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domingo, 20 de novembro de 2016

Anexos, Por Um Fio, Rainbow Rowell

Anexos / Por Um Fio, Rainbow Rowell

Título original: Attachments (2011) / Landline (2014)

Páginas: 352 / 320

Editora: Chá das Cinco (Saída de Emergência)

Tradução: Fernanda Semedo

Em ambos os casos foi uma releitura, e por isso não vou repetir o que disse na minha primeira opinião de cada livro (Attachments e Landline, links nos respectivos títulos). Ambas ainda se aplicam inteiramente, por isso vou apenas acrescentar o que a releitura me trouxe.

Sobre o Anexos: divirto-me tremendamente com a premissa. Gosto muito de livros que brincam com a forma de narrar a história, como neste caso usando e-mails, apesar de a base ser a escolha não propriamente ética de um dos personagens continuar a ler os e-mails de outras pessoas, a que tem acesso.

Contudo, lá está, é impossível ficar zangada com o Lincoln. Como disse na minha opinião original, ele é pateticamente adorável. É o ter de estar neste emprego que detesta, o ler os e-mails de outros, o ficar envolvido nos dramas pessoais da Beth e da Jennifer... tudo isso contribui para o fazer sair da casca, perceber o que quer da vida e seguir nessa direcção.

O mais importante no meio disto tudo, e que lembra que ele é um bom tipo que se enterrou numa situação difícil, é que ele nunca tenta beneficiar da informação privilegiada que recebe de ler os e-mails da Beth. Quando ganha juízo, simplesmente afasta-se, compreende que nunca poderá ter o que deseja por ter começado assente numa premissa menos própria, e afasta-se. O coração dele está no local certo.

Tenho pena de nunca termos um POV real da Beth. Os e-mails dela são cândidos, mas nunca contam a história toda. Conseguimos perceber que ela está mais envolvida na história do "tipo giro" (=o Lincoln) do que dá a entender, mas mesmo assim, ah, adorava ler o que ela realmente estava a pensar. E na parte final do livro, ui, aí era excelente ler o que lhe estava a passar pela cabeça.

Chego à conclusão que adoro o final. Lembra-me o final do filme Amélie, uma pessoa passa o raio do filme a torcer para que ela ganhe juízo, e no momento crucial, acobarda-se. E depois *respira fundo* a maior da surpresas acontece (a sério, o realizador deve gostar de brincar com as nossas expectativas), e aquilo é tão intenso e excitante, apesar de ser uma cena muito simples.

O final deste livro lembra-me isso. Uma coincidência misturada com uma surpresa, uma cena final simples e intensa que nos faz torcer por toda a gente envolvida. Aquela vontade de gritar "SIM" em altos berros por finalmente tudo se ter encaminhado na direcção certa. Céus, a Rainbow gosta de brincar com as minhas emoções.

Sobre o Landline: gosto especialmente de a autora conseguir transmitir tão bem uma situação pela qual nem toda a gente terá passado, e com a qual se poderia não identificar. Ela transmite bem a "crise" no casamento da Georgie e do Neal, e este é um excelente livro para mostrar como a Georgie se lembra de porque é que casou com ele, e porque é que ele casou com ela.

Gosto do aspecto "viagem no tempo", porque é bem executado e faz sentido. Reviro os olhos à ineptitude da Georgie em relação a, bem, quase tudo. (A sério, é como um bebé no que toca a life skills.)

Gosto de ver que o livro não aponta dedos entre o casal. Sim, a Georgie é uma despassarada e de certo modo negligenciou em parte a vida familiar, mas vê-se como os adora e morreria sem eles. O Neal é extraordinário em quase todos os aspectos, um pai-dono-de-casa-barra-doméstico, mantendo o barco à tona... mas é muito claro que ele é péssimo a comunicar, e algo passivo-agressivo quando não está contente com algo. O que com a Georgie é impraticável, porque ela nunca repararia.

Ou seja, ambos têm culpas no cartório pela maneira como as coisas estão... de certo modo gostava que o livro passasse por eles falarem sobre estas coisas, estarem cientes que elas não ajudam a manterem-se como casal, e mostrarem-se decididos a melhorar no que puderem. Do lado da Georgie vemos alguma coisa, mas como o POV é todo dela, nunca vemos a perspectiva do Neal, e eu acho que isso era importante, ele ver que tem direito a estar zangado, mas que tem de se manifestar em vez de meter uma rolha, arriscando-se a rebentar mais tarde.

Gosto que nunca seja um problema a Georgie ser a parte trabalhadora do casal, e que ela nunca se sinta culpada por "não ficar em casa"/ser mais doméstica. Por vezes a sociedade ainda vê estas coisas de forma muito tradicional, e é importante ver uma inversão de papéis de forma positiva, como ocorre neste casal. Cada um é perfeito para o papel que ocupa, e não podia ser doutra maneira.

Uma leitura gira, mas que como muitos livros da Rainbow, me sabe a pouco. Fico sempre com vontade de ler mais sobre os personagens que ela escreve.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Fangirl, Rainbow Rowell


Opinião: Acho que nesta releitura vou remeter para a minha opinião original, porque essencialmente tudo o que disse ali, ainda se aplica. Continuo a gostar daquilo que gostei, o que o livro me disse na altura ainda é capaz de mo dizer agora.

Não é um sinal de estagnação, mas sim um sinal de um favorito, fixo no céu como uma estrela, sempre pronto a oferecer conforto quando dele precisamos. Gosto bastante do que a Rainbow faz nos seus livros e este é especial entre eles.

Quero só acrescentar algumas considerações acerca de traduções, que esta em particular me suscitou. Tenho pena que a maior parte dos tradutores em Portugal traduza (assim mo tem parecido até agora) o que tem à frente sem olhar ao contexto, sem consideração pelo conteúdo do texto que tem à frente. Tomando o contexto, as coisas não seriam traduzidas literalmente, e creio que muitos dos erros de tradução partem daqui.

