quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Meg Cabot: Retrato do Meu Coração, Awaken


Título original: Portrait of My Heart (1999) / Awaken (2013)

Páginas: 400 / 352

Editora: Quinta Essência / Point (Scholastic)

Tradução: Margarida Malcato / -

O primeiro livro deste par que vou opinar é um livro do início da carreira da Meg Cabot. Os primeiros livros que ela publicou eram romances históricos sob o pseudónimo de Patricia Cabot; e entre aqueles que li, posso dizer que são produtos do seu tempo, e por isso dou-lhes o devido desconto; mas também posso dizer que ao longo do tempo têm vindo a ser cada vez mais divertidos de ler para mim.

Retrato do Meu Coração conta a história de dois protagonistas. A Maggie Herbert tem 17 anos quando o livro começa, é travessa, pouco inclinada para seguir o que a sociedade espera dela. Adora pintar e quer ser uma artista. E adora arreliar o Jeremy, duque de Rawlings (o Rosa Selvagem lida com o tio dele e a Pegeen). Já o Jeremy detesta o papel que terá de assumir, odeia a ideia de se aproximarem dele só por ser duque, e faz por ser expulso de todas as escolas e mais alguma.

Quando os dois colidem, é explosivo. O Jeremy encanta-se pela figura tão diferente que encontra na Maggie, e ela... bem, também. Uma indiscrição em que são apanhados pelo tio faz com que o Jeremy acabe a ir para a cavalaria, e a Maggie para uma escola de arte em Paris, separando-os. Cinco anos mais tarde, os dois reencontram-se, e apesar do tanto que mudou... as faíscas estão lá.

Eu acho que digo isto sempre, mas a cada romance histórico que leio da Meg, cada um é mais divertido que o outro. A sério, há partes deste livro que são hilariantes. A autora escreve com um humor fabuloso. O tom caricatural e sarcástico que dá a algumas passagens... e o humor que imprime a certos diálogos... uau.

Adoro, por exemplo, que o Jeremy queira casar com a Maggie, mas o tio replicar que não pode ser, ele não a merece; ou que a Pegeen esteja em trabalho de parto mas ainda assim a dar conselhos ao sobrinho com uma naturalidade estupenda (e o marido a correr a casa à procura dela); ou a cena final, em que o Edward apanha a Maggie e o Jerry juntos, e diz que assim não pode ser, têm de casar, e eles dizem que sim, claro que sim, com a maior das naturalidades. (Como se não tivessem sido apanhados num momento escandaloso.)

Gosto bastante da Maggie, pouco inclinada para aceitar o que a sociedade espera dela, com vontade de trilhar o seu próprio caminho. Gosto que não desista do seu sonho e na segunda parte esteja a trabalhar para viver e continuar a fazer o que adora. Gosto de vê-la e ao Jeremy juntos, pelas faíscas, pela química, pela maneira como funcionam bem juntos e porque ele desde o início que quer casar com ela, sem hesitações.

O que tenho a apontar aqui de negativo é o tipo de coisa que tenho a sensação que era mais prevalente nos romances históricos desta altura. Que é a forma como o Jeremy se comporta, demasiado excessivo em relação à Maggie, um tudo-nada demasiado não-consensual? A maneira como as cenas entre eles se desenrolam são todas da mesma maneira, ela nega, não quer, mas ele continua, e eventualmente a moça derrete-se nos braços dele, e o consentimento é assumido com esse derretimento.

Ora isto até podia ser considerado romântico, sei lá, até aos anos 90, mas hoje em dia consentimento é uma coisa muito importante num par romântico, e este tipo de comportamento já não se vê nos romances, particularmente os históricos. E as minhas sensibilidades de século XXI certamente torcem-lhe o nariz. Tolerei, porque tenho noção de quando é que o livro foi publicado originalmente, e como o resto foi demasiado divertido, isto acaba por ser apenas um buraquinho na estrada. Mas ficou notado.

