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sábado, 12 de novembro de 2016

The Midnight Star, Marie Lu


Opinião: Woe is me. Tenho apanhado demasiados livros bons/favoritos e/ou de autores favoritos ultimamente, e acabo por engonhar no opinar... livros acerca dos quais tenho sentimentos fortes pedem uma reflexão mais aturada que às vezes a rotina do dia-a-dia não me permite, e são aqueles cujas opiniões ficam para o fim. Bem, hoje é o dia deste. Não quero deixar passar mais tempo.

É singular, a minha apreciação da Marie Lu. Normalmente sou uma leitora mais virada para livros e autores character-driven, isto é, com uma excelente caracterização de personagens. Os personagens podem até estar a ver tinta secar como enredo. Se a caracterização me apaixonar, eu vou ler com gosto.

A Marie é um caso único. Ela é claramente mais plot-driven, focada no desenvolvimento do enredo (e do worldbuilding). A sua falta de foco mais atenta na caracterização foi o que me fez gostar da série do Legend, mas não amá-la. Passei a série a tentar gostar dos personagens, mas nada se destacava neles para mim. Eram bons personagens, só que preferia que fossem escritos de modo a imergir na sua personalidade por completo. No entanto, o fim dessa trilogia matou-me, no bom sentido. Foi tremendamente agridoce, mas incrivelmente adequado. Lá está, a queda da autora é para o enredo. Ali teve a sorte de isso dar um empurrão à caracterização.

A relevância disso tudo para esta série? Bem, tenho-o dito nas opiniões dos livros anteriores, a Marie dá um salto incrível na sua capacidade de caracterização de personagens. A protagonista em particular, Adelina, é soberba. Má, capaz de coisas horríveis, mas tão merecedora de compaixão. A vida nunca foi fácil para ela, e as suas escolhas são reflexo disso, mas ela mantém um lado que é capaz do melhor, apenas raramente cede a ele.

No que toca à evolução dela neste livro, suponho que posso dizer que é tudo o que esperava ou desejava. Vemos no início a evolução natural do final do segundo livro, e aí ela está no seu pior, gloriosamente maléfica, no limite da loucura. Quase que se pode dizer que é cativante. Mas uma descoberta que os Daggers fazem leva a que ela se veja a trabalhar com eles num objectivo comum...

... e gostei dessa evolução da narrativa. Tirou toda a gente da sua zona de conforto, e obrigou-os a enfrentar as consequências do mundo em que vivem. O final, tal como na outra trilogia, é bastante agridoce. Não é a minha coisa ideal para a Adelina, mas sei que essa era mais wishful thinking que realista. Da maneira como foi executado, é fantasticamente adequado. Dá-lhe a redenção que eu esperava, e dá-me uma sensação de esperança. E ainda assim, muda o mundo deles irreversivelmente.

Acho que o que posso queixar-me no que toca à caracterização... é que o livro é tão pequeno. E não permite uma evolução mais completa de grande parte dos personagens secundários. Tinham-me cativado nos volumes anteriores, e sinto que neste livro não tiveram oportunidades para brilhar, para uma maior complexidade.

Aquilo que acontece afecta toda a gente, todos os Young Elites que tenho adorado acompanhar... e diria que só o Teren tem um pouco de maior clarificação sobre o seu carácter. (Muito bem-vinda, gostei. Mostra que não é preciso muito para conseguir uma melhor caracterização.) Desejaria o mesmo para a Violetta, o Magiano, o Raffaelle, a Maeve, o Sergio... qualquer um é fascinante de pleno direito.

O livro não ser tão longo como gostaria significa que o enredo em si também me soube a pouco. Quero dizer, a maneira como as coisas evoluem está bem orquestrada; faz sentido; e adoro o caminho que a narrativa tomou. Gosto que a Marie me tenha surpreendido. Mas a própria premissa tem tanto sumo que podia ser espremido. Sinto que as coisas tinham um potencial que não foi inteiramente aproveitado. O... local... que eles visitam? Podia ter bem mais capítulos para explorar, ter mais obstáculos. Permitiria à história e ao worldbuilding ficarem mais completos, e ajudaria mais nas minhas queixas da caracterização.