Outra coisa que me desaponta é a tradução sem uma noção de conhecimento sobre a sociedade que é explorada no livro traduzido. Ninguém pensaria em traduzir o Anna Karenina do russo sem entender a sociedade russa do século XIX; mas pelos vistos qualquer um pode traduzir livros do inglês com o mínimo esforço. *suspiro*

Nem sequer é que as pessoas façam exactamente um mau trabalho, em si, mas... sei lá, tenho alergia a falta de empenho e/ou brio no trabalho que se faz. O exemplo deste livro nem sequer é dos melhores, porque na sua maioria, não tive razões de queixa, e faz um bom trabalho. Mas tem duas ou três ocasiões que me levaram a estas considerações acima, que nem sequer são bem sobre este livro em si, são sobre o panorama geral em Portugal - e no entanto, o livro faz indubitavelmente parte dele.

Uma, durante uma conversa entre a Reagan e a Cath, a primeira pergunta algo do género "sois gémeas verdadeiras?" Er, não, não e não. Ninguém desta idade e geração usa esta forma verbal. E realmente ela não é usada durante o resto do livro. Estou pronta a aceitar que seja um problema que não foi corrigido na revisão. (Que é um problema em si em Portugal, mas enfim...)

Dois, "repas"? Er, há algum problema com a palavra "franja"? Eu sei que é usado no contexto da aparência de um rapaz, mas parece-me que podemos dizer que um rapaz tem franja. Em alternativa, farripas de cabelo era mais adequado, mas enfim. Faz comichão quando se metem a usar termos semi-obscuros (ao menos nunca me vou esquecer da Parúsia por causa disso) só porque sim, e não sem uma boa razão para tal.

Três, há por ali uma expressão que diz algo como "um corpete seco". Oh, céus. Esta até me dá vontade de chorar. O original tem a palavra "corsage", que é um ramo de flores, especificamente um usado nos bailes de finalistas americanos pelas raparigas. Pois. Corsage, não corset. Um corpete seco não faz sentido algum, mas um ramo de flores seco já faz. Daí os meus comentários sobre entender algo da cultura que se está a traduzir.

E pronto, como eu disse no todo a tradução é bastante decente, mas basta eu apanhar duas ou três destas, para ficar frustrada. Fico especialmente frustrada porque o resto até é um bom trabalho. E portanto, leva por tabela, ainda mais quando a frustração se vai acumulando ao longo de vários livros anteriores.

Acaba por ser por estas coisinhas que eu acabo a ler mais em inglês. Não consigo desligar a leitora em inglês quando leio em português, e por isso na maior parte dos casos prefiro não ter alguém a intermediar a minha compreensão do texto, especialmente se é para me dificultarem a vida. Venha o próximo e que não me complique tanto a leitura.

Título original: Fangirl (2013)

Páginas: 448

Editora: Chá das Cinco (Saída de Emergência)

Tradução: João Seixas

terça-feira, 28 de junho de 2016

Curtas: Kindred Spirits; Por Sorte, o Leite

Kindred Spirits, Rainbow Rowell
Céus, este conto é adorável. A Elena é uma fã dos filmes Star Wars por influência do pai, e previamente ao lançamento de The Force Awakens, o filme mais recente, decide juntar-se à fila para o cinema antes de o filme estrear. Só que a celebração de fãs que a Elena esperava não é bem o que acontece...

O que eu gosto no conto e até noutras histórias da Rainbow é que ela reflecte no que é ser fã de algo, que não há certos ou errados quanto a ser fã de uma coisa. Todos gostamos de alguma coisa, todos gostamos de exprimir apaixonadamente esse gosto. Simplesmente encontramos formas diferentes de o fazer.

A Elena exprime o seu gosto por, e tem uma relação com Star Wars diferente da que os outros fãs da fila têm, e isso está bem. É divertido conhecer estas pessoas e ver o que fazem nos dias anteriores à estreia, por poucas que sejam.

O fim do conto é tão, tão bom. Super adequado. De certo modo já estava à espera, depois de tanta antecipação, mas foi muito bem vindo, e muito bem pensado.

Por Sorte, o Leite, Neil Gaiman, Skottie Young
Um livro para crianças, para ler aos filhos, claramente, porque tenho a sensação que isto lido em voz alta deve ser altamente hilariante. A história é muito ao género deste tipo de livro, com repetições de temas e acontecimentos, e uma evolução da história com crescentes reviravoltas até ao clímax do final da história.

Onde esta brilha é na fantástica imaginação do autor: esta é uma história que mete extraterrestres, piratas, tribos que fazem sacrifícios a vulcões, e vumpiros. (Sim, vumpiros.) Ah, e mais importante que tudo, viagens no tempo. Adorei esse elemento porque flui mesmo bem e as reviravoltas estão bem montadas.

Adorei acompanhar a história que o pai contou das suas aventuras e crescentes desventuras; e adorei os filhos, sempre a tentar apanhá-lo em falso. O final tem uma piada especial que é revelada na última imagem. E por falar na arte, tão gira. O Skottie Young tem este estilo meio doido mas tão apelativo.

A única coisa de que me queixo é a alergia que os editores portugueses em geral têm a meter um advérbio nos títulos dos livros, porque realmente "Felizmente, o Leite" soa-me melhor. ("Afortunadamente, o Leite" ainda era mais fixe, mas isso já era demasiado complicado para este pessoal. E não estou a falar dos miúdos.)

A repetição da expressão é feita vezes sem conta na história (afinal no meio de tantas peripécias, o pai esforça-se para regressar aos filhos e levar-lhes o leite), e até lhe é dada uma volta, quando as coisas não correm tão bem - fortunately passa a unfortunately, sorte passa a azar, mas felizmente podia perfeitamente passar a infelizmente.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Curtas: Eleanor & Park, This Night So Dark

Eleanor & Park, Rainbow Rowell
Vai ser um comentário curto, porque esta foi uma releitura, e para a parte de babar para o livro vou colocar aqui apenas o link para a minha opinião original, que se mantém. Apenas vou dizer que é um livro que vale a pena ler e dar uma oportunidade, porque é uma história bem gira sobre o primeiro amor, e os seus altos e baixos, e a Rainbow escreve duma maneira muito realista e verdadeira.

