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segunda-feira, 24 de julho de 2017

Meg Cabot: Vanished, books 1 and 2

When Lightning Strikes / Code Name Cassandra

Páginas: 560 (edição omnibus)

Editora: Simon Pulse

Sempre tive muita curiosidade em ler esta série, mas como era mais antiga nunca tive a oportunidade, porque encontrar edições antigas é um aborrecimento até mais não. Mas estou muito contente por finalmente ter tido a oportunidade.

Porque a premissa é giríssima e tão interessante. A Jess é uma miúda normal até que um dia, a caminhar com a amiga para casa, refugia-se debaixo dumas bancadas para fugir a uma tempestade... é claro que o resultado seria ser atingida por um relâmpago. O que ela vai descobrir é que o relâmpago lhe deu poderes psíquicos: vê a foto dum miúdo desaparecido antes de dormir, sonha durante a noite com o seu paradeiro, e quando acorda sabe, simplesmente sabe, onde a criança está.

Uma das razões pela qual gostei tanto é a Jess. É uma heroína/protagonista e tanto; a Jess está sempre em sarilhos, sendo rápida a agir com os punhos e tendo uma queda para reagir impulsivamente e afogueada pela raiva - teria aquilo a que se chama anger issues. Tem uma queda pela velocidade. É definitivamente a protagonista Cabotiana mais subversiva e menos certinha, o que tem o seu interesse.

O primeiro volume apresenta a premissa, e Jess dá por si descoberta pelo FBI quando começa a telefonar para uma linha de apoio a desaparecidos para dizer onde estão os miúdos. E tenta dar uma hipótese aos federais, mas quando percebe o que eles querem que faça, põe-se na alheta.

É algo de curioso considerar: o livro foi escrito antes do 11 de Setembro e da paranóia terrorista e da privacidade, e por isso os personagens reagem de maneiras que não seriam válidas nos dias de hoje. A Jess de hoje nunca telefonaria de forma a ser tão facilmente identificada à linha de apoio; e também algo na atitude do FBI e dos seus agentes parece um pouco datada. Além disso, a Jess confia demasiado facilmente nos federais. (A Jess hoje seria mais desconfiada.)

O enredo podia ser mais complexo e mais preenchido: há coisas que não funcionam bem como estão escritas, como o facto de a Jess confiar tão facilmente nos representantes do governo, e depois mudar de ideias quase dum momento para o outro, sem explicação convincente na narrativa para a sua mudança de ideias.

Personagens que gostei de seguir: a família da Jess, que a apoia, especialmente o Doug, fragilizado pelos seus demónios, e o pai, que se preocupa com ela sem a atrapalhar; a Ruth, por ser um contraponto engraçado à Jess; e o Rob, o jeitoso por quem a Jess se interessa. (E que também se interessa por ela.)

O segundo volume foca-se numa ida para um campo de férias musical, onde a Jess será uma monitora. No último minuto, fica como monitora de um grupo de rapazes de 10 a 12 anos, e oh céus, é hilariante. Adorei como ela lidou com eles para os manter sossegados. E há um miúdo que lhe dá um trabalho especial por ser um rufiazinho, e é tão hilariante vê-la a dar-lhe a volta e dificultar-lhe o ele andar a fazer asneiras.

Neste volume o FBI ainda anda a segui-la: ela pode ter dito que perdeu os poderes no fim do livro anterior, mas não quer dizer que eles acreditem. E nos entretantos, encarrega-se de encontrar a filha de um senhor que a procurou no campo, por ter sabido das suas capacidades: desconfia-se que a menina foi levada pela mãe; e Jess não resiste a ajudar, especialmente sem antes saber se a menina realmente precisa de ser resgatada.

Neste esforço recruta o Rob para a ajudar, que passa o dia a conduzi-la dum lado para o outro - se isso não é prova do seu interesse por ela... mas eles não podem fazer nada quanto a esse interesse: o Rob já é maior de idade e aparentemente no estado do Indiana uma relação entre um maior de 18 anos e uma menor de 16 é contra a lei. (Ou era na altura. As pessoas naquela altura, no Indiana, andavam porventura à caça de relações ilegais nas escolas secundárias? Estou curiosa para saber que contornos tinha esta lei.)

O final do livro envolve mais uma partidinha do rufiazinho, e a Jess passa por um evolução dos seus poderes. Estou curiosa para ver o que se segue.

sábado, 24 de junho de 2017

Meg Cabot: Allie Finkle, volumes 4 a 6


Páginas: 240 / 208 / 240

Editora: Scholastic

E a "amorosidade" destes livrinhos continua. A sério, adoro a maneira como a Meg entra na cabeça duma menina de 9-10 anos. Faz mesmo sentido, em termos narrativos. As preocupações, os dramas, as pré-concepções, os erros, as piadas, a simplicidade da vida quando se tem essa idade, a responsabilidade de ser a mana mais velha, como se age com os seus pares. Muito giro.

O quarto volume, Stage Fright, é sobre uma peça que a turma vai encenar: foi a professora que escreveu e é sobre reciclagem, mas contada ao modo de um conto de fadas. Tem uma princesa como protagonista, e a Allie, como todas as meninas na turma, quer ser a princesa. Mas entre as suas amigas, a Sophie é considerada a candidata ideal, e a Allie não se acusa quanto ao seu desejo.

Depois de lerem para os papéis, Allie é escolhida para o papel da Rainha Má, o que a desaponta; mas o melhor de tudo é que ela descobre que é uma boa actriz, e que dando um tom cómico ao papel, consegue cativar as pessoas que vêem a peça. A história também é interessante porque mostra a Allie e as amigas a gerir egos e a ser um pouco, er, dramáticas.

Glitter Girls and the Great Fake Out é o quinto volume e foca-se num convite que a Allie recebe: para ir à festa de anos da Brittany, uma menina menos simpática da sua antiga escola. Seria um não óbvio para a Allie, excepto quando descobre que a festa vai ter todo o tipo de extravagâncias que a Allie queria experimentar.

A piada do enredo foca-se em dois pontos: a Allie tencionava, no dia da festa, acompanhar as amigas a um evento de majorettes em que a irmã mais velha de uma delas entrava (a Allie queria muito ir); mas acabar por inventar uma mentirinha e dizer-lhes que está a ser obrigada a ir. (E a mentira não fica completamente esclarecida, o que achei interessante. A Allie é honesta só até certo ponto, o que achei refrescante, ela aprender sobre mentir e tentar resolver as coisas sem magoar sentimentos.)

