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domingo, 15 de janeiro de 2017

Curtas BD: Graphic Novels da Marvel, vols. 26, 28 e 29

O Poderoso Thor: Em Busca dos Deuses, Dan Jurgens, John Romita Jr.
Ok... não estou a ver porque raios é que o Thor precisava de um reboot, mas eu claramente não andava a ler banda desenhada (não de super-heróis, pelo menos) nos anos 90, e por isso a coisa pode passar-me ao lado. Mas nunca fui muito à bola com esta história de o Thor estar ligado duma forma arcana a um tipo humano chamado Donald Blake.

Quero dizer, como é que isso funciona? Em termos físicos? Logísticos? Eles partilham um corpo? Uma mente? Duas mentes num corpo? São uma e a mesma pessoa ou duas diferentes que existem no mesmo espaço físico? São as perguntas que me mantêm acordada à noite. (Ou não.)

De qualquer modo, a maior parte das histórias com o Thor parece ignorar este pedaço de mitologia (ou então nelas o pessoal, muito avisadamente, fê-la terminar), e gosto mais do Thor em modo deus nórdico mesmo - os problemas domésticos dele parecem-me mesquinhos comparados com o tipo de coisas com que ele costuma lidar nos comics.

E portanto não sou fã de vir a ler um livro que pega na mesma premissa, um tipo que é "fundido" com o Thor. Ainda por cima foi trazido de volta à vida. E isto tudo pela razão mais estranha de sempre, o Thor sente-se culpado por o tipo ter morrido no meio duma batalha em que o Thor intervinha. Mas o Thor não teve intervenção directa na morte do tipo. É, infelizmente, um dano colateral, e seria uma boa forma de reflectir sobre o que acontece às pessoas comuns apanhadas no meio das lutas de super-heróis. Mas para este pessoal o mais importante mesmo é meter ali o Thor a ter de lidar com os dramas comuns da vida enquanto distribui porrada.

Fora isso (os dramas domésticos, quero dizer), a história pode vir a ser interessante, porque parece ter um âmbito mais épico. Peca por o volume terminar num cliffhanger. Mas parece promissor, com os conflitos entre panteões de vários deuses. E tem algum humor e alguns momentos em que revemos coisas da mitologia e história passada do Thor.

A arte do Romita, bem, entranha-se. Começo a conhecê-la, e dá algum conforto, estar familiarizada com ela. É adequada para o tipo de história. Começo a achar que ele não tem variedade nenhuma de expressões e desenhar caras, mas pronto. E acho que já sei de BD o suficiente para dizer que me parece que ele estava a canalizar o Jack Kirby e os seus Novos Deuses, o que é uma homenagem gira e adequada para os personagens que são deuses. (Houve um que me fez pensar duas vezes se não era o Darkseid ou um primo.)

1602, Neil Gaiman, Andy Kubert
Como se já não tivesse lido suficiente BD excelente do Gaiman este ano. (O ano passado, quero dizer.) Já tinha lido, cortesia da Devir há muitos, muitos anos atrás. E devo dizer, aguenta muito bem a passagem dos anos. Ainda é muito bom.

1602 reimagina o Universo Marvel se uma impossibilidade acontecesse e desse início à era dos heróis... centenas de anos antes. Essa presença foi, aparentemente, influenciadora da aparição daqueles que conhecemos como mutantes (conhecemos a versão original da equipa dos X-Men ao estilo século XVII), ou de mágicos e físicos (o Dr. Strange), ou de superespias e cegos com capacidades extraordinárias (a Viúva Negra e o Demolidor, respectivamente).

É tão divertido percorrer estas páginas e reconhecer as referências, por mais óbvias ou obscuras que sejam. (Calculo que algumas me tenham passado ao lado, mas enfim.) E melhor, os personagens que conhecemos estão indelevelmente inseridos no espaço e época em que existem. A descrição e apresentação dos mesmos são genuínas. Isto é mesmo a Inglaterra de Elizabeth I, e a Espanha da Inquisição. (E a Latvéria do Dr. Destino. Ehehe.) Mas é o tipo de trabalho que, depois de Sandman, esperaria do escritor.