E isto vindo dum lugar de quem adorou esta evolução. A sério, que ideia brilhante para resolver a questão dos Young Elites. Envolve isso tudo com a mitologia dos deuses/anjos duma forma tão fixe. (E que me fez pensar... em termos de cenário e mitologia, esta série lembra-me um bocado dos livros de Kushiel da Jacqueline Carey. No bom sentido e com as devidas diferenças.)

E pronto, como disse, a resolução é agridoce, triste e bem feita, e que me deixa curiosa para saber mais, mas ainda assim satisfatória. Vou ter saudades, mas deixo esta história convicta que tudo terminou como devia. É o máximo que posso pedir duma série. Diria que a este ponto do campeonato, duas séries passadas, a Marie Lu não é exactamente uma autora-favorita-de-todo-o-sempre, mas faz muita coisa bem feita que me agrada, e por isso está na lista para continuar a acompanhar.

Páginas: 336

Editora: Putnam (Penguin Random House)

terça-feira, 16 de agosto de 2016

The Rose Society, Marie Lu


Opinião: Oh caramba, e eu que não dava nada pela Marie há três livros atrás dela! E no entanto li tudo o que já publicou, e tem vindo a melhorar francamente no que toca à sua escrita e à maneira como cria um mundo, um enredo, e umas personagens.

Creio que o primeiro livro dela que verdadeiramente me encheu as medidas foi o terceiro da sua primeira trilogia, Champion, pelo final agridoce e a forma inesperada como a história avançou. Depois, veio o The Young Elites, e conheci uma personagem que caminha no fio da navalha no que toca ao bem e ao mal, à luz e à escuridão. E agora este livro, torturador e que me pôs vidrada, e melhor, completamente enredada nas escolhas da Adelina.

The Rose Society segue com as consequências do final do livro anterior. A Adelina (juntamente com a irmã) fugiu de Kenettra e está separada da Dagger Society depois de uma situação trágica pela qual ela é tecnicamente responsável, mas... bem, há uma série de atenuantes. (E é nos atenuantes que a Marie é excelente.)

A Adelina tem a ideia de criar a sua própria society de Young Elites, jovens poderosos, e quando percebe o que os Daggers estão a tramar, volta a Kenettra para travá-los, e, err, fazer a sua própria coisa.

A parte brilhante na maneira como a Marie escreve a Adelina é que, ela pode fazer todo o tipo de asneiras, e meter os pés pelas mãos, e matar a torto e a direito, mas... não consigo deixar de sentir que a Adelina está justificada em grande parte do que faz. Pode não ser grande justificação, mas compadeço-me dela. Mesmo quando me dá vontade de abanar a cabeça em jeito de desaprovação, ou quando sei que não é o que faria, ou quando sei a priori que aquilo vai dar asneira.

Porque a verdade é que esta é uma pessoa que foi tão maltratada e destruída pelas circunstâncias... que ela não sabe como ser uma boa pessoa. Tem momentos. Tem alguns repentes de bondade, amor. É capaz disso. Mas é claro que é muito mais fácil ceder à escuridão e enviar para o mundo aquilo que sempre se recebeu dele.

Em adição, não há uma única pessoa boa, um modelo de bondade em toda esta história. O que é refrescante. Eu não preciso de gente tão boa que até dá nojo. Ninguém é perfeito. E a escrita desta história como uma sucessão de intriga e interesses é até bastante realista. Mas o que quero dizer realmente em relação a isto é, é por isso que eu não posso defender os Daggers.

