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domingo, 28 de maio de 2017

A Court of Wings and Ruin, Sarah J. Maas


Opinião: Sou uma totó. Ando a arrastar os pés para escrever esta opinião há que tempos, raios. Tenho tido uma certa dificuldade em deixar este mundo, que se revelou tão imersivo para mim, em deixar estes personagens apaixonantes e um enredo tão envolvente. Sei que a série vai continuar de alguma forma, mas não se sabe como, e por isso este é o fim da trilogia, por agora.

Digamos que estou de luto por uma série favorita ter terminado; há uma continuação a 16 meses de distância, mas isso é como se faltasse uma vida inteira. No entanto, essa perspectiva também me anima. A Sarah conseguiu fechar bem a história - a certa altura, até eu duvidava, parecia que ainda faltava tanto que fazer -, mas tem montes de pontas soltas e pedacinhos de história por onde pegar, e que quero ver desenvolvidos.

Primeira coisa que quero abordar na história: as referências, a mitologia, o worldbuilding. Este cresce explosivamente, apresentando tantas personagens e bocados do mundo por explorar; e adoro que ela tenha incorporado tantos pedaços de mitologia conhecida. O mapa de Prythian é um paralelo óbvio à Grã-Bretanha e à Irlanda e ao Norte da Europa; por isso é mais do que adequado que a história se revele passar numa espécie de mundo paralelo/alternativo à Europa medieval que conhecemos.

Adorei vislumbrar pedacinhos de mitologia judaico-cristã (a história da Amren fez-me saltar do lugar), grega, ou russa. E como já tenho mencionado noutras opiniões, sei que a autora é fã de Anne Bishop, e esta trilogia parece ser um tributo particular à sua saga das Jóias Negras. Pequenas coisas nesta trilogia lembram-me dessa série, como uma homenagem subtil e bem-feita. E adoro sentir essa nostalgia.

Quanto a enredo: suponho que seria exequível escrever uma história mais curta e tocar nos mesmos pontos principais do enredo. Mas não era a mesma coisa. É por ser um livro tão longo que é riquíssimo no que inclui; e honestamente, consegue empacotar muito mais que 700 páginas de história. Souberam-me tão bem os pontos altos como os pontos baixos da acção; deu para saborear a história e deliciar-me com os novos detalhes apresentados. A derrota de Hybern é incrivelmente complexa, mas as peças mexem-se de forma irrepreensível e de forma a que me parece que nunca podia ser contada doutra maneira.

Coisas interessantes no desenvolver da história: primeiro, como a Feyre causa o caos na Spring Court no início, em jeito de vingança, e como isso volta para a lixar. Foi uma má decisão no grande esquema, mas uma necessária e bem compreensível naquele momento. O conselho de Fae e das High Courts foi hilariante, por todos os egos e dramas a decorrerem. Os detalhes que vemos das outras cortes (como os animais na Winter Court) são fascinantes. Oh, e alguns personagens a reter e que gostaria de conhecer melhor: Vassa, Jurian, Miryam e Drakon.

Gosto de como a história apresenta uma variedade de gente que foi quebrada e destruída de diversas maneiras, e de como se reconstroem e se curam de formas tão diferentes. É uma descrição de trauma tão credível e tão reconfortante: ver que o trauma não define os personagens, e que há vida para lá dele.

Gosto também de ver uma descrição tão positiva de certos aspectos da vida sob o ponto de vista de uma mulher: as amizades entre mulheres são inspiradoras, e também o é ver estas personagens femininas a lutar pelo que merecem, a não se contentar com menos, a serem assertivas e doces e duras e a imporem-se sem o mundo a fazê-las pedir desculpa por isso. Precisamos de mais livros assim.

Sobre os vários personagens... bem, a Elain acaba por ser discreta, está a recuperar, e gostava de a ver mais, mas tem um momento brutal no final. O Azriel também é discreto por natureza, mas a sua natureza bondosa mostra-se, e adorava ver mais do seu mundo interior. Ele e a Elain dão-se bem, e gostava de ver os dois juntos, talvez. Seria uma maneira curiosa de explorar personagens para além do mating bond.

A Amren continua a ser assustadora e indomável, e adoro como toda a gente tem medo dela, mas lá muito no fundo, ela é uma fofa. A sua história passada é super interessante e vou querer saber mais. O Lucien tem alguns momentos que esperava, outros nem tanto... uma revelação foi extraordinária, mas estava a reler a minha opinião do primeiro livro e talvez já aí a Sarah estivesse a plantar pistas disso. Coisas muito interessantes o esperam.

O Cassian é amoroso e tão despreocupado; já a Nesta é tão cativante, por ter um feitio tão retorcido. As coisas são muito difíceis para ela - pelo menos, de as deitar cá para fora -, e temo o dia em que ela expluda e leve tudo à frente. Estes dois juntos são tão engraçados; mas acho que o Cassian precisa de puxar mais por ela, ou ninguém vai a lado nenhum. Sinto que a Nesta precisa de ser provocada para sair da casca; mas ao mesmo tempo, o final parece ter deixado marcas nela. A coragem tremenda que foi necessária para fazer algo daquele calibre... uau.

A Mor... bem, é um pouco frustrante. Adoro saber um pouco mais da história dela, e adoro que seja uma tentativa concertada da Sarah para dar mais diversidade ao elenco - acho que ela está a aprender a fazer mais e melhor nesse aspecto. Mas não achei especialmente credível ter alguém enfiado no armário mais de 500 anos porque tem medo do papá. Percebo o instinto dela de proteger a sua vida do mal que a parte retorcida da Night Court lhe pode fazer, mas em todos os outros aspectos a Mor parece ter recuperado do mal que passou nas mãos deles. Seria de esperar que neste tempo todo tivesse aceite que pode ser ela própria e que procurasse a sua felicidade. Mata-me que no meio disto tudo um amigo viva pendurado da indecisão dela, que nem é capaz de ser honesta com ele. De novo, 500 e tal anos é demasiado tempo para arrastar a situação.

Sobre o Tamlin - eu já gostei dele, eu já o detestei, e não fui particularmente fã da maneira como as minhas emoções foram manipuladas em relação a ele. Gosto mais da sua caracterização aqui, é mais nuanceada. Tomou muitas decisões questionáveis, mas entendo porque achou que era o melhor para si e para os seus. Continua agarrado ao ódio e com uma perspectiva retorcida das coisas, mas tem um fundo bom e mostra-se à altura da ocasião, sabendo manter-se um líder estratega e lutando pelo que está certo. Tem espaço para curar e melhorar.

Deixei o melhor para o fim. Tenho gostado imenso de seguir a Feyre ao longo da trilogia. Tem um crescimento extraordinário; e os momentos que passou no início, os sentimentos e emoções que conhecia, retorcidos por vezes, foram fundidos e reformados num molde melhor. Está confortável na sua pele, luta pelos seus, é destemida e esforçada e determinada a enfrentar o seu pior e o seu melhor para ajudar os que a rodeiam, não se satisfazendo até conseguir o melhor para eles e para ela.

O Rhys tem sido uma surpresa ao longo da trilogia, uma acerca da qual eu ainda estou parva como foi tão bem desenvolvida e como me deu tão bem a volta. É muito cativante ver o seu instinto para continuar a sacrificar-se, a dar tudo pelos outros. De certo modo gostava de ler mais sob o seu ponto de vista, porque há ali um equilíbrio entre o líder experiente, a fachada de não se importar com o que as outras cortes pensam dele, e a pessoa que passou a sua quota-parte de trauma. Este último é algo pouco reconhecido e discutido pelos personagens, sendo a Feyre a pessoa que entende e reconhece directamente, mas uma discussão com tacto do assunto seria tão interessante.

Os dois juntos: gosto tanto, e nunca pensaria que isso viria a acontecer. Funcionam como uma unidade, mas tomam as suas decisões por si, são independentes mas uma frente unida na forma como cuidam dos seus e defendem a sua corte. A primeira vez que se revêem neste livro é amorosa, vão esconder-se para um canto a conversar e a dar festinhas um ao outro.

