sábado, 8 de outubro de 2016

Curtas BD: Batman, Batman e mais Batman

Isto já foi opinado aqui no blog, portanto não tenho muito a acrescentar. Acho que posso dizer que em segunda leitura não gosto particularmente do tom militarista e violento da coisa, porque às vezes parece que a narrativa o é só pelo propósito de o ser, e não porque isso serve a história que está a ser contada. Há também um desfasamentozito em relação a como vejo o Batman e como o autor vê o Batman.

Acho interessante a relação de dependência que ele estabelece, e como, praticamente sem pontos de apoio, o Bruce degenera; mas ao mesmo tempo, não sei se acredito que as coisas iriam parar a esse ponto. (A história esquece-se de dar destaque a uma das relações mais importantes da vida do Bruce, a com o Alfred. Acho que seria o apoio certo e suficiente para o manter minimamente ancorado.)

Reitero o destaque dado ao reaparecimento dos vilões e da sua relação simbiótica com o Batman, ao Super-Homem e o seu papel neste mundo, e ao modo como os media funcionam neste mundo. Muito adequado aos dias de hoje.

Continuo a destacar a Carrie, que sem treino e inspirada pelo que o Batman significou outrora, se mete num caminho perigoso só para poder ajudar como for possível. Podemos ter um spin-off da Carrie? E destaque novamente para a coloração. Não sabia que gostava tanto de ver trabalho com aguarela, mas vale mesmo a pena.

Primeira lição do dia. Caramba. O Batman dantes era hifenado. Como "Bat-Man". "O Bat-Man faz isto! O Bat-Man é aquilo!". Não sei porquê, está a dar-me vontade de rir.

Ok, isto é uma antologia, portanto não vou comentar todas as histórias. Mas olhando para as mais antigas, ao longo dos anos, acho interessante como reflectem um bocadinho a época em que foram escritas. Como a sua complexidade aumenta, e como reflectem o modo de escrita no momento. Como eram mais simples que hoje, e ainda assim contavam uma história satisfatória.

Dentro destas histórias "mais antigas" (vou definir o limite até aos anos 70), destaco "O Caso da Empresa Química" (por ser a primeira história de sempre), "O Furo do Século" (pela sillyness que é ter o Batman seguido por uma repórter, e por as mulheres no mundo do Batman não serem nada parvas), e "O Segredo das Sepulturas Vazias" (pelo ar de mistério, quase thriller, e pelo conceito).

Das mais recentes acabo por destacar as duas que há, "Crise de Identidade" (pelo questionar da realidade que faz, obrigando Bruce Wayne a perguntar-se se está louco), e "Gente Bonita" (pela arte do J.H. Willams III, principalmente, porque adoro o planeamento de páginas que faz; mas também pelo conceito).

Batman Noir, Brian Azzarello, Eduardo Risso
Isto é estranho e cativante ao mesmo tempo. Não é comum ver/ler um livro em preto e branco, assim tão em preto e branco. O estilo do Eduardo Risso trabalha as sombras duma forma muito interessante, e o resultado aqui é um livro escuro e com atmosfera. É quase desconcertante viver num mundo de sombras por um bocado, às vezes não sabendo como interpretar o que temos à frente.

Este livro também é a modos que uma antologia reunindo colaborações entre estes dois artistas trabalhando no Batman. A primeira história, "Cicatrizes", é muito curta, quase incompleta. Creio que a ideia era explorar o Victor Zsasz, mas não me parece que seja bem explorada. O ponto alto é a parte final.

A segunda, "Cidade Destroçada", é talvez um pouco comprida demais. Dá voltas e voltas talvez desnecessárias, e poderia talvez ter um ritmo mais rápido. Também não sou a maior fã deste tom "detective numa cidade desgraçada, perdido numa investigação cada vez mais complexa e que mostra a fundo a depravação humana, sempre perseguindo e perseguido pela femme fatale". Bem, como o descrevi talvez até fosse interessante. Mas acho um pouco cansativo este tom noir à lá Sin City (estou a pensar na narrativa do Marv especialmente). Acho que arrasta a narrativa em vez de facilitar a maneira como é contada.

Mas por outro lado, gosto da atmosfera da história. A arte é particularmente adequada a ela. As reviravoltas são bastante interessantes, especialmente a última. Acho que o Batman se perdeu um bocadinho ali no meio daquilo tudo, mas até que faz sentido, devido à sua identificação com uma das vítimas. Acho que isso o cegou para a verdade, o que é curioso de ver. Também foi essa identificação que o fez finalmente chegar à raiz das coisas.

A terceira e última história é claramente a melhor. "Noite da Vingança" perde o trocadilho que o título original tem ("Knight of Vengeance"), mas isso não impede que seja absolutamente fascinante. Postula um mundo alternativo em que o momento alterador de vidas que afectou os Wayne matou nesta versão o Bruce. Acompanhamos então Thomas Wayne, que de dia (e noite) é dono de um casino, com... o Pinguim como parceiro de negócios.

O outro lado da moeda na sua vida é preenchido, claro, pelo Batman. O que é interessante aqui é ver como uma pequena mudança no evento originador do enredo muda tanto, mas mantém tantos elementos nossos conhecidos. O Gordon tem uma vida completamente solitária, chefe de segurança de Gotham (nesta versão não há polícia em Gotham, só segurança privada). Não teve filhos.

No entanto, aparece uma Oráculo, e faz sentido que seja esta pessoa. Está posicionada pela ter o tipo de relação com o Gordon e o Thomas que a Barbara tem com o pai e o Bruce na continuidade normal. O melhor, no entanto? O Joker. Uma pequena reviravolta que dá sentido a toda a história, e à mudança no modo como a tragédia original na vida dos Waynes se deu. Brilhante. E com um fim... bem, com peso, atmosfera, carácter. Muito bom, tremendamente interessante. Só por esta história vale a pena o livro todo.

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