sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

A rainha manda...: North and South, Elizabeth Gaskell

O livro que a Patrícia (Chaise Longue) me escolheu para ler em Janeiro para o A rainha manda... foi North and South, de Elizabeth Gaskell. Uma leitura bastante complicada, um tudo nada turbulenta, mas relativamente satisfatória, pois já conhecia a história e gostava dela, e por isso apreciei a expansão da mesma que me permitiu.


O livro que escolhi para a Patrícia ler foi The Assassin's Curse, de Cassandra Rose Clarke, e as impressões dela sobre a leitura podem ser lidas aqui.

Margaret: doce e idealista, esta personagem apresenta, contudo, algum preconceito e orgulho, mesmo que seja pelas classes altas. Dentro das grandes heroínas dos clássicos, o que achaste desta heroína tão parecida com a nossa Lizzy?
A Margaret, muito resumidamente, é uma santa. Sim, ela começa a história cheia de preconceitos contra o lugar para onde vai viver, Milton, cidade industrial, e contra algumas pessoas, como o Thornton (doravante nomeado por Thorny, porque é isso que ele é), por este viver do comércio. Mas é um preconceito informado pela classe em que se moveu durante parte da vida, a pequena nobreza, e à medida que o tempo passa Margaret conhece Milton e as suas gentes, e atrevo-me a dizer que chegou a gostar muito deste local em que vivia, apesar de todos os problemas que lhe trouxe.

A parte da santa deve-se ao facto de a Margaret aturar muita coisa difícil ao longo da história, circunstâncias em que outras pessoas teriam quebrado completamente; e por ser bastante leal e justa, no que toca aos seus e àqueles de quem gosta, e aos seus valores e sentimentos. O que quer dizer que se mete nalgumas situações menos claras que as pessoas lhe poderiam apontar, quando as intenções dela eram as melhores.

A consciência dela também não ajuda, porque lhe dá cabo da cabeça devido a uma mentira bem-intencionada; e é claro que temos durante uma parte da narrativa a Mrs. Thornton e o Thorny a pensar que ela é uma galdéria porque estava com um homem ao fim do dia na estação dos comboios - que por acaso era irmão dela. Está bem que eles não sabiam do irmão dela, mas é assim tão extraordinário tentarem perceber se a Margaret tinha parentes masculinos? Porque até tinha, para além do Frederick, cuja história não podia ser revelada.

John: teimoso e racional, ele enerva-nos no início (e noutros momentos) mas a verdade é que acaba por se revelar uma personagem muito mais emocional do que esperaríamos. O que pensas da evolução desta personagem?
O Thorny devia levar um pontapé no traseiro por desconfiar da Margaret, e tenho dito.

Enfim. Acho que desde que conhecemos o personagem que dá para perceber que não é o bruto comerciante que a Margaret parece pensar, que é bastante inteligente e decidido, e que pelos vistos tem um coração mole, porque cai de amores pela rapariga mesmo recebendo dela indiferença e gestos que ele toma como arrogância mas que são geralmente desconhecimento. Por isso, até nisso é boa pessoa, ao não lhe levar a mal atitudes que deixariam outros ofendidos.

A evolução dele tem mais a ver com o decorrer dos acontecimentos e a mudança de percepção da Margaret sobre ele - à semelhança do que acontece com a Lizzie Bennet em Orgulho e Preconceito, em relação ao Mr. Darcy. A partilha de momentos difíceis leva-a a olhá-lo com outros olhos, e cedo a Margaret dá por ela a desejar a boa opinião dele - que é quando por ironia do destino ele vê a situação que a faz passar por galdéria, e ainda por cima a apanha numa mentira acerca dessa situação. (O timing destes dois é fabuloso.)

Uma das coisas mais interessantes sobre o Thorny é que é a imagem do self-made man: o pai deixou muitas dívidas, mas ele subiu desde a posição mais humilde até ser dono de um moinho de algodão. E mesmo na face da derrota, enfrenta-a com dignidade e sobriedade, não embarcando em delírios, o que também foi preciso coragem para fazer.

