Então... mudanças de capas. É uma coisa a que, por princípio, não acho piada nenhuma. Não só pelo gosto que tenho em ter uma colecção na mesma edição, uma estante toda bonita, blá blá blá. Mas por a mudança de capa sugerir uma incerteza por parte do editor em relação ao livro. Será que os primeiros volumes não venderam bem? Querem atrair outros leitores, que graças à primeira capa não se interessariam pelo livro? Fizeram asneira na promoção da série e querem mudar de rumo? São até atitudes valorosas, se realmente divulgarem a série entre mais pessoas.
No entanto, pergunto-me sempre se este tipo de mudança serve o seu propósito. Uma homogeneidade de capas ao longo da série ajuda o leitor a identificar um livro novo da série, quando o vê na livraria (noutras áreas, chamar-se-ia a isso ter uma marca que os consumidores conhecem e identificam facilmente; na edição de livros, o conceito parece por vezes completamente desconhecido); com a mudança, pode passar-lhe ao lado um novo volume da série que gosta de acompanhar.
Por outro lado, a mudança de capas expõe novos leitores aos livros. Mas se a mudança é só a partir do meio da série, não será que vai enganar o novo leitor? Pensa que leva o primeiro livro para casa, quando está a levar o terceiro... Além de que nem sempre a capa transmite alguns aspectos da narrativa, que podem desmotivar o leitor na leitura. Comprou um livro, sim, mas não comprou a série inteira. Aí, a mudança serviu realmente para alguma coisa?
Enfim. De seguida destaco algumas mudanças de capas que tenho (ou vou ter) na minha estante, e exploro porque é que não as apreciei.
Em cima, as capas dos hardcovers americanos dos primeiros dois livros da série Across the Universe da Beth Revis (e no primeiro livro, Across the Universe, foi também a capa do paperback americano). Em baixo, as capas novas dos paperbacks americanos (para os primeiros dois livros) e do hardcover do terceiro livro.
A minha opinião? Preguicite aguda. O designer não sabia como continuar a explorar no terceiro livro o tema "espaço" que permeia os dois primeiros, e ao mesmo tempo combiná-lo com o novo elemento do enredo. A própria autora, ao justificar a mudança, sugere que eu tenho razão - não encontraram maneira de fazer uma capa para o terceiro sem spoilarem o leitor para o terceiro. Preguiça, preguiça, preguiça. Era tão difícil darem-me, por exemplo, um sol a nascer sobre um planeta (como aqui)? Acho que ficaria fabuloso numa capa, mas o que é que eu percebo disto, não é? Não sou eu que vou comprar o livro nem nada...
Suponho que para quem conhece o enredo, as capas novas dizem alguma coisa (sugerem a nave espacial, o aspecto de congelamento no primeiro, não faço ideia no segundo, mas deve ser para condizer com o título - Suns -, e no terceiro não vou comentar para não spoilar). Para quem não sabe nada, não sei se as capas contam alguma história. É apenas uma parede metálica com parafusos gigantes. Podia ser até a escotilha no meio da selva em Lost!
Além disso, não sou nada fã da tipografia. No primeiro livro, parte da palavra Universe está em itálico. Eu sei que é para inclinar a letra depois do V e para o acompanhar, dando um aspecto fluído à coisa, mas parece apenas que quem fez aquilo estava bêbedo. No segundo livro, fundiram o A e o M. Visto de perto até se distinguem as letras (mais ou menos), mas mais ao longe alguém pode pensar que o livro se chama Million Suns ou Aillion Suns, em vez de A Million Suns. No terceiro, o formato das letras S e E está interessante, porque tentaram pôr-las no formato das letras A e U, ou A, M e S dos livros anteriores. Mas se o objectivo era a homogeneidade, podiam ter-se esforçado para o tamanho da letra ser semelhante, e a caixa que envolve o título nos três ter o mesmo formato (num está mais rectangular, noutro mais quadrada...).


Acho que aqui é a mesma coisa: em cima, as capas dos hardcovers americanos dos primeiros dois livros da da Stephanie Perkins (no primeiro livro, Anna and the French Kiss, foi também a capa do paperback americano). Em baixo, as capas novas dos paperbacks americanos (para os primeiros dois livros) e do hardcover do terceiro livro.
