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domingo, 19 de julho de 2015

Ventos de Mudança em Summerset Abbey, T.J. Brown


Opinião: Depois de dois livros que conseguiram manter o meu interesse, mas que não conseguiram deixar de me suscitar dúvidas e de me fazer apontar-lhes defeitos, chega o terceiro e último volume desta colecção. E sabem que mais? Foi fantástico, valeu mais que a pena, e valeu pela trilogia toda. Nem sequer tenho razões de queixa desta vez.

O aspecto mais importante e que mais me atraiu aqui neste livro foi mesmo a entrada na Primeira Guerra Mundial, porque permite colocar personagens em posições e funções muito mais interessantes. De certo modo, na minha cabeça passei o tempo a comparar a adaptação que este livro fez da Guerra com Downton Abbey, e honestamente o livro fica a ganhar.

É que a série fica demasiado presa à propriedade titular, e foge um bocado a mostrar coisas da Guerra, mostra mais como esta afectou a propriedade e os que nela vivem. O que até faz sentido, mas lembro-me que na altura em que a vi desejei ver mais sobre a Guerra, que mudou uma geração que até aí viveu com uma perspectiva de vida muito mais segura.

Aqui este livro enche-me completamente as medidas. Os personagens secundários externos ao elenco principal do livro são um pouco mais desenvolvidos, portanto quando vemos todos os rapazes do grupo de jovens a serem destacados e chamados para o exército, é muito mais fácil ficarmos preocupados com eles.

Todos os presumíveis pares das meninas protagonistas estão fora, e vamos tendo relatos deles, às vezes preocupantes e em segunda mão, às vezes em pessoa, que mostram como esta geração habituada ao ócio foi irremediavelmente afectada.

As jovens protagonistas também não ficam paradas. A Prudence morre de medo que o marido lhe seja levado pela Guerra, e luta para o proteger ao máximo, especialmente com a boa surpresa que recebem. É tão curioso ver evoluir a relação deles, e gosto de ver que algo que começou num pé menos auspicioso e menos afectuoso crescer para algo estável e forte e com afecto mútuo.

A Rowena ultrapassa o desgosto que recebeu anteriormente e agarra-se à vida e ao que adora fazer, a aviação, e consegue contribuir para o esforço de guerra servindo de piloto de transporte de aviões por todo o Reino Unido. É uma perspectiva tão excitante, e adorei seguir-lhe os passos. Tornou-se numa personagem favorita. Além disso, portou-se dum modo tão digno e despretensioso no campo amoroso, e gostei tanto de ver a ver evoluir desta maneira. O Sebastian foi um doce de pessoa e tão adorável.

(De certo modo, era este tipo de evolução que eu gostaria de ter visto para a Mary em Downton Abbey. Nem me lembro do que é que ela fez na série naqueles quatro anos, a não ser olhar para as paredes, e desde então têm embarcado num jogo ridículo de emparelhar a Mary que até me faz revirar os olhinhos. Como se ela não tivesse mais que fazer, e não houvessem coisas mais interessantes para a pôr a fazer.)

A Victoria, bem, anteriormente irritava-me um bocado, porque me faz comichão haver alguém tão idealista e ingénuo e com pinta para fazer asneira. No entanto, neste livro ela cresce brutalmente, e adoro vê-la como voluntária/auxiliar de enfermagem, e gosto de ver explorada a vida de uma mulher nesta época que o fizesse. Ainda mais porque gere bastante bem a sua doença, a asma, e isso permite-lhe fazer uma vida normal. Bem, não completamente, mas isso é porque a Vic exagera.

E diverti-me tanto a vê-la com o Kit, era muito claro que ele andava a zumbir à volta dela, mas a Vic quer independência e acha que não pode ter as duas coisas, o que é parvo, porque o Kit vai sempre fazer tudo o que ela quiser, é bastante óbvio. Ri-me tanto vê-los terem-se resolvido tão às pressas, é mesmo deles.

O enredo desenvolve-se muito bem, começa um pouco antes da Guerra, e entra por ela adentro até meio de 1915, parece-me. Há pequenos saltos no tempo, para permitir aos personagens viajar e fazer coisas e viver o dia-a-dia, mas nunca senti que isso se traduzisse em saltos abruptos na evolução deles, por isso a autora conseguiu fazê-lo funcionar.

