quarta-feira, 10 de junho de 2015

All Played Out, Cora Carmack


Opinião: Há uma certa qualidade na escrita da Cora Carmack, e no modo como ela cria as suas histórias, da qual me parece que nunca me vou cansar. É que ela escreve num género (New Adult) pejado de dramas por vezes excessivamente pesados (não desmerecendo quem passe por tais situações, claro, mas às vezes dá a sensação que certos traumas são a regra entre gente desta idade, e tal perspectiva parece um pouco excessiva).

E no entanto, a Cora consegue sempre manter os pés no chão e escrever protagonistas com problemas reais, problemas com os quais nos podemos relacionar, problemas bastante típicos e credíveis para alguém que tenha a idade dos protagonistas, sem minimizar ou empolar este ponto, apresentando-o apenas como é.

E por isso devo dizer que gostei bastante da perspectiva da Nell. É fácil identificar-se com ela, com a sensação de que está a perder uma parte da experiência universitária, de que o fim do seu percurso académico vai fechar-lhe as portas a uma série de coisas. Portanto, gostei de a ver tentar sair da zona de conforto, experimentar coisas novas, mesmo que não a deixassem completamente confortável ao início.

Adorei ver como ela estava aberta às novas experiências, apesar de se ter fechado durante tanto tempo, e de como não se encolhia ou deixava intimidar, além de ser brutalmente honesta sobre o que lhe estava a passar pela cabeça. (É refrescante, confesso.) Além disso, não era tímida, e mesmo não tendo experiência nalgumas áreas, não deixava de avançar e aproveitar os frutos que tal situação lhe pudesse dar.

Já o Mateo, bem, é divertido, e gostei de ver um personagem tão atrevido e sem vergonha. Mas o seu problema pareceu-me menos bem desenvolvido, e por isso menos credível na maneira como o condicionava e condicionou a narrativa. Gostava de o ter visto pensar mais no seu drama pessoal, ver como ditava a sua atitude, porque teria sido mais realista depois quando ele e a Nell se zangam por causa do seu "problema". Isso e o lado dela nesse momento, que também não foi assim tão bem explorado.

O resultado é que parece que se zangam por uma razão parva, e se voltam a juntar por uma razão parva. Enfim. Nunca fui muito fã da bengala do Grande Desentendimento Entre os Protagonistas (Que na Realidade é Pequeno e Estúpido) que às vezes os romances têm como forma de esticar a narrativa. (Se bem que a forma como o Mateo se declara é totalmente adorável. E muito em linha com o formato do livro - listas de items -, o que torna a coisa mais especial.)

Em comparação, acho que a psicologia do Silas, no livro anterior, estava muito mais bem desenvolvida e era muito mais credível, ao ponto de me fazer mudar de ideias sobre ele; eu achava que o Silas era um palerma, e revelou-se e cresceu durante o seu livro. O Mateo, bem, não sei bem se cresceu. Não tenho dados que o suportem, já que o seu problema e resolução não estão tão detalhados.

Ainda vale a pena mencionar a Stella, que está a passar por um mau bocado; estou mortinha para pôr as mãos no livro dela. Vemos pelos olhos do Mateo que a situação dela não é muito clara, apesar de se poder ler nas entrelinhas, e isso é o mais trágico, a incerteza e a insegurança que toda a situação traz. Gostei de a ver fazer amizade com a Nell, puxar por ela, e de como elas se sentiram confortáveis em estar lado a lado, em silêncio, sozinhas com os seus pensamentos.

Fora isso, achei muito interessante ver como o Ryan gravita em torno dela, a morrer de preocupação, mas sem poder fazer algo de útil. Prevejo que a história deles, especialmente pelo lado da Stella, vai ser dolorosa mas poderosa de ler, e tenho todas as expectativas que a Cora saiba tratar o assunto de forma adequada. Ela tem aqui a oportunidade de fazer coisas fantásticas, e espero que aproveite.

A única coisa de que tenho pena neste processo todo é que o contrato dela não foi estendido para abarcar os novos livros da série que vai escrever. (Ou então ela decidiu não aceitar.) O que quer dizer que assim não tem nada previsto a sair por uma editora, que dá uma data mais precisa. Sabemos que o livro da Stella sairá no início de 2016 (palavras da Cora), mas bolas, gosto de saber quanto tempo tenho para sofrer até lá. E quero muito ter o livro em paperback, que sei que valerá a pena, mas com a prevista auto-publicação, imagino que vá ser um pouco mais difícil. Fico a torcer para que corra tudo bem. (E a meu contento.)

Páginas: 336

Editora: William Morrow (HarperCollins)

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