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terça-feira, 30 de maio de 2017

The Pearl Thief, Elizabeth Wein


Opinião: The Pearl Thief serve como prequela a Code Name Verity, essa pérola literária que cinco anos depois, ainda me faz cantar as suas virtudes. (Tive oportunidade de rever o seu brilhantismo relendo partes do livro num domingo de manhã, depois de acabar este livro.) Contudo, funciona perfeitamente como a sua própria história isolada - não é necessário ler um após o outro, se bem que diria que a vida de qualquer leitor seria bem melhor por ter lido o Verity.

O livro decorre no Verão de 1938, e foca-se na personagem Julie, que conhecemos do Verity. Julie é parte da nobreza escocesa (o pai é um conde, o avô materno também), mas a sua deslocação a Strathfearn, onde se localiza a casa ancestral da família materna, não é por uma boa razão: a propriedade está a ser vendida, bem como o seu conteúdo, e a submeter-se a obras para ser transformada numa escola privada.

(Num processo muito semelhante ao aludido em Downton Abbey, calculo, a propriedade deixou de dar lucro e começou a acumular dívidas, exacerbadas com a doença do avô e as contas médicas acumuladas antes de falecer.)

Só que, mal chega, Julie mete-se logo em sarilhos: está junto ao rio da propriedade, observando um homem com um comportamento estranho, quando leva uma pancada forte na cabeça. Acorda três dias depois, sem saber o que se passou, mas o homem que observava está desaparecido. Este é portanto no essencial um mistério ao estilo cozy com um toque vintage e juvenil de Nancy Drew.

Não se pense, no entanto, que é só isso que o livro é. Tem múltiplos outros pontos de interesse: para já, a exploração da personagem Julie. Podemos ver vislumbres da pessoa que ela se vai tornar. Esta Julie é inexperiente, e ainda está a aprender a lidar com as suas capacidades de dar conversa e manipular pessoas, de usar os seus encantos femininos.

No Verity a Julie é extraordinária neste aspecto; aqui, ela vai fazendo as coisas tentativamente, aprendendo com as suas experiências. Por vezes corre-lhe mal - uma situação particular em que achava que estava no controlo ia-se virando contra ela -, mas a Julie é destemida e tem uma imensa vontade de aprender e melhorar.

Outros pontos de interesse prendem-se com algumas questões sociais, e os tipos de preconceito que prevalecem na pequena sociedade que rodeia a propriedade. Temos Mary, a bibliotecária da terra, que tem algum tipo de deficiência física no rosto e que é surda, o que condiciona a percepção que as pessoas têm dela. (A certo ponto, também a própria Julie assume coisas acerca da Mary que não devia.)

Temos uma exploração de desejos e sexualidade por parte da Julie, que reconhece que se sente atraída por ambos os sexos; e uma visita a um espectáculo de variedades apresenta-a a uma cantora trans. Numa época em que estas vivências nem sequer eram reconhecidas, quanto mais terem um nome, é de partir o coração ver as pessoas não poderem ser exactamente quem são, ou explorarem livremente o que querem porque nem se falava disso.

Outro aspecto do preconceito prende-se com a presença de travellers escoceses. A comparação mais directa que posso fazer é que são como ciganos ou Romani do Sul da Europa; mas calculo que tendo a Escócia uma história e sociedade algo diferentes do Sul Europeu, também hajam diferenças culturais, sociais e étnicas entre os dois grupos, por isso não são paralelos directos.

No entanto, são-no em muita coisa. Os travellers são nómadas, viajando dum lado para o outro conforme encontrem trabalho. Como não estão fixos, encontram muito pouca aceitação por parte da população sedentária, e todo o tipo de injustiças por falta de compreensão do seu modo de vida.

Quando as acções criminosas no início do livro se dão, os suspeitos óbvios para as pessoas são os travellers. Ellen e Euan, dois jovens que a Julie e o irmão conhecem no livro e com quem fazem amizade, nunca puderam terminar a escolaridade por dificuldades interpostas por quem de direito. É incrivelmente triste porque a Ellen parece ter interesses académicos, e nunca poderá segui-los.