Quanto à edição em português, posso dizer que fiquei satisfeita. Não dei com erros de revisão, e não tenho queixas de maior da tradução. (Há o uso de uma ou outra palavras que me parecem ser mais antiquadas, mas suspeito que possa ser a maneira de a tradutora transmitir que a história se passa nos anos 80? De qualquer modo, não me incomodou para além da estranheza inicial.)

Como comentário final à releitura, tenho a dizer que foi capaz de me cativar como se fosse a primeira vez. Encantei-me e sofri novamente com Eleanor e Park, indignei-me com a vida familiar da Eleanor e adorei conhecer os pais de Park. Um testamento a quanto gostei do livro e da autora.

This Night So Dark, Amie Kaufman, Meagan Spooner
Esta é uma curta história que recapta o protagonista masculino de These Broken Stars, o Tarver, e que reconta na perspectiva dele um evento aludido nesse livro, a maneira como ganhou a sua promoção militar, que curiosamente o colocou no local e momento certos para estar no centro dos acontecimentos de These Broken Stars.

O melhor da história? Tem uma grande ligação com os acontecimentos do primeiro livro da trilogia, mesmo decorrendo antes deste livro. Alguma tecnologia que vemos no planeta em que o Tarver e a Lilac se despenham está em This Night So Dark a ser estudada num laboratório a modos que secreto, num outro planeta, e o Tarver está de patrulha quando se vê envolvido num assalto que mercenários interessados nessa tecnologia fazem ao laboratório.

É fascinante ver como as pessoas envolvidas em ambos os eventos são, como direi, ah sim, mal puro. Aquilo que estão a tentar fazer, e os métodos que usam para fazê-lo, bem, são arrepiantes. Devo dizer que espero que o Tarver perceba a sorte que tem por não só lhes ter lixado os planos e sobrevivido a eles, como tem uma sorte macaca por o ter conseguido duas vezes. Não me parece que tenha acontecido com muita gente neste universo.

O outro ponto que queria destacar é o relato, bem ao estilo do primeiro livro - capítulos com narração da história principal, intercalados com um diálogo que nos mostra que o Tarver está a contar a história a alguém; neste caso a Lilac, aparentemente numa noite depois de ele ter um pesadelo com a situação. Fico tão feliz só de pensar neles os dois juntinhos, a ter uma vida em comum, especialmente depois dos eventos de These Broken Stars. Pontos bónus por as autoras terem conseguido sugerir isso tão bem em tão poucas palavras.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Landline, Rainbow Rowell


Opinião: Eu tencionava mesmo esperar pelo novo ano para ler este livro, em particular tencionava esperar pela edição semelhante às minhas outras da Rainbow, mas que se lixe, não resisti. Percebi que valia a pena aproveitar esta edição, a que chamam edição internacional, e que é bem grande e baratinha. Além disso, encaixa perfeitamente no meu mini-desafio de leituras natalícias, e tem o bónus de eu ter acabado por ler toda a obra publicada da autora este ano, por isso juntou-se o útil ao agradável.

Depois de ter a oportunidade de ler toda a sua obra, creio que uma das melhores coisas da Rainbow Rowell, possivelmente a que mais me cativa, é a maneira como ela escreve os seus personagens e as relações entre eles. Não importa o ponto em que estejam na vida, ou o tipo de problemas que enfrentam, ela escreve-os de maneira tal que é tão fácil empatizar com eles, compreender aquilo por que passam, e acompanhar a sua evolução.

É fascinante. Já tive oportunidade de acompanhar um primeiro amor e problemas familiares (Eleanor & Park), a saída da zona de conforto ao entrar para a faculdade (Fangirl), o firmar da vida adulta, entre trabalho e amor (Attachments), e agora de ler sobre um casamento em crise (este Landline). E sendo possivelmente aquele com o tema mais afastado das minhas vivências, não pude deixar de imergir na vida dos personagens, analisar as suas decisões de vida, e entender o que correu mal.

Georgie McCool é argumentista de televisão em Los Angeles, e tem finalmente a oportunidade por que tanto esperou: a de ter a sua própria série produzida. Mas isso implica que fique em LA durante o Natal, quando a família já tinha planeado visitar os pais do marido, Neal, durante as festas. Neal parte para o Nebraska com as filhas de ambos e sem Georgie, deixando-a a perguntar-se se o seu casamento não terá chegado ao fim.

Um ponto bem interessante na história é a ideia detalhada que dá da relação da Georgie e do Neal. Através de flashbacks acompanhamos o nascer da sua relação, e os pontos importantes da mesma, os altos e baixos, as suas personalidades, o que os atrai e afasta, as suas qualidades e defeitos, e é uma descrição fascinante, porque não se podem apontar dedos.

São precisos dois para dançar o tango, e um casamento é um encontro de partes a meio do caminho. Tanto um como o outro têm algum tipo de responsabilidade no caminho que tomaram e ao ponto a que chegaram. Georgie é deleixada e alheada, não só com o marido, mas também consigo própria, contudo sempre o foi, mesmo antes do casamento, assim como sempre foi trabalhólica. O Neal é um doce de pessoa, mas nunca teve objectivos claros, e é péssimo a comunicar. O resultado é este impasse que faz perguntar se o amor chega para manter estas duas pessoas juntas.

A questão do telefone "mágico" é curiosa. Não interessa tanto o como ou o porquê, apenas a maneira como afecta a Georgie no seu percurso. O telefone é apenas um meio para ela se aperceber do estado a que o seu casamento chegou, e para lembrá-la do amor que sente pelo Neal, e do bom que o casamento lhes trouxe, e para a ajudar a perceber o que fazer agora.