Em suma, um óptimo fecho para a trilogia, uma boa descrição da Primeira Guerra Mundial e de como afecta os nossos personagens, e um livro que termina a história destes personagens fantasticamente e eleva a qualidade da série. (A única coisa que aponto é o fim, que parece um nada abrupto, não me importava de ter visto mais sobre o que aconteceu no futuro destes personagens. E gostava que a autora tivesse resolvido melhor a Elaine, ficou tão em suspenso, pobre da rapariga.)

Título original: Spring Awakening (2013)

Páginas: 280

Editora: Noites Brancas (Clube do Autor)

Tradução: Eugénia Antunes

domingo, 26 de janeiro de 2014

Paixão Proibida em Summerset Abbey, T.J. Brown


Opinião: Depois do fim inesperado e surpreendente de As Mulheres de Summerset Abbey, Paixão Proibida em Summerset Abbey continua a história de três jovens mulheres na época que antecede a Primeira Guerra Mundial, a época edwardiana.

Estes livros deixam-me uma sensação curiosa. Não os acho nada de especial, a escrita da autora não é deslumbrante, o desenvolvimento da história não é excitante, e há por vezes demasiadas coisas nos personagens que me deixam frustrada... mas tenho gostado de os ler. Aprecio o modo como a autora tem mostrado vários aspectos da vida de uma mulher nesta época, pois tem-no feito de modo cativante e credível. E as três protagonistas dão comigo em doida com algumas das suas atitudes, é certo, mas tenho denotado uma evolução nestas jovens e tenho gostado de a ver.

Rowena começou o primeiro livro mostrando-se frágil e fazendo uma asneira quase imperdoável, mas acabei por me compadecer dela e gostar desta rapariga triste e em luto pela perda de uma parte da sua vida. Neste segundo livro, o seu romance com Jon, o piloto de aviões conhece alguns desenvolvimentos, e devo dizer que não previa o modo como as coisas se encaminharam, mas acabam por fazer sentido. E sobretudo, gostava de ver onde o engano perpetuado por ela e pelo Sebastian vai parar. Outra coisa que gostei é o crescente interesse dela pela aviação. A Primeira Guerra está a chegar, calculo que apareça no terceiro livro, e fico animadíssima só de pensar que ela pode vir a ter um papel nela.

A Victoria, já o disse na outra opinião, parece ser a personagem mais fácil de gostar, pelo seu idealismo. Mas detesto com todas as minhas forças a sua ingenuidade extrema, que roça mesmo a estupidez. É que ela comete aqui uma série de erros que me deram vontade de bradar aos céus... *suspiro* Enfim, ainda assim posso destacar da sua história alguns aspectos que apreciei ver abordados, como a sua tentativa de ser publicada numa revista científica, e a questão das sufragistas. Estas acabam por não ter um papel muito abonatório na história, mas como em tudo, há pessoas boas e há pessoas más. Aqui a autora aproveita para mostrar alguns erros que as sufragistas cometeram na sua luta por um objectivo admirável. E enfim, a Vic acaba por passar por uma experiência difícil, mas que espero que a ajude a crescer e a ter dois dedos de testa no futuro.

A Prudence é a personagem com a história de vida mais interessante, mas aborreceu-me ocasionalmente com tanto queixume sobre aquilo que deixou para trás e sobre a escolha que tomou. Minha querida, já ouviste falar daquele ditado sobre deitarmo-nos na cama que fizemos? (Aqui, com aplicação muito literal.) Ainda acho que foi uma escolha precipitada, mas adorei ver as suas consequências. O Andrew é um doce de pessoa e é divertido ver as peripécias por que a Prudence passa para aprender a ser uma dona de casa. E gosto de ver a sua relação, que não começou exactamente por amor (pelo lado da Pru, pelo menos), mas tem evoluído duma forma carinhosa e adorável.