Curioso é no meio disto tudo ver de onde vêm os preconceitos. Vemo-los mais entre as classes trabalhadoras, que não se podem dar o luxo de não ter preconceitos e não terão instrução suficiente para ultrapassar os mesmos. É entre a família de Julie que a família de Ellen e Euan encontra amigos, o que é interessante de considerar: é um pouco de classicismo enraizado na sociedade, já que esta família nobre tem, pela sua posição social, uma instrução diferente que lhes permite questionar os preconceitos que se lhe deparam, e pronto, podem realmente dar-se ao luxo de não ter preconceitos.

No entanto, neste aspecto nem tudo é mau: Mary, por exemplo, que era muito aversa aos travellers - alguém alvo de preconceito a enraizar outro preconceito em si mesma -, acaba por se abrir à sua presença, e confrontar esse mesmo preconceito que pintava as suas percepções. Aceita a presença de Ellen e acaba por ver o quanto esta última adora história e entende dos artefactos da propriedade, o quanto pode ajudar na avaliação do espólio. (Um pouco de esperança nesta sociedade dos anos 30.)

No que toca a enredo, achei o início do livro um pouco aborrecido. Acho que leva algum tempo até estabelecer as peças do puzzle, e da história, e o ritmo é bem mais calmo que no Verity, o que é um tudo-nada desconcertante. (Mas muito necessário.)

Quando a narrativa ganha tracção, lê-se muito melhor, e como vimos tem tanto sumo a espremer; contudo, o fim e a revelação dos mistérios também podia ser melhor trabalhada. Achei a cronologia das revelações algo confusa, ou melhor, não suficientemente clara. Há uma coisa que faz clique - a identidade do corpo que é encontrado -, o resto nem por isso, e isso fez-me confusão. Acho que a autora é bem mais capaz que isso.

Queixas à parte (foi só esta), este é um excelente livro. A Elizabeth Wein tem mão para nos imergir na atmosfera de uma época, e ela evoca esta Escócia dos anos 30 fantasticamente, mostrando uma fatia da sociedade escocesa, e discutindo alguns problemas sociais dela de forma directa e clara, e apresentando todo o tipo de detalhes que fazem um óptimo trabalho a complementar a pintura e esclarecer o leitor. Pode ter começado menos bem, mas o livro melhorou largamente e foi cativante até ao fim. Estou muito contente por ter tido a oportunidade de o ler.

P.S.: Quem é que está na capa? A Julie não é, que é descrita como loira. E a Ellen creio que também não. Aiaiai, editoras a mandar fazer capas que nem fazem sentido com a história...

Páginas: 412

Editora: Bloomsbury

sábado, 7 de setembro de 2013

Rose Under Fire, Elizabeth Wein


Opinião: Este é um livro um pouco diferente do Code Name Verity. Não tem a sua narrativa única, nem a sua capacidade de me deixar num farrapo emocional, mas é igualmente uma boa história e a autora volta a demonstrar a sua capacidade para situar o leitor no meio da 2ª Guerra Mundial e para criar uma personagem feminina que dá gosto seguir.

A Rose é americana, e é uma piloto civil de transporte de aviões para a força aérea britânica. Numa missão normal de transporte de um avião de França de volta para Inglaterra, é interceptada por dois aviões alemães e levada para território alemão, e depois para um campo de concentração. Tive alguma dificuldade com a voz da Rose no início. Por um lado porque a existência de um relato é em si um spoiler que nos diz que a Rose sobreviveu ao campo. E por outro porque a voz dela no início é tão ingénua, e tão privilegiada - até mesmo um bocadinho no começo do relato dela no campo -, que me fez alguma comichão.

Mas depois disso, o relato ganha interesse, à medida que vamos a Rose estabelecer relações com outras prisioneiras do campo, e que vemos aquilo que lhes é feito diariamente. Porque mesmo numa situação tão dura como esta, as pessoas são capazes de criar relações, de cuidar umas das outras, e lutar umas pelas outras. Parece quase do outro mundo, ler sobre aquilo que tinham de fazer. Mas gostei de ler sobre os pequenos actos de desobediência que elas conseguiam fazer, que geravam caos no campo. E sobre as pequenas histórias e poemas que a Rose contava às outras para as distrair.