Depois de o Neal partir com as meninas, a Georgie não consegue perceber o que aconteceu, se acabou tudo, e por isso fica algo descontrolada, o que gera algum tipo de interacções engraçadas - com os que estão à sua volta e com o telefone. No entanto, a coisa que mais me fascinou acerca do telefone é o modo como no fim de contas aquele pequeno loop temporal acabou por encaixar perfeitamente. (Gosto muito de histórias que mexem com a linha temporal, mas tem tudo que fazer sentido.)

Dos personagens secundários, destacaria as miúdas da Georgie e do Neal, a Alice e a Noomi, que são tão fofas, particularmente a Noomi, que cumprimentava as pessoas com "miaus"; ou o Seth, o parceiro de escrita da Georgie, e um daqueles tipos que acha que é a melhor coisa do mundo, e por isso foi tão divertido vê-lo entalado numa espécie de existência Peter Pan.

Destacaria também a família da Georgie, cheia de pequenas idiossincrasias bem engraçadas - gostei especialmente da irmã Heather, que por ser tão mais nova tem uma perspectiva de vida tão diferente, e consegue mesmo assim ser uma personagem tridimensional e interessante. (E já agora, adorei o momento do parto da cadela da mãe da Georgie. Hilariante.)

Gostei bastante do fim, porque obriga a Georgie a perceber umas coisas que lhe tinham passado completamente ao lado, e porque a faz perceber o que é realmente importante, e que às vezes o "grande gesto" tem um certo peso. Não é tudo perfeito, não nos é prometido um felizes para sempre, porque a vida real não funciona assim, mas creio que o que nos é dado chega, uma vontade de fazer melhor e de fazer resultar as coisas. É tudo o que posso pedir.

Entre as pequenas coisas que me frustraram, destacaria a personalidade da Georgie. Primeiro, porque o Neal vai de férias com as miúdas, e ela começa logo a fazer um grande filme, sem saber exactamente o que é que ele tem em mente. Depois, porque ela é tal e qual um gatinho recém-nascido, é incapaz de cuidar de si própria. Não se lembra de comprar roupa nova quando precisa, não sabe cozinhar nem para se salvar, não anda com uma carteira sequer (só um cartão de crédito e a carta de condução no porta-luvas do carro, que me parece super-bizarro, mas enfim) e quando vai à aventura no fim do livro, vai completamente despreparada, e era capaz de morrer congelada se não fossem dois bons samaritanos.

O Neal também é um bocadinho frustrante por um lado por andar ali à deriva em 1998, e nunca saber bem o que quer da vida. Era um bom cartoonista, aparentemente, e tenho pena que nunca tenha tentado profissionalizar-se. Seria algo bastante compatível com a sua vida em 2013. Por outro lado, ele é mesmo introvertido, e nunca abre a boca, e é impossível perceber o que lhe vai na cabeça. Não sei se teria resultado, mas gostava que ele tivesse deitado cá para fora as suas frustrações para com a Georgie, não me parece nada saudável guardar tudo lá dentro. Suponho que já ficava contente se pudesse ler qualquer coisa do ponto de vista dele.

E falei dos bons samaritanos ali em cima: eu sabia que o livro tinha um cameo de personagens do Fangirl, mas durante a leitura e quando cheguei à parte que aparecem nem me lembrei disso. Sabia que me eram familiares, e que eram importantes de algum modo, mas só cheguei lá bem depois de terminar este livro. Sou uma esquecida. Contudo, até foi engraçado, ler essa passagem sem ideias pré-concebidas.

Em suma, é um livro delicioso, muito ao estilo da autora, e quem é fã vai provavelmente gostar, quem não conhece, também não recomendaria começar por este. (O melhor para começar mesmo é o Eleanor & Park, que por acaso até vai sair em português em Janeiro. *winkwink* Depois, talvez o Fangirl.) É uma história bastante realista, e mesmo quando os personagens me irritavam um pouco, era impossível não os compreender, ou perceber o que estavam a passar. O ponto forte da autora é escrever bem sobre os tons de cinzento que constituem a vida, e este é só mais um bom exemplo disso.

Páginas: 320

Editora: St. Martin's Press (MacMillan)

sábado, 22 de novembro de 2014

My True Love Gave to Me, antologia editada por Stephanie Perkins


Opinião: My True Love Gave to Me é uma antologia de contos com tema festivo, subordinando-se à época natalícia e de Ano Novo para apresentar uma dúzia de histórias escritas pelo mesmo número de autores, sendo que a totalidade das histórias se encaixa na faixa etária YA (e todos os autores me parecem publicar maioritariamente YA, também).

Em jeito de visão geral, é um bom conjunto de histórias, que me agradou imenso. Os nomes dos autores são em grande parte meus conhecidos e por isso já me sinto confortável com a sua escrita e o seu estilo narrativo - se bem que não será essa a razão principal para eu ter gostado dos contos ou não, já que gostei de contos de autores para mim desconhecidos, por exemplo.

Fiquei surpreendida com o tom ligeiramente mágico de alguns contos. Não é que não o esperasse de alguém como a Laini Taylor; mas o meu primeiro conto "mágico" da antologia foi o da Kelly Link, uma autora que não conhecia, e não sei bem porquê, não me identifiquei com a maneira como a história foi contada. Também o segundo conto "mágico", o da Jenny Han, me soou um pouco estranho, talvez inacabado, mas fiquei curiosa por ler mais coisas dela.

Por outro lado, fiquei a conhecer a voz de novos autores, e gostei muito daquilo que li do Matt de la Peña, da Myra McEntire, e até da Holly Black ou do David Levithan. Cada um deu uma perspectiva única à sua história, e isso contribuiu para manter o meu interesse no conto.

Das autoras que já conhecia, adorei reler a Rainbow Rowell, a Stephanie Perkins, a Gayle Forman, a Kiersten White, a Ally Carter, e a Laini Taylor. Qualquer uma destas senhoras é capaz de escrever uma boa história, e apreciei acompanhá-las, encontrando novas histórias e um estilo já conhecido e confortável.

