segunda-feira, 28 de agosto de 2017

The Gentleman's Guide to Vice and Virtue, Mackenzi Lee


Opinião: Oh, este livro é tão, tão giro e amoroso, e tão divertido que só me apetece dar-lhe festinhas/abraçá-lo - o que seria um pouco estranho para um objecto inanimado, mas é assim que o dito me deixou. Quer dizer, há meses que o livro tem um burburinho louco atrás, o que normalmente me deixa desconfiada (qualquer coisa muito falada ou é muito boa, ou muito má, para mim), mas também tenho a sorte de ter um excelente sexto sentido para perceber quando um livro vai ser a minha praia, e bem, este caiu-me que nem uma luva.

O protagonista da história é Henry Montague, Monty para os amigos. O Monty é um lorde inglês que chegou à maioridade, e que vai começar a ser treinado para herdeiro pelo pai; antes disso, no entanto, este tenciona enviá-lo numa Grand Tour da Europa, para se cultivar e, hmm, domar os seus modos. O Monty está muito animado com a perspectiva da viagem, porque pensa que será um ano de festas, bebida e senhoras de reputação duvidosa; no entanto o pai tem diferentes planos e vai enviar um chaperone para se assegurar que o rapaz é um modelo de bom comportamento.

A acompanhá-lo estarão a sua irmã Felicity, que por ser mulher não tem direito a ver as partes boas da Tour (ver os museus, as oportunidade culturais e de conhecimento), o que no caso da Felicity é trágico, pois a sua mente é voraz de conhecimento científico; e o melhor amigo Percy, um jovem biracial bem mais responsável que o Monty, possuidor de um segredo que afecta ainda mais o seu lugar na sociedade... e objecto da enorme paixoneta duradoura do Monty.

O problema da Grand Tour... é que foi desviada. O Monty comete um acto irreflectido para obter uma pequena vingança contra alguém de quem não gostou (típico do Monty... muito, muito típico), e isso mete-os inadvertidamente num monte de sarilhos... de repente estão a fugir Europa fora não só de salteadores, mas também da Coroa Francesa, e pelo meio tropeçam num "golpe", num sonho alquímico tornado realidade... oh, e ainda são raptados por piratas.

Parece um pouco convoluto, mas Mackenzi Lee fá-lo resultar: as constantes reviravoltas do enredo são cativantes e hilariantes de acompanhar. Adorei seguir as peripécias em que os nossos protagonistas se metem - especialmente porque 90% da culpa é do Monty. Em adição, a autora escreve com um sentido de humor que vai totalmente de encontro ao meu, e isso é fabuloso. Fartei-me de soltar risinhos e gargalhadas com este.

A caracterização é excelente, especialmente no Monty. Começamos por ver este bon vivant, um libertino sempre metido em festas e sarilhos que esgotou a paciência do pai; mas depois começamos a ver as outras camadas, o miúdo bisexual aterrorizado com a perspectiva de as pessoas erradas descobrirem que também gosta de rapazes: há muita falta de autoestima ali, muita autodepreciação no modo como o Monty se comporta. Quase uma forma de desiludir o mundo para que o mundo não o desiluda a ele.

Também gostei da caracterização do Percy, ele tem duas coisas em seu desfavor perante a sociedade - é meio negro, e tem uma doença ainda muito mal entendida nesta altura. E no entanto ele é um jovem que não deixa que isso o defina, é inteligente e determinado e discreto, apesar de estar resignado a que os outros o vejam como "menos", por ser quem é.

Já a Felicity é um doce para esta leitora. Sarcástica, com uma relação giríssima com o Monty, cheia de exaspero (pensar-se-ia que ela era a mais velha), e trocas verbais cheias de alfinetadas. A Felicity vai para a finishing school no fim da viagem, mas isso para ela é um açaime: a jovem tem uma mente bem afinada, adora ler livros de divulgação científica (e escondidos pela capa de um romance... é cá das minhas), e tem um sangue frio admirável, o que combinado com os seus conhecimentos de medicina safam o grupo em momentos cruciais. (Para não falar da rijeza que é preciso ter para coser o seu próprio ferimento... sem anestesia ou analgesia.)

O que eu destacaria mais acerca deste livro é que é uma ode aos inadaptados, aos rejeitados pela sociedade por esta ou aquela razão. Qualquer um dos três protagonistas tem algo que o faz pertencer a uma minoria discriminada, algo que "diminui" o seu valor na sociedade; e ainda assim, estes miúdos prevalecem e criam e tomam as rédeas da sua própria história, procurando um final feliz.

É tão optimista que dá vontade de derreter; é tão fácil, por exemplo, torcer pelo Monty e pelo Percy, porque são adoráveis (juntos e separados), e a sua história tem todas as pequenas coisas de uma amizade a resvalar para amor, os olhares e suspiros, os mal entendidos, o achar que se tem um amor não correspondido... pobre Felicity, até ela embarca nos preconceitos aceites da sociedade sobre homossexualidade (e isto apesar de não embarcar no caso do Percy e da sua doença, o que achei uma dualidade interessante), e mesmo assim não consegue deixar de torcer pelos dois, e querer que estas duas pessoas que adora tenham direito à sua felicidade.

Enfim, é um livro que adorei, encheu-me as medidas duma forma como poucos fazem. A autora descreve uma época histórica de forma genuína, mas consegue apresentá-la do ponto de vista de gente que seria esquecida pela História e afastada pela sociedade de então. De certo modo, é brilhante, e gostei mesmo disso, bem como do sentido de humor, e dos personagens principais cativantes. Recomendaria sem ressalvas.

Páginas: 528

Editora: Katherine Tegen Books (HarperCollins)

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