O segundo ponto... é que a coisa resulta mal. As meninas na festa (à excepção duma) são bastante más para ela e a Allie não se diverte, mesmo desejando tanto fazer aquelas coisas. E também isso é interessante, ela aprender a gerir a situação e como retirar-se dela.

O sexto volume (Blast from the Past) é sobre uma visita de estudo que a turma da Allie vai ter. A desvantagem é que vão partilhar a visita com o quarto ano da antiga escola da Allie. Onde estão as meninas más, a Brittany e a Mary Kay (também conhecida como a ex-amiga chorona).

Foi tão divertido, ler sobre o encontro entre turmas, e o choque entre alunos. As meninas más da antiga turma chocam com a Cheyenne e as meninas más da nova turma, o que foi hilariante de acompanhar. Além disso, a Allie tem azar com o grupo em que fica para o dia, e acaba com os dramáticos todos de ambas as turmas.

O que acaba por ser engraçado, por vê-la gerir os egos e os dramas entre personalidades tão diferentes. (Tenho pena do Joey, que é tão fofo mas acaba numa posição vulnerável. E destaque para o Scott e a sua mudança de atitude.)

Em adição, a Allie tem de lidar com um potencial sentimento de perda, pois a professora fica noiva e a Allie acha que ela vai mudar de casa e deixar de ser sua professora. E também temos o Mewsie, o gatinho da Allie, que "foge" e se esconde nas entranhas da casa (porque encontra um canto confortável), e a Allie tem de lidar com a ansiedade e a preocupação com o gato. (Por fim: este livro não me soou a um livro final. Parece ter bastantes pontas soltas que poderiam ser exploradas em livros futuros. Que estranho.)

terça-feira, 9 de maio de 2017

Meg Cabot: Allie Finkle, volumes 1 a 3


Páginas: 256 / 240 / 256

Editora: Scholastic

Oh raios, estes livros são amorosos. A sério, achei que me podia aborrecer um bocadinho, não costumo ler muito MG (Middle Grade, ou infanto-juvenil), e por isso a minha cabeça não está habituada ao tipo de voz e narrativa típica da faixa etária...

... contudo, a Meg Cabot faz um trabalho excelente nesse aspecto. Adoro a voz que ela dá à Allie. Não passo muito tempo a conviver com miúdos de 9 anos, propriamente, mas pareceu-me credível, a maneira como ela a escreve.

Ora vejamos: a Allie é esperta, mas ingénua, engenhosa, mas insegura, com um fundo curioso e que questiona as coisas, mas também um nadinha crédula. Boa filha, boa irmã, bom sentido do que está certo e errado. Tem as preocupações e os dramas e o discernimento que esperaria que uma rapariga de 9 anos tivesse. Os livros são divertidos e encontram desafios curiosos, adequados à idade. E por isso, soou-me realista.

O primeiro volume, Moving Day, como o título indica, é sobre a família Finkle ir mudar-se. Diverti-me imenso principalmente pela reacção da Allie - que inventa uma série de "esquemas" ineficazes mas engraçados para travar a mudança. Mas também achei um piadão à amiguinha da Allie que chorava o tempo todo, e à peripécia da tartaruga.

O segundo volume, The New Girl, é sobre a Allie começar as aulas na nova escola. Faz amigas, e debate-se com alguma insegurança sobre o seu lugar na turma e o estabelecimento duma relação com a professora. Enfrenta uma moça armada em rufia, que goza com ela e lhe diz que lhe vai bater. Pontos bónus por a Allie ter empatia e discernimento sobre o que realmente se passava com a Rosemary, e gostei mesmo de como lidou com ela. Não é a solução para todos os casos, mas este resultou mesmo bem.

O terceiro volume, Best Friends and Drama Queens, apresenta uma nova "miúda nova", Cheyenne, do Canada, totalmente sofisticada, e que traz novos modos que quer impor à turma. E é aqui que a genialidade da Meg se revela. A Cheyenne quer fazer com que toda a gente faça par e diga que "goes with" pessoa X. Os miúdos não sabem o que isto quer dizer, e ficam adoravelmente perdidos e confusos, mas quase toda a gente cede à pressão dos pares e arranja um rapaz ou rapariga com que emparejar.

Achei muito interessante como ela explorou a pressão social para toda a gente ceder aos desejos da Cheyenne, e como explora um pouco de política sexual sem os miúdos saberem o que isso é. A dinâmica de quem convida quem, o drama entre amigos sobre quem "anda com" quem, o modo como este movimento é quase todo centrado nas raparigas, a pressão social para avançar antes de alguém se sentir preparado, ou para avançar apesar de alguém não se sentir inclinado de todo nesse sentido.

Adorei a reacção da Allie à rapariga, e como entendeu que não era boa ideia fazer aquilo só porque a outra queria. (E como lidou com o rapaz que as outras queriam que fosse o seu par. Apesar de ele ser também amoroso no modo como não queria ficar de fora, e se sentia triste por ainda não ter sido escolhido como par.) E diverti-me imenso com a reacção dos pais da turma, que rapidamente toparam o drama e puseram um travão à coisa, com uma intervenção da professora.

Em suma, histórias bem giras e bastante inteligentes, parecendo-me bastante adequadas à idade. Estou intrigada e quero continuar a ler para ver o que vem a seguir.

sábado, 25 de março de 2017

Meg Cabot: She Went All the Way, The Boy is Back


Páginas: 368 / 368

Editora: Avon / William Morrow (HarperCollins)

Ahhhh, li o She Went All the Way há que tempos, e costumava adorá-lo. Todas as voltas e reviravoltas e o sarcasmo com o mundo Hollywoodesco... era bastante divertido.

Muitos anos passados, sobrevive ao escrutínio? Bem, sim e não. Ainda adoro o comportamento ridículo que a Meg descreve do pessoal do mundo do cinema, porque é feito de maneira a gozar um bocadinho com a coisa, e é imensamente divertido.

Também me divirto com a loucura do enredo. A maneira como os protagonistas se detestam, aparentemente - a Lou é uma argumentista e o Jack a estrela dos filmes que ela escreve, e a fonte da discórdia entre eles é o ele ter reescrito e actuado numa cena uma frase que acabou por ficar para a história da saga cinematográfica em que trabalham; e também o facto de ele ser um playboy sem rumo e ter partido o coração à amiga da Lou.