É difícil encontrar o equilíbrio entre ter um casal junto e não resvalar para o drama, mas ela consegue fazê-lo. Pontos bónus, porque gosto de ler livros em que o casal já é um casal a sério. E também aprecio o reconhecer de que o amor não resolve tudo: estas pessoas ainda têm um passado, um sofrimento que carregam e com o qual têm de lidar todos os dias; mas é simpático ver que ter alguém com quem partilhar os bons e os maus momentos traz conforto.

E numa opinião já muito longa, vamos ao final: terrível, dramático, de roer as unhas. A fasquia estava elevadíssima, algumas pessoas pagam o preço, tudo vai para o inferno, e o meu coração ia tendo uma síncope, que aconteceram coisas que eu não queria que acontecessem, apesar de tudo se ter resolvido pelo melhor. O bom do final é que traz uma série de gente que eu queria (re)ver, e adorei algumas pequenas surpresas.

E pronto, chegámos ao fim (da opinião). No fim de contas, acho que este e o A Court of Mist and Fury (o segundo) são os meus favoritos dela. Também tenho favoritos dela na outra série, mas estes ainda ficam um furo ou dois acima dos melhores dessa série. Vai ser tão doloroso esperar pelos livros previstos neste mundo, ainda mais porque nada se sabe deles - mas adoraria que fossem livros para explorar este mundo e as pontas que ficaram por atar. (E se fossem ao estilo romance paranormal, cada um dedicado a um casal enquanto explora o arco de história da série, melhor.) Também adoraria ler uma prequela: há eventos mencionados que seriam interessantes de ver descritos. Mas isso, agora, é alimento para uma futura opinião. Mal posso esperar.

Páginas: 720

Editora: Bloomsbury

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Empire of Storms, Sarah J. Maas


Opinião: Céus, quanto tempo levei eu a escrever a opinião deste livro. Acabei-o há cerca de um mês; mas é um favorito, por uma autora favorita, e isso dá-me sempre relutância em opinar. Já sei que vou passar o tempo todo a babar-me para o livro e a dizer bem.

Ainda por cima este é um caso especial: consolidou em mim a ideia que vou gostar sempre de tudo o que sair da pena desta autora, mesmo que não concorde com algumas coisas em particular que ela faça na sua história. Há poucos autores que façam o que a Sarah faz que não me ponham a resmungar por o terem feito. Acho que é isso em particular que faz dela uma autora favorita.

Este livro é marcado por uma viragem na narrativa (que tem vindo a ocorrer lentamente ao longo do últimos dois livros, e aqui se cimenta) e no modo como o mundo de fantasia presente é abordado; e isso é acompanhado pela minha observação do quanto a série evoluiu ao longo do anos. Nem parece o livro em que peguei há pouco mais de quatro anos. O Throne of Glass era bastante mais intimista na abordagem; os personagens eram mais próximos, a narrativa mais emocional. O elenco era pequeno e era muito fácil ligarmo-nos aos protagonistas.

Era o embrião de uma ideia que veio a dar frutos tão ricos. Em comparação, Empire of Storms é bem mais vasto no âmbito, no modo como aborda a narrativa e explora o mundo. É bem mais próximo da fantasia épica mais conhecida, com um elenco mais alargado de personagens (que a autora continua a conseguir caracterizar lindamente e a cativar-nos), um enredo que se divide por vários locais e personagens e converge num final intenso e emocionante, deixando o destino de um ou mais personagens em suspenso.

A evolução da autora é extraordinária; ela consegue gerir um enredo com vários pontos sem deixar cair nenhum (bem, há um particular que está obviamente ausente, mas lá chegaremos), consegue caracterizar um elenco de personagens semi-principais lindamente, fazendo-nos preocupar com cada um e com o que lhes acontece (diria que ainda foi mais divertido acompanhar os "semi" que os principais), o enredo em si cavalga sem soluços, de forma delirante e cativante até ao final, sem parecer que se perdeu ali pelo meio.

Melhor, a escrita da Sarah é absurdamente envolvente. Há algo nela que sempre me encantou e me fez sentir mesmo ligada a ela. Penso que descobri a razão, ou parte dela: a Sarah tem as mesmas referências de fantasia que eu. Há coisas nos livros dela que eu quase consigo ler como homenagem a este ou aquele livros; ela tem noção das histórias mais importantes no género, dos arquétipos e tropes prevalentes, e brinca com isso, fazendo a sua própria coisa. Isso agrada-me imenso.

Falando mais especificamente sobre o livro em si: acho que vou abordá-lo por conjuntos de personagens. As várias linhas de enredo acompanham certos personagens em grupos e será certamente mais fácil para mim comentá-los assim. (Provavelmente vai ter spoilers. Há coisas que eu não vou conseguir comentar sem spoilers. E vai ser muito longo. Temos pena. Neste caso tenho de falar de tudo. Tenho mesmo.)

Sobre a Lysandra e o Aedion: adoráveis. O Aedion é um personagem bastante interessante por si só, e tem uma posição única na vida da Aelin; mas as melhores cenas dele são com a Lysandra. Parece um cachorrinho à volta dela. Há uma cena em especial, em que ele faz um comentário sobre casamento, em que aquilo foi a coisa mais Sangue que eu li fora dum livro da Anne Bishop. (A Anne é uma das tais referências de fantasia que eu e a Sarah temos em comum, disso tenho a certeza.)

A Lysandra, particularmente, é uma personagem fascinante. A força dela não é exactamente em ser uma guerreira - ela é uma sobrevivente. E isso dá-lhe uma garra especial. É discreta, aprecia as suas capacidades, é imaginativa com elas. Há um par de cenas de acção dela que são extraordinárias, de roer as unhas e morrer de medo. A rapariga é tão resistente. E tem fibra. Aquilo que ela concorda fazer no final, no entanto, entristece-me. A Lysandra está a conhecer-se a si própria, a redescobrir-se fora das amarras que tinha, e concorda "apagar-se" para ajudar uma amiga. É nobre, mas triste. Gosto demasiado dela para a ver assim.

A Elide e o Lorcan: a Sarah basicamente deu-nos com eles algo que não sabíamos que precisávamos. A ligação relutante que eles desenvolvem é fascinante, porque são tão diferentes e trabalham tão bem juntos. O Lorcan é caracterizado duma maneira que me agrada: assim é que se escreve um Fae desconfiado, velho, descrente de tudo; é cruel até, mas é lentamente cativado pela inteligência e engenho da Elide.

A Elide é extraordinária. Tem uma baixa auto-estima pelas suas circunstâncias, mas é a prova que há vários tipos de força, e nem todos são físicos. É muito inteligente e observadora, quase retorcida até no modo como pensa. Mas gosto do modo como pensa. Adorava que ela ficasse com o trabalho de mestre espia para a corte da Aelin.

A Manon e o Dorian: outros que nunca pensaria ser possível, mas a modos que fazem sentido juntos, pelo menos nos moldes em que vimos até agora. Uma ligação relutante, formada em moldes não exactamente românticos, mas consigo vê-los a ser um par no futuro. Certamente não um daqueles pares peganhentos como outros que poderia mencionar (já lá vamos), mas creio que podiam funcionar, gosto muito da ideia.

O Dorian, bem, nunca pensei que viesse a gostar tanto dele. No início achava-o irritante por causa da mania que tinha de ser um playboy, mas a sua evolução tem sido extraordinária. O sofrimento que passou, as lutas internas que travou... isso deixou uma marca. Por um lado um Dorian mais sóbrio, mas também um mais seguro no seu poder e suas capacidades. E um Dorian talvez um pouco mais inclinado para a adrenalina e para situações que o fariam recuar no passado.

A Manon, bem, é outra personagem extraordinária. Aliás, todas as personagens femininas da Sarah são magníficas. Mas a Manon é especial. Evoluiu tanto. Desde o início que tem vindo a subverter a autoridade de maneiras discretas, mas aqui tem de dar um passo importante contra o que lhe foi ensinado desde o início, e estou tão orgulhosa dela. Tem umas cenas verdadeiramente poderosas. A amizade dela com o Abraxos e com as Thirteen é linda, de emocionar, muito cativante de acompanhar. (E um aparte: gosto de como a Sarah deixa a Manon confortável no papel de monstro, sem desculpá-la ou cortar-lhe a ferocidade.)

