sábado, 9 de abril de 2016

Perdida, Carina Rissi


Opinião: Há autores que têm queda para, mesmo na sua primeira inexperiente tentativa, captar a atenção do seu público alvo, por serem eles próprios leitores entusiásticos, com os seus interesses que transbordam para a página, e que se alinham com os interesses dos seus leitores.

Neste caso, a Carina Rissi e eu falamos a mesma linguagem: Jane Austen e romances históricos do século XIX com uma pitada de conto de fadas. É meio caminho andado para o meu coração. Há uns anos vi uma série que adorei, Lost in Austen, sobre uma fã da Jane do século XXI que troca de lugar com a Lizzie Bennet, e acaba nos braços do Mr. Darcy, apesar dos seus modos estranhos e história que não pode partilhar. Sempre quis ler um livro que fosse assim parecido.

Pois bem, as linhas gerais da história convergem. A Sofia é uma jovem do século XXI, descrente do amor, amante de Jane Austen, muito dependente da sua tecnologia, que deixa o telemóvel cair na sanita (palerma). Ao tentar comprar outro, uma misteriosa mulher vende-lhe um aparelho que não funciona como outro telemóvel qualquer: Sofia é transportada para o século XIX e acaba a fazer amizade com uma família da zona, enquanto tenta descobrir como voltar.

É claro que a primeira pessoa que a Sofia encontra depois de aterrar no passado é um cavalheiro, Ian Clarke, que fica alternadamente escandalizado e fascinado com a pessoa dela, os seus modos, e a maneira como parece estar quase despida (leia-se: usa uma mini-saia). O choque de culturas não é o suficiente para separar estes dois, que se começam a aproximar, apesar das suas diferenças.

Boa parte da piada do livro é mesmo o choque de culturas, principalmente para a Sofia. Foi hilariante vê-la descobrir aos poucos as partes menos glamorosas da época, como a roupa apertada e cheia de camadas, as crinolinas e os espartilhos, e a... casinha, fora de casa, onde o papel de papel higiénico era assumido por folhas... de alface.

Por outro lado, também é bastante divertido ver os habitantes do século XIX, especialmente o Ian, ficarem abismados com o comportamento da Sofia. A sua recusa em usar crinolinas ou espartilhos, o uso de ténis, os modos demasiado expeditos para uma jovem que devia ser recatada, a maneira como fala livremente de assuntos que uma mulher não devia falar... pobre Ian, lentamente habitua-se a ficar escandalizado pelas coisas que a Sofia diz. E faz. Atrevo-me a dizer que a certa altura ele já prefere ficar escandalizado mesmo.

Por falar no par principal, achei-os adoráveis juntos. O romance foi bastante fofinho e quando começou a dominar a narrativa até me surpreendeu, porque a autora soube imprimir à história uma certa intensidade que era precisa para sublinhar a questão dos amantes separados pelo tempo, destinados a ficar juntos.

Há pequenos momentos dos personagens secundários que deu para apreciá-los, e só deu vontade de os conhecer melhor, de os ter durante mais bocadinhos. Há alguma caracterização subtil, o que aprecio, e gostei imenso da Teodora, por exemplo; mas também da Elisa, do Gomes, da Madalena, do Storm, da Nina...

Pontos negativos: se estou a ver bem no Goodreads, este é o primeiro livro da autora, e nota-se. Falta-lhe alguma maturidade na escrita. Ela escreve, por exemplo, a Sofia demasiado exagerada para sublinhar a diferença dela das pessoas do século XIX, chegando a tornar-se descabida ou rude até para padrões do XXI, o que faz parecer a Sofia uma tolinha.

Para isso (a Sofia feita tola) também contribui uma certa falta de pesquisa, ou falta de ser coerente. A Sofia gosta de Jane Austen e supostamente conhece bem a época, mas depois chega ao século XIX e comporta-se como uma ignorante em relação aos modos e costumes da época. Ou mesmo quando percebe que as pessoas não se comportam como ela, não tenta ajustar as suas expectativas ou comportamento, mesmo sabendo que pode embaraçar os amigos que fez.

Depois denota-se que o livro precisava de um bocadinho de proofreading, de pesquisa mesmo. Há uma parte em que se fala de móveis vitorianos; pois bem, em 1830 a Rainha Victoria ainda não tinha começado a reinar sequer, por isso o nome da época com o nome dela não se devia usar. Ainda não havia o conceito de algo ter aspecto vitoriano.

Por outro lado, além da situação geral da cultura e comportamentos e costumes em que a Sofia tropeça a cada momento, não há assim tantos elementos históricos usados para contextualizar: nenhuma menção directa a isto passar-se no Brasil, nada de menções políticas; e bem sei que a autora neste seu mundo ficcional não queria dar tempo de antena à escravidão, uma questão tão vergonhosa, mas fingir que não existiu até soa pior, parece que lhe retira a importância que devia ter.

Defeitos à parte, acabei por me afeiçoar bastante ao livro, curiosamente. A história é devorável, a protagonista é superdivertida e com uma perspectiva engraçada e interessante, e o romance é bastante cativante, deixando uma pessoa a torcer pelo casal principal como se não houvesse amanhã. O fim é bastante satisfatório, mas sei que há sequelas, o que me deixa imensamente curiosa para saber o que contêm.

A adaptação em si pareceu-me bastante boa, sei que se não tivesse havido eu teria parado quando primeiro tropeçasse e esbarrasse em calão brasileiro; mas ocasionalmente o calão era demais, o que me faz perguntar se a culpa era da autora ou se o problema é do adaptador. Ocasionalmente, uma ou outra frase soavam meio estranhas, mas fora isso, leitura fantástica.

Páginas: 352

Editora: Topseller

Adaptação: Joaquim E. Oliveira

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