domingo, 7 de fevereiro de 2016

Uma imagem vale mil palavras: A 5ª Vaga (2016)

A sério, eu tenho que parar de ver adaptações cinematográficas de livros. Mesmo quando são perfeitamente adequadas, a minha cabeça não consegue parar de encontrar-lhes problemas, caramba. Era tão mais fácil poder simplesmente desligar.

Bem, esta adaptação. É bastante decente. Segue bem o ritmo narrativo do livro, com as devidas adaptações. Nunca conseguiríamos ter, por exemplo, a surpresa da identidade do Zombie, porque no livro isto baseia-se em não lhe conseguirmos ver a cara, coisa que não é possível na tela, obviamente.

De qualquer modo, acho que o filme lida bem com as diferenças de meio que há entre livro e filme. A escrita do Ricy Yancey até é um pouco cinematográfica, tal como a maneira como ele cria a história, e presta-se a ser adaptada, em parte.

A intercalação das narrativas dos vários narradores ainda funciona melhor em filme; e certas coisas consegue transmitir bastante bem, como a paranóia ao extremo que podemos detectar na Cassie logo na primeira cena, ou as sucessivas vagas que destroem o planeta e desfiguram o mundo como o conhecemos.

Há um par de "atalhos" que são tomados para facilitar o correr do enredo, que até fazem sentido. O primeiro, particularmente, que explica porque a Cassie não estava no campo de refugiados com os adultos e os militares - é menos convoluto, e uma solução elegante. No segundo caso, é o modo como a Cassie percebe a natureza do Evan. É um pouco rápido demais, mas resulta.

Coisas que gostei mesmo: o Sam, o mano da Cassie é adorável. E pensando bem, os actores que fazem o papel dos dois personagens masculinos principais também parecem demasiado adoráveis. É até estranho. Hollywood parece estar repleta de bonzões, mas não tanto de gente com ar fofo.

Gosto bastante do contraponto entre a normalidade da vida antes, e até durante a "invasão", que no início se pauta pelo desconhecido e pela inércia, e a estranheza pós-apocalíptica de um mundo devastado, que obriga as suas crianças a crescer abrupta e violentamente. Ah, e gosto do humor. Gosto que mantenham certas cenas com piada.

Não sou fã do que fizeram com a Ringer. Primeiro, ela é implicitamente asiática no livro, portanto cai mal o casting duma actriz caucasiana. Depois, aquela actuação de miúda furiosa roqueira é tão pateta. (Ou como a minha irmã disse, "onde é que ela anda a arranjar o eyeliner?") Ugh. A Ringer pode ter o seu feitiozinho, mas esta interpretação é esticar a corda, e é simplista. Para miúda furiosa, preferia a Jena Malone a fazer de Johanna nos Jogos da Fome.

A montagem, bem, podia ser melhor em partes. Há ali uma situação em que o grupo do Zombie está muito baixo na tabela, e que eles fazem um crescimento brutal num certo espaço de tempo, e isso não parece bem transmitido, o esforço, o quão complicadas as circunstâncias eram para eles. Parece desvalorizar a evolução dos personagens aqui.

Além disso, o grupo de Zombie é uma confusão de caras, nunca nos são apresentados em condições, nem deu para perceber quem era o Poundcake. (O Poundcake tem o seu momento no segundo livro. Não acredito que nem sei quem é o Poundcake. [Entretanto já fui ver ao IMDb. O actor nem sequer é gordo. Era essa a piada do Poundcake, pensarmos que o nome tinha a ver com ser gordo, só que não.])

E pronto, umas coisas boas, umas menos boas, mas é um filme decente, e acredito que vá entreter quem vai ao cinema. Principalmente aqueles que não leram o livro, mas possivelmente também os que leram. Considerando as diferenças de meio, está a melhor adaptação que poderia ser feita nestas condições, isso acredito.

Agora, e este é o meu problema principal com isso... e um que só descobri ao conversar com a minha irmã depois da visualização. Ela não achou "nada de especial", e eu dei por mim a tentar explicar quão especial era o livro e porque é que valia a pena ler...

É que o Rick Yancey é fabuloso a descrever uma dimensão emocional e psicológica dos seus personagens, e há camadas de coisas no livro que no filme não estão lá. O filme é mais superficial, enquanto que o livro é mais profundo.

Está bem que não podemos reproduzir a narração única da Cassie. Mas há substitutos para isso. Os Jogos da Fome também tinham uma narração muito específica com a Katniss, e o filme conseguiu adaptar isso.

É claro que nesse caso tinham a vantagem de ter a fantástica Jennifer Lawrence, que é tão expressiva e consegue transmitir aquilo que está a passar na cabeça da Katniss, e substitui bastante bem a narração do livro. Aqui temos a Chloe Grace Moretz, que não é de perto nem de longe tão talentosa.

E o próprio filme não ajuda, porque creio que havia maneiras de sublinhar a mensagem inerente ao enredo, de pôr lá as camadas de significado, de ser, enfim, um filme um pouco mais profundo em vez de ser só exactamente aquilo que temos à frente do nariz.

Again, os Jogos da Fome conseguem fazê-lo, sublinhar a crítica inerente ao entretenimento e como se ultrapassam certas linhas na sua produção. A diferença é que as pessoas que pegaram neles parecem realmente importar-se com o material de origem.

Neste caso? Tenho as minhas dúvidas. Anda tudo louco à procura da próxima série YA que vai ser uma adaptação cinematográfica em grande, e por isso põem-se a disparar em todas as direcções sem pensar bem no que estão a fazer, em vez de se focarem em fazer um bom trabalho, que isso seria meio caminho andado.

Estou tão cansada deste furor YA nos filmes, esta preguiça de fazer filmes originais, esta incapacidade de reconhecer aquele algo mais que há nos livros, e que por terem YA espetado na capa, são descartados logo à partida como incapazes de ser "livros sérios", e de por isso merecerem "adaptações sérias". Oh pá, pessoal, cresçam. Levo a sério as vossas adaptações quando começarem a levar a sério o material original.

Sem comentários:

Publicar um comentário