Passemos ao Awaken, com muita relutância minha. Já tinha dito na opinião aos livros anteriores da trilogia que aquilo é uma confusão pegada. Oh, se é. A sério, é o enredo que não cola nem descola em dois terços do livro, avançando a passo de caracol. Depois, faz tanto sentido a evolução da narrativa como ver tinta secar. E por fim, se a Pierce e o John são supostamente românticos, é melhor eu virar freira porque não aturava as coisas que ela atura. (E de certeza que não fazia as coisas embaraçosas que ela faz. Ou pensa.)

Mas a sério. Não percebo como é que eles chegam à conclusão que o John "morreu", nem como descobrem magicamente que o Thanatos tem o John, nem como têm a inspiração divina de ir a um lugar remoto no meio duma tempestade que tem um bando de adolescentes loucos a festejar o mau tempo. Nem como têm a sorte imensa de o Thanatos estar a possuir um dos miúdos, que eles até conhecem, e surpresa! conseguem exorcizá~lo, sem o puto morrer nem nada, mas não é claro exactamente quando isso acontece.

Não percebo como é que esta gente passa o tempo todo a falar do "desequilíbrio" que faz com que as Fúrias os persigam, sem lhes ocorrer nas cabecinhas ocas que o mesmo tem a ver com terem trazido o Alex de volta no livro anterior, algo que eles na altura sabiam que estavam a fazer de errado de acordo com as "regras"! UGHHH detesto quando tenho de lidar com personagens burros e um enredo burro só porque o autor é preguiçoso demais para escrever algo mais inteligente. Alguém me mate.

Para cúmulo, o enredo está pilhado de "coincidências", coisas que acontecem só porque são convenientes, e facilitam a vida aos personagens, para garantir que acaba tudo num lindo final feliz bonitinho em que toda a gente fica emparejada e feliz para sempre. Raios, eu sou pelos finais felizes, mas por aqueles pelos quais se teve de batalhar, não pelos entregues de bandeja.

A única coisa boa disto é que finalmente os pais da Pierce conhecem o John e ficam a saber de toda a coisa sobrenatural. A reacção deles é fantástica, especialmente o pai dela, que começa logo a pensar em lucrar com os poderes do John. Ah, e o tio Chris é fantástico, adorável, um doce de pessoa, incrivelmente leal. O melhor personagem deles todos. Não merece a família que tem.

E detesto com todas as minhas forças a maneira como a Pierce e o John são um... casal. É suposto eu crer neles quando se apagam um ao outro, vivendo para o outro? A Pierce depois de se meter nesta coisa de rainha do Underworld não tem interesses próprios. Não mostra vontade de voltar à escola, ou de fazer a sua própria coisa. Fala em ter um bebé, que é a coisa mais estranha de sair da boca duma miúda de 18 anos que nem parece ter a maturidade para se virar sozinha a fazer certas coisas.

O John em momentos de perigo fala com ela do género "fica aí quietinha, não faças nada, deixa os homens trabalhar, fica ali protegida". Raios. Eu sei que é suposto ele ter nascido no século XIX... mas também passou este tempo todo a ser exposto à evolução do mundo e da sociedade. Não faz sentido ser tão retrógado.

E sei lá, não sinto nenhuma química entre eles. Não há nada que me faça acreditar neles como casal. É tudo tão mecânico, e ao mesmo tempo lamechas e totó. Não sei explicar... só sei que todo o livro, toda a trilogia, me cai mal. Não é que tenha passado um mau bocado a ler... mas também não tinha acontecido isso com o Crepúsculo. E a verdade é que não sou nem posso ficar cega aos enormes defeitos desta série. Não me voltes a fazer uma destas, Meg.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Este mês em leituras: Setembro 2016

Viva Setembro? Ou não? O nosso clima esqueceu-se que já entrámos no Outono, e que o calor já está fora de moda. Não sou fã. E de qualquer modo, a preguiça não me deixou postar quanto gostaria.

