segunda-feira, 25 de maio de 2015

A Court of Roses and Thorns, Sarah J. Maas


Opinião: Ahhh se dúvidas houvesse (não havia), este livro podia cimentar a minha apreciação por todas as coisas que saem da pena da Sarah J. Maas. (Creio que essa "cimentação" aconteceu algures pelo segundo livro dela, Crown of Midnight. Este livro já é o quinto! Bolas, o tempo passa demasiado depressa e ao mesmo tempo demasiado devagar...)

Tem todas as marcas de um bom livro dela (ah, quem estou a tentar enganar? nenhum me pareceu mau), e creio que em partes mostra uma evolução e amadurecimento que me agrada, porque quando se trata dum autor que gosto mesmo muito, quero é sempre melhor, nunca pior.

Este livro é primariamente apresentado como um retelling de A Bela e o Monstro, com pedaços de Tam Lin e East of the Sun and West of the Moon (palavras da autora). E se enquanto Throne of Glass e subsequentes começaram por ser originalmente um retelling da Cinderela, em cujo texto final se retém praticamente nada disso, aqui a homenagem aos contos é evidente e clara.

Melhor, adoro os paralelos estabelecidos. A maldição tem linhas comuns em ambas as histórias, e encaixa muito bem no mundo Fae que é aqui apresentado; os protagonistas assumem o papel tradicional da Bela e do Monstro em partes, mas noutros momentos isso é invertido. A Feyre bem podia ser o Monstro, pelo seu feitio, e o Tamlin o Belo, pela sua aparência féerica; mas a Feyre seria também a Bela, pela sua inocência e inexperiência no mundo féerico, e o Tamlin o Monstro, por ser um dos Fae, odiados pelos humanos.

A aparência (percepcionada e verdadeira) das pessoas na mansão do Tamlin é paralela à dos personagens do filme da Disney, por exemplo; e existe até uma cena de transformação no fim. Uma que eu previ à distância, o que não me aborreceu, porque estava mesmo curiosa para ver como se ia efectuar, e porque eu gostava mesmo da ideia de isso vir a acontecer.

A Feyre é uma protagonista fascinante. Ao contrário da Celaena, que usa a bravata como forma de esconder o tumulto emocional bem enterrado lá no fundo, a Feyre usa as suas emoções à flor da pele, e é tão bom de acompanhar, pela sua evolução. Adorei conhecê-la, cheia de fúria e frustração pela sua situação, e ódio e medo pelos Fae; mas também vê-la mudar aos poucos, aceitar os Fae que a rodeavam, compreender o mundo em que se inseria.

Nunca teve medo de admitir que estava errada, e não se acobardou. Debateu-se com as suas falhas, com o que não conhecia, e foi enternecedor ver o seu percurso nesse aspecto, por ser tão diferente do meu, e por me pôr a torcer por ela. Os desafios que encontra no fim do livro pedem um carácter forte, uma determinação sem limites, uma capacidade de superação extraordinária. Estou tão curiosa acerca dos dilemas que se lhe porão no futuro, porque aquilo que vislumbramos é intrigante.

O Tamlin, bem, é um "animal" completamente diferente. Muitas das interacções com ele são condicionadas pela maldição, tanto pela sua resistência a ela como pela sua impossibilidade em falar da mesma, e por isso estou com vontade de o ver sem ser acorrentado por ela. Gostei da sua natureza tendencialmente boa, preocupada com os seus, carregando o fardo de os liderar, mesmo através da maldição; mas também do seu feitio "rosnante" e travesso.

E também gostei muito de o ver com a Feyre, porque foram muito engraçados de acompanhar. O desenvolvimento a partir de inimigos, pessoas com tudo de mal contra a outra, que são obrigadas a passar tempo juntas e a apreciá-lo, bem, é muito satisfatório. Diverti-me tanto com os confrontos verbais deles, as irritações mútuas, as resmunguices (o Tamlin tem também um bocadinho de feitio de fera, que é tão giro), os comentários de bancada do Lucien - que se divertia tanto com a situação como eu...

Por falar no Lucien, fiquei fã dele. A sua história é trágica, e quero muito conhecer mais do seu passado e dos seus, mas aprecio que o Lucien nunca tenha deixado que isso o abatesse. A sua personalidade é apesar de tudo muito solarenga, animada, com alguma malícia, e gostei mesmo disso. E de ele ser um da fã relutante da Feyre e do Tamlin, mas de nunca deixar de se divertir com as cenas em comum deles.