Figuras parentais: Tanto os pais de Margaret como a mãe de John acabam por se destacar na história pela sua presença marcada nas vidas dos filhos. Contudo, são completamente diferentes, algo que se nota nos respectivos filhos. Conta-me como lidaste com a sua vincada presença.
A Mrs. Thornton é uma personagem que nos torna difícil a tarefa de gostar dela. Teve uma vida complicada, e isso reflecte-se na postura espartana e rígida que assume. Mas tem um orgulho enorme no filho, por ter conseguido tanto na vida, e isso é uma atitude louvável, e posso desculpar-lhe as reacções dela que derivam disso. É por isso que acabei por gostar dela. Isso e por ser brutalmente honesta, e não fazer coisas pelas aparências ou porque fica bem. Tenho uma curiosidade gigantesca sobre como é que ela se daria com a Margaret no dia-a-dia quando ela casar com o Thorny... seria definitivamente uma situação interessante.

Os pais da Margaret são algo bastante diferente. A Margaret viveu mais de metade da vida com a tia, em Londres, sendo exposta à sociedade, e passava os Verões com os pais; só volta a viver com eles agora. A relação é necessariamente distinta. O pai, com uma crise de consciência, deixa de ser reverendo da Igreja de Inglaterra, o que força a mudança da família para Milton.

Uma mudança que gera uma modificação nos pais de Margaret. A mudança de estilo de vida, e o stress que provoca, têm um efeito neles e na sua saúde, e indirectamente na relação com a Margaret. Com a mãe, a Margaret tem uma relação mais ténue, mas muito dedicada mais para o fim. Com o pai, a Margaret tem uma relação mais próxima, um pouco marcada pela mudança, mas apoiam-se mutuamente.

A coisa curiosa nesta família é que a fragilidade dos pais de Margaret leva a que ela tome a responsabilidade por muito, que seja o pilar de força, não se permitindo momentos de fraqueza, o que não era propriamente saudável para ela, e invertia o papel entre ela e os pais - o que numa jovem com 18, 19 anos é extraordinário.

A família operária: Entre todas as personagens secundárias, a família a quem Margaret se apega acaba por sobressair, de alguma forma, entre elas. Também foram marcantes para ti?
Os Higgins foram um componente muito importante na história. Primeiro, porque introduzem uma nova perspectiva à Margaret, uma família que vive do trabalho nos moinhos de algodão, permitindo-lhe ver a indústria sobre uma nova perspecitva. Mas também são uma maneira de explorar as classes mais pobres, o tipo de vida que tinham, e a luta por melhores condições de vida e de trabalho, através das greves. E por fim, porque os Higgins permitem uma ligação inestimável entre os vários elementos da narrativa, particularmente a Margaret e o Thorny, e de certo modo essa ligação ajuda a juntá-los no final.

Apresentando como temática as mudanças sociais que a industrialização impôs na sociedade inglesa, este livro acaba por ser uma pequena grande lição sobre um dos períodos mais importantes e de algum modo, radicais, da história de Inglaterra. Pensas que foste tão bem introduzida ao tema quanto esclarecida?
Pode-se dizer que a Elizabeth Gaskell foi bastante minuciosa na apresentação do tema, e isso é de louvar, porque apresenta os dois lados da questão, os donos das fábricas, e os trabalhadores. O desenvolvimento do assunto torna-se mais rico porque é descrito por uma pessoa contemporânea; e de qualquer modo não é uma época ou faixa da sociedade muito explorada nos livros de teor histórico que tenha lido, sejam eles romance ou não, por isso posso dizer que saí da leitura mais bem informada.

A dado momento, foste apresentada a uma série de tragédias e momentos mais infelizes que alteraram o rumo da história e, consequentemente, a tua forma de lidar com ela. Qual foi a tua reacção?
Honestamente, e tenho muita pena das pessoas envolvidas, mas essa é a parte mais excitante da narrativa. É quando começam a acontecer as desgraças que a história se torna interessante, porque precipitam uma evolução da personalidade da Margaret que é fascinante de observar, e fazem emergir o carácter extraordinário dela.