Vejamos... Agem por interesse próprio, tomam decisões questionáveis (a Maeve? e o que ela lhes diz que pode fazer? a sério, pessoal? não podiam ver que essa vos ia rebentar na cara nem nada?), e até podem dizer que são pelos malfettos e pelos Young Elites... mas não defendem os primeiros e afastam os segundos quando lhes é conveniente. Pior, são tão capazes de assassinato como a Adelina.

Tivessem tratado a Adelina desde o início como uma pessoa, e não com desconfiança, atrevo-me a dizer que as coisas teriam sido diferentes. Teria sido também corajoso deles tentar reabilitá-la depois dos acontecimentos do primeiro livro, que era quando ela precisava disso, e não de cair na espiral descendente em que acabou por cair. Acusarem-na de coisas que ela não fez, ou empolarem outras coisas, também não ajuda à festa.

São tão responsáveis como a Adelina pela confusão em que estamos. Agem como polícias dos Young Elites, mas são incapazes de reconhecer quando alguém é tão perigoso como a Adelina, e pior, incapazes de entender a melhor maneira de lidar com uma arma tão poderosa. (Pista: não é assim. E deviam tê-lo feito por interesse próprio, nem era preciso ser pelo bem dos vossos corações.)

Ah... acho que prefiro o Teren. Ao menos esse sabemos à partida que é mau, perigoso, e janado da cabeça, que é o tipo mais perigoso de mau. Aquele que sabemos que é imprevisível na sua dedicação. E depois do que a Adelina o pôs a fazer... bem, tenho a certeza que o Teren vai ser um mimo, no terceiro livro. E vai delicioso de ver isso desenrolar-se.

No entanto, continuo a achar o Raffaele muitíssimo interessante. Tem todas as características dúbias dos Daggers, aliás, ele é o responsável por muito do que eles fazem; mas tem uma delicadeza e uma inteligência e uma maneira de ver a vida que é muito cativante. Aliás, tenho a certeza que se a Marie escrevesse os livros do ponto de vista dele seria igualmente fácil de torcer por ele como é pela Adelina. (Agora adorava mesmo que a Marie o fizesse.)

Este segundo livro traz algumas coisinhas novas engraçadas, como a Maeve e o que ela anda a tramar, por exemplo. A shitstorm que a Adelina cria em Merroutas. O Sergio, que já lidou com os Daggers, e agora a modos que está na equipa Adelina.

Oh, e o Magiano, que é simplesmente adorável. O epítome de bad boy, sempre com esquemas e a tramar alguma coisa; e ainda assim, é capaz de ser a pessoa mais pura nas suas intenções para com a Adelina. Achei tão interessante ver o que a Adelina pensa sobre ele, porque é um reconhecimento do oposto de si própria que ele é, e implicitamente sabe que o Magiano seria uma motivação para sair do buraco e desenterrar-se a si própria de toda a porcaria que fez. Mas não está propriamente ainda pronta para fazê-lo, e por isso continua a enterrar-se em escuridão. Raios.

O fim, oh céus, o fim é glorioso. Vai tudo para o inferno, não literalmente, mas como se as coisas já não estivessem suficientemente más e estragadas para toda a gente (tenho pena do zé ninguém comum que vive em Kenettra), a Marie certifica-se que vamos do 8 ao 80 e que fica tudo certificadamente estragado e mau e errado. E delicioso. De seguir, quero dizer. Não tão delicioso para as pessoas envolvidas.

E pronto, ficamos num ponto interessante. Tenho a dizer que achei a Violetta mais madura do que lhe dava crédito. Ela claramente tornou-se numa pessoa que está à vontade na sua pele, sendo discreta, inteligente, e preocupada com a irmã, mas não se impondo. E ocorreu-me um paralelo interessante entre este livro e...

... o Frozen. A sério. Pensemos nisso, se a Elsa, com grandes e assustadores poderes, tivesse tido uma infância e uma personalidade como a Adelina, achamos mesmo que não teria ido parar ao mesmo lugar? Capacidades extraordinárias são altamente corruptíveis. As circunstâncias é que mudam o cenário. E a Violetta tentou, pobrezinha, mas não havia nada a fazer.