Agora a Aelin e o Rowan: não sei, não consigo vê-los juntos, não consigo compreendê-los juntos. Não fazem propriamente sentido para mim. A evolução deles foi demasiado abrupta: no Heir (livro 3) eram uma ode ao poder da amizade, e gostava de quão platónicos eram; nem tudo tem de ser romance. Mas depois no Queen (livro 4) já eram todos "quero saltar-te para cima", sem nunca haver uma pista de interesse romântico, e agora (livro 5) são aquele casal meloso, sempre a esfregar-se um no outro, e que dá vontade a toda a gente de os mandar encontrar um quarto para resolver o cio. (Spoiler alert: eles encontram um. Mais ou menos. Não consegui levar a cena de todo a sério. É um pouco excessiva.)

Podemos acusar-me de não gostar do Rowan porque estava investida noutro par romântico da Aelin, mas honestamente nem quero saber, por mim ela ficava sozinha que ficava muito bem. E de qualquer modo, eu sei que a Sarah é capaz de fazer uma evolução subtil de um par para outro. Eu entrei no ACoMaF determinada a detestar o Rhys, e vejam que bem que isso correu. (Spoiler alert: nadinha bem. Até estou surpreendida com o quanto a minha opinião sobre ele evoluiu.) Eh. Eu quero gostar do Rowan, mas a Sarah não me ajuda, não me facilita gostar do par Rowan + Aelin.

Coisas que não gosto neles: o esfreganço. Uma coisa é um casal ser carinhoso, outra é parecer estar sempre no cio. E não consigo acreditar neles como um casal equilibrado. O Rowan terá sempre muito mais experiência, e sinto que a presença dele diminui as capacidades extraordinárias da Aelin.

Além disso, a Sarah parece escrevê-los como wish fulfillment, como a Mary Sue das relações: são perfeitos, têm poderes infinitos, são feitos um para o outro, nada os separa. Ela dá uma volta parva para fazer deles mates. E uma volta ainda mais parva para garantir que a Aelin tem longevidade Fae, por isso, alegria! Vão ficar juntos para sempre. Falta conflito. Todas as relações, românticas ou não, são uma constante negociação de sentimentos e pensamentos, de individualidade, de todos os obstáculos que a vida coloca. Não são tudo entregue de bandeja.

Em teoria creio que poderia gostar do Rowan, mas a Sarah falha em caracterizá-lo, dar-lhe POVs para o conhecer melhor. Faz muito melhor trabalho a descrever um Fae numa posição na vida semelhante com o Lorcan. O Rowan não fala por si mesmo no texto, e isso não é bom com a importância que é suposto ter na narrativa. (Até agora, a única virtude que lhe encontrei - ter muitos primos. Eh. Coisa importante para a batalha final.)

Não sei, acho que ela estava a tentar fazer do Rowan um Daemon, mas até ele e a Jaenelle tinham os seus problemas (para já, a longevidade curta dela, sem falar nas suas capacidades extraordinárias, e bem, salvarem o mundo e tal). Creio que o Rowan me soaria melhor como um Saetan, tal como o Aedion é claramente um Lucivar. (Muitas referências às Jóias Negras da Anne Bishop. Para quem ainda me está a ler, e não sabe o que é, shame on you.)

Quanto à Aelin, bem, continuo a gostar muito dela. Não é perfeita, faz asneiras. Mas esforça-se. Sabe-me melhor assim. Há uma clara evolução desde o primeiro livro, e só tenho saudades porque adorava a fedelha irritante que era a Celaena Sardothien. A lata dela! Felizmente, vemos um bocadinho disso numa certa cena. Gosto de como é corajosa e se arrisca, de como cai e volta à luta, de como não desiste. É arrogante, e não diz as coisas às pessoas, o que é perigoso, mas faz o sacrifício mais extraordinário, certificando-se antes que tudo fica alinhado para garantir a vitória aos seus. A Celaena não era capaz de tal presciência e sacrifício.

Quanto ao Chaol... bem, como disse, não me aborreço propriamente que ele e a Aelin não sejam um casal. Mas faz-me imensa confusão que o corte tenha sido abrupto, e que eles nunca tenham posto as coisas em pratos limpos, falado sobre o que os separa. Para pessoas que são supostamente amigas depois de tudo o que aconteceu... houve demasiadas discussões não resolvidas no início do livro anterior para eu acreditar nisso. Acho que na pressa de passar as atenções românticas da Aelin para o Rowan, a Sarah nunca foi capaz de resolver convenientemente estes dois.

O que mais me desaponta no meio disto tudo é que, pronto, ele não aparece de todo neste livro. De um dos três protagonistas no primeiro livro, passa a nota de rodapé neste quinto livro. A sério, ela mete três ou quatro comentários de outros personagens a pensar que ele está no sul, e que esperam que traga uma frota assim e assado, e pronto. Passamos ao assunto seguinte. Que balde de água fria.

Suspeito que haveria cenas com ele no livro na fase de edição, mas era tão longo que foram cortadas. Foi anunciada uma novela com ele, e calculo que as contenha. De certo modo, até percebo. Provavelmente o ritmo do enredo não resultaria tão bem. Mas custa-me ver um personagem importante assim cortado.

Além disso, a Sarah enterrou-se num canto com ele. É basicamente o equivalente do nosso mundo de um personagem com uma deficiência física, e ela não pode curá-lo magicamente sem isso ser bastante ofensivo. Mas se ela não o tentar fazer, a história dele ainda pode vir a dar boas surpresas, acho. Adorava que depois deste livro e dos acontecimentos dele, ele fosse parar a Wendlyn e mostrar que ainda tem muito para dar à história.

Mais coisas que gostei de ver: a louca da Maeve. Um cheirinho de Terrasen, se bem que não o suficiente. O modo como a mitologia expandiu e cresceu outra vez. A "surpresa" que a Elena tinha reservada. O modo como eu já sei (ou bem, tenho uma ideia jeitosa da coisa) como essa surpresa vai ser resolvida. Encontrar velhos conhecidos. As cenas de Pirate's Bay. (Menos uma delas... eh.) As cenas nos pântanos e como levam ao final.

Por falar no final... caramba, a Sarah quer que eu fique sem unhas de tanto as roer. Gosto de como acontece no seguimento das acções anteriores. Gosto de como a Aelin preparou tudo com tanta antecedência, deixando todas as ferramentas necessárias às pessoas que a acompanham. É épico na maneira como se desenrola, assustador, estranhamente credível a dar a ideia que está tudo perdido. É de partir o coração.

A única coisa que não me agrada nele é que deixa a Aelin numa posição de damsel in distress, de precisar de ser salva, e isso não é coisa que eu goste de ver associada a esta personagem extraordinária. Até estava a vê-lo acontecer, previ-o muitas páginas antes. Continuo a não ser fã.

E pronto, chegamos ao fim desta minha opinião muito longa. Bem precisava de pôr tudo isto por escrito. Para o ano vou precisar de me lembrar de tudo. E quão longo ele vai ser...

Portanto, este é um excelente exemplo de como eu posso não gostar nada de um certo ponto de um livro, e ainda assim adorá-lo e à sua autora. É claramente um livro 5 estrelas para mim, há tanto que me agrada e vai de encontro aos meus gostos que não podia deixar de ser. Apenas contém algo também de que não sou fã, e gosto da ideia de poder amar uma coisa e ainda assim apontar-lhe os defeitos, as coisas que menos me agradam. Estou confortável no meu adorar desta série, e por isso posso dizer o que bem me apetece. Agora vou voltar ali para o meu cantinho e sofrer pelo último livro da série durante mais um ano.

Páginas: 704

Editora: Bloomsbury

segunda-feira, 13 de junho de 2016

A Court of Mist and Fury, Sarah J. Maas


Opinião: Se isto fosse um filme ou uma peça de teatro, merecia uma ovação em pé. Porque, caramba, estou tanto chocada como bem impressionada com a Sarah e a mestria com que ela escreveu este livro e mexeu com as peças de xadrez, e com o meu coraçãozinho frágil. Não é fácil fazer a proeza que ela fez, e tenho a certeza que com qualquer outro autor eu já me estava a preparar para o deitar abaixo, mas com ela, bem, ela escreve duma maneira hipnotizante e eu vou atrás tipo "sim, mestre".