Livros lidos


Opiniões no blogue

  • Confesso, Colleen Hoover;
  • Curtas BD: Eternos, Neil Gaiman, John Romita Jr.; Pantera Negra: Quem é o Pantera Negra?, Reginald Hudlin, John Romita Jr.; Capitão América: O Escolhido, David Morrell, Mitch Breitweiser; X-Men: Perigosa, Joss Whedon, John Cassaday;
  • Illuminae, Amie Kaufman, Jay Kristoff;
  • Ghostly Echoes, William Ritter;
  • The Flame Never Dies, Rachel Vincent;
  • Encontrada, Carina Rissi;
  • Curtas BD: Fatale vol. 3: A Oeste do Inferno, Fatale vol. 4: As Lágrimas do Céu, Ed Brubaker, Sean Phillips; Tony Chu vol. 3: Enfarda Brutos, Tony Chu vol. 4: Sopa de Letras, John Layman, Rob Guillory.

Os livros que marcaram o mês

  • Illuminae, Amie Kaufman, Jay Kristoff - uma história contada de forma única que é estranhamente satisfatória, bem contada, interessante e provocadora do meu típico comportamento quando acabo um livro que me encheu particularmente as medidas: "porque é que eu não tenho a sequela nas mãos jááááá???";
  • Ghostly Echoes, William Ritter - e assim, num golpe de magia, o autor deu um novo sentido à série e ligou tudo... sinto-me como no fim daquelas séries de TV em que o episódio final é explosivo e cheio de revelações que dão um novo sentido à vida, erm, à história;
  • Empire of Storms, Sarah J. Maas - a este ponto, tenho a sensação que não poderá haver um livro dela que eu não goste... mesmo quando introduz um elemento do qual não sou fã (*resmungo* Rowan *resmungo*), não consigo evitar, a escrita dela é tipo canto de sereia para mim, eu fico encantada com tudo... neste praticamente todos os personagens evoluem duma forma fantástica, em sentidos que adorei acompanhar, o enredo voou, e eu com ele, e o final é terrível, excitante, e abre o livro final duma forma que, bem, merece um roer de unhas;
  • Awaken, Meg Cabot - marcou pela negativa... Meg, Meg, Meg, this is a mess, onde é que tinhas a cabeça??? Não era no livro/trilogia, de certeza.

Outras coisas no blogue

  • Errrr nada? The procrastination is strong in this one.

Aquisições

Ficção do mês. Os livros em inglês, para a) acompanhar o meu desafio da Meg Cabot, b) continuar a acompanhar as autoras e séries que sigo. Em português foram todos comprados com desconto em cartão. Um mix de novidades que me chamaram a atenção. (Mais o livro da Meg/Patricia Cabot, para o desafio.)

BD do mês. Comprei o Fatale e o Tony Chu, volumes 4, para poder ler mais que um de cada quando peguei nos volumes 3 de cada. E o resto são os livros das colecções que estou a fazer.

A ler brevemente

Como disse no post do mês anterior, continuo a considerar a foto desta secção desse post como uma série de ideias para ler durante o resto do ano. Para além disso, conto receber mais livros da colecção Graphic Novels Marvel, e aproveitar para ler todos, se tudo correr bem. (Isto é, se não me entregarem os livros no último dia do mês, como aconteceu com estes.)

Gostava de ler também os dois livros que comprei em português e que não li este mês; sei que vou ler dois livros para o desafio Meg Cabot, finalmente o Avalon High (adorei da primeira vez que li), e começarei a respectiva sequela de BD/manga que existe. De resto, são livros de autores/séries que estou a seguir e não posso deixar passar ao lado. Estou muito animada para lhes pegar.

sábado, 24 de setembro de 2016

Curtas BD: Fatale + Tony Chu, volumes 3 e 4

Fatale vol. 3: A Oeste do Inferno, Ed Brubaker, Sean Phillips
Fatale vol. 4: As Lágrimas do Céu, Ed Brubaker, Sean Phillips
Bem, estes volumes encheram-me as medidas. Tinha-me queixado nos volumes anteriores que, apesar de gostar muito de seguir a história e adorar o tom sobrenatural e de mistério dela, me estava a fazer comichão tanto mistério e não saber mais sobre o que está por trás do conceito.

Estes volumes deram-me precisamente o que procurava. O primeiro, o volume três da série, é uma colecção de histórias curtas sobre o conceito de Fatale. Passa-se em vários momentos da História, duas delas são com a Jo ao longo do século XX, mas duas são mais antigas (Velho Oeste no século XIX e Europa medieval).