Midnights de Rainbow Rowell é uma história adorável sobre dois amigos, um rapaz e uma rapariga, que se juntam nas passagens de ano em 4 anos sucessivos. Gostei do formato (ano após ano), que permitiu ver a evolução da relação deles, e foi deliciosamente frustrante esperar que pelo menos um deles se apercebesse do que tinham.

The Lady and the Fox de Kelly Link foi uma história que tive dificuldade em acompanhar. Não sei se por causa do tom ou da escrita. A ideia é interessante, um ser mágico que ano após ano aparece a uma família, preso a uma figura misteriosa, mas o tom não encaixa propriamente com o tema natalício, e a premissa precisava de ser melhor desenvolvida para funcionar.

Angels in the Snow de Matt de la Peña foi uma boa surpresa. Gostei da voz que o autor deu ao protagonista, pois senti-a muito credível, e era possível acreditar nas dificuldades e tristezas que carregava. Além disso, a história pega num tema apropriado à época, com duas pessoas que nunca se cruzariam a aproximarem-se graças à mesma.

Polaris is Where You'll Find Me de Jenny Han é uma história estranha. Fez-me confusão pegar-se nos habitantes do Polo Norte, torná-los reais, e ainda criar uma protagonista humana que cresceu educada pelo Pai Natal e rodeada de elfos. A história pareceu-me inacabada, por deixar uma situação em suspenso, mas também foi isso que me intrigou.

It's a Yuletide Miracle, Charlie Brown de Stephanie Perkins conta com dois protagonistas encantadores, e com uma química bem credível, mesmo ao jeito da autora. Gostei muito da exploração do passado dos protagonistas e como isso faz deles o que são. Cada um tem as suas particularidades, mas fazem um belo casal, e acreditei na sua aproximação.

Your Temporary Santa de David Levithan consegue sugerir muito com pouco, e apresentar uma história fofinha - o protagonista veste-se de Pai Natal para permitir a uma menininha continuar a acreditar no mesmo. Pontos bónus por apresentar um casal gay naturalmente. O fim parece um pouco fraco, mas apreciei vislumbrar as dúvidas do protagonista.

Krampuslauf de Holly Black funcionou bem para mim, pois mantém a aparência de realismo, só sugerindo o mágico, e revelando-o mais no fim. Acabou por ser interessante pela determinação da protagonista e pelas peripécias que ocorrem. A narração é singular - no início nem dá para perceber de que sexo é a personagem principal, e o seu nome só é mencionado no fim.

What the Hell Have You Done, Sophie Roth? de Gayle Forman é curiosamente nada dramático. Consegue apresentar os problemas da protagonista, fazer perceber onde ela tinha razão e onde podia melhorar. Gosto da voz sarcástica dela. É engraçado, porque apresenta a questão da discriminação dum novo ponto de vista, virando a posição dos dois personagens principais.

Beer Buckets and Baby Jesus de Myra McEntire tem um tom tão, tão divertido. O personagem principal é um ensarilhado e admite-o sem pedir desculpas. Dá para vislumbrar como é que a vida fez dele o que é, e as peripécias da história levam-no a desejar ser uma melhor pessoa, e a esforçar-se nesse sentido. Alguns personagens secundários surpreendem, no bom sentido.

Welcome to Christmas, CA de Kiersten White tem o bom humor da autora na sua concepção, mas também consegue desenhar um bom retrato do mundo interior da protagonista, do que a frustra e daquilo que falha em ver. Numa lição natalícia, acaba por apreciar melhor o que tem e aproveitar o que vem ao seu encontro. E a noção duma vila natalícia é hilariante.

Star of Bethlehem de Ally Carter tem uma premissa que roça o difícil de acreditar, mas que a autora faz resultar, tal como nos seus livros de Gallagher. A protagonista precisava de um bocadinho de paz, de encontrar um refúgio, e a família que a acolhe é fantástica nesse aspecto. Consegue ainda esboçar os problemas que afligem alguns personagens em poucas palavras.

The Girl Who Woke the Dreamer de Laini Taylor era o único conto que eu à partida tinha a certeza que ia ser bom, porque tudo o que sai da cabeça da Laini é fascinante e cativante. Sem entrar em muitos detalhes, a personagem principal tem uma vida complicada, num local que já de si é duro, e num momento de desespero pelo futuro incerto, inicia uma coisa mais fantástica e maravilhosa que alguma vez podia imaginar. Com o toque de magia habitual, a autora faz duma história simples uma bela aventura.

Páginas: 336

Editora: St. Martin's Press (MacMillan)

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Attachments, Rainbow Rowell


Opinião: Este é um livro com uma premissa estranha, e só uma autora como a Rainbow Rowell para me pôr a lê-lo, adorá-lo, devorá-lo, e ainda pedir por mais. A sério, esta senhora tem um modo de caracterizar os personagens que é soberbo, descrevendo-os como se fossem pessoas que realmente conhecemos, e com as quais convivemos; e o seu talento estende-se ao ponto de dar um mundo interior bem rico a cada personagem - toda a gente tem as suas particularidades, e todos têm o seu interesse, se nos dermos ao trabalho de os conhecer.

Attachments é a história de Lincoln - considero-o o protagonista, porque esta é essencialmente a sua história, é ele que mais muda e cresce ao longo da mesma -, um jovem que acabou de sair da universidade, após tirar vários cursos (já agora, bem gostava de saber o que é que ele andou a tirar, oh Rainbow), e que está a começar um novo trabalho. Está na área de Informática de um jornal, e o seu trabalho passa por verificar e-mails dos funcionários que o sistema marca como potencialmente inadquados para o trabalho, por terem certas palavras-chave. (É o fim dos anos 90, a Internet está a dar os primeiros passos na direcção do que conhecemos hoje em dia. Uma preocupação com ramificações éticas interessantes, ainda mais se contrastada com a falta de privacidade que temos hoje em dia.)