Bem, depois dos acontecimentos finais do livro anterior, era de esperar que a Feyre passasse uns maus bocados por causa do que tinha acontecido Under the Mountain. Tudo aquilo deixou uma marca (não só nela, mas ela é a narradora, portanto...), e as primeiras 100, 150 páginas são um pouco pesadas de ler por causa disso. Custou-me imenso ler e ver a minha protagonista perder o fogo que era parte da sua personalidade, deixar-se arrastar pelos acontecimentos, deixar que os outros fizessem dela uma boneca.

É que o problema é que não é só ela a sofrer de stress pós-traumático; podemos argumentar que quase todo o mundo féerico, especialmente aqueles que passaram 50 anos fechados Under the Mountain ou presos numa maldição, sofre do mesmo. O problema é também que a dor faz as pessoas perderem-se a si próprias, sejam humanas ou féericas, se o deixarem, se se fecharem em si, se não confiarem nos que amam.

Isso põe uns constrangimentos terríveis na Spring Court e nos que aí vivem (e no mundo féerico também, mas aqui ela é o foco). A certa altura parecia que todos estavam a sofrer, à sua maneira, no seu cantinho, sem estender a mão uns para os outros. Houve alturas no outro livro em que mostraram uma frente mais unida. E quando cada um fica fechado em si, sem tentar compreender e aproximar-se do outro, bem, é claro que as coisas correm mal. E que isto já não era ambiente para a nossa protagonista.

E pronto, há um deslocamento espacial da Feyre, e ela vai parar à Night Court por causa do acordo que tinha feito com o Rhys, mas também por... outras coisas, entre elas o facto de, como eu tinha previsto, eles serem as melhores pessoas para fazer a Feyre voltar a encontrar um equilíbrio consigo própria.

E se eu não soubesse já que a Sarah é fã de Anne Bishop, raios, que eu a topava em cinco minutos com este livro. Certas características da Night Court são totalmente uma homenagem a uma certa corte dos Sangue dos livros das Jóias Negras. O sentido de humor, a camaradagem e união, a ideia que estas pessoas são muitíssimo poderosas e podiam estar neste momento a arrasar tudo, e mesmo assim põem as suas consideráveis capacidades ao serviço de algo maior que eles... não sei, as vibes que eles me deram eram totalmente Bishopianas, mesmo sendo as suas próprias pessoas, diferentes dos que homenageiam.

Não posso falar muito em pormenor do Rhys, porque metade da piada é ler em directo; mas posso dizer que fui reler a minha opinião do livro anterior, feita há um ano, e apetece-me rir a modos que histericamente. Estava tão certa e tão errada ao mesmo tempo, meu Deus, ao escrever aquelas palavras, que é mesmo de cair para o lado.

Digamos apenas que a Sarah escreveu aquilo que eu nunca acharia que queria, e melhor, conseguiu criar uma evolução emocional credível, conseguiu responder às minhas dúvidas, conseguiu esclarecer melhor o carácter dele e redimir algumas coisas, sem tentar justificar. Digamos que é das melhores reviravoltas que já li, especialmente por ter conseguido com que eu embarcasse nela. Raio da mulher que conseguiu com que eu mudasse de ideias em relação a um tema que eu não achava que fosse passível de mudar de ideias. É o que dá armar-me em irredutível.

É bastante óbvio que gostei de conhecer a Night Court e seus intervenientes; a exploração da mesma dá uma perspectiva diferente do mundo féerico e até do que se espera deles. Achei a Amren tão interessante, pelo seu mistério e capacidades; já o trio Mor-Cassian-Az é tão divertido e merecem levar uns calduços para ganhar juízo. E pronto, posso dizer que achei piada à relação da Feyre com o Rhys, sempre a meter-se um com o outro.

Há algumas pessoas que eu estou a ver a juntarem-se à equipa Night Court, como as irmãs da Feyre, pelas razões óbvias e por algumas não tão óbvias, mas vai intrigante ver a coisa desenrolar-se; e o Lucien, que esteve tanto tempo desaparecido na narrativa, por força de maior - já estava a sentir a falta dele, e o fim acho que garante que ele vai saltar para outro lado (adorei o ar de desconfiado dele). Gostava ainda que se resolvesse a questão com a Summer Court, porque até tinha gostado deles, e podem ser aliados valiosos.

A narrativa pode sofrer um bocadinho de segundo-livro-ite, ou seja, as pecinhas de xadrez estão todas a movimentar-se sem fim à vista, a preparar o clímax da trilogia, no terceiro livro. Vemos a ameaça maior a concretizar-se, os personagens dão passos para tentar travá-la, mas ainda não é desta, claro. Estou muito curiosa com a ameaça vinda de Hybern, porque pelos vislumbres que temos, é claro que um jogo maior está a decorrer, e nós nem vimos metade. Preocupa-me pensar no que será preciso fazer para serem derrotados.

O final, céus, matou-me. A aflição com uma tragédia, o encadeamento de traições, o optimismo que vulnerabilizou os nossos personagens: tudo se junta para os colocar numa posição muito frágil. Fiquei a roer as unhas. É certo que estes acontecimentos prometem coisas muito excitantes no terceiro livro, mas no momento... tanta tensão, tanto nervosismo. Gostei de como a Sarah não foi pelo cliché óbvio, e que as pessoas certas compreenderam o que estava por trás do engano que, admitamos, era preciso para desarmar uma situação complicada...

Caramba, e agora lá vou eu sofrer um ano, à espera de saber o que vai acontecer a seguir. É a história da minha vida. Espero que a Sarah tenha à minha espera coisas muito fixes, e tortura como só ela sabe fazer. De certeza que vai ser delicioso de ler.

Páginas: 640

Editora: Bloomsbury

domingo, 4 de outubro de 2015

Queen of Shadows, Sarah J. Maas


Opinião: Oh, céus, não sei se consigo fazer isto. Passei tanto tempo a suspirar pelo livro, e depois ele chegou-me; e depois li-o, devagar, devagarinho, para o apreciar, e porque aquilo que trouxe à série merece reflexão; e agora estou aqui, com um milhão de pensamentos e coisas que quero formular, a atropelarem-se todos uns aos outros, e não sei o que há de sair primeiro. Credo, que é tão difícil pôr ordem nas ideias. Precisas mesmo de dar cabo de mim, Sarah? (Spoiler alert: sim, se não não era tão divertido.)

Ok, vamos lá tentar. Queen of Shadows é a evolução mais ou menos natural do livro anterior; só que sendo a Sarah, eu não sabia bem o que esperar especificamente; faltando ainda dois livros na saga, perguntava-me quanto é que ela tencionaria avançar quanto aos antagonistas principais e aos desafios que se colocavam aos personagens. Além disso, havia questões de outra natureza, mais emocional, digamos, a ser resolvidas, e era uma incógnita aquilo que a autora tinha planeado. Podia ir em tantas direcções.

Quanto ao enredo, acho que fiquei surpreendida ao ponto a que as coisas ficaram resolvidas. Digamos que o enredo tinha três pontos: um resgate muito necessário e dois antagonistas. O resgate era bem óbvio que ia acontecer. O primeiro antagonista, bem, podia ia para qualquer dos lados. Podia ser resolvido ou ser arrastado. Tenho pena de não poder ver mais dele, porque a sua relação com a Aelin é fascinante; mas adorei ver que recebeu o seu pagamento kármico.

O segundo antagonista, uau, nunca esperei ver a sua situação resolvida desta maneira, nem tão depressa. Fiquei surpreendida mas agradada com esta revelação, que alarga o âmbito das coisas e sobe a fasquia para os nossos personagens. As coisas vão ser muito diferentes a partir de agora. Encontram-se num lugar bom, no fim deste livro, e tenho tanta curiosidade em ver como vão levar avante aquilo a que se propõem.