No fim disto tudo fico a desejar algum tipo de redenção para a Adelina, alguma forma de regressar à luz que lhe permita viver a vida como nunca a conheceu: mais feliz. Também consigo ver as coisas evoluírem ao ponto de ela morrer como forma de redenção, mas sinto que isso é demasiado fácil, demasiado preto-e-branco numa história em que a Marie conseguiu apresentar todos os tons de cinzento pelo meio. Venha o próximo. Que até nem falta muito.

Páginas: 416

Editora: Putnam (Penguin)

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

The Young Elites, Marie Lu


Opinião: Encontro-me numa posição singular e curiosa com este livro. Ao início não tencionava propriamente lê-lo. Li a primeira trilogia da autora, e ela faz muitas coisas bem, como as cenas de acção, e a construção do seu mundo, e até o modo como leva o enredo por caminhos nada óbvios. Mas faltava-lhe algo na caracterização dos personagens, algo que era necessário para me apaixonar pela leitura, e por isso The Young Elites, o primeiro de uma nova série, não era prioridade para mim.

Só que depois o ano passado comecei a tropeçar em opiniões do livro, quando saiu, e bolas, começou a dar-me uma vontade brutal de o ler. Tudo o que lia me dava a sensação de ser exactamente o meu tipo de coisa. Só que ainda estava relutante, e como tencionava tentar não começar muitas séries novas, esperei. Acho que finalmente a Patrícia e a Elphaba se fartaram de me ouvir lamuriar e decidiram que era uma boa prenda quando fiz anos. (Pista: estavam certas.)

É que a fragilidade da autora em criar personagens que me apaixonassem? Foi janela fora. A protagonista Adelina está soberbamente caracterizada, duma forma apurada e certeira, cheia de nuances, que cria verdadeiramente a ilusão que ela é uma pessoa real (adequado, tendo em conta os poderes dela). Aliás, toda a gente está caracterizada do mesmo jeito, mas a Adelina, sendo a protagonista, está mais aprofundada.

The Young Elites é sobre um mundo em que uma peste devorou o país, Kenettra (assim como que uma Itália Renascentista), deixando na sua esteira crianças e jovens, os malfettos, marcadas fisicamente (ou não), e em alguns casos com poderes (os The Young Elites). Os malfettos são vistos em Kenettra como proscritos, que trazem azar e mancham uma família socialmente, e durante este livro vemos um escalar de situação que leva a perseguições, prisão e morte.

E aqui se insere a protagonista Adelina. Sobreviveu à peste, mas não sem mácula. O cabelo ficou-lhe branco/cinzento/prateado (a peste afectou o cabelo de toda a gente, parece, porque toda a gente tem um cabelo lindo e exótico... eh), e perdeu um olho. Mas o mais importante que a peste lhe deixou foram cicatrizes de outro foro: as psicológicas. Desde então maltratada e manipulada pelo pai, não conheceu senão maldade e desprezo da parte dele, deixando marcas indeléveis na sua personalidade.

Oh, e que personagem fascinante a Adelina é. Ela comete tantos erros, faz maldades, caminha no limite entre anti-heroína e vilã, mas não consigo ficar zangada ou desapontada com ela. A Adelina foi uma miúda extremamente mal-tratada toda a sua vida, criando uma combinação poderosa de falta de auto-estima e de confiança e falta de carinho.

E por isso, essa carência desesperada por afecto fá-la oscilar entre várias situações que lhe permitam obter a atenção de outros; só que a sua falta de confiança em si própria e nos outros a faz também tomar decisões precipitadas e impensadas, procurando aqueles que lhe pareçam mais seguros, mas mudando de ideias a cada momento. Na procura de uma emoção, falta-lhe a razão, o que faz sentido para alguém tão jovem e com uma vida tão difícil.