O fim deixa-me triste e com vontade de ler mais, porque a premissa é tão boa que merece ser explorada. (Parece que foi.) A arte, por sua vez, é mesmo o tipo de coisa que aprecio. Adoro este estilo desenhado e pintado, e adoro as referências visuais no design dos personagens. Muito bom.

Eu, Wolverine, Chris Claremont, Frank Miller
Ah, estou a ficar um nada cansada de todos os livros em que o Wolverine é mau, mas "bom naquilo que faz". Nada culpa deste livro, que é o original, aquele que dita essa abordagem ao personagem, mas pronto. Não foi o que eu li primeiro, portanto leva com o meu cansaço acerca de tudo isto.

Este é interessante e ao mesmo tempo, não-tão interessante. Gosto da expansão que fazem à história pessoal do personagem, de entender a ligação dele ao Japão e como isso guia a mitologia do personagem. Gosto da ideia de uma história que fala de honra e guia os personagens com um código de comportamentos diferentes do ocidental, criando um choque de culturas.

Não sei se sou tão fã do tratamento de algumas coisas dessa cultura. A Yukio é fixe, mas um pouco cliché quando fica obcecada com o Logan. Acho que a Mariko podia ter mais garra, mais qualquer coisa. A história confina-a ao papel da filha obediente, mas ela podia ser isso e ainda assim ter uma certa personalidade. Algo que a distinguisse daquilo que os outros tendem a fazer dela.

Além disso, o pai dela morre às mãos do Logan, e ela no fim faz um discurso a desculpá-lo, que o pai tinha desonrado a família e merecia. Ideia? Devia ter sido ela a ter direito a essa morte. Seria tão fixe, depois de ser um joguete nas mãos dos outros, ela tomar rédeas do próprio destino. E tornar-se uma companheira à altura do Logan, no que toca a sangue frio.

sábado, 7 de maio de 2016

Curtas BD: Wolverine

Wolverine: Logan, Brian K. Vaughan, Eduardo Risso
Começo a achar que metade da piada do Wolverine é aproveitar a sua vida longa para o colocar em eventos importantes ao longo da história. Certamente, é o que eu acharia e me interessaria se trabalhasse em BD.

Portanto, a premissa é bastante fixe. Qualquer coisa passada na Segunda Guerra Mundial ganha interesse logo à enésima potência, nem que seja para ver como é que o escritor vai incorporar a História na sua história e personagens.

Neste caso, é bastante cativante. O Wolverine é um prisioneiro de guerra em Hiroshima, 1945, o que nos diz logo como é que esta história vai acabar. Foge com outro prisioneiro, mas separam-se quando percebe que este outro prisioneiro é demasiado violento, até para o Wolverine.

A história é curta, mas contém muita coisa. O Logan é acolhido por uma jovem filha de um soldado kamikaze, mas o clima é interrompido pelo outro prisioneiro de guerra, enraivecido e determinado a matar todos os japoneses. Entretanto, a bomba cai, e os resultados não são bonitos, tendo em conta as capacidades do Logan.

A narrativa intercala com o presente, em que o Wolverine, recordando-se do seu passado, vai ao Japão para dar um fecho a esta história. A história é boa, mas a arte ainda é mais fascinante. Consigo definitivamente ver porque é que o artista tem tanta gente a dizer bem dele. Com um tão bom trabalho de luz e sombra, consegue transmitir mesmo bem uma certa atmosfera.

Wolverine: Origem, Paul Jenkins, Andy Kubert, Richard Isanove
Já tinha lido este livro, e até já tenho uma edição anterior em português, da Devir, comprada nos bons velhos tempos em que eu comprava BD em português nas bancas. Acho que nunca mais vou comprar BD naqueles moldes, mas pronto. Tenho pena, porque foi assim que comecei a ler BD.

Bem, acho que o mais interessante na história em mãos é uma certa dualidade sobre o seu propósito. O mundo não precisa necessariamente duma história de origem do Wolverine, ele funciona perfeitamente bem sem ela. Aliás, é provavelmente por isso que se passou tanto tempo sem lhe inventar uma.

