Opinião: Fui reler as minhas opiniões dos livros anteriores. Ai mãezinha. Posso dizer que o início da opinião do segundo ainda se aplica. Esta autora, esta série, deixam-me profundamente ansiosa. Não sei como, mas ao longo de dois livros inteiros ela conseguiu torturar os dois protagonistas (e a mim) de tal maneira que toda eu sou um pudim tremelão só com a noção de ter de chegar com esta série ao fim e (potencialmente) sofrer (ainda) mais pelo caminho.
Bem... tinha razão e não tinha razão ao ficar preocupada. Não com a capacidade excelente da Marie para a intriga, e para me galvanizar a alma com uma prosa fabulosa. Tinha razão para ficar preocupada com o meu potencial sofrimento. Mas não tinha razão no sentido em que a Marie me levou por um caminho inusitado, e que me deu tudo o que eu não sabia que queria. Portanto, eu... sofri, mas fiquei feliz por isso, suponho que posso dizer.
Ok, no final do livro anterior a Kestrel tinha ficado num lugar mau, digamos assim. Essa situação tem seguimento, e oh raios, um pouco do que estava à espera, mas também muito que não estava. A minha querissíma Kestrel... o espírito dela é quebrado, o que é assustador, porque se há coisa que ela fez ao longo deste tempo todo, foi não desistir.
Depois a história dela evolui para um terreno... curioso, mas estranhamente, gostei. Deu-lhe uma tábua rasa com que trabalhar (a ela e ao Arin), e provavelmente era o que precisava. Aliás, o enredo todo evolui no sentido de lhe dar mais liberdade para trabalhar, e gostei muito de ver isso. De ver a Kestrel a fazer o que sabe fazer melhor, sem constrangimentos nesse sentido.
Quanto ao Arin... bem. Ao longo da série tenho tido uma certa dificuldade em gostar tanto do Arin como gosto da Kestrel. Ele é tão... sem noção às vezes. Enquanto que a Kestrel usa todas as ferramentas ao seu dispor para tomar decisões, seja a mente estratega que tem, as suas emoções, ou o seu sexto sentido, já o Arin... eh, ele até tem sexto sentido. E até tira boas conclusões com ele. Mas depois foge na direcção contrária, porque duvida de si próprio, e está muito decidido a detestar-se e à Kestrel pelo que aconteceu. E fica cego a certas coisas
É claro que eu tinha pedido que ele sofresse muito, e sofre, na verdade, com a culpa de ver o mal que fez à Kestrel a esmurrá-lo finalmente no nariz. É bem feito. Para ele. Para a Kestrel não é nada bem bem feito. Enfim, pondo isto de parte até acabei a gostar do percurso do Arin, porque a relação dele com a sua cultura e com os seus deuses, e com o que faz e tem de fazer para atingir os seus objectivos, é muito interessante.
No que toca a estes dois juntos, repito o que disse ali em cima acerca da Kestrel, porque se aplica. A situação inusitada em que se encontram faz com que haja uma curiosa combinação de familiaridade e novidade na relação deles, e achei fascinante explorar isso. Porque depois de tudo o que aconteceu, não basta gostar. Têm que se rehabituar um ao outro, reencontrar e reencaixar, digamos. Toda a situação foi tão inesperada que fiquei surpreendida por gostar, mas a Marie fez algo que nunca pensaria que eu quereria.
Não posso deixar de mencionar o Roshar, coisinha preciosa que ele é, com tudo o que lhe sai da boca a ser absolutamente delicioso e hilariante. (Ele e o Sturmhond da Leigh Bardugo podiam fazer um clube, e seriam um arraso.) Gosto tanto dele, e acho tão interessante que ele se desarme a si próprio, causando às pessoas uma sensação de que é mais inofensivo do que provavelmente é. São estas pessoas que passam despercebidas e acabam a surpreender tudo e todos com a profundidade do que lhes vai na cabeça.
A escrita da Marie, já disse, cai-me mesmo no goto, é tão bonita, e mesmo emocional, faz-me viver e vibrar com o que está a acontecer. E o enredo corre mesmo bem, houve tempo para (quase) tudo, o que precisava de ser resolvido, foi, sem fechar tudo de modo bonitinho. Lá porque se chegou a um ponto que se queria atingir, não quer dizer que seja tudo perfeitinho. Prefiro assim. A vida nunca é inteiramente resolvida.
Usei ali aquele "quase" entre parêntesis porque há coisas que eu gostava de ter visto mais exploradas. Vimos tão pouco do Verex, e teria apreciado conhecer e ver mais das irmãs do Roshar, porque aquela família é de estouro. Também achei que as coisas se resolveram tão depressa no fim. Não é que não fizesse sentido. Faz muito, e adorei a solução que foi dada. Só que depois de tanto nervosismo não estava preparada para que acabasse tudo. Oh, e a situação com o pai da Kestrel? Apreciei que ficasse no pé em que ficou. Nem sempre as coisas são como nós queremos, por vezes as pessoas mais próximas desiludem-nos e não há nada a fazer para o resolver.
E pronto, acabou. Mal consigo acreditar. O que é que eu vou fazer agora à minha vida? O que é que a Marie vai escrever a seguir? Estou positivamente saltitando de curiosidade. Ou de vontade de voltar a ser torturada emocionalmente. Er, as duas coisas, na verdade.
P.S.: A editora tencionava mudar as capas para este terceiro livro. Mesmo no hardcover, que é a edição que eu tenho, e quanto é que eu gosto que me mudem as capas a meio duma série? NADA. E ainda menos quando faltava só um livro. Mas no Twitter, depois de serem reveladas, houve uma indignação e chinfrim tal que acho que fizeram os editores recuar.
E ainda bem. Que as capas novas e altamente genéricas e não tão bonitas assim como eles acham que são fiquem para os paperbacks. Eu cá? Se há altura em que sou uma taradinha por vestidos bonitos, é esta.
Páginas: 496
Editora: Farrar Straus Giroux (MacMillan)