Essencialmente o que faz é mostrar o conceito sob outras formas para além da Jo, e acho que isso já sugere algumas respostas às perguntas que os volumes anteriores punham. É como se Fatale fosse sempre (quase sempre?) uma mulher (a mesma? várias? várias reencarnações da mesma?) ao longo dos tempos, que é o foco de loucura no meio duma tempestade sobrenatural. Não é algo que se controle. É como que uma maldição. A portadora tem uma vida prolongada, se sobreviver à violência que a rodeia. E a violência vem sempre, duma forma ou doutra. Ela é como uma sereia que atrai todos em volta para a destruição.

O volume 4 volta à narração típica dos volumes 1 e 2. Acompanhamos o Nicolas no tempo presente (e em quantos sarilhos o homem está, coitado), e a Jo num passado agora muito próximo do presente. Depois de um acontecimento traumático, ela aparece à porta de casa duma banda da cena grunge nos anos 90, sem memória.

E mesmo sem memória, a sua presença influencia a atitude dos membros da banda, inspirando a voltar a compor e a gravar um vídeo, até que... tudo vai para o inferno, correndo mesmo, mesmo mal. Gostei bastante deste segmento, porque agora que já tenho algumas respostas, consigo seguir a maneira como as coisas evoluem à volta da Jo de forma mais informada.

De qualquer modo, o tom foi muito certeiro para descrever a lenta descida à loucura da banda, como primeiro tudo corre bem e depois... não corre. Desta vez os antagonistas mantiveram-se ao largo, aparecendo muito pouco, e deu para ver como costuma ser a narrativa em torno da Jo assim que se vê rodeada de pessoas. Estou mesmo curiosa para ver como tudo termina.

Tony Chu vol. 3: Enfarda Brutos, John Layman, Rob Guillory
Tony Chu vol. 4: Sopa de Letras, John Layman, Rob Guillory
Se houvesse um prémio para "livro(s) mais improvável(is) de eu ler, e ainda assim, adoro", estes ficavam com ele. A sério, a premissa é tão estranha e tontinha, algo que parece saído de uma sessão de brainstorming às três da manhã, quando toda a gente já está demasiado cansada e pedrada de sono para dizer coisa com coisa...

... e contudo, caramba, resulta. Mesmo. Os autores exploram a coisa de ângulos inusitados mas muitíssimo interessantes. E eu farto-me de rir com estes livros. As coisas são escritas com um sentido de humor brutal, que me cai mesmo bem.

O primeiro volume dos dois, o volume 3, lida com uma cabala de ricos que se junta para degustar carnes raras, e aqui não estamos só a falar de frango, mas também... de mamute. Que é recuperado através de manipulação de ADN. Depois seguimos para uma aparição do frango Poyo, que cruza novamente o caminho do Tony, e para uma emboscada ao Mason Savoy que quase corre mal. E por fim, conhecemos a família alargada do Tony.

Esta última parte foi a minha favorita. Também gosto do resto, porque os autores conseguem contar casos do Tony e do John Colby, o parceiro, que são resolvidos normalmente num único número, mas que contribuem para a narrativa principal da série.

Mas acompanhar a família Chu? SEM PREÇO. Tão fofos e disfuncionais e escritos como um encontro de família: os pequenos dramas e implicações de uns com outros. Descobrimos duas interessantes adições à família: uma que não posso mencionar porque tem mais piada descobrir quando se lê, mas que me deixa curiosa para saber como aconteceu; outra é a irmã gémea do Tony, Antonelle. Que é tão animada e bem-disposta, tão o oposto do comportamento geralmente sóbrio do Tony.

O volume 4 lida com o acontecimento final do livro anterior, o aparecimento de umas letras misteriosas e desconhecidas no céu, e como isso está a levar o planeta à loucura. Alguns dos casos que o Tony e o John investigam relacionam-se com essa loucura e com a narrativa principal da história, muitas vezes de formas inusitadas mas fascinantes.