E pronto, é incrivelmente engraçado vê-los repensar a posição que tinham um sobre o outro, reconhecer a atracção mútua e agir de acordo com ela. Em adição, a acção do enredo é bastante louca e excitante - tipos aparecem do nada a querer matar o Jack e eles não fazem ideia porquê, e enquanto fogem consegue encontrar abrigo em casas no meio de nenhures.

Contudo, nesta leitura reconheço que preferia que a relação da Lou e do Jack fosse apresentada doutra maneira. O aspecto de eles se conhecerem há imenso tempo devia ser mais sublinhado, como forma de mostrar que já têm química. Devíamos ter mais cenas que permitam perceber que afinal até se entendem, porque já têm uma relação pré-construída antes do livro, ainda que não seja boa. E preferia que as coisas não avançassem tão depressa entre eles; é irrealista.

De qualquer modo, um volume divertido e que permite um bom bocado.

The Boy is Back é inteiramente novo. É um novo volume na série Boy, e como os outros é contado em comunicações entre personagens. Só que desta vez, está actualizado para os novos tempos. Não são só e-mails; são mensagens de texto e transcrições de entrevistas e artigos de jornais e chats/conversas partilhadas em aplicações de mensagens. (Duas personagens do primeiro livro da série aparecem brevemente: a Dolly é agente do protagonista masculino e o Tim tem uma livraria na cidade onde a acção se passa.)

Gostei muito. Adoro a ideia de ter a história contada em mais meios do que nunca, reconhecendo o mundo em que vivemos hoje. Permite alguma versatilidade na narrativa e graficamente o livro está bem giro.

Também gostei de como a parte do romântica do livro se desenrola. Com todas as referências Austenianas, é claramente um ligeiro retelling de Persuasão - dois apaixonados separados pelas circunstâncias uma década, que se reconectam precisamente por causa das circunstâncias.

Além disso, os dois protagonistas são adoráveis. Acho muita piada a como falam um do outro. A Becky tem a certo momento umas reminescências do tempo que passaram juntos 10 anos antes, e é tão giro. Quer dizer, o Reed é praticamente um unicórnio masculino. Aos 18 anos lia muito e lia com gosto Jane Austen. Onde é que isso se encontra, mesmo? (No entanto, adoraria mais cenas com eles a serem fofos um com o outro.)

O drama e as reviravoltas com os personagens também são divertidos - a um certo ponto. O enredo começa com um erro dos pais do Reed, e toda a gente acha que eles estão a desenvolver algum tipo de demência senil. Há partes dessa situação que é explorada com um pouco menos de finesse do que eu gostaria. Na maior parte, até é tratada com respeito, mas há momentos em que os personagens não parecem levar a situação a sério. Acaba por se relevar algo inteiramente diferente, no entanto... e acho interessante a solução que se apresenta.

Por outro lado, a situação dos pais dos Reed também tem outro ângulo, e adoro o drama envolvendo essa pessoa. É hilariante! E totalmente Meg Cabot. Só ela escreveria um personagem a ter um comportamento inicial tão ridículo, e acabar a ser apanhado assim. Muito divertido.

Em suma, uma bela adição à série de que faz parte.

P.S.: Esta capa! Tenho demasiadas poucas capas amarelas, e esta é fantástica ao vivo.

domingo, 6 de novembro de 2016

Meg Cabot: Avalon High

Meg Cabot

Meg Cabot, Jinky Coronado

Páginas: 320 / 128 / 192 / 160

Editora: Harper Teen / HarperTeen + TokyoPop (para o manga)

Avalon High é possivelmente uma das minhas histórias favoritas da Meg Cabot; pelo menos, lembro-a com bastante carinho; e a releitura não me estragou nada das boas memórias. Ainda é um bom livro, um livro divertido, imaginativo e que reconta uma lenda duma forma muito interessante, podemos dizer que até é original, especialmente por ter sido publicado num tempo em que os retellings ainda não estavam na moda.

É a história de Ellie Harrison, uma jovem que está a fazer o 11º ano longe de casa, porque os pais são professores universitários e estão a ter um ano sabático. A Ellie até lida muito bem com a mudança de casa e escola e ambiente, tem uma atitude fantástica nesse aspecto, e gosto disso.

Rapidamente ela conhece alguns dos alunos de Avalon High e se aproxima deles - particularmente Will Wagner, atleta, bom aluno e rapaz com uma excelente personalidade e bom coração, mas também Jennifer, a sua namorada, e Lance, o seu melhor amigo. Eles são parte da elite da escola, os alunos mais populares - mas curiosamente, e talvez por ser um recontar da lenda que é, a popularidade não quer dizer falta de carácter.

Gosto que na escola não haja más atitudes entre populares e não populares, é o tipo de coisa que é tão cliché e que aqui não ajudaria nada à história. A própria Ellie não é o que se chamaria popular, mas facilmente é aceite no círculo do Will. Não há estruturas sociais rígidas, o que é refrescante.

O curioso da história é que a Ellie quase que cai no meio de um drama que está parcialmente já a acontecer; a sua chegada simplesmente precipita alguns dos acontecimentos. Um dos professores, o Mr. Morton, faz parte da Ordem do Urso, que acreditam que o Will é uma de várias reencarnações do rei Arthur que ocorreram ao longo do tempo; e que a escuridão e os poderes do mal envidam esforços para impedir que ele se manifeste, reencarnação após reencarnação.

A Ellie chega quando parte da história já está a ocorrer: a Jennifer e o Lance apaixonaram-se nas costas do Will, quais Guinevere e Lancelot, e é a descoberta dessa traição que o professor Morton acredita que irá destruir o Arthur desta geração. Para além disso, os paralelos com a lenda são mais profundos que toda a gente acreditava, e a descoberta dos mesmos pode complicar a situação.

O que é fascinante é que a Ellie é alguém da lenda, é verdade, mas há uma reviravolta na pessoa da qual ela é um paralelo. Além disso, a sua presença quase que funciona como um tampão, como uma pedrada no charco que leva o Will a compreender certas coisas acerca de si próprio, e a aceitar bem melhor as descobertas que faz ao longo da história. Mesmo que não seja exactamente activa durante a primeira parte da história, é a sua mera presença que muda os acontecimentos; há uma sensação de destino acerca de toda a coisa.

Acho que uma das razões pela qual eu gosto tanto do livro é que a Meg trabalhou tão bem os paralelos com a lenda, a adaptação em si. A atmosfera é perfeita, os conflitos são credíveis, quem é quem da lenda arturiana também, e as pequenas revelações acabam por encaixar tão bem. E depois, como a lenda enquadra os acontecimentos do presente, há uma sensação de inevitabilidade, de que estava tudo predestinado; ao mesmo tempo que as reviravoltas dadas à lenda lhe dão um tom fresco e de alguma imprevisibilidade.