O caminho da Adelina cruza-se com a Dagger Society, um grupo de jovens com poderes que tem (aparentemente) como objectivo ajudar e proteger outros como eles. Mas a Adelina tem muita dificuldade em confiar neles, e à medida que vai fazendo amizades no grupo, a tensão mantém-se: será que vai pôr-se inteiramente nas mãos deles? Será que eles têm os seus melhores interesses em vista? Será que vai traí-los?

Adorei seguir esta parte do enredo, estas dificuldades da Adelina, porque a autora faz um óptimo trabalho em manter as coisas dúbias: há sinais de amizade por parte dos membros da Dagger Society, mas ao mesmo tempo certas acções deles fazem pensar que a Adelina não pode confiar neles. Querer parecer ser mais capazes do que realmente são, e pode-se argumentar que são terroristas para o seu país, pelas acções que tomam no enredo. Dizem querer ajudar outros como eles, mas as suas acções não passam exactamente por aí, já que o seu objectivo final é restaurar no trono aquele de direito, que foi afastado por ser um malfetto.

Os poderes da Adelina são algo de fascinante. É como se ela fosse um Darkling em potência, como poderes ligados à escuridão, e com a tendência para ser empurrada para a vilania, com o impulso certo. Ela tem o gosto pelo poder e ambição suficientes para isso, e a sua capacidade para cair num estado de espírito sombrio que leva à destruição só é rivalizado pela Celaena dos livros da série Throne of Glass da Sarah J. Maas.

O elenco de outros personagens é descrito com precisão. O Enzo pela sua ambição e determinação, destaca-se pela ambiguidade em relação à Adelina, que guia a posição ambígua dela aos outros personagens. Além disso, não é propriamente um interesse amoroso típico, não um pelo qual eu pudesse torcer, porque tem demasiado de primeira paixoneta, da parte dela, além de não estar certa do interesse dele, para me ser credível que sejam um bom par. O percurso dele leva a momentos inesperados (bravo, Marie), o que foi delicioso, mas a Marie já deu as cartas para poder vir dar a volta à coisa, por isso é óbvio que não vai resistir a fazê-lo.

O Raffaele foi dos personagens meus favoritos, pelas suas capacidades de Young Elite, pela sua personalidade calma e segura, pela sua posição na vida, algo agridoce de seguir, pela sua estabilidade emocional acima de tudo, sendo um óptimo contraponto à Adelina e estendendo-lhe uma amizade que deu gosto seguir. Tenho pena que as coisas tenham azedado entre eles, acho que o Raffaele seria uma boa influência nela, e capaz de a ajudar, apesar de tudo. Até consigo ver-me a torcer por eles, no futuro, como par. Seria uma parceria deveras interessante, precisamente pelo contraste que fazem.

Uma outra personagem que achei mesmo interessante foi a Gemma. Serve de contraponto à Adelina de outro modo: aqueles com poderes são avaliados de acordo com o tipo de emoções e conceitos que os guiam e fazem parte fundamental da sua personalidade. Ora se a Adelina se guia por paixão, ambição, medo e fúria, a Gemma trabalha melhor quando está feliz e satisfeita.

É feito subtilmente um argumento interessante sobre o modo como ambas cresceram: a Gemma numa família feliz e que a aceita, e por isso ela funciona melhor quando está bem; a Adelina conheceu maioritariamente o desprezo, o medo e a fúria ao crescer, e é isso que guia os seus poderes e como se manifestam. (Ainda relevante para a questão: a Violetta, a mana da Adelina. A sua postura é interessantíssima e crucial.) É uma relação explícita entre poderes, motivação e personalidade que a autora estabelece, e é uma ideia inusitada o suficiente para me atrair e agradar.

Outro personagem manifestamente interessante é o Teren. Claramente o antagonista, não é isso que uma pessoa pensaria ao ler a sinopse. (Honestamente, pensei que ia ser mais um triângulo amoroso. How wrong I was. Nada a ver com isso, e ainda bem.) Detestei-o pelas suas acções, mas ainda assim é bastante nuanceado, com motivos e personalidade bem claros. Quase parece um pouco patético, pelo seu fanatismo e obsessão com uma outra personagem.