Eu sou capaz de ter chamado uns nomes ao(s) responsável(is) por isto durante uns bons 10 minutos. É que eu gosto muito destes livros da Stephanie Perkins. Uma das coisas que mais me agradam é que cada personagem parece tão real. Cada um tem as suas idiossincrasias, as suas peculiaridades. O Étienne é baixo e gosta de História, a Anna quer ser crítica de cinema, a Lola é estilista e todos os dias muda de estilo pessoal, o Cricket é um rapaz alto, magro, e quer ser inventor. E sentia que as capas transmitiam isso, essa sensação de ser único, e de não serem iguais a tudo o que há por aí. São fofinhas, apresentam-nos os protagonistas (se bem que cortaram o Étienne na primeira... medo de não corresponder às expectativas? ehehe), e têm por trás uma ideia da cidade em que se passa a história.
Entra a revelação da capa do terceiro livro. Ora quando o terceiro sair, o segundo saiu há dois anos. Um tempo tão grande entre publicações é incomum, mas acontece quando o autor precisa de mais tempo para escrever uma história melhor (foi o que aconteceu aqui, e não me importo de esperar). Só que no mundo editorial, costuma ser associado com uma mudança de capa, suponho que os editores acham que precisam de revitalizar a série, que esteve tanto tempo fora das livrarias. Mas na minha ingenuidade, nem me lembrei disso até agora. Quando abri o post com a revelação exclusiva da capa do terceiro livro, pensei "ena, vou finalmente ver a Isla e o Josh, vai ser uma capa tão fixe".... e dou de caras com isto. Ugh.
Bolas, estas capas são tão genéricas. Não me dizem nada, a não ser a cidade onde a história se passa. A tipografia é ridícula, parece que foi feita em 5 minutos, precisava de mais trabalho. E há livros em que o título ocupar a capa toda e ser o único elemento de design funciona (olhem só para esta), mas aqui não. Usarem as fotos por trás mata um bocado esse objectivo. Mas o que dá cabo de mim mesmo, é sentir que eu podia fazer aquilo no Paint em meia hora. Eu quero sentir que se deram ao trabalho de pensar no que estavam a fazer, não quero sentir que pensaram "vamos fazer uma coisa às três pancadas, que eles nem notam".
Estão são os paperbacks britânicos, que são as edições que tenho estado a comprar (as edições americanas, com as quais vou fazer comparações, estão aqui).
Aqui, nos primeiros dois livros seguiram o editor americano e usaram as mesmas capas. Creio que a autora revelou no seu site que eram trabalhos feitos com flores de papel. Gosto delas. A morte é um elemento da narrativa e sugerem-me a efemeridade e a beleza da vida. Não são as capas típicas para o género (YA paranormal thriller), mas acho que por isso mesmo se destacariam numa livraria.
Depois o editor britânico decide ir por outra direcção, e muda as capas do terceiro e quarto livros. Estas capas sugerem-me o elemento thriller da história, sim, mas e o elemento paranormal? Para além de que acho que são muito mais genéricas dentro do género thriller e se destacam menos. Portanto, isto vai realmente ajudar às vendas? Ou esconder ainda mais os livros? E um leitor de thrillers, que pegue no terceiro ou quarto livros, os leia, e perceba que nem aquilo é o primeiro livro da série, nem aquilo é bem o que procurava, porque também tem um elemento paranormal? Vai pegar nos livros, ou vai ter mais cuidado ao pegar num livro desta editora da próxima vez? E o leitor que realmente segue esta série, não lhe passam ao lado estas últimas publicações?
Dúvidas, dúvidas... a verdade é que não deixei de comprar os livros graças à mudança, porque apesar de estas trocas e baldrocas me irritarem muitíssimo (como puderam ver), tento não deixar que isso me impeça de continuar a ler uma série de que gosto. Mas eu sou uma leitora ávida e preocupada, tento sempre seguir as séries que me agradam. Pergunto-me se estas coisas não afastam o leitor comum, aquele que lê uma dezena de livros por ano (ou menos, ou mais, não faço ideia de quanto é a média para o leitor comum, por isso mandei um número para o ar, não me atirem tomates por causa disso), que não sabe quando o próximo livro duma série que segue sai, e que ao passar pelas capas novas não sabe que está ali um novo livro dessa série.