segunda-feira, 16 de junho de 2014

City of Heavenly Fire, Cassandra Clare


Opinião: Esta foi uma leitura em parte bastante esperada e em parte algo temida. No primeiro caso porque é o fim de uma série de 6 livros que sigo há tanto tempo e com tanto apreço; no segundo porque, bem, é o fim, e porque às vezes parece que a autora gosta de nos torturar com o que acontece às personagens, e eu às tantas já estou a imaginar um cenário bem pior do que o que provavelmente se vai passar. Acho que este foi um desses casos: estava a imaginar uma coisa terrível, emocional, devastadora (ler: Clockwork Princess), e obtive uma leitura mais leve e prazerosa e descomplicada que me satisfez bastante como final da hexalogia e que deixou muitos dos meus personagens favoritos num bom lugar. (Ou num que me agradou.)

Começando pelo início - o prólogo, que serve dois propósitos. O primeiro, mostrar a consequência da criação dos Endarkened por Sebastian e demonstrar de que é que estes são realmente capazes, e como é que estão a aumentar as suas fileiras. É horrível ver que um amigo tão depressa pode tornar-se em inimigo, e ver que não há volta desse estado.

O segundo é apresentar alguns personagens do Instituto de Los Angeles que deverão ser protagonistas da próxima série da autora, The Dark Artifices. E tudo o que este prólogo e este livro conseguiram fazer foi tornar-me super-fã da família Blackthorn e da pequena Emma Carstairs. Porque estes miúdos passaram por tanto, e tiveram de aturar tanto, que só dá vontade de lhes dar um abraço enorme e distribuir chapadas a quem mais quiser fazer-lhes mal. Perderam parte da família, de várias maneiras, o que deixa o mais velho, o Julian, com 12 anos, a achar que tem de ser o pai para os 4 irmãos mais novos - e parte-se-me o coração, porque parte da separação que tiveram de suportar é culpa da Clave, uma instituição que os devia proteger.

Entretanto, Sebastian continua a perseguir e a ameaçar a Clave e Idris, só para provar que pode e até que ponto é invencível. É fascinante, perceber que é o Sebastian que permite mais algum worldbuilding e conhecer novos aspectos deste mundo, como as coisas que envolvem os Endarkened, e o novo "mundo" que é apresentado. Que, devo acrescentar, foi muito interessante de conhecer, especialmente ao perceber que de certa maneira é um espelho do mundo Shadowhunter que conhecemos. Tanto potencial...

A narrativa evolui de forma satisfatória, distribuindo bem o tempo e espaço pelos personagens e pelas várias linhas de enredo. Deu-me gozo segui-los a todos, apesar de o facto de a história estar assim tão espalhada levar a um abrandamento do ritmo do enredo, e levar a que o livro seja tão longo. Sinto que podia estar mais curto, mais ajustado, mas também não sei onde cortaria. Gostei de seguir o percurso de todos e não saberia onde eliminar coisas.

Gosto de pensar na Clary e no Jace desde o primeiro livro e em ver como evoluíram ao longo das histórias. A Clary tornou-se parte dos Shadowhunters de pleno direito, sempre pronta a lutar por tornar o seu mundo melhor; e quanto ao Jace, apesar de ser um personagem muito divertido no início, com o seu sarcasmo auto-depreciativo, prefiro-o agora, em que continuando a ter a sua personalidade arrogante, é mais ciente dos seus defeitos e inseguranças, e confidencia e confia na Clary quanto a eles. É um passo importante para crescer como pessoa, e ainda bem que o deu. Para além disso, agrada-me vê-los como um casal de iguais. Como Shadowhunter, a Clary arrisca-se quando tem de o fazer, e o Jace aceita-o sem tentar interferir na sua decisão.

Quanto à Isabelle e ao Simon... ai. *suspiro* Adoro a Isabelle e o seu jeito corajoso, despreocupado, feroz, e sei que é difícil para ela abrir-se e dar o seu coração, por isso gosto muito de vê-la com o Simon, que é totalmente diferente dela, muito pouco Shadowhunter. É por isso que me custa vê-los passar pelo que passam mais para o final da história. O Simon faz uma coisa nobre e justa, mas que tem repercussões em toda a gente, e apesar de eu ter uma ideia de como isso podia vir a ser resolvido, fiquei ainda assim desolada por vê-lo a acontecer. Quero muito ver o que vai acontecer a partir daqui.