O Tony tem de colaborar com outras pessoas ao longo do volume delas, uma delas sendo a Toni, a irmã (que também tem os seus próprios superpoderes); outras são algumas agentes da USDA, que são tão engraçadas a rivalizar com estes "palermas de agentes da FDA"; e também conhecemos gente com mais algumas capacidades - um sofívoro, que descobre conhecimento útil aos agentes da FDA ao comer, e alguém que cruza brevemente o caminho do Tony (mas vai de certeza ter importância no futuro), e que lista os ingredientes ao comer algo.

O volume termina com um cliffhanger mauzinho, preocupante mesmo; estou curiosa para ver a reacção do Tony, porque ele não brinca em serviço quando se trata da família, apesar de tudo. E porque fica implícito que esta pessoa também tem... capacidades.

Ainda tenho de mencionar duas coisas que gostei de ver nestes dois volumes. Uma é o John Colby, o parceiro do Tony, que é hilariante. A sério, as coisas que lhe saem da boca... E também foi bem giro ver a reacção dele ao Mason Savoy. Apesar de tudo, é bastante leal. O John faz-me lembrar um cão, nesse aspecto. Muito leal e super bem disposto.

Outra é ver a Amelia e o Tony juntos. Adoráveis. Ele leva-lhe flores e ela lê-lhe as críticas que faz para o jornal de comida. (A Amelia faz a pessoa saborear a comida com meras palavras. O Tony não aprecia comer porque os seus poderes o fazem ver tudo sobre aquilo que come. As críticas da Amelia são o mais próximo que tem de uma experiência gastronómica.) E quando estão juntos estão sempre a fazer olhinhos, o que é tão giro. E acho piada que a Amelia é a única que tira o ar sério e sóbrio da cara do Tony.

Ah, façamos dali três coisas que tenho de mencionar. No quarto volume temos uma menção visual a Fringe. Dois agentes com o ar da Anna Torv (a Olivia na série) e do Joshua Jackson (o Peter) estão a interrogar alguém, juntamente com alguém que pode ou não ser o John Noble (o pai do Peter) - é o único que não se parece tanto com o actor. Ah, tenho tantas saudades de Fringe.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Encontrada, Carina Rissi


Opinião: Topseller, esta capa? Não. Não, não e não. Não, não, não. Não. Por favor, como é que conseguem produzir capas perfeitamente adequadas para outros géneros, e fazem até coisas imaginativas nalgumas delas, mas depois em romances históricos parece tudo feito por um puto de 5 anos no Paint, colado com cuspo?

A sério, detesto esta moda de montagem de uma figura humana em cima duma imagem duma propriedade antiga. E joga-se para ali o texto em cima, e já está. (Não são os únicos culpados, mas pronto, agora vão levar por tabela.) Não há preocupação em fazer tudo de forma harmoniosa, em que pelo menos se faça parecer que as imagens fazem, de facto, parte umas das outras.

Continuando. Ai, Sofia, Sofia, só disparates, miúda. tsk-tsk *abana a cabeça*

Neste segundo volume da série, a Sofia (a protagonista) encontrou o seu conto de fadas com Ian Clarke. O casamento aproxima-se a passos largos, os preparativos estão em marcha... mas a Sofia só mete os pés pelas mãos, e não consegue evitar a série de desastres que se acumulam, antes e depois da cerimónia... por seu lado, o Ian também está a agir de forma um bocadinho estranha, e a Sofia morre de medo que ele se tenha arrependido.

Aiai... só tenho a dizer, as peripécias em que a Sofia se mete? Na sua maioria, hilariantes. Nesses casos a autora faz render muito bem o caso de "peixe fora de água" que ela é, e consegue criar situações em que a falta de familiaridade da Sofia com os costumes do século XIX levam a situações caricatas. A minha favorita? A do casamento, o choque que a rapariga dá ao padre ao confessar uma certa coisa, e a maneira como ela (e o Ian depois junta-se à festa) manipula o padre para continuar a cerimónia. Brilhante!

E pronto, na maioria a autora escolhe bem as situações em que a Sofia se mete em sarilhos. Ou pelo tal desconhecimento dos costumes que falei ali em cima, ou por ela não deixar de ser quem é, e se indignar com certas coisas, e tentar ser a mulher independente que era no século XXI.