Até o desenvolvimento de relações entre os personagens, que é um pouco rápido, acaba por soar credível à luz de tudo isto. Simplesmente isto é Meg Cabot no seu melhor, não há muita gente que me fizesse ler e acreditar tão facilmente no que estava a escrever e apresentar. O livro em si é envolvente, e ata muito bem as pontas. Termina com um final relativamente fechado, mas com uma porta aberta para poder desenvolver mais um pouco deste mundo.

O que explica a existência da banda desenhada. Os três volumes de manga. Mais ou menos. Não explica porque é que se lembraram de fazer um manga (podia simplesmente ser uma sequela em prosa), ou sequer como acharam que isto era uma boa ideia de trazer ao mundo.

O problema da sequela em banda desenhada? A história não é muito boa. Não sei se o problema é da Meg, que se calhar nunca tinha escrito um argumento para BD e claro que isso não ia correr bem; ou se simplesmente entregaram a escrita a um ghost writer ou à desenhadora, e simplesmente meteram o nome da Meg na capa para chamar a atenção... mas a história é uma confusão pegada, tão fraquinha que até dói.

Primeiro, o primeiro volume passa um bocado significativo a recontar a história para trás. E os volumes dois e três fazem o mesmo no início. Se cortássemos essas partes, podíamos fazer um único volume, ligeiramente mais longo e mais sólido, com toda a história.

Depois, mesmo dentro da premissa "rei Arthur reencarnado"... o conflito do enredo destes livros é ridículo. Não faz sentido algum. Limita-se simplesmente a percorrer novamente um problema que já tinha sido resolvido no livro anterior (o Will ser reconhecido como o rei), e a meter-lhe uma urgência, devido a uma suposta profecia, que não encaixa. Cai muito mal na narrativa, e quebra o sentido de encantamento que o livro por ter feito um recontar da lenda tão bom.

E por fim... oh, céus. Envolver o conflito principal em drama adolescente e mesquinhez de escola secundária? Ugh. Soa tão básico, tão pateta. O que tinha resultado no livro era mesmo que não havia dramas típicos de escola secundária. Que os conflitos eram realistas, e ancorados na vida dos protagonistas, na família deles, nos segredos escondidos. Soava tudo muito mais universal. Menos infantil.

Em adição, a maneira como o enredo avança é tão forçada e cliché. A Ellie ganhar a coroa de rainha de Homecoming? Yep. A ameaça sem fundamento da Morgan "revelar" (isto é, mentir) que a Ellie anda enrolada com o Marco se não desistir de se candidatar a rainha? Também. O Marco a tentar estragar o baile? A sério, não há coisas mais importantes na vida? A parte final, em que o Will finalmente "acredita"? Matem-me. Matem-me já para eu não ter de ler mais parvoíces.

O único pedaço de enredo que tem algum interesse é o conflito do Will com o pai, que realmente no livro anterior não fica resolvido, mas aqui é encerrado da maneira mais cliché possível. (O pai vai ver um jogo de futebol americano do Will e fica impressionado com ele e com quão bom líder é, e fica orgulhoso do filho.) O que até podia resultar, mas numa narrativa que já é o mais banal possível, ainda soa mais rotineira.

Quanto à arte... bem, tem coisas giras. Gosto de como apresenta certas cenas, é uma artista competente o suficiente, e gosto principalmente de como desenha as coisas do período "arturiano", quando os personagens são desenhados nas suas outras encarnações. Mas faz-me um pouco de espécie vê-la desenhar os personagens duma forma não exactamente adequada à sua idade. A Ellie parece demasiado adulta para a idade que tem, já a mãe do Will parece uma miúda.

Enfim... acho que tinha passado bem sem esta sequela. Pelo menos nestes moldes. Até gosto da ideia duma sequela para estes personagens a quem me tinha afeiçoado. Mas vou fingir que esta não existe.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Meg Cabot: Retrato do Meu Coração, Awaken


Título original: Portrait of My Heart (1999) / Awaken (2013)

Páginas: 400 / 352

Editora: Quinta Essência / Point (Scholastic)

Tradução: Margarida Malcato / -

O primeiro livro deste par que vou opinar é um livro do início da carreira da Meg Cabot. Os primeiros livros que ela publicou eram romances históricos sob o pseudónimo de Patricia Cabot; e entre aqueles que li, posso dizer que são produtos do seu tempo, e por isso dou-lhes o devido desconto; mas também posso dizer que ao longo do tempo têm vindo a ser cada vez mais divertidos de ler para mim.

Retrato do Meu Coração conta a história de dois protagonistas. A Maggie Herbert tem 17 anos quando o livro começa, é travessa, pouco inclinada para seguir o que a sociedade espera dela. Adora pintar e quer ser uma artista. E adora arreliar o Jeremy, duque de Rawlings (o Rosa Selvagem lida com o tio dele e a Pegeen). Já o Jeremy detesta o papel que terá de assumir, odeia a ideia de se aproximarem dele só por ser duque, e faz por ser expulso de todas as escolas e mais alguma.

Quando os dois colidem, é explosivo. O Jeremy encanta-se pela figura tão diferente que encontra na Maggie, e ela... bem, também. Uma indiscrição em que são apanhados pelo tio faz com que o Jeremy acabe a ir para a cavalaria, e a Maggie para uma escola de arte em Paris, separando-os. Cinco anos mais tarde, os dois reencontram-se, e apesar do tanto que mudou... as faíscas estão lá.

Eu acho que digo isto sempre, mas a cada romance histórico que leio da Meg, cada um é mais divertido que o outro. A sério, há partes deste livro que são hilariantes. A autora escreve com um humor fabuloso. O tom caricatural e sarcástico que dá a algumas passagens... e o humor que imprime a certos diálogos... uau.

Adoro, por exemplo, que o Jeremy queira casar com a Maggie, mas o tio replicar que não pode ser, ele não a merece; ou que a Pegeen esteja em trabalho de parto mas ainda assim a dar conselhos ao sobrinho com uma naturalidade estupenda (e o marido a correr a casa à procura dela); ou a cena final, em que o Edward apanha a Maggie e o Jerry juntos, e diz que assim não pode ser, têm de casar, e eles dizem que sim, claro que sim, com a maior das naturalidades. (Como se não tivessem sido apanhados num momento escandaloso.)