Em termos de personagens secundários, desta vez gostaria de falar um pouco dos rapazes da narrativa. Primeiro, o Jon, do qual eu até gostava bastante, mas que nunca propôs à Rowena algo sério, e que no fim acaba por ter uma reacção ridícula e execrável. Tenho pena, mas prefiro que a sua intervenção na história termine por aqui. Já o Sebastian tem-se mostrado uma surpresa agradável. A suspirar de desgosto graças a um coração partido, tem-se mostrado um apoio e um bom amigo para a Rowena. Acaba por representar a questão de um primeiro amor frustrado, e quem sabe uma segunda tentativa não dará melhores frutos.

O Andrew, já disse, é um jovem adorável, adora a Pru, determinado em melhorar as suas condições e em estudar para se tornar veterinário. Gosto muito de o ver com a Prudence, e agora acho que teria um desgosto se a autora se lembrar de o enviar para a guerra e ele morrer lá. Para mim representa a possibilidade de um segundo amor para a Prudence, se apenas ela se abrir à possibilidade. Já o Kit é tão sarcástico e descomplicado, e por isso adorei vê-lo como uma abelhinha à volta da Victoria, completamente caidinho. É um bom amigo para ela, mas gostava de os ver juntos. Acho que uma parte importante da questão da independência da Victoria como mulher é o poder escolher, mas também o aperceber-se que às vezes pode escolher duas coisas e fazê-las funcionar em conjunto. Não vejo porque é que o casamento a haveria de impedir de fazer as coisas que sonha fazer.

Sobre a família em Summerset, ainda detesto a tia Charlotte, mulher manipuladora e mesquinha. Já o tio Conrad mostrou ali no fim um bocadinho de personalidade, gostava de ver mais no próximo livro. A Elaine não sei o que está ali a fazer, coitada, parece uma bengala para as outras personagens usarem, sem ter consequência no enredo ou história própria. Adorava ler mais sobre a Katie, por exemplo, a jovem secretária que foi criada dos Buxton, ou sobre a Eleanor, a enfermeira compassiva.

Sobre as sufragistas, bah, não gostei das personagens que nos foram apresentadas, por razões óbvias. Logo no início desconfiei do modo como estavam a tratar a Victoria, e acho que foi extremamente estúpido o que lhe fizeram. Queimaram ali uma oportunidade de obter apoio para a causa e no fim não conseguiram nada com o que aconteceu à Vic, por isso acho ridícula esta parte do enredo.

Como referi ali em cima, o livro em si não é nada de extraordinário, mas a autora consegue dar-lhe alguns pontos que o redimem e lhe conferem interesse. O retrato da época, que é bastante abrangente e mostra muitos detalhes diferentes sobre classe, a posição da mulher na sociedade, e a vida encantada antes da Primeira Guerra. O enredo, que por vezes me frustra, mas nunca aborrece, com as suas reviravoltas - e melhor, está a ir por direcções inesperadas que contudo me deixam muito animada por ler o terceiro e último livro. Espero que não demore.

Páginas: 296

Editora: Noites Brancas (Clube do Autor)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

As Mulheres de Summerset Abbey, T.J. Brown


Opinião: Escrito e publicado na esteira da fama da série de televisão Downton Abbey, As Mulheres de Summerset Abbey apresenta-nos três jovens raparigas cujo mundo muda com a morte de Sir Philip Buxton. Rowena é a sua filha mais velha e sente-se paralisada pela responsabilidade e pela mudança de vida a que ela e as irmãs são sujeitas; Victoria é a filha mais nova, doente e frágil, mas idealista, inteligente e lutadora; Prudence é a jovem do meio, a única que não é filha de Sir Philip, mas que foi educada por este como se o fosse.

Gostei bastante deste livro, por um lado por apresentar a época que Downton Abbey nos apresenta, a época edwardiana, uma época fascinante de mudança; mas por outro lado por evitar um bocadinho a visão glamorosa e bonificada que Downton Abbey parece dar. Aqui a relação criados-família é mais fria e mais altiva, e acho a descrição da vida de uma mulher nesta época mais vívida e credível. A relação de Lady Summerset com a sua criada, por exemplo, é de intriguismo e favores; Rowena e Victoria ficam dependentes do tio até casarem ou fazerem 25 anos; e Prudence, pela sua situação invulgar, é aceite em Summerset apenas como uma criada das meninas.