Não podia deixar de perguntar: depois de nos fazerem sofrer com as suas birras, desconfianças e desventuras ao longo da história, Margaret e John conseguiram um lugar no teu coração?
Sim, conseguiram. O curioso desta história é que poderíamos chamar-lhe qualquer coisa como "Orgulho e Preconceito 2", porque as pessoas desta história - principalmente a Margaret e o John - são tão dominadas pelos dois. É o orgulho dos Thornton, mãe e filho, que condiciona a percepção deles sobre as atitudes da Margaret, por exemplo; e são os preconceitos iniciais da Margaret que a fazem menosprezar o Thorny. Foi cativante ver a evolução da relação deles à medida que se afastam do orgulho e preconceito iniciais para uma estima mútua. E também torturante e delicioso ler os capítulos finais, para perceber se eles se entendiam, e como.

Elizabeth Gaskell dá-nos um livro complexo, com muitas temáticas difíceis, e a sua escrita não foge à regra. Conta-me as tuas frustrações sobre ela.
Eu nem sei muito bem explicar as minhas frustrações com a escrita dela. Só sei que levei 10 dias para ler o livro, sem ter lido mais nada nesses dias, e que o arrastar da leitura estava a dar comigo em doida. Não é habitual eu levar tanto tempo a ler um livro, nem sequer quando o inglês é ligeiramente mais complexo por virtude de o livro ter sido escrito noutra época.

A sensação com que fiquei é que a escrita dela é muito descritiva, pouco dada a avançar com o enredo, e sei que dava frequentemente por mim a ler um parágrafo e a olhar para o ar, a sonhar acordada, porque a escrita não me cativava. É claro que isso me dificultou, e muito, o avançar da leitura, ao ponto da frustração, o que também não tornou a leitura fácil.

No entanto, sei separar as coisas e consegui deixar que isso não me afectasse o gosto que tirei da história. A minha sorte é que já a conhecia, de ver a série, e estava predisposta a gostar dela. E de certo modo, apreciei o nível de detalhe que o livro trouxe, dá certas nuances aos acontecimentos e às atitudes dos personagens, coisas que a série não permitiu explorar. E por isso, e por já ser fã da história, acabei por gostar do livro, apesar de não ter ficado fã da maneira como a Elizabeth Gaskell escreve.

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O livro que a Patrícia escolheu para eu ler no próximo A rainha manda... é:

It Happened One Autumn, Lisa Kleypas
Depois de fazer a minha querida p7 sofrer com a leitura anterior (mais uma vez mil perdões), este mês decidi-me por uma leitura mais levezinha e bem divertida. It Happened One Autumn é um dos meus livros preferidos do género, e faz parte de uma das minhas séries preferidas e tem, claro, um dos meus casais preferidos. Por isso, ofereço-te os explosivos Lillian e Marcus para te alegrar num mês tão frio.

Obrigada, e ainda bem! Preciso mesmo de descansar da leitura mais pesada que foi a deste mês... até gostei bastante da Lisa Kleypas quando a li, não sei porque é que tenho adiado a leitura dos livros seguintes da série.

Podem ver qual o livro que sugeri à Patrícia para este mês, e o porquê de o ter escolhido, aqui.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Uma imagem vale mil palavras: The Theory of Everything (2014)

Começo por mencionar que não sou propriamente fã da tradução do título em português - A Teoria de Tudo -; sei lá, tudo como tradução de everything parece tão redutor, em vez de dar ênfase à palavra parece diminui-la e ao seu conceito. Não que tenha consequência no filme ou no que se possa tirar dele, claro, mas continuo fascinada com a maneira como se dão títulos aos filmes em Portugal.

E o que tenho a dizer sobre o filme? É simples, no sentido que é uma biografia de uma figura conhecida ainda viva, e não conta com explosões ou tiros. Mas é essa a sua força: é uma história sobre a vida pessoal de um homem que deixou uma marca na ciência, humanizando-o e apresentando a sua luta para continuar o seu trabalho, apesar do corpo que lhe falhava.