A primeira parte do livro é uma de apresentação, de conhecimento no que toca ao mundo das fadas. É a fase de aproximação da Feyre e do Tamlin, de paixão, mas também é uma fase de inocência, porque a Feyre não sabe muito do mundo das fadas, nada de profundo, da sua política, dos seus dramas... e isso condiciona-a, deixa-a insegura e tolda-lhe os instintos, causando uma separação abrupta mas não longa que vai ditar a segunda parte.

Depois temos um interlúdio, uma visita a casa e um reatar da ligação com a família. Fico feliz que a Feyre tenha podido vê-los novamente, ter oportunidade para os ver num momento melhor, poder entendê-los mais profundamente. Achei bem interessante a sua relação com a irmã mais velha, Nesta, e espero que não tenha sido a última vez que a vimos, porque a Nesta é bem mais arguta que se pensaria.

A segunda parte do livro é horrível e deliciosa ao mesmo tempo. Coisas terríveis acontecem aos nossos protagonistas, momentos que me deixaram a roer as unhas e a torcer por eles, mas também a virar páginas como se não houvesse amanhã, para saber se iriam ficar bem. Não pensei por vezes que houvesse um amanhã melhor para eles, e louvo a Sarah por me torturar desta maneira, me fazer duvidar.

E no entanto, adorei esta parte porque explorou mais o mundo Fae, as cortes, a política, a tortuosidade das fadas... céus, odiei uma certa pessoa, mas amei odiá-la, e adorei seguir o percurso de superação da Feyre, de triunfo contra as adversidades, de puro desígnio e força mental focados num só objectivo. Apenas lamento que ela tenha tido de fazer coisas contra a sua natureza, pois deixaram marca, e é coisa que vejo (e espero que venha) a ser explorada no segundo livro.

Provavelmente devia falar um bocadinho do Rhys, sob pena de deixar toda a gente com a impressão errada, mas que se lixe, é um personagem potencialmente bom demais para explorar e não vou deixar que mo estraguem. Tem uma moral completamente errada, faz francamente coisas parvas e erradas à Feyre e não lhe vou perdoar por isso, mas parece ter um passado e uma história interessantes, e um presente suculento no mínimo.

Vejo mesmo ali muito drama em potência a ser explorado, até já consigo ver a angústia a sair-lhe dos poros. Eh. Mais ou menos. (Aprecio no entanto que se tenha chegado à frente quando foi o momento disso. Acho que muita coisa que faz e fez vem da fúria e desespero da sua situação, mas não é desculpa para a idiotice.)

Tendo dito isso, não consigo perceber como é que toda a gente acha que isto já é ou vai descambar em triângulo amoroso. Que raios, agora cada vez que temos um personagem masculino semi-bonzão e com pinta de bad boy, ele é automaticamente candidato a terceiro vértice do triângulo? Isto está a tornar-se cansativo.

Fui totalmente ao engano pelas opiniões que li, e apesar de não deixar que isso me afecte a leitura ou sequer a existência dela, não gosto de ver que agora se grita lobo triângulo a cada vez que temos dois ou mais homens na órbita duma mulher, porque o resultado é que como o Pedro e o lobo já não consigo acreditar, prefiro ver por mim.

De qualquer modo, pelo tipo de devoção e de determinação cega que vimos na Feyre na segunda parte do livro, não consigo vê-la a meter-se num triângulo. Além disso, já o disse, o Rhys fez-lhe mal, fez coisas contra a vontade dela, por mais que fosse uma maneira de evitar que lhe acontecesse pior (isso não é desculpa), e teria que rastejar muito para se redimir.

Gostava que a Sarah nos trocasse as voltas e fizesse algo completamente inovador com o Rhys. Fora isso, imagino que a sua posição nas cortes e acordo com a Feyre seja um veículo para a Feyre lidar com a escuridão que se instalou nela no fim do livro, devido às suas acções no mínimo moralmente ambíguas, e que deixaram sem dúvida marca nela. Pode ser uma coisa com potencial para andar para a frente.

Muitas palavras depois, apenas uma chega: adorei. Gosto muito de como a autora incorpora certos temas nas suas histórias, como os (e as) desenvolve, as ideias que quer apresentar e transmitir... enche-me as medidas em todos os aspectos, identifico-me com o que escreve, e fico muito contente por ter descoberto alguém que escreve como se fosse para mim, porque não a vou largar nem por nada. A minha sorte é que agora são dois livros dela por ano, o que vai ser muito mais fácil de suportar.

Páginas: 432

Editora: Bloomsbury (MacMillan)

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