Aliás, é isso que torna a história tão interessante. A Marie escreveu uma história em que ninguém é bom ou mau, vilão ou herói. Só há pessoas e as acções que praticam e que caem num espectro tão variado. Uma ideia fundamental, mas ainda assim pouco explorada e refrescante de ver.

O final foi definitivamente chocante, pelos acontecimentos em si e pelo extremo em que as acções da Adelina (e dos outros também) caíram. Senti a sua dor e confusão, e custou-me horrores ver a quebra de relações que se dá, porque quase dava para ver a alma dela a destruir-se mais um bocadinho, a ver esta bóia salva-vidas que tinha uma medida de afecto a ser-lhe retirada, e como isso a deixou afundar ainda mais.

Estou mesmo intrigada para ver como as coisas se processarão daqui para a frente, porque há um milhão de oportunidades, e estou contente por ter esperado para ler até agora. O segundo livro está quase a sair, e poderei lê-lo brevemente. Sei que gosto da ideia de ter a Adelina a bater no fundo, sempre com o potencial para se tornar numa vilã, e da ideia de ver traçado um caminho de redenção que lhe permita ser e mostrar-se melhor que as suas circunstâncias.

Páginas: 368

Editora: Putnam (Penguin Random House)

domingo, 27 de julho de 2014

Champion, Marie Lu


Opinião: Esta tem sido uma trilogia de certo modo única de explorar. Não sendo uma que me apaixone e leve aos píncaros e me faça cantar aos céus as suas virtudes, não deixa de ser por isso fascinante no modo como apresenta os seus temas e faz evoluir os seus personagens. É uma história que aprecio mais com a cabeça que com o coração, mas não há nada de mal com isso.

Neste volume, a Republic parece estar no caminho para um tratado de paz com as Colonies e para se tornar num melhor país para os seus cidadãos do que até agora o foi... mas uma reaparição da peste emperiga as conversações entre os dois países, e mostra quão frágil mesmo está a Republic. Cabe à June e ao Day ajudar o seu país a sobreviver aos inimigos que os parecem rodear de todos os lados.

Pensando na história dos três livros em geral, achei-os bastante optimistas, particularmente neste livro. Em tanta coisa que tenho lido nos géneros de distopia e pós-apocalíptico, muito é bastante passimista, explorando como o sistema, ou a sua falência, corrompe e destrói os seus membros. O que é parte quase essencial dos géneros, suponho. Mas também é refrescante quando alguém faz algo diferente, como a autora aqui faz. Apesar do que as pessoas passaram às mãos do sistema, ainda se mantêm elas próprias, os soldados não se perderam para o poder que o sistema lhes dava, as pessoas ainda lutam. É comovente de tão optimista (e algo ingénuo, também).

Outra defesa interessante que a autora faz é a defesa reconstrutiva, e anti-destrutiva do sistema. No primeiro e até no segundo livros, o pensamento era mais ingénuo, mais "vamos deitar tudo abaixo e começar de novo". Neste, evolui para um compromisso, uma perspectiva mais adulta de "ok, o sistema não funciona, mas vamos ver se conseguimos melhorá-lo, vamos tentar". É realista e sóbrio, e mostra uma evolução nos personagens, que assumem uma posição nesse sistema para tentar mudá-lo.

No livro anterior já tivemos um vislumbre do resto do mundo fora da Republic - nomeadamente, das Colonies e do sistema que vigora por lá; neste, somos introduzidos à Antárctida. Por um lado, fiquei desapontada por não ter tido uma maior espreitadela aos territórios do resto do mundo; por outro, achei a Antárctida bastante interessante como sistema. Especialmente porque à superfície parece ser um sistema simples, eficaz e bom, mas que rapidamente levanta questões éticas e morais - se as pessoas têm um comportamento bom para ganhar pontos, e não porque o comportamento bom beneficia a sociedade, podemos mesmo chamar-lhe um comportamento bom? E depois, quem decide o que é bom e mau? É um sistema que tem tudo para dar asneira e se tornar num sistema repressivo.