Gosto bastante da Maggie, pouco inclinada para aceitar o que a sociedade espera dela, com vontade de trilhar o seu próprio caminho. Gosto que não desista do seu sonho e na segunda parte esteja a trabalhar para viver e continuar a fazer o que adora. Gosto de vê-la e ao Jeremy juntos, pelas faíscas, pela química, pela maneira como funcionam bem juntos e porque ele desde o início que quer casar com ela, sem hesitações.

O que tenho a apontar aqui de negativo é o tipo de coisa que tenho a sensação que era mais prevalente nos romances históricos desta altura. Que é a forma como o Jeremy se comporta, demasiado excessivo em relação à Maggie, um tudo-nada demasiado não-consensual? A maneira como as cenas entre eles se desenrolam são todas da mesma maneira, ela nega, não quer, mas ele continua, e eventualmente a moça derrete-se nos braços dele, e o consentimento é assumido com esse derretimento.

Ora isto até podia ser considerado romântico, sei lá, até aos anos 90, mas hoje em dia consentimento é uma coisa muito importante num par romântico, e este tipo de comportamento já não se vê nos romances, particularmente os históricos. E as minhas sensibilidades de século XXI certamente torcem-lhe o nariz. Tolerei, porque tenho noção de quando é que o livro foi publicado originalmente, e como o resto foi demasiado divertido, isto acaba por ser apenas um buraquinho na estrada. Mas ficou notado.

Passemos ao Awaken, com muita relutância minha. Já tinha dito na opinião aos livros anteriores da trilogia que aquilo é uma confusão pegada. Oh, se é. A sério, é o enredo que não cola nem descola em dois terços do livro, avançando a passo de caracol. Depois, faz tanto sentido a evolução da narrativa como ver tinta secar. E por fim, se a Pierce e o John são supostamente românticos, é melhor eu virar freira porque não aturava as coisas que ela atura. (E de certeza que não fazia as coisas embaraçosas que ela faz. Ou pensa.)

Mas a sério. Não percebo como é que eles chegam à conclusão que o John "morreu", nem como descobrem magicamente que o Thanatos tem o John, nem como têm a inspiração divina de ir a um lugar remoto no meio duma tempestade que tem um bando de adolescentes loucos a festejar o mau tempo. Nem como têm a sorte imensa de o Thanatos estar a possuir um dos miúdos, que eles até conhecem, e surpresa! conseguem exorcizá~lo, sem o puto morrer nem nada, mas não é claro exactamente quando isso acontece.

Não percebo como é que esta gente passa o tempo todo a falar do "desequilíbrio" que faz com que as Fúrias os persigam, sem lhes ocorrer nas cabecinhas ocas que o mesmo tem a ver com terem trazido o Alex de volta no livro anterior, algo que eles na altura sabiam que estavam a fazer de errado de acordo com as "regras"! UGHHH detesto quando tenho de lidar com personagens burros e um enredo burro só porque o autor é preguiçoso demais para escrever algo mais inteligente. Alguém me mate.

Para cúmulo, o enredo está pilhado de "coincidências", coisas que acontecem só porque são convenientes, e facilitam a vida aos personagens, para garantir que acaba tudo num lindo final feliz bonitinho em que toda a gente fica emparejada e feliz para sempre. Raios, eu sou pelos finais felizes, mas por aqueles pelos quais se teve de batalhar, não pelos entregues de bandeja.

A única coisa boa disto é que finalmente os pais da Pierce conhecem o John e ficam a saber de toda a coisa sobrenatural. A reacção deles é fantástica, especialmente o pai dela, que começa logo a pensar em lucrar com os poderes do John. Ah, e o tio Chris é fantástico, adorável, um doce de pessoa, incrivelmente leal. O melhor personagem deles todos. Não merece a família que tem.

E detesto com todas as minhas forças a maneira como a Pierce e o John são um... casal. É suposto eu crer neles quando se apagam um ao outro, vivendo para o outro? A Pierce depois de se meter nesta coisa de rainha do Underworld não tem interesses próprios. Não mostra vontade de voltar à escola, ou de fazer a sua própria coisa. Fala em ter um bebé, que é a coisa mais estranha de sair da boca duma miúda de 18 anos que nem parece ter a maturidade para se virar sozinha a fazer certas coisas.

O John em momentos de perigo fala com ela do género "fica aí quietinha, não faças nada, deixa os homens trabalhar, fica ali protegida". Raios. Eu sei que é suposto ele ter nascido no século XIX... mas também passou este tempo todo a ser exposto à evolução do mundo e da sociedade. Não faz sentido ser tão retrógado.

E sei lá, não sinto nenhuma química entre eles. Não há nada que me faça acreditar neles como casal. É tudo tão mecânico, e ao mesmo tempo lamechas e totó. Não sei explicar... só sei que todo o livro, toda a trilogia, me cai mal. Não é que tenha passado um mau bocado a ler... mas também não tinha acontecido isso com o Crepúsculo. E a verdade é que não sou nem posso ficar cega aos enormes defeitos desta série. Não me voltes a fazer uma destas, Meg.

domingo, 28 de agosto de 2016

Meg Cabot: Abandon, Underworld


Páginas: 320 / 336

Editora: Point / Point

Oh, boy. This is a mess. Uma que me diverti a ler, atenção, e devorei e tudo o mais. Mas ei, isso também aconteceu com o Crepúsculo, e toda a gente se lembra do quão... problemático esse era. (A comparação não é inocente. Já lá chegamos.)

Ora bem, esta série é como que um retelling ou adaptação do mito de Perséfone e Hades. A Pierce, a protagonista, morreu brevemente quando tinha 15 anos, e no processo conseguiu que a divindade da morte, John Hayden, ficasse completamente embeiçado por ela, ao ponto de nunca estar muito longe quando ela está em perigo. No presente, a Pierce mudou de casa para a Ilha Huesos, na Florida, e enquanto a sua relação com o John "evolui", rapidamente se vê perseguida por seres sobrenaturais muito perigosos...

Coisas boas que posso dizer, antes de passar às más: a escrita da Meg continua devorável. Ela tem o seu quê de cativante que me faz devorar qualquer livro, mesmo quando é muito parvo. Até o Insaciável teve os seus momentos.

E também: adoro a maneira como ela às vezes pega num conceito e lhe dá uma reviravolta do caraças. Gosto muito da ideia que ela criou aqui em torno do Submundo (Underworld), de quem fica responsável por ele; e de como tentou recriar o mito grego de Perséfone sem o seguir passo a passo, fazendo a sua própria coisa.

