sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Da Vinci's Tiger, L.M. Elliott


Opinião: Que livrinho interessante. A sua história decorre no período renascentista, em Florença, Itália, quando os Medici estavam no poder. A sua protagonista é Ginevra de' Benci, uma jovem que veio a ser retratada por Leonardo Da Vinci numa pintura que chegou aos dias de hoje; e a autora aproveita estas circunstâncias para nos revelar uma época riquíssima.

E, no entanto, não é um livro apaixonante. (Tenho de me livrar das minhas queixas primeiro.) Pode ser muito bom em tudo o resto (e já vou discorrer em como é bom em tudo o resto), mas falta-lhe um bocadinho assim. A protagonista tem uma viagem emocional ao longo da história, mas nunca a senti, nunca me relacionei com ela, nunca me senti profundamente enredada.

Custa-me um pouco não poder sentir isso com um livro e um personagem; gosto muito de livros com um excelente trabalho na caracterização de personagens, e isso não é propriamente o foco aqui, com a protagonista ou personagens secundários.

Tudo o resto, no entanto? Brilhante. Vê-se que a autora gosta da época, e fez pesquisa exaustiva sobre ela, porque está tudo descrito com um detalhe impressionante; tudo é contextualizado adequadamente para quem não conheça a época, e ao mesmo tempo não me parece simplificado ou escrito de modo a tratar o leitor como burro.

Apreciei tanto conhecer Florença naqueles tempos, compreender a intriga política naquele momento em particular (o livro ocorre antes e depois da morte de Giuliano de' Medici); acompanhar as morais altamente guiadas pela religião, e ao mesmo tempo, entender os princípios que guiavam a criação artística (o conceito de amor platónico é fascinante no modo como guia as elites intelectuais, e ao mesmo tempo como parece chocar/se opor um pouco à moral vigente).

E no meio disto tudo, move-se Ginevra. O livro é inteiramente ficcional, apenas uma sugestão do que poderá ter sido, mas gere os factos, os acontecimentos que se sabe ter acontecido, bastante bem, e constrói uma possível história para a Ginevra ao longo de alguns anos.

Até apreciei a perspectiva da Ginevra. É no início um pouco ingénua, mas tem uma boa personalidade, bem firme, mantendo os seus princípios, e gosto dela por isso. Não se deixa corromper, e é muito interessada nos seus esforços intelectuais, e nas tendências artísticas da época.

Leonardo da Vinci aparece, claro, é o artista por trás do retrato que sobreviveu até hoje, e vemos uma fatia da sua vida, ainda um artista jovem a estabelecer-se, e da relação que possivelmente poderia ter tido com a sua retratada.

Ainda houve um outro aspecto que apreciei na história da Ginevra, e é que é o tom feminista subjacente. Ela tenta gerir a sua vida, os seus afectos e os seus interesses num mundo de homens que estão prontos para lhe ditar tudo e nada, usá-la como um objecto de adoração artística, mas nunca um par, um igual com capacidade intelectual.

É bastante curioso ver a questão do casamento da Ginevra com um homem duas vezes mais velho, um casamento com objectivo apenas de avançar social e politicamente a sua família; e ainda mais interessante assim que a Ginevra deduz um certo facto sobre o marido, que não procura intimidade com ela.

E no fim, a Ginevra é decepcionada, e não muito bem tratada pelos que a rodeiam, mas apreciei a maneira como ela lidou com a situação. Livrou-se dum momento complicado, e conseguiu gerir o resto da sua vida de acordo com a sua vontade. Não sei quanto é verdade ou não, mas conforta-me esse final.

Acho que recomendaria este livro principalmente pelo retrato que faz da época, que é extraordinariamente detalhado e completo, e pelo percurso que a autora dá a Ginevra, que é cativante o suficiente, pelas circunstâncias. (Apesar de não ser um livro apaixonante, mas não conto isso como um contra particularmente significativo.)

Páginas: 304

Editora: Katherine Tegen Books (HarperCollins)

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