O elenco de personagens é assim qualquer coisa de soberbo. Eu não consigo deixar de adorar toda a gente, independentemente da sua posição e atitudes. Há qualquer coisa na maneira como a autora escreve que os faz funcionar fantasticamente. Aprecio particularmente o elenco sólido de mulheres na história. Todas diferentes, umas fortes, outras frágeis, umas capazes de se defender, outras colocadas em posições periclitantes, mas todas com o seu tipo de força interior, de coragem sob circunstâncias esmagadoras. É tão refrescante e delicioso de ver.

Desde o livro anterior que ando a desenvolver uma teoria, baseada no saber que a Sarah é fã de Anne Bishop. É que não consigo deixar de estabelecer os paralelos entre os Fae da Sarah e os Sangue da Anne (aliás, desde então estou convencida que os Sangue são a maneira da Anne escrever sobre seres féericos), e bem, consigo ver tão bem as parecenças.

Tenho a sensação que a Aelin vai reunir em torno de si uma corte como a da Jaenelle, cheia de machos drama queens e armados em possessivos, com as mulheres a darem-lhes a volta sempre que podem. Eh, tenho a ser certeza que vai ser tão divertida de seguir como a corte da Jaenelle era. Só não posso tentar estabelecer paralelos entre personagens porque isso ia ser definitivamente spoiler.

Pequenos destaques a personagens... ora bem... Lysandra, das melhores personagens no livro toda. Adoro o volte-face na relação dela com a Aelin. No passado tinham sido inimigas, da maneira como só a vida em sociedade sabe colocar mulheres umas contra as outras, e por isso gosto de ver como conseguem ser mais adultas, ultrapassar as parvoíces e formar uma amizade sólida. Além disso, a posição da Lysandra é tratada duma forma sóbria, sem julgamentos, e gosto tanto do feitio tortuoso dela.

A Manon tem um desenvolvimento fantástico. Continua a ser uma bruxa sedenta de sangue como as melhores, mas aprendeu a não seguir cegamente, a questionar o que lhe põem à frente, e isso vai torná-la uma adversária mais feroz e mais impressionante de quem quer que se lhe coloque à frente. E mais, o encontro entre ela e a Aelin que eu queria dá-se, e é glorioso. Se estas duas alguma vez se virem do mesmo lado, vai ser lindo.

E numa nota lateral do enredo com a Manon, cruzam-se com ela a Kaltain e a Elide. A Kaltain, pobre Kaltain, que era apenas mesquinha e pequenina, torna-se numa força imparável. Dá a volta aos abusos que sofreu e consegue a sua vingança, o que é lindo e assustador de ver. A Elide, pobre Elide, mais uma filha de Terrasen que perdeu a sua infância na guerra. E no entanto o seu espírito nunca desiste. Vou adorar ver o que ela tem para nós no futuro.

O Dorian, meu querido e pobre Dorian. No primeiro livro não era fã da ideia deste personagem, porque não gosto de meninos bonitos com queda para playboys; mas revelou-se tão mais que isso. O Dorian é uma bolachinha, aquele personagem que gostava de proteger de tudo mau que lhe acontece, mas isso não é possível, e da tragédia forja-se alguém diferente. Espero que ele possa manter alguma da sua pureza no início, mas sei que ainda tem um longo caminho a percorrer para lidar com o que lhe aconteceu. Tenho pena que as suas circunstâncias lhe dêem tão pouco tempo de antena neste livro, mas é compreensível.

O Aedion, bem, estou fascinada pela posição dele. Aquilo que fez em nome de Terrasen, a sua herança, a relação dele com a Aelin. Gosto do feitio dele. Já a Nesryn, bem, em teoria gosto dela. Do seu estoicismo, a sua atitude descomplicada. O modo como a sua presença se impõe de mansinho. Não sou fã de como ela parece um, er, "prémio de consolação", em certo sentido. O timing da sua introdução é suspeito e não aprecio que ela tenha aparecido só com esse fim, porque merece mais.

O Chaol. Oh, caramba, Sarah, não me dês cabo do rapaz. A parte final dele foi de cortar o coração, raios. Em retrospectiva, o percurso dele tem sido curioso. O Chaol só pecou por ser demasiado leal a um ideal em que acreditava, porque desde então creio que tem tentado fazer o melhor que pode pelos seus, o que numa cidade país continente em guerra, é difícil de levar avante.

Não sei se estou convencida com a maneira como ele e a Aelin lidam um com o outro. Passaram a primeira metade do livro a atirar acusações um ao outro, e a outra metade a sair duma guerra fria para umas tréguas inseguras. Não sei, não compro tanto drama. Consigo ver a verdade nas acusações dele, apesar da enormíssima falta de tacto aos fazê-las.

Mas a Aelin? Ainda estamos presos ao que aconteceu ao que aconteceu no segundo livro? A sério? Sério sério? Aquilo foi tanto culpa do Chaol como minha. O que esperávamos? Que ele negasse as suas convicções dum dia para o outro? Que adivinhasse o mal nos outros, com as suas limitadas capacidades humanas? Ugh, a Sarah tem insistido muito nisto e eu não percebo propriamente, não faz sentido tentar construir a narrativa assim, desfazer o carácter dele neste ponto. Confio nela, mas preferia perceber o que se passa aqui, o que está a tentar fazer.

Quanto à Aelin, gosto cada vez mais de como está a crescer, a evoluir. Uma mulher segura de si, capaz de atrair lealdade dos que a rodeiam. Capaz de ultrapassar preconceitos mesquinhos e ingénuos, e ver alguém para além disso, fazer uma nova amizade. Decidida a obter justiça, ou vingança, fazer aqueles que o merecem pagar. Capaz ainda de se afastar, quando é preciso, de trocar as voltas a um antagonista e se mostrar uma estratega. Determinada a salvar um amigo dele próprio, mesmo que isso peça decisões impensáveis. (Já agora, ainda estou zangada com essa. Mas percebo. Mais ou menos.)

Há ainda um certo desenvolvimento. Não posso revelar a sua natureza, porque é um enormíssimo spoiler, e um que temo que não se compreenda se não se ler como é que se chegou lá. Se há coisa que posso dizer, e reiterar, é que confio na Sarah e na direcção para que ela leva as coisas, porque acho que tem sido relativamente realista na evolução da história, do que o enredo e os personagens pedem e precisam. Se ela me diz que é isto que é preciso, compro para pelo menos ver o que sai daqui.

Voltando ao início, e muito por alto: não estou completamente convencida. É realista, sim, as pessoas mudam, sentem de forma diferente, e às vezes voltar para trás é um retrocesso. Contudo, a maneira como a Sarah o desenvolve faz-me pensar que ainda não é este o objectivo final. Sinto que podia ter sido uma situação desenvolvida mais em lume brando, para nos cativar completamente como fãs. No livro anterior não havia propriamente inclinação para esse desenvolvimento, e assim aparece um pouco de repente, acho eu.

Quero dizer, a semente está lá, muito muito pequena, mas com ar de ir noutro sentido. Enfim, estava bastante enamorada da ideia que o terceiro livro tinha apresentado. Era poderosa, e agradava-me que não fosse noutra direcção, nesta direcção, porque apresenta mais facetas da questão em relação ao que normalmente é apresentado nos livros. Nunca se vê uma situação destas, poderosamente descrita, e gostava da ideia. Este novo desenvolvimento desautoriza essa ideia, que era tão forte, e precisa de ser bem justificado para eu fazer paz com a coisa.

Ainda mais um aspecto da situação, há um certo desequilíbrio entre as partes da mesma, parece-me, e está a acontecer tão depressa e tão cedo que acho que a Sarah ainda me vai dar uma reviravolta à coisa e fazer acontecer uma tragédia. Não me convenço que é uma direcção definitiva a tomar. Ela já deu tantas reviravoltas à narrativa da saga que fez de mim uma céptica. E por isso, preciso de ser convencida.