Ainda: gosto do elenco de personagens secundários, muito divertido, especialmente os amigos da Pierce, o Richard Sexton, e os marinheiros. Gosto do esforço para ter alguma diversidade - pelos apelidos, uma série de personagens tem raízes latinas, Pierce incluída (se bem que Oliviera é daqueles que podia ter sido evitado... creio que existe, mas soa tão mal...), e o Richard fala adoravelmente do seu parceiro (se o livro fosse escrito hoje já estavam casados).

Passemos às coisas más. Vou começar por uma fácil: a editora Point continua a insistir em produzir uns paperbacks horríveis. É a mesma queixa que tinha com a trilogia do Airhead: o livro é demasiado rígido, porque o papel é demasiado rígido, pouco flexível. Não facilita a experiência de leitura.

E passemos ao grande problema que eu tenho com os livros, que são precisamente os protagonistas, a Pierce e o John. You see, em muitos aspectos eles são uma cópia chapada da Bella e do Edward, e digo-o no sentido arrepiante e desconcertante.

Ora vejamos: o John é um perseguidor. Anda sempre atrás da Pierce, mesmo quando se zangam e ela lhe pede para se afastar. Porque, sabem? Ela ama-a. Quer protegê-la. Really. *facepalm* É violento quando está zangado. Tem a lata de lhe mentir e manipular acerca do mesmo assunto duas vezes no mesmo livro (o segundo).

Assume que só porque ela morreu (aos 15 anos), vai entrar num compromisso com ele... para sempre. Acha que a melhor maneira de proteger a Pierce é trancá-la no Submundo, forçando-a a deixar a sua vida e deixar de ter contacto com os seus. Tem esta mania irritante de lhe mudar a roupa cada vez que vão parar ao Submundo, que é absolutamente arrepiante.

A Pierce não é melhor. É tão... burra. Só quando alguém lhe diz com as letras todas que o John é uma divindade da morte é que o percebe. Mesmo quando havia pistas por ali aos pontapés. E depois, meu Deus, onde é que está a coragem, a espertalhonice, a irreverência que eu conheço de outras protagonistas da Meg? Ninguém diria à Suze Simon (a Mediadora) o que fazer. E no entanto a Pierce parece perfeitamente contente em deixar-se levar através do enredo escasso como uma ovelhinha, sem acção própria.

E a maneira como ela lida com o John, credo. Uggghhhhh. Alguém me mate. Ela fala dele como se fosse "uma coisa selvagem", e que "só precisa de ser reparado" do seu feitio. Isto é precisamente o tipo de lógica que uma vítima de violência doméstica usaria, parece-me.

Alguém me fizesse sequer metade do que o John lhe faz, e morria. Não estou a brincar. Por isso nem sequer consigo compreender a falta de indignação da Pierce quando descobre o monte de merdas que ele lhe continua a fazer. Separada da família, para nunca mais os ver? Que fixe, dá-me lá mais uns beijinhos para eu me esquecer disso. Oh, mentiste-me para eu ficar aqui no Submundo contigo? Claro, querido, amo-te! POR AMOR DA SANTA.

Normalmente, mesmo quando uma personagem faz algo com o qual eu discordo muitíssimo, a caracterização é boa o suficiente para eu perceber porque o faz. Mas aqui? Não consigo perceber como é que uma pessoa NÃO ficaria completamente lixada da vida com certas coisas que o John faz. Mas aqui, a Pierce bate um bocadinho o pé e depois parece que se esquece que devia estar zangada.

O problema é, isto podia ser uma boa história, fantástica mesmo, se a caracterização fosse melhor feita, se os personagens não fossem caricaturas dos protagonistas doutro livro. Se as coisas evoluíssem doutro modo.

E o pior de tudo é que tenho a sensação que a Meg tem em algum nível noção do quão problemático tudo isto é. Quero dizer, ela escreve no segundo livro uma conversa entre o Richard e a Pierce em que ele pergunta se ela tem a certeza do que está a fazer, que apesar de ter dado encorajamento ao par, não pensava que chegasse a estes extremos. Por isso, ela sabe que o par não faz sentido algum. Sabe que podia fazer melhor.

Em termos de enredo, bem, o primeiro livro é fraquinho, como o primeiro da trilogia Airhead. Aliás, não há propriamente enredo. É mais como se o livro fosse uma prequela, ou uma preparação para toda a acção que vai acontecer nos livros seguintes. Só que o segundo também é muito parado na primeira metade. Não há nenhum objectivo claro, nenhum vilão concreto.

Ah... é como se a Meg tivesse tido ali uma crise de inspiração e tivesse perdido o jeito mesmo quando andava a terminar a série Princess Diaries, e depois de a terminar. Porque os livros que saíram por aquela altura, e nos anos seguintes, são aqueles dela que considero piores, mais fraquinhos. Esta trilogia, a trilogia do Airhead, e a duologia do Insaciável.

Aliás, acho curioso que, olhando para as datas de publicação dos livros dela, seja mesmo na recta final da série PD que há uma abundância de publicações dela, com o que parece ser meia dúzia de livros por ano (estou a exagerar ligeiramente, claro), para passarmos a dois por ano (em 2012 e 2013), e até nenhum (em 2014). Pergunto-me se não terá havido um certo cansaço, mesmo esgotamento por parte dela em relação à escrita.

Explicaria a queda de qualidade dos livros. Estes mais recentes, de 2015 e 2016, não têm tais queixas da minha parte. E é curioso que ela tenha voltado ao activo precisamente a reavivar séries antigas. Talvez fosse o que precisava para voltar a estar à vontade na escrita? Não sei. Isto sou só eu a alvitrar, claro, e sem ela vir cá para fora a falar disso, não posso saber se tenho razão. Mas lá que é coincidental, é.

Enfim. A sorte dela é que eu a adoro. Com outro autor que me fizesse uma destas, estava para aqui a berrar (um berrar escrito, claro) durante três horas, e nunca mais me esquecia da desfeita. Nem sequer estou zangada com esta confusão pegada. Mais... exasperada. Não havia necessidade. De qualquer modo, tenciono ler o terceiro livro, mesmo esperando que não seja grande coisa. Apesar de tudo, não é que tenha passado um mau bocado, é mais como se os personagens a comportarem-se como irracionais fosse uma inconveniência. Mas caramba, espero que a Meg não volte a este nível. Ela é demasiado boa para isso.

domingo, 29 de maio de 2016

Meg Cabot: Pants on Fire, Royal Wedding Disaster


Páginas: 288 / 288

Editora: HarperTeen / Feiwel & Friends

Pants on Fire: bolas, este livro é simultaneamente divertido e tão errado. A protagonista, Katie Ellison, aparenta ter uma vida perfeita. Namorado, boas notas, boa família, popular, universalmente gostada... segundo namorado.

