Nota: a opinião não tem spoilers no sentido em que não menciono especificamente o que acontece no livro. Mas tem comentários sobre o comportamento dos personagens no livro (e foi difícil não mencionar eventos específicos, mas consegui), e tem previsões para o terceiro (não menciono nada específico do segundo livro, mas baseio-me nos meus comentários sobre o comportamento dos personagens para construir as minhas previsões). E peço desculpa pelo testamento, mas tenho muito a dizer sobre o livro. Só a Cassandra Clare para me pôr a escrever desta maneira.
Opinião: Cassandra Clare - a torturar leitores e fãs desde 2007. Se há coisa que esta autora sabe fazer bem, é deixar o leitor na expectativa do que vai acontecer a seguir, quase ao ponto de nos torturar com a curiosidade. As suas histórias - e especialmente a parte romântica - não deixam ninguém indiferente. Especialmente nesta trilogia dos Infernal Devices, que dividiu as pessoas com o triângulo amoroso Will-Tessa-Jem.
Sou a primeira pessoa a aborrecer-me com este artifício de escrita, quando não é bem usado, mas acho que aqui a Cassandra fez um argumento interessante a favor das duas partes (com algumas ressalvas), e apesar de alguma exasperação, acabei por me divertir mais com o livro do que esperava. Sim, as emoções e o drama estão em alta, mas acho que o livro me deu muito em que pensar, e tendo em conta o modo como a Cassandra costuma desenvolver as suas histórias, acabei por chegar a algumas conclusões sobre como o terceiro livro se pode vir a desenrolar que me agradaram. (Se as minhas previsões se vão cumprir mesmo, isso já é outro assunto.)
Sobre o triângulo: compreendo porque é que a Tessa se sentiu atraída pelo Jem. Não vi o Jem como um "competidor" a sério no primeiro livro, mas neste, pela sua disponibilidade e atitude carinhosa com a Tessa, faz sentido que ela se tenha aproximado dele - especialmente porque o Will, devido a um certo problema, faz tudo o que pode para afastar as pessoas em geral, e a Tessa em particular. O problema é, não consigo deixar de sentir que a Tessa está em certa medida a usar o Jem, por ser tão simpático e disponível, para esquecer aquilo que sente pelo Will. A sua oscilação entre os dois (e ela tem "momentos" com os dois, por isso a atracção está lá) exasperou-me um bocado, e no final há uma decisão que ela toma em relação ao Jem que me parece precipitada - e que vai dar molho, oh se vai.
O que é que isto me leva a pensar sobre o terceiro livro? (Sim, vou fazer previsões. Podem vir rir-se de mim se estiver errada. Eu própria irei gozar comigo na opinião do Clockwork Princess.) As coisas como estão não podem ficar. Há duas pessoas miseráveis com esta situação (Will e Tessa), e uma completamente a leste do que as outras sentem (Jem). Acho que a Cassandra não quer fechar assim uma história. Ela disse algures no seu Tumblr:
"...part of the idea for the books was wanting to write a very specific kind of love story. Ideally when you’re writing about people in love, you’re also writing about the nature of love, and of life, and about the things you think are important. A love story isn’t just how it ends: it’s how it progresses. If it were going to have ended differently, it would have to have progressed differently too. I think when you get to the end - the very end, end - hopefully what you’ll feel is that it couldn’t have ended any other way."
O modo como ela escreveu os primeiros três livros da saga The Mortal Instruments, e o modo como os dois primeiros desta trilogia se desenrolam, mais esta citação, faz-me pensar que há pontos de contacto entre as duas histórias, e que ambas têm uma evolução semelhante, e que ela está a tentar chegar a um certo ponto. São ideias que ainda não ficaram bem assentes na minha cabeça, as relacionadas com estas observações. Mas acho que no terceiro livro o Jem irá inevitavelmente descobrir a extensão dos sentimentos do Will pela Tessa, e acho que é muito possível que morra. O rapaz tem uma sentença de morte na forma daquela droga-veneno, por isso vai morrer muito brevemente (a não ser que a Cassandra tire um deus ex machina do chapéu).
As únicas coisas que ele pode fazer acerca disso são: tornar-se um Irmão Silencioso (não sei se funcionaria, mas talvez o salvasse da morte), ou escolher quando morre. É interessante que a Cassandra refira várias vezes o livro Um Conto de Duas Cidades (A Tale of Two Cities), de Dickens, e que o Will se pareça identificar com o personagem Sydney Carton, o degenerado e sacrificado. Acho que aqui os papéis se vão inverter, com o Jem a sacrificar-se pelo Will ou pela Tessa ou pelos dois, numa cena altamente trágica, e que o Will e a Tessa acabam por ter um final (mais ou menos) feliz. Posso estar enganada com as minhas previsões, mas a autora teria de dar muitos saltos de lógica e mudar completamente a maneira como escreve e desenvolve histórias para isso acontecer.
Pronto, chega de Will-Tessa-Jem, um assunto tão interessante que tem tanta gente por essa Internet fora obcecada com a coisa. Se puder referir a evolução pessoal de cada personagem, fiquei satisfeita e cativada por cada um. A Tessa porque é claramente uma rapariga Vitoriana, dividida entre o que parece bem e o que sente. O Jem porque se mostrou mais um bocadinho, e gosto da sua devoção ao Will. E o Will, cujo segredo é uma tragédia grega, mas explica muitas das suas acções. Não justifica, porque ele se portou mal com muita gente, mas espero vê-lo redimir-se. Vejo ali um bocadinho de crescimento naquilo que faz e diz nos capítulos finais do livro, o que me agradou.
Continuo a gostar muito da Charlotte e do Henry. Acho que o Henry é muito incompreendido, mas vejo que ele e a Charlotte tinham percepções diferentes um do outro em relação à realidade. Gostei de os ver entender-se. A Sophie é uma personagem que adorei ler neste livro, é uma jovem corajosa e pragmática, e tendo em conta a sua ligação com um certo personagem, pergunto-me se não será antepassada de outra personagem em The Mortal Instruments. A Jessamine surpreendeu-me pela negativa, não esperei que fosse tão longe. E foi interessante conhecer melhor alguns membros da família Lightwood. (EDIT: E esqueci-me do Magnus! Adoro vê-lo aqui na Londres Vitoriana, e a relação que ele tem com o Will. Muito divertida.)
O livro é muito carregado de conflito interno, no sentido em que o enredo com o vilão põe a descoberto muitas tensões entre personagens, mas também resolve muita coisa e deixa o caminho aberto para um final em grande no Clockwork Princess. Surpreendeu-me a não aparição do vilão em pessoa, mas a sua mão está em muitos dos eventos do livro, por isso não se dá pela sua falta. Quero muito ver o que ele vai fazer no terceiro livro, qual é o o seu golpe final, e estou muito curiosa para descobrir a natureza da Tessa, sobre a qual há muitas insinuações mas nenhuma revelação em concreto.
O final fecha bem a história, sem nos deixar exactamente pendurados, mas com um acontecimento final muito "interessante". Eu sabia que os membros da família Herondale eram todos doidos. Doidos, I tell you! Quero mesmo ver no que isto vai dar.
Título original: Clockwork Prince (2011)
Páginas: 368
Editora: Planeta
Tradução: Irene Daun e Lorena e Nuno Daun e Lorena