A June e o Day encontram-se em pontos cruciais da sua vida, é fascinante de os ver lidar com o que têm entre mãos. A June está a estudar para Princeps, mas é claramente uma coisa que ela detesta fazer, apesar de se esforçar para mostrar o que vale, nem ela podia fazê-lo de outra maneira. O Day debate-se com a "pequena" revelação no fim do livro anterior, e em como isso imprime uma outra premência às coisas que ele faz. Juntos, são uma equipa fabulosa, e deixam-se ceder ao que há entre eles (finalmente), mas também há algo que os separa, algo que podem não ser capazes de ultrapassar.

Entre os personagens secundários, acho que tenho de destacar o Thomas, que por muita porcaria que tenha feito, tem uma lealdade inquebrável à Republic, e é quase assustador vê-la em acção. Há que respeitar alguém que funciona deste modo. (Ou pelo menos ter medo dele.) A sua narrativa sobre certos acontecimentos do Legend é, bem, impressionante. Por outro lado, acho que acabei a ficar cheia de pena do Anden, por um lado pelo peso do que tem de suportar, e por outro porque o comboio dele já tinha partido, e por mais que o rapaz se esforçasse, não dava para apanhá-lo.

O capítulo final, curiosamente, foi algo comovente, pela sensação de... perda e dor que o permeava. Passei o tempo que o li completamente em baixo, aflita pelos personagens e pelo que a passagem do tempo lhes teria (ou poderia ter) feito. Não sou a maior fã duma certa coisa que a autora fez a um dos personagens, porque fiquei frustradíssima com aquilo... mas acabou por ser uma solução elegante ao dilema que se punha aos personagens desde o primeiro livro, juntamente com a separação temporal. Permitiu curar, ganhar distância e perspectiva das coisas para lhes permitir aprender a viver com as mágoas. Enquanto que o resto da trilogia foi mais acção e pensamento, este epílogo foi totalmente emoção, e deixou-me tremendamente satisfeita, apesar da melancolia e nostalgia inerentes. (Ou talvez por causa delas.)

Páginas: 384

Editora: Putnam (Penguin)

terça-feira, 10 de junho de 2014

Prodigy, Marie Lu


Opinião: Uma leitura um pouco... desconcertante. Não pelo livro ou pelo seu conteúdo - nada disso -, suponho que apenas pelas circunstâncias em que o li a semana passada. Passava o dia inteiro sem me dar uma vontade particular de o ler, para lhe pegar à noite e devorar umas boas páginas. Uma leitura prazerosa, só que ocasionalmente a minha cabeça estava virada para outro lado.

Prodigy pega na narrativa no ponto em que o livro anterior o deixou. Os dois protagonistas, June e Day, fogem da Republic com o objectivo de pedir auxílio aos Patriots. Só que aquilo que eles lhes pedem é bem mais complexo que antecipavam, e cedo se vêem entre dois inimigos, a tentar perceber quem diz a verdade e quem mente, quem tem boas ou más intenções... e o que é realmente certo ou errado para o seu mundo e para o seu futuro.

Em termos de enredo, é um livro cheio de reviravoltas, que põe os protagonistas numa série de situações algo inesperadas, especialmente porque os faz questionar aquilo que pensavam sobre o mundo em que se inserem. A natureza da Republic, a posição ambígua do novo Elector, aquilo que sabem das Colonies, dos Patriots e até do resto do mundo... é fascinante.

