elementos da narrativa, particularmente a Margaret e o Thorny, e de certo modo essa ligação ajuda a juntá-los no final.

Apresentando como temática as mudanças sociais que a industrialização impôs na sociedade inglesa, este livro acaba por ser uma pequena grande lição sobre um dos períodos mais importantes e de algum modo, radicais, da história de Inglaterra. Pensas que foste tão bem introduzida ao tema quanto esclarecida?
Pode-se dizer que a Elizabeth Gaskell foi bastante minuciosa na apresentação do tema, e isso é de louvar, porque apresenta os dois lados da questão, os donos das fábricas, e os trabalhadores. O desenvolvimento do assunto torna-se mais rico porque é descrito por uma pessoa contemporânea; e de qualquer modo não é uma época ou faixa da sociedade muito explorada nos livros de teor histórico que tenha lido, sejam eles romance ou não, por isso posso dizer que saí da leitura mais bem informada.

A dado momento, foste apresentada a uma série de tragédias e momentos mais infelizes que alteraram o rumo da história e, consequentemente, a tua forma de lidar com ela. Qual foi a tua reacção?
Honestamente, e tenho muita pena das pessoas envolvidas, mas essa é a parte mais excitante da narrativa. É quando começam a acontecer as desgraças que a história se torna interessante, porque precipitam uma evolução da personalidade da Margaret que é fascinante de observar, e fazem emergir o carácter extraordinário dela.

Não podia deixar de perguntar: depois de nos fazerem sofrer com as suas birras, desconfianças e desventuras ao longo da história, Margaret e John conseguiram um lugar no teu coração?
Sim, conseguiram. O curioso desta história é que poderíamos chamar-lhe qualquer coisa como "Orgulho e Preconceito 2", porque as pessoas desta história - principalmente a Margaret e o John - são tão dominadas pelos dois. É o orgulho dos Thornton, mãe e filho, que condiciona a percepção deles sobre as atitudes da Margaret, por exemplo; e são os preconceitos iniciais da Margaret que a fazem menosprezar o Thorny. Foi cativante ver a evolução da relação deles à medida que se afastam do orgulho e preconceito iniciais para uma estima mútua. E também torturante e delicioso ler os capítulos finais, para perceber se eles se entendiam, e como.

Elizabeth Gaskell dá-nos um livro complexo, com muitas temáticas difíceis, e a sua escrita não foge à regra. Conta-me as tuas frustrações sobre ela.
Eu nem sei muito bem explicar as minhas frustrações com a escrita dela. Só sei que levei 10 dias para ler o livro, sem ter lido mais nada nesses dias, e que o arrastar da leitura estava a dar comigo em doida. Não é habitual eu levar tanto tempo a ler um livro, nem sequer quando o inglês é ligeiramente mais complexo por virtude de o livro ter sido escrito noutra época.

A sensação com que fiquei é que a escrita dela é muito descritiva, pouco dada a avançar com o enredo, e sei que dava frequentemente por mim a ler um parágrafo e a olhar para o ar, a sonhar acordada, porque a escrita não me cativava. É claro que isso me dificultou, e muito, o avançar da leitura, ao ponto da frustração, o que também não tornou a leitura fácil.

No entanto, sei separar as coisas e consegui deixar que isso não me afectasse o gosto que tirei da história. A minha sorte é que já a conhecia, de ver a série, e estava predisposta a gostar dela. E de certo modo, apreciei o nível de detalhe que o livro trouxe, dá certas nuances aos acontecimentos e às atitudes dos personagens, coisas que a série não permitiu explorar. E por isso, e por já ser fã da história, acabei por gostar do livro, apesar de não ter ficado fã da maneira como a Elizabeth Gaskell escreve.

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O livro que a Patrícia escolheu para eu ler no próximo A rainha manda... é:

It Happened One Autumn, Lisa Kleypas
Depois de fazer a minha querida p7 sofrer com a leitura anterior (mais uma vez mil perdões), este mês decidi-me por uma leitura mais levezinha e bem divertida. It Happened One Autumn é um dos meus livros preferidos do género, e faz parte de uma das minhas séries preferidas e tem, claro, um dos meus casais preferidos. Por isso, ofereço-te os explosivos Lillian e Marcus para te alegrar num mês tão frio.

Obrigada, e ainda bem! Preciso mesmo de descansar da leitura mais pesada que foi a deste mês... até gostei bastante da Lisa Kleypas quando a li, não sei porque é que tenho adiado a leitura dos livros seguintes da série.

Podem ver qual o livro que sugeri à Patrícia para este mês, e o porquê de o ter escolhido, aqui.

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