O que é o mote para destacar e louvar o trabalho do Eddie Redmayne como Stephen Hawking, porque é extraordinária a transformação que vemos na tela. Consegue mostrar perfeitamente como, aos poucos, Stephen ia perdendo o controlo do próprio corpo para a doença, e caramba, mal consigo imaginar o enorme e impressionante controlo de certos movimentos finos e precisos, o trabalho corporal para demonstrar o definhar das pernas, o falhar da boca na fala... e ainda assim, conseguir transmitir as emoções, os estados de espírito em cada cena. Não é surpreendente que o seu trabalho tenha merecido nomeações a torto e a direito, e conseguido alguns prémios - o reconhecimento é totalmente merecido.

A Felicity Jones como Jane Hawking não lhe fica atrás, creio eu. Gosto bastante dela desde que a vi em Northanger Abbey, no papel da imaginativa e ingénua Catherine; este papel é um pouco mais complexo, mas a Felicity "veste-o" bastante bem, começando como a jovem e fresca Jane, determinada a casar com Stephen e fazer as coisas funcionar, evoluíndo para a mulher cansada, exausta de segurar as pontas, cada vez mais séria e desencantada.

É uma transformação interessante de se ver, porque acredito que a Jane aceitasse o que a esperava quando casou, mas os anos passam, e a tensão e preocupação constantes, a especificidade da vida familiar, são coisas que são capazes de derrotar qualquer um, e vê-se isso na maneira como a postura dela passa de solta e animada, para séria e preocupada.

No fim de contas, o casamento sucumbiu à tensão que a doença exercia sobre ambos, e o argumento faz um bom trabalho em mostrar os marcos na carreira de Stephen mas também em descrever a vida familiar com todos os seus pequenos dramas e idiossincrasias, as vitórias e derrotas, e no término do filme é possível perceber como é que tudo coalesce naquele momento.

Não há extremos no retrato que o filme faz, pois há sempre dois lados numa história, e a nuance é mais satisfatória por isso. Apesar de tudo, termina num ponto positivo, pela frase final: o casamento pode ter terminado, mas têm muito de que se orgulhar (os filhos).

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Curtas: Eleanor & Park, This Night So Dark

Eleanor & Park, Rainbow Rowell
Vai ser um comentário curto, porque esta foi uma releitura, e para a parte de babar para o livro vou colocar aqui apenas o link para a minha opinião original, que se mantém. Apenas vou dizer que é um livro que vale a pena ler e dar uma oportunidade, porque é uma história bem gira sobre o primeiro amor, e os seus altos e baixos, e a Rainbow escreve duma maneira muito realista e verdadeira.

Quanto à edição em português, posso dizer que fiquei satisfeita. Não dei com erros de revisão, e não tenho queixas de maior da tradução. (Há o uso de uma ou outra palavras que me parecem ser mais antiquadas, mas suspeito que possa ser a maneira de a tradutora transmitir que a história se passa nos anos 80? De qualquer modo, não me incomodou para além da estranheza inicial.)

Como comentário final à releitura, tenho a dizer que foi capaz de me cativar como se fosse a primeira vez. Encantei-me e sofri novamente com Eleanor e Park, indignei-me com a vida familiar da Eleanor e adorei conhecer os pais de Park. Um testamento a quanto gostei do livro e da autora.

This Night So Dark, Amie Kaufman, Meagan Spooner
Esta é uma curta história que recapta o protagonista masculino de These Broken Stars, o Tarver, e que reconta na perspectiva dele um evento aludido nesse livro, a maneira como ganhou a sua promoção militar, que curiosamente o colocou no local e momento certos para estar no centro dos acontecimentos de These Broken Stars.

O melhor da história? Tem uma grande ligação com os acontecimentos do primeiro livro da trilogia, mesmo decorrendo antes deste livro. Alguma tecnologia que vemos no planeta em que o Tarver e a Lilac se despenham está em This Night So Dark a ser estudada num laboratório a modos que secreto, num outro planeta, e o Tarver está de patrulha quando se vê envolvido num assalto que mercenários interessados nessa tecnologia fazem ao laboratório.

É fascinante ver como as pessoas envolvidas em ambos os eventos são, como direi, ah sim, mal puro. Aquilo que estão a tentar fazer, e os métodos que usam para fazê-lo, bem, são arrepiantes. Devo dizer que espero que o Tarver perceba a sorte que tem por não só lhes ter lixado os planos e sobrevivido a eles, como tem uma sorte macaca por o ter conseguido duas vezes. Não me parece que tenha acontecido com muita gente neste universo.

