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terça-feira, 18 de junho de 2013

A Escola Nocturna - O Legado, C.J. Daugherty


Opinião: Céus, que montanha-russa. Se há coisa que a autora sabe fazer, é criar uma história completamente absorvente e intensa, envolvendo-nos numa teia de desconfiança e mentira, e fazendo-nos suspeitar de tudo e todos. Ainda estou a recuperar do stress de desconfiar de todos os personagens e das suas motivações.

Elogiei a autora na opinião do primeiro livro por ter escolhido como cenário um internato, e continuo a adorar a sua escolha. Um ambiente tão restrito gera uma micro-sociedade muito interessante, especialmente quando lhe juntamos as características únicas da Escola Nocturna. Adoro este aspecto da narrativa, e a autora só peca por nos revelar coisas sobre a Escola Nocturna e o antagonista principal, Nathaniel, a conta-gotas.

A Allie, a personagem principal, tem que enfrentar neste livro não só o conflito externo que ameaça a Escola Nocturna, mas também em grande medida conflitos internos. A posição em que está é frágil, por não estar a par de tudo o que ameaça Cimmeria e a Escola Nocturna, e acho que isso faz com as suas desconfianças e inseguranças a levem a tomar certas decisões com que não concordo, apesar de as respeitar. Se há coisa que gosto na Allie é que ela é a sua própria pessoa, sem se deixar influenciar e controlar, e toma as suas decisões por si, não pelos outros, mesmo que esteja a fazer uma asneira gigantesca.

É uma personagem mais activa, que reactiva, e gosto disso, por não esperar que as coisas lhe aconteçam. Gosto da sua bravura, da sua atitude descomplicada e da sua tentativa de fazer a coisa certa. Espero que a teia de desconfianças e inseguranças em que se viu envolvida neste livro lhe permita evoluir no próximo, e ganhar mais controlo sobre o seu destino.

Sobre o, er, "triângulo amoroso", bem... é complicado. A relação entre a Allie e o Carter corre mal, por causa dos dois, e o modo como acontece deixou-me assim a modos que pasmada. Quero dizer, o Carter tem o seu momento palerma-ciumento-e-possessivo, quando tenta forçar a Allie a deixar de ver uma pessoa por causa dos ciúmes, e aí eu estava preparada para lhe oferecer um par de patins. Mas a Allie acede ao pedido dele, e as coisas correm mal a partir daí, nem sendo propriamente por causa do comportamento consequente dele, mas mais por causa das desconfianças e inseguranças da Allie que mencionei ali em cima. Eu percebo que ela sentisse que ele não a estava a apoiar em certos momentos, mas não posso concordar exactamente, tendo em conta que em boa parte ele até tinha razão. Quero dizer, enviar duas miúdas sozinhas em patrulha resultou nas últimas 30 páginas do livro, e que bem que isso correu, não foi?

Achei que a Allie estava demasiado pronta em deixar de confiar nele logo no início, e acaba por ser ela a ter comportamentos não leais para com ele durante uma boa parte do livro. Portanto, acho que isto correu mal em parte por causa da atmosfera em que a Allie se encontra, que a deixa pronta a deixar de confiar nas pessoas, e em parte porque temos dois palermas que não se conseguem sentar e conversar sobre os seus problemas. Porque este é o tipo de coisa que se teria resolvido se ao menos conversassem, parece-me. Não sei. Como disse, fiquei parva com toda a situação. Tenho de louvar a autora, em nenhum momento eu achei que isto fosse irrealista, a maneira como ela o expôs é muito convincente, e é assim que as pessoas (e os adolescentes) se comportam na vida real, tanto que eu estou frustrada com estes personagens como estaria frustrada com dois amigos que se portassem da mesma maneira fizessem escolhas com as quais eu não concordasse.

E depois temos o Sylvain francês estúpido. Nunca na minha vida conseguiria deitar para trás das costas o que ele fez no primeiro livro, por mais arrependido que se mostre. Acho que suspeitaria sempre dos motivos e acções dele. Contudo, suponho que compreendo porque a Allie o fez, apesar de não concordar (e de ter vontade de a abanar para ver se ganha juízo). Também não os vejo a ter grande futuro, porque apesar da atracção, consigo ver a cabeça da Allie cheia de dúvidas e ainda a pensar no Carter, e não sei como é que isso pode alguma vez ser uma boa base para uma relação.