Pois. Perdida no meio da sua vida aparentemente perfeita, a Katie esquece-se de pensar no que ela quer, e faz um monte de asneiras para o compensar. Incluindo beijocar um segundo rapaz nas costas do namorado. *facepalm* Oh, Katie, Katie, Katie... as mentiras têm perna curta.

A piada da coisa é que ela tem consciência disso. Que está a fazer algo de errado, mas já não sabe gerir as mentiras, e quanto mais avança, mais se enterra. Bem, por tentativa e erro, a Katie lá se vai esforçando por fazer o que está certo.

E posso dizer que apesar do comportamento dela ser tratado num tom humorístico, não é glorificado. É mais apresentado como o resultado de uma adolescente de 16 anos com as hormonas aos saltos e sem saber o que quer; consigo ver definitivamente uma miúda da idade dela a fazê-lo, e as suas atitudes têm uma explicação emocional razoável. Melhor ainda, ela ganha juízo.

A minha parte favorita no entanto é quando o Tommy perdão Tom Sullivan, um amigo da Katie do 3º ciclo (ou o que passa por isso nos EUA), e que saiu da cidade em desgraça por fazer a coisa certa, volta.

É que além de o Tommy ter ficado mal-visto na cidade, a Katie quebrou com ele antes da sua partida, e foi desleal para com ele. E por isso, o seu reaparecimento desconcerta-a, especialmente por haver ali sentimentos não resolvidos. Por isso, foi bastante engraçado acompanhá-los e ver como se resolviam.

Royal Wedding Disaster: a Olivia é a miúda mais adorável de sempre, é só o que tenho a dizer. Neste volume, acompanhamos pelos olhos da Olivia os dias anteriores ao casamento real, o casamento da Mia e do Michael. E é delicioso, porque era isso mesmo que faltava ao livro com a narração da Mia.

Gosto tanto da Olivia, porque é uma menina tão madura e razoável, preocupada e interessada, mas ao mesmo tempo com as inseguranças e problemas típicos da sua idade, e por isso a sua narração permite acompanhar os acontecimentos sem deixar de desenvolver a sua caracterização, em linha com a pessoa que é e com a idade que tem.

Diverti-me tanto a rever alguns personagens, e a dinâmica entre eles, porque este pessoal está na mesma (estou a falar de ti, Grandmère), e a nostalgia é deliciosa. Também adoro poder ver mais um bocadinho da vida privada de alguns deles, que me ocuparam tanto tempo da minha adolescência; tão bom, poder ver a Mia e o Michael casados! E ri-me tanto com a noção da coroação do Michael.

Quanto à Olivia, ela está a adaptar-se à sua nova vida em Genovia, parte da realeza. Tem uma escola nova, uma menina mazinha que não a deixa integrar-se, e está a lidar com novos amigos, possíveis paixonetas, e ainda a sua tentativa de ajudar a organização do casamento em tudo o que pode.

Gostava de continuar a ler a Olivia, e se a série continuar, vou ficar muito feliz. A Meg consegue captar a voz pré-adolescente da Olivia sem a infantilizar. Tenho um carinho pela Olivia, gosto muito dela, e gostava de continuar a acompanhar a narração dela e de ver pelos olhos dela os personagens e lugares que já conhecemos, e tudo de novo que vem aí.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Meg Cabot: Runaway, Jinx


Páginas: 320 / 288

Editora: Point / HarperTeen

Sobre o Runaway: eh, podia ser melhor. Como tinha dito o mês passado, gostei imenso da premissa destes livros, e na sua maioria até a trabalham bem... mas dei-me conta que preferia que certos detalhes fossem mais desenvolvidos.

A caracterização de personagens está algo fraquinha - a Emerson devia ser esta pessoa mesmo inteligente, assim como o Christopher, mas levam tanto tempo a perceber o que o Stark está a tramar! Céus, que nervos.

E depois mete uma coisa na cabeça, e tira conclusões precipitadas, e passa o tempo a repetir-nos isso. Ela e o Christopher zangam-se no início, e a Em pensa que eles "acabaram", apesar de nunca terem sido oficialmente namorados, e passa o resto do livro a martelar-nos isso na cabeça. Ugh. Que falta de maturidade. Gosto das minhas heroínas mais razoáveis. Ter 16 anos não é ser idiota.

O enredo também se arrasta muito, sem objectivo bem definido. Primeiro estão todos fechados na casa com o Brandon, e a razão para ficarem ali parece-me fraca... depois andam a correr como galinhas a tentar derrotar o Stark... mas levam imenso tempo a percebê-lo, o que irrita imenso.

Coisas que gostei: já disse a premissa. A maior parte dos personagens, aqueles que não me irritam. A Frida é adorável, o Gabriel também, assim que entra na equipa anti-Stark. A Lulu é tão engraçada, e gosto de vê-la com o Steven, apesar de desejar que eles tivessem mais tempo de antena. A outra Nikki é bastante engraçada, também, mas merecia mais tempo de antena.

Gostei imenso de ver o Stark derrotado, e a maneira como eles o fizeram foi explosiva, teria sido tão excitante de ver ao vivo... acho que só gostava que o livro fosse mais longo e explorasse melhor os personagens, por exemplo.

Sobre o Jinx, bem, acho o Jinx super divertido. Funciona muito melhor como um livro curto que o anterior. A Jean veio para Nova Iorque viver com os tios, para fugir a algo complicado que lhe aconteceu em casa, e é quase como uma história da Cinderela.

Em casa vivia uma vida bastante simples, com montes de irmãos, e em Nova Iorque está com os tios, que têm dinheiro e vivem uma vida abastada. Vivem numa casa brownstone, um sonho, e depressa fazem a Jinx fazer-se sentir bem-vinda. Os primos pequenos são adoráveis, a Jinx adora-os, e dá-se mesmo bem com a au pair, a Petra.

Só que a prima mais velha, Tory, tem um comportamento terrível, sendo egoísta, manipuladora e drama queen. Melhor: acha-se uma bruxa. Literalmente. Acha que tem magia, herdada de uma antepassada delas, que foi queimada por ser bruxa.