O outro ponto que queria destacar é o relato, bem ao estilo do primeiro livro - capítulos com narração da história principal, intercalados com um diálogo que nos mostra que o Tarver está a contar a história a alguém; neste caso a Lilac, aparentemente numa noite depois de ele ter um pesadelo com a situação. Fico tão feliz só de pensar neles os dois juntinhos, a ter uma vida em comum, especialmente depois dos eventos de These Broken Stars. Pontos bónus por as autoras terem conseguido sugerir isso tão bem em tão poucas palavras.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Curtas: Batman, Ano Um, O Longo Halloween

Batman: Ano Um, Frank Miller, David Mazzucchelli
Esta vai ser uma opinião mais ou menos curta, porque é uma releitura de um título que já li o ano passado, e creio que as minhas impressões gerais de então se aplicam à releitura. Suponho que vou mais comentar o livro enquadrado nesta colecção, e comentar os, er, valores de produção da mesma.

Gostei de apreciar a leitura deste livro seguida de O Longo Halloween, pois os criadores deste último prepararam-no como se fosse uma espécie de sequela de Ano Um, e lendo tudo de seguida as duas histórias acabaram por funcionar dessa maneira para mim, como se fosse mesmo o seguimento uma da outra: uma releitura dos primeiros anos do Batman que me cativou.

Esta colecção é produzida de modo um pouco diferente das anteriores da Levoir para os jornais Público e Sol; para já, porque o foco deixa de ser uma editora (Marvel vs. DC), sendo agora um personagem em específico (o Batman). Depois, porque a edição é igualmente robusta e satisfatória, mas algo diferente: a capa já não é coberta naquele material brilhante e avernizado ao toque, e o papel é offset, creio eu, sem brilho, em vez do papel de toque avernizado das colecções anteriores. Nada que me incomode, continuo a gostar bastante das edições e sinto-me satisfeita com a experiência de leitura.

E por fim, porque pelo material de divulgação, esta é descrita como uma "edição limitada" - suponho que quer dizer que tem uma tiragem menor -; só que a piada da coisa é que fico com a sensação que é capaz de ser uma colecção um nadinha mais popular que as anteriores. No meu local de venda habitual só recebem dois exemplares, e enquanto que isso não tem sido problema nas colecções anteriores, nesta quase ia ficando sem poder comprar no local habitual - pelo que me disseram, houve um vizinho que se adiantou a mim e pediu para reservarem, e quando cheguei à papelaria já não havia nenhum -, e a minha sorte é que a papelaria tem um local secundário de venda, onde recebem mais exemplares, e é daí que guardam o meu exemplar.

Vou fazer um destaque para o design, porque merece, já que gostei muito de ver como estão a fazer o enquadramento das páginas de rosto, das páginas do prefácio, e das folhas de guarda. As capas também me têm agradado pelo trabalho que têm tido nelas, e estou a achar piada a ver as lombadas lado a lado, a formar lentamente o símbolo da colecção e o nome Batman.

Menção ainda para os extras: não consigo ter a certeza porque não tenho comigo a edição que li anteriormente, a edição da Devir, mas pelo meu comentário anterior aqui no blogue, parte do material é possivelmente diferente, ainda que não saiba avaliar o quanto. Recordo-me de já ter visto alguns dos materiais promocionais presentes nestes extras, e as pranchas de Mazzucchelli sobre a evolução do Batman, e até alguns dos esboços; mas o meu comentário menciona comparações entre pranchas com arte final e a cores que esta edição não tem.

Acabei por gostar deste livro bastante mais do que estava à espera. Não sabia bem o que esperar, tendo em conta a sinopse e o que tinha lido de opiniões, que não me deram uma ideia clara do que tinha à frente, mas neste caso isso até foi positivo, porque me deixei envolver facilmente na história.