Por outro lado, fico com a sensação que os escritores do Wolverine adoram explorar-lhe o passado e inventar coisas que lhe aconteceram, por isso, a inventar algo que seja o início do personagem, prefiro que seja esta.

É que é tão diferente do personagem que conhecemos, que estranhamente, para mim, funciona. O Logan começa como James Howlett, um miúdo enfermo - uma noção hilariante, se pensarmos bem - numa família de posses, num Canada ainda muito inexplorado. Uma tragédia na mansão leva-o e a uma rapariga que trabalhava para a família a fugirem, terminando numa pedreira, onde o jovem James vai crescer e tornar-se em alguém muito diferente do esperado.

Acho que é por isso que resulta. Temos as óbvias referências ao presente do Logan, mas a diferença é suficiente para podermos separar as duas fases do personagem. O enredo tem foco, direcção, e pode ter alguns momentos fracos, mas é cativante o suficiente para manter o interesse.

O melhor de tudo é, claro, o trabalho de cor, que é tão bonito, nada a ver com um estilo mais clássico de BD, mas muito adequado para uma narrativa histórica, e bem, enche o olho.

Wolverine: Origem II, Kieron Gillen, Adam Kubert
Ah, infelizmente esta história não é tão especial como a anterior. Tem menos foco, menos direcção, e não acrescenta nada de novo à história do personagem. Tem algumas menções e ligações ao resto do mundo mutante que virá a acontecer, mas é tudo mais desinspirado, menos vibrante.

O Wolverine começa a história algum tempo depois da anterior, e está literalmente a correr, e a viver, com os lobos. Só que um urso polar manipulado e sanguinário destrói-lhe a "família", o que muda aquilo que se tinha tornado a sua rotina, e aterra com ele... no circo, a fazer de atracção.

Não sei, não me cativou, não me captou a atenção como a anterior. Tem alguns momentos engraçados, como a presença de pessoas com o apelido Creed, só que a revelação é feita tarde demais, e honestamente, aquilo que parte da cena final é que devia ser a história. O personagem apresentado tem um historial tão grande com o Wolverine que isso é que teria interesse explorar.

A arte é bem mais interessante, e tem alguns detalhes giros; reparei que no primeiro número a coloração é um pouco diferente, a puxar mais para a da história anterior, e faz sentido para separar do resto da história, que tematicamente é algo diferente.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Colecção Super-Heróis DC Comics - Volumes 1 e 2

Desde o ano passado, com a publicação da Colecção Heróis Marvel (Série I e Série II) pela parceria Levoir/Público, que ficou a expectativa de se fazer uma colecção semelhante para a DC. Que chega agora às bancas, à Quinta-feira, para apresentar uma série de histórias seleccionadas de vários personagens da editora. Estou bastante curiosa, conheço muito menos a DC e espero que esta colecção ajude um pouco a preencher essa lacuna.

Em jeito de primeiras impressões, parece-me que a qualidade de edição se mantém. A capa dura, o papel (que é tão bom que me cortei nele, coisa que nunca me acontece), e a impressão parecem-me igualmente bons. Nota-se uma diferença no número de páginas - ambos os livros que já li (e comentarei a seguir) têm talvez umas vinte páginas a menos que a média da colecção da Marvel. Calculo que é uma escolha calculada para manter o preço de capa (8,90€) e não ter de o subir.

Nota-se mais algum trabalho nas capas (algo que já se via na Série II, acho eu), com o uso de imagens "por trás" do fundo a cores e a preto. (Se bem que passava sem esse artifício no fundo preto. Pelo menos na lombada, onde fica estranho.) Tenho é saudades do símbolo do herói que colocavam nas lombadas da colecção da Marvel. Acho que aqui também podiam tê-lo feito. Não sou a maior fã do fundo azul para ambas as capas, pela repetição da cor e pelo símbolo da DC, que já é azul e se "perde" um bocado no meio da capa.