A história começa por tê-los juntos, mas os eventos separam-nos, e se bem que as coisas se tornam mais interessantes depois de se separarem... interiormente, a separação leva-os a duvidarem de si mesmos e do outro. Não sei se gostei. Os aspectos que os separam são também as coisas que os tornam interessantes como par, só que realmente têm de aceitar as suas diferenças para funcionar como tal. O Day, em particular, duvida muito de si mesmo e da June, por se sentir inseguro em relação à diferença de classes de que são originários. E a June, bem, é mais cerebral e menos emotiva, e por isso é pior a demonstrar o que sente, apesar de ser a mais constante.

O livro parece ter uma daquelas coisas que me faz arrancar cabelos quando as vejo num livro - o temido triângulo amoroso, aqui com uma derivação para um "quadrângulo"; só que isso não acontece propriamente. A June e o Day consideram se não seria mais fácil não gostarem um do outro, mas sim daqueles que mostram interesse neles; mas não reciprocam esse interesse, e a preocupação um com o outro e a ligação que os une está sempre presente.

O modo como esses "interesses" secundários são apresentados é, confesso, algo inusitado. O Anden é caracterizado de uma maneira subtil, discreta, e até tem algum potencial como personagem. (Só não como par para a June.) Já a Tess é bastante irritante, quase que não a reconheço. Demasiado queixosa, algo maliciosa e maldosa na maneira como tenta virar o Day contra a June... onde é que está a miúda fofinha e encorajadora do primeiro? Não era preciso torná-la nesta bolinha de inveja insuportável.

Gosto da expansão do mundo que é feita. No primeiro livro não saímos de Los Angeles; neste, como o mapa incluído indica, somos apresentados a outras cidades da Republic e até das Colonies, e é-nos permitido compreender melhor a relação entre estas duas partes do que anteriormente eram os Estados Unidos. (Achei particularmente interessante o modo como as Colonies parecem funcionar.) No terceiro livro - que parece ter um mapa do mundo, com as alterações devidas à subida das águas -, espero vir a encontrar uma expansão geográfica global, quem sabe conhecer de perto outros locais do planeta.

Quanto ao final... de roer as unhas. Acho que não tivemos suficiente foreshadowing para tal revelação chocante, mas ela não deixa de o ser. É claro que tinha de resultar no dramalhão em que resultou - não esperava outra coisa, tendo em conta a queda do Day para o drama. Mas desejava activamente outro resultado. Bem, espero que o próximo livro me traga boas notícias. (Ou não.)

Páginas: 384

Editora: Putnam (Penguin)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Legend, Marie Lu

I'm submitting this book to the 2011 Debut Author Challenge, hosted by The Story Siren.


Review: June is the Republic's prodigy, being the only one that has scored the maximum score on the Trial. Day is a slum boy, running from the Republic for being a trouble maker. June has recently lost her brother, Metias. Day is suspected of murdering him.

With this premise, Marie Lu creates an interesting struggle between these two characters - June wants to avenge her brother and capture Day, Day wants to run to live another day and to help his family. I think the pacing is a little off, since it takes half the book to get June and Day together and to get him captured.

I found this militarized world in which the story happens quite compelling, albeit I would like to have seen it more developed and better explained. The US were divided between the Republic (roughly the West Coast states) and the Colonies, and there is a conflict between them, but how did it start? We only see the Republic's point of view in this book (and it is filled with propaganda against the Colonies), so I'm eager to see how things are like in the Colonies.

The "mystery" June had to uncover was easy to figure out, and I think the time spent on it could have been used on developing what was going on with the Trail tests and June and Metias' parents. I was very curious about what's going on behind the scenes in the Republic, and many things are only hinted at, but they show promise.

As for June and Day, great characters. June is a kick-ass, smart girl who is trying to do the right thing, but she ends up having to reevaluate her beliefs and what she has been taught. Day is a street-wise kid who was wronged by the Republic and who struggles to give them hell and help his family at the same time.

To sum it up, this is a story which I truly liked, as it shows a lot of promise and kept me wondering about many things. I loved the main characters, and was intrigued and curious about the worldbuilding. I wish some things were better developed, and I hope to see them full-blown in the sequel.

Pages: 320

Publisher: Putnam