A premissa é a de que alguém está a matar criminosos pertencentes a famílias do crime em Gotham, e está a cometer os crimes em dias festivos. (Já agora, detesto a tradução usada nestes dois livros de holiday por feriado. Holiday tem um significado mais abrangente que isso, e neste caso a tradução até quebra a lógica interna da história, porque alguns dos dias mencionados não são de todo feriados, como o Dia dos Namorados; são dias festivos. Eu sei que soaria ridículo chamar a um assassino Festivo, mas bolas, chamar-lhe Feriado não é muito melhor.)

Enfim. O assassino começa a onda de crimes em Outubro, no Halloween, e vai cometendo um assassinato por mês, num dia festivo à sua escolha, e durante um ano vai manter as famílias do crime em conflito, tentando perceber quem é o assassino e se é um deles.

Adorei a atmosfera de mistério ao longo da história, começo a achar que este tipo de história é aquela que aprecio mais ao ler Batman, e o suspense foi muito bem mantido, fazendo-me duvidar das minhas deduções a cada passo do caminho. Confesso que adivinhei quais eram as partes envolvidas (uma percebi logo mal apareceu), mas isso foi porque suspeitei deles em diferentes partes da narrativa... porque a história fez um óptimo trabalho a fazer-me questionar as minhas suposições.

Destaque para a maneira como o personagem do Harvey Dent evolui - no Ano Um tinha-me queixado que ele não foi explorado, e O Longo Halloween compensa. Foi fascinante ver como o carácter de Harvey se mostrava mais justiceiro e menos representante da justiça à medida que a situação escalava, e como a dúvida se instalava com esses momentos... culminando com a sua transformação no Duas Caras. É quase como uma história de origem para ele, em contraponto a Ano Um ser uma história de origem do Batman e do Jim Gordon.

Contudo, a arte não fica nada atrás do argumento, e é um dos pontos altos da mesma. É engraçado, a arte de Tim Sale tem tudo para não ser a minha favorita, mas consegue fazer as coisas duma maneira que me faz gostar mesmo dela.

Desenha uma Gotham e um Batman tão sombrios e ominosos, e o planeamento de pranchas e vinhetas leva a que hajam muitas pranchas, ou duplas pranchas, com uma só vinheta, e bem, quero algumas daquelas imagens impressas em posters para pendurar. Especialmente uma em que o Batman se debruça sobre o Joker, ou outra com os vilões todos do Batman que aparecem na história.

O trabalho de cor ajuda muito, é simples (noutras ocasiões não apreciaria), mas eficaz, e absolutamente soberto nas páginas do assassinato, a preto e branco com um destaque a cor para um pormenor da cena, geralmente a lembrança que o assassino deixa para trás, a simbolizar o dia festivo em questão. (Aliás, agora que penso nisso, a presença ou não da lembrança é uma pista importante no mistério. Hmmm. Bem inteligente.)

Bem, em suma, este é um livro que está mais que recomendado. Clássico, simples sem ser simplista, capaz de manter o interesse do leitor e de apresentar os personagens sem exigir conhecimento prévio dos mesmos. Não podia pedir melhor.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Stay With Me, J. Lynn/Jennifer L. Armentrout


Opinião: Stay With Me é o terceiro livro desta série da autora Jennifer L. Armentrout (pseudónimo J. Lynn), uma série cujos livros podem ser lidos independentemente e por uma ordem qualquer, já que as respectivas histórias são autocontidas; o que têm em comum são os personagens, que se movem nos mesmos espaços e círculos, mas não é propriamente essencial ler por ordem, já que as referências de uns livros para os outros são relativamente breves.

Neste volume, seguimos a história de Calla, uma jovem que teve um passado duro, mas que evita lembrá-lo ou falar dele ao grupo de amigos, pois não é uma história bonita, nem deixou para trás grandes coisas a recordar. No entanto, o passado volta para a assombrar, obrigando-a a retornar à cidade onde cresceu. E aquilo que queria esquecer, a vida que deixou para trás, parece impor-se, não a deixando escapar assim com tanta facilidade.