Coisas para o futuro: quero ver Terrasen restaurada à sua glória. Quero ver onde o enredo das Wyrdkeys vai dar. Que mais podemos esperar dos Fae de Wendlyn, não vimos nem de perto o suficiente deles. Quero ver como o mundo evolui depois dos momentos explosivos do final. Quero ver os personagens do The Assassin's Blade, o pirata, os assassinos do deserto, a curandeira, e a Ansel. Estou meio a torcer pelo Aedion e pela Lysandra, porque seriam fantásticos juntos. E talvez o Dorian e a Manon. É uma ideia tão louca que talvez funcione, pela junção de opostos.

Uma última nota. É uma história fantástica, toda a saga o é, e solidamente merece a nota máxima da minha parte. Já o disse e repito, a Sarah escreve de maneira de vai de encontro ao que gosto de encontrar num livro, e tenho gostado muito da sua evolução e da que deu aos personagens e ao enredo.

Adoro que tenha tantas personagens femininas fantásticas, especialmente sendo fantasia épica. É dos meus géneros favoritos, apesar de agora não lhe dar tanta atenção. (Talvez porque o fandom parece ser um clube de rapazes. Demasiada predominância de personagens masculinos, demasiados fãs a negar a validade de perspectivas femininas.) Anyway, foi por isso que me virei para o YA, o pessoal é tão mais hospitaleiro, não há dramas, e tenho tido a sorte de encontrar coisas fantásticas. Algumas como estas, que combinam as duas coisas boas numa. Só quero continuar a encontrar mais bons livros, e serei feliz assim.

Páginas: 656

Editora: Bloomsbury (MacMillan)

segunda-feira, 25 de maio de 2015

A Court of Roses and Thorns, Sarah J. Maas


Opinião: Ahhh se dúvidas houvesse (não havia), este livro podia cimentar a minha apreciação por todas as coisas que saem da pena da Sarah J. Maas. (Creio que essa "cimentação" aconteceu algures pelo segundo livro dela, Crown of Midnight. Este livro já é o quinto! Bolas, o tempo passa demasiado depressa e ao mesmo tempo demasiado devagar...)

Tem todas as marcas de um bom livro dela (ah, quem estou a tentar enganar? nenhum me pareceu mau), e creio que em partes mostra uma evolução e amadurecimento que me agrada, porque quando se trata dum autor que gosto mesmo muito, quero é sempre melhor, nunca pior.

Este livro é primariamente apresentado como um retelling de A Bela e o Monstro, com pedaços de Tam Lin e East of the Sun and West of the Moon (palavras da autora). E se enquanto Throne of Glass e subsequentes começaram por ser originalmente um retelling da Cinderela, em cujo texto final se retém praticamente nada disso, aqui a homenagem aos contos é evidente e clara.

Melhor, adoro os paralelos estabelecidos. A maldição tem linhas comuns em ambas as histórias, e encaixa muito bem no mundo Fae que é aqui apresentado; os protagonistas assumem o papel tradicional da Bela e do Monstro em partes, mas noutros momentos isso é invertido. A Feyre bem podia ser o Monstro, pelo seu feitio, e o Tamlin o Belo, pela sua aparência féerica; mas a Feyre seria também a Bela, pela sua inocência e inexperiência no mundo féerico, e o Tamlin o Monstro, por ser um dos Fae, odiados pelos humanos.

A aparência (percepcionada e verdadeira) das pessoas na mansão do Tamlin é paralela à dos personagens do filme da Disney, por exemplo; e existe até uma cena de transformação no fim. Uma que eu previ à distância, o que não me aborreceu, porque estava mesmo curiosa para ver como se ia efectuar, e porque eu gostava mesmo da ideia de isso vir a acontecer.

A Feyre é uma protagonista fascinante. Ao contrário da Celaena, que usa a bravata como forma de esconder o tumulto emocional bem enterrado lá no fundo, a Feyre usa as suas emoções à flor da pele, e é tão bom de acompanhar, pela sua evolução. Adorei conhecê-la, cheia de fúria e frustração pela sua situação, e ódio e medo pelos Fae; mas também vê-la mudar aos poucos, aceitar os Fae que a rodeavam, compreender o mundo em que se inseria.

Nunca teve medo de admitir que estava errada, e não se acobardou. Debateu-se com as suas falhas, com o que não conhecia, e foi enternecedor ver o seu percurso nesse aspecto, por ser tão diferente do meu, e por me pôr a torcer por ela. Os desafios que encontra no fim do livro pedem um carácter forte, uma determinação sem limites, uma capacidade de superação extraordinária. Estou tão curiosa acerca dos dilemas que se lhe porão no futuro, porque aquilo que vislumbramos é intrigante.

O Tamlin, bem, é um "animal" completamente diferente. Muitas das interacções com ele são condicionadas pela maldição, tanto pela sua resistência a ela como pela sua impossibilidade em falar da mesma, e por isso estou com vontade de o ver sem ser acorrentado por ela. Gostei da sua natureza tendencialmente boa, preocupada com os seus, carregando o fardo de os liderar, mesmo através da maldição; mas também do seu feitio "rosnante" e travesso.

E também gostei muito de o ver com a Feyre, porque foram muito engraçados de acompanhar. O desenvolvimento a partir de inimigos, pessoas com tudo de mal contra a outra, que são obrigadas a passar tempo juntas e a apreciá-lo, bem, é muito satisfatório. Diverti-me tanto com os confrontos verbais deles, as irritações mútuas, as resmunguices (o Tamlin tem também um bocadinho de feitio de fera, que é tão giro), os comentários de bancada do Lucien - que se divertia tanto com a situação como eu...

Por falar no Lucien, fiquei fã dele. A sua história é trágica, e quero muito conhecer mais do seu passado e dos seus, mas aprecio que o Lucien nunca tenha deixado que isso o abatesse. A sua personalidade é apesar de tudo muito solarenga, animada, com alguma malícia, e gostei mesmo disso. E de ele ser um da fã relutante da Feyre e do Tamlin, mas de nunca deixar de se divertir com as cenas em comum deles.

A primeira parte do livro é uma de apresentação, de conhecimento no que toca ao mundo das fadas. É a fase de aproximação da Feyre e do Tamlin, de paixão, mas também é uma fase de inocência, porque a Feyre não sabe muito do mundo das fadas, nada de profundo, da sua política, dos seus dramas... e isso condiciona-a, deixa-a insegura e tolda-lhe os instintos, causando uma separação abrupta mas não longa que vai ditar a segunda parte.

Depois temos um interlúdio, uma visita a casa e um reatar da ligação com a família. Fico feliz que a Feyre tenha podido vê-los novamente, ter oportunidade para os ver num momento melhor, poder entendê-los mais profundamente. Achei bem interessante a sua relação com a irmã mais velha, Nesta, e espero que não tenha sido a última vez que a vimos, porque a Nesta é bem mais arguta que se pensaria.

A segunda parte do livro é horrível e deliciosa ao mesmo tempo. Coisas terríveis acontecem aos nossos protagonistas, momentos que me deixaram a roer as unhas e a torcer por eles, mas também a virar páginas como se não houvesse amanhã, para saber se iriam ficar bem. Não pensei por vezes que houvesse um amanhã melhor para eles, e louvo a Sarah por me torturar desta maneira, me fazer duvidar.

E no entanto, adorei esta parte porque explorou mais o mundo Fae, as cortes, a política, a tortuosidade das fadas... céus, odiei uma certa pessoa, mas amei odiá-la, e adorei seguir o percurso de superação da Feyre, de triunfo contra as adversidades, de puro desígnio e força mental focados num só objectivo. Apenas lamento que ela tenha tido de fazer coisas contra a sua natureza, pois deixaram marca, e é coisa que vejo (e espero que venha) a ser explorada no segundo livro.

Provavelmente devia falar um bocadinho do Rhys, sob pena de deixar toda a gente com a impressão errada, mas que se lixe, é um personagem potencialmente bom demais para explorar e não vou deixar que mo estraguem. Tem uma moral completamente errada, faz francamente coisas parvas e erradas à Feyre e não lhe vou perdoar por isso, mas parece ter um passado e uma história interessantes, e um presente suculento no mínimo.