O Lincoln detesta este emprego: passa horas sem fazer nada, e odeia dar uma de cusco e andar a espreitar a correspondência dos outros. Só que tropeça nas trocas de e-mails de duas jovens amigas que trabalham no jornal, a Beth e a Jennifer, e fica fascinado com a correspondência delas. Sabe que está errado, mas não consegue deixar de ler o que escrevem, e quando dá por si, está completamente apanhadinho por uma delas, a Beth.

Portanto, sim, premissa muito estranha. Só resulta por duas coisas. Uma, é que como leitores queremos continuar a acompanhar a história da Beth e da Jennifer, e queremos continuar a ler os seus e-mails, e é por esse nosso lado curioso que podemos desculpar a curiosidade ao Lincoln, porque também é a nossa. É uma espécie de auto-indulgência. Duas, e isto é um pouco esquisito de dizer, mas digo-o no melhor dos sentidos, é que o Lincoln é a coisa mais pateticamente adorável que há.

É que o Lincoln está como que congelado na vida, tendo chegado a uma encruzilhada no seu percurso. Esteve quase uma década na faculdade, este é o seu primeiro emprego, vive com a mãe, e ainda sofre com o desgosto que a ex-namorada lhe deu, alguns anos antes. Não tem nada na vida a que se agarrar, nada que o interesse, e por isso é que ele se agarra tão facilmente aos e-mails da Beth e da Jennifer, porque são um ponto de luz numa existência cinzenta. Emocionalmente, em termos de mentalidade, e de posição na vida, ele tem que crescer, e se foram os e-mails a puxar por ele, não consigo ficar zangada com a situação (ainda que queira fazê-lo um bocadinho).

Por seu lado, a troca de e-mails da Beth e da Jennifer é a coisa mais gira que há. A sua amizade mútua e o seu espirito de companheirismo são fantásticos. Adorei acompanhar as piadas privadas, as trocas de ideias, as confissões, as histórias que contam uma à outra. Como personagens, a autora consegue dar-lhes relevo, mesmo num meio tão complicado, e palmas para isso.

Tenho pena de não poder ler em que mais pensava a Beth em certos momentos, porque tenho a certeza que ela se restringiu em parte; mas a recta final do livro não resultava tão bem se soubéssemos de antemão o que lhe passou pela cabeça nessas alturas, o que ela pensava realmente. Além disso, o que vemos da Beth já me agrada muito. É um pouco ingénua, romanticamente, e também precisa de crescer nesta área, mas tem um bom coração, os interesses no sítio certo, é uma boa amiga, e uma apaixonada por filmes. E tem uma certa coisa em comum com o Lincoln, mas não vou comentar o que é exactamente, porque tem a ver com o desenrolar da narrativa.

A parte da narrativa do Lincoln é muito recompensadora de acompanhar, porque vêmo-lo a evoluir lentamente, a abrir as asas, a sair da zona de conforto, e perceber que há todo um mundo à sua espera. Precisava de ter os pés assentes no mundo adulto para a sua vida andar para a frente. Gostei de o ver relacionar-se com os aspectos da sua vida de maneira diferente, sem deixar perder a pessoa que é, um pouco geek, totalmente tímido, mesmo gentil, e geralmente boa pessoa.

O elenco de personagens secundários é delicioso, muito bom de conhecer, porque todos têm a sua personalidade, sem se perderem no todo. Temos o grupo que joga Dungeons & Dragons com o Lincoln (as referências geek abundam, yay), as pessoas que trabalham no jornal, o Justin e a Dena, a Jennifer e o marido Mitch, e o Chris, que para namorado da Beth, descrito em terceira mão, é muito vívido na sua descrição. Consegui topá-lo à distância. Até a Sam, a ex-namorada horrenda do Lincoln, é bem detalhada, e também se via que ia causar sarilhos à distância.

Acho encantador que a história se passe no fim dos anos 90, mesmo antes da viragem para o ano 2000, com todo o tipo de referências que localizam a narrativa no tempo. Temos a preocupação das pessoas com o bug do milénio, as menções a filmes desses anos (a Beth é crítica de cinema no jornal), e toda uma série de referências de cultura popular que é engraçado reconhecer.

Gostei do final, parecia um pouco à filme, mas depois ao mesmo tempo realista, com conversas que precisavam de ser feitas, a serem mesmo feitas. Só peca por curto, porque eu queria ver mesmo mais. Muito mais. O raio do último capítulo, e da última cena, terminam duma maneira que eu cheguei a pensar que me faltavam páginas ao livro. (Não, não faltavam. Eu é que queria mesmo mais. Se bem que aquela última frase é um pouco abrupta.) Mas fiquei satisfeita com o que aconteceu. Precisava de acontecer assim, ou não o sentiria como certo, e a narrativa desmoronava como um castelo de cartas.

E pronto, mais um livro fabuloso da Rainbow. Esta mulher é fantástica, nos três livros que li dela, conseguiu escrever em três épocas diferentes, e escrever sobre personagens em três pontos da vida diferentes, sempre duma maneira brutalmente credível e honesta, sobre os dilemas próprios de alguém dessa idade. É uma autora que vai para os favoritos sem reservas.

Páginas: 368

Editora: Orion (Hachette)

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Eleanor & Park, Rainbow Rowell


Opinião: Eleanor & Park é, à partida, uma história muito simples. Rapaz e rapariga conhecem-se, e rapaz e rapariga apaixonam-se, num cenário perfeito para saírem de coração partido. Contudo, é o estilo pessoal e o tipo de abordagem que o autor escolhe que normalmente fazem de uma história banal, uma história especial. E este é, claramente, um desses casos. A Rainbow Rowell é, na minha opinião, uma autora  talentosa, capaz de tornar um enredo batido numa história verdadeiramente original, encantando-me com a sua simplicidade.

Eleanor é a miúda nova - grande, voluptuosa, ruiva, não passa despercebida, especialmente com o seu modo excêntrico de vestir. Por isso, mal entra no autocarro é logo "marcada" pelos outros alunos. Só o Park lhe oferece o lugar ao lado do seu, com algum mau feitio. O Park é meio-Coreano e tenta passar despercebido ao máximo, e por isso teme que prestar atenção à miúda nova o coloque na mira dos rufias.