Há ali momentos em que a autora exagera um bocadinho na situação, diria eu. Há uma ou outra coisa que me soaram falsas, pouco credíveis. A Sofia até pode desconhecer muita coisa do século XIX, apesar de ser uma Austenófila, mas há faux pas que ela comete que podiam ser evitados se ela tivesse um pouco mais de bom senso. (Sair de casa de calças? Oh Sofia, até eu sei que é uma péssima ideia.)

É uma falha na caracterização; não aprecio quando os autores fazem dos personagens mais tolinhos do que são ou deviam ser. No caso da Sofia, ela deveria saber pelo menos escolher as suas batalhas. Sabe que o Ian é um homem do século XIX, e não entende certas coisas. Não seria melhor lutar por aquelas que realmente a apaixonam? (Neste caso, a coisa das calças é parva. A dela querer fazer algo por si própria, essa sim, é merecedora de discutir com o Ian.)

No seguimento da Sofia ser uma tonta? Oh por amor da santa, o desentendimento deles é tão parvo. Ela interpreta que uma coisa que ele diz... à luz do século XXI. (O homem pede "um tempo", porque quer umas horas para arrefecer a cabeça.) E a Sofia entra em paranóia. Oh Sofia, esta gente não sabe o que é divórcio, boa? O próprio Ian diz vezes sem conta que está ali para ficar, e ela joga a toalha ao tapete à primeira.

Eu sei, tem a ver com as inseguranças da Sofia acerca de pertencer ali, se alguma vez o conseguirá fazer, e um reconhecimento que não é só amor e uma cabana. Mas a sério, detesto quando os autores fazem dos seus personagens tolos. Acho que é um pouco de inexperiência da Carina; acredito que mais para a frente na sua obra deixe de fazer estas falhas de caracterização.

É porque de resto, a autora até tem boas ideias na maneira como evolui o enredo. Para além dos sarilhos em que a Sofia se mete, apreciei o "mistério" das jovens que morriam misteriosamente. Foi uma ideia inteligente, usar a questão das crinolinas. E portanto denota algum conhecimento da época que me agrada.

O elenco de personagens secundários é fantástico. Alguns são caricaturas, e o objectivo é mesmo serem-no, como a tia Cassandra, impossível e uma Lady Catherine de Bourgh brasileira, ou o Dimitri mulherengo. Outros fazem parte da família no fim, e os pedacinhos de história própria que vemos para eles são deliciosos, como a Madalena, o Gomes, a Elisa ou o Lucas, até "o outro senhor Clarke", o Thomas, e a Teodora...

O final é tão giro. Um bocado dominado pelos dramas da Sofia, que passou o livro obcecada com os modos de dar à luz no século XIX, e a sonhar com cesarianas (a sério, miúda, acalma lá os cavalos, inda há muita gente a dar à luz de forma mais ou menos natural no século XXI, não é tudo cesarianas), mas muito giro. Gostei imenso da reacção de toda a gente ao acontecimento, e gostei dos saltos no tempo para vermos mais um bocadinho do felizes para sempre.

Gostei particularmente do último salto no tempo. A Sofia arranja maneira de enviar algo à Nina, a sua maior amiga do século XXI, 200 anos depois de ter vivido. E é adorável, e achei tão interessante como a autora conseguiu criar ali uma ligação através do tempo. Muito fixe.

Enfim, o livro tem as suas falhas, e a Sofia exaspera-me por vezes com a sua tendência para o drama, mas acho que acabei por me afeiçoar bastante a esta série. Foi uma boa surpresa poder ler e devorar os dois livros; não são o próximo bestseller, mas são adoráveis, fofinhos, são divertidos e proporcionam umas boas horas de leitura. É tudo o que posso pedir.

Páginas: 448

Editora: Topseller

Adaptação: Tiago Marques

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

The Flame Never Dies, Rachel Vincent


Opinião: É por isto que eu gosto da Rachel Vincent. Ela não vai descobrir a roda como escritora (quem é que o faz, hoje em dia?), mas tem uma certa inteligência e sensibilidade a escrever que faz com que nunca lhe saia um mau livro, na minha opinião.