Vejo mesmo ali muito drama em potência a ser explorado, até já consigo ver a angústia a sair-lhe dos poros. Eh. Mais ou menos. (Aprecio no entanto que se tenha chegado à frente quando foi o momento disso. Acho que muita coisa que faz e fez vem da fúria e desespero da sua situação, mas não é desculpa para a idiotice.)

Tendo dito isso, não consigo perceber como é que toda a gente acha que isto já é ou vai descambar em triângulo amoroso. Que raios, agora cada vez que temos um personagem masculino semi-bonzão e com pinta de bad boy, ele é automaticamente candidato a terceiro vértice do triângulo? Isto está a tornar-se cansativo.

Fui totalmente ao engano pelas opiniões que li, e apesar de não deixar que isso me afecte a leitura ou sequer a existência dela, não gosto de ver que agora se grita lobo triângulo a cada vez que temos dois ou mais homens na órbita duma mulher, porque o resultado é que como o Pedro e o lobo já não consigo acreditar, prefiro ver por mim.

De qualquer modo, pelo tipo de devoção e de determinação cega que vimos na Feyre na segunda parte do livro, não consigo vê-la a meter-se num triângulo. Além disso, já o disse, o Rhys fez-lhe mal, fez coisas contra a vontade dela, por mais que fosse uma maneira de evitar que lhe acontecesse pior (isso não é desculpa), e teria que rastejar muito para se redimir.

Gostava que a Sarah nos trocasse as voltas e fizesse algo completamente inovador com o Rhys. Fora isso, imagino que a sua posição nas cortes e acordo com a Feyre seja um veículo para a Feyre lidar com a escuridão que se instalou nela no fim do livro, devido às suas acções no mínimo moralmente ambíguas, e que deixaram sem dúvida marca nela. Pode ser uma coisa com potencial para andar para a frente.

Muitas palavras depois, apenas uma chega: adorei. Gosto muito de como a autora incorpora certos temas nas suas histórias, como os (e as) desenvolve, as ideias que quer apresentar e transmitir... enche-me as medidas em todos os aspectos, identifico-me com o que escreve, e fico muito contente por ter descoberto alguém que escreve como se fosse para mim, porque não a vou largar nem por nada. A minha sorte é que agora são dois livros dela por ano, o que vai ser muito mais fácil de suportar.

Páginas: 432

Editora: Bloomsbury (MacMillan)

domingo, 21 de setembro de 2014

Heir of Fire, Sarah J. Maas


Opinião: Cada vez mais o tempo entre o lançamento de cada livro desta série parece um looooongo intervalo em que eu tento entreter-me com outras coisas para não dar em doida à espera, a suspirar para ler só mais um bocadinho. Ainda há dias andava eu a saltitar de contentamento por ter o livro nas mãos, por ao fim de um ano de espera poder finalmente lê-lo (ó para o meu eu tão inocente e fofinho), e agora volto novamente à inevitável irrequietude da impaciência. Há de certeza uma lição qualquer aqui para ser aprendida. A gratificação instantânea de devorar uma das minhas séries e autoras favoritas é que não me deixa vê-la, quanto mais aprendê-la.

Depois do pequeno vendaval que foi o Crown of Midnight, e depois de um certo acontecimento trágico que prometia ajudar a mudar o curso da narrativa da saga, Heir of Fire foi mais como um furacão. Deixou tudo do avesso (no bom sentido), enquanto que o centro da história, o olho do furacão, é bem mais calmo, investindo no desenvolvimento e caracterização dos personagens, preparando-os para enfrentar o que ainda há de vir.

É esse um dos aspectos da Sarah como escritora que mais aprecio - a maneira como ela retrata emocionalmente os seus personagens, que é soberba e fabulosa. Sim, isto é fantasia épica, mas os personagens são humanos (bem, quase todos), e as suas emoções são humanas, e tão vívidas e bem exploradas que é tão fácil despertar a nossa empatia, e compreender aquilo que sentem e experienciam, mesmo que não tenhamos experiências comparáveis no mundo real. Foi por isso que a Celaena, a protagonista, me encantou desde o início. Uma caixinha de contradições com um mundo interior riquíssimo.

E pronto, esta é a história da Celaena. Especificamente, e é um pouco difícil falar sobre isso sem spoilar, sobre finalmente enfrentar os seus demónios. Basicamente ela escondeu-se num pedaço de si e da sua personalidade, a Celaena Sardothien, para evitar lidar com tudo o que está para além disso, o que é compreensível, pois passou pelo tipo de coisas que uma criança de 8 anos não devia ter de enfrentar, e sobreviveu. E o enterrar de tudo isso manteve-a viva este tempo todo, e permitiu-lhe fazer coisas e ganhar capacidades que não teria de outra maneira. Mas não é maneira de viver, e agora que chegou à idade adulta e que pode fazer algo para corrigir as injustiças, é bom vê-la lidar com o passado, aceitar o que não pode mudar, e assumir a responsabilidade para a qual agora está preparada.

Parte do interesse do percurso dela ao longo do livro relaciona-se com o ver respondidas imensas perguntas sobre o passado dela. A sério, diria que a Sarah fez caixinha no primeiro livro, Throne of Glass, no que toca a worldbulding e background, apesar de revelar bastante, porque desde então tem dado uma imensa riqueza de pormenores ao mundo em que Erilea se insere. Estou maravilhada com as pequenas e grandes coisas que tenho vindo a descobrir. E isso também se aplica à Celaena e ao seu passado. Tanto o trágico, e as razões pelas quais ela se tem mantido discreta, como o bom, conhecer aqueles que a rodeavam na infância (com direito a ler uma cena sobre uma vez em que a Celaena e o Dorian se cruzaram em miúdos, que é a coisa mais adorável de sempre).

A outra parte tremendamente interessante do percurso da Celaena é conhecer alguém que é igualmente casmurro e mal-humorado, com quem a Celaena pode andar às cabeçadas e insultar e (tentar) dar porrada, que vai responder na mesma moeda, no qual ela reconhece uma alma igualmente ferida e que a vai ajudar a sair do poço e a enfrentar as mágoas. É o Rowan, com o qual desenvolve uma amizade deliciosa e bem engraçada de acompanhar, e que tenho a certeza que vai ser um dos defensores mais acérrimos dela, e uma boa adição para o grupo que se vai juntando em torno da Celaena. Além disso, o Rowan é um Fae, e simplesmente adoro a maneira como a Sarah está a apresentar os Fae e semi-Fae. Muito territoriais e protectores, a lembrar-me do modo como os Sangue da Anne Bishop eram.

Isto leva-me a outro ponto que queria destacar: o foco nas relações não-românticas. Uma parte dos personagens está num ponto de viragem, a descobrir coisas sobre si mesmo ou a perceber onde vão ficar no grande esquema das coisas, ou simplesmente a lidar com demasiada turbulência interna para manterem uma relação romântica saudável. O que não é mau, já houve espaço para esse pedaço da experiência humana na saga, e tenho a certeza que vai voltar a haver. Mas essa ausência dá espaço para a Sarah J. Maas desenvolver um verdadeiro hino à amizade, mostrando vários tipos e estados de amizade, o que é tão bom de ver. Pessoas que foram afastadas pelas circunstâncias, seres que desenvolvem uma afinidade sem palavras, vidas que se cruzam e ligam indelevelmente ao ponto de se compreenderem a um nível primitivo. É uma bela mensagem, a transmitida pela observação destes vários tipos de relações.

Isto leva-me a comentar o Dorian e o Chaol. O Dorian, diria eu, é uma daquelas personalidades bem-dispostas, com uma capacidade fantástica de encaixe. O que, tendo em conta quem é o pai dele, é maravilhoso. Nem quero pensar no que terá sido a infância dele, crescer com aquele homem horrendo. E o Dorian tem sobrevivido, crescendo para se tornar numa pessoa decente, com o potencial para ser um bom monarca. A sua história tem avançado aos poucos, mas com certos focos de interesse. É claro que a Sarah tinha de me roubar o único personagem feliz da vida em tudo isto, porque depois do que ela faz ao Dorian no fim, tenho muitas dúvidas que voltarei a ver o rapaz bem-humorado. Fiquei mesmo preocupada com o destino dele, e o Dorian era personagem que me deixava mais ou menos indiferente.

