domingo, 24 de julho de 2016

Something Strange and Deadly, Susan Dennard


Opinião: Independentemente do que eu tenha achado ou do que eu venha a dizer mais para a frente deste livro, a Susan começa com um par de desvantagens. Uma, este é o primeiro livro dela, e isso é muito claro. Tem arestas por limar. Dois, ela é amiga/parceira de escrita da Sarah J. Maas, que eu adoro ler, portanto as comparações são difíceis de desligar.

Quanto ao segundo ponto, não é que as comparações a deixem mal, exactamente. Creio que a Sarah era capaz de ter mais talento natural e bruto no primeiro livro, porque o que me lembro do mesmo é que li aquilo duma ponta à outra vorazmente, enlevada, mesmo quando tinha as suas fraquezas. Neste, a escrita da Susan não é tão envolvente à primeira, o que me permite reparar mais facilmente nas suas próprias fraquezas.

O que me leva ao primeiro ponto. A Susan tem realmente algumas fraquezas aqui, mas imagino que nada que ela não possa melhorar ao longo do tempo. Às vezes o livro parecia avançar aos solavancos, creio que porque as transições entre cenas e capítulos não eram suaves, o que pode ser trabalhado. Acho que aqui posso apontar o dedo ao editor, que tinha obrigação de ajudar a aprimorar este tipo de coisa. E ela trabalha bem a maior parte das relações entre personagens, mas há uma que eu queria que ela tivesse explorado melhor. (Mais sobre isso virá mais à frente.)

Ok, passemos às coisas fixes. Este é um livro que se passa em Philadelphia, nos EUA, no fim do século XIX. O cenário é exactamente como uma cidade americana com sensibilidades vitorianas devia ser... excepto pelos zombies. Ou melhor, os mortos-vivos que se estão a levantar da campa para passear por aí.

Eleanor Fitt é a heroína e protagonista. Tudo o que ela quer é encontrar o irmão, que já deveria ter vindo para casa, mas na sua busca vê-se envolvida no plano tenebroso de alguém para trazer de volta à vida os mortos. Pelo meio, ela tenta manter a compostura de uma menina da classe média-alta que procura casamento para salvar a família em ruínas

Coisa fixe número um: o cenário e worldbuilding. Que sítio mais engraçado para os mortos saírem das campas que é o século XIX. Toda a gente parece vê-los como uma incoveniência, algo sem mérito para discutir. Que sensibilidade mais vitoriana. O sistema de "magia", como os mortos voltam, como alguém tem poderes e capacidades e interage com eles... fascinante. (Quero saber o papel da Eleanor no meio disto tudo.)

Contudo, gostava de saber mais. A falta de reacção (de pânico) das pessoas dá a sensação que a opinião pública está ciente que mortos a sair de campas é uma coisa que acontece. Mas não conhecem realmente o perigo. É quase como se fosse uma curiosidade científica bizarra.

Coisa fixe número dois: a Eleanor. Que saudável desrespeito pelas convenções. Ela bem tenta ser uma menina bem comportada, ajudar a mãe, mas quando isso se mete no meio da sua missão, lá vai a cautela às urtigas. Não hesita em fazer o que é necessário, como abordar os Spirit Hunters, para ajudar o irmão. E quando eles são pouco prestáveis, ela continua a insistir até lhes chamar a atenção. Um bando de mortos não a trava, e rapidamente está a ajudar os Spirit Hunters a distribuir porrada em zombies com sombrinhas. Muito bom.

Coisa fixe número três: os Spirit Hunters. O Joseph é adorável, um cavalheiro, muito crente nas suas capacidades e missão, por mais que não acreditem nele. A Jie é totalmente a guerreira do grupo, ela está sempre a dar porrada a mortos quando os outros estão a fazer outras coisas, é espantoso. E o Daniel é tão engraçado, resmungão, com aquelas sensibilidades de classe trabalhadora, sempre pronto a ficar ofendido com qualquer coisa que a Eleanor lhe diga.

Sobre os Spirit Hunters, tenho a dizer que há uns tempos, antes sequer de ter o livro, fui spoilada para o fim de um deles. É interessante ler sabendo essa coisa que eu sei. Torna tudo um pouco mais amargo, mas ao mesmo tempo é excitante saber como as coisas vão parar aí.

E ainda sobre o Daniel, adorei as implicações dele e da Eleanor. É mais divertido porque ele acha que ela é uma menina rica aborrecida, o que não tem nada a ver: nem ela tem dinheiro, e está mesmo a um passo de ir para a rua, quanto mais ser vápida e fútil. Eu até me ria cada vez que ele lhe chamava Empress.

No entanto, acho que a Susan podia ter espremido mais a coisa: a certo ponto, parecia que eles já estavam embeiçados um pelo outro e ainda só se tinham cruzado um par de vezes, nas quais o Daniel tinha-se portado como um urso sem maneiras. Não houve momentos mais significativos de ligação, e eu precisava disso. Precisas de me vender o peixe, Susan, para eu acreditar nestes dois como casal, e faltou ali qualquer coisinha mais no início do livro.

A parte final do livro é tremendamente excitante, graças ao enredo embalar bem na segunda parte do livro, e adorei seguir os dois pontos altos na Exibição e no cemitério. Foi das poucas vezes que vi dois clímaxes resultar numa história. Creio que já tinha adivinhado as duas maiores revelações, mas foi interessante ver a coisa desenrolar-se.

Gosto muito que esta parte final tinha consequências, a fasquia alta, que os nossos personagens não se safem assim tão facilmente. A vitória é conquistada duramente, e o final é algo agridoce e melancólico. É a promessa de mais coisas e melhores, possivelmente, mas também o reconhecimento que não há voltar atrás. Terminou com chave de ouro e deixou-me mesmo curiosa para continuar.

Páginas: 400

Editora: Harper Teen (HarperCollins)

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