E agora sobre o nome da colecção - para a Marvel o ano passado eram "heróis", este ano para a DC são "super-heróis"? Mas isto  aqui há filhos e enteados ou alguém está aqui a tentar compensar alguma coisa? (LOL) Fora de brincadeiras, isto não me incomoda por aí além, mas fiquei intrigada com a mudança. Talvez tenha algo a ver com exigências da editora? No blogue de um dos organizadores da colecção há uma referência a exigências da DC quanto ao que podia ser abordado nos editoriais, por isso imagino que hajam outras directivas que tenham condicionado a produção da colecção.

Liga da Justiça - Terra Dois, Grant Morrison, Frank Quitely, Ed McGuinness
Gostava que tivesse havido alguma homogeneidade no uso da expressão "Terra Dois/2" ao longo do volume. Compreendo que o original em inglês é "Earth 2", e também compreendo que tenham preferido ter o 2 no título por extenso para evitar confusões com as histórias que estiverem divididas por dois volumes, e que são distinguidos com os numerais. Mas então que ficasse "Terra Dois" pelo livro todo, bolas, que confusão. É que fica a sensação que se está a falar de dois conceitos diferentes.

Gosto muito da premissa desta história, porque apresenta as histórias de super-heróis e as noções duais de bem e mal sob uma nova perspectiva. É muito interessante ver a inversão de papéis e acontecimentos entre as duas Terras, as reviravoltas que ocorrem devido a nesta outra Terra o mal vencer sempre, em vez do bem. Quis ler mais sobre este mundo, soube-me a pouco e acho que seria fascinante conhecê-lo.

Sobre a arte, não sou a maior fã do desenhador. Reconheci-o da série Novos X-Men e não gosto muito da maneira como desenha as caras. Faz os olhos muito pequenos, desproporcionais para o tamanho da cara, e não têm expressividade nenhuma. Os olhos dos personagens parecem-me todos iguais e dão a sensação que estão sempre todos zangados.

Sobre a segunda história, JLA: Classified, não me captou tanto a atenção. Gostei da ideia de conhecer uma equipa de super-heróis que não a JLA, mas senti que estava a começar a história in media res e que não havia suporte suficiente para um leitor ocasional se aperceber de certas coisas. De onde veio esta equipa? De onde veio o vilão? A situação que tem de ser resolvida é apresentada de forma desconexa e não ajuda a perceber as coisas.

Por outro lado, gostei muito da arte, particularmente do dinamismo do desenho e do trabalho com as vinhetas e a sua orientação na página. Lembro-me de uma página em que as vinhetas eram as faces dum cubo em perspectiva isométrica. Ou uma em que as vinhetas eram o símbolo do Batman. Ou umas páginas com 4x4 vinhetas.

Batman - Herança Maldita, Grant Morrison, Neil Gaiman, Andy Kubert
A história titular, Herança Maldita, acaba por ser outra que me deu a sensação de lhe faltar um bocadinho de trabalho expositivo e de começar a história a meio. Achei a história apressada e que podia ser melhor desenvolvida. É uma ideia interessante, a do Batman ter um filho. Mas nem sequer vemos grande reacção do Batman a isto.

A história é só basicamente o puto a arranjar sarilhos, dar cabo do Robin e no fim o Batman aperceber-se dos motivos ulteriores da mãe do miúdo. E fim. Quero dizer, acontece uma coisa séria ao Robin, mas a história rapidamente varre-o para baixo do tapete e não há impacto emocional nenhum. Por outro lado, em termos de arte, gostei do trabalho de sombras e de algumas vinhetas de página inteira.

No entanto, adorei a segunda história, O Que Aconteceu ao Cavaleiro das Trevas?. É uma ideia tão, tão boa - apresentando na mesma história uma reflexão sobre a mortalidade do Batman, a natureza cíclica das histórias de super-heróis, e como a diferente perspectiva das pessoas forma memórias diferentes. As histórias contadas no funeral são fascinantes de seguir (especialmente a do Alfred, o mordomo). Uma história mesmo boa, 5 estrelas.

A arte agradou-me, aqui também pela projecção das vinhetas na página e do uso das silhuetas do Batman. A coloração tem em geral um tom escurecido, mas adequa-se à história.