A relação da Allie com algumas das outras personagens fascina-me. Com a Rachel mantém uma boa amizade, apesar de agora alguns assuntos não poderem exactamente ser discutidos entre ambas. Tenho pena de dizer isto, mas consigo ver a autora, no futuro, a revelar potencialmente a Rachel como o espião, apesar de gostar muito dela, porque está numa posição privilegiada para descobrir muita coisa para o inimigo. A Jo, apesar do comportamento que teve no outro livro, é uma personagem que dá gosto seguir. Tenho pena do percurso dela, e do que lhe aconteceu para a deixar no estado em que ficou. Deixa-me triste ver o que lhe acontece ao longo de ambos os livros. A Jules... bem, eu gosto dela, e do seu comportamento aparentemente correcto e leal, mas é outra que podia ser o espião, pela sua posição na Escola Nocturna. Adorei conhecer a Nicole, porque fugiu um bocadinho ao estereótipo que eu estava à espera que fosse, e afinal foi uma boa surpresa.

A Isabelle deixa-me dividida. Parece confiar na Allie e gostar mesmo dela, mas ao mesmo tempo não está a contar-lhe tudo, e se há momento em que a Allie devia saber tudo, era agora, porque está no meio desta tempestade. O elenco de professores deixa-me em dúvida, porque quase todos podiam ser o espião. Menos o Zelazny, porque com o comportamento horrendo dele era demasiado óbvio. (Ah, foi divertido vê-lo rastejar quando descobre de quem a Allie é descendente.) A Lucinda, essa personagem elusiva, aparece muito pouco, infelizmente. Gostava de ver a Allie a desenvolver uma relação com ela, mas também consigo ver 1001 maneiras de a relação de ambas correr mal, a acreditar na experiência da mãe da Allie, por isso fico expectante em conhecer melhor a Lucinda. O Raj, pai da Rachel e especialista em segurança, foi uma boa adição ao elenco, mas gostava de o ver mais, porque sinto que não o conhecemos bem.

E pronto, o que podemos tirar daqui é que eu fiquei paranóica com este livro, que me fez desconfiar de toda a gente num ponto qualquer da história. O facto de não se conhecer o endgame do antagonista, e de muito acerca da Escola Nocturna e da família da Allie ainda estar envolto em mistério só contribui para esta atmosfera de thriller, apesar de a história em si não ter muita acção.

Portanto, parabéns e obrigada, C.J. Daugherty, por conseguires escrever um livro do qual foi difícil desgrudar-me, apesar de toda a atmosfera de suspeição, um livro que me pôs a virar as páginas como se não houvesse amanhã, mesmo quando os personagens estavam a dar comigo em doida, um livro viciante, contra todas as minhas expectativas. Suponho que os melhores livros são os que nos deixam assim. A minha esperança neste momento é que a editora portuguesa pegue no terceiro livro, quando sair em Outubro, e o publique o mais rapidamente possível, porque a expectativa vai matar-me.

Título original: Legacy (2013)

Páginas: 400

Editora: Alfaguara (Objectiva)

Tradução: Ana Mendes Lopes

segunda-feira, 10 de junho de 2013

A Escola Nocturna, C.J. Daugherty


Opinião: Esta foi a leitura perfeita para ler a seguir ao Reached - um género e um tom muito diferentes. E adorei a leitura! Creio que a sinopse, a capa, e o marketing que a editora original (a britânica) usou tentavam dar um ar de história paranormal, mas acreditem, este livro não tem um pingo de acontecimentos fora do normal irreais. É uma história contemporânea passada num internato inglês (internato! inglês!) do género "miúdos em escola-internato metem-se em sarilhos e tropeçam num mistério" - quase como os primeiros livros do Harry Potter, mas sem a parte da magia. Gosto muito deste tipo de história, e por isso foi uma surpresa muito agradável ver-me perante uma desse tipo.

A Allie é uma jovem problemática cujo irmão desapareceu misteriosamente e cujos pais a ignoram, basicamente. E quanto eu odiei os pais dela por essa atitude (e por outras, como esconder um monte de coisas à Allie que ela devia saber). Ignorar a filha que ainda têm, e falhar em ver os problemas dela (a Allie tem ataques de pânico e um ligeiro transtorno obsessivo-complusivo), focando-se apenas nos sarilhos que arranja, é uma atitude completamente irresponsável.

