quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Luz e Sombras, A Casa de Gaian, Anne Bishop


Opinião: A leitura do primeiro livro desta saga para mim foi... complicada. Dei uma passagem de olhos nas suas páginas antes de me atirar à leitura deste dois, e ainda me lembro do quão frustrante ler sobre os teimosos Fae que se recusavam a ver o que estava mesmo à sua frente. (Incrivelmente frustrante. Ugh.) Ainda acho que a Anne devia ter feito o mistério mais difícil, para eu não ficar a achar que esta gente era incrivelmente burra.

No entanto, adorei o worldbuilding e os personagens. A Ari e o Neall são amorosos, e apesar de deixarem de ser protagonistas na sequela - tiveram o seu final feliz. Podem continuar a defendê-lo e lutar por ele, mas a sua intervenção no enredo da trilogia terminou em grande parte. (Continuamos a seguir no entanto uma série de personagens já nossos conhecidos. Mais sobre esse assunto já a seguir.)

No entanto, onde a trilogia brilha... é no conceito. A Anne é assumidamente uma autora feminista, e acho fascinante a dualidade entre este mundo e o das Jóias Negras no que toca a isso. Nas Jóias Negras lemos sobre um matriarcado que é distorcido, pois algumas das suas líderes são cruéis e perverteram o significado do seu papel.

Em Tir Alainn ela explora um patriarcado que já foi um matriarcado, e cujos homens exercem, por determinadas influências, um poder tirânico sobre as mulheres da sua vida. É um pouco assustador de ler, pois esta trilogia é bastante mais próxima da vida real. Aquilo que a Anne descreve é o que acontece no nosso mundo, ainda hoje - fala sobre as maneiras subtis e menos subtis sobre como ainda há desigualdade na nossa sociedade.

É assustador também porque, mais ou menos 15 anos depois da sua publicação, vivemos num mundo em que é demasiado fácil aceitar que algo como isto pode acontecer. O ódio tem poder, é insidioso, e move as pessoas, e um dia destes podemos dar connosco com um grupo alimentado pelo ódio no poder, exercendo opressão indevida sobre aqueles que não concordam com eles, que são diferentes, enquanto as massas se deixam guiar pela cegueira. Portanto, pontos bónus por escrever sobre um tema intemporal e (aparentemente) sempre actual - e por usar essencialmente os temas de narrativas distópicas numa história de fantasia épica.

O segundo volume centra então a narrativa no escalar de posições: os Inquisidores não desapareceram, recarregaram baterias e voltaram à carga, espalhando a sua influência pelo leste de Sylvalan. Cabe aos nossos personagens, e ao resto de território de Sylvalan pôr-lhes um travão.

Gosto do foco nos novos personagens, sem deixarmos de ver os antigos. Adorei seguir a Lyrra e o Aiden, que entenderam as lições do primeiro livro e se esforçam por transmiti-las aos outros, ainda que às vezes caiam em saco roto. No entanto, nunca desistem, e procuram tudo o que pode ser feito por Sylvalan. Gosto de ver que assumem uma posição diferente dos Fae, e que não querem saber do que é tradição entre estes; é preciso coragem para seguir o coração e escolher ficar ao lado um do outro nestas circunstâncias.

Também gostei de acompanhar a Morag. Acho que a Anne foi bastante injusta para com ela, especialmente tendo em conta o seu fim. A solidão da Morag devido à sua posição é tocante, e ela merecia melhor. Entendo o que aconteceu, mas não preciso de gostar disso. E não gosto mesmo nada.

O terceiro volume passa por mover as peças de xadrez até ao conflito final: os Fae e os humanos finalmente a trabalhar juntos, a tentar ajudar as bruxas e a manter o tecido do mundo como o conhecem intacto. Não é muito forte em acção, mais em desenvolver o enredo e os personagens, fazendo encontrar quem precisa de se encontrar, aprofundando caracterização, sem perder o sentido de humor Bishopiano que tanto aprecio.

Entre os personagens novos, destaque para a Ashk e a Selena, duo de senhoras impressionantes e um tudo nada assustadoras; e para o pessoal de Willowbrook, principalmente a Breanna, que deu uma descasca tão grande ao Lucian, e foi glorioso, ela leva tudo à frente e é fantástica. (Ela e o Falco são amorosos, já agora.) Também gostei bastante do Liam, porque era alguém que nunca tinha pensado nestes assuntos e de repente deu por si um acérrimo defensor das bruxas e da luta pela alma de Sylvalan. Mas no geral, temos um elenco brilhante. Gosto da caracterização que a autora faz, e é um grupo de gente que dá gosto acompanhar.

A batalha final é a modos que curta. Acho que acção não é o forte da Anne, e por isso ela passa rapidamente pela mesma. Sei o que aconteceu, e mesmo que batalhas não sejam o meu forte para acompanhar - geralmente é demasiado confuso para mim -, podia ter sido mais aprofundada, definitivamente.

Já o final em si... é triste e não triste. Há perdas, e uma pelo menos frustra-me um bocadinho, mas seria de esperar, suponho. No entanto, agrada-me saber que estas pessoas terminaram a sua luta e se encaminham para os seus portos de abrigo e para uma vida feliz e tranquila.

Enfim... em suma, Anne Bishop é Anne Bishop. Há uma outra autora (*cof*Sarah J. Maas*cof*) que é tão influenciada pela Anne que isso é 50% das razões pelas quais gosto dela. Acaba por ser uma autora seminal nas minhas leituras, e escreve duma maneira tão interessante e cativante, que me encanta e me enche as medidas, e pronto, não consigo ver um mundo em que não goste de Anne Bishop. Sem querer tentar o destino, não me parece possível.

Título original: Shadows and Light (2002) / The House of Gaian (2003)

Páginas: 368 / 448

Editora: Saída de Emergência

Tradução: Luís Coimbra

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