Sobre o Alec e o Magnus... que vontade, céus, de lhes enfiar o juízo na cabeça à força toda. Passam por momentos difíceis, e acho que podemos ver que apesar de ser um personagem que não se presta a gostarmos dele, o Alec é um personagem fantasticamente multi-facetado. Passa o livro com o coração nas mãos, mas nunca lhe vemos um queixume, e é sempre o primeiro a agir, com uns reflexos óptimos. É o personagem mais conservador do grupo, e é aquele que consigo ver no futuro a tomar um lugar importante, à frente dum Instituto, ou na Clave. E apesar de tudo, ele vê que as práticas da Clave estão ultrapassadas e que só fazem asneira, por isso gostava de pensar que o Alec (e os outros também) pode vir a ajudar a mudar um bocadinho a Clave no futuro, para melhor, claro.

Ainda tenho de mencionar a Maia, que tem um percurso fabuloso. Que rapariga incrível, corajosa. Enfrenta a perda e o arrependimento, mas consegue agir para além disso e tomar as rédeas do seu cantinho do mundo, trabalhando e dando a sua contribuição para que o Mal não vença. Pensando em retrospectiva, a sua história é o tipo de história que normalmente é dada a um personagem masculino, por isso aprecio a inversão de género que a autora faz num trope tão machista.

Tenho de mencionar a Tessa, porque independentemente do que soubermos da trilogia The Infernal Devices, sabemos que ela está viva nesta altura, e devo dizer que me perguntei onde estaria ela, e se não estaria envolvida nos acontecimentos. A autora apresenta uma boa solução para a manter mais ou menos afastada, mas ainda assim a contribuir - e é uma solução que me deixou interessada em saber mais, porque acrescenta mais um pouco ao worldbuilding. Morri de felicidade só de a ver interagir com pessoas que são descendentes daqueles que ela conheceu na trilogia, e adorei saber que ela esteve mais envolvida na vida da Clary do que pensamos.

Sobre a família Blackthorn já falei, adorei conhecer esta trupe de irmãos, e tenho a certeza que me vou divertir com eles. Estou interessada no Ty, porque tem uma perturbação no espectro do autismo, e quero ver como é que a autora vai continuar a caracterizá-lo. Também estou curiosa acerca do destino da Helen e do Mark, que de certo modo foram abandonados pela Clave; e acerca da Emma Carstairs e do Julian. Acho que a decisão que eles tomaram foi precipitada, e condicionada por factores externos que não a deviam condicionar. E por isso não me admiro que esta decisão vá dar problema nos The Dark Artifices. Gostei muito da Emma, que tem um feitio giro, bem destemida e lutadora.

Sobre o Irmão Zachariah, tenho a dizer que foi muito bom ver o que finalmente acontece e lhe resolve o, er, problema dele. E é muito interessante vê-lo como um Shadowhunter de pleno direito, já que no passado haviam condicionantes para ele não o ser. E também é muito excitante vê-lo interagir com certos personagens e ver a sua nostalgia pelo passado.

Aliás, o livro está cheio de referências a livros passados, em certos momentos The Bane Chronicles, mas também, e especialmente, a trilogia The Infernal Devices, o que foi simplesmente delicioso. Especialmente pequenos detalhes, como ver a Emma lembrar que o pai falava sempre tão bem dos Herondale, e em como a família Carstairs tinha uma dívida para com eles. E, já agora, prevejo que alguns personagens hão de ir parar a Los Angeles para visitar os Blackthorn, eventualmente.

O final do livro tem vários aspectos que gostava de abordar. Um é a resolução do conflito com o Sebastian. Eu *sabia* que a Clary e o Jace andavam a tramar alguma, por isso não foi exactamente uma surpresa. (Se bem que aprecio a poker face que tiveram de fazer o tempo todo.) Mas as consequências foram-no. Temos um vislumbre daquilo que poderia ter sido, e é muito triste pensar em como as coisas realmente foram. Sem querer, o Valentine volta a ser o vilão no meio disto tudo, pois foi ele que fez com que o caminho tomado fosse este.

Sobre a Clave, estou furibunda com eles. A Clave tem boas pessoas, pessoas razoáveis e que até são bons líderes - gostei bastante da postura da Jia Penhallow, a Consul, a tentar fazer o melhor que podia, mas que tinha as mãos atadas, politicamente -, mas parece que a maioria são uns velhos do Restelo. Compreendo que uma estrutura como a da Clave leve a muita entropia e muita incompetência, contudo não lhes posso perdoar o preconceito e a incompreensão que os levou a desistir e afastar a Helen e o Mark Blackthorn.

O epílogo foi surpreendentemente emocional. Ver os personagens todos no mesmo local, a festejar, a partilhar um momento; ver as últimas pontas serem atadas e novas possibilidades a serem apresentadas. Foi uma boa leitura, um óptimo final para uma série favorita, e que me deixou com vontade de mais, e de conhecer a nova série.

Páginas: 752

Editora: Margaret K. McElderry Books (Simon & Schuster)

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