Contudo, ela continua a sentar-se ao seu lado todos os dias, e aos poucos Park aprecebe-se que partilham alguns interesses: Eleanor espreita-lhe por cima do ombro sempre que ele está a ler banda desenhada, lendo com ele. E é na junção de interesses partilhados, de pequenos momentos deliciosos que ambos desenvolvem uma relação bem gira.

Adorei ver o desenrolar da relação deles. Começando por se ignorarem mutuamente, cedo se desenvolve ali uma afinidade, antes mesmo de trocarem palavras. O interesse que a Eleanor manifesta nos comics faz com o Park dê por si a levar mais tempo a ler as páginas, para lhe permitir ler também, e isso quebra o gelo e leva-os a começarem a trocar ideias sobre interesses mútuos. Também achei tão engraçada a maneira como se começam a relacionar fisicamente, como um toque significa tanto e os momentos de intimidade são conquistados aos poucos. Faz da relação uma coisa tão fofinha.

O facto de a história de passar nos anos 80 faz com que seja quase outro mundo. Sem internet, sem telemóveis, sem leitores de mp3 - como é que este pessoal sobrevivia? Pronto, estou a brincar, mas cria uma dinâmica interessante. A Eleanor nem sequer tem telefone, o que limita os momentos em que podem estar juntos, ou falar um com o outro. Walkman e cassettes com playlists é a norma. E o bullying é feito à moda antiga, com insultos atirados ao ar e pensos higiénicos colados no cacifo.

Outro pormenor importante são as menções a cultura popular. Tanto a música, um gosto que os dois jovens partilham e desenvolvem, emprestando um ao outro cassettes com bandas e músicas favoritas... como a banda desenhada. Adoro as menções ao Watchmen, que na altura estava a sair capítulo a capítulo, pelos quais eles esperavam ansiosamente, coisa com o qual não me posso identificar, exactamente, já que se quiser ler o título posso ler tudo de uma vez. E apreciei as menções a personagens e títulos, diverti-me imenso com elas. (Se bem que sou capaz de ter morrido um bocadinho quando a Eleanor diz que acha o Batman e o Ciclope aborrecidos.)

Nem tudo são rosas, no entanto. A Eleanor tem uma vida familiar muito complicada que vai sendo revelada aos poucos, cujos horrores vão aparecendo aos nossos olhos. Fiquei furibunda ao ler a história dela, porque tantas coisas que se tomam por garantidas... ela não tem. Aliás, é interessante ver como o Park está numa posição de privilégio e assume uma série de coisas sobre a Eleanor, ou falha em compreender porque é que ela se porta da maneira que o faz - porque não conhece a situação de carência em que ela se encontra.

Custou-me muito ler sobre a vida da Eleanor, ainda mais pelos seus irmãos. Todos mais novos, alguns muito pequeninos, se bem que de certo modo isso os protege mais na situação familiar. E ainda temos a mãe de Eleanor e dos seus irmaõs. Vítima de violência doméstica, acho que o que mais me choca é ver a sua falta de reacção ao ver o homem que escolheu para a sua vida ameaçar a vida dos filhos.

Quanto ao Park, os seus problemas são de certo modo a falta deles. Os pais amam-se, sendo muito carinhosos um com o outro, e o ambiente familiar é estável e cheio de amor. Mas o Park debate-se com a sua identidade, por baixo do nariz de um pai algo dominador, algo focado num modelo de comportamento mais masculinizado. As suas intenções são boas, e apesar disso sufoca um pouco o filho. Contudo, o mais importante é que quando o filho lhe pede ajuda, trata-o como adulto e aceita as suas decisões. A mãe do Park é uma senhora adorável, um pouco protectora, que acha que a Eleanor vai meter o filho em sarilhos, mas que se comove ao aperceber-se da situação familiar dela, e ao identificar-se com ela.

O fim apertou-me o coração, de várias maneiras. Fico contente que a Eleanor tenha escapado a uma situação que emperigava a sua segurança e a sua vida, mas deixa-me triste a sensação de finalidade que isso transmite. E não estou totalmente satisfeita com a autora por não explicitar melhor o destino dos irmãos, da família da Eleanor. Eu preciso de saber o que aconteceu àqueles miúdos adoravelmente fofinhos, preciso de saber que vão ficar bem.

No fim de contas, de certo modo é melhor assim. Ambos precisam de crescer um pouco. O Park estava meio apaixonado pela ideia de estar apaixonado, e precisa de separar as coisas... e a Eleanor precisa de se ver numa situação melhor, para eliminar a variável de escapismo que a sua relação com o Park tinha. Acredito num final feliz para os dois, mas talvez mais tarde nas suas vidas. Li algures que a autora achava que podia ter material para um segundo livro, e que não descartava essa ideia... por isso eu torço para que ela nos dê um Where You Are (da Gayle Forman) um dia, que eu mereço, e a Eleanor e o Park também, mesmo que seja sofrido.

Páginas: 336

Editora: Orion (Hachette UK)

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Fangirl, Rainbow Rowell


Opinião: Não vou dizer que esta foi uma boa surpresa, porque a parte da surpresa não seria verdade... (A parte do boa, sim.) Mas, oh, simplesmente adoro quando tenho razão acerca de um livro. Quero dizer, tento sempre não ter expectativas, porque essas são tramadas e podem distorcer a leitura... mas por vezes, isso é impossível, especialmente quando tudo o que leio e ouço me dá um bom pressentimento acerca de um livro. O que foi o caso, aqui, felizmente.

A Cath é uma jovem que acabou de entrar para a faculdade com a irmã gémea, Wren. Só que enquanto Cath é uma rapariga introvertida, mais dada a passar uma noite a ler ou a escrever, a Wren é extrovertida, e a entrada na faculdade levou-a a afastar-se um pouco da irmã e a aproveitar toda a experiência universitária, festas incluídas.