As personagens secundárias saltam da página, e mesmo com um elenco grande a autora consegue criar pessoas com personalidades próprias. Achei muito interessante o grupo a que a Rose se juntou. E gostei de ler as coisas numa perspectiva um bocadinho diferente - nenhuma das personagens é judia. Por vezes, a grandiosidade do que aconteceu com os judeus durante a 2ª Guerra faz-nos esquecer que havia uma miríade de outras razões para as pessoas irem parar aos campos, e este livro faz bem em lembrar-nos. E em lembrar, ou apresentar, um bocadinho do que aconteceu com a experimentação científica em seres humanos nos campos. A história das Rabbits é chocante, e mais ainda quando vemos que as coisas estavam num ponto tal para as nossas personagens que tudo o que queriam era trazer a história das Rabbits cá para fora, esquecendo que as coisas que lhes aconteciam eram também imperdoáveis.

Gostei de (re)ver duas personagens em particular. Uma vem do livro anterior, Code Name Verity, e torna-se amiga da Rose através das missões de pilotagem. Foi bom revê-la e ver o que lhe aconteceu depois da tragédia grega que foi o Code Name Verity. A outra nem me dei bem conta que já a tinha visto no livro anterior. Quero dizer, reconheci o nome dela, mas não fiz a ligação. Só depois de ler o livro é que me bateu forte, a revelação. Mas gostei de a rever, porque lembra que os cidadãos alemães não devem ser demonizados. Também havia pessoas corajosas o suficiente para expressar o horror com o que estava a acontecer, ou a agir para corrigir um erro, e que iam parar aos campos por isso mesmo.

A parte final é algo recompensadora de ler, mas parece tão incompleta, e por isso o livro fica a saber a pouco. O processo de "cura", se é que lhe posso chamar assim, da Rose está a meio, e as situações em que se envolve ficam como que também a meio. Parece-me que se o objectivo da autora era falar dos tribunais em Nuremberga e em Hamburgo, ou fazia uma coisa completa ou não falava de todo nos mesmos. Porque me parece um pedaço de história que valia a pena abordar em condições.

Páginas: 480

Editora: Egmont

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Code Name Verity, Elizabeth Wein

I'm submitting this book to the 2012 YA Historical Fiction Challenge hosted by YA Bliss.

Description

My thoughts: 

I have told the truth.

There is a reason why I tend to stay from any WWII books ou movies. It is not because I dislike that period, because when I read or watch a work of art about it that is beautifully done I am its greatest advocate. It is because anything about WWII has the potential to break my heart with its portrayal of the tragedies and horrors of the war. Code Name Verity is a shining example of this, yet it is so much more.

Code Name Verity is about two young women, their friendship, and their role in the war. Maddie is a pilot. She loves to fly and she strives to be allowed to use her ability towards the war effort. Verity (I'm going to use her codename, since using her other names might be a spoiler in itself) is intelligent, well-read, a polyglot and a chameleon - she can become anyone, anywhere. And yet, by a simple mistake, she is caught by the Gestapo in occupied France.

Verity is tortured, and to avoid further pain, she starts to write her and Maddie's story, of how they became involved in the war, and most of all, of how they became friends. Verity's narration is a bit hard to follow at first, but it is a reward to the keen reader. I was aware, through other reviews, that Verity's narration was, say, somewhat unreliable, and so I was suspicious at everything she said - but at the same time I never guessed what she was hiding until it was revealed. How brave and clever was this girl.

The second part of the book hands over the narration to Maddie, and it is through her report that we are able to figure out Verity's. It is also her report that ripped my chest open, dragged my beating heart out and stomped on it till it was a squishing mass of blood and muscle. I did manage to hold my tears, because I was convinced that since Verity was unreliable, Maddie could be as well, but I was only fooling myself and ended up crying harder as I was reading the end.

Why should you read this, then? Because it is worth it. It feels painfully real, it transcends genres and it makes you think and strive to understand what Verity is telling you. It warrants further readings. It also sticks with you long after you've read it. That is the sign of a great book in my book. (Also, the way it makes me write a review I'm proud of.)

We make a sensational team.