Curiosamente, gostei bastante da personalidade da Calla. As tragédias passadas marcam o presente dela, pois as marcas físicas que lhe ficaram condicionam a sua interacção com as pessoas... e ao mesmo tempo, nunca a Calla age como coitadinha; mais como resignada. Ela sabe que a cicatriz que tem na cara vai fazer com que algumas pessoas pensem nela de certa maneira, e como protecção para não se envolver e magoar é muito reservada, mas nunca se queixa dos problemas que tem, tentando procurar uma maneira de os resolver.

Além disso, a falta de intimidade com outrém também se estende ao plano físico, mas não é por isso que ela deixa de ter desejos e anseios, o que é refrescante de ver. Noutro ponto, gostei de ver como voltar à cidade onde cresceu a afecta, e de certo modo liberta. Apesar de toda a dor, a Calla sentia saudades de lá estar e do que deixou para trás, e vê-la reconciliar-se com as coisas é muito satisfatório.

Parte dessa viagem tem a ver com o Jax, um pedaço de mau caminho que na verdade até é bom rapaz. Está bastante bem resolvido, tem a vida encaminhada, e toma uma posição de apoio e de protecção em relação à Calla, o que é sempre giro de ver. Também a acompanha por muitas mudanças, e é bastante carinhoso e apaixonado.

Contudo, não sou totalmente fã de algumas atitudes dele. Ele sabia no que se estava a meter com a Calla, a maturidade emocional dela não dá para tudo, especialmente quando nunca teve uma relação séria, por isso é excessivo pedir-lhe algumas atitudes à partida. Uma certa discussão que eles têm a meio da história faz perfeitamente sentido (felizmente não é daquelas discussões estúpidas entre o casal que as autoras às vezes metem na história), e o Jax até parece mais o infantil no meio daquilo, porque é idiota o suficiente para continuar a ser apanhado em situações meio comprometedoras, mas enfim.

E depois não sou fã de ele ter escondido certas e determinadas informações. Uma então, perfeitamente inócua, devia ter saído cá para fora logo no início, não havia razão para se manter no escuro - e pior, as pessoas à volta da Calla não a corrigem quando ela faz comentários baseados no não saber essa informação... é simplesmente muito estranho - apenas uma desculpa para a autora os pôr a discutir uma última vez, antes da reunião final do livro.

Também não sou fã da outra coisa que ele escondeu, porque é um pouco desconcertante saber disso, e porque não acredito que a situação se desenvolvesse dessa maneira sem a Calla estar envolvida. Toda a coisa parece como se a autora lhe quisesse dar uma pinta de "estava destinado", mas só faz o Jax parecer um bocado stalker, portanto não sou mesmo nada fã.

Tenho algumas dúvidas sobre eles como casal, pois se é óbvio que têm química e pontos de entendimento, também desenvolvem alguns "vícios" da relação - a Calla tem dificuldade em confiar, o Jax dificuldade em dizer a verdade -, e não parecem melhorar quanto a eles até ao final, que se baseia precisamente num desentendimento que envolve estes problemas que eles têm. Gostaria mais de os ter visto a ultrapassá-los.

No meio disto tudo, os personagens secundários revelaram-se boas caixinhas de surpresas, como a Katie, a stripper vidente, e a Roxy e o Nick, que prometem vir a ter uma relação... conturbada no próximo livro. E amei ver os casais dos livros anteriores aparecerem, porque as suas presenças trouxeram cenas bem divertidas, e uma percepção muito necessária para a Calla de que ninguém é perfeito, e todos temos esqueletos no armário.

Quanto ao enredo, ao "obstáculo" principal da história, acaba por ser o elo mais fraco. As ameaças e o perigo em que a Calla se vê são algo cliché e pouco desenvolvidos, é o tipo de enredo que já se viu num rol de thrillers ou mistérios, e como o objectivo da narrativa nem é esse, acaba por desenvolver menos esta sua componente. Apesar disso, gostei de alguns pontos dela, como uma determinada cena de perigo que envolve a Calla mais para o fim.

Uma boa leitura, no sentido em que permite passar um bom bocado, e diverte bastante, algo que associo a esta autora, e nesse sentido raramente me desaponta. É só o que peço, especialmente depois do último livro dela que li, Stone Cold Touch, me ter deixado um amargo na boca.

Páginas: 496

Editora: HarperCollins