Este é o segundo livro duma duologia, o que é altamente refrescante. Não tenho de sofrer mais um ano para saber como tudo termina. E diria que a autora fez um excelente trabalho a fechar a história, respondendo a perguntas no ar, resolvendo os conflitos principais, e dando uma espécie de final, de fecho, aos personagens.

O fim ainda assim é bastante aberto, e adorava ver o resultado do que os personagens fazem nele; mas como fim da narrativa dos dois livros, resulta mesmo bem. Tudo o que precisamos saber é que este pessoal vai ficar bem, que a humanidade vai ficar bem, e o fim inclina bastante nessa direcção. Gosto.

Este segundo volume decorre alguns meses após o fim do primeiro; os personagens foram forçados a uma mudança de cenário, e fazem tudo para sobreviver num local inóspito, escapando a patrulhas da Church, e a demónios que lhe possam saltar ao caminho.

Entretanto, a Nina, a protagonista, debate-se com um dilema muito pessoal: a irmã está grávida, com o bebé quase a nascer, e não há alma para ele. O "poço" das almas humanas foi depletado pela voracidade dos demónios, e sem uma alma, o bebé morrerá. Nina quer fazer tudo para impedir isso, ainda que possa implicar um sacrifício da sua parte.

E é por isso que eu gostei tanto da Nina ao longo destes dois livros: é uma miúda inteligente, decidida, corajosa, determinada a proteger os seus. Ela quer proteger a irmã de tudo de mau que possa acontecer, e está determinada a ir às últimas consequências para salvar o sobrinho por nascer. É um pouquinho calculista, com um bom fundo moral. O sacrifício é a primeira coisa na sua mente para resolver a situação.

A Nina apaixona-se ao longo da duologia, mas nunca deixa isso guiar as suas acções. Gosta do rapaz, é mútuo, respeitam-se, e quando há um potencial ponto de drama, as coisas são aceites de forma madura, sem o exagero que outros autores podiam introduzir. A Nina não leva séculos a aperceber-se de certas coisas só porque o enredo o pede (pontos bónus, Rachel), e cria planos bastante interessantes para resolver os dilemas da história, particularmente no fim.

Diria que os únicos sacrifícios da duologia em termos narrativos são o elenco de personagens secundários; não que sejam mal caracterizados, diria que obtemos o suficiente nesse aspecto, mas mesmo assim soube-me a pouco. Gostava mesmo de passar mais tempo com o pessoal do grupo Anathema.

A segunda parte da narrativa introduz coisas novas e excitantes; as reviravoltas não são completamente uma surpresa, mas ainda assim introduzem um novo conflito de forma apropriada; nunca soam a falsas. A reviravolta com a situação da Melanie é de partir o coração; mas gosto que seja resolvida à moda do Eli, um personagem novo: com fé de que tudo resultará pelo melhor. Às vezes, os personagens nos livros merecem um milagre.

Também gostei da introdução de Pandemonia, a cidade de demónios e vícios. Foi bastante divertido conhecer o Kastor e ver os nossos personagens lidar com ele; ainda mais importante foi o tempo em Pandemonia dar uma resposta à natureza do Finn. Isso sim, foi inesperado, mas fez tanto sentido. E a maneira como os personagens geram o caos em Pandemonia? Muito fixe.

Ai, só me custa é mesmo não saber o que resulta do final. Como disse ali em cima, é um nadinha aberto. É um aberto bom, os personagens fazem algo que potencialmente mudará o mundo. Mas como é algo que decorrerá lentamente, não seria possível incluí-lo no livro. E louvo a autora em resistir a escrever um epílogo no futuro, depois disso acontecer, mostrando como a sociedade estará mudada. Mas ao mesmo tempo, estou tão curiosa.

Diria que esta é uma boa aposta para conhecer o estilo da autora. É uma duologia, uma série curta, e as capacidades dela estão em alta, sendo um bom exemplo para descobrir do que ela é capaz: premissas únicas (distopia/pós-apocalíptico com paranormal misturado), um enredo envolvente, que não abranda, personagens cativantes e com uma caracterização boa e inteligente, momentos que dão que pensar, e uma história que não desaponta. Como disse ali em cima, a autora pode não descobrir a roda, mas enche-me bem as medidas.

Páginas: 352

Editora: Delacorte Press