É difícil de gostar da Rowena, pela paralisia e, digamos, cobardia que a mantém bloqueada durante quase toda a narrativa. Mas acabei a sentir pena dela. Foi ela que colocou a Prudence na situação difícil em que esta se encontra durante toda a narrativa, é certo, mas é triste vê-la debater-se com a responsabilidade que nunca teve, sendo a filha mais velha de uma família aristrocrata, protegida de todos os problemas que pudesse encontrar, e caminhando à beira de uma depressão. É fácil para a Victoria e a Prudence descarregarem nela pelo que fez, mas alguma reparou a sério no que se passava com ela? Talvez as coisas não tivessem chegado tão longe. Estou mesmo curiosa para ver o que vai acontecer a seguir com ela e com o seu piloto de aviões. Se a autora entrar pela 1ª Guerra Mundial, consigo vê-la a juntar-se ao esforço de guerra de alguma maneira.

A Victoria, pelo seu lado, é fácil de gostar. É daquelas personagens sonhadoras que não gosta de encaixar em etiquetas convencionais. Tem um sentido de justiça muito apurado e rebela-se contra o que vê como injustiças. Não se deixa limitar pela doença (tem asma). Quer estudar e tenta descobrir o mistério que permeia a história. Mas a sua posição privilegiada dá-lhe uma ingenuidade que não me agrada. É fácil revoltar-se contra uma injustiça, mas faz ela alguma coisa para mudar essa injustiça ao longo do livro? Achei que desistiu muito facilmente da injustiça que viu praticada contra a Prudence, por exemplo. (E nem viu a manipulação óbvia da tia.) Vejo-a mais como muita parra e pouca uva muita conversa e pouca acção. Espero que ganhe um pouco mais de coragem e engenho no próximo livro.

A Prudence, bem, a história dela é a mais triste e mais cativante de todas. Foi educada por Sir Philip como uma filha, e Rowena e Victoria consideram-na como sua irmã. O segredo à volta dela foi bastante óbvio desde o início, se bem que admito que me enganei num dos detalhes. (E fez-me perguntar por que raios Sir Philip nunca se precaveu contra a eventualidade da sua morte, deixando assim a Prudence tão desamparada.) Fiquei cativa da descrição dos problemas que a Prudence encontra com a sua nova posição - uma educação de lady, mas filha de uma governanta, na posição de uma lady's maid (ou mais ou menos isso). Acho que ela foi um bocado precipitada no fim do livro, e sei que a sua decisão ainda lhe vai causar dissabores. Mas espero que encontre um caminho melhor, que merece.

Acerca dos personagens secundários... cumprem o seu papel. Odiei a Lady Summerset, porque é mesquinha e maldosa e intriguista e OMG eu quero esganar esta mulher, ponto final. O marido é um cobarde que nem tem coragem para falar no "grande escândalo" de Summerset. E, já agora, havia mil e uma maneiras de terem lidado com a situação que não passava por fazerem de conta que o problema não existia e depois tentar varrê-lo para baixo do tapete de forma cobarde.

Há uma série de criados em Summerset, e a autora faz um bom trabalho em apresentá-los e descrever as suas funções, mas a maior parte não se destacou; só aqueles que podiam contribuir directamente para a evolução do enredo foram mais desenvolvidos. O mesmo se passa com o grupo de amigos de Elaine, Rowena e Victoria - jovens belos, ricos, e ociosos. Há um ou outro rapazes que se destacaram, pela sua amizade com duas das raparigas, mas a autora não nos facilita a tarefa e acredito que as coisas não irão evoluir de um modo óbvio. Fiquei mesmo curiosa com o piloto da Rowena, o Jon, mas também é um ângulo ainda insuficientemente inexplorado... se bem que as possibilidades são infinitas.

Tenho de reconhecer, a autora foi capaz de evocar a época em questão. Infundiu a história com o nível certo de detalhe, nem muito pesado, nem insípido. Permitiu-me mergulhar na história e seguir com entusiasmo aquilo que acontece com Rowena, Victoria e Prudence. Estou com muita vontade de ler os próximos livros.

Título original: Summerset Abbey (2013)

Páginas: 300

Editora: Noites Brancas

Tradução: Maria do Carmo Figueira