A Allie é enviada então para a Academia Cimmeria, aparentemente por causa do seu comportamento, mas rapidamente se apercebe que a escola está repleta de bons alunos e filhos de famílias ricas, um grupo no qual não se insere. A escola está cheia de segredos vedados a Allie, e começam a acontecer coisas muito estranhas. O perigo espreita a cada esquina, e Allie vê-se numa situação em que parece que não pode confiar em ninguém.

Gostei imenso do enredo, cheio de reviravoltas e sempre a pôr-me a questionar os acontecimentos e a duvidar dos personagens. O cenário bucólico e calmo de uma escola em regime de internato opõe-se à natureza especial da Academia Cimmeria, que leva a que esteja no centro de uma série de acontecimentos singulares. E a pobre Allie, apesar de ser mais ou menos central nesses acontecimentos, não sabe de nada - não porque na escola não lhe querem contar, mas porque os pais não autorizaram essas revelações (palermas!).

Contudo, a Allie não se faz de rogada e tenta descobrir o que se está a passar. O que fez com que a Allie fosse das minhas personagens favoritas. É esperta, não se deixa que lhe atirem areia para os olhos no que toca à Academia Cimmeria, não cai em falinhas mansas, é determinada, e faz o que tem a fazer sem deixar que mandem nela. Gostei de ver a autora abordar os ataques de pânico dela e de como ela lidava com eles - a contar coisas.

E vou ter de passar pelos, er, interesses amorosos. Primeiro temos o Sylvain - FRANCÊS ESTÚPIDO!!! Não quero saber quão sexy é o sotaque dele, aquilo que ele fez (ou tentou fazer) à Allie NÃO SE FAZ. Ele pede desculpa, sim, e sabe e admite que errou, mas não creio que compreenda a magnitude do que fez ou se arrependa mesmo. Tem de ser a Allie a lembrar-lhe que aquilo não se faz a rapariga nenhuma. O que me lembra, gostei de como a Allie lidou com ele. Mandou-o bugiar, e apesar de aceitar as "desculpas" dele, não quer ter mais nada a ver com ele. O problema é (chamem-me cínica) que eu sei que a C.J. Daugherty vai tentar na sequela espremer a potencialidade do Sylvain como interesse amoroso. E EU ODEIO-O.

Por outro lado temos o Carter, que exuda aquele ar de rapaz misterioso e quebra-corações, mas até é boa pessoa, quando lhe damos uma oportunidade. A química dele com a Allie (e as constantes "questiúnculas" deles) é uma das razões porque me diverti tanto com o livro. O Carter tem o coração e o cérebro no lugar certo, respeita a Allie (ao contrário do FRANCÊS ESTÚPIDO), e é adorável vê-lo e à Allie juntos. Só que cometi o erro de ler umas opiniões do segundo livro, e não sei se o comportamento decente dele se vai manter. Ai, aquele segundo livro vai-me fazer sofrer tanto, o que é uma pena, porque este leu-se tão bem e deixou-me tão animada.

Adoro o elenco secundário de personagens, porque formam um grupo heterogéneo e a sua multiplicidade de comportamentos faz com que a Allie os veja como amigos, aliados ou inimigos em diferentes pontos da trama. Os professores intrigaram-me, especialmente a Isabelle, pela sua posição única na escola (e não só). A Rachel foi uma das poucas (e boas) constantes, a Jules revelou-se mais para o fim, a Katie preenche a vaga de miúda rica irritante e ciumenta muito bem e a Jo... pobre Jo. Tenho pena dela, porque apesar de ter feito asneira, tem uma personalidade volátil e facilmente manipulável. Espero poder vê-la numa melhor fase.

O segredo por trás da Escola Nocturna é deveras interessante. Nunca teria adivinhado. (Nem a escala a que funciona.) A ideia é algo provocadora e tem potencial para futuros enredos, se o enredo que começou neste livro acabar brevemente. Se bem que estou muito curiosa para ver como é que o personagem Nathaniel vai evoluir, e o que vai trazer. E estou morta para descobrir afinal o que é que a família da Allie esconde, e que Legado é esse a que o título do segundo livro alude.

Ah... eu não vou resistir. Já tenho o segundo livro, e vou ter de o ler brevemente, ou caio para o lado de curiosidade e impaciência.

Título original: Night School (2012)

Páginas: 480

Editora: Alfaguara

Tradução: Miguel Romeira