segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O Covil dos Lobos, Juliet Marillier


Opinião: Depois do que passaram nos livros anteriores, Blackthorn tem dificuldade em esquecer: quer justiça, e os termos do acordo com Conmael deixam-na de mãos atadas, o que a frustra, por saber que Mathuin ainda anda à solta, sem enfrentar consequências.

Entretanto, a vida do dia-a-dia continua. Uma jovem de 15 anos, Cara, vem do Vale dos Lobos para socializar na casa do príncipe Oran e da sua esposa, Flidais. Cara gosta de andar pela floresta sozinha, e tem dificuldade em vocalizar o que pensa a estranhos. Blackthorn dá por si a supervisionar a rapariga, para ajudá-la, e interessa-se por ela e pela sua aparente "estranheza".

Já o Grim é contratado para ir para o Vale dos Lobos, construir uma casa singular, sob as indicações de um construtor que já não pode fazer trabalho manual. Lá, começa a notar uma série de situações estranhas, que não encaixam bem e o deixam desconfiado.

E sim, como é óbvio os dois enredos estão relacionados. Cabe a Blackthorn e Grim, mais uma vez, deslindar a verdade e ajudar a corrigir injustiças, se isso for possível.

O fio final do enredo desta história passa por Mathuin, que volta a aparecer e cometer um acto de guerra contra familiares da Flidais, o que finalmente dá destaque aos seus actos e convoca uma série de gente para investigá-los. Aparecem um grupo de homens intrigante, os homens da Ilha do Cisne, treinados na arte da guerra e da espionagem, que actuam como guarda-costas e serviços secretos ao mesmo tempo, e que se vêem na posição de poder ajudar Blackthorn.

E pronto, a este ponto julgo que não há muito que posso acrescentar a uma opinião de um livro da autora. Isto é uma escritora no seu pico, com a sua pena afinada e bem experiente: a sua escrita é cativante e detalhada, lenta mas confortável no seu ritmo, dando-nos passagens envolventes. O worldbuilding parece ser enganadoramente simples, mas é meticuloso e conciso. O enredo é algo convoluto, mas não é difícil: o conflito principal é fácil de adivinhar, mas não deixa de ser uma história encantadora por isso.

A única parte chata da história é ter a Blackthorn e o Grim separados tanto tempo - logo agora, que estão no ponto e preparados para ser um casal para além da parceria que já estabeleceram. São amorosos: passam o tempo a pensar um no outro e, especialmente no caso da Blackthorn, a pensar no que o Grim lhe traz.

E a Blackthorn é uma personagem deliciosa. Adoro como ela tem espaço para ser resmungona e amarga o quanto queira, e ainda assim ser competente, directa, determinada e geralmente uma badass. Gosto de ver que ela aceita que se arrisca a que a vida lhe traga dissabores, mas que também lhe pode trazer felicidade. É uma lição que, julgo eu, havia esquecido.

Já o Grim tem uma perspectiva curiosa na vida: de certo modo está mais bem resolvido. Sim, tem os seus pesadelos, o passado pesa-lhe, mas a maneira como ele escolhe lidar com isso tem o seu quê de simplicidade, de aceitação do que a vida lhe traz. É engraçado porque as pessoas o subestimam como um brutamontes sem inteligência ou sofisticação, o que é totalmente errado se considerarmos o seu sentido de justiça, a sua bondade, e a maneira como encara a vida.

Falta-me destacar a história da Cara e do Bardan, pode ser bastante fácil de adivinhar, mas é comovente e interessante na mesma. Há tanto das circunstâncias a colocar-se contra eles, mas conseguem clarear a situação; e gosto que a Cara tenha tomado uma decisão difícil e não se tenha acobardado.

Pontos para como a situação de Mathuin se desenrolou - pode não ter tido o destaque completamente devido, por ter de dividir a narrativa com o Vale dos Lobos -, mas o seu final é muito satisfatório, e gostei de ver o papel dos diferentes envolvidos.

E pronto, mais uma série da Juliet chega ao fim - creio que ela já está a preparar uma nova série (e pela descrição, quase que parece que é sobre os homens da Ilha do Cisne, mas veremos). Julgo que da próxima vez já lerei em inglês - eu bem tento apoiar as publicações em português de autores favoritos, mas desgosto da política de preços desta editora em particular, e não sou fã da tradutora que eles têm usado para a Juliet (não tenho queixas de maior aqui, mas o texto nem sempre me soa bem), por isso não tenho nada a justificar a compra em português. É claro que em inglês os hardcovers também são um balúrdio - mas pelo menos não tenho de esperar quase um ano para me cair no colo uma tradução menos que perfeita - a escrita da Juliet merece-o.

Título original: Den of Wolves (2016)

Páginas: 432

Editora: Planeta

Tradução: Catarina F. Almeida

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