Premissa simples, certo? A beleza da coisa é que a autora tem uma escrita fabulosa, capaz de retratar a vida deste elenco de personagens de forma tão realista e credível, que é como se estivéssemos a ler acerca de um amigo ou do vizinho do lado. A caracterização dos personagens é detalhada e bem feita, dando a todos uma vida interior, pequenos pormenores e defeitos que os tornam em pessoas de carne e osso. Passei o livro todo completamente imersa na história graças a este aspecto.

Adorei a Cath. É tão deliciosamente awkward e socialmente retraída e tremendamente criativa. Gostei de a ver debater-se com o facto de ser extremamente tímida e recatada, atirada aos "leões", numa situação em que é impossível não conhecer pessoas novas. A maneira como acaba por ir saindo da casca, aceitando mais algumas pessoas como parte do seu círculo, acaba por ser enternecedor. Sim, ela é um pouco totó no modo como teme situações novas, mas isso gera situações engraçadas. Adoro como a Reagan acaba por se aproximar dela, dizendo-lhe o que pensa, sem dourar a pílula.

Outro aspecto da narrativa é a fanfiction. A Cath e a Wren são fãs do Simon Snow, uma série de livros que é uma espécie de Harry Potter - só que ambos co-existem no mundo do livro. O Simon Snow também é um feiticeiro, também é "O Escolhido", e também tem uma figura meio paternal e mais velha a orientá-lo... mas é obrigado a partilhar o quarto com o seu a-modos-que-némesis, o Baz - que é assim como que o Malfoy e o Snape combinados. Resultado, esta série, à semelhança do Harry Potter, arrasta multidões de fãs - alguns deles dedicados a escrever fanfiction. No caso da Cath, a sua magnum opus é uma slash fanfiction que termina a história a partir do sétimo livro, escrita enquanto o oitavo livro do Simon Snow não é publicado.

Em suma, o aspecto da fanfiction é bastante detalhado. Como devia ser, porque é uma parte tão grande e tão importante da vida da Cath. E o melhor é que me diverti tanto a descobrir este mundo ficcional que até tive pena que os livros do Simon não existissem. Os excertos dos livros, e de algumas das fanfictions escritas pela Cath e pela Wren, acabam por colorir melhor este mundo em que a Cath se deixa imergir, e dá um termo de comparação para o leitor que já se viu na mesma situação: não querer que o mundo ficcional acabe ali. Há alguns aspectos que ancoram a fanfiction na vida da Cath, como o tempo que ela e a irmã investiram nas histórias, o sentimento de tristeza por já não partilhar este hobby com a irmã, e a sugestão de que, em certa medida, a escrita de fanfiction se tornou numa "bengala" para a Cath evitar lidar com os seus problemas na vida real. Não é algo que se torne patológico, no entanto.

Apreciei a complexidade das relações entre a Cath e os que a rodeiam. A tensão com a irmã, por esta se querer libertar do ambiente familiar e querer experimentar tudo o que a vida universitária lhe oferece. (Cheguei a odiar a Wren, mas depois compreendi-a.) A história com a mãe, que as abandonou aos 8 anos e nunca mais voltou, deixando um campo minado cheio de estilhaços naquilo que era a sua família. A preocupação com o pai, ele próprio a lidar com uma doença mental que o faz oscilar em extremos de disposição, mas mantendo-o sempre, sempre, o pai delas. (Adorei o pai deles, que tipo fantástico, partiu-me o coração vê-lo assim.) A amizade com o Nick, a identificação intelectual com ele, e a traição que ele comete. A amizade com a Reagan, uma rapariga furacão que leva tudo à frente, tremendamente frontal, com a qual há alguma tensão por causa do seu melhor amigo, Levi.

Falando no diabo... que rapaz adorável. Um rapaz do campo, maduro, são, um óptimo contraponto às neuroses da Cath. Ficam tão giros juntos. Achei tão giro ver a reacção da Cath a rapazes em geral, e ao Levi em particular, quando começa a reparar nas coisas à sua volta. E a melhor parte é ver a evolução da sua relação, com todos os seus avanços e recuos e contratempos. É muito bom vê-los aceitarem-se mutuamente, sonhos e desejos, e problemas e defeitos incluídos. Achei interessante ler sobre o problema dele com a leitura (é uma coisa em que não tinha pensado, tendo em conta que tenho o problema oposto), e ver como isso o aproximou da Cath ao pedir-lhe para lhe ler.

Acho que já cobri praticamente tudo o que queria dizer. Gostava só de falar da professora de escrita da Cath, a Professora Piper. Gostei de ver a fé que ela tinha na Cath, vendo-a como capaz de grandes coisas. Tinha uma visão interessante sobre a escrita, e algo que ela disse fez-me pensar nas diferenças entre ficção literária e ficção de género. Gostava que tivesse lidado melhor com a questão da fanfiction. Achei a Cath muito pateta e ingénua ao apresentar fanfiction para um trabalho da faculdade (foi estúpida mesmo), mas acho que a professora não passou bem o seu ponto de vista, podia ter sido muito mais eloquente para fazer a Cath perceber que não tinha feito bem.

Quanto ao fim, gostava que fosse um pouco menos apressado, um pouco mais completo. Percebo deixar alguns fios do enredo por resolver (a Cath ainda tem muito que percorrer no que toca a lidar com o abandono da mãe, por exemplo), mas gostava que aquilo que foi resolvido tivesse mais destaque. Não vimos mesmo a Cath terminar a história do Simon, ou o processo que a levou a decidir avançar para a ficção original e escrever a história pedida pela professora. Gostava que este tipo de coisa tivesse sido melhor explorada. O fim é... conclusivo, mas algo abrupto, por causa disso.

Foi uma boa óptima leitura. Deu-me uma vontade louca de ir a correr ler os outros livros da autora - que nem são tantos assim... provavelmente, devia fazê-los render. Decisões, decisões...

Páginas: 480

Editora: Macmillan