E depois o Chaol, que se mantém bastante ambivalente. Não por medo por si, mas por todo o seu país, por reconhecer que quando as coisas explodirem, as pessoas comuns vão sofrer. A sua relutância em agir prende-se também com o seu papel num certo evento do livro anterior, que imagino que o tenha tornado ainda mais cauteloso nas acções. E sendo o único que é um, er, comum mortal no trio, e o mais conservador dos três, creio que certas mudanças o assustem um bocado. No entanto, tudo isto não o impede de agir lealmente para com a Celaena e o Dorian, tentando fazer o que pode com a informação que tem. Tudo isto afasta-o do Dorian, porque para o proteger não lhe revela uma série de coisas, e o Dorian fica com a percepção errada dos acontecimentos, e pronto, custou-me ver os dois zangados por uma parvoíce destas. Não desejaria o percurso do Chaol a ninguém, porque é o mais complexo e mais difícil de aceitar, mas acredito que era um que ele precisava de percorrer para perceber onde é que devia estar.

Falta-me falar da Manon Blackbeak, que é uma nova adição à história, e uma com direito a POVs no livro. A Manon é uma bruxa Ironteeth, feroz e impiedosa e uma predadora. Como a autora a descreve, bem que podia ser um cruzamento entre o Capuchinho Vermelho e o Lobo, tudo ao mesmo tempo. E o seu percurso, apesar de não se cruzar com o dos outros personagens, é válido, porque mostra o que o vilão anda a preparar em várias frontes, uma deles sendo a das bruxas. E é um percurso tão bom de acompanhar. Adorei ver a ligação que a Manon criou com o Abraxos, um wyvern (é complicado de descrever, mas é a modos que uma espécie de dragão), e fiquei bem impressionada com o que vislumbramos da personalidade da Manon, e de como ela está a mudar.

Entre os personagens secundários, destaque para o Aedion, que esteve este tempo todo a segurar o barco, e a fazê-lo duma maneira impecavelmente badass, arrogante e determinada. (Hmm, lembra-me alguém.) E para o Ren, que numa pequena conversa a autora consegue revelar tanto sobre ele. Fez-me apreciar o valor desta geração de jovens e adultos, que há dez anos eram crianças e jovens, e cuja infância foi hipotecada pela ganância e malvadez de um homem. Lutando por reconstruir um país em ruínas, esta geração ainda há de penar muito, e é verdadeiramente trágico pensar no seu percurso.

A Sorscha, bem, é uma personagem que podia estar melhor construída, porque é das poucas que está ali para desempenhar um papel na narrativa, e não a sinto como independente e ricamente caracterizada, como acontece com os outros personagens. Quase que podia nem estar ali. As Thirteen da Manon, e mesmo as bruxas Ironteeth, são um grupo fabuloso, com vislumbres de pequenas coisas mesmo interessantes. O Emyrs e o Malakai são um casal adorável, e com os outros demi-Fae de Mistwood fazem um grupo bem curioso. A Maeve aparece pontualmente, mas promete arranjar sarilhos quando tiver oportunidade disso, e por isso foi tão bom ver a Celaena dar-lhe uma lição lá mais para o fim.

Diria que este é o ponto de viragem na saga. A escala aumentou, e agora a luta é por todo um continente, e aconteça o que acontecer, não há como voltar atrás. E vai ser uma viagem magnífica, a que Sarah J. Maas tem para continuar a contar. A sua escrita está mais madura, a sua caracterização de personagens é tão certeira e emocional, a construção do mundo está a caminhar a um bom ritmo, com detalhes intrincados e fascinantes a ser adicionados a todo o momento, a fasquia foi elevada no enredo geral da saga. Não posso imaginar uma série que me dê tanto prazer seguir, ou que me faça sofrer tanto a esperar pelo próximo livro.

Páginas: 576

Editora: Bloomsbury

terça-feira, 8 de abril de 2014

The Assassin's Blade, Sarah J. Maas


Opinião: Composto por 5 novelas passadas no mundo de Throne of Glass, The Assassin's Blade é capaz de ser a colecção de histórias curtas antologia que me deu mais gosto ler. As novelas ocorrem todas antes dos eventos de Throne of Glass, e encadeiam-se cronologicamente umas atrás das outras... quase que fazem um livro-prequela. São tão completas e satisfatórias que parecem mais um livro da série.

Ler estas novelas complementa a série principal e cada uma acrescenta mais um bocadinho à caracterização da protagonista, Celaena Sardothien. É possível conhecê-la como a protegida do Arobynn, o líder da Guilda dos Assassinos, e como a maior assassina de Adarlan. É engraçado vê-la evoluir ao longo das histórias, dum ponto mais arrogante e superior para uma posição ligeiramente mais humilde e compassiva, e ver o seu peculiar sentido ético. A arrogância continua lá, mais à frente, mas desculpo-lhe falhas dessas porque a acho divertida. E porque tem razão em ser assim. Além disso, tendo em conta o que ela passou, acho que merece ser um pouco difícil. A violência das coisas pelas quais passou destruiriam qualquer outra pessoa, mas não a Celaena. É um pequeno bombom na sua complexidade.

Sobre personagens secundários, destaque para o Sam, que é um tipo adorável e um igual da Celaena, um colega assassino, também educado pelo Arobynn. As cenas dos dois juntos são deliciosas e adoráveis, mas também tristes, pela promessa daquilo que nunca foi. Quanto ao Arobynn, que tipo repugnante. Tenho pena que a Celaena não se tenha libertado mais cedo dele, e agora só quero é ler a cena inevitável em que a Celaena vai compreender tudo o que ele armou e vai fazê-lo sofrer lentamente até livrar o mundo desta ratazana.

The Assassin and the Pirate Lord marca o primeiro personagem secundário da antologia que eu quero voltar a ver na série, o Rolfe - o senhor dos piratas titular, e um bom adversário. É uma história interessante, que marca a viragem das coisas para a Celaena na sua posição como assassina para o Arobynn, e tudo graças ao facto da nossa assassina afinal ter consciência e algum sentido moral.

The Assassin and the Healer relata as consequências das acções da Celaena na novela anterior, e encontra-a em viagem. Encontra uma jovem presa às suas circunstâncias (outra personagem que quero voltar a ver), que a faz pensar, e a qual ajuda. É uma boa reflexão sobre as prisões que construímos para nós próprios, e que deixamos os outros construir... com uma pitadinha de ponderação acerca da condição de ser mulher.

The Assassin and the Desert é capaz de ser a minha novela favorita. A Celaena encontra-se entre um grupo novo de assassinos, um grupo que vive no meio do deserto e é tão... livre, tão bem-humorado. É capaz de ser a melhor experiência da vida dela, e gostei de a ver num ambiente diferente mas que a deixou tão feliz. Pontos bónus pela personagem Ansel, que se torna amiga da Celaena e que espero voltar a ver. Além disso, as duas têm mais em comum do que pensam, o que é giro. É uma pena as atitudes que a Ansel toma.

The Assassin and the Underworld, também conhecida como a novela em que a Celaena quase se afoga nos esgotos da cidade e passa dois dias a tomar banho. A sério, que cena divertida... se não fosse tão perigosa. Também é uma novela em que ela se deixa manipular duma maneira estrondosa, e compreende que os seus princípios podem ser usados contra ela. E, por fim, ela e o Sam... adoráveis.

The Assassin and the Empire... bem, pegou no meu coração e espezinhou-o por completo. Creio que os eventos desta novela são referidos algures no Crown of Midnight, mas aqui vemos em primeira mão o que aconteceu. É uma história agridoce... mostra a Celaena e o Sam empenhados em deixar tudo para trás e começar uma nova vida, o que é bonito... mas parece que a velha vida não os quer deixar ir. Os acontecimentos desta novela dão uma nova dimensão ao ponto em que a Celaena está no início do Throne of Glass. E dão-me uma certa admiração por esta personagem que na face de tanto sofrimento, acaba sempre por se levantar e continuar a caminhar, sendo sempre ela própria.

Páginas: 464

Editora: Bloomsbury