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terça-feira, 7 de maio de 2013

Estrada Vermelha, Estrada de Sangue, Moira Young


Opinião: É engraçado, mas parece que dois anos depois o desafio de 2011 de ler autores debutantes no género YA/MG continua a perseguir-me para me pôr a ler livros que não cheguei a ler na altura, só para me fazer sentir um pouco palerma por não os ter lido na altura... e ao mesmo feliz por entretanto ter tropeçado neles, procedido a devorá-los e seguidamente divulgado o quanto eu gostei de os ler... não sei bem onde queria chegar, a não ser que por essa razão, o Dearly, Departed e este livro estão ligados para mim. São livros muito diferentes, mas que me puseram a lê-los vorazmente, e deixaram-me após tê-los acabado numa excitação desmedida em que tive vontade de andar aí a cantar aos sete ventos as suas virtudes. Mas, calma, não vou fazer isso, acabei de ler o livro ontem, por isso já tive aí umas 36 horas para me passar a loucura temporária provocada por um livro que me tenha agradado muito, e vou então proceder à tentativa de escrita de uma opinião coerente. (Não prometo nada.)

A primeira coisa que me agradou foi o cenário e a sensação geral da história.  Por um lado a história da Saba é semelhante a uma demanda duma fantasia épica, em que o personagem sai de casa à caça de um objectivo, passando por uma série de aventuras até lá chegar. Para isto contribuem também a leve sugestão de magia ou misticismo, e a sociedade algo primitiva (se não fosse uma referência a espingardas algures, pensaria que a tecnologia actual não andaria muito longe da medieval).

Por outro lado, é uma história ancorada num futuro indistinto, com os restos da civilização tomados pela Natureza (adorei as descrições do cemitério de aviões, ou das cidades em que o que resta dos arranha-céus são as estruturas de ferro). E ainda assim, tive uma sensação de Velho Oeste em partes da história, talvez por causa das paisagens desérticas ou pelo local inclemente que é a cidade de Hopetown. Gostava tanto de saber mais sobre este mundo e o que aconteceu para levar a este estado de coisas. Tanto porque a espécie humana é resiliente, e aquilo que levou a uma diminuição da população desta maneira não pode ser bom, como porque o estado de coisas anterior parece quase envolto em lendas.

Depois, gostei muito da Saba. É refrescante ter uma personagem tão resmungona e com mau feitio como ela. Claramente ela cresceu num meio fechado (só com a família) e está pouco habituada a ter de depender de outras pessoas, ou a ter a sua ajuda. E é fascinante vê-la a evoluir ao longo da história e a aceitar que não pode fazer tudo sozinha. A relação dela com a irmã também evolui. No início ela pouco liga à Emmi, talvez por inconscientemente a culpar da morte da mãe, mas cresce um pouco neste aspecto, ao ver que a irmã é capaz de muito mais e tem mais em comum com ela do que pensa.

Não que a Emmi também não me tenha irritado no início. Os motivos da Saba para a deixar para trás eram em parte errados, mas eu também preferiria deixar uma irmã de 9 anos quietinha e segura num dado local do que levá-la comigo numa situação arriscada. E em 2 das 3 vezes em que a Emmi vai atrás da Saba, mete-se em sarilhos quase imediatamente, precisamente por não fazer o que lhe pedem.

Gosto que a Saba possa ser forte, e corajosa, e esperta, sem ser alguém excepcional, apenas mais uma pessoa que tenta fazer o melhor que pode para atingir o seu objectivo. Farta-se de fazer asneiras, e magoar pessoas, e está obcecada com encontrar o irmão, mas também é dura, e luta pelos que ama, e aprende com os erros. Aliás, gostei bastante das personagens femininas em geral, porque podem fazer e ser o que quiserem, sem que o facto de serem do sexo feminino lhes imponha restrições. Foi por isso que gostei da ideia das Falcões Livres.

Diverti-me ao ver a Saba com o Jack, potencial interesse amoroso, porque em grande parte da história eles limitam-se a resmungar e a implicar um com o outro, com o Jack sempre a tentar provocar a Saba e a Saba a tentar ignorar o que estava a começar a sentir para se focar no seu objectivo. Por outro lado, o Jack deu uns empurrõezinhos à Saba na direcção certa para deixar de ser tão resmungona, e isso também foi engraçado de ver, as coisas que ele fazia para a fazer apreciar a Emmi ou as outras pessoas que os acompanhavam. E depois de vez em quando eles tinham um momento que os aproximava, e esses eram a melhor parte da coisa. Um casal bastante giro, com potencial para crescer bastante nos próximos livros. (Se bem que o raio das sinopses dos próximos livros me fazem pensar que a autora tem um triângulo amoroso na manga... porquê??? Estávamos bem muito bem assim sem o dito cujo.)

Outra parte que me interessou foram os desafios enfrentados pela Saba e pelos seus companheiros, que contribuem para a sensação de um mundo muito diferente, ainda que o mesmo, daquele que conhecemos... o enredo nunca nos deixa esquecer isso. Desde lutas em jaulas, fugas da prisão no meio de incêndios, vermes-lagartos gigantes, plantações de droga, a um barão da droga que acha que é o Rei Sol... e, sim, todas estas coisas fazem sentido dentro da história, apesar de parecerem díspares.

A última coisa de menção é o tipo de escrita, com pendor para demonstrar a oralidade das interacções dos personagens, e a falta de instrução dos mesmos. Este é um mundo em que já praticamente ninguém sabe o que é um livro. Por isso, faz muito sentido a maneira como o livro está escrito. Li em português, e não tive dificuldades nenhumas em adaptar-me à história - o que é um tributo não só à capacidade da autora como do tradutor... finalmente uma tradução que não me deu vontade de arrancar todos os cabelos que tenho na cabeça.

E, por falar nisso, não dei por erros de revisão, o que é uma coisa ainda mais rara, e nestes dois aspectos a Presença está de parabéns. Espreitei as citações do livro no Goodreads, que estão em inglês, e achei que lendo em inglês podia levar mais um pouco a adaptar-me, mas de certeza que rapidamente embalava na coisa, há quase uma musicalidade na oralidade da escrita, se é que isto faz sentido.

Em suma... gostei. Do cenário, da ambiente evocado, da desolação. Da protagonista mal-humorada e lutadora. Do elenco de personagens secundários muito interessantes. Da aventura épica e dos obstáculos que os personagens enfrentam. De um casal às turras, com potencial explosivo. Da escrita. Da junção de uma série de coisas diferentes que só assim podiam fazer sentido juntas. De devorar as páginas para saber o que ia acontecer a seguir. De terminar a história a morrer de curiosidade para descobrir o que vai acontecer a seguir.

Título original: Blood Red Road (2011)

Páginas: 336

Editora: Presença

Tradução: Miguel Romeira