Onde o livro faz um excelente trabalho é a criar essa dualidade, e a torná-la credível. Entre o sobrenatural e as circunstâncias da vida. A própria Jinx pergunta-se se não terá poderes, por ter tentado fazer um "feitiço" no passado, e as coisas terem corrido terrivelmente mal.

Contudo, isso é só o panorama para a parte verdadeiramente importante: a trajectória de crescimento da Jean. Ela vem do campo, uma menina simples, com um óptimo fundo moral e uma certa firmeza de espírito, e com o decorrer dos acontecimentos ganha confiança em si própria, tornando-se uma jovem mulher corajosa.

Como disse, gosto imenso do tom e do panorama do livro, a questão da magia, que tem mais charme precisamente por ficar no ar; e gosto mesmo da família dos tios, que é tão fofa e unida. (Bem, talvez não a Tory.) Gosto dos amigos que a Jinx faz na escola; mas acho ainda mais piada ao Zach, que está claramente embeiçado pela rapariga, e ela não topa nada, tão totó. São bem giros juntos.

domingo, 27 de março de 2016

Meg Cabot: Airhead, Being Nikki

Airhead (2008) / Being Nikki (2009)

Páginas: 352 / 352

Editora: Point

Ok, tenho de tirar isto do peito primeiro: o designer destes livros devia ser obrigado a segurá-lo durante DOIS ANOS, obrigado a passar as páginas, e a ficar com dores nas mãos de o fazer. Ugh. Normalmente num paperback o papel é fino e maleável o suficiente para o passar das páginas e o agarrar no livro com uma mão serem confortáveis; aqui não. Não, não, não.

O papel é tão rijo que mal se mantém aberto com duas mãos, quanto mais com uma, que é o que eu preciso que aconteça se vou no autocarro em pé e tenho de me agarrar a alguma coisa para não dar com o nariz no chão. Portanto, mau trabalho, senhor designer. Muito mau trabalho. Parece que ainda estou a sentir dores nos dedos.

Voltando aos livros: isto é tipicamente uma premissa Meg Cabot. Louca, completamente doidivanas, mas ela fá-la funcionar. Essencialmente, a personagem principal, Emerson Watts, ou Em, está no lançamento de uma nova loja da corporação Stark, quando é esmagada por um ecrã de televisão mal preso, que lhe cai em cima.

Quando acorda, Em não é a mesma pessoa. Quase literalmente. Ao mesmo tempo que a Em teve o seu acidente, a estrela representante dos produtos Stark, a supermodelo Nikki Howard teve um aneurisma cerebral. A solução? Um transplante cerebral: o cérebro da Em no corpo da Nikki. Parece que a empresa Stark financia a pesquisa dos médicos que estudam este procedimento, e já foi feito várias vezes.

Cabe à Em continuar a viver como Nikki, a fazer o trabalho de modelo e representante da marca, o que seria mais fácil se a empresa não fosse uma dessas corporações sem alma, maléfica e com fins nefastos. E seria certamente mais fácil se ela não tivesse de se desligar da família e de tudo o que conheceu, o que é algo difícil para ela.

Por outro lado, é super divertido ver a Em adaptar-se à vida da Nikki. Primeiro porque a Nikki era, bem, uma pessoa assim não muito simpática, e toda a gente fica desconcertada ao vê-la ser uma pessoa decente.

Depois, porque a desculpa para a Em não se lembrar de tudo o que está para trás é amnésia. E então é divertido ver as pessoas a tentar (ou não) relembrá-la de coisas que sabia sobre beleza ou o mundo da moda; e é muito divertido vê-la cruzar-se com pessoas que a Nikki magoou de algum modo.

O enredo do primeiro livro não é muito definido, é mais um livro sobre a adaptação da Em à sua nova vida, e pode soar a pouco. Aliás, soou-me totalmente a pouco. Já o tinha lido há uns anos, e tinha a sensação que tinha ficado mais à frente na história ao fim do primeiro livro.

O que me fez pensar que talvez possa ter lido o segundo livro na altura, mas ao mesmo tempo não me lembrava de nada dos pormenores do segundo livro, por isso provavelmente não li. E sim, isto foi antes de começar a registar os livros que leio. Ainda bem que o comecei a fazer, ou não me lembrava de nada.

O segundo livro já é mais focado, mais orientado, e começamos a desvendar os esqueletos no armário, tanto da Nikki como da Stark. Conhecemos alguns familiares da Nikki, no primeiro caso, e no segundo, vamos subentendendo mais sobre o porquê do transplante.

Uma das questões que gera tensão é o facto de a Em não poder passar justificadamente tanto tempo com a sua família, porque a Nikki nada lhes é. O que é interessante, porque a irmãzinha mais nova, o Frida, olha para a Em como um modelo, apesar de nenhuma o admitir.

Por outro lado, achei o comportamento dos pais da Em algo reprovável. O Natal aproxima-se, e sei que isso torna as coisas mais complicadas para toda a família, mas os afectos não se desligam, e custa-me que tenham feito planos assumindo que a Em-como-Nikki não poderia estar com eles. Bastava perguntar e tentar combinar algo.

Outra coisa que gera tensão são todos os namorados da Nikki, que até é uma situação divertida, com drama a pedir para acontecer, porque ela namoriscava demasiados rapazes, e nem os namorados das amigas estavam fora de questão.

O único que me parece interessante, de momento, é o Gabriel Luna, que parecia fascinado com a "lenda" da Nikki, mas essa situação pode ter algum interesse da empresa por trás, o que lhe mata o interesse.

Mais uma coisa que gera tensão: o Christopher sabe? Ainda não? Quando vai descobrir? O Christopher era o melhor amigo da Em, grande paixoneta de sempre, que ela não consegue deixar para trás. E ele, parece que também não, porque depois da "morte" dela fica um bocadinho... intenso.

Tenho pena que ele não tenha compreendido por si, teve uma pequena ajudinha, e queria ver esta situação melhor explorada, porque já soube demasiado tarde no segundo livro para explorar devidamente a tensão subjacente à Em não estar no mesmo corpo e ele nunca ter feito nada na vida anterior deles.

Tenho a estranha sensação de que sei como a situação vai ser resolvida, afinal anda por ali um corpo que podia ser, hmmm, atribuído à Em, e resolvia as coisas duma maneira perfeitinha, bem à maneira da Meg. Já consigo ver as consequências disso para outros personagens. Espero estar certa.

Oh well, esperemos que esteja certa. No próximo mês, veremos. Mal posso esperar.